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quinta-feira, 28 de abril de 2022

Premonição

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O vento assobiava e atirava as folhas mortas pelos ares. Manchas vermelhas e castanhas riscavam os céus de chumbo proclamando a morte do verão. Ecos de guerra troavam ao longe em fulgurantes clarões no horizonte enquanto uma voz angelical entoava um cântico triste, perdido na distância.

A pouca distância, o descomunal templo gótico de fachadas graníticas estranhamente erguido sobre alicerces de tijolos barrentos que ameaçavam desmoronar.

Desorientado, caminhei para a igreja e olhei os meus pés descalços com cortes e feridas de muito caminhar. Calquei cada um dos degraus de pedra onde deixei ensanguentadas impressões, indicando o caminho a quem viesse a seguir.

As imensas portas estavam abertas de par em par e eu cruzei a galilé para ver o ar entre as colunatas dominado pelas folhas e pelo pó esvoaçantes que maculavam o espaço sagrado. Dos vitrais, muitos metros acima, desciam focos de brilhantes poeiras que acabavam repousando em estranhas formas sobre o soalho gasto e arrombado.

Caminhei sobre as tábuas onde sabia terem caminhado milhares de fiéis antes de mim, onde marcharam garbosos cavaleiros e reis. As capelas laterais, quer do lado da Epístola quer do lado do Evangelho estavam vazias e nuas, como se os seus ocupantes se tivessem mudado para outras paragens menos agrestes ou simplesmente estivessem cansados a sua eterna vigília. A igreja vazia e só oprimia o meu coração e fazia-me sentir a solidão e a ausência da fé. Temia que, naquele dia de eclipse, se eclipsasse também tudo aquilo em que acreditava.

Chegado ao transepto, vi os púlpitos abandonados e decadentes, cobertos de trepadeiras que desciam descontroladas para o chão, esquecidos dos tempos em que se pregava a palavra do Senhor.

No presbitério a situação não era melhor. O espaço estava cheio de informes pedaços de pedra e alvenaria produto da derrocada da orgulhosa cúpula que em tempos a cobrira. Via-se o céu de chumbo pelo enorme buraco do teto e o disco solar, que conseguia romper entre as nuvens, estava mordido na quase totalidade pela sombra da Terra, anunciando dias negros.

Também o altar estava vazio de imagens e decorações apenas a imagem do Crucificado pendia da parede como uma ameaça sobre quem se atrevesse a aproximar. À esquerda havia um trono dourado vazio. A Férula estava encostada num dos braços e a Mitra com as Ínfulas abandonada no assento. Aguardavam o dono, ou estavam esquecidas, naqueles tempos sem Deus, com a igreja em ruínas, as guerras à porta e o próprio sol ferido de morte?

Apercebi-me só então que, acima das minhas canelas feridas, tinha a bainha da batina rasgada e a sobrepeliz suja e esgaçada. Também a mozeta escarlate estava rasgada e desalinhada e o solidéu desaparecera da minha cabeça. Confuso, ajoelhei frente ao altar e rezei entre lágrimas, temendo que fosse aquele o fim dos tempos há tanto anunciado. No chão a meu lado jazia um bordão com uma tira de tecido branco amarrada onde estavam escritas as palavras: “Peregrinus requiescit”[1]. Rezei com ainda mais fervor sabendo que aqueles tempos, aqueles em que o Trono estava vazio, eram os mais perigosos. As portas dos infernos podiam abrir-se sem que o Sucessor de Pedro cá estivesse para as encerrar com as chaves que o Pescador lhe confiara.

Pedi iluminação ao Senhor e implorei a Maria que intercedesse por nós junto do Omnipotente.

Quando tornei a abrir os olhos havia diante de mim um esbelto e reluzente anjo envergando uma túnica de um branco imaculado que me mostrava um livro de couro envelhecido, e uma tira de seda vermelha que marcava uma página onde se lia a seguinte frase:

“Depois do peregrino eslavo, virá o bávaro que sonhou a paz entre a guerra do mundo, mas o seu reino será curto.”

Uma fita de seda azul marcava outra página que folheei e li:

“Depois do bávaro, virá do novo mundo a humildade e o amor do povo.”

Maravilhado com tais profecias, tentei virar outra folha e o anjo segurou-me a mão, dizendo que não podia saber mais, mas a sua voz era como muitas trombetas que me encheram de terror.

Acordei, assustado e confuso, sentado no meu lugar no conclave. Conseguira adormecer durante o discurso de um dos meus irmãos cardeais, um dos que estava mais próximo, apercebendo-se da minha falta, sorriu-me.

Estava triste, mas depois deste sonho, sentia-me cheio de confiança. Depois do medo da desorientação e da dor, com o desaparecimento do já saudoso João Paulo II, a sua falta seria colmada em breve com um novo sumo-pontífice. Olhei os resultados da primeira votação: Ratzinger… sim, tudo se encaixava, aquele que tentara negociar a paz na primeira guerra. Seria ele o próximo.

Não acabaria aí, porém, apesar de todas as profecias de desgraças e apocalipses; depois dele teremos outro Papa e depois… só o próprio Deus o sabe.


[1] Latim - O peregrino descansa





segunda-feira, 25 de abril de 2022

MAD Talks

 


Na Associação Cultural e Recreativa Esmorecense é noite de espetáculo. O convite tinha sido afixado nas montras dos estabelecimentos comerciais e fora também enviado por e-mail para os sócios que tinham caixa de correio eletrónico. O texto pretendia ser apelativo:


«Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, vamos inaugurar na nossa Associação uma série de palestras proferidas pelo nosso sócio, Sr. Miguel Alves Dantas, a que, para honrar o orador, chamaremos M.A.D. Talks, à semelhança do que se faz lá fora. A imperdível palestra desta noite tem o sugestivo título de A estranha cura dos corações empedernidos.»


Pelas 21 e 15, já a plateia do pequeno auditório estava composta. Notava-se algum nervosismo entre os sócios. Cinco minutos depois das 21 e 30, entrou em palco o presidente da agremiação. O silêncio foi quase instantâneo. Aurélio Miranda deu dois toques no microfone, para confirmar que estava ligado, e anunciou:

— Muito boa noite! Obrigado por terem vindo. É uma honra receber-vos e é muito gratificante verificar que os nossos sócios e restantes conterrâneos corresponderam ao nosso convite. Como foi anunciado, o Sr. Miguel Dantas, reconhecido autodidata da nossa terra, vai dar uma pequena palestra sobre um assunto candente da atualidade, a que se seguirá um pequeno período de perguntas. Mas não vos canso com detalhes. É ele que vocês querem ouvir; é a ele que vou já passar a palavra. O vosso aplauso para Miguel Alves Dantas!

O visado subiu as estreitas escadas laterais do palco, sob uma revoada de palmas, fez um ligeiro aceno de agradecimento e, decidido, postou-se frente ao microfone de pé. As palmas terminaram de imediato e fez-se um silêncio atento.

— Caros amigos: — começou o orador, lançando um olhar por sobre toda a plateia — todos vocês me conhecem e sabem bem do meu gosto pelo saber e da curiosidade que tenho por tudo o que não entendo. “I have a dream”, como disse o poeta. Entre esses fenómenos, atingiu-me recentemente a extraordinária adesão de toda a gente à condenação da invasão da Ucrânia e da não menos surpreendente compaixão ativa por todos os que fogem dessa guerra abjeta. Já não vou para novo e posso dizer, sem risco de mentir, que nunca tal tinha visto. Nas televisões, rádios, jornais, redes sociais era, foi, é permanente a raiva por este ataque bárbaro da Rússia contra a Ucrânia, sem razão, sem desculpa. As pessoas mostram-se verdadeiramente indignadas com a situação. Horrorizam-se com as imagens de prédios esventrados, de mortos espalhados pelas ruas, de multidões a tentar fugir daquele pesadelo. Não estávamos preparados para tanta ferocidade.

Miguel Dantas fez uma pequena pausa para respirar. O auditório mantinha-se atento, embora nada do que estava a ser dito fosse novidade.

— Ora esta veemência contra uma guerra nunca se tinha visto. Só para falar na guerra contra o Iraque, em que igualmente não havia nenhuma justificação para um ataque, também foi uma guerra injusta, feroz, canalha. As forças americanas entraram por ali adentro a disparar sobre tudo e todos, a causar mortos sem conta, a destruir infraestruturas, alvos militares e a fazer vítimas civis sem pejo. Mas, se bem me lembro, delirávamos com os bombardeamentos, admirávamos a pontaria cirúrgica e a capacidade destrutiva dos mísseis, sentíamos algum conforto pelas vitórias do invasor, achávamos muito bem destruir tudo, até que Saddam Hussein e o seu exército fossem derrotados e derrubados.

A plateia agora manifestava algum agitar de cabeças, alguns reajustes de posição nas cadeiras.

— Agora, reparem na atenção que damos aos refugiados ucranianos, à pena que sentimos por eles e à vontade de ajudar que manifestamos, até enviando ajuda através das organizações que estão a fazê-lo. Tem sido maravilhoso, enche-nos de orgulho e limpa-nos a alma. Afinal, somos gente com G grande, somos capazes de solidariedade, a Humanidade pode rever-se em nós. Mas, como foi com os refugiados do Iraque? Alguma vez se organizaram pontes aéreas para ir buscar alguns? Alguma vez pensámos receber um casal em nossa casa? Reparem na diferença. É certo que, uma vez por outra, ainda nos afligimos com as centenas dos que se metiam de qualquer maneira pelo Mediterrâneo adentro e lá naufragavam e se afogavam. Foi o máximo que atingimos. Mas nunca conseguimos ultrapassar uma certa desconfiança, como que um conflito interno de amor-repúdio.

Miguel Dantas avaliou a assistência. Aqui e ali percebia-se que alguns dos presentes não concordavam completamente com o que estava a ser dito.

— Pois foi esta aparente incoerência que me atingiu com toda a sua estranheza. O que é que mudou? São assim tão díspares os cenários de guerra que nos levam agora a agir de uma forma muito mais humanitária? Os massacres de Fallujah eram menos terríveis que os de Mariupol? Serão estes mortos e estes fugitivos mais dignos de compaixão? Ou terá sido a lenta corrosão do tempo que nos mudou? Passaram dezanove anos. Será que houve uma alteração qualitativa da Humanidade de hoje, que se tornou mais sensível e dorida com os males que vê o próximo sofrer? Amigos…

Chegara o momento de Miguel Dantas revelar o que descobrira, ou pensava que descobrira. Não era preciso estar muito atento à fisionomia do palestrante para perceber um disfarçado sorriso no seu rosto um pouco macilento.

— Amigos — repetiu — o que se alterou não foi fruto de um desenvolvimento das características altruístas da Humanidade, da evolução no sentido darwinista, nem foram as características deste conflito que determinaram esta onda de compaixão e revolta. Eu acho que encontrei a explicação para este paradoxo. Pensei, examinei, vi gráficos, li análises e cheguei à conclusão que, lógica e humanamente, não há nenhuma diferença entre estes dois conflitos armados que justifique tão grande mudança da nossa interação com eles. Então, o que a motivou? Aqui surgiu-me, óbvia e luminosa, a explicação. O que é que temos tido neste últimos anos, que não tivemos no início do século? Uma pandemia global, intensa e duradoura. É isto, é! — afirmava Dantas, acentuando a certeza com acenos da cabeça, tentando matar à nascença a descrença que via nascer aqui e ali. — Um dia viremos a conhecer toda a extensão e a profundidade desta virose que mexeu com toda a nossa genética. Então, confirmaremos que ela nos tornou mais sensíveis, acentuando os sentimentos de empatia e compaixão pelos sofredores, ao mesmo tempo que fortalece os sentimentos de indignação e ódio pelos que infligem sofrimentos. Esta teoria explica esta contradição, é lógica e, por isto, orgulho-me dela. Agora, fico à vossa disposição para as perguntas que entenderem fazer.

Logo dois braços se levantaram. Dantas apontou para um rapaz com uma barbita rala, que lhe pareceu ser quem tinha levantado o braço primeiro.

— Sr. Dantas, tenho dificuldade em concordar consigo. Parece-me que existem diferenças importantes entre os dois conflitos que referiu e que podem justificar esta diferença de atitude geral que apontou. A começar por quem promoveu cada um dos conflitos. A invasão do Iraque foi executada pelo bloco militar de que o nosso país faz parte, o que determinou que a nossa comunicação social apoiasse a narrativa do invasor. Hoje, a mesma comunicação social condena as razões do invasor, que é adverso do bloco a que pertencemos, e, desta vez, mostra e dramatiza os horrores que acontecem no território invadido. Isto faz toda a diferença, não acha?

Dantas fez um trejeito de desconforto, e avançou para o microfone.

— O que o meu amigo diz é verdade em parte, mas, para que fosse relevante, teríamos de admitir duas condições irrealistas e até ofensivas. Primeira: que os jornalistas se guiam pelo seu arbítrio pessoal, em vez de pelo seu código deontológico, ou pior, que são uma espécie de agentes do bloco político-militar ocidental. Segunda: que as pessoas seguem submissamente tudo o que a comunicação social difunde. Que amam ou odeiam o que ela determina. E que acham que o que ela não mostra não existe. Não quero acreditar nisso. Acredito que, no geral, a comunicação social mantém uma equidistância informativa entre as partes, em vez de uma adesão militante a um dos blocos, como dizem alguns. E acho que as pessoas são críticas do que veem e sabem muito bem distinguir as situações. Só que hoje, devido ao vírus da COVID-19, os nossos mecanismos de empatia estão mais sensíveis.

Ouviu-se um risinho no fundo da sala e o rapaz que tinha feito a pergunta abanava a cabeça, nada convencido, mas Dantas já apontava para outra pessoa do público, uma rapariga com um único brinco do lado direito.

— O Sr. Dantas disse, e bem, que estamos muito sensíveis aos dramas dos refugiados ucranianos, mas já pensou que pode tratar-se de uma mera consequência do nosso racismo tendencialmente endémico? Há dias ouvi alguém notar que estes refugiados são lourinhos e lavadinhos e os outros eram “farruscos”. Não acha que o racismo pode ter tido aqui um papel?

— De maneira nenhuma! — declarou Dantas com veemência. — Isso seria de uma sordidez sem nome. Então nós estaremos a condoer-nos com uns, porque são branquinhos, e borrifámo-nos para outros, como que a exorcizar o nosso grau de “farrusquice”? Não acredito nisso! Se não fosse a pandemia, também nos borrifávamos para os ucranianos. É a minha tese.

No meio do zunzum que flutuava na plateia, levantou-se o braço de uma mulher, com um colar de pérolas de fantasia.

— Sr. Dantas, no Iraque havia um ditador que mantinha o povo debaixo da pata; na Ucrânia existe um regime democrático, com um presidente eleito, atacado por um ditador. Parece-me que será mais por aqui…

— Os refugiados são todos iguais: são desgraçados a fugir da guerra e da fome; da perseguição e da morte. Tanto no Iraque como na Ucrânia, fugiam e fogem da devastação causada por uma superpotência. Recuso-me a acreditar que a maioria das pessoas trate os povos conforme os regimes que têm — sejam ditaduras ou democracias aprovadas pelas superpotências —, e que deixe de ter compaixão pelas pessoas que nasceram nos países cujo modelo político não aprovam.

O burburinho acentuava-se. Antes que o orador entrasse em pormenorizações, o presidente da coletividade resolveu dar por concluída a sessão e entrou em palco. De rosto sorridente, deu um abraço ao orador e dirigiu-se ao microfone.

— E pronto, caros associados e público em geral; encerramos assim a nossa primeira palestra. Espero que tenham gostado. Quero agradecer ao Sr. Miguel Alves Dantas a sua brilhante comunicação e cá estaremos de hoje a um mês para mais uma MAD Talks. Até lá!

O salão da associação encheu-se com as palmas de quase todos os presentes, alguns estavam até a decidir não deixar passar a próxima palestra, mas outros pareciam muito desapontados e não tencionavam voltar. Miguel Dantas mostrava-se satisfeito e já antevia o êxito da palestra do mês seguinte de título “As tocantes declarações de amor das superpotências pelas populações dos países hostis".

Joaquim Bispo

*

Imagem:

Georges de La Tour (atribuído), São Sebastião tratado por Irene, 1630.

Museu de Arte Kimbell, Fort Worth, Texas (EUA).

* * *





sexta-feira, 22 de abril de 2022

O Bilro Definitivo

 




Feito a vida, originou-se nas areias do mar. Nelas Grasler modelou os mais fabulosos castelos, torres além da terra e dos conceitos, santuários com muralhas, colunas salomônicas. Ornamentos neogóticos recriavam as catedrais de seus sonhos e delírios, e ao iniciar-se na escola os bonecos de argila concebidos em suas mãos fascinavam jovens e adultos e não raramente eram furtados. Aos sete anos cinzelava formas em ébano e gesso, aos treze em mármore, aos vinte fundia o bronze e com este e outros metais auferia o sustento de sua vida. A perfeição dos santos por ele esculpidos no ato do arrebatamento não limitava-se ao corpo e à figura humana mas também às vestes, delineadas com atenção e meticulosidade, o mesmo aplicando-se aos anjos melancólicos talhados em circunstâncias inocentes, cada fio de cabelo a exigir o contraditório esmero da obra inteira. Esculpiu animais cuja triste vivacidade amedrontava os mais reticentes, bustos de figuras heroicas em plena glória, fontes de água não menos relevantes ou virtuosas, e todavia fosse um escultor de sucesso desanimou-o as limitações da arte.

Queria, além da distinção, o sobrenatural, e ao divagar em torno desse enigma modelava esboços de futuras obras ou distraía-se com a invenção de figuras – e sem o saber pretendia conciliar suas meditações e ideias com a noção do divino. Tardou, mas anos depois, os dedos desfeitos em calos, mãos limitadas a escabrosidades, renovou-se ao esculpir gnomos. Primeiro fê-los vestidos, com tocas arrebitadas e botas descomunais, e todavia, ao avançar nesse inexplorado domínio, desnudou-os. Baixinhos e barbudos, sorriam como se conscientes de suas eróticas proporções, afinal exibiam a particularidade de um enorme órgão sexual.

Mas e por que fazê-los assim, indagaria um astro da televisão ao tê-lo em seu programa.

Pois isso, e somente isso, faltava às esculturas de Michelangelo, disse Grasler e fechou os olhos, calou-se. Enriquecera ao negociar as obras e, não só, havia uma correlação entre o sucesso e o tamanho dos falos, extensos além do exagero e do bom senso, além do bom gosto, os gnomos então acomodando-se satisfeitos e sorridentes acima dos membros, no chão enrodilhados feito cordas de navio.

Qual seria a mensagem transmitida através destas pirocas gigantescas, senhor Grasler? Pois tamanha demonstração de técnica, estética e inovação há de convir uma intenção anterior, não vinculada ao acaso.

Ah, com efeito, redarguiu Grasler, minhas obras não resultam do mero acaso ou, tampouco, da mera intenção, mas não entrarei, agora, em detalhes. Explicitarei a genealogia de meu criar num livro autobiográfico a ser lançado esta semana, Martelo Dos Deuses.

O entrevistador então enrugou a cara e inclinou-se em direção ao escultor, disse,

Senhor Grasler, tais membros não insinuariam algo extra, algo relativo a sua sexualidade, como falam os críticos?

Malgrado Grasler nada demonstrasse, estava, em seu íntimo, embasbacado. Jamais ouvira ou lera críticas com esse teor, e ao refutá-las mantinha a carranca inescrutável de sempre. Muito assusta o interesse em minha sexualidade, disse ele, e, mais ainda, o ofensivo interesse na sexualidade alguém. Não o interesse em si, esclareço, mas a forma como se busca na sexualidade um defeito.

Prosseguiu a entrevista sem outro clímax, e, ao completá-la o irritado escultor abandonou o estúdio. Entendera tudo: a eles interessava, somente, a sexualidade exposta em suas obras.

Depois de entrar em casa, desfez uma das esculturas à bengaladas e coices. Refeito e tranquilo, pôs-se a trabalhar. A madrugada enfrentou em claro, com ferramentas esculpiu a estátua que simbolizaria a próxima fase de sua carreira e, também, um segundo renascer artístico. Terminada dali a três semanas, era outro gnomo, este com um pênis de tamanho normal. Não mais os faria como antes, descomunais, e ateve-se a tal compromisso mesmo quando amargou o isolamento e o esquecimento.

Gnomos ordinários não interessam à sociedade, esclareceu o último dos marchands interessado nele. Museus recusavam as criações de Grasler, e outros patronos nem sequer o reconheciam. Incapaz de lidar com o fracasso, entregou-se à bebida, aos entorpecentes.

Nada como o excesso para nos confortar, disse ele então, horas antes de ser encontrado em um beco, nu e descabelado, roxo de frio, o cadáver agarrado ao mais bem dotado de seus gnomos.


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terça-feira, 19 de abril de 2022

Tempo-presente

 



Segunda-feira, 17 de janeiro de 2022. Devidamente anotado na memória. A data em que renasci. 7h5min, exatamente a hora em que pus o primeiro pé na rua, saindo de casa. Embaixo de chuva, rumo à Avenida Aguanambi, andava distraída, convencida de que seria um dia normal como os outros. Aliás, estava feliz e tranquila, porque a chuva me traz um alívio incomum, como se me lavasse, a água me levasse o peso; o dia de fato parece que passa mais rápido, mais leve. O grande infortúnio é que teria de trabalhar no estoque de uma grande loja, pelo segundo ano consecutivo. Levantar, para mim, era um fardo, porque, logicamente, teria de me deparar com o frenesi dos dias; pessoas sem tempo, descontando suas frustrações em mim; chefe gritando, me chamando de “lerda” para baixo; e eu tentando manter a calma, porque o salário-mínimo me mantinha em Fortaleza, e pagava os meus estudos. Na cabeça, uma seta: vou me formar em pedagogia e trabalhar com crianças, numa escola infantil. Enquanto não arranjava um emprego na área, teria de me virar assim; um mal necessário. Mãe, dona Zumira do Chagas, era a minha inspiração e preocupação. Ela morava a cerca de 180 quilômetros, na cidade de Quixadá, onde me criei. Digo por que a preocupação e a inspiração: ela, sozinha, cuidou de dez filhos, todos hoje adultos, dispostos e trabalhadores; e hoje está doente do coração, não pode fazer esforço, nem mesmo roçar, o que tanto gostava de fazer. Portanto, a minha sina era cumprir a meta para, se possível, voltar para a minha terrinha e lá montar uma escola de educação infantil. Andando e pensando nisso, e em tantas outras coisas, fui arremessada por uma moto para o outro lado da rua, quase esquina com a Avenida Aguanambi. Lembro-me de alguns detalhes – como o som da minha perna quebrando com a pancada –, mas, depois que caí na calçada, não sei mais de nada. Segundo o piloto da moto, fiquei desacordada por uns dois minutos, e tive uma convulsão. Ele estava desesperado, ainda no hospital. Pelo menos, não foi um desses canalhas que matam e fogem. Ele me socorreu. Chamou o Samu e, enquanto eu estava apagada, jogava água gelada na minha cabeça, para limpar o meu rosto e me acordar. Despertei praticamente com a zoada da ambulância. Havia uma multidão me cercando. Só Joel, o que causou o acidente, e uma senhorinha de nome Elvira, fizeram os primeiros socorros, que, segundo o médico, permitiram que eu vivesse. Felizmente, não houve nada sério com a minha cabeça, fora os cortes e as luxações. A perna, de fato, quebrou em três partes, e tive de fazer duas cirurgias corretivas, em datas diferentes. Joel cuidou de mim no tempo que pôde. Ele era entregador de comidas por aplicativo. Disse, e cumpriu o prometido: que compraria os remédios e ficaria ao meu lado, nas suas horas livres. De tanto ele ir me visitar, uma leve raiva foi se apagando. Ele me contava que, naquele dia, estava distraído pelo volume de atividades; que não havia dormido direito, e sempre me pedia desculpas, com tanta sinceridade, que eu o desculpava e dizia-lhe que não repetisse mais o pedido; que estava tudo resolvido entre a gente. Também abriu o jogo da vida, dizendo que era do interior, de Aracoiaba – que, por sorte, eu conhecia, e era o motivo de nossas conversas intermináveis, sobre o sertão; que morava só na cidade há cinco anos; e que tinha o desejo de largar essa correria. Vários pontos se afinavam. Tínhamos a mesma origem e os mesmos valores. Passei a olhá-lo com outros olhos, e aí o achei até bonitinho – um sinônimo para feio arrumado. Logo, considerei que ele era interessante; não era de se jogar fora. Quando saí do hospital, com um mês, cheia de ferros na perna, já foi com Joel sendo o meu namorado. As enfermeiras se despediam e batiam palmas; fizeram a maior festa. Lúcia, uma das que virou minha amiga, achava aquilo muito improvável e dizia ser um milagre. Para mim, era um tremendo exagero, mas ouvia de bom grado. Com mais um mês, me mudei de mala e cuia para a casinha do Joel; sim, nos juntamos. Eu precisava de cuidados e ele, de companhia. Sei que, por ironia do destino, encontrei um amor, do nada, numa situação estranha e difícil. Estamos há três anos juntos, com a promessa de um casamento formal, de papel passado, e um filho, que chegará em quatro meses. Nossa história, até hoje, serve de estímulo para as almas padecidas. Lúcia, aquela nossa amiga, ainda acredita num grande amor, mas rejeita, veementemente, um começo trágico como o meu. “Mulher, se entrega!”. E assim ficamos horas e horas rindo, esquecidas do tempo-presente.  






domingo, 17 de abril de 2022

Naquele instante, tudo fluía - conto de Carolina Vasconcelos




 Houve um tempo em que eu nadava e ali, naquele instante, tudo fluía. O passado sombrio ficava submerso e as lembranças se afogaram, eu seguia com meu corpo e minha mente leves, sem arranhões ou assaltos, com fôlego. Parecia mais fácil respirar embaixo da água do que quando eu estava na superfície.

 Queria deixar minhas memórias submersas porque embora tudo o mais tenha ficado perdido em algum lugar do tempo, em mim, tudo ainda vive.

 Meus pesadelos recorrentes, minha apneia no meio do dia, meu despertar assombrado sozinho num quarto escuro e vazio. Fora da água meu mundo é um completo vazio tumultuado por rostos desconhecidos que me sorri sem saber de onde eu vim.

 De onde eu vim?

 Não tenho raízes fincadas em lugar algum, por isso talvez me sinta tão confortável na água, no meio de um retângulo preenchido com água tratada com substâncias de aceitação. Meu mundo é acético.

 Há sim amor. Um único amor. Que tenho medo de perdê-lo. Um amor que tem cheiro, que tem garras, que me envolve e me conforta. Um amor que eu protejo dos meus medos e da minha solidão.

 Foi nesse amor que aprendi a nadar.


***







quarta-feira, 13 de abril de 2022

 

“ A sombra de um homem solta-se dele (…) e parte sozinha, percorrendo o mundo”

Salman Rushdie - Quichotte (página.128)

A sombra

Alberto Figueira sentou-se em frente do computador. Estava em teletrabalho, vai para sete meses, tantos quanto durava o rigoroso confinamento. Tempos intermináveis a olhar vigilantemente para dados e mais dados. Um cansaço que ia experimentando dia após dia.

 No princípio desses dias ainda andava à volta do quarteirão, um passeio bem alargado, que foi, com o passar dos tempos, reduzido a um caminhar, cada vez mais higiénico, até ficar virológicamente puro, quando deixou de sair.

As compras vinham por encomenda directamente dos super mercados e as refeições compradas à distância eram trazidas por estafetas. As redes sociais iam ficando, cada vez mais, à distância. Culpa da monotonia das conversas. Já ninguém sabia o que dizer e as banalidades e as boçalidades tomaram conta do espectro hertziano. As televisões começavam com surtos virais e acabavam com óbitos…

 O afastamento social já não podia incomodar mais a sua saúde mental, já muito debilitada, mas o afastamento físico começava a minar a sua saúde fisiológica. Já tinha esquecido aquela agradável sensação de sentir um corpo quente ao seu lado. Andava toda a gente a fugir de toda a gente.

Ainda pensou furar o confinamento, para poder dar uma satisfação aos desejos da carne, mas factores de vária ordem afastaram aquela intenção. O chamamento era muito forte, porém a lei e o medo venceram.

Sem poder dar um passo, por ali ficou a arrastar-se da cadeira para o sofá e deste para o solitário leito.

Assim também se iam arrastando os dias dentro de um túnel, onde a escuridão vedava a entrada até um minúsculo ponto de luz.

Embora contrariado, Alberto Figueira estava conformando com a situação e pouco mais esperava do futuro. A sua vida profissional e social ia-se fazendo entre as paredes de um apartamento, virado para um beco, que servia as traseiras de alguns restaurantes, onde as vistas batiam num sem número de contentores do lixo. Naquele beco não entrava ponta de sol e, desse mesmo mal, também sofria o apartamento e por arrasto os seus moradores. Os seus moradores, sim, sobretudo um deles, a sombra de Alberto Figueira. Desde que foi decretado o confinamento geral que ele não mais saiu e, por simpatia, também não saiu a sua sombra. Não saiu na rua, porque Alberto Figueira não mais lá pôs os pés e igualmente ela não mais saiu do corpo dele, porque o sol nunca entrava no apartamento. É verdade que havia luz artificial, mas era só de noite e de presença. Praticamente não havia sombras.

Ansiosamente ela esperava que ele desse um passo em direcção a um raio do sol, mas o tempo ia passando e a porta da rua mantinha-se fechada.

E o dia chegou. Radioso. Aos dias da chuva, seguiu-se o dia 24 de Janeiro sem nuvens e com sol.

Amante da lei e cumpridor dos seus deveres, não podia deixar de ir votar nas eleições para a Presidência da República.

A meio da manhã saiu de casa. A sombra destacava-se claramente no chão à sua frente. Na fila da votação, debaixo dum sol brilhante, esperou a sua vez de ser chamado para poder entrar na câmara de voto.

De repente, num acto, cientificamente inexplicável, a sombra “solta-se dele (…) e parte sozinha…”

É a fotocópia do original, no que toca ao aspecto físico, mas é igual ao original no que se refere à vertente intelectual, os mesmos conhecimentos, ou seja, o mesmo interior, até então.

Marcada a cruz no boletim de voto, o homem voltou, sem a sua sombra, para casa e por ali iria ficar até ao fim do confinamento.

Não confinada e em liberdade andava a sua sombra. Para ela bastaram todos aqueles meses, não queria ser mais uma prisioneira dentro de um corpo conformado com a situação.

É verdade que um confinamento é isso mesmo, é não andar por aí à toa, é ficar em casa, mas ele bem podia ter dado alguns passeios, fazê-la sair também um pouco.

Sentindo-se sem grilhetas andava eufórica. O resto do dia foi passado a correr e a saltar de um lado para o outro. Entrava pelas locais de escrutínio e espreitava os votos dos eleitores. Aproveitava o abrir das portas dos carros e esgueirava-se para dentro deles e lá ia para outro lugar. Tanto andou, tanto andou que começou a ficar cansada. Aproveitou estar ali um banco ao sol e deitou-se nele a pensar no seu futuro.

Enquanto acontecia a sesta, Alberto Figueira estava sentado no sofá e sentia-se esquisito. Faltava-lhe qualquer coisa, sentia-se amputado, diminuído no seu ser, não conseguia atinar com o mal. Já tinha tirado a febre e o termómetro marcava 36,5º, não tinha tosse, nem arrepios de frio, não tinha sintomas de Covid 19. Mas que estava estranho, estava.

Soou o toque da campainha e ele levantou-se para ir buscar o jantar que vinha do restaurante contratado para lhe servir o jantar. Ligou a televisão que debitava números, percentagens projecções à boca das urnas e comentários. Deixou-os a falar sozinhos e foi-se embora para a cozinha. Já o jantar ia a meio quando viu uma sombra projectada na porta, como se estivesse a observá-lo de fora de si.

A sombra, depois da sesta, apanhou um autocarro que se dirigia para a zona da sua residência.

Alberto Figueira assustou-se ao ver ali uma sombra e pensou que estaria alguém atrás da porta.

 

─ Quem está aí? – perguntou, fazendo subir o tom de voz, enquanto se munia de uma faca, para se defender do eventual intruso

─ Calma, não tenhas medo, sou a tua sombra.

─ A minha sombra? A falar? Aí plantada de pé, quando eu estou sentado à mesa? Como é que é possível? A física não é uma batata, é uma ciência e cientificamente o que estás a dizer é um erro.

─ Erro ou não, não te sei dizer. Explicar como é que aconteceu, também não. Só sei que sou a tua sombra e que ando sem ti. Autonomizei-me e não preciso de ti para viver. Ganhei vida própria. Faço o que quero, ando por onde quero. Digo-te mais, a culpa foi tua, porque me abandonaste.

─ Abandonei-te?

─ Sim, vai para meses que te enterraste neste refúgio e nunca mais saíste à rua.

Alberto Figueira que já se tinha levantado para espreitar por detrás da porta, à procura de alguém, estava atónito, confuso e muito baralhado.

─ Então se ganhaste esse dom e és uma sombra livre, o que estás aqui a fazer?

─ Vim de visita, afinal foste o meu criador, não quero ser um ingrato.

─ Obrigado pela consideração, valha-nos ao menos isso.

Depois de uma conversa, tu cá ele lá, a criatura despediu-se do criador e foi à vida, mas deixando a promessa de vir, de vez em quando, visitá-lo.

A sombra viajou por todo o lado, percorreu ruas e vielas, subiu e desceu escadas, entrou em lojas, cinemas e apartamentos. Viu tudo o que podia ver, sem restrições e sem preconceitos. Conheceu novos mundos, muitos povos e outras tantas culturas. Passou despercebida quando quis e mostrou-se quando para isso achou conveniente. Brincou às escondidas e divertiu-se com as partidas que ia pregando, por aqui e por acolá. Atemorizou os mais sugestionados com as coisas do além e levou gente a acreditar que tinha poderes visionários. Foi noticiada nos jornais e teve honras de abertura nos telejornais, que passaram a sua imagem, tirada por um telemóvel. Nesse vídeo, via-se a sombra de um homem a entrar numa janela situada num oitavo andar.

Atrás dos dias vieram outros dias e os tempos da normalidade chegaram finalmente. Pelas ruas da cidade via-se um homem despojado da sua sombra, um ser incompleto que era olhado como se do Demo se tratasse e pelas ruas do mundo via-se uma sombra de um homem, sem homem… Uma alma penada.

 





sábado, 9 de abril de 2022

Cheiro

 


Com um suspiro de cansaço, Maria de Fátima deixou-se cair no seu cadeirão habitual. Ainda mal iniciara as arrumações que andava a adiar há anos e já se sentia totalmente exausta. Mas desta vez tinha mesmo de ser. Apesar de ter cedido a casa à sobrinha com móveis, louças e tudo o mais, havia coisas pessoais que tinha de organizar, deitando fora tudo o que não quisesse levar consigo para a casinha onde passaria a viver, bem mais adequada à sua idade e crescente falta de forças.

Passara pois a manhã numa azáfama, a separar roupas, algumas que já nem recordava ter comprado e muito menos usado, a escolher alguns objetos a que estava mais apegada, enfim, a tentar organizar tudo o que se fora acumulando ao longo da sua vida, sobretudo nos últimos anos.

Sentindo-se sem coragem para continuar a andar de um lado para o outro, decidira passar a outra tarefa igualmente necessária, passar revista a duas caixas cheias de papeladas e álbuns que trouxera quando a mãe morrera e que nunca tivera tempo e disposição para organizar.

Como suspeitava, muito do que continham não tinha o menor interesse ou pelo menos o suficiente para encher espaço na sua casinha. A primeira caixa foi despachada em menos de nada, mas a segunda continha um enorme álbum de fotografias que deixou deliberadamente para o fim, apesar de saber muito bem que iria ficar com ele.

E foi já com a segunda caixa despachada e uma boa chávena de chá bem quentinho que finalmente o abriu.

As primeiras fotos eram as mais antigas e difíceis de ver. Mas pelas legendas, cuidadosamente escritas pela mãe na sua “letra artística”, ficou a saber que representavam bisavós e outros parentes distantes, quase todos mortos ainda antes dela nascer.

Apesar do seu mau estado, eram de certo modo a história da sua família e, como tal, continuariam onde estavam.

À medida que ia virando as folhas, a qualidade das fotos melhorava e via agora parentes que conhecera ou de que pelo menos ouvira falar, demorando-se pois mais em cada uma, a recordar histórias e circunstâncias.

O álbum tinha um cheiro ténue bastante peculiar, talvez porque a caixa onde fora guardado durante tantos anos tivera inicialmente um produto contra traças, há muito desaparecido, claro está. Não era desagradável, mas irritava-a um pouco não o conseguir identificar.

Com o virar das folhas esse cheiro intensificava-se um pouco, mas não o suficiente para poder dizer o que era.

Começou finalmente a ver fotos suas, sozinha ou com os pais e outros familiares. Parava agora durante mais tempo em cada uma, acariciando-as até com a ponta dos dedos como se reencontrasse uma velha amiga. Até que às tantas, ao virar mais uma folha, em que uma das páginas estava totalmente ocupada por uma única foto, o tal cheiro a atingiu com mais intensidade, deixando-a à beira de uma revelação.

Mas não, o que quer que fosse desvanecera-se antes de poder dizer o que era, mas tinha a nítida impressão de que era algo importante. Fechou então os olhos e respirou fundo, como sempre fazia quando queria recordar algo que lhe fugia.

Naftalina! Um cheiro forte a naftalina num local escuro, vozes exaltadas, uma dor numa perna... E a cena surgiu-lhe tão viva como se tivesse sido na véspera e não há uns bons 60 anos.

Tinha 3 ou 4 anos e adorava esconder-se no enorme guarda-fatos do corredor onde guardavam a roupa não usada nessa estação. Devia ser verão, recordava-se do casaco de peles da mãe junto à cara e de tentar acomodar-se melhor sobre o calçado duro, sobretudo umas botas que pareciam querer furar-lhe a perna direita a que a tinham deixado magoada durante o resto do dia. Mas fazia parte do jogo que inventara, esconder-se até andarem à sua procura ou, no mínimo, até não aguentar mais.

Já ali estava há um bom bocado e preparava-se para desistir quando lhe chegou aos ouvidos a voz da mãe. Nem sabia que estava no quarto, ali ao lado, mesmo assim era estranho conseguir ouvi-la, a mãe usava sempre um tom suave, nunca a tinha ouvido erguer a voz.

Mas desta vez estava quase a gritar, de tal modo que a conseguia ouvir apesar da porta do quarto e a do armário estarem fechadas.

Sentiu medo, o medo instintivo de uma criança ao detetar algo estranho no seu universo. E encolheu-se ainda mais, receando, sem bem saber porquê, ser a causa da zanga da mãe.

Lembrava-se perfeitamente de algumas das frases que ouvira, embora na altura não lhes entendesse o sentido. Duas delas, sobretudo, surgiram-lhe tão nítidas como se as estivesse a ouvir agora.

- Sim, sei que é tua, mas não me podes exigir que estrague a minha vida e a dela para ir contigo. E muito provavelmente nem poderia ficar com ela, sabes bem como ele é, Tiago.

Falava então com o tio Tiago, bom, não era um tio a sério, era só um amigo do pai que os visitava muito e a quem decidira chamar tio por não ter nenhum, ao contrário dos seus amigos.

Não pensava nele há anos, desaparecera quando ainda era muito pequena, tendo recebido na altura uma vaga explicação de que fora para outro país. Esquecera-o, como esquecem as crianças, até ver aquela foto um pouco desbotada de um homem de cara simpática, apesar do ar demasiado sério e do nariz muito adunco.

Instintivamente, levou a mão ao seu, sempre lhe desagradara por ser o único na família, mas via agora claramente que o herdara do seu verdadeiro pai.

Luísa Lopes





domingo, 3 de abril de 2022

DEPOIMENTO

(com subsídios de Marcelo Serodre)

Curiosamente para mim o amor sempre se constituiu num fator desestabilizador, na medida em que, quanto mais forte ele se tornava, mais intensamente ele perdia sua intensidade. Quer dizer, quanto mais forte e estável se tornava meu relacionamento afetivo, mais eu ia deixando de amar a pessoa. Perdia-se, por assim dizer, o ímpeto da conquista e quando se perde isso (quando não há mais nada a que se conquistar), não há porque insistirmos numa sequência monótona do estar-a-dois. Talvez em parte tudo isso se deva a um forte sentimento de revolta que sempre tive. O amor para mim sempre esteve associado a um sentimento de vingança (não sei exatamente contra quem ou contra o quê especificamente ele se direcionava), mas sei que foi sempre muito forte e quase que determinante. Sempre amei como quem cometia um assassinato premeditado, que cobria várias fases de planejamento e execução. A conquista era planejada até o ponto de se consumar. Feito isso, o desprezo era também, igualmente, planejado e consistia de diferentes etapas (nunca gostei de rupturas violentas à maneira dos passionais). Ao contrário, queria destilar gota-a-gota o meu amor e a sua contrapartida, justamente para poder assim dissimular (agravando) o tédio de minha revolta. O pragmatismo de uma pessoa doente é uma coisa incrível. Minha revolta não poderia ser jogada literalmente sobre as pessoas, sob pena de elas me abandonarem sem receber a sua cota devida. Era necessário primeiro eu conquistá-las e assim eu fazia. Uma vingança em nosso tempo, para ser verdadeira, precisa se consumar sob disfarces e nunca o contrário. Nosso ódio deve ser direcionado e calculado com uma precisão matemática. Há que se ter estratégia pois estamos numa guerra, e no deserto. Eu desprezo um monte de pessoas e elas, provavelmente, também me desprezam. Mas minha vingança é só pensada. É quase certo que morrerei antes, ardendo nas chamas de minha terrível situação. Percebo agora, depois de velho, que sempre estive esfaqueando a minha imagem no espelho. Esse espelho agora está quebrado e a faca, inevitavelmente, se voltará sobre mim mesmo, como sempre tem acontecido. A juventude, doutor, é uma enorme carcaça velha retocada pelo brilho de um verniz de superfície. Aquela moça percebeu isso e se matou sozinha. Eu a amava bastante sim, mas não a ponto de matá-la. Estou inocente nesse caso.