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terça-feira, 24 de maio de 2022

Os brincos

 

O campo! Nas décadas entre guerras, o campo é um território habitado e amanhado por chusmas de gente de inúmeras competências rurais. Pastores, ganhões, quinteiros, terceiras tratam de rebanhos, lavras, ceifas, mondas.

Homens e mulheres aproximados fisicamente, na alegria dos trabalhos estivais, estão disponíveis para dichotes carregados de sensualidade e maiores brincadeiras. As descamisadas à obscuridade lunar, abrandado o calor diurno, são especialmente apetecíveis para jogos e folia. Um beijo por cada espiga de milho-rei funciona como atiçador. Quase sempre aparece um tocador de harmónio e o baile acontece; dança de corpos separados, de braços levantados, o corpo a saltitar, o rosto afogueado de entusiasmo, uns toques corporais — quem pode evitar?, quem quer evitar? As paixões incendeiam os corpos, depois dos rostos e, por vezes, uma escapada rápida é inevitável. Nunca dá para muito, às vezes é o início de um namoro, de um casamento. Quantos casais começam nas eiras? Os casados vão-se deitar, mas um dia tão longo ainda tem de prolongar-se mais uns minutos, para apaziguar os corpos, para o sono ser sossegado.

Os homens — e as mulheres — nunca estão satisfeitos. Mesmo os casados podem ficar a cismar com um olhar cheio de promessas, com outro corpo, com a sua apetência, com a sua disponibilidade. Muitas vezes não passam de devaneios, alguma tentativa tosca facilmente desarmada. O patrão tem outra manha, outro ascendente sobre as assalariadas.

Domingos Saruga não se deixou esquecer de umas coxas brancas, robustas e molhadas, cujos sobrejoelhos vislumbrou na ribeira. “Zabel”, a mulher do ganhão, estava a lavar a roupa, metida na água, com a saia enrolada na cintura, enquanto dois gaiatos andavam por ali a brincar com os seixos. Domingos passava a caminho do rancho, na lida desse dia: desbandeirar parte da beirada de milho. Entre saudações e despedidas, houve tempo para uns gracejos:

— Boas tardes! Tá calor, hã? — fez Domingos, com a bota apoiada num pedregulho.

— Boas tardes! Aqui nã se está mal… — Isabel, sorridente, não deixou de esfregar a barra de sabão azul e branco numas calças encardidas.

— Tamém não me importava de estar aí!… — insinuou Domingos. — nõ sei é se me passava o calor… — arriscou.

— Ó patrão, se o calor é desses, o melhor é ir ter com a patroa, a ver se ela lho tira… — lançou a rapariga, em risada.

No domingo seguinte, na missa, depois dos ora pro nobis e dos miserere, o padre veio com uma prática que parecia feita para ele e lhe deu umas ideias. Era a história do rei David e de Betsabé. O rei vira-a a tomar banho, desejara-a e seduzira-a. Como era casada, o rei mandou o marido, militar, para a frente de batalha para morrer, e ficou com ela. Não havia só a coincidência do banho; o nome Betsabé também fazia lembrar Zabel. E a guerra era ali ao lado, em Espanha, em tempos de avançada nacionalista. Às vezes, ouviam-se tiros. Não era má ideia afastar o ganhão, para se poder aproximar da mulher dele.

Nessa mesma tarde, Domingos comunicou-lhe a ordem:

— Amanhã, vais para o Vale do Espinho, lavrar a encosta do Monte da Anta. Vamos lá semear feijão pequeno.

O dito monte ficava a uns bons dez quilómetros e não passava de um terreno aberto.

— Atão, mas não há lá casa nem nada!

— Está bom tempo. Dormes debaixo do carro!

O dia seguinte era dia de mercado de gado na cidade. Domingos não falhava um. Depois de se inteirar dos preços do gado, de um ou outro bocado de conversa e de comer a bucha que levava, entrou numa das duas ourivesarias da cidade e quis ver brincos. De conversas anteriores, sabia que Isabel ambicionava uns brincos novos para levar a um casamento daí a meses.

— É para a sua senhora ou quer melhor? — perguntou o matreiro ourives.

— Vossemecê arranje-me aí uma coisa em conta! — Apesar da importância do motivo, Domingos não queria gastar muito. Se tinha arranjado algum, não era a esbanjar.

Escolheu uns simples, mas de filigrana fina. A rapariga ia gostar.

No dia seguinte, passou “casualmente” pela pequena horta que cedera ao casal e iniciou a aproximação com conversa mole, tendo o cuidado de esperar que os miúdos se afastassem. Andavam na rega da manhã.

— A aguinha é o que vale à horta, senão secava tudo, nõ é?

— O sol já vai alto. Daqui a bocado nem parece que a horta foi regada.

— É o calor do tempo. A esta hora é sempre a subir. É cmó meu...

— Ai, patrão, meta os pés na água qu’isso passa.

— Já experimentei de tudo. Não passa de maneira nenhuma. Mas, eu sei como é que ele passava e quem mo fazia passar... E tu também sabes. Dava-te uns brincos, Zabel!

— Nõ diga isso, patrão, que é pecado — reagiu Isabel, com pouco vigor. O malvado tinha encontrado a palavra mágica.

— Hoje à noite no palheiro, quando eu for arraçoar o gado.

— Ó patrão… Não pode ser… Depois o que é que eu dizia ao meu Zé?

— Que é uma paga por ter ido trabalhar para fora.

Isabel ficou o resto do dia em grande inquietação. Não queria fazer aquilo, por mais que lhe agradassem uns brincos novos. Mas como é que podia dizer “não” ao patrão? Alvoroçado como andava, se calhar ia ficar tão danado que era capaz de despedir o seu Zé. Isso não podia acontecer. Não havia assim tanto trabalho na zona. Em desespero, lembrou-se de pedir ajuda à patroa. Talvez ela intercedesse para que o marido não despedisse o Zé.

À tardinha, antes de o patrão regressar a casa, Isabel contou à patroa as encrencas em que o patrão a tinha enredado.

— Ai, o valhaco! — reagiu Assunção, genuinamente arreliada. Ali ao lado da casa, nas barbas dela, salvo seja? — Deixa estar que eu trato disso. Vai descansada, mas fecha-te em casa. E não digas nada a ninguém. Nem ao teu marido, senão há sangue!

Assunção e Domingos cearam normalmente, mas este parecia um pouco ansioso. No fim, levantou-se e anunciou:

— Vou arraçoar o gado!

Logo que o marido saiu, Assunção deixou a candeia acesa, mas escapou-se rapidamente pela porta das traseiras e entrou no palheiro cautelosamente por uma porta secundária, protegida pelo escuro da hora e um lenço pela cabeça. O marido já lá estava e repetia em surdina:

— Zabel! Zabel!

Assunção já tinha escolhido o sítio — uma zona de palha limpa espalhada no chão, na zona mais escura do palheiro. Fez um “ch, ch” suficientemente baixo, que não desse para identificar o timbre de voz. Domingos seguiu o som. Conhecia bem o palheiro. Em menos de nada, chegou ao pé da mulher. Às apalpadelas, encontrou-lhe o busto. Sentiu a macieza das carnes. Em grande excitação, agarrou aquele corpo disponível.

— Amandei-lhe as mãos às tetas, às nalgas, à abêbera — fanfarronaria, na segunda-feira seguinte, para o amigo de confidências, também agricultor.

Arrastou a mulher para o chão e, em urgência, afastou roupas e pernas.

— Boa com’um raio! Aluada que nem uma bezerra! Encavei-lhe o vergalho naqueles entrefolhos e fiquei ali a gozar! À patrão! — concluiria Domingos.

O gozo sobreveio antes do diabo esfregar um olho, intenso, avassalador, tempestuoso.

«Tanta pressa! Até parece que passa fome em casa…» — notava Assunção, atenta e um pouco divertida.

«Parece que levei uma marrada!» — pensava Domingos, ainda atordoado. Depois levantou-se e começou a compor-se. Antes que a mulher se afastasse, meteu a mão no bolso das calças e tateou a mão dela:

— Toma os teus brincos. Ganhaste-os bem! Vai, vai lá! Ma nõ digas nada!

Assunção não tinha preparado nenhuma ação especial; nem imaginara como as coisas pudessem passar-se. Uma ideia perversa assaltou-a: podia repetir a farsa mais vezes. Mas logo reconsiderou. Não podia deixar que ele continuasse a pensar que tinha estado com a Zabel.

— Atão! Sabe-te melhor aqui do que lá em casa?

Mergulhada no escuro, Assunção lamentava não poder ver a cara do marido. Seguiu-se um longo e opressivo silêncio. Nem cara, nem voz. Por um momento sentiu apreensão. Se calhar, não devia tê-lo confrontado já. A reação dele demorou, mas, quando chegou, regozijou-a e deu-lhe a certeza da vitória:

— Rais parta as mulheres! — resmungou alto, afastando-se para deitar feno ao cavalo, à burra e a uma junta de vacas.

Em casa, depois de confirmar que não tinha palhas agarradas à roupa, Assunção apreciou os brincos. Já não se lembrava de quando é que ele lhe tinha dado uns. E o entusiasmo? «Só talvez por alturas do casamento» — calculou, despeitada. «O valhaco!» Com jeito, colocou-os e mirou-se num pequeno espelho, à luz da candeia de azeite. «Ficam-me bem! Acho que vou passar a usá-los. E hei de dar à Zabel os que já não uso, para ela levar ao casamento da prima.»

Recomeçou a arrumar a loiça. Domingos ainda demorou um bocado. Quando entrou, encontrou-a ao pé do lume, mas não disse nada e foi logo deitar-se.

Assunção ficou ainda algum tempo a meditar em tudo o que tinha acontecido. O malvado não tinha estado com outra mulher, mas, para o caso, era como se tivesse estado. A traição não tinha comparação com qualquer outra zanga. Era amargosa e verde como os concilhos. Aqueles brincos seriam o lembrete silencioso de um dia em que Domingos tinha posto o pé em ramo verde. E lhe tinha corrido mal. Que ele teria de encarar todos os dias.


Joaquim Bispo

*

Imagem:

José Malhoa, Clara, 1903.

Museu do Chiado, Lisboa.

* * *






terça-feira, 17 de maio de 2022

Três poemas de Rodrigo Luiz P. Vianna




o cabelo seco ao sair das águas

e o pássaro na estante

desperdiçam o azul


***


                                        mar movimenta o desenho da noite


                                        as pérolas presas no peito

                                        ondulando unidas

                                        lembranças da espuma


***


                                                                                                  sussurro à areia

                                                                                                  em tua orelha


                                                                                                  lua


                                                                                                  e se cumpre a pérola

                                                                                                  completa destino


                                                                                                  inúmeras palavras dentro do mesmo corpo



Do livro "Textos para lembrar de ir à praia", Editora Reformatório/Patuá.






sábado, 7 de maio de 2022

A Consulta


 

Sentou-se com o cuidado exagerado de quem está habituado a considerar todos os móveis demasiado frágeis e pequenos para o seu imenso peso. Mesmo assim, a cadeira que escolhera por não ter braços e lhe parecer ser a mais sólida do consultório rangeu bem alto e estremeceu fortemente, ameaçando desmoronar-se. Por meio de alguns movimentos minuciosos e bem ponderados foi-se ajeitando até se sentir confortável e bem apoiado. Deu um grande suspiro de alívio e satisfação e só então contemplou o psiquiatra, que via pela primeira vez.

Fora-lhe altamente recomendado por conhecidos e amigos como sendo um dos melhores especialistas de doenças nervosas. No entanto, o seu aspeto franzino e como que encolhido, a careca rebrilhante, os minúsculos óculos de aros dourados, encavalitados na ponta do nariz e as roupas antiquadas e bastante enrugadas não incutiam muita confiança. Hesitou, mais uma vez. Nunca gostara de psiquiatras e sempre desconfiara de quem os consultava. Confiar totalmente em terceiros para a resolução de problemas íntimos e pessoais parecia-lhe ser um dos muitos exageros perigosos da sociedade atual e algo que devia ser evitado a todo o custo. Mas os seus problemas tinham atingido uma dimensão tal que já não conseguia continuar a trabalhar com a eficiência esperada de quem ocupava um lugar de responsabilidade. Decidiu-se, pois, a falar.

Numa voz inesperadamente melodiosa por provir de tão descomunal corpo, delineou em poucas palavras a situação que o levara a consultar um especialista. Trabalhava desde sempre num dos principais hotéis de luxo da cidade. Colocado no patamar intermédio da enorme escadaria de acesso aos numerosos salões, a sua função era refletir os hóspedes que subiam ou desciam os seus degraus. Durante muitos anos executara fielmente essa missão, com a qualidade exigível a um espelho da mais alta qualidade. Gostava do seu trabalho, sempre variado, agradando-lhe sobretudo as épocas de grande azáfama em que era chamado a intervir continuamente, por vezes durante horas a fio.

Ultimamente, porém, tudo se alterara. Sem que soubesse realmente porquê sentia-se totalmente desmotivado, entrando mesmo em pânico quando detetava a aproximação de alguém. Os grupos, então, deixavam-no num estado de prostração nervosa tal que só muito a custo conseguia cumprir as suas funções. Vivia num estado de angústia permanente devido ao temor de ver chegado o momento em que falharia por completo, tornando-se incapaz de refletir fosse o que fosse. Nos breves momentos de sonolência tinha sonhos cada vez mais frequentes em que entrava um imenso martelo que o estilhaçava, fazendo-o em mil pedaços e acabando de vez com os seus problemas e preocupações. Sentia grande dificuldade em repousar sempre que não era necessário, pois durante esses instantes, por vezes bem longos, só conseguia pensar, com ansiedade, que em breve alguém apareceria, sendo então necessário voltar ao trabalho.

Tentara todo o tipo de medidas e curas recomendadas por amigos e conhecidos: meditação de vários géneros, exercícios respiratórios e de relaxação muscular, auto-hipnose, frases encantatórias repetidas vezes sem conta ao longo do dia e, até, certas ervas supostamente calmantes. Nada resultara. Embora com imensa relutância, decidira-se, por fim, a consultar um especialista. Era a sua última esperança, pois não lhe restavam grandes ilusões: mais cedo ou mais tarde acabaria por falhar nas suas funções, sendo então ignominiosamente despedido ou, até, destruído.

Tendo dito tudo o que lhe parecia ser necessário para a análise da situação, calou-se. Alguns minutos se passaram, num silêncio total e bastante incómodo para o paciente. O imenso vulto retangular do pesado espelho movia-se nervosamente na cadeira, apesar dos protestos audíveis desta e do perigo, bastante real, de uma queda. Olhava com fixidez para o psiquiatra como se esperasse que uma simples palavra deste chegasse para o libertar dos seus problemas. Era óbvio que esperava um milagre, apesar da sua alegada desconfiança. Mas este nada dizia, limitando-se a olhar para o tampo da secretária e para os vários papeis que colocara à sua frente.

Começava a arrepender-se de ter vindo. As suas ideias sobre o que se passava neste tipo de consultas eram bastante vagas, mas mesmo assim nada decorrera de acordo com as suas expectativas. Pensara encontrar um pessoa decidida e incisiva que uma vez ouvida a sua breve narrativa dos factos propusesse de imediato uma solução simples e eficaz. Algo que o salvasse, devolvendo-lhe a tranquilidade e a paz de espírito que conhecera durante tantos anos e que tão necessárias lhe eram. Suspeitava, porém, que isso não iria acontecer.

O psiquiatra decidiu-se, finalmente, a falar. Lentamente e com uma voz monocórdica e demasiado baixa para poder ser escutada sem esforço, começou a fazer-lhe perguntas. Era evidente que não ficara satisfeito com o que ouvira, querendo mais detalhes sobre a vida do grande espelho e o modo como ocupava os seus dias. Este tentou satisfazê-lo o mais completamente possível, embora não lhe agradasse devassar deste modo a sua intimidade.

Não se lembrava lá muito bem da sua infância. Apenas sabia que fora uma encomenda especial, executada com as mil precauções e cuidados exigidos pelas suas enormes dimensões. Uma vez acabado, fora de imediato instalado no seu local de trabalho, muito antes do final das obras, ajustando-se sem problemas ao espaço que lhe fora destinado. Apesar das inúmeras, e por vezes bem profundas remodelações sofridas pelo hotel, nunca fora mudado para outro lado, nem mesmo a título provisório. A sua qualidade era das melhores e nunca necessitara de tratamentos ou ajustes de qualquer espécie. Era limpo diariamente e podia gabar-se de apesar da sua provecta idade não ter falhas, zonas baças ou riscos.

A sua primeira recordação mais precisa remontava ao dia da inauguração do hotel. Lembrava-se muito bem do nervosismo e excitação que sentira nas horas de azáfama que tinham antecedido tão momentoso evento, horas essas que passara perguntando a si mesmo se seria capaz de executar devidamente as suas funções, se estaria à altura de tão importante cargo. É claro que já fora testado vezes sem conta, na fábrica donde saíra e ali mesmo, refletindo perfeitamente os operários e empregados que se apressavam nos últimos preparativos.

Só que agora era mesmo a sério. Sabia que uma imensa multidão em breve invadiria a escadaria que estava a seu cargo, dirigindo-se para as variadíssimas festas e cerimónias previstas para aquele dia. Seria necessário trabalhar sem parar durante horas e horas, tanto mais que haveria inúmeros curiosos interessados em observar de perto a parte pública do primeiro hotel de luxo da cidade.

Mas tudo correra o melhor possível naquele primeiro dia de trabalho e quando o último hóspede se retirara pudera descansar com a satisfação do dever bem cumprido. Sentia-se completamente exausto, mas em paz consigo e com o mundo.

Não se lembrava de muitos detalhes daquele dia, pois a novidade e a excitação sentidas eram demasiado grandes para isso. Mas com o passar dos tempos aprendeu a manter a calma, podendo, então, dedicar a sua máxima atenção às pessoas que o utilizavam. Descobriu que isso o divertia bastante, pois naquele imenso hotel havia todos os dias acontecimentos novos, frequentados por todo o tipo de pessoas vestidas das mais diversas maneiras. As modas iam mudando ao longo dos tempos, sendo umas mais elegantes do que outras, mas tudo era novidade para quem nunca saía dali, tendo de esperar que fosse o mundo a vir ter com ele.

A princípio limitara as suas atividades a refletir o mais fielmente possível a imagem dos clientes que frequentavam o hotel. Apercebia-se, é claro, dos sons que faziam quando se deslocavam em conjunto e do barulho, por vezes, ensurdecedor dos grupos numerosos que subiam e desciam a escadaria. Mas estes eram totalmente ininteligíveis. Nem lhe ocorria perguntar-se o porquê de tal atividade sonora, que estava muito para além das suas capacidades.

Um dia, porém, colocaram no seu patamar um painel de madeira escura, que anunciava em bem desenhadas letras brancas as várias atividades disponíveis nos diversos salões do hotel. Era um painel quadrado, bastante grande e apoiado em três pés demasiado finos e deselegantes. Estava um pouco de viés e afastado da parede, mas mesmo assim o seu conteúdo era bem visível para quem subia os degraus. O espelho não gostou muito da sua vinda, pois achava que destoava do ambiente elegante e sofisticado da bela escadaria. Além disso, cortava-lhe um pouco a visão, pois o reflexo das suas costas ocupava um dos cantos da imagem, até aí desimpedida, que era permanentemente refletida pelo imponente espelho.

A solidão das inúmeras horas em que nada tinham para fazer levou-o, contudo, a conversar um pouco um com o outro, primeiro com uma certa desconfiança mútua, depois com um entusiasmo sempre crescente. O painel já ocupara diversas posições no hotel, podendo-se mesmo dizer que passara por todos os andares e situações. Tinha, por isso, muito mais para contar que o pesado espelho, que nunca dali saíra e cuja experiência se limitava ao que se passara naquela escadaria ao longo dos anos, por muito interessante que isso pudesse ser, em particular para o historiador que o painel dizia ser.

À força de ouvir ler os anúncios que lhe eram confiados o painel aprendera, até, a entender o que diziam as pessoas, pelo menos a maior parte delas. Foi assim que o espelho descobriu que os sons emitidos pelos seus clientes tinham um significado, uma razão de ser. Encantado com a hipótese de ampliar as suas capacidades apressou-se a aceitar com gratidão o oferecimento do painel de anúncios, que se propôs ensinar-lhe tudo o que sabia a esse respeito durante o tempo, breve ou longo, da sua estadia naquele local.

O espelho era um aluno atento e aplicado, aprendendo com uma rapidez surpreendente em alguém já de certa idade e com tão pouca experiência do ensino. Por isso em breve sabia tanto como o seu mestre, embora tivesse ainda alguma dificuldade com as palavras ditas demasiado depressa ou com uma entoação mais estranha. E ainda bem que assim foi, pois o painel de madeira foi removido ao fim de poucas semanas passando a executar as suas tão necessárias funções no amplo átrio do hotel.

De novo só, o nosso herói decidiu pôr em prática os conhecimentos recentemente adquiridos, ficando imediatamente fascinado com o mundo que se lhe abria graças a esta nova habilidade. E não lhe faltavam oportunidades para testar as suas novas capacidades. Pela primeira vez apercebeu-se do imenso mundo sonoro que o envolvia permanentemente. Tantos sons diversos, tanto barulho! O silêncio passou a ser a exceção, pois mesmo quando estava desocupado havia sempre um certo ruído de fundo, que só com dificuldade conseguia ignorar. Parecia-lhe que as pessoas eram totalmente incapazes de subir ou descer em silêncio, tendo sempre algo a dizer, a comentar. Por várias vezes detetou, até, seres isolados que apesar disso falavam para o ar ou, quem sabe, lhe dirigiam a palavra.

Era realmente maravilhoso. Parecia-lhe impossível ter vivido tantos anos ignorando por completo uma parte tão grande da realidade que o rodeava, limitando a sua experiência à parte visual que, sentia-o agora, era apenas uma parcela bem pequena do todo que era este complexo universo de seres e de sons. Sentia-se imensamente grato ao painel de madeira, tão detestado de início, que lhe possibilitara este aumento de conhecimentos e, também, de distração.

Durante algum tempo limitou-se a ouvir isoladamente as palavras pronunciadas na sua presença, esforçando-se sempre por compreender as que desconhecia e que armazenava com todo o cuidado para futura referência. As frases só lhe interessavam quando precisava de interpretar novos vocábulos e não prestava grande atenção ao seu conjunto, nem ao que poderiam representar de sentimentos e emoções.

Uma vez passada a novidade, porém, dedicou-se cada vez mais a este novo aspeto do mundo dos sons, que lhe abria perspetivas desconhecidas e absolutamente fascinantes sobre as pessoas que sempre considerara como sendo apenas algo a refletir com a máxima fidelidade. E assim nasceu uma obsessão que lhe ocupava todos os pensamentos e os momentos disponíveis.

Com o enorme número de exemplares humanos ao seu dispor e a tagarelice sem fim que lhes parecia ser absolutamente indispensável, em breve se tornou um verdadeiro especialista da natureza humana. Sentia por tão frágeis seres uma atração sem limites e que o absorvia por completo. Como eram complicados! E tão diferentes uns dos outros, mesmo quando se assemelhavam fisicamente!

Uma noite, porém, ouviu uma frase que lhe desagradou e o chocou profundamente. Havia uma grande festa num dos salões e os convivas tinham-se esmerado nos trajes e joias que usavam. O nosso espelho estava encantado com as ricas imagens que refletia e recordava com uma certa nostalgia outras noites igualmente magnificentes, algumas delas já bem distantes. Um grupo de três mulheres parou, por instantes, mesmo à sua frente. Nada havia de inédito em tal facto, pois o enorme espelho estava colocado num sítio bastante conveniente para as últimas verificações e ajustes na aparência dos hóspedes. O que o transtornou, porém, foi ouvir uma delas dizer:

- Mas que espelho tão horrível! Vejam só como me torna amarela!

Apressou-se a verificar a sua capacidade de reflexão e a qualidade da imagem, mas tudo estava em ordem. A convidada tinha um tom de pele verdadeiramente amarelado, mas que culpa tinha ele disso? Mesmo assim, ficou preocupado. Parecia-lhe que, embora sem qualquer culpa direta, era ele o responsável pela tristeza e desânimo sentidos por aquela convidada. Apressou-se a afastar tal pensamento mas não o conseguiu. A imagem odiada fora da sua responsabilidade, por isso devia ser ele o culpado.

Durante os dias que se seguiram debateu incessantemente consigo próprio este problema. Fora criado para refletir o mais fielmente possível o mundo que o rodeava e sempre se sentira satisfeito por saber que o fazia com o máximo de qualidade e eficiência. Mas isto não parecia ser o suficiente, uma vez que desagradara a um dos seres humanos que tanta importância tinham ultimamente adquirido aos seus olhos.

Ainda teve esperanças de que o descontentamento que ouvira se limitasse àquela pobre mulher. Mas agora que este assunto fora trazido à sua atenção reparou que muitos outros se sentiam aborrecidos com o que viam refletido no espelho, culpando-o muitas vezes pelas suas próprias imperfeições e defeitos. Era verdadeiramente inacreditável! Como podiam os seres humanos ser tão ilógicos e injustos?

Aos poucos, porém, um sentimento de preocupação sobrepôs-se à irritação sentida perante tão infundadas críticas. Com razão ou sem ela, justa ou injustamente, estava a causar sofrimento a outros seres. E isso era absolutamente inaceitável. Tinha de começar a fazer algo para remediar tal estado de coisas.

Com base nos inúmeros comentários e frases que ouvira ao longo dos tempos tinha criado uma imagem mental bastante precisa sobre o que a maior parte dos humanos considerava uma aparência física interessante e desejável. Embora sentindo graves dúvidas a esse respeito decidiu-se a intervir no sentido de melhorar ligeiramente a imagem nele refletida pelos diversos clientes do hotel.

A sua primeira mentira teve lugar quando viu aproximar-se uma rapariga bastante deselegante, rodeada por outras bastante mais belas. A sua experiência dizia-lhe que ela iria ficar triste e culpá-lo pela diferença que não deixaria de notar ao ficar de frente para a parede espelhada. Contorceu-se, pois, um pouco nos locais certos e a imagem que nele surgiu só muito vagamente fazia lembrar o vulto da rapariga que se encaminhava para ali. Esta, porém, ficou completamente satisfeita com a sua reflexão no espelho, fazendo vários comentários sobre o bom aspeto que apresentava nessa noite.

O espelho sentiu o seu espírito ainda mais dividido. Por um lado, sabia que estava a trair a missão para que fora criado, deturpando os factos e mentindo de uma forma bastante crua e descarada. Por outro lado, era indiscutível que o seu ato causara grande prazer e satisfação. Se até aí sentira grandes dúvidas sobre o que fazer no futuro, estas só aumentaram em vez de diminuir.

Com o passar do tempo, porém, e o sempre constante acumular de modificações e alterações introduzidas nas até então fieis imagens que refletia, os seus escrúpulos foram desaparecendo. É claro que fora criado para servir os humanos e devia-lhes o máximo de fidelidade possível. A honestidade era uma coisa muito bonita, mas de que servia se só causava dor e insatisfação?

Era até com uma certa despreocupação que emagrecia daqui, alteava dali, atenuava dacolá, sempre na procura do melhor efeito possível, na tentativa de obter um resultado próximo do ideal humano de beleza. E não se pense que isso era fácil! É claro que quando tinha de lidar apenas com uma ou duas pessoas de cada vez o esforço exigido era insignificante, quase nulo. O caso era bem diferente quando chegava um grupo numeroso. Aí, sim, tinha de recorrer a toda a sua habilidade para conseguir satisfazer os anseios de todos, ou de quase todos. Era um trabalho esgotante, que exigia grande habilidade e uma atenção minuciosa aos detalhes, mas que lhe dava uma grande satisfação e a sensação de ser um verdadeiro artista.

As coisas continuaram assim durante bastante tempo. As suas funções pareciam ter mudado, embora por iniciativa própria, mas eram executadas com a mesma eficiência e qualidade de outrora. O espelho sentia-se bem, tendo deixado de se preocupar com especulações inúteis sobre a verdade e a mentira, a realidade e a aparência.

Ficou, por isso, muito surpreendido quando se começou a sentir esgotado, nervoso e em pânico. Não compreendia o que se estava a passar com ele, nem porque se sentia tão mal numa altura em que o seu trabalho corria melhor que nunca. Dava grande satisfação a numerosas pessoas e ouvira dizer, por mais de uma vez, que fazer bem aos outros era um ato desejável e de louvar. Devia pois considerar-se um verdadeiro benemérito, um benfeitor da humanidade! E em vez disso ...

Esgotado de tanto falar, o pesado espelho afundou-se ainda mais na cadeira, remetendo-se a uma meditação profunda. Solidamente instalado por detrás da sua secretária, o psiquiatra olhava-o sem nada dizer, como que esperando que o paciente chegasse por si próprio à inevitável solução do problema. Os minutos seguintes decorreram num silêncio pesado e prenhe de possibilidades. Por fim, o espelho levantou os olhos perturbados e balbuciou muito a custo:

- E se eu voltasse a dizer a verdade? ...

Não havia dúvidas. Sofria de um severo ataque de consciência!!!

Luísa Lopes

Imagem de Gordon Johnson por Pixabay 






terça-feira, 3 de maio de 2022

Beatles Forever

 

         Estamos no ano de 1967, mais precisamente em junho de 1967 e o mundo acaba de ser abalado por um cataclismo poético-sonoro cujos efeitos ainda hoje não foram totalmente rastreados ou compreendidos. Sabe-se, no entanto, que o efeito imediato foi devastador e que os efeitos secundários se estenderão ao longo do tempo enquanto o tempo tiver essa denominação.

         Este abalo musical tinha um nome comprido como longa e tortuosa e trabalhada foi sua elaboração. Era um objeto de vinil envolto por uma capa repleta de personalidades e de flores e que se chamava Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band. O Lp em questão havia sido gravado por um grupo de rock (não por acaso o mais famoso) conhecido como Beatles ou The Beatles ou The Silver Beatles ou Long John and the Silver Beatles ou Johnny and the Moondogs ou ainda e finalmente The Quarryman. Este último nome foi na verdade a primeira denominação do grupo, em 1957, portanto dez anos antes do divisor-de-águas ocasionado pelo Sgtº Peppers. Naquela época a formação dos Beatles trazia Pete Best na bateria e somente em 1962 é que Ringo Starr veio se juntar a John Lennon, Paul McCartney e George Harrison; formando então o famoso Fab(ulous) Four de Liverpool, cidade natal de todos eles, situada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey.

         O que se seguiu ao encontro destes quatro rapazes já é história. Primeiro foram as importantes presenças do empresário Brian Epstein (que chegou a ser chamado de “o quinto Beatle”) e do produtor George Martin. Depois vieram os inúmeros shows por toda a Europa, as turnês americanas, a instalação da beatlemania em todo o mundo e, paralelamente a toda essa loucura, as gravações em estúdio.

         A estreia se dá com o Lp Please Please Me (1963), logo depois aparece With The Beatles (1963); seguido por A Hard Day’s Night (1964) – também transformado em filme por Richard Lester e Beatles For Sale (1964). Em 1965 é gravado o disco Help! Com um filme homônimo também dirigido por Lester. A partir de 1966, com o Lp Revolver, os Beatles começam a consolidar uma nova e forte tendência musical-evolutiva delineada no Lp anterior Rubber Soul (1965) e que iria culminar em 1967 com a exuberância sonora & poética do Lp Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band, que significou uma ruptura definitiva com a música que eles mesmos faziam até então e com a própria música, tomada como um todo, que era feita na época pelos conjuntos de rock, daí sua importância como um marco deflagrador de todo um processo rico em criatividade que se seguiu. Ainda em 1967 sai o Lp Magical Mystery Tour (trilha sonora de um filme a cores realizado especialmente para a televisão). No ano seguinte foram lançados dois Lps: Hey Jude e o álbum duplo The Beatles ou White Álbum ou mais simplesmente ainda “Álbum Branco” como ficou conhecido no Brasil. Em 1969, já com todos os problemas se agravando e com um prenúncio de dissolução do grupo, os Beatles voltam aos estúdios da Apple e destilam seus talentos em mais dois Lps de excelente qualidade: Abbey Road e Yellow Submarine, este último transformado em um desenho animado para o cinema com trilha sonora composta e orquestrada por George Martin (lado 2 do disco). Em 1970, ano da separação oficial do grupo, foi lançado o Lp Let it Be juntamente com o filme que levava o mesmo nome. Foi, na verdade, um lançamento patrocinado pela gravadora EMI e produzido por Phil Spector sem o conhecimento e a aprovação formal dos Beatles e inclusive com críticas destes quanto ao resultado final. Mas os Beatles já não existiam mais como conjunto e o disco acabou saindo. Apesar de tudo Let it Be é muito bom e digno de constar com igualdade de condições na discografia oficial.

         Depois disso veio o fim do grupo, o fim do sonho (“the dream is over”), mas com o direito de ainda prolongar a noite em que se sonhava por mais um Lp: Beatles Forever (1972), lançado somente no Brasil, Argentina e Espanha, contendo algumas das suas melhores músicas.

         Mesmo para alguém que não tenha vivido aquela época (aquela mágica década de 60 e seus desdobramentos nos anos 70) basta uma simples audição das músicas dos Beatles para compreender que o legado deste conjunto é permanente e imune à corrosão do tempo (este elemento que realmente define o “quem é quem” nas artes no fim das contas).

         Cinquenta e quatro anos depois da explosão do grupo nós podemos perceber ainda hoje sinais evidentes da permanência e até mesmo de um novo ressurgimento (“eterno retorno”) do fenômeno Beatles. Aquele final da música A Day in the Life idealizado por Lennon nos estúdios de gravação, pode ser estendido e aplicado aos próprios Beatles, ou seja, a ideia de “um som evoluindo do nada até o fim do mundo”. Esta frase diz bem da trajetória e é uma síntese musical do grupo. Os Beatles serão sempre este som evoluindo do nada até o fim do mundo, até o fim de tudo. Sempre.

 


 

 





quinta-feira, 28 de abril de 2022

Premonição

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O vento assobiava e atirava as folhas mortas pelos ares. Manchas vermelhas e castanhas riscavam os céus de chumbo proclamando a morte do verão. Ecos de guerra troavam ao longe em fulgurantes clarões no horizonte enquanto uma voz angelical entoava um cântico triste, perdido na distância.

A pouca distância, o descomunal templo gótico de fachadas graníticas estranhamente erguido sobre alicerces de tijolos barrentos que ameaçavam desmoronar.

Desorientado, caminhei para a igreja e olhei os meus pés descalços com cortes e feridas de muito caminhar. Calquei cada um dos degraus de pedra onde deixei ensanguentadas impressões, indicando o caminho a quem viesse a seguir.

As imensas portas estavam abertas de par em par e eu cruzei a galilé para ver o ar entre as colunatas dominado pelas folhas e pelo pó esvoaçantes que maculavam o espaço sagrado. Dos vitrais, muitos metros acima, desciam focos de brilhantes poeiras que acabavam repousando em estranhas formas sobre o soalho gasto e arrombado.

Caminhei sobre as tábuas onde sabia terem caminhado milhares de fiéis antes de mim, onde marcharam garbosos cavaleiros e reis. As capelas laterais, quer do lado da Epístola quer do lado do Evangelho estavam vazias e nuas, como se os seus ocupantes se tivessem mudado para outras paragens menos agrestes ou simplesmente estivessem cansados a sua eterna vigília. A igreja vazia e só oprimia o meu coração e fazia-me sentir a solidão e a ausência da fé. Temia que, naquele dia de eclipse, se eclipsasse também tudo aquilo em que acreditava.

Chegado ao transepto, vi os púlpitos abandonados e decadentes, cobertos de trepadeiras que desciam descontroladas para o chão, esquecidos dos tempos em que se pregava a palavra do Senhor.

No presbitério a situação não era melhor. O espaço estava cheio de informes pedaços de pedra e alvenaria produto da derrocada da orgulhosa cúpula que em tempos a cobrira. Via-se o céu de chumbo pelo enorme buraco do teto e o disco solar, que conseguia romper entre as nuvens, estava mordido na quase totalidade pela sombra da Terra, anunciando dias negros.

Também o altar estava vazio de imagens e decorações apenas a imagem do Crucificado pendia da parede como uma ameaça sobre quem se atrevesse a aproximar. À esquerda havia um trono dourado vazio. A Férula estava encostada num dos braços e a Mitra com as Ínfulas abandonada no assento. Aguardavam o dono, ou estavam esquecidas, naqueles tempos sem Deus, com a igreja em ruínas, as guerras à porta e o próprio sol ferido de morte?

Apercebi-me só então que, acima das minhas canelas feridas, tinha a bainha da batina rasgada e a sobrepeliz suja e esgaçada. Também a mozeta escarlate estava rasgada e desalinhada e o solidéu desaparecera da minha cabeça. Confuso, ajoelhei frente ao altar e rezei entre lágrimas, temendo que fosse aquele o fim dos tempos há tanto anunciado. No chão a meu lado jazia um bordão com uma tira de tecido branco amarrada onde estavam escritas as palavras: “Peregrinus requiescit”[1]. Rezei com ainda mais fervor sabendo que aqueles tempos, aqueles em que o Trono estava vazio, eram os mais perigosos. As portas dos infernos podiam abrir-se sem que o Sucessor de Pedro cá estivesse para as encerrar com as chaves que o Pescador lhe confiara.

Pedi iluminação ao Senhor e implorei a Maria que intercedesse por nós junto do Omnipotente.

Quando tornei a abrir os olhos havia diante de mim um esbelto e reluzente anjo envergando uma túnica de um branco imaculado que me mostrava um livro de couro envelhecido, e uma tira de seda vermelha que marcava uma página onde se lia a seguinte frase:

“Depois do peregrino eslavo, virá o bávaro que sonhou a paz entre a guerra do mundo, mas o seu reino será curto.”

Uma fita de seda azul marcava outra página que folheei e li:

“Depois do bávaro, virá do novo mundo a humildade e o amor do povo.”

Maravilhado com tais profecias, tentei virar outra folha e o anjo segurou-me a mão, dizendo que não podia saber mais, mas a sua voz era como muitas trombetas que me encheram de terror.

Acordei, assustado e confuso, sentado no meu lugar no conclave. Conseguira adormecer durante o discurso de um dos meus irmãos cardeais, um dos que estava mais próximo, apercebendo-se da minha falta, sorriu-me.

Estava triste, mas depois deste sonho, sentia-me cheio de confiança. Depois do medo da desorientação e da dor, com o desaparecimento do já saudoso João Paulo II, a sua falta seria colmada em breve com um novo sumo-pontífice. Olhei os resultados da primeira votação: Ratzinger… sim, tudo se encaixava, aquele que tentara negociar a paz na primeira guerra. Seria ele o próximo.

Não acabaria aí, porém, apesar de todas as profecias de desgraças e apocalipses; depois dele teremos outro Papa e depois… só o próprio Deus o sabe.


[1] Latim - O peregrino descansa





segunda-feira, 25 de abril de 2022

MAD Talks

 


Na Associação Cultural e Recreativa Esmorecense é noite de espetáculo. O convite tinha sido afixado nas montras dos estabelecimentos comerciais e fora também enviado por e-mail para os sócios que tinham caixa de correio eletrónico. O texto pretendia ser apelativo:


«Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, vamos inaugurar na nossa Associação uma série de palestras proferidas pelo nosso sócio, Sr. Miguel Alves Dantas, a que, para honrar o orador, chamaremos M.A.D. Talks, à semelhança do que se faz lá fora. A imperdível palestra desta noite tem o sugestivo título de A estranha cura dos corações empedernidos.»


Pelas 21 e 15, já a plateia do pequeno auditório estava composta. Notava-se algum nervosismo entre os sócios. Cinco minutos depois das 21 e 30, entrou em palco o presidente da agremiação. O silêncio foi quase instantâneo. Aurélio Miranda deu dois toques no microfone, para confirmar que estava ligado, e anunciou:

— Muito boa noite! Obrigado por terem vindo. É uma honra receber-vos e é muito gratificante verificar que os nossos sócios e restantes conterrâneos corresponderam ao nosso convite. Como foi anunciado, o Sr. Miguel Dantas, reconhecido autodidata da nossa terra, vai dar uma pequena palestra sobre um assunto candente da atualidade, a que se seguirá um pequeno período de perguntas. Mas não vos canso com detalhes. É ele que vocês querem ouvir; é a ele que vou já passar a palavra. O vosso aplauso para Miguel Alves Dantas!

O visado subiu as estreitas escadas laterais do palco, sob uma revoada de palmas, fez um ligeiro aceno de agradecimento e, decidido, postou-se frente ao microfone de pé. As palmas terminaram de imediato e fez-se um silêncio atento.

— Caros amigos: — começou o orador, lançando um olhar por sobre toda a plateia — todos vocês me conhecem e sabem bem do meu gosto pelo saber e da curiosidade que tenho por tudo o que não entendo. “I have a dream”, como disse o poeta. Entre esses fenómenos, atingiu-me recentemente a extraordinária adesão de toda a gente à condenação da invasão da Ucrânia e da não menos surpreendente compaixão ativa por todos os que fogem dessa guerra abjeta. Já não vou para novo e posso dizer, sem risco de mentir, que nunca tal tinha visto. Nas televisões, rádios, jornais, redes sociais era, foi, é permanente a raiva por este ataque bárbaro da Rússia contra a Ucrânia, sem razão, sem desculpa. As pessoas mostram-se verdadeiramente indignadas com a situação. Horrorizam-se com as imagens de prédios esventrados, de mortos espalhados pelas ruas, de multidões a tentar fugir daquele pesadelo. Não estávamos preparados para tanta ferocidade.

Miguel Dantas fez uma pequena pausa para respirar. O auditório mantinha-se atento, embora nada do que estava a ser dito fosse novidade.

— Ora esta veemência contra uma guerra nunca se tinha visto. Só para falar na guerra contra o Iraque, em que igualmente não havia nenhuma justificação para um ataque, também foi uma guerra injusta, feroz, canalha. As forças americanas entraram por ali adentro a disparar sobre tudo e todos, a causar mortos sem conta, a destruir infraestruturas, alvos militares e a fazer vítimas civis sem pejo. Mas, se bem me lembro, delirávamos com os bombardeamentos, admirávamos a pontaria cirúrgica e a capacidade destrutiva dos mísseis, sentíamos algum conforto pelas vitórias do invasor, achávamos muito bem destruir tudo, até que Saddam Hussein e o seu exército fossem derrotados e derrubados.

A plateia agora manifestava algum agitar de cabeças, alguns reajustes de posição nas cadeiras.

— Agora, reparem na atenção que damos aos refugiados ucranianos, à pena que sentimos por eles e à vontade de ajudar que manifestamos, até enviando ajuda através das organizações que estão a fazê-lo. Tem sido maravilhoso, enche-nos de orgulho e limpa-nos a alma. Afinal, somos gente com G grande, somos capazes de solidariedade, a Humanidade pode rever-se em nós. Mas, como foi com os refugiados do Iraque? Alguma vez se organizaram pontes aéreas para ir buscar alguns? Alguma vez pensámos receber um casal em nossa casa? Reparem na diferença. É certo que, uma vez por outra, ainda nos afligimos com as centenas dos que se metiam de qualquer maneira pelo Mediterrâneo adentro e lá naufragavam e se afogavam. Foi o máximo que atingimos. Mas nunca conseguimos ultrapassar uma certa desconfiança, como que um conflito interno de amor-repúdio.

Miguel Dantas avaliou a assistência. Aqui e ali percebia-se que alguns dos presentes não concordavam completamente com o que estava a ser dito.

— Pois foi esta aparente incoerência que me atingiu com toda a sua estranheza. O que é que mudou? São assim tão díspares os cenários de guerra que nos levam agora a agir de uma forma muito mais humanitária? Os massacres de Fallujah eram menos terríveis que os de Mariupol? Serão estes mortos e estes fugitivos mais dignos de compaixão? Ou terá sido a lenta corrosão do tempo que nos mudou? Passaram dezanove anos. Será que houve uma alteração qualitativa da Humanidade de hoje, que se tornou mais sensível e dorida com os males que vê o próximo sofrer? Amigos…

Chegara o momento de Miguel Dantas revelar o que descobrira, ou pensava que descobrira. Não era preciso estar muito atento à fisionomia do palestrante para perceber um disfarçado sorriso no seu rosto um pouco macilento.

— Amigos — repetiu — o que se alterou não foi fruto de um desenvolvimento das características altruístas da Humanidade, da evolução no sentido darwinista, nem foram as características deste conflito que determinaram esta onda de compaixão e revolta. Eu acho que encontrei a explicação para este paradoxo. Pensei, examinei, vi gráficos, li análises e cheguei à conclusão que, lógica e humanamente, não há nenhuma diferença entre estes dois conflitos armados que justifique tão grande mudança da nossa interação com eles. Então, o que a motivou? Aqui surgiu-me, óbvia e luminosa, a explicação. O que é que temos tido neste últimos anos, que não tivemos no início do século? Uma pandemia global, intensa e duradoura. É isto, é! — afirmava Dantas, acentuando a certeza com acenos da cabeça, tentando matar à nascença a descrença que via nascer aqui e ali. — Um dia viremos a conhecer toda a extensão e a profundidade desta virose que mexeu com toda a nossa genética. Então, confirmaremos que ela nos tornou mais sensíveis, acentuando os sentimentos de empatia e compaixão pelos sofredores, ao mesmo tempo que fortalece os sentimentos de indignação e ódio pelos que infligem sofrimentos. Esta teoria explica esta contradição, é lógica e, por isto, orgulho-me dela. Agora, fico à vossa disposição para as perguntas que entenderem fazer.

Logo dois braços se levantaram. Dantas apontou para um rapaz com uma barbita rala, que lhe pareceu ser quem tinha levantado o braço primeiro.

— Sr. Dantas, tenho dificuldade em concordar consigo. Parece-me que existem diferenças importantes entre os dois conflitos que referiu e que podem justificar esta diferença de atitude geral que apontou. A começar por quem promoveu cada um dos conflitos. A invasão do Iraque foi executada pelo bloco militar de que o nosso país faz parte, o que determinou que a nossa comunicação social apoiasse a narrativa do invasor. Hoje, a mesma comunicação social condena as razões do invasor, que é adverso do bloco a que pertencemos, e, desta vez, mostra e dramatiza os horrores que acontecem no território invadido. Isto faz toda a diferença, não acha?

Dantas fez um trejeito de desconforto, e avançou para o microfone.

— O que o meu amigo diz é verdade em parte, mas, para que fosse relevante, teríamos de admitir duas condições irrealistas e até ofensivas. Primeira: que os jornalistas se guiam pelo seu arbítrio pessoal, em vez de pelo seu código deontológico, ou pior, que são uma espécie de agentes do bloco político-militar ocidental. Segunda: que as pessoas seguem submissamente tudo o que a comunicação social difunde. Que amam ou odeiam o que ela determina. E que acham que o que ela não mostra não existe. Não quero acreditar nisso. Acredito que, no geral, a comunicação social mantém uma equidistância informativa entre as partes, em vez de uma adesão militante a um dos blocos, como dizem alguns. E acho que as pessoas são críticas do que veem e sabem muito bem distinguir as situações. Só que hoje, devido ao vírus da COVID-19, os nossos mecanismos de empatia estão mais sensíveis.

Ouviu-se um risinho no fundo da sala e o rapaz que tinha feito a pergunta abanava a cabeça, nada convencido, mas Dantas já apontava para outra pessoa do público, uma rapariga com um único brinco do lado direito.

— O Sr. Dantas disse, e bem, que estamos muito sensíveis aos dramas dos refugiados ucranianos, mas já pensou que pode tratar-se de uma mera consequência do nosso racismo tendencialmente endémico? Há dias ouvi alguém notar que estes refugiados são lourinhos e lavadinhos e os outros eram “farruscos”. Não acha que o racismo pode ter tido aqui um papel?

— De maneira nenhuma! — declarou Dantas com veemência. — Isso seria de uma sordidez sem nome. Então nós estaremos a condoer-nos com uns, porque são branquinhos, e borrifámo-nos para outros, como que a exorcizar o nosso grau de “farrusquice”? Não acredito nisso! Se não fosse a pandemia, também nos borrifávamos para os ucranianos. É a minha tese.

No meio do zunzum que flutuava na plateia, levantou-se o braço de uma mulher, com um colar de pérolas de fantasia.

— Sr. Dantas, no Iraque havia um ditador que mantinha o povo debaixo da pata; na Ucrânia existe um regime democrático, com um presidente eleito, atacado por um ditador. Parece-me que será mais por aqui…

— Os refugiados são todos iguais: são desgraçados a fugir da guerra e da fome; da perseguição e da morte. Tanto no Iraque como na Ucrânia, fugiam e fogem da devastação causada por uma superpotência. Recuso-me a acreditar que a maioria das pessoas trate os povos conforme os regimes que têm — sejam ditaduras ou democracias aprovadas pelas superpotências —, e que deixe de ter compaixão pelas pessoas que nasceram nos países cujo modelo político não aprovam.

O burburinho acentuava-se. Antes que o orador entrasse em pormenorizações, o presidente da coletividade resolveu dar por concluída a sessão e entrou em palco. De rosto sorridente, deu um abraço ao orador e dirigiu-se ao microfone.

— E pronto, caros associados e público em geral; encerramos assim a nossa primeira palestra. Espero que tenham gostado. Quero agradecer ao Sr. Miguel Alves Dantas a sua brilhante comunicação e cá estaremos de hoje a um mês para mais uma MAD Talks. Até lá!

O salão da associação encheu-se com as palmas de quase todos os presentes, alguns estavam até a decidir não deixar passar a próxima palestra, mas outros pareciam muito desapontados e não tencionavam voltar. Miguel Dantas mostrava-se satisfeito e já antevia o êxito da palestra do mês seguinte de título “As tocantes declarações de amor das superpotências pelas populações dos países hostis".

Joaquim Bispo

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Imagem:

Georges de La Tour (atribuído), São Sebastião tratado por Irene, 1630.

Museu de Arte Kimbell, Fort Worth, Texas (EUA).

* * *





sexta-feira, 22 de abril de 2022

O Bilro Definitivo

 




Feito a vida, originou-se nas areias do mar. Nelas Grasler modelou os mais fabulosos castelos, torres além da terra e dos conceitos, santuários com muralhas, colunas salomônicas. Ornamentos neogóticos recriavam as catedrais de seus sonhos e delírios, e ao iniciar-se na escola os bonecos de argila concebidos em suas mãos fascinavam jovens e adultos e não raramente eram furtados. Aos sete anos cinzelava formas em ébano e gesso, aos treze em mármore, aos vinte fundia o bronze e com este e outros metais auferia o sustento de sua vida. A perfeição dos santos por ele esculpidos no ato do arrebatamento não limitava-se ao corpo e à figura humana mas também às vestes, delineadas com atenção e meticulosidade, o mesmo aplicando-se aos anjos melancólicos talhados em circunstâncias inocentes, cada fio de cabelo a exigir o contraditório esmero da obra inteira. Esculpiu animais cuja triste vivacidade amedrontava os mais reticentes, bustos de figuras heroicas em plena glória, fontes de água não menos relevantes ou virtuosas, e todavia fosse um escultor de sucesso desanimou-o as limitações da arte.

Queria, além da distinção, o sobrenatural, e ao divagar em torno desse enigma modelava esboços de futuras obras ou distraía-se com a invenção de figuras – e sem o saber pretendia conciliar suas meditações e ideias com a noção do divino. Tardou, mas anos depois, os dedos desfeitos em calos, mãos limitadas a escabrosidades, renovou-se ao esculpir gnomos. Primeiro fê-los vestidos, com tocas arrebitadas e botas descomunais, e todavia, ao avançar nesse inexplorado domínio, desnudou-os. Baixinhos e barbudos, sorriam como se conscientes de suas eróticas proporções, afinal exibiam a particularidade de um enorme órgão sexual.

Mas e por que fazê-los assim, indagaria um astro da televisão ao tê-lo em seu programa.

Pois isso, e somente isso, faltava às esculturas de Michelangelo, disse Grasler e fechou os olhos, calou-se. Enriquecera ao negociar as obras e, não só, havia uma correlação entre o sucesso e o tamanho dos falos, extensos além do exagero e do bom senso, além do bom gosto, os gnomos então acomodando-se satisfeitos e sorridentes acima dos membros, no chão enrodilhados feito cordas de navio.

Qual seria a mensagem transmitida através destas pirocas gigantescas, senhor Grasler? Pois tamanha demonstração de técnica, estética e inovação há de convir uma intenção anterior, não vinculada ao acaso.

Ah, com efeito, redarguiu Grasler, minhas obras não resultam do mero acaso ou, tampouco, da mera intenção, mas não entrarei, agora, em detalhes. Explicitarei a genealogia de meu criar num livro autobiográfico a ser lançado esta semana, Martelo Dos Deuses.

O entrevistador então enrugou a cara e inclinou-se em direção ao escultor, disse,

Senhor Grasler, tais membros não insinuariam algo extra, algo relativo a sua sexualidade, como falam os críticos?

Malgrado Grasler nada demonstrasse, estava, em seu íntimo, embasbacado. Jamais ouvira ou lera críticas com esse teor, e ao refutá-las mantinha a carranca inescrutável de sempre. Muito assusta o interesse em minha sexualidade, disse ele, e, mais ainda, o ofensivo interesse na sexualidade alguém. Não o interesse em si, esclareço, mas a forma como se busca na sexualidade um defeito.

Prosseguiu a entrevista sem outro clímax, e, ao completá-la o irritado escultor abandonou o estúdio. Entendera tudo: a eles interessava, somente, a sexualidade exposta em suas obras.

Depois de entrar em casa, desfez uma das esculturas à bengaladas e coices. Refeito e tranquilo, pôs-se a trabalhar. A madrugada enfrentou em claro, com ferramentas esculpiu a estátua que simbolizaria a próxima fase de sua carreira e, também, um segundo renascer artístico. Terminada dali a três semanas, era outro gnomo, este com um pênis de tamanho normal. Não mais os faria como antes, descomunais, e ateve-se a tal compromisso mesmo quando amargou o isolamento e o esquecimento.

Gnomos ordinários não interessam à sociedade, esclareceu o último dos marchands interessado nele. Museus recusavam as criações de Grasler, e outros patronos nem sequer o reconheciam. Incapaz de lidar com o fracasso, entregou-se à bebida, aos entorpecentes.

Nada como o excesso para nos confortar, disse ele então, horas antes de ser encontrado em um beco, nu e descabelado, roxo de frio, o cadáver agarrado ao mais bem dotado de seus gnomos.


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terça-feira, 19 de abril de 2022

Tempo-presente

 



Segunda-feira, 17 de janeiro de 2022. Devidamente anotado na memória. A data em que renasci. 7h5min, exatamente a hora em que pus o primeiro pé na rua, saindo de casa. Embaixo de chuva, rumo à Avenida Aguanambi, andava distraída, convencida de que seria um dia normal como os outros. Aliás, estava feliz e tranquila, porque a chuva me traz um alívio incomum, como se me lavasse, a água me levasse o peso; o dia de fato parece que passa mais rápido, mais leve. O grande infortúnio é que teria de trabalhar no estoque de uma grande loja, pelo segundo ano consecutivo. Levantar, para mim, era um fardo, porque, logicamente, teria de me deparar com o frenesi dos dias; pessoas sem tempo, descontando suas frustrações em mim; chefe gritando, me chamando de “lerda” para baixo; e eu tentando manter a calma, porque o salário-mínimo me mantinha em Fortaleza, e pagava os meus estudos. Na cabeça, uma seta: vou me formar em pedagogia e trabalhar com crianças, numa escola infantil. Enquanto não arranjava um emprego na área, teria de me virar assim; um mal necessário. Mãe, dona Zumira do Chagas, era a minha inspiração e preocupação. Ela morava a cerca de 180 quilômetros, na cidade de Quixadá, onde me criei. Digo por que a preocupação e a inspiração: ela, sozinha, cuidou de dez filhos, todos hoje adultos, dispostos e trabalhadores; e hoje está doente do coração, não pode fazer esforço, nem mesmo roçar, o que tanto gostava de fazer. Portanto, a minha sina era cumprir a meta para, se possível, voltar para a minha terrinha e lá montar uma escola de educação infantil. Andando e pensando nisso, e em tantas outras coisas, fui arremessada por uma moto para o outro lado da rua, quase esquina com a Avenida Aguanambi. Lembro-me de alguns detalhes – como o som da minha perna quebrando com a pancada –, mas, depois que caí na calçada, não sei mais de nada. Segundo o piloto da moto, fiquei desacordada por uns dois minutos, e tive uma convulsão. Ele estava desesperado, ainda no hospital. Pelo menos, não foi um desses canalhas que matam e fogem. Ele me socorreu. Chamou o Samu e, enquanto eu estava apagada, jogava água gelada na minha cabeça, para limpar o meu rosto e me acordar. Despertei praticamente com a zoada da ambulância. Havia uma multidão me cercando. Só Joel, o que causou o acidente, e uma senhorinha de nome Elvira, fizeram os primeiros socorros, que, segundo o médico, permitiram que eu vivesse. Felizmente, não houve nada sério com a minha cabeça, fora os cortes e as luxações. A perna, de fato, quebrou em três partes, e tive de fazer duas cirurgias corretivas, em datas diferentes. Joel cuidou de mim no tempo que pôde. Ele era entregador de comidas por aplicativo. Disse, e cumpriu o prometido: que compraria os remédios e ficaria ao meu lado, nas suas horas livres. De tanto ele ir me visitar, uma leve raiva foi se apagando. Ele me contava que, naquele dia, estava distraído pelo volume de atividades; que não havia dormido direito, e sempre me pedia desculpas, com tanta sinceridade, que eu o desculpava e dizia-lhe que não repetisse mais o pedido; que estava tudo resolvido entre a gente. Também abriu o jogo da vida, dizendo que era do interior, de Aracoiaba – que, por sorte, eu conhecia, e era o motivo de nossas conversas intermináveis, sobre o sertão; que morava só na cidade há cinco anos; e que tinha o desejo de largar essa correria. Vários pontos se afinavam. Tínhamos a mesma origem e os mesmos valores. Passei a olhá-lo com outros olhos, e aí o achei até bonitinho – um sinônimo para feio arrumado. Logo, considerei que ele era interessante; não era de se jogar fora. Quando saí do hospital, com um mês, cheia de ferros na perna, já foi com Joel sendo o meu namorado. As enfermeiras se despediam e batiam palmas; fizeram a maior festa. Lúcia, uma das que virou minha amiga, achava aquilo muito improvável e dizia ser um milagre. Para mim, era um tremendo exagero, mas ouvia de bom grado. Com mais um mês, me mudei de mala e cuia para a casinha do Joel; sim, nos juntamos. Eu precisava de cuidados e ele, de companhia. Sei que, por ironia do destino, encontrei um amor, do nada, numa situação estranha e difícil. Estamos há três anos juntos, com a promessa de um casamento formal, de papel passado, e um filho, que chegará em quatro meses. Nossa história, até hoje, serve de estímulo para as almas padecidas. Lúcia, aquela nossa amiga, ainda acredita num grande amor, mas rejeita, veementemente, um começo trágico como o meu. “Mulher, se entrega!”. E assim ficamos horas e horas rindo, esquecidas do tempo-presente.  






domingo, 17 de abril de 2022

Naquele instante, tudo fluía - conto de Carolina Vasconcelos




 Houve um tempo em que eu nadava e ali, naquele instante, tudo fluía. O passado sombrio ficava submerso e as lembranças se afogaram, eu seguia com meu corpo e minha mente leves, sem arranhões ou assaltos, com fôlego. Parecia mais fácil respirar embaixo da água do que quando eu estava na superfície.

 Queria deixar minhas memórias submersas porque embora tudo o mais tenha ficado perdido em algum lugar do tempo, em mim, tudo ainda vive.

 Meus pesadelos recorrentes, minha apneia no meio do dia, meu despertar assombrado sozinho num quarto escuro e vazio. Fora da água meu mundo é um completo vazio tumultuado por rostos desconhecidos que me sorri sem saber de onde eu vim.

 De onde eu vim?

 Não tenho raízes fincadas em lugar algum, por isso talvez me sinta tão confortável na água, no meio de um retângulo preenchido com água tratada com substâncias de aceitação. Meu mundo é acético.

 Há sim amor. Um único amor. Que tenho medo de perdê-lo. Um amor que tem cheiro, que tem garras, que me envolve e me conforta. Um amor que eu protejo dos meus medos e da minha solidão.

 Foi nesse amor que aprendi a nadar.


***