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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

OUTRO SILVA IS DEAD


 

                                                               “saí para me divertir,

                                                                            acabei num enterro.

                                                                            um parente distante.”

                                                                                   (Dostoiévski)

Por Ferreira Jr. (*)

            Eu não sabia até então. Sexta-feira de chuva fina e o colapso do mundo sendo alardeado por todos e em tudo quanto é canto. Desliguei-me das pessoas mais em função disso, pois preferia a visão das nuvens e dos pássaros que eu alimentava como se estivesse longe. Não estava. A realidade me cerceava e eu saí para encher a cara. Num pequeno beco sem saída havia um boteco e logo em frente o cemitério.

            Entre um gole e outro passou o cortejo fúnebre e resolvi acompanhar. Durante o percurso fui informado que se tratava da morte de um sujeito conhecido como “Outro Silva”, aliás, pouco conhecido, a julgar pelo nome. Afinal são tantos silvas que um silva a mais ou um a menos não faria, àquela altura, muita diferença. Como se fosse um silvo no deserto.

            Devido a esta singularidade do nome do defunto, resolvi acompanhá-lo até sua última morada e no trajeto tentaria saber mais sobre o cadáver. Entabulei conversação com um senhor de meia-idade que estava do meu lado, julgando que fossem parentes. Na verdade, só trabalhavam juntos num escritório mixuruca de contabilidade e redação de textos para jornais.

            Alexandre Barret era o nome da pessoa com a qual eu falava. Indagado a respeito do falecido disse-me que o “Outro Silva” era um homem estranho como o próprio nome, mas davam-se bem no serviço diário onde se encontravam como empregados de um proprietário, que morava numa cidade distante e repassava as suas ordens por telefone ou por e-mail.

            Numa dessas ordens foi que o “Outro Silva” se destacou, produzindo sob encomenda seu único texto re/conhecido: “Gênese de um nome e de um livro”, que acabou sendo publicado como apresentação ao livro “Textos e Ensaios”, do escritor mineiro Milton Rezende.

            “Depois disso, apesar da pequena repercussão favorável aos seus escritos, não produziu mais nada que eu saiba e entrou assim numa espécie de recesso das ideias”, disse-me o Barret sobre o seu finado amigo, quando já ultrapassávamos o portão de grades da entrada do cemitério. Poucas pessoas acompanhavam o cortejo, pois atualmente já não se usa muito celebrar os rituais da morte e ela, esvaziada do seu contexto histórico, aninhou-se no subconsciente humano produzindo ali estragos ainda maiores de quando era uma senhora respeitada na sociedade.

            A causa da morte do “Outro Silva”, conforme atestado de óbito assinado pelo médico plantonista, Dr. Carlos Águia, teria ocorrido em função de “insuficiência respiratória aguda, edema agudo do pulmão, infarto agudo do miocárdio e hipertensão arterial sistêmica”. Contava 47 anos.

            Foi enterrado ao lado do finado Tibúrcio Soledade que, segundo consta, teria sepultado a si mesmo no quintal de sua própria casa numa crise de identidade. Mais tarde seu corpo foi transladado para este cemitério e agora jazem os dois em covas rasas, esquecidos de si mesmos e dos homens com os quais haviam convivido.

            Despedi-me do Alexandre Barret na saída e uma vaga nuvem de tristeza rondava-me os olhos lacrimejantes. Voltei ao boteco do beco para celebrar a continuidade da vida num ninho de passarinho que eu vira construído no coqueiro ao lado do túmulo do “Outro Silva”.

            Sobre a mesa do bar estava um exemplar do Diário de Notícias, estampando em letras garrafais a corrupção nossa de cada dia e a cara dos políticos escarnecendo das nossas caras de otários. Um sujeito passou na rua de carro e deu para acompanhar o refrão da música de rap que tocava através do pen drive: “era só mais um silva que a estrela não brilha”.

 

(*) Ferreira Jr. é um heterônimo de Milton Rezende

 

 






quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O Clã do Leão da Montanha

 


Há pessoas que são excelentes a executar, mas que não querem liderar, têm medo, não querem tomar decisões. Essas não servem para líderes. Mas fazem coisas que os líderes não fazem.

Belmiro de Azevedo

Empresário e industrial português

(1938-2017)

Uma cabeça espreitou sobre a crista do monte; primeiro apenas um, mas, depois outros se lhe seguiram nervosamente. O vento gelado soprava e pequenos flocos de neve esvoaçavam, colando-se ao rosto e cabelos deles. Havia vários dias que o céu estava coberto de chumbo e a temperatura caíra a pique assinalando o fim daquele verão envergonhado.

Eram um grupo heterogéneo; cerca de vinte homens e mulheres, uns com grossas túnicas de lã e outros cobertos com peles mal curtidas. Todos traziam cabelos compridos que usavam soltos ou amarrados em tranças, alguns dos homens também tinham tranças nas longas barbas. Tinham os rostos e as barbas cobertos de lama branca onde pintaram riscas de carvão. Empunhavam lanças com pontas de pedra lascada e machados do mesmo material.

Assim que subiram aquele monte perceberam que haviam chegado ao seu destino; após a descida que se seguia, a terra lançava-se novamente em abrupta subida para outro monte ainda mais alto que ostentava na sua face a abertura de uma enorme gruta onde tremeluzia a luz de uma fogueira. Haviam partido da aldeia ainda de noite, para chegarem ao raiar do dia.

Baixaram-se, ocultando-se de novo atrás da crista e olharam uns para os outros.

— Chegamos. — Anunciou desnecessariamente com voz grave o homem que ostentava várias tranças no cabelo e na barba cobertos de barro branco. — É ali que eles vivem.

— E agora, como fazemos? — Perguntou um dos mais velhos, com grandes barbas raiadas de pelos brancos. — Atacamos enquanto ainda dormem?

— É o melhor! — Considerou um dos mais novos. — Eles são mais fortes do que nós, qualquer um deles pode com dois de nós… nem sequer sabemos quantos ali estão. Sabes, pai? — Dirigiu-se ao das tranças.

— Não, Asil, não sei. — O homem brincou pensativamente com uma das tranças da barba. — Nunca vimos grupos de caça maiores do que três ou quatro acho que serão poucos mais do que nós, se contarmos as mulheres que possam estar lá.

— Tens de decidir, Erem. — Exigiu o mais velho para o das tranças. — Era o teu filho e meu sobrinho, mas tu é que és o chefe. Foi a ti que escolhemos seguir.

O visado fitou o tio Lemi pensativamente. Quantas vezes vira nele o pai, Birol, tão parecidos que eram. Chegou mesmo a pensar se ele o tinha mesmo seguido ou deixara o irmão a pedido deste para proteger o filho.

Já se havia passado muito tempo desde que abandonaram o clã do Rio Brilhante. Asil era ainda uma criança de colo e Naci crescia na barriga de Zia. Apesar dos desacordos frequentes com o pai, a vida era boa. Não havia fome entre eles; as mulheres enterravam algumas sementes que, junto com as cabras montesas que aprisionavam, as frutas que conseguiam apanhar e a caça abundante, dava para satisfazer a todos. Nos últimos tempos, porém, o seu mundo modificava-se; o chão tremia com frequência e o lago salgado, junto do qual se haviam fixado, alargava-se cada vez mais.

O Xamã dizia que era o Rio Brilhante que enchia o lago, mas ninguém percebia como é que, com tanta água doce, as águas continuavam salgadas.

Gradualmente, os pequenos lameiros que semeavam foram sendo engolidos e a própria aldeia estava novamente ameaçada. A incerteza pairava sobre eles; uns queriam simplesmente continuar a afastar-se um pouco de cada vez, à medida que as margens cresciam, outros queriam ir para nascente, de onde era originário um dos genros de Birol. O chefe, porém, decidiu que rumariam a poente a caminho da gigantesca cascata que um outro clã disse que engordava o “seu” lago; teria de ser a sua vontade a prevalecer.

Foi o filho do chefe, no entanto, o causador da dissensão; queria seguir as estrelas-guias, escalar as montanhas para as terras altas e entrar no território dos homens-macaco. Muitos anos antes dele nascer, estavam ainda cobertas de gelo, mas agora eram grandes extensões verdejantes com manadas de auroques, gazelas e alguns mamutes. Não queria seguir o pai e Birol, que era um grande líder amado por todos, aceitou a decisão do filho com grande tristeza. O clã do Rio Brilhante, cuja dimensão de mais de cem elementos era extremamente invulgar, ficou reduzido a menos de setenta.

Erem e a sua companheira Zia com os seus quatro filhos, dois deles já com mulher e crianças, fizeram-se acompanhar de dois irmãos dele e três dela com respetivas famílias, além do tio Lemi, as suas duas mulheres e toda a descendência, formaram um novo clã com cerca de trinta almas. Do alto de um promontório acenaram o adeus a Birol e aos seus companheiros no fundo do vale, que partiam ao longo da margem do lago salgado, rumo ao sol poente. Aquele promontório tinha a forma de uma cabeça de leão e resolveram assumir esse nome; assim nascia o clã do Leão da Montanha.

Cedo conseguiram deixar as tendas e construir casas em pedra ou madeira que cercavam pequenos campos onde cresciam alguns legumes e vagueavam as cabras do rebanho comum. Nasceram mais crianças, embora também tenham morrido algumas e alguns adultos também. Os acidentes na caça e as doenças aconteciam e os recém-nascidos por vezes morriam à nascença ou com poucos dias de vida, mas o saldo era positivo e agora eram quase quarenta indivíduos.

Nos primeiros tempos, Erem ainda fez deslocações esporádicas à Pedra da Cabeça de Leão para olhar as terras baixas de onde viera, na esperança de ver Birol e os seus homens. Mas em vez disso, via como o lago se tornava descomunal, a outra margem perdendo-se de vista e poucos animais se divisavam junto das águas salobras.

Tiveram quase logo alguns recontros violentos com pequenos grupos de homens-macaco e isso raramente acontecia no vale do lago salgado pois normalmente não desciam lá, mas Erem já sabia que este era o território deles. Quem os batizara, fora alguém do clã de Birol dizendo que, cabeludos como eram, pareciam os macacos que viviam nas árvores do outro lado do lago salgado. Eles mantinham-se à distância e fugiam à sua aproximação dos membros do clã, o problema era que, quando a caça escasseava, tornavam-se mais atrevidos, atacavam os caçadores, ou roubavam a carne que secava ao pé das fogueiras.

Normalmente, os confrontos cingiam-se a uma troca de pancadas com as lanças grossas que usavam, ou algumas pedradas para afugentar, mas o último deles fora o pior; os caçadores reagiram e não deixaram que os homens-macaco levassem a caça. Além dos costumeiros braços partidos e cabeças rachadas, também os atacantes levavam alguns feridos com eles, mas Nuri, o filho mais novo de Erem e Zia ficara caído sem vida; uma pancada na cabeça fora-lhe fatal.

 

Manuel Amaro Mendonça

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domingo, 25 de setembro de 2022

Abruptopia

 


Se tivésseis estado na Utopia,

se tivésseis observado as suas instituições e leis,

como eu, que ali passei cinco anos,

então confessaríeis que nunca encontrareis,

como ali,

povo tão bem organizado.”


Thomas More in Utopia


A vida nem sempre corre bem a um solteirão militante. Naquela noite de 15 de setembro de 2012, Frederico Cabral esperou bem uma hora e um quarto até se convencer de que levara uma “banhada” da morena “indignada” que conhecera nessa tarde na enorme manifestação “Que se lixe a troika!”. Foi um alívio decidir que não esperava mais e pedir finalmente um bife do lombo a nadar naquele molho de manteiga que fez o êxito da cervejaria Portugália. Até porque já não tinha cara para continuar a adiar o pedido.

Cheio dos salgadinhos de entrada, distraía-se a apreciar a fauna local, quando viu um fulano de cachecol vermelho e cabeleira exuberante que, sozinho na fila de entrada, olhava com maldisfarçado desalento para o recinto sobrelotado. Frederico viu nele o meio de se redimir, indiretamente, por ocupar tanto tempo uma mesa com a casa a abarrotar e não hesitou em estender a mão, apontando magnanimamente o lugar à sua frente. O tipo não se fez rogado e revelou-se alguém que o anfitrião passou a classificar como uma das personagens mais curiosas com que se cruzou. Era simpático, de verbo fácil e entusiasmo imoderado. Guia turístico, declarou que acabara de se desfazer de um grupo excursionista, de regresso de uma ilha fantástica, nas suas palavras.

Foi por aquele dito quase circunstancial que Frederico começou a conhecer Abruptopia, uma ilha de que nunca tinha ouvido falar, mas da qual Rafael Abreu — o seu inesperado parceiro de mesa — era um entusiasta. Dizia que era mais organizada que Portugal ou que qualquer outro país europeu, o que gerou algum ceticismo no interlocutor:

— Se é assim tão boa, porque é que você não vai viver para lá? –– ripostou Frederico, meio irónico, mas indesculpavelmente grosseiro, argumentando interiormente que não gosta de missionários e dos seus paraísos miríficos. — Você não me leve a mal a pergunta! — contemporizou, sorrindo.

— Olhe, porque ninguém me tira este calor e este sol.

— Mas não há sol lá nessa ilha?

— Eu vou contar-lhe tudo. Ouça! — desafiou Rafael, desarmando a desconfiança de Frederico.

O fantástico relato fazia lembrar a Utopia pelo que é apresentado em capítulo separado, com título descritivo, ao estilo usado naquela obra de Tomas More.


Capítulo segundo do relato de Rafael Abreu acerca do melhor funcionamento de uma sociedade, com a descrição de algumas medidas económicas ali tomadas, para o bem estar do povo

— A ilha é um pouco maior do que Portugal, mas tem pouco mais de trezentos mil habitantes — começou Rafael. — É habitada há centenas de anos e tem um incrível historial de sociedade precocemente organizada: o seu parlamento é o mais antigo da História, foi criado no ano de 930 e é atualmente composto por 63 delegados. É um dos países com os melhores indicadores de saúde do mundo. Talvez por, praticamente, não ter poluição, a sua população tem altas expectativas de vida e baixa taxa de mortalidade infantil. Tem a maior percentagem de médicos por pessoa, do mundo — aqui Rafael marcava pelos dedos a terceira característica de excelência, mas parecia que a exaltação já ia de freio nos dentes.

— Tem a certeza? Isso que diz parece tão exagerado…

— Custa a crer, não é? Eu tive de ver para crer — respondeu ele, sem qualquer laivo de melindre. — E sabe que mais? Não existe setor de saúde privado, e todos os habitantes têm acesso ao sistema público de saúde abruptopiano.

— Isso faz-me lembrar Cuba. Essa ilha de que você fala não é Cuba, não?

— Longe disso. Curiosamente, é uma economia de mercado. Mas não pense que não regulamentam as atividades económicas, ou que deixam os predadores à solta. Não. Lá também houve abutres que descapitalizaram os bancos, à espera que o esforço público lhes repusesse os capitais perdidos ou desviados. Sabe o que fizeram lá? — A pausa e o sorriso indicavam que vinha aí a revelação da noite. — Meteram os banqueiros na cadeia. Assim. Tau! Na cadeia. Não se deixaram intimidar com ameaças de implosão do sistema bancário, nem de bancarrota nacional. Quando a população se viu confrontada com a derrocada dos bancos, um aumento brutal do desemprego e a perspetiva de uma austeridade cruel, organizou-se quase espontaneamente, de forma democrática e participativa, discutindo a própria constituição do país. O resultado foi a condenação das práticas bancárias irresponsáveis e a rejeição da dívida criada pelos bancos, que eram privados. Chamaram-lhe “dívida odiosa”, por ter sido contraída contra os interesses da população e do Estado. O ónus da crise foi atribuído aos bancos, que foram deixados falir, e aos seus dirigentes, e não ao país, e muito menos aos seus habitantes. Daí a meter os banqueiros na prisão foi um passo. Salvaguardando os direitos de defesa dos acusados, claro.

— Isso é realmente inacreditável — carregou Frederico, ainda imbuído do ambiente “indignado” dessa tarde. — Nós aqui, homens, mulheres, crianças, ficámos com uma dívida individual de vários milhares de euros, cada um, quer os que têm trabalho, quer os desempregados, até os sem-abrigo!

— É claro que aquilo só foi possível devido à qualidade de boa parte da classe política. Aquilo, sim, é estar do lado social certo.

— E os donos dos bancos ficaram-se? Acha que a ilha não vai ter problemas com o poderoso sistema capitalista global? O FMI é tenebroso. Impõe taxas de juro terríveis aos povos. Os americanos não brincam!

— Neste caso, os donos eram ingleses e holandeses, e a decisão popular abruptopiana, em dois referendos, foi mesmo recusar assumir a dívida dos bancos falidos e logo rejeitar a austeridade do FMI. O risco existe, claro. Mas sabe qual é o maior trunfo dos abruptopianos? A unidade. Como são poucos, conseguem manter uma coesão a toda a prova. Antes da ideologia económica, põem o bem-estar da sua população. É inacreditável? É. Por isso é tão admirável.

Entre o fim do lombo em molho de manteiga e o cafezinho reconfortante, Rafael ainda falou de vários outros aspetos raros daquela ilha. Disse que Abruptopia não tem forças armadas, que a criminalidade é quase inexistente, e que por isso os banqueiros eram ocupantes quase solitários de cadeias vazias; que o parlamento está próximo da paridade de género; que a sociedade é muito inclusiva e tolerante e que a igualdade social é impressionante, porque todos os abruptopianos frequentam os mesmos ambientes e desfrutam das mesmas escolas e hospitais, independentemente da ocupação profissional; que os abruptopianos são um dos povos mais felizes do mundo, com uma das mais altas taxas de alfabetização e desenvolvimento humano; que as crianças são incentivadas desde cedo a cultivarem a leitura e também a escrita e que, talvez por isso, um em cada dez habitantes já publicou um livro.

Percebia-se, no entanto, que o clima é um fator adverso — mas que, talvez por ele, os abruptopianos sejam tão “rijos” e resilientes.

Frederico, rendido, agradecido e com uma grande curiosidade por visitar a ilha maravilhosa acabou por pagar o jantar ao “messiânico” Rafael. Despediram-se, por fim, em tom de grande amizade, com o guia turístico a prometer ligar quando acompanhasse outro grupo a Abruptopia, talvez de então a uns sete ou oito meses.


«Porque é que eu estou tão obcecado por ir lá?», perguntava-se Frederico, uns dias depois. «Para confirmar o que me foi dito? Também. E, sendo assim, obter mais informações sobre os mecanismos de que os abruptopianos se socorrem para manter uma sociedade a funcionar de modo tão extraordinário. E para divulgar e criar a vontade de aplicá-los nesta terra tão massacrada por gestões ruinosas da coisa pública. Ou a que a coisa pública deitou uma mão salvadora, qual pai protetor a acolher acriticamente os desmandos dos filhos pródigos. Talvez daqui a um ano já tenha uma ideia clara da organização político-social de Abruptopia. Se for realmente especial, posso apresentá-la a um ou outro partido e talvez algum lhe pegue. É assim que as utopias nascem: por uma ideia generosa e pela coragem de a aplicar. Senão dou-a a conhecer ao meu amigo Joaquim Bispo, para ele fazer um conto com a ideia.»


Joaquim Bispo

*

Imagem:

Toulouse-Lautrec, Embaixadores: Aristide Bruant (poster), 1892.

* * *






segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Ainda tenho coração


 

Estou calejado, armado contra as falcatruas; achei que o coração havia virado pedra, mas Irene me desmantelou. Estacionei o meu carro na rua do antigo Liceu, para ir a um atendimento, quando me capturou o olhar de uma garotinha que estava só no meio da praça. Continuei andando, desconcertado, fingindo que não era comigo. E, a cada instante que me virava, de relance, ela continuava me olhando firme. Como ela apoiava o corpo abraçando as pernas dobradas, colada ao chão, pensei que não teria forças para se levantar e vir ao meu encontro. Eu precisava seguir viagem; uma cliente me esperava – e o ano não estava fácil para quem vive de seguros. Tentei passar ileso, cabisbaixo. “Ô tio, me dá um troco pra merenda?”. Puxa, aquilo me atormentou, devia parar. Perguntei o seu nome. “Me chamam de Sirene, mas meu nome mesmo é Irene”. Sua fala era pausada, precisava recuperar o fôlego a cada frase. Fiquei desligado um tempo, olhando para o seu corpo frágil, quando ela repetiu a pergunta. “Ah, sim, vou ver aqui”. Abri a carteira e não tinha uma moedinha sequer. Reparei ao redor que havia um comércio e uma barraquinha que vendia lanches. Compraria, sim, algumas frutas na mercearia e uma merenda. Fomos primeiro à barraquinha. Ela pediu duas coxinhas de frango, um pastel e uma Coca. Quis recriminá-la, como fazia com os meus filhos, mas logo refleti que ela não teria a mesma oportunidade tão cedo, quem sabe. De toda forma, quis agradá-la. Ela comeu as duas coxinhas e guardou na calça o pastel. Tomou a Coca de 250mL numa golada. Perguntei por que ela guardava o pastel. “Não, tio, é que vou dar pra uma amiga, a Lurdinha; ela sempre quebra o meu galho”. Quando paguei, o vendedor agradeceu e emendou: “O senhor fez uma boa ação… Essa menina está aí há quatro ou cinco dias e, pelo que vi, não comeu nadinha”. Curioso, questionei por que ela estava na rua; se não tinha casa; se estava só no mundo. “Eu fugi de casa, porque o marido da minha mãe veio mexer comigo”. Fiquei possesso. A minha vontade era de ir à sua casa e pegar o sujeito pelo pescoço. Não havia alternativa. Irene me confidenciou que ele era dono da boca onde, inclusive, a mãe trabalhava. Ela sabia que estava jurada de morte, e que estava no ponto mais distante da cidade para ele não a encontrar. Eu tinha de fazer alguma coisa. Não poderia seguir a minha vida como se nada tivesse acontecido. Caminhamos até a mercearia; desejava abastecê-la, para não passar necessidade. Compramos o que cabia nas mãos e no bolso da menina. Revigorada, ela disse, de supetão, que queria um lar. Meu Deus, o meu coração partiu. Eu poderia ser o seu pai? Liguei para um amigo advogado, que me revelou, para a minha desgraça, que, se fosse o caso, seria um processo longo etc., etc., etc. Recomendou-me ligar para um abrigo. A menina estava nervosa, e eu a acalmei, declarando que ali seria um estágio para a adoção. O carro do instituto Florar demorou horrores para chegar. Fiz as vezes de cuidador e a direcionei à assistente social de plantão. Irene entrou no carro tremendo e chorando. Olhava para mim pedindo ajuda. Declarei, hesitante, que ela ficaria bem. O carro foi devagar, desaparecendo pela avenida-multidão. Chorei, ansioso e triste. Não a esquecerei. Ainda tenho coração.






sábado, 17 de setembro de 2022

Não quero mais a poesia

 








    Não quero mais a poesia, não quero mais. Eu a nego sem medo de excomunhão, sem o mínimo remorso. Quero a prosa, a prosa responde e indica os caminhos. Rasgarei todos os meus livros de poesia, mandarei às favas os poetas, tolos, e as poetisas, vazias: quero a linha toda sem verso. Todos os sons para povoar a invenção. A coisa começa, continua, e por fim, o ponto final, o aviso que diz “acabou”. A linha toda é o horizonte onde o sol de todo dia aparece e se põe sem metáforas, sem os segredos dos significados. Então, pegarei os versos quase destruídos e encaparei os outros livros. Esta sim, a sua verdadeira razão de ser.












terça-feira, 13 de setembro de 2022

O Bar - "O Etéreo"

 

O Bar - “O Etéreo”

 

O Céu começou a ficar carregado de nuvens negras e a escuridão envolveu a zona onde se situava O Etéreo. O dono daquele Bar confundiu a escuridão provocada pelo mau tempo com o cair da noite e não ligou às horas.

Quando mais tarde olhou para o relógio, os ponteiros já passavam das nove daquela sexta-feira dia treze. Foi nesse momento que o Alfredo se apercebeu de quão tarde já era, sobretudo ali naquele lugar onde a partir das oito horas já ninguém gosta de por lá andar. Aliás, os únicos seres vivos que por lá circulam depois daquela hora são o Alfredo e um ou outro animal vadio que, por acaso, se tenha aventurado por aquelas bandas. E mesmo esses demoram pouco tempo, dada a abundância de flores e de cotos de velas e a escassez de algo comestível.

O Alfredo não perdeu nem mais um segundo, arrumou o resto das sobras no frigorífico, fechou as portadas das janelas, apagou a luz e, quando se dirigia para a porta da saída, sentiu que alguma coisa tinha acabado de entrar no estabelecimento.

Ainda um pouco aturdido, por causa daquela inesperada e estranha entrada, o dono do Etéreo voltou atrás e acendeu a luz.

Apesar de explorar aquele bar há já muitos anos e, por isso, já estar também muito habituado a lidar com a morte, que é coisa que não por ali não falta, o que viu deixou-o paralisado de terror.

À sua frente não um, mas uma delegação de quatro criaturas defuntas, em estados de decomposição muito diferentes.

Embora possuído pelo terror que dele se apoderou, conseguiu reconhecer um deles, pela fotografia que tinha colocado numa vitrina uns dias antes. Era o mais novo dos seus vizinhos.

Dos outros já não se conseguia lembrar, eram ossadas e algum pó, já estavam mais velhos na morte.

«Ó meu Deus, parece que chegou a minha hora, vêm-me buscar. Nunca pensei que fosse desta maneira e tão cedo, ainda tenho tanto para dar, lá se vão os meus projectos de ampliação do bar.»

─ Não tenhas medo que não te viemos buscar, a morte não vem desta maneira, ela simplesmente acontece, mas no teu caso ainda deve faltar muito, penso eu. ─ disse o mais novo, aquele que era ainda reconhecido pelo Alfredo.

As outras criaturas fizeram que sim com os crânios, dando a sua aprovação ao que acabara de ser dito.

«Se não morri de susto, ainda devo por cá ficar muito tempo. Talvez ele tenha razão naquilo que diz, mas o melhor é ir com cuidado, com a morte nunca se sabe, vem de repente e não volta atrás.»

─ O motivo da nossa visita tem a ver com negócios ─ disse o porta-voz do grupo. ─ Queremos explorar o teu bar, a partir das dez horas da noite e, para isso, precisamos da tua autorização.

«Devo estar a sonhar, uns mortos a quererem explorar o bar, só pode ser em sonhos ou então estou a ficar maluco e a começar a ter visões, e das más, só espero é já não estar morto também.»

─ Então o que dizes à nossa proposta? É um bom negócio para ti, agora que tens uns projectos para ampliar o teu bar.

─ Como é que sabes, se eu nunca falei disso a ninguém?

  Oh, como são insondáveis os nossos desígnios! Mas deixa isso para lá, não te preocupes, porque não precisas de fazer nada, só tens de dar autorização e uma cópia da chave e é tudo limpo de impostos, nós não precisamos de nenhuma factura da renda.

«Afinal não me vêm fazer mal, pelo contrário, ainda posso lucrar com esse negócio. É chegada a hora de aliviar o medo e conversar com eles.»

─ Com que então querem explorar o meu bar, que ideia mais fora de sentido para uns mortos, mas falem, que eu sou todo de escutas. ─ disse em tom de brincadeira, mais com o intuito de desanuviar o ambiente do que de gozo.

─ Não digas isso. A ideia faz todo o sentido e, por acaso, partiu de mim, mas foi bem acolhida pela maior parte dos meus actuais conterrâneos. Havia, é certo, uma outra proposta em cima da sepultura, aproveitar-se a Capela Mortuária, mas não teve vencimento.

─ Era uma boa solução, ficavam com um bar intramuros, escusavam de vir cá para fora.

─ E quem é que nos comprava as coisas? Além disso, de vez em quando, há velórios que se prolongam por toda a noite, o que nos impedia de ir ao bar. Havia ainda um outro problema, o padre que não os merece grande confiança.

─ Como bem sabes, ou, vá lá, desconfies, a eternidade que temos pela frente nunca mais acaba e estar ali deitado para sempre, sem ter nada que fazer não ajuda a passar o tempo. Mesmo as visitas, que por vezes temos, ajudam pouco a aliviar o tédio, só elas é que falam e que se mexem, nós continuamos ali deitados. Além disso, só nos trazem palavras e flores, coisas que nos alimentam a alma, mas não corpo. Seria bem melhor que trouxessem algo de comestível e bebível, talvez, aquilo que não provámos em vida, com medo de nos fazer mal. É chegada altura de nos consolarmos. Aqui deste lado não há proibições de qualquer natureza, pois já não há nada que nos possa fazer mal. Nós os mortos também nos queremos divertir, achamos nós que a morte não é incompatível com a felicidade. ─ assim falou sabiamente o mais decomposto.

O chocalhar dos ossos da restante comitiva era um sinal concordância ao discurso e ao mesmo tempo uma manifestação de contentamento.

─ Digam-me uma coisa que me está a intrigar: como é que os mortos mais antigos, que se estão a desfazer conseguem frequentar o bar, ou o bar é só para os mais novos na morte?

─ É natural essa tua ignorância, o teu conhecimento só alcança as coisas da vida, mas da morte pouco sabes, todos têm acesso ao bar. Aqui onde nos vês a andar e a falar tem a ver com a antimatéria. Não te vou explicar porque não sou especialista nesta matéria, aliás antimatéria, e tu também não entenderias, ainda és um mortal.

─ Ah! ─ exclamou o Alfredo.

─ Vamos agora ao que te interessa. ─ disse. ─ Damos a garantia de que não nos meteremos na tua actividade e de nunca nos cruzaremos com a tua clientela. A hora de abertura do nosso bar será, como já te disse, a partir das dez horas da noite, altura em que não se vê por aqui vivalma. Talvez seja chegada a altura de começarem por aqui a andarem mortas almas.

─ E que lucro eu com esse negócio? ─ perguntou o dono do bar.

─ Pagamos-te a renda e as despesas com as compras para o nosso bar. Além disso, podemos participar nos custos de água e da energia do frigorífico, pois electricidade não gastamos, não precisamos de luz, mas isso depois será tudo contratualizado, se chegarmos a acordo sobre a exploração do bar.

─ Poderemos igualmente custear algum gasto de energia com os aparelhos de música. ─ disse um dos outros da comitiva interrompendo o promissor contratante. ─ Sim, queremos ouvir outras coisas, estamos fartos de música religiosa. Talvez uns espirituais negros. Ah! Ah! Ah! Foi uma tirada com graça, não achas?

─ Já me ia esquecendo, também queremos dar ao bar um outro nome, porque isso de se chamar Etéreo dá ares de algo sensaborão. Estamos a pensar em encontrar uma designação que mexa connosco. Ainda não acertámos com o nome, mas podes já contar com esse pormenor da alteração.

─ Porra, já não estou a gostar nada disto, vocês não podem mudar o nome do bar, ele está registado nos organismos competentes. Além disso, o que vou dizer aos meus clientes acerca da nova designação?

─ O novo nome é só para funcionar à noite, de dia continua a ser o mesmo.

─ Ah! Assim já está melhor. E quanto ao contado, pagam com quê? Os mortos não levam dinheiro nem outros bens para a cova, fica cá tudo para os vivos, que vos dão, quando dão, umas missas, se forem crentes, palavras e flores.

─ Nós aqui neste nosso novo bairro temos moeda e, por sinal, muita.

─ Têm moeda? ─ perguntou estupefacto o barman.

─ Sim! Um certo dia um rico avarento, com medo de ser roubado resolver esconder numa cova dum seu parente morto uma fortuna em moedas de ouro, diamantes e muitas outras pedras preciosas. Nunca mais foram resgatados pelo seu proprietário que, segundo as mortais informações, foi levado pelo mar e não mais deu à costa.

─ E quando acabar essa dita fortuna, pagam-me com quê?

─ Quando acabar o avaro dinheiro provavelmente já nos servirás à noite, mas não estejas preocupado, nem sonhas a quantidade de ouro e outras pedras preciosas que há no subsolo.

─ Não gostei nada dessa premonição. ─ retorquiu agastado o Alfredo.  ─ Deixemo-nos de futurismos agourentos.

─ Uma coisa eu te digo: se fecharmos o negócio deixa o pagamento por nossa conta que não te arrependerás.

A discussão das cláusulas contratuais, pelo visto, prolongaram-se por muito tempo, porque já passava e muito da meia-noite quando a porta do bar se fechou e se ouviu o ranger dos gonzos do portão do cemitério.

 





quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Susto


 

A tempestade acordou-a bruscamente. Estremunhada, quase deu um pulo na cama quando um tremendo trovão rebentou mesmo por cima de si, fazendo estremecer todo o prédio. Enfiou-se ainda mais sob os cobertores, tentando ignorar as salvas quase contínuas e os raios que penetravam pela espessa cortina da janela à frente da cama. Tinha mesmo de mandar arranjar aquela persiana, sobretudo agora que o inverno estava a começar, trazendo os seus inevitáveis temporais.

Não sabia que horas seriam, supunha ser bastante tarde, mas quando estendeu a mão para acender o candeeiro da mesinha de cabeceira e consultar o velho relógio que ali tinha, descobriu que ou a lâmpada se fundira ou estava mesmo sem luz. Talvez fosse melhor assim, trovoada e eletricidade não eram uma boa combinação, por muito que lhe dissessem o contrário, e isso apesar de ter um medo de morte do escuro.

Encolheu-se toda sob a roupa, quase numa bola, tentando criar um ninho onde se sentisse um bocadinho mais segura. Mas em vão, toda ela tremia com o pavor que as tempestades lhe incutiam desde bem miúda.

De repente, ficou hirta. Parecera-lhe ter ouvido um outro som subjacente ao da trovoada, por muito impossível que parecesse. Pôs a cabeça um pouco de fora do seu ninho e esforçou-se por aguçar os ouvidos e apurar que mais se estaria a passar.

Uma breve pausa no batuque celestial confirmou-lhe a suspeita, alguém abria a porta da entrada do seu pequeno apartamento. Com três fechaduras bem sólidas, era uma operação demorada e impossível de executar silenciosamente, sobretudo a última, que estava há muito um pouco perra.

Pensou imediatamente em telefonar à Polícia ou, melhor ainda, ao filho, que vivia no mesmo prédio e chegaria bem mais rápido. Afastou, pois, um pouco a pesada roupa da cama para se levantar e ir buscar o telemóvel à cómoda, onde o punha a carregar durante a noite. Ainda só tinha uma perna de fora quando se lembrou de que, contra o costume há muito arreigado, o deixara na sala, juntamente com o carregador, por ter ficado quase sem carga após uma longa conversa com uma amiga que acabara de regressar de uma viagem ao Canadá.

Voltou a enfiar-se sob a roupa, a tremer cada vez mais, sem saber agora se era da trovoada se do medo de quem lhe estaria a entrar à socapa em casa.

Família e amigos estavam sempre a gozar com ela por ter medo de tudo e de mais alguma coisa, de ver terrores em coisa nenhuma, pois bem, só esperava sobreviver para lhes esfregar esta noite na cara!

A tempestade afastara-se um pouco, mas isso não lhe deu qualquer satisfação, o silêncio exterior permitia-lhe agora ouvir claramente os passos que se iam aproximando da frágil porta do quarto, mesmo à direita da cama.

À luz de um relâmpago, viu o puxador rodar lentamente e nem coragem teve para gritar, apesar de ter sempre dito que, se viesse a acontecer uma situação destas, todos a ouviriam no prédio inteiro e até em toda a rua.

A porta do quarto foi-se abrindo lentamente e a última coisa de que teve consciência foi de ver uma cabeça a espreitar pela abertura.

Quando recuperou os sentidos, o filho teve imenso trabalho para a conseguir acalmar. É que quando faltara a luz, estava ele ao computador a ultimar um trabalho, descera imediatamente do seu andar para ver como ela estava, sabendo bem do pavor que a mãe tinha de trovoadas e do escuro.

Como sem luz a campainha da porta não funcionava, decidira usar a chave que recebera para acudir a emergências. E fora o mais sorrateiro possível para evitar acordá-la na hipótese remota de o alarido dos céus não a ter despertado.

Luísa Lopes

Imagem gerada por Wombo Dream





sábado, 3 de setembro de 2022

LUZES NOTURNAS



Com algumas luzes

que roubei do dia,

edifico um palco

e nele instalo minha alquimia.

 

Expliquei,

com meu silêncio,

a descendência do erro

e continuei sendo uma incógnita

para mim mesmo.

 

Observei,

com minha ausência,

a natureza mesma das coisas

e na aparência em que elas se apóiam

sem contudo deixarem de ser neutras.

 

Passei despercebido

pelos camarotes

e toquei fogo

na indumentária

dos figurantes.

 

Depois deixei o palco,

circunspeto com as luzes

que teciam o óbvio de seu lume

para uma plateia inexistente.

 

E quando o dia incorporou

as poucas luzes que dele roubei

com sua claridade geral,

eu percebi o equívoco

de minha mágica noturna

ao acordar sozinho no vestiário.

 





domingo, 28 de agosto de 2022

O Enterro

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Ouvia-se o choro soluçante fora da casa redonda erguida com pedras e lama, coberta por um telhado de colmo e com a entrada tapada por uma cortina de cor incerta. Lá dentro, uma mulher de cabelo desgrenhado e rosto sujo, vestindo uma túnica grosseira e comprida de pano cru, pranteava desconsoladamente. Estava sentada no chão de terra e com os pés descalços na cova recentemente escavada no centro da única divisão, mesmo ao lado dos restos queimados e apagados da madeira com que diariamente se aqueciam. Os lamentos dela produziam pequenas nuvens de vapor no ar gelado da tarde de inverno.

Do exterior ouviam-se mais gemidos de mulheres misturados com as vozes iradas de homens e essa algazarra irritava-a e fazia-a querer chorar ainda mais alto.

Dois homens vestidos de enormes cabeleiras e barbas hirsutas, envergando túnicas de pele curtida, afastaram a cortina e entraram, algo a medo e depositaram braçados de três ou quatro seixos do rio, cada um maior que o tamanho de dois punhos, ao lado da fogueira apagada. Assim que saíram, outros dois se lhe seguiram e assim continuou até se formar uma pilha que dava pela altura dos joelhos.

Fez-se um silêncio repentino do lado de fora e só o choro da mulher, agora murmurando uma ladainha incompreensível se fazia ouvir.

Um coro de uma cantilena chorosa começou no exterior, destacando-se as vozes agudas femininas e sons guturais masculinos.

Outros dois homens entraram, os seus cerdosos cabelos e barbas estavam cobertos de cinzas e transportavam, pendurado pelos braços e pernas, o corpo franzino e inanimado de um jovem onde ainda mal despontara a barba. O corpo pálido, magro e ossudo, envergava apenas uns pequenos trapos de pano cru por bragas.

— Cala-te mulher! — Censurou asperamente o recém-chegado mais velho. — Já chega!

— Eu é que sei se chega! — Ripostou de imediato a mulher, o rosto sujo de cinza borratado pelas lágrimas era uma máscara de terror. — Era o meu filho e choro-o como e quanto quiser! — Tirou os pés da cova e sem se levantar, virou as costas aos dois homens.

O corpo foi depositado cuidadosamente em posição fetal no buraco, sem esquecer o cuidado de lhe colocar uma das mãos sob a cabeça, como se estivesse adormecido. Tinha sido cuidadosamente lavado e várias nódoas negras destacavam-se na pele quase transparente. A seu lado, ao alcance da mão, colocaram-se respeitosamente uma lança de madeira e um machado cuja lâmina era composta de uma pedra chata cuidadosamente afiada. Próximo da cabeça, depositaram uma lebre morta, um recipiente de barro com azeitonas e outro com nozes. Junto da cinta pousaram uma cabaça com água.

O homem mais velho empurrou a mulher para o lado com um safanão e um empurrão para se poderem chegar ao monte de godos brancos. Os seixos foram usados primeiro para preencher todos os espaços livres à volta do corpo e depois para o cobrir e, assim que já nada era visível, começaram a cobrir a sepultura deitando a terra com os pés e as mãos.

Lá fora a cantoria transformara-se numa algazarra de machos que gritavam e se instigavam como se numa luta estivessem, enquanto corriam e cabriolavam em volta do casebre enquanto em fundo as fêmeas carpiam alto.

Assim que os dois homens terminaram a cobertura, quase em simultâneo, a cantoria terminou repentinamente. O mais novo saiu da casa passando exatamente por cima da sepultura acabada de tapar e logo um outro entrou e passou pelo mesmo sítio, tornando a sair e assim sucessivamente até todos os elementos masculinos passarem, pelo local e só o homem mais velho e a mulher ali restarem em pé junto da campa.

Agarraram os restos apagados da fogueira e colocaram-nos sobre a sepultura recente, para que mais logo se acendesse o fogo que aqueceria a todos, agora aconchegado pelo elemento da família que partira.

O homem gritou com a mulher que continuava a chorar e deu-lhe uma lambada que a atirou ao chão. Ela ergueu-se de um salto e gritou com ele batendo-lhe por sua vez. Trocaram uma sequência de socos e tabefes entre eles, sendo evidente que que a força masculina iria prevalecer.

A cortina da entrada abriu-se bruscamente e entraram dois homens armados com lanças.

— Que estás a fazer pai? — Perguntou o mais alto deles. — Vais ficar aí a gritar e a carpir como as mulheres?

— Se não vieres, não és mais filho do meu irmão! — Vociferou o outro.

Foi a vez da fêmea empurrar o macho, agarrar com força uma lança que estava encostada à parede e colocar-se sobre as cinzas e lenhos acabados de colocar.

— Se ele não tem coragem de ir vingar o filho, tenho eu! — Exclamou a mulher altivamente. — Tanto posso empunhar a lança para matar um porco bravo, como para matar o assassino do meu filho!

Do lado de fora, obviamente escutaram-se as palavras de desafio e um coro de gritos guerreiros responderam ao apelo.

— Temos de ir atrás daqueles homens-macaco, invadir as grutas e acabar com todos! — Sentenciou o outro homem. — Como são mais fortes que nós, não conseguimos disputar-lhes a caça e roubam-nos aquilo que caçamos. Mas chega! Verão que não temos medo deles e não tornarão a fazer mal a um dos nossos!

 

 

Manuel Amaro Mendonça

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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Sarapatel — O making of

 

O hemisfério direito e o hemisfério esquerdo são convocados para criar uma história a dois toutiços. Estabelecem as ligações neuronais habituais e cada um concentra-se nas competências de que dispõe, para dar a melhor contribuição possível.

«Qual é o desafio?», pergunta o hemisfério direito, inquisitivo, sempre a querer criar um mapa geral do problema.

«Escrever uma estória a partir de uma especialidade gastronómica. O protagonista ou a adora ou a detesta. Há que caracterizar a personagem física, psico e sociologicamente», esclarece o hemisfério esquerdo, na sua postura expositiva, analítica e racional.

«Que prato há-de ser?», pergunta o direito, a querer dados para a intuição trabalhar.

«Feijoada, arroz de pato, caril de frango, cabidela de leitão…»

«Sarapatel!» — A opção surge, fulgurante. Parece uma boa ideia.

«Ok. Sarapatel está bem! Sabes que o sarapatel é o laburdo beirão que foi levado pelos Portugueses para o Mundo? A versão goesa foi à Índia e, caldeada com as tradições gastronómicas indianas, voltou das colónias portuguesas picante», explica o esquerdo, sempre explanatório.

«Está bem!», despacha o outro. «Sei é que gosto de sarapatel, do seu picante, da sua sensualidade.»

«É um prato cristão. Usa porco, que a verdadeira comida indiana não tem. São miúdos de porco — fígado, toucinho, sangue, rim, coração, outros miúdos — cozinhados com condimentos indianos e servidos com arroz também aromatizado.»

«Gosto do molho a regar o arroz.» — O direito parece mais interessado nas impressões sincréticas complexas.

«Ok. O protagonista adora sarapatel.»

«Isso significa que é um tipo com gostos ecléticos.»

«Boçal, hedonista, promíscuo», não deixa de acrescentar o analista.

«O que é que uma coisa tem que ver com a outra?»

Nelson pediu mais uma cerveja, a dar tempo à inspiração. Seguiu a empregada de cabelo azeviche com o olhar.

«Voyeur!» — O seu hemisfério esquerdo não lhe dá tréguas.

— Este restaurante já tem muito tempo? — perguntou Nelson.

— Está aberto há dois anos. — O rosto da empregada mostrava uma simpatia que não dependia da função. — Mas eu só cá estou desde o verão.

«Sabes para onde vamos?», quer saber o hemisfério esquerdo.

«Não. Deixamo-nos ir. Partimos de um estímulo e depois vamos desenvolvendo. Às vezes, chega-se a resultados interessantes.»

«Eu acho que devíamos dirigir-nos para um determinado resultado.» — O esquerdo quer programar tudo. «Não gosto de escrever à toa. O mais provável é resultar uma prosa sem foco, sem mensagem, sem interesse.»

«Tens alguma ideia?»

«Não…! Ok, então vamos lá experimentar ir ao sabor dos acasos, das tuas associações de ideias, tateando no escuro, sempre sob pressão da verosimilhança e da relevância» — concedeu.


Carlos Gabriel era doido por sarapatel. Todas as quintas-feiras se sentava pontualmente ao meio-dia e meia num pequeno restaurante de comida goesa, ali junto ao Hospital de São José. O sr. Xavier já lhe reservava o lugar e a dose.

Mas, naquele dia, tudo estava a correr mal a Carlos Gabriel. Pediram-lhe umas fotocópias já em cima da hora, teve de substituir o cartucho de toner e saiu da empresa atrasado. Quando chegou à estação de Metro do Campo Pequeno, estava o comboio a partir. Foi por uns vinte metros que o não apanhou. Esperou dez minutos até chegar outro. No Marquês, a mesma coisa: ele a descer as escadas a correr e a ouvir o comboio para a Baixa a arrancar.

«Boring!», alerta o direito.

«Eu bem te avisei!»

Sentiu-se desanimado, quase deprimido. Uma sensação de vazio apoderou-se-lhe do peito. Ficou-se a meditar no que é que estes percalços podiam significar. Desde pequeno que não descartava uma vaga crença em que os deuses ou um anjo-da-guarda lhe causavam deliberadamente pequenos contratempos para o protegerem de maiores malefícios. Pensava, por exemplo: Se calhar, tropecei naquele passeio e esfolei o joelho para que me atrasasse os segundos suficientes para não ser atropelado mais à frente na passadeira, por aquele maluco que passou a acelerar.

«Isto devia ter mais ação!» É a vez de o esquerdo se queixar.

«Pois, mas como?»

Quando, passados mais dez minutos, entrou na carruagem de Metro, estava mais calmo, mas aborrecido por ir atrasado. O sr. Xavier era tão simpático por lhe reservar a mesa, que sentia que tinha a obrigação de chegar à hora habitual. Saiu nos Restauradores. Em passo ligeiro, esgueirou-se rapidamente por entre as pessoas que flanavam pelas Portas de Santo Antão. Quando começou a subir para São José, o coração batia-lhe descompassadamente no peito.

«Não arranjas uma surpresazinha que seja?», impacienta-se o esquerdo, mas sem soluções.

«Espera, surgiu-me uma ideia…»

Entrou no Pérola do Índico quase à uma da tarde. O seu lugar habitual estava ocupado. Estava lá sentado um tipo magro de meia-idade, de óculos e fato coçado, que saboreava um sarapatel com trejeitos de enorme deleite. Tinha os olhos semicerrados e a boca fechada executava movimentos ondulatórios de interiorizada volúpia. Aquele rosto era-lhe familiar, tão familiar. Era… era ele! Ficou-se pasmado a olhar para aquela figura que comia, alheada de tudo e todos. Era ele próprio. Como é que podia ser? Sentiu uma náusea de desconforto, acompanhada de um vago repúdio pela imagem de lascívia que aquele rosto — o seu? — revelava, ao comer.

Movido pela curiosidade, aproximou-se. O outro, quando sentiu a luz a ser-lhe tapada, abriu os olhos. Com um vago sorriso de desculpa balbuciou:

— Desculpa, vim andando!

— Mas, como?

— Apanhei um táxi!

— Não é isso. Quem é você…?

«Esta foi gira. Sempre quero ver como vais descalçar esta bota», diverte-se o hemisfério esquerdo.

«Não sei como. Vim aqui ter, mas estou perdido.»

Alguns dos outros clientes já tinham reparado nas incríveis parecenças dos dois e o sr. Xavier — o dono do restaurante — aproximava-se com ar intrigado.

— Queres mesmo saber? Há coisas que é melhor não sabermos. — O estranho parecia dominar a situação.

— Não me assuste. O que é que se passa aqui?

— Antes de mais, senta-te! Ó sr. Xavier, é mais um sarapatel, se faz favor.

Carlos Gabriel sentou-se à mesa em frente de si próprio. Num vislumbre, associou a situação à que vivia todas as manhãs em frente ao espelho.

— O sarapatel está bom? — perguntou, sobretudo para comprovar que o momento em nada se assemelhava ao da simetria dos espelhos.

— Divinal. Mas acho que hoje a Kahlía abusou do picante.

— Kahlía?

— Sim, a cozinheira indiana. Não me digas que não sabias o nome dela! Já algum dia reparaste bem como é lindíssima!?

Carlos Gabriel rodou a cabeça para a esquerda, para a abertura pela qual se via parte da cozinha. Kahlía estava de costas na azáfama da preparação das travessas. A sua silhueta era insinuante, os cabelos negros afloravam na orla da touca. Quando Carlos Gabriel se preparava para esperar uns momentos que Kahlía se voltasse, sentiu um ruído do outro lado da mesa. Os trejeitos na face do outro, que há pouco eram de prazer, tinham-se transformado em esgares de sofrimento. Segundos depois tombava e esparramava-se no chão.

Sem saber o que fazer e ainda menos o que pensar, mas apesar de tudo aflito pelo outro — por si? — gritou para os circunstantes:

— Ajudem! Chamem um médico! Liguem para o hospital!

Enquanto de relance corria o olhar pelos atarantados clientes que se apressavam a prestar ajuda, pareceu-lhe perceber um sorriso subtil no rosto da bela Kahlía.

«Uou! E agora? A história está um bocado curtinha, mas podíamos ficar por aqui. Dávamos uma explicação qualquer, desde que fosse verosímil e pronto. Tem mistério, uma surpresa, uma insinuação…»

«Mas, está tão inacabada... E há aqui pano para mangas! Agora é que a arranjámos bonita!»

«Não dizer tudo também tem o seu encanto. Como numa pintura em que o nosso olhar procura identificar e completar as formas pouco explícitas. Numa narrativa, pode ser o leitor a juntar as pontas, se tiver pistas suficientes.»

«Eu preferia uma história que intuísse porque é que estes dois são iguais e o que se passou com o duplo de Carlos Gabriel. Foi envenenado? Devíamos treinar mais vezes continuações de histórias já desenvolvidas.»

«Talvez. De qualquer modo podíamos tentar continuar pelo mesmo processo que nos trouxe até aqui.»

«Não acredito que consigamos. Repara que nos enredámos em complicações, sem saber as razões para elas. Se tivéssemos um plano desde o início, já sabíamos o ponto de destino e era só preencher o itinerário com peripécias.»

«Achas que as criaríamos, ou íamos a correr para o clímax da história, sem enriquecê-la com pormenores que, como sabes, é onde Deus se esconde?»

«Bem, a questão do possível envenenamento faz uma ligação perfeita com o pressentimento de Carlos Gabriel no Metro. Aliás, foi por causa daquela superstição que surgiu a ideia do potencial envenenamento, como sabes.»

«Sim, eu sei é que foste tu que deduziste essa ideia A partir dos elementos que eu pus…»

«Um escritor deve ser como um Sherlock Holmes que deve ir deduzindo os desenvolvimentos a partir dos acontecimentos anteriormente narrados e a partir da personalidade das personagens e da sua interação.»

«Então, disso tratas tu!»

«Ok, não amues. Vê o que achas disto:»

O Hospital era logo ali. Pouco depois chegava uma ambulância e nela seguiu o outro. Carlos Gabriel ficou-se a caminhar na rua, para trás e para a frente, dividido literalmente entre a recém-adquirida preocupação por aquele ser igual a si e a necessidade de encontrar explicações para tudo o que lhe estava a acontecer.

No dia seguinte foi ao hospital. Não encontrou o duplo. Tinha tido alta, disseram-lhe. Consegue saber que não foi envenenamento; só um mal-estar. No restaurante não se lembram de dois sósias, só do desmaio dele mesmo. Quando regressa ao emprego, apercebe-se que o duplo já andou por ali a falar com colegas. O mesmo aconteceu no supermercado perto de casa. Aparentemente, o sósia frequenta os mesmos locais, mas tem um relacionamento mais caloroso com as pessoas, que, equivocadas, dispensam agora a Carlos Gabriel um tratamento mais cordial.

O tempo passa, mas Carlos Gabriel não volta a encontrar o incerto duplo. Começa a desconfiar que não existe um sósia, mas sim uma espécie de dupla personalidade própria. A metade “carlos” de Carlos Gabriel comandará a parte das responsabilidades sociais, na sua postura compenetrada de bom funcionário, pontual, atento às regras, pouco disponível para o contacto social. A metade “gabriel” de Carlos Gabriel é amiga da pândega, dos prazeres da mesa e da carne, desleixa os compromissos, é sociável e brincalhão.

Provavelmente, os dois aspetos da personalidade sempre conviveram, mas de costas voltadas. Agora, aceitando-se mutuamente, cada um dá espaço ao outro para que assuma a sua maior competência, conforme a peripécia da vida em que estão envolvidos.

Nelson olhou para o relógio. "São horas de ir embora", pensou. Tateou o bolso interior do casaco, retirou uma palete de comprimidos, tomou um com o restinho da cerveja e pediu a conta.

«Está acabada, não achas? Tu é que fizeste a maior parte do trabalho, mas tens de admitir que dei ali uma ajuda», reclama o hemisfério direito.

«Sim, claro que admito. Várias e boas. Aliás, a relação daqueles dois faz lembrar o nosso relacionamento...»

«Não digas isso, senão lá vêm assegurar que todas as histórias são autobiográficas...»


Joaquim Bispo

*

Imagem:

Paul Klee, Senecio, 1922.

Museu das Belas Artes, Basileia, Suíça.

* * *