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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Filha pródiga




Três horas ou pouco mais de um voo razoavelmente confortável. Uma hora e meia dirigindo um carro alugado. Logo ela vai chegar ao lugar de onde não vai mais voltar. Ela ainda não sabe. Pensa apenas que visitar os pais é um esforço que tem de fazer. E faz. Todo ano. Eles precisam dela. Mais que isso, eles sofrem com a ausência dela. Faz tempo. Desde que ela cumpriu o seu caminho-sina de ir embora para ser maior, para ser melhor do que eles. Foi assim que disseram. Foi assim que pediram. E ela nem queria. Tinha medo da incerteza. Medo de não se adaptar, de chorar, de ser infeliz. A capital da maior cidade do país e sua grande goela insaciável, engolindo os medíocres. Ela sabia. Mas mesmo assim ela foi.

Não voltou por muitos anos. Trabalhou, estudou, trabalhou, estudou mais ainda, dormiu pouco. Dinheiro nenhum. Só para pagar a vaga na pensão barata, às vezes com atraso, e o ônibus lotado, e a comida pouca. Café puro com pão da véspera. A marmita com arroz, feijão e ovo. Ou macarrão. De vez em quando, um pedaço de carne rançosa. Fome. Sono. Desespero. Quis voltar para casa. Adiou. Quando se acostumou às buzinas, à multidão indiferente, ao cheiro podre das ruas, tomou a decisão de não voltar para casa nunca mais. Tinha, finalmente, aprendido a gostar de ficar. 

Vendeu roupa, pastel, cosméticos. Fez faxina pesada. Tirou diploma de ensino médio estudando à noite. Emagreceu dez quilos. Trabalhou de cabeleireira, de manicure, de auxiliar de serviços gerais. Ganhou bolsa de estudos. Comemorou com duas garrafas de cerveja barata o primeiro emprego de carteira assinada. Finalmente. Auxiliar de Serviços Gerais, dizia a letra irregular do empregador. Procurou outro emprego. Para fazer mais dinheiro. Achou. Auxiliar de cozinha em restaurante fino. Agradeceu à mãe por tê-la obrigado a aprender a cozinhar quando ainda era uma menina sem corpo formado. No fogão de lenha. Agradeceu também bem mais tarde, quando se tornou sous chef, um nome estranho numa língua mais estranha ainda. Estudou essa língua. E outras duas. Tornou-se respeitada — seja lá o que for que isso significasse. Não, não foi bem assim. Antes, ficou conhecida. Antes foi admirada. Montou um bufê de luxo. Criou uma franquia (depois de muitos anos transpirando no fogão). E então se tornou respeitada.

Uma vez por ano, visitava os pais. Levando cada vez mais dinheiro, mais presentes. E menos de si mesma. Não se acostumava mais à casa simples. Estranhava a cama estreita, o chuveiro de água rala, o sítio acanhado onde uns poucos animais domésticos cacarejavam, latiam, mugiam, relinchavam. Preferia o rosnado das buzinas e das freadas. O silêncio da madrugada a angustiava. E a teimosia dos pais, que se recusavam a ir morar com ela.

Quando descobriu que o sítio estava cheio de dívidas, a pequena propriedade já estava para ser tomada pelos bancos. Quitou tudo. E brigou com o pai pela primeira vez. O homem velho, orgulhoso, acostumado a ser o provedor machista não queria ajuda. Não pedi! Não aceito! Volte lá e pegue o seu dinheiro, disse furioso. Não vou fazer nada disso. E chega deste assunto, ela respondeu no mesmo tom. A mãe não a defendeu, acostumada a obedecer ao marido. Ela foi proibida de levar adiante um projeto de reforma do sítio. Ameaçou nunca mais voltar para ver os dois. Eles se aquietaram, retrocederam. A reforma foi feita. Mas o pai parou de falar com ela.

Três horas de voo, um carro alugado, uma estrada horrível. Ela está cansada. Muito cansada. Tem trabalhado demais. Viajado demais. Pensado nos filhos que não teve, no companheiro que não tem. Que escolheu não ter. Os anos cada vez mais marcados nos vincos do rosto e do pescoço, nas mãos cheias de veias. O sentimento tardio das ausências cobrando um espaço agora impossível. 

Falta pouco. Um trecho de terra até a porta do sítio. Já dá para ver a casa. E de repente ela se sente bem. Por estar onde está. Ansiosa pela simplicidade das madrugadas com cheiro de mato. Pensa com prazer na mãe preparando o almoço no fogão de lenha, desprezando a cozinha moderna que ela mandou instalar. E no pai lidando com os bichos, consertando alguma coisa solta, quebrada, despregada. Ainda sem falar com ela, mas espreitando tudo com os olhos esbranquiçados pela catarata que ele não quer operar. Ouvindo as conversas dela com a mãe com um riso disfarçado no canto da boca.

Um aperto no peito, como se fosse aperto de saudade. Mas diferente. A sensação de peso, como se um objeto imenso comprimisse seus órgãos: coração, estômago, intestinos. Ela para o carro. Salta. Não consegue caminhar. A cada tentativa, as pernas dão fisgadas, os pés não obedecem. A cabeça lateja e o suor escorre abundantemente pelo rosto, pelo corpo, deixando a pele grudenta como lama de beira de rio. Pânico. Pressentimento. Dor no corpo todo. Medo e desespero. Ela percebe que essa dor diferente é a dor da morte. Os olhos buscam a casa, a mãe sentada na varanda, o pai em pé, fumando impaciente. O afeto sólido esperando por ela. 

Ela, que agora sabe. O coração só veio para morrer em casa. 

 

 

 

 

 

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


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