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terça-feira, 29 de março de 2022

Contador de Histórias

"Nunca contes uma história por ela ser real; conta-a porque é uma boa história"
John Pentland Mahaffy
Na época clássica, os Gregos diziam que havia pequenos seres (demónios) que traziam a inspiração e faziam com que pessoas aparentemente normais, produzissem obras extraordinárias que provocavam o deleite dos demais. No tempo dos Romanos, as coisas não variavam muito e os demónios tinham-se transformado em pequenos génios que habitavam as paredes das casas e que segredavam a inspiração aos autores... A ser assim, imagine-se a sorte que Eça de Queiroz ou Antero de Quental,, apenas para nomear dois, tiveram com a escolha das casas. O próprio Camilo, teve a “extraordinária fortuna” de calhar numa cela fervilhando desses seres em plena cadeia da Relação do Porto!
Claro que com o Humanismo, passou-se a atribuir as "culpas" ao próprio escritor, ao dom que trazia consigo e que desenvolvia ao longo dos tempos. Veja-se o peso da responsabilidade para o autor a partir dessa altura.
Aqueles que, como eu, gostam de se intitular de “Contadores de Histórias", deveriam de se sentir aterrorizados com a ideia do que as outras pessoas vão pensar de nós: quando lerem uma história sobre um drogado, vão achar que é experiência própria, quando falarmos de violência doméstica, julgarão que somos vítima, ou agressor, quando escrevermos sobre perversões ou desvios sexuais…
Estão a ver o problema não é?
A verdade é que o processo do contador de histórias, apesar de ter muito da nossa própria experiência, na maior das vezes, parte do ponto de vista do observador e se é do participante, apenas em situações completamente extrapoladas… de outra forma não seria uma história, mas um diário.
O processo que envolve o nascimento de uma história, não tem um plano, nem um procedimento pré estabelecido que indique que primeiro vem o “A” e depois o “B” e por aí além. Isso é organização,  e essa vem depois da ideia formada. Primeiro junta-se, depois sim, organiza-se.
A história pode surgir na nossa cabeça, como algo saído das brumas que, quando nos apercebemos, já lá estava, insinuando-se, como os tais bichinhos da parede, não confundir com bichos de conta, baratas e outros afins. Outras vezes, é como um flash que nos encandeia após uma frase duma conversa, ou duma discussão… que até pode nem ser connosco. Outras ainda, chega ao nosso coração flutuando nas notas de uma música, ou entre as estrofes de uma canção.
Os personagens dessas histórias, são amigos que vamos encontrando, escondidos atrás de um verso sentido, no olhar vazio da mulher de olhos tristes na paragem do autocarro, ou no homem sujo e desgrenhado que dorme no umbral da porta.
Quando tal criatura nasce, sim porque é algo que começa a viver e pulsa, é praticamente impossível ignora-la e os seus personagens, que entretanto fomos achando, aparecem e interagem uns com os outros continuamente, quando estamos a trabalhar, a ver televisão, ou mesmo a tentar dormir. Não se consegue evitar e então, sentado frente ao computador, ou nas notas do telemóvel, os rabiscos do carácter dos personagens começa a tomar forma junto com o exoesqueleto da nova narrativa.
Durante horas, dias ou meses, conversamos com esses personagens que nos contam as suas histórias e tornam-se nossos amigos. Entrelaçam os seus sonhos nos nossos, com novelos de fofo algodão. Com eles rimos das peripécias engraçadas e com eles choramos as injustiças de que foram alvo, ou as perdas que sofreram, enquanto vamos coligindo todos os dados, toda a trama.
No fim, aconchegámos-lo carinhosamente nas páginas brancas de um livro e com uma sensação de saudade, arrumámos-lo zelosamente na prateleira de uma estante, mesmo ao lado de centenas de outros amigos, trazidos à vida e à memória por outros tão ou mais loucos que eu.





quinta-feira, 24 de março de 2022

Enfrentar o mundo com uma bainha

 


Na sua câmara no gineceu do palácio, Penélope medita sobre a sua impotência perante as insistências desprezíveis dos pretendentes. Lá em baixo, na sala grande, banqueteiam-se com as olorosas carnes das rezes dos seus domínios, estrondeando júbilos alarves, sem respeito pela casa que os acolhe, nem pela sua anfitriã. A repulsa física que sente por aqueles brutos não é menor do que a ira pelo saque que impõem ao seu património. Tivesse ela uma espada e outro seria o festim e outras as carnes sacrificadas, mas Penélope não dispõe de mais do que de uma bainha.

Ulisses partiu há muitos anos, elevando em glória a sua espada fulgurante. À frente dos seus guerreiros, a espada de Ulisses prometia a vitória junto aos muros de Troia. Ele e os seus companheiros iriam enterrar as espadas de Marte em muitos corpos de opositores valorosos. Para trás ficaram as esposas, as mães, com a ambígua defesa das suas bainhas de Vénus. Como enfrentar o mundo com uma bainha?

Dez anos durou a guerra de Troia. Foram batalhas constantes ou só um tedioso cerco, como sussurrava o rumor? Em que atividades teriam os combatentes gastado esses dez anos? Conhecendo os homens e os seus valores maiores, Penélope acredita que passaram os intermináveis dias de assédio a exibir e a comparar as suas espadas. E a afagá-las para lhes realçar o brilho. Muita vaidade têm os homens nas suas espadas. Na sua rigidez confiam, do seu brilho se orgulham, nelas se reveem, como símbolo excelso do esplendor da sua virilidade.

Passados esses dez anos, saqueada Troia, todos os combatentes regressaram aos seus lares, para maior ou menor fortuna, mas Ulisses não. Andará a saquear cidades, a depredar campos inimigos, a arrebatar manadas de gordos vitelos? Ou, objeto da ira dos deuses, terá sido desviado da sua rota para praias distantes, rochedos destruidores? Como poderá Penélope saber? Um viajante naufragado nas costas de Ítaca diz-lhe que viu Ulisses em Creta, recebido com louvores de herói pelo soberano; outro, que percorre os portos da Fenícia, diz-lhe que ouviu falar em desditas marítimas do navegador Ulisses.

Penélope espera. Que pode uma esposa amante do seu esposo fazer senão esperar? Sente saudades. Sente solidão. Aninhada no leito que partilhou com Ulisses, compadece-se da sua bainha, também ela ali abandonada, triste e chorosa, como criança perdida e faminta. Em desvelos maternais, enche-a de carinhos para que consiga adormecer.

Passaram já dezassete anos e Ulisses mantém-se ausente. O pai de Penélope insiste que é tempo demais para esperar; que ela deve aceitar a corte dos mais que prováveis pretendentes e voltar a casar. O mundo conspira contra as mulheres. Todos sentenciam que tem de haver uma espada naquela casa. O filho de Ulisses arvora naturalmente uma espada, mas tem apenas dezassete anos. É demasiado novo para defender um património como o de seu pai.

Penélope é ainda bastante jovem e bela e suscita claramente o interesse de muitos pretendentes da ilha e de fora dela, todos nobres e valorosos, como exige a nobreza da excelente requestada. Parece, no entanto, a Penélope que é maior o interesse dos pretendentes na riqueza imensa que o património de Ulisses representa. A todos vai negando o seu leito e os seus domínios, mas eles não arredam pé. Apoiados na sentença espatária do pai de Penélope vão ficando, vão-se instalando, comendo e bebendo à conta dos bens de Ulisses, até que ela escolha um deles.

São muitos, fazem questão de exibir a evidência das suas espadas, não se pode combatê-los senão com astúcia. Penélope é a esposa de um homem conhecido como “Ulisses dos mil ardis”. Também ela medita em estratagemas para ganhar tempo.

Uma ajuda a Penélope é decidida pelos deuses, a pedido de Atena e por ela personificada. Casta como é, admira e quer recompensar a fidelidade conjugal de Penélope. Uma ideia é inspirada à mortal.

Declara que escolherá um pretendente depois de completar a mortalha fúnebre para o pai de Ulisses, que está entrado em anos. Pode ser que entretanto Ulisses chegue. Mas os meses passam e Ulisses não regressa. Penélope desfaz de noite a urdidura tecida durante o dia.

Penélope já não sabe que mais temer: a morte funesta do esposo em batalhas remotas ou a sedução de feiticeiras, ninfas e deusas invejosas. Em quem andará Ulisses a cravar a espada: em corpos de inimigos cruéis e desprezíveis ou em carnes mais delicadas e propícias? As costas dos mares irrequietos estão cheias de tentações e perigos.

Tecer, urdir uma teia, lidar com miríades de fios, juntar uns, separar outros, ajuda Penélope a meditar, a ter uma visão alargada da complexidade dos desafios que enfrenta. Apura-lhe a intuição, desvenda-lhe outros padrões, outras tecituras. Avalia possibilidades onde antes só encontrava entraves. Atena não a abandona.

Conferencia com o filho e com Mentor, o fiel amigo que Ulisses deixou a tomar conta dos seus domínios. Envia-os a pedir ajuda aos bravos heróis e companheiros de Ulisses em Troia, que há muito regressaram, mas também eles só vislumbram a solução matrimonial com um pretendente. A lógica da espada prevalece.

Seu pai e seus irmãos pressionam Penélope para que aceite Eurímaco, o pretendente que mais ricas prendas tem oferecido. Também a ela este parece o menos mau dos que a cortejam. Nunca Antínoo, o rude e agressivo líder da turba arrogante dos pretendentes. Disfarçadamente, vai avaliando os modos corteses de Eurímaco, o seu porte nobre, a elegância do seu gládio, bem mais admirável que as desprezíveis adagas ou as traiçoeiras cimitarras da maioria. Mas custa-lhe a imposição da escolha. Não é opção para uma rainha. Sobretudo sem a certeza da morte de Ulisses.

Se os pretendentes fossem dois ou três, facilmente poderia criar algumas intrigas, acicatar ciúmes e livrar-se de todos, mas com cento e oito…

Terrível dilema. É como se Hera, protetora das mulheres casadas, sentindo curiosidade pela extrema fidelidade de Penélope, bloqueasse outras ajudas dos deuses, propondo-se ver como conseguirá uma mortal desenvencilhar-se do aperto em que se encontra. Talvez a mortal encontre soluções para problemas tão complexos como os que por vezes ela própria enfrenta — as constantes traições de Zeus.

A situação é muito difícil, é um problema sem solução visível. Só os aedos vislumbraram e cantaram uma. Supostamente devida a um auxílio a Ulisses decidido pelos deuses. Homero cantará um regresso tumultuoso e arrasador de Ulisses. Com o auxílio de Atena, chegará a Ítaca disfarçado de mendigo, entrará no seu palácio ocupado, com a ajuda do filho e de um porqueiro, revelar-se-á a alguns servos indefetíveis e obterá o seu apoio. Arquitetará então um plano terrível que executará implacavelmente até à morte de todos os pretendentes. Sem perdoar um. E até de algumas servas que a eles se entregaram, por terem transformado em bordel a casa da sua senhora.

Que Ulisses implacável é este? Quão brutal e sanguinário se tornou um homem que, tendo já matado os principais e mais odiosos pretendentes, prossegue o massacre, mesmo depois de pedidos de perdão e declarações de pagamento de todos os depredações executadas na sua casa? E ter matado simples servas? Como desapareceu a sua lendária sensatez? Em que se transformou Ulisses? Ninguém o reconhece. A maioria só se deixa convencer ao lhe ser mostrada uma antiga cicatriz na perna. Será mesmo Ulisses que regressa? Ou um aventureiro que com ele privou e de quem foi confidente?

Outros aedos cantarão versões libidinosas de amores adúlteros de Penélope. Uma chegará ao extremo de pretender ter ela ido cedendo sucessivamente aos mais de cem pretendentes. Muito adulterada deverá estar a memória para admitir que tal seria concebível a uma princesa de Esparta, cidade por excelência das mulheres virtuosas.

Em nova conferência, Penélope, o filho e Mentor reveem as várias hipóteses. Dificilmente conseguirão livrar-se dos pretendentes pelos meios tradicionais. Eles dispõem da avassaladora vantagem da força, quer imediatamente, quer em retaliações futuras. Há que usar de criatividade, de astúcia, da força do espírito. Penélope fala em manobras de humilhação e do seu possível poder dissuasor. É uma arma poderosa, mas que pode gerar reações de grande brutalidade retaliatória.

Mentor sugere alternativas violentas. Poderia mandar as criadas envenenar-lhes a comida, mas os pais e outros familiares não entenderiam e viriam cobrar vingança. Poderia propor jogos de eliminatórias — corridas de carros, tiro de arco — até ao apuramento de um vencedor. Podiam ser torneios tão viris e violentos que os pretendentes se fossem eliminando fisicamente uns aos outros. Mas sempre restaria algum, talvez um que Penélope não quer ver nem dourado, talvez o odioso Antínoo...

Não; abdicar do poder da escolha está fora de questão. Bem bastara ter sido ela o prémio na corrida de carros que Ulisses vencera. Para acentuar que a escolha nupcial também fora sua, Penélope aceitara seguir Ulisses para Ítaca, em vez de se manter em Esparta, conforme os rogos do pai. Deixar que o acaso decida, seria um retrocesso no controlo do processo e isso é inaceitável.

Há anos que os pretendentes se fizeram presentes. Mais ou menos convincentes, cada um intenta ser o príncipe que a encantará. Aos poucos habituou-se à adulação subjacente. Cada um daqueles jovens almeja elevar em glória a espada no seu leito. A uma decisão sua, podia dar sentido à sua bainha. Mas não é da companhia de um jovem que Penépole sente falta. Ulisses nunca abandona o seu pensamento.

Passaram mais três anos. Completam-se em breve vinte, desde que Ulisses levantou a sua poderosa espada na proa da negra nau que rumava a Troia, encabeçando a flotilha de outras onze. O estratagema de desfazer a urdidura durante a noite foi desmascarado por uma escrava. Penélope é pressionada a escolher um pretendente, das muitas dezenas que todos os dias se fazem comensais nas mesas da sala grande. Que fazer? Adiar a escolha torna-se cada vez mais difícil. Atena cicia-lhe soluções.

Penélope tece, maneja os fios com destreza, medita, imagina que consegue prender um dos fios a um pretendente e comandá-lo. Outro fio a outro pretendente. Um fio para cada um. É uma urdidura ambiciosa, uma teia ampla, global. Cada fio cumpre uma função particular, e juntos completam o tecido. A este cumpre assegurar o resguardo, a proteção, o recato, o seu, de mulher casada, ou viúva, ou só mulher. Através da urdidura pode comandar o seu destino.

A queda de Troia desarticulou o equilíbrio da região. Hordas de desenraizados espreitam e saqueiam as costas mediterrânicas. Penélope toma consciência da força que, se unida, aquela centena de guardiões representa. Uma guarda de elite é a proteção mínima, mas suficiente que a livrará de depredações invasoras. O que consome à mesa é um preço irrisório, comparado com a proteção que oferece. É preciso que o espírito que moveu para ali cada um dos pretendentes se consolide em irmandade protetora.

Se antes, por cortesia, não hostilizava os pretendentes, cada vez os acarinha mais, apesar do deboche que alguns protagonizam. Incentiva e, não raras vezes, aceita honrar com a sua presença os jogos de adestramento bélico e os banquetes subsequentes. Evita que, cansados da espera, desistam, enviando-lhes mensagens personalizadas, sugerindo dias mais auspiciosos e insinuando que pode estar próximo o prémio que espera. Fazendo-o sentir-se especial, envolve cada pretendente num acordo tácito de proteção. Atrás do véu que brota do seu tear, vai conseguindo tecer uma teia coesa e protetora, para si e para Ítaca. Que talvez lhe permita esperar por Ulisses indefinidamente.

Joaquim Bispo

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Imagem: John William Waterhouse, Penélope e os Pretendentes, 1912.

Coleção Aberdeen Art Gallery

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quarta-feira, 23 de março de 2022

GIRA-MUNDO

 



 

 

− Anda logo, moleque! Vá se jogar na água limpa antes que esse barro todo vire pedra! Avie!

         Era o fraseado de todos os dias. O pai falava por falar, sabia que Rosaldo era escovado, fazia tudo no seu tempo.

         E ele continuava lá, quieto, imóvel, a lama ressecada recobrindo o corpo feito casca de árvore. Com o canto das unhas lascadas e imundas, empurrava a crosta que se formava sobre o joelho. Aquele som craquelado lhe dava prazer. Não era pelos ouvidos que o percebia, ouvia com o gosto. Gostava de franzir a testa para sentir o trincar da lama. E não tinha pressa, nenhuma. O dia seria longo, como sempre, igual a todos.

O corpo enlameado do pai, reluzindo ao sol, mostrava uma esbelteza que não lhe era própria. As várias camadas de lama ocultavam o peito esquálido, pobre de carnes. E, quando se erguia, atolado até a cintura, infalivelmente, trazia na mão um agitado caranguejo. Era certeiro na cata. Se bem que Rosaldo estava cada vez menos disposto a observar detalhes. Andava cansado do manguezal. Não mais aguardava as marés baixarem com o mesmo entusiasmo de antes, acompanhar o pai na cata de caranguejo tornara-se maçante. Aquele alagadeiro acatingado o agoniava. A aperreação era visível. Nem mesmo o sabor do cozido, feito com o refugo dos caranguejos, era o mesmo. Sem gosto, sem graça. Insosso.

Nas noites, era comum Rosaldo ouvir as lamúrias da mãe e a conversa de sossegamento do pai. Falavam como se a ordinária cortina de pano que separava os quartos fosse parede de alvenaria. Ali, tudo era sem segredos.

− Homem, esse menino é fraco de apego, parece que vive tentado, cheio de ilusão...

− Deixa de cisma, mulher! Você encasquetou com isso. O menino é sangue bom, gosta de pular de galho em galho, mas sempre pisa a terra. Um dia ele entra nos eixos. Só precisa da nossa bênção. 

Rosaldo, alma nômade, ouvia e aparafusava cada palavra. O pai estava certo. A preocupação da mãe e o seu aspecto consumido não nasceram com a maternidade. Ela era assim, sempre foi. Entregue, melancólica, sem qualquer propósito. Seguro de seu entendimento, o menino sentia-se mais livre nas escolhas.

Deixando a peleja com os caranguejos, Rosaldo enveredou-se no ofício de engraxate. Não foi fácil. A comunidade era fechada, hierarquia severa. Ocupar uma praça exigia licença do líder. E ele conseguiu. Até foi capaz de aprender aquele linguajar complicado, horas e horas de prática. Mas não se alinhou com as engabelações. Não concordava com as trolagens feitas com os turistas. O preço deveria ser justo, sem maquinação. Havia certo escárnio no trato, artimanha descabida. Percebendo que não mudaria o vício do bando, procurou se distanciar, pouco a pouco. E quando sumiu, definitivamente, morto de medo de perseguição, ficou mocozado até que a poeira baixasse. Nem olhava para a aflição da mãe. 

Na luta pela sobrevivência, procurou serviço no mercado de peixe. O mar não o iludiu, nunca foi pescador. Águas revoltas e aqueles barcos que desinteiravam famílias jamais o seduziram. Da gritaria sem fim do mercado, não demorou muito para chegar nas bancas de jogo do bicho. Foi trabalhar para Esmeraldino do Beco, que firmou ponto na Rua Fonseca, perto da Fábrica de Tecidos Bangu. Local de muito movimento e de venda fácil.  Esmeraldino era obcecado por futebol, e Rosaldo, parceiro de muitas horas, virou frequentador assíduo do Moça Bonita. Não importava que fosse apenas treino; lá estava ele na arquibancada, aos berros.

Isso durou anos. O arrebatamento se anulou quando, num jogo contra o América, um mandachuva com nome de animal roedor, descontente com a marcação de pênalti contra o Bangu, invadiu o campo com um trinta-e-oito em punho, desafiando o juiz da partida. Isso bastou para distanciar Rosaldo daquela paixão. A verdade do jogo não girava no campo, rodava no ritmo e vontade das balas do tambor. Cartas marcadas, enganação dos sentidos.

De repente, as novas amizades encurtaram o caminho para a escola de samba. O batuque lhe tirava o sossego. Das pernas e do peito. E, no barracão, sambava feito moleque doido, sem parada. Tinha ginga nos pés e no corpo, a dança corria nas veias. Recusou o convite de fazer parte da bateria, não queria mãos presas, alinhamento. No samba, como na vida, precisava do corpo todo para se entregar, sem amarras. Sem controle.

Ali cresceu, entre o jogo do bicho e o samba. Virou homem. Dizer que perdeu o gosto pelo jogo? Não podia negar, virou meio de vida, só isso. O mandachuva com nome de bicho roedor tomou conta de tudo. Depois que chegaram os homens de terno, os mecenas, até o carnaval mudou de tom. Perdeu a inocência, trazia cartas marcadas. Mas o samba, este não abandonava a alma de Rosaldo. Era paixão moldada.  

E nos carnavais encontrava os seus rabichos. Muitos. Bastava acabar a folia, Rosaldo rolava de um barraco para outro. Só levava as roupas, nada mais. Assim foi com Ana Flor, Betina, Flora, Açucena, Celeste, Araci, Ritinha, Violeta e Aurora. Ah, Aurora! Esta foi mais que rabicho. Foi afeição, benquerência, fervura. Era uma cabrocha manhosa, de risada franca, barulhenta até no andar, cheia de guéri-guéri.  Namoradeira, não escondia os seus enroscos. Rosaldo achava que seria a companheira da vida, e ficou todo afortunado quando percebeu que a barriga de Aurora começava a crescer. Seria pai. Escrupulosa, percebendo o entusiasmo desmedido do companheiro, mesmo com o coração em frangalhos, Aurora contou a ele que o filho era de Anísio de Quintino, o grande amor de sua vida.

Derriçado, Rosaldo chorou.  E a mãe dele nem precisou ficar aflita, já havia encontrado a paz. Mas a tristeza não durou muito. Os cafunés de Carlota eram malandros, começaram nos obséquios, no ombro amigo. E não deu outra. Logo as roupas de Rosaldo rolaram para outro barraco.

Carlota foi a companheira de muitos carnavais. No barracão, comandava a montagem das fantasias. De acordo com o enredo, desenhava os modelos, escolhia os tecidos, os adereços, e, junto com as costureiras, arranjava trabalho para o ano inteiro. Sambista de primeira, ela esbanjava sensualidade. De mal, demasiadamente apegada à birita. Era esse o único motivo de discussão no barraco.  Rosaldo não se conformava com a falta de capricho da companheira, percebia que a bebida iria cozinhá-la por dentro. Mas ele também sabia que seria sempre um fraseado sem resultância. Falava por amar.   

Envelheceram juntos. Não fosse a canseira que chegou de mansinho, pulmão fraco, roubando de Carlota o vigor, impedindo o samba no pé e prostrando-a numa cama, os dois não teriam se separado. Cozida por dentro, perdeu a batalha. E sabendo do apego que ela nutria pela vida, Rosaldo tinha certeza de que ela partiu contrariada.

Na solidão, Rosaldo ficou desconsolado, nem esperava mais o carnaval. Os dias tornaram-se imensos. Nas caminhadas, a cada dia mais alongadas, extravasava a ansiedade. Corpo cansado chamava o sono, sono chegando, a noite passava.

E ainda teve Clarice, que morava do lado e cantava feito passarinho. Nada muito ardente. A idade exigia mais companhia que saliência, mas Rosaldo também não a dispensava. Os dois se ajustaram, sob uma condição: sem que qualquer um deles rolasse definitivamente para o barraco do outro. Assim foi.  Por muito tempo.

  Na plataforma da Central do Brasil, alojado no banco de madeira sustentado por pés de ferro, Rosaldo observava o burburinho que brotava de todos os lados. Gente chegando, gente saindo, passos apressados, mãos carregadas de malas, uma montoeira de corpos que se roçavam sem perceber. Parecia bloco de carnaval sem samba. Sem graça.

Os trens chegavam e partiam. Os apitos, o som das frenagens, o cheiro de graxa, o atrito assobiado das rodas das locomotivas nos trilhos, o calor subindo das ferragens e afugentando os passageiros negligentes que se juntavam sobre a faixa de segurança, tudo isso trazia inquietação. Aos olhos de Rosaldo nada escapava. Eram tantos os movimentos que a cabeça dele também girava, e as lembranças, enxeridas, se embaralhavam. De súbito, Rosaldo alheou-se, nada de barulho, nada de pessoas. Observou as mãos, as suas.  Encrostadas, pele envelhecida, e lembrou-se da lama seca do mangue. Chegou até mesmo a levar a unha para retirar aquilo que parecia escama, feito casca de árvore.

Do nada, levantou e dirigiu-se ao guichê.

− Moço, eu quero um bilhete.

− Qual é o destino, senhor?

− Até o fim da linha. Ponto final.

 

 

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terça-feira, 22 de março de 2022

Um Manco Amor

 



Verdade seja dita também Viviane tinha as suas fantasias, e malgrado fossem estas, como afirmava ao classificar os vértices da libido, “anormalidades normais”, figurava na mesma categoria dos homens e mulheres obcecados por seu defeito. Afinal, e apesar de ser bela e torneada, virtuosa de mente e alma, com a possante musculatura dos atletas, era manca, e ao saber-se cobiçada e foco das simpatias sexuais alheias a menina desconsiderava a possibilidade de uma afeição comum e sadia e enquadrava seus pretendentes em três categorias: ou seria ela objeto de curiosidade, dir-se-ia a fugaz consumação de um instinto; ou seria um objeto de conquista, porventura a mais exótica delas; ou, por último, seria um objeto de fetiche. Quanto às duas primeiras, e não obstante a frivolidade intrínseca às paixões de ocasião, aceitava-as com evidente prazer, também Viviane a gozar as irrelevâncias do amor. Porém, quando em alguém reconhecia uma atração alusiva à terceira categoria, entristecia-se, sentia-se vil e desonrada, provocadora de crimes contra o espírito, mais lhe doendo o fato de apenas ser estimada como pretendente pelos e pelas fetichistas, estes demônios da sutileza – e por tanto resistir às maliciosas investidas de seus admiradores a moça afeiçoara-se à solidão, aos homens e mulheres censurou até, num meio-dia de ventos fortes, ao contemplar a insurreição de galhos e folhas, o remoinho de nuvens no céu, admitir padecer, também ela, de uma tara.

Só os obsessivos sabem viver, concluiu.

Mulher de muitas fantasias, e de fantasias consumadas, fora levada a assumir seu fetiche e abdicar de preconceitos e intolerâncias após conhecer Gérson. Neste momento de admissão, a balançar na rede com a brisa e os repelões do destino, desdobrou-se à semelhança das víboras e, nua das pernas, sentou-se. Acima dela o semblante do rapaz figurava nas nuvens. Era um jovem alto e barbado, cujos olhos verdes-esmeralda nasciam como se dos pelos faciais, os próprios pelos faciais como se nascendo dos corporais, e dele se diria, e ela comprovaria, que possuía fios escuros e espessos na testa e na palma das mãos. Em uma confraternização da empresa foram apresentados, e ao escrutar a desabotoada gola da camisa, no qual restos de comida avultavam de entre o pelame, apaixonou-se por sua flora peitoral. Pois já relacionara-se com numerosos homens, nenhum deles como Gérson, e já se entregara a homens peludos, nenhum deles como Gérson. Encantou-a, também, o tanto a descobrir em si através de outrem, e ao flertar e conversar agradeceu aos signos zodiacais por não ser ele tímido e introvertido, ou então derreter-se-ia em seus braços de urso.

Venceram a noite, os dois, dançando, e quanto mais Viviane tocava-o, quanto mais embrenhava-se nos bosques da tentação, mais manca mostrava-se. Gérson, por sua vez, amparava-a com desejo e renúncia e desdenhava o vicioso olhar dos curiosos e intrometidos, ou fazia carrancas para rechaçar as caretas, e ao sentir a exaustão de Viviane, o tremor das pernas e o desleixo dos braços, conduziu-a para fora da pista. Sentados, encarou-a e inclinou-se, segurou as mãos da menina, confessou,

Meu fetiche são as mancas.

Viviane estremeceu.

Todavia não experimentou a repulsa costumeiramente destinada a quem lhe desejava por sua maior imperfeição, e ao distinguir em si este comportamento atribuiu-se, entre suspiros e segundos, o dever de enfrentar os preconceitos do coração. Alegando cansaço, chamou um táxi e despediu-se de Gérson, e meneando até o veículo ela requebrava-se em passos falsos e raciocínios estapafúrdios, tropeçava nos passionais receios da vontade, e foi assim que, no meio-dia seguinte, deitada na rede e vítima do firmamento, esmiuçou sonhos e motivos, renunciou às suas objeções e a Gérson decidiu se entregar.

Era ele novo na firma, e encontrando-se os dois diariamente, unindo espaços e silêncios, descobriu um Gérson acanhado, apaixonado por flores, botânica e animais, com graças de sonhador, e de tanto sentir-se atraída e, por conseguinte, de tanto coxear, Viviane voltou a usar bengala. Malgrado o caráter retraído de Gegê (como apelidou-o) a excitasse, era também um impeditivo, pois o rapaz não atuava em favor do futuro, a favor da carne, e testemunhando-o combater suas inibições, ou os reflexos involuntários do corpo, a eventual gagueira, e consciente das próprias obrigações no jogo do amor, Viviane provocava-o com alusões à mítica libertinagem dos deficientes. As mancas não têm restrições na cama ou à cama, falava ela, e ria; as mancam são fanáticas quando amam, cantarolava ela, e sorria. Impelido por estes e outros incentivos, renunciando aos grilhões do ego, Gérson convidou-a para sair.

E fê-lo num repelão. Viviane deixava o toalete quando o bom moço encurralou-a no corredor, e apesar de mostrar-se seguro ela percebeu sua respiração pronunciada, a rispidez dos monossílabos, e fingindo surpresa, afinal o destino haveria de os combinar, aceitou o convite. Ao retornar para o gabinete, esbordoando-se em mesas e cadeiras e abatendo luminárias, desfilando com trejeitos de monstro, experimentava uma volúpia arrebatadora, e já na sexta-feira à noite, bem-vestida e sensual, os lábios tingidos de vermelho, ela agradeceu a sua deformidade.

Ou então jamais iria me sentir assim.

No encontro nem bem começaram a beber, a afastarem-se do chamado eu, e beijaram-se, e disfarçando seu tumulto carnal, a contínua e constante trepidação do quadril, afigurando-se desconjuntada mesmo em repouso, sussurrou Viviane para dentro de Gérson,

Eu te quero.

Através da barba cintilava o rubor da pele, e sem mais falar ele segurou-a pela mão e levou-a embora, carregou-a até os domínios do lençol, onde, abraçados e conjugados em beijos, romperam os pés da cama ao eternizar sua paixão. Saciada ela e saciada ele, Viviane sentou na beira do leito, retomou a disciplina dos sentidos, levantou-se, e ao dar o primeiro passo caminhou sem mancar.

Além disso, e para além disso, não tornou a fazê-lo: o amor a curara.

Duas semanas depois, Gérson, descontente, a dispensava, pois ele queria um manco amor.


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sábado, 19 de março de 2022

Encurralados

 


Fui ao centro da cidade para comprar uma roupa nova. Tinha acabado de receber o meu salário, no dia anterior, na sexta. Claro, só lá encontraria o melhor preço. Estava disposta a pagar, no máximo, cem reais, porque o restante seria empregado no curso de informática do Juninho, meu filho; fora as despesas normais de casa, que são muitas para uma mãe solteira. Saí mais cedo que o normal, às sete, para, justamente, não ter de levar o pequeno. Seria um inferno; ele ficaria chorando e aperreando para comprar brinquedos. Peguei o Circular II e desci mesmo em cima do Banco do Brasil, na Avenida Duque de Caxias. Durante o trajeto, pensei como seria bom se todo mês pudesse me fazer um agrado, como hoje; passear e comprar uma besteirinha aqui e acolá. Isso acontece, quando muito, no final do ano. Dessa vez, por verdadeira extravagância, comprava em março. A intenção e o objetivo eram o importantíssimo casamento da Lucinha, minha melhor amiga. Ah, como a mulher sofreu nas mãos de uns e de outros vagabundos. O penúltimo, antes do Ulisses, batia e cuspia em sua cara, literalmente. Depois de anos – três, acho –, Lucinha se convenceu de que não dava mais. Mas não tinha jeito; o bandido foi preso por algazarra e desordem; tentou matar um dono de bar, no interior, e levou uma sola, que não sabe nem a placa do caminhão que passou por cima dele. Irreconhecível e preso, graças a Deus. O Ulisses, não, é outra história; um homem decente, de princípios, da igreja; e o melhor, amigo do Raul, irmão da Lucinha. Só penso no dia em que Ulisses vai dar os toques para o Raul que eu sou a fim dele – tomara que seja no bendito casório. Lucinha não sabe fazer as coisas; estragou três oportunidades. Na primeira, deixou que eu ficasse sozinha em sua casa com o Raul; ele achou estranho e disse que tinha de sair. Na segunda, Raul percebeu a tramoia, porque Lucinha não dissimulou nada; chamou-o para, só nós três, irmos ao Cachorrão da esquina. Na última, ela se queimou, deu um presente dizendo que era meu e, quando cheguei lá, por acaso, Raul veio me agradecer e foi aí que soube da tal jogada; ele notou o meu desconcerto e ficou abusado de mim. Faria de tudo para conquistar o meu amorzinho, enquanto ainda dá tempo – vai que, numa dessas, ele arruma umazinha aí e eu me lasco; nem mel nem cabaça. É hora da virada. Será no casamento, sim – por Deus, não aguento mais de desejo reprimido. Vou pegar ele de cumforça, com carinho, e não vai ter escapatória. Ulisses prometeu me ajudar – com cuidado, muito cuidado, para não assustar a fera. Serei a mais bela entre as belas do recinto. Ele não perde por esperar.






quinta-feira, 17 de março de 2022

No metrô - poema de Acauam Oliveira e José Virgínio

 



No metrô



Uma velha sentada

Duas moças em pé ao lado (lindas)

conversando.


Só olho para a velha


O que ela tem a oferecer

(oferece existindo)

me toca mais no fundo.
















domingo, 13 de março de 2022

O Asteróide

 

O Asteróide

Os noticiários de todas as estações de rádio e televisão abriram com uma informação aterradoramente bombástica:

− Dentro de 72 horas um asteróide vai colidir com a Terra. Não se sabe a zona de impacto, nem os seus efeitos.

À medida que as horas iam voando, as preocupações a nível planetário foram crescendo a um ritmo exponencial. Esse crescimento tinha a ver com a rápida aproximação do errático asteróide. Dos confins escuros do universo, para as imediações do planeta azul este corpo rochoso, já conhecido do meio académico espacial, teve, em tempos, um contacto visual com uma nave tripulada. A tripulação, na altura, enviou para a Agência Espacial Terrestre fotos e dados. Essa informação só suscitou interesse na comunidade científica.

Agora a sua aproximação à Terra tornou-se uma preocupação. Não se conseguia saber a zona do impacto e o consequente poder de destruição. Era um verdadeiro desconhecido na forma como mudava de trajectória. De tempos a tempos a rota mudava. Uma vez era para aqui, outra vez era para mais além, outra vez era para os antípodas do aqui.

Eminentes matemáticos, astrónomos, físicos, geólogos e uma plêiade de sábios de várias áreas acompanhavam, ao segundo, a viagem do “calhau”. Tentavam encontrar a chave que permitisse calcular a zona de impacto e os efeitos destruidores. A possível salvação de uma grande parte da humanidade estava nas mãos daquela sábia gente. Mas nenhum sinal vinha do espaço e as horas corriam velozes.

 O que fazer? Fugir para onde, se não se sabia onde o asteróide ia cair. A preocupação instalou-se entre os estudiosos e entrou na esfera política. Daí a saltar para a rua foi um ápice. O medo assentou arraiais. Começou a sentir-se uma onda crescente de ansiedade. O crime organizado não dormia e esperava a oportunidade para sair à rua. Estava só à espera do descontrolo institucional. À espera, e pronto a vir para a rua anunciar o fim do mundo, estava o fanatismo religioso, os loucos do costume e todos aqueles que esperavam da vida um minuto de fama.

 Os cidadãos do mundo não tinham outra alternativa senão esperar por bons tempos. Não podiam fugir para outros lugares por não saberem o local da catástrofe e por não conhecerem quais as zonas mais seguras, se é que elas existiam. Esperavam pelo destino.

Os olhos e os ouvidos não paravam inquietos à espera de uma nova para se fazerem as malas e rumarem a sítios mais convenientes, os que podiam, porque a grande maioria teria de ficar no mesmo local. Vai cair no mar, nos pólos, naquele continente, vai passar ao lado da Terra, vai desintegrar-se quando entrar na atmosfera terrestre. Ninguém se entendia e os boatos galopavam.

Os combustíveis esgotaram-se, embora os meios de transporte estivessem cheios, mas parados. Não valia a pena sair para onde quer que fosse, porque não havia sítio seguro para ir. Estavam preparados para arrancarem, logo que soubessem a zona de impacto e as eventuais ondas de choque. Quem nada tinha, a não ser a vida, nem fazia cálculos de saída. Oravam aos Deuses, os que sabiam orar, e faziam-no com fervor, nada prometendo, pedindo tão só para o asteróide cair bem longe.

Faltavam 08:32:25 para o impacto, quando os mostradores electrónicos das agências espaciais pararam a contagem descendente da incerteza. A Zona de colisão do Asteróide Vitrius, assim baptizado por apresentar um brilho vítrico, foi finalmente calculada.

A corrida aos automóveis foi desenfreada. Uma debandada de centenas de milhares ao mesmo tempo. Foi o caos à solta. O salve-se quem puder, tomou conta de cada um. Os caminhos em direcção às fronteiras, aos aeroportos, aos cais de embarque, para um outro qualquer lugar começaram a ficar entupidos. Seguiram-se os atropelos de toda a ordem, a raiva dos que não tinham hipóteses de saída, as traições, os aproveitamentos, as buzinadelas, os insultos, as rixas, a violência, os acidentes e os grandes engarrafamentos que não deixavam ninguém andar, tudo parado. Entretanto, outros dedicavam-se a aproveitar as últimas horas, para fazerem aquilo que mais gostavam.

Pedro Figueiredo era um deles. Filatelista de renome mundial. Naquele tempo de debandada ele estava sentado à secretária no seu gabinete, em frente de um enorme cofre-forte concebido para guardar a sua fabulosa colecção de selos. Ao longo de uma parede de 6 metros tinha sido embutido um cofre, dividido em gavetões cofres, isolados uns dos outros. Além do código do cofre principal, havia um código diferente para cada um dos gavetões cofres. Tudo conforme as regras da máxima segurança. Se houvesse um incêndio num gavetão não se propagava aos outros, se houvesse um roubo era impossível roubar a todos, porque cada uma tinha o tal código próprio. Os selos, carinhosamente tratados e cientificamente catalogados, estavam seguramente guardados.

Com toda a calma do mundo, levantou-se, dirigiu-se ao cofre e retirou um álbum. Sentou-se e olhou para um dos mais valiosos selos que faziam parte da sua colecção. Coube-lhe em herança, por morte de seu pai, que a tinha recebido do seu avô e este do seu bisavô, por aí fora, contando-se as mãos de muitas gerações. O valor de tantos e tão valiosos selos era incalculável. Ele também ao longo da sua vida foi-lhe acrescentando valor.

Por este motivo, não pensou em ir embora, porque não queria deixar ao abandono a sua grande paixão. Se tivesse que morrer, pois que morresse ao pé dela. Mas não era essa a única razão que o impedia de abandonar a cidade. O outro motivo estava em exposição temporária no Museu Nacional de Filatelia, debaixo de fortes medidas de segurança. Era um selo que pertencia a um coleccionador e que lhe tinha fugido, aquando de um leilão em que, por questões de saúde, não pôde comparecer. Muitas vezes tentara junto do coleccionador adquirir aquela preciosidade. Ofereceu tudo o que tinha, mas mesmo assim sem sucesso.

Com tudo fora de controlo, calculou que estariam reunidas as condições para poder apoderar-se dele. O caos na cidade era assustador. Carros parados por todo o lado, pessoas a fugir, a gritar, muitas a olhar para o céu, outras para o nada, destruição, sirenes e alarmes gritavam de todos os cantos e lados. Cada um fazia o que queria e ninguém pedia explicações de nada.

A porta do Museu encontrava-se livre e aberta. Sem barragens percorreu o corredor que o conduzia ao sítio onde estava exposta a maior preciosidade. Não se cruzou com ninguém pelo caminho e a sala estava vazia, ao abandono.

Os funcionários e os guardas há muito que tinham fugido, em busca da sua segurança. Transpôs as baias de protecção, passou pela primeira segurança de raios laser, depois pela segunda e, com o coração a transbordar de contentamento, retirou a pequena caixa de cristal , guardou-a dentro da mochila. Os alarmes continuaram a tocar estridentemente.

Em segurança saiu para a rua e embrenhou-se no meio do caos.

 





terça-feira, 8 de março de 2022

Missão Cumprida

 


Desde que as férias de verão tinham começado, Sara fazia questão de patrulhar periodicamente a casa de campo que tinham alugado para umas semanas de bem merecido repouso. E isso apesar de todos lhe repetirem à saciedade que não havia na zona qualquer perigo para a saúde, segurança ou bem-estar da família.

No entanto, teoria é uma coisa e realidade outra bem diferente e o facto é que já não era a primeira vez que se vira forçada a agir. Mas para evitar comentários e críticas, que iam do jocoso ao exasperado, tentava fazê-lo apenas quando estava mais ou menos só em casa ou, pelo menos, quando tinha a maior parte das divisões por sua conta.

Além disso, esta sua atividade dava-lhe uma sensação de poderio, de força, como se fosse por alguns instantes uma pessoa diferente, mais próxima do que sonhava ser desde que vira uma imagem da deusa Diana num dos muitos livros que enchiam a casa. Bom, a casa a sério, não esta, claro.

As patrulhas a que se obrigava eram pois um passo nesse sentido. Para além de uma distração, claro, descansar soa bem, mas aborrece muito rapidamente quando há pouco ou nada para fazer.

E mais uma vez os factos deram-lhe, infelizmente, razão. Por descuido de alguém ou astúcia de quem o tentara, a sua fortaleza fora novamente invadida. E competia-lhe agora repor a ordem para bem de todos, quer estes quisessem ou não.

Agarrou prontamente na arma, que tentava manter sempre o mais à mão possível, e preparou-se para defender o seu lar. Só esperava que não aparecesse alguém antes de conseguir realizar os seus intentos, como tantas vezes acontecera, sendo muitas vezes interrompida no momento mais crucial, o que permitia a fuga sem punição dos invasores.

Sorrateiramente, foi-se aproximando do alvo, pé ante pé, tendo o cuidado de manter a arma bem oculta atrás das costas. Apesar do avanço a ritmo de caracol, parava frequentemente, deixando-se ficar imóvel uns bons instantes com um ar casual, para que o inimigo se habituasse à sua presença.

Estava só de passagem, dizia a sua atitude, muito que fazer, muito em que pensar, não havia mais ninguém ali, sim, nada para ver.

Pela mesma razão, optara por uma aproximação indireta. O plano era desviar-se no último instante e atacar então com toda a rapidez e força de que era capaz. Se tudo corresse bem, poderia averbar mais uma morte, a sétima, cumprindo assim a sua resolução de Ano Novo para as férias desse ano.

Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade e depois de ter sido forçada a mudar ligeiramente a trajetória para a adaptar aos movimentos do invasor, estava finalmente quase lá, bastava só mais um passinho...

E com um feroz grito interior de ataque, sim, não queria alarmar quem pudesse estar por perto, desferiu finalmente o seu golpe, acertando em cheio na atrevida mosca pousada na mesa da cozinha.

Missão cumprida, tinha as sete moscas averbadas, tal como o herói do seu conto favorito, O Alfaiate Valente. Bom, não tinham sido de uma só vez como na história, mas mesmo assim, nada mau para quem tinha apenas 8 anos.

Satisfeita, pendurou o mata-moscas no sítio do costume, sentindo ainda cursar nas veias a adrenalina da caçada. Mas tivera sempre um espírito épico...

 

Luísa Lopes

Imagem: Mohamed Hassan (pixabay)





quinta-feira, 3 de março de 2022

A NATURALIDADE DO AMOR EM DRUMMOND

 

Não posso crer que se conceba

do amor senão o gozo físico!”

(Manuel Bandeira)

 

            A literatura é atemporal e mesmo depois de muitos anos, o autor de Claro Enigma ainda nos propõe novos e instigantes enigmas. Como decifrá-los à sombra grandiosa do autor e de sua obra? Sento-me à máquina como quem senta ao pé de um mistério. E desta feita temos pela frente, com o livro O Amor Natural, uma esfinge erótica para decifrar ou então, na pior (?) das hipóteses sermos devorados por essa estátua de puro sexo construída pelos versos incendiados de Drummond.

            Para quem não conhece da obra do autor senão alguns poemas famosos que caíram no domínio público e se tornaram ditos populares, e aprendeu a gostar e associar estes versos à figura simpática de um velhinho tido como o melhor de todos, e que agora lê O Amor Natural, levará um susto e certamente ficará chocado com a temática e os termos usados pelo poeta.

            Mas para quem conhece e acompanha o autor em toda a sua obra, livro a livro, poema a poema, saberá que, afinal, a surpresa não é tão grande assim (embora a “voltagem” esteja realmente bem mais elevada). O fato é que a temática erótica sempre esteve presente na obra de Drummond e desde 1984 quando foi publicado o livro Corpo, ela vem crescendo em intensidade. Já no livro seguinte Amar se Aprende Amando, este erotismo se apresenta de forma bem mais dominante até culminar com esse O Amor Natural. Note-se que os próprios títulos dos livros são sintomáticos e dizem bem dessa nova postura do autor.

            E aqui cabe a pergunta mais enigmática e inquietante: por que o erotismo na obra de Drummond se manifesta principalmente nos seus últimos livros publicados, quando o autor já estava velho? Não há aí uma inversão? Geralmente se dá o contrário, ou seja, a voluptuosidade coincidindo com a impetuosidade própria da idade jovem.

            A resposta a esta pergunta tem a ver com o eterno conflito Eros x Tanatos, apesar do próprio Drummond ter dito numa entrevista ao Jornal Leia em 1985, que sua temática amorosa só agora se tornava mais visível porque “antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muita tímida que eu sou até hoje”. Acontece que o amor enquanto experiência física (e Drummond nessa entrevista deixa claro a sua intenção de n’O Amor Natural enaltecer o lado físico do amor, desvinculando-o do lado espiritual) é sempre maior e mais forte em situações-limite.

           Assim, uma baita ressaca física e/ou moral, uma situação de forte pressão emocional, a velhice (que sempre vem acompanhada da possibilidade da morte próxima), a própria ideia de que o nosso fim se aproxima (independente da idade que temos), tudo isso desencadeia um processo de busca de autotranscedência que, por sua vez, se manifesta de diferentes formas. Uma delas, de âmbito puramente físico, é o erotismo levado a extremos de tesão sexual ou de uma paixão absolutamente extremada, chegando em alguns casos ao paroxismo.

            No caso específico do Drummond me parece que há uma tentativa de elucidação do amor transcendente, destilando-o através de um fino erotismo físico sem meias-palavras e sem medo das palavras. E o autor consegue com essa sua tentativa dar a exata medida do prazer em todas as suas variantes e variações possíveis entre dois corpos humanos que, buscando o êxtase físico, tentam na verdade romper o bloqueio do eu insulado, do eu aprisionado que só tem a si mesmo ou nem isso, destituído de qualquer espiritualidade transcendente.

            A transcendência do amor é uma consequência do ato físico e não uma coisa à parte, separada espiritualmente e que requer, para se completar, uma fusão com o amor físico. Não. Através do gozo físico é que se chega (ou se pode chegar) a alguma forma de transcendência. Exceção feita, talvez, somente para os góticos em determinadas situações apaixonadas e apaixonantes.

            A metafísica do amor (e do livro) consiste em se tentar, com o prazer físico, atingir alguma espécie de êxtase espiritual que nos daria, por instantes que seja, a sensação de deter a proximidade do fim ou suspender, temporariamente, a ideia da morte, a própria morte em si. Se se pode conseguir isso, somente a experiência pessoal de cada um é que pode revelar. De qualquer forma esse tipo de experiência deve ser tentada, mesmo porque ela é, em tese, acessível a todos os corpos. Mas até que se consiga esse êxtase espiritual via orgasmo, vale a sentença do Bandeira segundo a qual o amor só pode nos dar o gozo físico, o que já não é pouco!

 

 (publicado no Jornal Arte & Palavra, Aracaju/SE em Maio de 1993 e no livro “Textos e Ensaios”, Multifoco, 2012)