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domingo, 20 de setembro de 2020

A LÁGRIMA E O SÊMEN



“Narciso em férias”, o documentário do Caetano Veloso, ainda ecoava dentro de mim, quando lembrei do meu primeiro namorado: Rubens. Foi o primeiro amor, a primeira vez que um homem -  um menino afobado, atrapalhado e muito intenso - conhecia minhas entranhas em profundidade. Diferente da estreia das minhas amigas, foi bom, muito bom, bom demais. 

Por que Rubens sai do fundo do baú e encontra Caetano flanando pelas minhas veias? Estranho. Logo ele, o garoto bonito, que se esvaiu pelos destinos que o tempo e a vida cuidaram de dispersar.


 “Narciso em férias” me arrebatou, não com a inocência da minha primeira paixão pós adolescente, mas com maturidade de refletir sobre a vida. Durante um tempo que me soou eterno, as palavras de Caetano, seus silêncios, seus olhares, suas lágrimas e a clareza da sua fala baiana mansa e feroz me provocaram a assistir cenas reais. Nem precisei fechar os olhos. Bastou olhar bem para sua eloquência terna para ver o jantar do general torturante, o soldadinho incauto que lhe espetava o fuzil nas costas caminhando pelas alamedas pseudo bucólicas de um quartel, a imundície da solitária, as frases do jornal amarelo, o sargento que burlou o oficial do dia e permitiu que sua mulher Dedé passasse um tempo de amor e sexo com um prisioneiro que não sabia por que estava lá, a estupidez do relatório de tosca redação, o primeiro olhar para a foto da Terra tão distante daquela masmorra, o riso nervoso incontido, a lágrima transbordante, o sêmen jorrado. 

Tanta coisa a mexer comigo, tanta história bruta imaginada revelada tardia, tanta poesia, tanta tristeza, tanta ternura nos olhos de quem tanto sofreu sem mais nem porquê, porra, fui logo lembrar do Rubens.

No momento em que Caetano filosofa sobre a similaridade da lágrima e do sêmen, o choro e a ejaculação como duas explosões sinceras e expressivas do espírito que nos habita, o avesso do vazio a que ele fora submetido, lembrei que quando gozei logo na primeira vez, quando senti Rubens escorrendo para a fora de mim, melando meus pelos (afobado, não carecia tal precaução. Eu já andava com a pílula na bolsa), senti exatamente um incontido manifesto das entranhas imateriais, o chamado orgasmo compartilhado com um suposto grande amor. E cai em prantos na hora.

Hoje sinto que foi menos pelo Rubens, o menino bonito, estabanado e gostoso, meu troféu disputado pelas colegas da faculdade, e mais pelo divisor de águas que a vida tinha me apresentado.

Hoje acordei com saudade curiosa do Rubens. Tanto tempo. Tantas vidas se sobrepuseram sobre aquelas horas no motel. Mas eis que sou persistente. Eis que existe Facebook. Eis que uma avó cinquentona espera o marido e o filho que ainda mora em casa dormirem, para mergulhar no computador.

Rubens. De quê? Carvalho? Cardoso? Cordeiro? Cordeiro! Está aqui. Fartos cabelos prateados, fortão, malhadão, barba rente grisalha, rei leão afrodisíaco, cercado da mulher alourada, um casal e três crianças, netos, supus. Não me detive em detalhes, pedi para ser meu amigo. Ele topou na hora e, não demorou muito, apareceu no Messenger acenando com aquela mãozinha.

- Oi, Lucia!

- Lucinha, eu mesma.

- Tanto tempo!

- É, Rubens. A vida voa.

- Lu. Lulunática. Você me chamava de Bim.

- Isso. Bim. Bimbim.

- Lu, me diga. Por que de repente? A essa hora?

- Insônia.

- Também sofro disso.

- Como está você, Bim?

- Caramba! Mais de 30 anos. Não sei por onde começar.

- Tempo da faculdade.

-  Impressionante, Lulunática, estou sentindo uma coisa.

- Também estou sentindo a mesma coisa.

- O que?

- Uma volta no relógio. Uma vontade de sei lá o quê.

- Gozado. Parece que o tempo não passou.

- Onde foi que paramos mesmo, Bim?

- Sei lá. Acho que quando fui estudar em Boston.

- Me lembro. Choramos no aeroporto. Muito boba eu.

- Acabei ficando por lá. 

- Não tinha internet para achar os sumidos.

- Que pena. 

- Seguiu na Engenharia?

 - Não. Economia. Voltei pro Rio, abri um banco e vendi o banco.

- Tá rico.

- Modestamente. E você?

 - Jornalista.

- Você sempre escreveu bem.

- Modestamente.

 - Kkkkkkk.

 - Kkkkkkk.

- E agora?

- Ah, avó, escritora, professora, metida a cozinhar.

- O agora que eu disse foi sobre nós. Já que você me achou, quando a gente se encontra?

- Hummm... assim você me desconcerta.

- Muitas histórias deixamos passar. O que perdemos, o que ganhamos...

- Um balanço?

- Por aí. Mas, por que lembrou de mim?

- Ah, bobagem...

- Diz, Lulunática!

 - Acabei de ver “Narciso em Férias”. Tem uma passagem que me lembrou nossa primeira vez no motel.

- Nossa! Você é direta!

- Como direta? Foi só um flash, sem intenção de flashback. Só para arrumar as fotos

no baú.

 - Sei....

- Juro.

- Jura mesmo?

- Kkkk ... mais ou menos.

- Então... o que mesmo que você viu e lembrou da gente?

- “Narciso em Férias”. O documentário sobre Caetano Veloso preso pela ditadura...

- Caetano Veloso? Você vê aquele baiano viado subversivo comunista e lembra logo

de mim???

Não respondi. Bloqueei o sujeito e chorei de novo. Sou uma velha boba.





sábado, 19 de setembro de 2020

A dor entranhada

 


Vociferei, com todos os ares do pulmão, a quem quisesse ouvir: “Chega! Acabou a palhaçada! Vocês terão o que merecem!”. Quis dizer mais, mas a educação me traiu. A atmosfera, sempre confusa, caótica, fechou mais sobre mim.

Não queira saber a cara de espanto da megera Carmina, declarando o descomunal ultraje; mas, atadas às convenções sociais, tentou logo colocar panos quentes e abafar o princípio de incêndio. O todo poderoso Demóstenes, um homem carrancudo, arrogante, com o qual troquei ligeiras e precisas palavras, não contou pipoca e questionou a minha sobriedade, fazendo pouco caso: “Esse daí virou a cabeça de vez; maluco beleza…”. E o detalhe: falava sem olhar para mim, confirmando o fascínio pelo escárnio.

***

Para que possa entender, a cena se desenrolou numa manhã de sábado, com o alvoroço de gente que não parava de entrar: primos, tias, avós, todos com os seus respectivos companheiros e, pasmem, amigos de amigos, sucessivamente, em plena pandemia. A situação, como se pode perceber pela explosão que sucedeu, era comum, em quaisquer momentos, manhã, tarde, noite e madrugada. E, convencidos de que eu não teria direito de sequer reclamar, acochavam-me contra as paredes da casa; espremiam-me ao extremo, a ponto de perder facilmente o fôlego.

Natália, à parte de se portar como boa namorada, procedia segundo os ditames disformes da casa, ao deus-dará; jamais se preocuparia comigo; ou não teria forças para lutar contra os acontecimentos. De certa forma, tentava entender, porque, por mais complicada que fosse a zona, era o ambiente possível, no qual estava acostumada a viver; não sabia, nem se esforçava para saber, de outra vida.

Eu, claro, era uma mosca que ocupava, temporariamente, como frisou seu pai, o ambiente sagrado. Desde que saí de Itatinga, da casa de meus pais, para estudar e trabalhar, para dar cabo de minha vida, com a esperança de ser independente, não seria capaz de supor a desordem que se avizinhava. Não abria a boca para formular uma frase, pois que era constantemente interrompido pelo irmão ciumento, o Daniel, que me testava não só a paciência, mas também os conhecimentos, colocando-se num pedestal, como sendo o aluno mais brilhante que havia em toda a história da grande cidade. Exageração barata, egocentrismo, que me enojava. Repetia os passos do pai, que não parava de se gabar a quem chegava; que havia trabalhado como alto funcionário da Vale, desvinculando-se, óbvio, dos fatos recentes, “da época em que havia gente séria…”.

A grande questão, o que a leitora já pode inferir, é que o ambiente era hostil para um ser interiorano, acostumado à calmaria – algo que não ajuizei enfrentar, assim, de cara – e lidar, também, com as oscilações de humor de todos os entes que coabitavam o recinto. Ademais, a leitora pode me achar um sujeito ingrato. Falo de coração que me culpei desde o primeiro dia ali instalado; que seria problema meu; que deveria ser dócil, paciente; que estavam me fazendo uma grande bondade. Mas, não, posso confirmar, há áudios que gravei para não sair, no momento devido, como o ruim, mau, propriamente mal-agradecido.

Logo no primeiro dia, Natália, que conheci pela internet e que me ajudou a passar no vestibular para Medicina, na USP  – na verdade, a ajuda resultou mútua –, me alocou no quarto destinado a um funcionário que estava de férias, contando que, dentro de um mês, no máximo, eu procurasse o meu lugar; esse era o decreto: “Pois é, Gustavo, não somos acostumados a visitas demoradas… namoramos há pouco tempo, e o papai não compactua muito com essa ideia de namorado em casa”.

Como cheguei no começo da tarde, esperava, ansioso, o almoço, ou o que tinha sobrado deste; nunca tive besteira em comer comida requentada. Carmina, mãe de Natália, mal tendo acomodado minhas coisas no quarto, me alertou que o almoço era rigorosamente às 12h30min; que estava deveras atrasado; e que não havia mais tempo de preparar algo, sobretudo porque preparava o almoço “contado”, para não haver desperdício. Até então entendi, com um pé atrás, porque poderia, se quisesse fazer uma gentileza, preparar um ovo mexido, um sanduíche, etc. e tal. Contudo, sem cerimônias, despachou-me com poucas palavras e fui, por isso, cansado e esfarrapado da noite mal dormida, obrigado a buscar qualquer coisa no bairro; e me custou andar cerca de dois quilômetros para encontrar um posto de conveniência com preços acessíveis.

No segundo dia, também descobri que o café da manhã se dava, “rigorosamente”, às 6h30min, visto que se habituaram com os horários do chefe de família; então, mais uma vez, passei por debaixo da mesa, como diz a expressão. Comi duas bananas que Natália me deu, escondida, pelo visto, pois que aparentava bastante nervosismo, como se me passasse um contrabando.

No quarto emporcalhado, entre cupins e mofos, me deitei e comecei a ler um livro chamado A estepe, de Anton Tchekhov, para vagar pelos campos infinitos, imaginar a natureza e conjecturar algum ar – quando fui surpreendido pelas batidas do chefe, como era chamado pelos seus, declarando que eu não passasse muito tempo trancado; que, aliás, não permitia as portas trancadas, sob o risco de confiscar a chave.

Abri a porta atordoado com o atropelo, às oito da manhã, como se estivesse num quartel, com horas bem definidas, sem qualquer critério para tal. Lembrei-me imediatamente de minha casa, na qual estudava por horas a fio, só, sem ser perturbado por meus pais, que entendiam e apoiavam os meus desejos. O chefe se sentou na cama, ou o que se pode deduzir que seja, e declarou, pausadamente, forçando cada sílaba, que eu não me atrevesse a fazer besteira com sua filha, muito bem educada; que, se algo acontecesse, antes de me pôr para fora, deixaria profundas marcas em meu corpo.

A insinuação veio como uma bomba, especialmente porque Natália me provocava, sem perder o olhar inocente, para parecer boa moça; como se quisesse, sórdida, incitar os meus instintos. Inteligente que era, não mandou nenhuma mensagem mais quente pelo celular, o que seria proveitoso para mim, caso seu pai insistisse na perseguição. Ao contrário, pegava-me, em algum momento de distração e apertava meu corpo, sem constrangimento; dedilhava a porta do quarto, na madrugada – sentia os seus intentos macabros. Um frio indescritível percorria a minha espinha, com o medo de ser confundido; como se eu estivesse “dando em cima” da menininha inocente.

O primeiro almoço foi um suplício. Todos, inclusive Natália, olhavam-me fixamente, de cima a baixo, com desdém. O chefe deu início a um interminável questionário: de que família era; o que meus pais faziam; o que pretendia para a vida e com a sua filha; quais seriam as minhas notas, etc., etc., etc., sem deixar de me rebaixar, com linguajar torpe, declarando, sem meias palavras, que a vida em São Paulo era difícil para gente mixuruca; que o mercado da medicina – algo que nunca tinha ouvido: “mercado da medicina”; pensava em cuidar de pessoas, unicamente – era bastante competitivo; e, para fechar, que não via em mim a marca do sucesso. Engoli a comida para não ser indelicado, controlando os ímpetos, sendo afrontado com risos nervosos, inclusive de Natália, de quem menos esperava; a moça de voz mansa, e, ao que parecia de início, calma.

No mesmo dia, o segundo, não consegui jantar. Também, não houve qualquer contato da família nesse sentido. Experimentei, de certa forma, o alívio. Planejava sair pela manhã, comer o que conseguisse na rua, ajeitar a minha matrícula na universidade e procurar um canto para ficar.

Levantei-me às sete, quando não existia farelo de comida sobre a mesa. Fui até a porta nas pontas dos pés, para não ter de falar com ninguém, e Natália surgiu de não sei onde. Os planos ruíram, já que ela insistia em me acompanhar, alegando que precisava me ajudar; que eu não conhecia a cidade e poderia me perder.

Rodamos a cidade, em passos lentos. Natália estava pronta para me atacar. Tentou me prender num parque, sob o pretexto de a faculdade estar o dia todo aberta; que não precisávamos de aperreio. Caí, como um patinho, na lábia experiente, treinada. Apesar disso, me socorreu uma sensação de terror, pensando que o chefe poderia estar à espreita, caçando um motivo para me pegar. Larguei-a e pedi que me acompanhasse em paz, razão que a fez ferver na rua movimentada e despejar em mim as piores palavras, as quais nunca teria ouvido; que era frouxo, mentiroso, aproveitador, preguiçoso e feio. Não entendi o preguiçoso e feio, visto que pensei que estava comigo justamente pelo contrário.

Ela, por si mesma, chamou uma amiga e resolveu seguir o seu rumo, sem mim. Agradeci a Deus e suplicava por uma solução rápida; não aguentaria mais um dia.

Infelizmente, tive de aguentar. Na faculdade me avisaram que a matrícula deveria ser feita pela internet. Viagem perdida. Minhas expectativas foram frustradas e, além do mais, estava arrasado com o engodo em que havia me metido.

Passei o maior tempo possível nas ruas. Consegui concluir a matrícula através de um computador instalado num prédio público. Voltei a casa às 19h, sendo recepcionado pelo olhar severo do Daniel, que nem sequer respondeu ao meu “boa-noite”. Não foi um problema não me encontrar com Natália. A mãe irrompeu o tempo, antes que entrasse no quarto, para dizer que Natália estava indisposta, com dor de cabeça; que não a perturbasse.

Conferi o celular no quarto, depois do banho, estando mais relaxado; e vi duas longas mensagens de Natália, assumindo o erro de ter aceitado o namoro; que queria conversar seriamente, porque a família não me suportava; que o chefe já havia decretado que resolvesse a situação, pois não admitiria viver com alguém tão feio e preguiçoso.

Mais uma vez, liguei o alerta. Mas como, se eles não sabiam de minha luta, estudando e trabalhando desde novo, sem nunca tirar um dia de férias? O feio era a designação que não acreditava; não me conformava. Como falavam assim de mim abertamente? Fui ao espelho e a única diferença visível, para os que estavam ali, seria a cor. Sim, a cor mestiça, cabocla, da qual tenho tanto orgulho.

Foi a primeira vez que percebi o desprezo: o brutal racismo. Acordei cedo, no dia 29 de agosto de 2020, esperei que todos estivessem ao redor da mesa para soltar parte do que havia em meu coração.

De lá, parti para a delegacia. Entreguei todos os áudios, mensagens, inclusive vídeos que fiz à socapa, dois, com as caras bem expostas de nojo à minha figura. O inquérito foi aberto. Mas, destruído, não quis acompanhar de perto; voltei à minha cidade e esperei os nervos acalmarem para tocar a vida, de novo, na grande cidade.






quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ponto de Honra - um conto de Monahyr Campos



- Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

- Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

- Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho... A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita... Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré... Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se...

- Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho... agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?








quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Fomes




A fome não é exigente: basta contentá-la, 
como, não importa. 
(Sêneca)

No primeiro tombo, ralou os joelhos no assoalho duro. Ganhou consolo, colo, chupeta. Viu o piso inanimado de madeira ser chamado de bobo e feio pela mãe, e receber do pai tapas insanos. Não achou graça. E chorou aos gritos, nariz escorrendo, punhos tão cerrados que arrebentou a pulseira de ouro de chapinha na qual o nome dela estava gravado em letra bordada. Esperneou, corcoveou, puxou os próprios cabelos e os da mãe, que a sujigava nos braços para que ela não caísse. Então, o pirulito. Grande, multicolorido. Entregue pelo pai como um troféu melado. E não houve mais choro ou ranger de dentes. Que gracinha! Menina linda da mamãe! Amorzinho do papai! Que belezinha!
Passou a infância entre doces, sorvetes, choros e elogios. Chocolates pretos, brancos, crocantes, recheados. Recebidos em momentos de dor, de aflição, de insegurança, de carência. Na adolescência, descobriu os sanduíches de dois andares, os refrigerantes, os achocolatados misturados com granulados, as casquinhas de biscoito que enfeitavam os milk-shakes e que depois passaram a ser comidas sem os milk-shakes. E como a ansiedade não passava, e como os meninos já eram ridiculamente fiéis às formas esquálidas, e como as dela eram redondas e macias como as almofadas do sofá, deixou que toda aquela fome, constante e imensa, fosse aplacada por novos sabores. Incluiu na dieta um baseado por noite e cinco dias de álcool por semana. Vodca. Retirada sem aviso do estoque do pai. A Stolichnaya era tomada em copo de plástico branco. Em casa. No quarto. Caso alguém entrasse sem bater, não daria muita atenção a um copinho descartável. Na rua, fazia vaquinha com os amigos; compravam gelo.
Mas a fome não passou. Não passava nunca. Além do apetite causado pela larica e pela ressaca, havia mais. E ela queria esse mais. Da primeira vez que fez sexo, sentiu-se saciada, relaxada. O banco de trás do carro era apertado para o seu corpo gordo, mas aquele aperto todo tinha excitado o parceiro. Mais atrito, mais encaixe, mais penetração, ele explicou assim que a trepada terminou. Naquela noite, ela se esqueceu do baseado e do copo de vodca, que dormiu metade cheio embaixo da cama.
Viciou-se naquele alívio que a fez esquecer os doces, os refrigerantes, as pizzas, o álcool. E descobriu que o que lhe dava mais prazer no sexo era enfiar na boca o membro ainda mole e senti-lo crescer ao comando da sua língua nervosa. Em pouco tempo, ganhou fama de ser a melhor na prática do sexo oral. Ela diria pênis e boquete, mas ainda não estava pronta para essas palavras tão íntimas.
Namorados, amantes, ficantes. Ela escolhia. Marcava e desmarcava dia e hora. E decidia quanto tempo duravam. Desejava, implicava, atraía, rejeitava. Passou a trocar o almoço por transa. O jantar, os lanches de fim de semana. Trocou de idade várias vezes, virou mulher. Gostosa, safada, experiente, esperta. Magra na medida certa. Cheia nos lugares certos. Até que cismou que precisava entender aquela fome maior do que ela. Procurou psicólogo, padre, benzedeira, astrólogo. Comprou livros que falavam de obsessão, de compulsão, de possessão, de fugas, de vícios, de complexos, de negação, de distúrbios. Nada. 
Então, leu sobre o controle e sobre a dominação. E teve fome de algemas, chicotes, correntes. Fome de poder. Esse pirulito grande, multicolorido.








terça-feira, 8 de setembro de 2020

Livre, finalmente!


Senti desde muito novo uma grande preocupação pela liberdade de ação, a minha, claro está. Ainda mal andava e já me incomodava ouvir proibições ou, pior ainda, orientações para o que podia ou devia fazer. Era até quase certo fazer exatamente o oposto do que me pediam que fizesse, apesar de as consequências serem geralmente más.
Recordo ainda claramente a primeira vez que exerci o meu direito de decidir por mim. A minha mãe tinha-me sentado no balcão da cozinha, a uma distância considerável do fogão, claro, dizendo-me claramente que não saísse dali e que não tocasse em nada. Palavras fatais! Mal virou costas gatinhei logo balcão fora a todo o gás para tocar na panela que começara a ferver. Escusado será dizer que o resultado não foi nada bom para mim!
Durante a infância e boa parte da adolescência a situação manteve-se assim, recusa total em aceitar conselhos ou ordens e, paralelamente, fazer exatamente o contrário do que me tentavam proibir. Tornara-se até uma espécie de obsessão, não me limitava a reagir aos acontecimentos, procurava ativamente que me dessem orientações e proibições pelo puro prazer de as ignorar e transgredir. Foi o período mais feliz da minha vida, sentia-me totalmente livre, talvez até a única pessoa livre do mundo.
Os problemas começaram quando entrei para a universidade. Como familiares e amigos me tinham aconselhado — a meu pedido, claro — um curso mais prático e com boas saídas profissionais, como informática ou medicina, escolhi filosofia por me parecer a opção mais oposta entre as que me eram oferecidas, nem prático nem útil em termos de carreira futura, uma vez que não tinha a menor intenção de me dedicar ao ensino.
Mas as coisas começaram a correr mal logo nos primeiros dias. Por muito que tentasse — e acreditem, esforcei-me ao máximo, a ponto de me chamarem o Sr. Intervenções! — nunca conseguia que professores ou colegas se comprometessem com uma opinião para poder então escolher a oposta. Nunca havia factos, se alguém citava uma fonte, logo meia dúzia de vozes se erguiam a citar outras diferentes ou opostas. Um verdadeiro pesadelo!
Nem sei como consegui sobreviver ao primeiro ano letivo, penso que não tive um único momento de felicidade exceto nos poucos dias de férias de Natal e Páscoa que decidi passar em casa para poder voltar à minha rotina. O verão chegou mesmo na altura certa, não sei se resistiria a mais uma semana daquele ambiente profundamente perturbador para alguém como eu. Nem imaginam o prazer que foi voltar à companhia de familiares e conhecidos, todos muito opinativos e que me proporcionavam dezenas de ocasiões diárias para exercer a minha liberdade de dizer e fazer o contrário.
Só voltei para o segundo ano da faculdade porque todos esperavam que não o fizesse. E por uma vez na vida, devia tê-los escutado.
Nem de propósito, um dos primeiros assuntos a vir à baila no início do ano letivo foi o tema da liberdade. Já não recordo o que foi dito, mas houve uma pergunta de um colega — amaldiçoado seja para sempre! — que me marcou profundamente. Foi simplesmente esta:
“Ao fazermos o que nos é proibido não estaremos a deixar-nos controlar por quem fez a proibição?”
Na altura, a pergunta até passou despercebida, como muitas outras, aliás, naquelas aulas de discussão livre. Infelizmente, eu tinha-a ouvido e nos dias que se seguiram não conseguia pensar noutra coisa. Afetou-me tipo sismo de grau 9 na escala Richter ou como aquele tsunami do dia após o Natal. Toda a minha existência, todo o meu conceito de liberdade tinham como pedra angular o critério de fazer o oposto do que me diziam. Mas quanto mais pensava no assunto, mais via que aquele colega maldito tinha razão, eu fora sempre controlado pelos outros e a minha tão gabada liberdade resumia-se a uma mão cheia de nada.
Profundamente deprimido, deixei de ir às aulas, fechava-me no quarto alugado saindo apenas de vez em quando para arranjar alguns mantimentos que fazia durar o mais possível. Quando a bolsa me foi retirada por incumprimento escolar e o dinheiro acabou, comecei a fazer pequenos roubos para me sustentar uma vez que a ideia de voltar para casa naquele estado me enchia de pavor, o pavor de não saber como reagir ou que dizer quando surgissem os inevitáveis conselhos e sugestões sobre o que fazer a seguir. Acabei inevitavelmente por ser preso e condenado.
Os primeiros dias na cadeia devolveram-me um pequeno grau de felicidade, com poucas opções não se punha muitas vezes o dilema de fazer o que me mandavam — coartando assim a minha liberdade — ou de fazer o oposto, com o mesmo resultado de acordo com o tal colega. Mas isso pouco durou, era uma cadeia de baixa segurança e entre presos e guardas enfrentava diariamente vários atentados à minha liberdade.
Mesmo assim, sempre era melhor que a vida lá fora. Infelizmente, o meu crime não fora grave e a pena curta a que fora condenado em breve terminaria, lançando-me de novo nas agruras de uma vida repleta de decisões. Voltou a depressão, que nunca tinha desaparecido totalmente, e só não passava os dias enfiado na cama porque não podia. Sabia ao segundo o tempo que me restava naquele santuário, imperfeito, é certo, mas bem melhor do que a alternativa.
Até que tive uma ideia brilhante. Ataquei ferozmente dois guardas e num novo julgamento fui condenado a uma pena bem mais severa e enviado para uma prisão de alta segurança e com regras bem mais rígidas. Durante uns tempos as coisas melhoraram, mas o peso da meia dúzia de decisões que tinha de tomar diariamente começou a ser esmagador. Repeti pois a dose, atacando desta vez um dos outros presos.
Estou agora em solitária, ou o que passa por ela neste país de brandos costumes. Fico simplesmente fechado na cela a maior parte do tempo, com apenas uma hora diária de passeio solitário no pátio e uma ida ao banho. Vejo apenas os guardas que me acompanham nessas saídas e os que me trazem o indispensável à cela e não falo com ninguém. A comida é-me simplesmente trazida, sem opções, e sei que se não a comer, azar, passo fome até à refeição seguinte. Não há horas certas para dormir ou fazer seja o que for e como estou proibido de ter visitas nem sequer tenho de decidir se as quero ou não ver, Enfim, passo dias a fio sem enfrentar um único dilema, acatar ou ser contra.
Estou livre, finalmente!

Luísa Lopes
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