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domingo, 26 de abril de 2020

Pra que a morte não caiba



Pra que a morte não caiba

(Maria Amélia Elói)

Cabe o fim dos tempos
a eternidade
o embargo
o estorvo
nesta quaren-quasequatrocen-tena.

Estranho.
Triste.
Não há recém-nascido no berço.
O resguardo é outro.

O terço, nas mãos que o contam,
pede só o retardo
da morte,
seu egresso
e fracasso.

Está tudo suspenso.

Uma preguiça
cansada de durar tanto.
Um medo de criança
ante a vida postergada.

Não pode cão na praça
beijo, namoro.
Não pode menino solto
brincadeira no pátio da escola
nem bola de sorvete na sorveteria da esquina.
Não pode circo, cinema
vento e árvore na calçada
trânsito 
abraço e bolo de aniversário.
Não pode nem hóstia, nem hóstia.

Todos à parte, vigiados, segregados, devidamente higienizados, limpos.
Sem refresco.
Desejos sucintos.

Só pode o necessário.

E eu entendo, mas não é fácil.
Obedeço. Só a vida é necessária.

Resta o fôlego da fé
resistência.
Toda a dor da abstinência.
Pra que a morte não caiba.


Imagem: André Cerino, "A pequena pianista", da série Imaginário, 150 x 150 cm, acrílico sobre tela, 2019.


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