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terça-feira, 13 de setembro de 2022

O Bar - "O Etéreo"

 

O Bar - “O Etéreo”

 

O Céu começou a ficar carregado de nuvens negras e a escuridão envolveu a zona onde se situava O Etéreo. O dono daquele Bar confundiu a escuridão provocada pelo mau tempo com o cair da noite e não ligou às horas.

Quando mais tarde olhou para o relógio, os ponteiros já passavam das nove daquela sexta-feira dia treze. Foi nesse momento que o Alfredo se apercebeu de quão tarde já era, sobretudo ali naquele lugar onde a partir das oito horas já ninguém gosta de por lá andar. Aliás, os únicos seres vivos que por lá circulam depois daquela hora são o Alfredo e um ou outro animal vadio que, por acaso, se tenha aventurado por aquelas bandas. E mesmo esses demoram pouco tempo, dada a abundância de flores e de cotos de velas e a escassez de algo comestível.

O Alfredo não perdeu nem mais um segundo, arrumou o resto das sobras no frigorífico, fechou as portadas das janelas, apagou a luz e, quando se dirigia para a porta da saída, sentiu que alguma coisa tinha acabado de entrar no estabelecimento.

Ainda um pouco aturdido, por causa daquela inesperada e estranha entrada, o dono do Etéreo voltou atrás e acendeu a luz.

Apesar de explorar aquele bar há já muitos anos e, por isso, já estar também muito habituado a lidar com a morte, que é coisa que não por ali não falta, o que viu deixou-o paralisado de terror.

À sua frente não um, mas uma delegação de quatro criaturas defuntas, em estados de decomposição muito diferentes.

Embora possuído pelo terror que dele se apoderou, conseguiu reconhecer um deles, pela fotografia que tinha colocado numa vitrina uns dias antes. Era o mais novo dos seus vizinhos.

Dos outros já não se conseguia lembrar, eram ossadas e algum pó, já estavam mais velhos na morte.

«Ó meu Deus, parece que chegou a minha hora, vêm-me buscar. Nunca pensei que fosse desta maneira e tão cedo, ainda tenho tanto para dar, lá se vão os meus projectos de ampliação do bar.»

─ Não tenhas medo que não te viemos buscar, a morte não vem desta maneira, ela simplesmente acontece, mas no teu caso ainda deve faltar muito, penso eu. ─ disse o mais novo, aquele que era ainda reconhecido pelo Alfredo.

As outras criaturas fizeram que sim com os crânios, dando a sua aprovação ao que acabara de ser dito.

«Se não morri de susto, ainda devo por cá ficar muito tempo. Talvez ele tenha razão naquilo que diz, mas o melhor é ir com cuidado, com a morte nunca se sabe, vem de repente e não volta atrás.»

─ O motivo da nossa visita tem a ver com negócios ─ disse o porta-voz do grupo. ─ Queremos explorar o teu bar, a partir das dez horas da noite e, para isso, precisamos da tua autorização.

«Devo estar a sonhar, uns mortos a quererem explorar o bar, só pode ser em sonhos ou então estou a ficar maluco e a começar a ter visões, e das más, só espero é já não estar morto também.»

─ Então o que dizes à nossa proposta? É um bom negócio para ti, agora que tens uns projectos para ampliar o teu bar.

─ Como é que sabes, se eu nunca falei disso a ninguém?

  Oh, como são insondáveis os nossos desígnios! Mas deixa isso para lá, não te preocupes, porque não precisas de fazer nada, só tens de dar autorização e uma cópia da chave e é tudo limpo de impostos, nós não precisamos de nenhuma factura da renda.

«Afinal não me vêm fazer mal, pelo contrário, ainda posso lucrar com esse negócio. É chegada a hora de aliviar o medo e conversar com eles.»

─ Com que então querem explorar o meu bar, que ideia mais fora de sentido para uns mortos, mas falem, que eu sou todo de escutas. ─ disse em tom de brincadeira, mais com o intuito de desanuviar o ambiente do que de gozo.

─ Não digas isso. A ideia faz todo o sentido e, por acaso, partiu de mim, mas foi bem acolhida pela maior parte dos meus actuais conterrâneos. Havia, é certo, uma outra proposta em cima da sepultura, aproveitar-se a Capela Mortuária, mas não teve vencimento.

─ Era uma boa solução, ficavam com um bar intramuros, escusavam de vir cá para fora.

─ E quem é que nos comprava as coisas? Além disso, de vez em quando, há velórios que se prolongam por toda a noite, o que nos impedia de ir ao bar. Havia ainda um outro problema, o padre que não os merece grande confiança.

─ Como bem sabes, ou, vá lá, desconfies, a eternidade que temos pela frente nunca mais acaba e estar ali deitado para sempre, sem ter nada que fazer não ajuda a passar o tempo. Mesmo as visitas, que por vezes temos, ajudam pouco a aliviar o tédio, só elas é que falam e que se mexem, nós continuamos ali deitados. Além disso, só nos trazem palavras e flores, coisas que nos alimentam a alma, mas não corpo. Seria bem melhor que trouxessem algo de comestível e bebível, talvez, aquilo que não provámos em vida, com medo de nos fazer mal. É chegada altura de nos consolarmos. Aqui deste lado não há proibições de qualquer natureza, pois já não há nada que nos possa fazer mal. Nós os mortos também nos queremos divertir, achamos nós que a morte não é incompatível com a felicidade. ─ assim falou sabiamente o mais decomposto.

O chocalhar dos ossos da restante comitiva era um sinal concordância ao discurso e ao mesmo tempo uma manifestação de contentamento.

─ Digam-me uma coisa que me está a intrigar: como é que os mortos mais antigos, que se estão a desfazer conseguem frequentar o bar, ou o bar é só para os mais novos na morte?

─ É natural essa tua ignorância, o teu conhecimento só alcança as coisas da vida, mas da morte pouco sabes, todos têm acesso ao bar. Aqui onde nos vês a andar e a falar tem a ver com a antimatéria. Não te vou explicar porque não sou especialista nesta matéria, aliás antimatéria, e tu também não entenderias, ainda és um mortal.

─ Ah! ─ exclamou o Alfredo.

─ Vamos agora ao que te interessa. ─ disse. ─ Damos a garantia de que não nos meteremos na tua actividade e de nunca nos cruzaremos com a tua clientela. A hora de abertura do nosso bar será, como já te disse, a partir das dez horas da noite, altura em que não se vê por aqui vivalma. Talvez seja chegada a altura de começarem por aqui a andarem mortas almas.

─ E que lucro eu com esse negócio? ─ perguntou o dono do bar.

─ Pagamos-te a renda e as despesas com as compras para o nosso bar. Além disso, podemos participar nos custos de água e da energia do frigorífico, pois electricidade não gastamos, não precisamos de luz, mas isso depois será tudo contratualizado, se chegarmos a acordo sobre a exploração do bar.

─ Poderemos igualmente custear algum gasto de energia com os aparelhos de música. ─ disse um dos outros da comitiva interrompendo o promissor contratante. ─ Sim, queremos ouvir outras coisas, estamos fartos de música religiosa. Talvez uns espirituais negros. Ah! Ah! Ah! Foi uma tirada com graça, não achas?

─ Já me ia esquecendo, também queremos dar ao bar um outro nome, porque isso de se chamar Etéreo dá ares de algo sensaborão. Estamos a pensar em encontrar uma designação que mexa connosco. Ainda não acertámos com o nome, mas podes já contar com esse pormenor da alteração.

─ Porra, já não estou a gostar nada disto, vocês não podem mudar o nome do bar, ele está registado nos organismos competentes. Além disso, o que vou dizer aos meus clientes acerca da nova designação?

─ O novo nome é só para funcionar à noite, de dia continua a ser o mesmo.

─ Ah! Assim já está melhor. E quanto ao contado, pagam com quê? Os mortos não levam dinheiro nem outros bens para a cova, fica cá tudo para os vivos, que vos dão, quando dão, umas missas, se forem crentes, palavras e flores.

─ Nós aqui neste nosso novo bairro temos moeda e, por sinal, muita.

─ Têm moeda? ─ perguntou estupefacto o barman.

─ Sim! Um certo dia um rico avarento, com medo de ser roubado resolver esconder numa cova dum seu parente morto uma fortuna em moedas de ouro, diamantes e muitas outras pedras preciosas. Nunca mais foram resgatados pelo seu proprietário que, segundo as mortais informações, foi levado pelo mar e não mais deu à costa.

─ E quando acabar essa dita fortuna, pagam-me com quê?

─ Quando acabar o avaro dinheiro provavelmente já nos servirás à noite, mas não estejas preocupado, nem sonhas a quantidade de ouro e outras pedras preciosas que há no subsolo.

─ Não gostei nada dessa premonição. ─ retorquiu agastado o Alfredo.  ─ Deixemo-nos de futurismos agourentos.

─ Uma coisa eu te digo: se fecharmos o negócio deixa o pagamento por nossa conta que não te arrependerás.

A discussão das cláusulas contratuais, pelo visto, prolongaram-se por muito tempo, porque já passava e muito da meia-noite quando a porta do bar se fechou e se ouviu o ranger dos gonzos do portão do cemitério.

 

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