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sábado, 29 de fevereiro de 2020

A Última Afronta


O homem acordou, cheio de dores em todo o corpo e apercebeu-se do braço engessado. Lembrava-se vagamente da ambulância e do aparato na entrada das urgências. Apalpou o volumoso penso que tinha numa das orelhas e grunhiu uma praga.
Gemendo, sentou-se na cama e olhou em volta; havia mais três leitos, cujos ocupantes dormiam a sono solto. Um deles ressonava ruidosamente.
Queixoso, pousou os pés no chão e calçou os chinelos que estavam ao lado do leito. Era um homem de compleição forte, quase gordo, de sessenta e um anos, mas com a cabeça coberta por uma farta cabeleira branca. Caminhou ao longo da cama, apropriou-se da canadiana do vizinho e cutucou-o rudemente com ela, para que parasse os roncos. Depois, apoiado no objeto roubado com o braço são, dirigiu-se para o corredor, para responder à urgente vontade de urinar.
Caminhava com dificuldade, apoiado na canadiana, ao longo do corredor do hospital, quando, atrás dele, saída das sombras em passo apressado, avançou uma mulher, aproximadamente da mesma idade. Também tinha hematomas no rosto, a cabeça ligada e dois dedos de uma mão com talas.
Assim que o homem chegou à porta do WC, apercebeu-se da presença da mulher e fez uma expressão de terror, quando ela lhe lançou o cotovelo sob o queixo e premiu-lhe a laringe sem piedade. Entraram ambos de rompante pelas instalações sanitárias, sem que ele conseguisse soltar um gemido.
Lá dentro, ele bateu com a cabeça na parede com força. Com o pé, ela empurrou a porta para que não fossem vistos do exterior e começou a socá-lo com toda a força, enquanto ele tentava proteger o rosto, sem sucesso. Lutaram pela canadiana e quando ele soltou um grunhido, pela garganta magoada ela principiou a dar-lhe joelhadas nos genitais, até que ele se vergou. Agarrou-o pela gola do pijama e puxou-o com toda a força, com a cabeça contra o ferro de apoio, ao lado da sanita e o homem caiu desacordado.
Ofegante, olhos desvairados de fúria, ela espreitou para o exterior, verificando se os ruídos não tinham chamado a atenção de ninguém. Em seguida, ajoelhou-se sobre o peito do homem e tapou-lhe o rosto com a toalha, pressionando sobre o nariz e a boca. Ao fim de uns segundos, ele começou a debater-se, mas ela conseguiu mantê-lo imobilizado o tempo suficiente, até que parasse de se mexer.
Saiu das instalações sanitárias, a transpirar, cabelo desalinhado e em passo rápido, para voltar à ala que lhe competia.
Para saber quem eram estas duas pessoas e qual a animosidade que movia a mulher, para uma atitude tão violenta, teremos de recuar ao dia anterior.
***
 Gabriela era uma mulher geniosa, ectomórfica, a rondar os sessenta anos. O seu rosto, de linhas finas, prematuramente envelhecido, deixava as pessoas surpreendidas, com o contraste da agilidade com que se movia. Naquela manhã, estava corada e os seus olhos soltavam chispas, quando chegou ofegante à porta da casa de Daniel, o seu ex-marido. Com o punho fechado, bateu fortemente por várias vezes, gritando o nome daquele que, em tempos, partilhara a vida com ela.
Daniel vivia desafogadamente, como se podia atestar pela moradia, numa zona cara da cidade e a ocupar uns bons metros quadrados de terreno caríssimo. Reformado da direção de uma empresa pública, a pensão era suficientemente generosa para não lhe faltar nada.
— Gabriela?!? — Perguntou ele, surpreendido, no seu fato de treino de andar por casa, bem recheado de carnes. — Que se passa?
— Que se passa, seu monstro? — Ela cuspiu a pergunta. — Que se passou, seu porco! Que aconteceu debaixo dos meus olhos?
— Espera! — Ele tentou acalmá-la. — Entra e sossega, explica-me tudo, mas cá dentro.
— Não queres escândalo, é? — A mulher mantinha o tom de voz alto. — Tens medo de que os teus vizinhos saibam o filho da p** que tu és? — Ato contínuo, tentou esmurrá-lo no rosto.
Ele agarrou-a pelos pulsos e puxou-a para dentro de casa, enquanto fechava a porta com o pé. Estavam num pequeno átrio de entrada, ao cimo de umas escadas que desciam para uma elegante sala de estar.
— Acalma-te! — Gritou-lhe, sacudindo-a. — Que diabo! Que te aconteceu, julgava que estava livre das tuas fúrias!
— Estive hoje ao telefone com a minha filha! — Ela começou, enquanto lhe ia dando estaladas, que ele nem sempre conseguia evitar. — Com a NOSSA Alice, seu cabrão! — Continuava a espancá-lo. — Ela contou-me porque tinha tanta pressa em ir para Londres! Está a divorciar-se agora do marido, por não consegue, nunca conseguiu ter relações normais com ele, por tua causa!
— Que te contou ela? — Ele defendia-se como podia. — A Alice é uma mentirosa, já sabes!
— Não! Mentiroso és tu! És um demónio, um monstro! Ela tinha medo de ti e eu não percebia porquê, pois parecias tão carinhoso! — Gabriela chorava e os tabefes transformavam-se em murros bem direcionados. — Quando te deixei, nunca teria imaginado que essa tua cabeça porca, esses teus olhos lúbricos e nojentos se haveriam de pousar na tua própria filha! Julgava que as porcarias que viviam nessa mente tortuosa e doente estavam-me destinadas, como castigo de algo mau que pudesse ter feito, não para uma criança inocente! Porco, cabrão, filho da p**!
— E que querias, sua vaca anorética e histérica? — A atitude dele mudou radicalmente, enquanto devolvia os golpes dela com violência. — Desde que ela nasceu, só tinhas olhos para ela! Desprezavas-me e já não querias fazer as coisas, que gostavas tanto de fazer comigo!
— Gostava de fazer?!? — Gabriela agarrou-se como pôde à farta cabeleira alva e sacudiu-o. Por instantes ficaram um em frente ao outro, como que a decidir o que fazer a seguir. — Eu amava-te, seu cabrão pedófilo! Sujeitava-me porque te amava, mas depois comecei a odiar tudo aquilo que me fazias! Não era natural as coisas humilhantes que me obrigavas a fazer e eu só soube isso quando conheci um homem a sério e não um frouxo, que só se conseguia excitar causando dor e sofrimento.
Daniel acertou-lhe um soco violento que a atirou contra uma credencia e derrubou a jarra e vários objetos de vidro que lá se encontravam. Ele aumentou a pressão com dois tabefes que a prostraram no chão. Seguidamente baixou-se e começou a apertar-lhe o pescoço.
— Lembras-te? — Sussurrou-lhe ao ouvido, sentindo-se excitado, enquanto ela se debatia e ele aumentava o aperto. — Quase até ser tarde demais… as vergastadas nesse teu traseiro delicioso…
A jarra explodiu na cabeça dele e Gabriela libertou-se, pontapeando-o no rosto.
— Cabra selvagem! — Daniel atirou-se para cima dela, com sangue a correr pelo rosto e começou a rasgar-lhe as roupas, enquanto lhe prendia os braços. Deu-lhe uma cabeçada no nariz, que a deixou atordoada. — Sabes? — Desafiou ainda. — A Alice não valia nada, era em ti que eu pensava quando “a comia”.
Num assomo de energia desesperada, ela conseguiu dar-lhe uma joelhada entre as pernas e ferrar-lhe com toda a força uma das orelhas. Louco de dor, ele tentou erguer-se com a mulher agarrada de pés, mãos e dentes. Desequilibrados, acabaram a rebolar pela escada, até ao último degrau, onde ficaram caídos sem sentidos.
Se ideia de quanto tempo passara. Gabriela teve fraca perceção de ser transportada na maca e das vozes nervosas de médicos e enfermeiros. Estava já a recuperar lentamente a consciência, quando escutou os restos de uma conversa entre duas enfermeiras: “… marido e mulher, sim. Quase se mataram de porrada. Ela está aqui e ele do outro lado, na ala dos homens…”

Ela não abriu os olhos, mas logo ali, soube o que tinha de fazer…





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Paris, São Paulo

“Publicado nesta segunda-feira (19), o trailer oficial de “Star Wars: O Despertar da Força” movimentou as redes sociais – não só do lado bom, mas também do lado mau da força.
Internautas lançaram nas redes sociais uma campanha de boicote ao novo filme da franquia, que terá um protagonista negro.
O ator John Boyega protagonizará a história no papel de Finn, sendo o primeiro “stormtropper” negro de toda a série.”
Folha de São Paulo, 20 de outubro de 2015, às 11h25

“Maria Julia Coutinho, que apresenta a previsão do tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo, foi vítima de racismo na noite dessa quinta (2). Uma publicação na página oficial do programa no Facebook, que trazia uma foto da jornalista “Maju” para ilustrar a chamada “Tempo fica firme em grande parte da região central do Brasil nesta sexta”, recebeu diversos comentários preconceituosos.
“Vai tomar banho e tirar essa cor preta”, “projeto de escapamento”, “a tela da minha TV está preta” e “o tempo está preto hoje” foram alguns dos ataques que a apresentadora sofreu.”
VEJA SP, 1º de junho de 2017, 16h45

EPISÓDIO XXX
          O substantivo Paris não dá nome apenas à capital da França. Dá nome também a uma cidade do Texas, celebrizada em um filme de 1984, dirigido por Win Wenders. Essa cidade, que realmente está no mapa do Texas, está assim definitivamente encravada no Atlas da cultura universal da mesma forma que a Macondo de Gabriel García Márquez, embora esta última não se possa encontrar no mapa político da América Latina. Da mesma forma, eu, Mariana Fortunino, negra de sobrenome italiano, por mérito de anos de estudos e amor à música, encravo, fronteiriça a Macondo, a cidade de Paris, estado de São Paulo, e me autoproclamo sua prefeita, duquesa, rainha ou que outro título eu tiver de usar para garantir minha posição de cortesã.
          Minha dupla licenciatura na USP foi em Português e Italiano e, por isso, minha monografia versou sobre Temistocle Solera, autor dos versos da ópera Nabucco, de Verdi. Fosse eu historiadora, dedicar-me-ia a escrever a História do Racismo e, no capítulo sobre o Brasil, diria que, por não termos em nosso passado, como na África do Sul do Apartheid ou na Geórgia da segregação, leis que impedissem o casamento inter-racial ou dispusessem a separação entre brancos e negros no transporte público, é sustentado oficialmente o discurso de uma democracia racial que mascara o racismo que se faz explícito quando uma pessoa negra alcança um posto historicamente reservado a um branco.
          Meu sobrenome italiano me fez muito bem aceita pelo público quando propus e apresentei, na Rádio Veneza, sediada no bairro do Gonzaga, em Santos, o inovador programa Ópera para Brasileiros. Lá, Mariana Fortunino apresentava ao grande público a arte da ópera, manifestação artística que ainda não obteve a plena cidadania brasileira, embora, em língua italiana, o brasileiro Carlos Gomes, nascido em Campinas, tenha influenciado um dos papas do gênero: foi por ver uma cena de balé em Il Guarany que Giuseppe Verdi decidiu colocar dançarinos em Aída. No programa semanal, de meia hora, eu explicava ao público o que é a ópera, comentava as biografias dos principais compositores e os enredos de suas mais célebres obras. Todo o conteúdo era depois divulgado em formato podcast, e assim alcancei ouvintes não apenas de um extremo a outro do Brasil, mas nos outros países lusófonos. E foi de Luanda que veio a pergunta, na rede social da rádio, se eu praticava o canto lírico. Respondi que sim e dei uma amostra de minha voz entoando alguns versos de Madama Butterfly, de Puccini. Foi tão boa a repercussão que o tempo do programa foi estendido já na semana seguinte, para que eu demonstrasse minha voz enquanto contava as histórias das óperas, antes de brindar o público com gravações consagradas nas vozes de Pavarotti, Maria Callas e outros ídolos líricos.
          Até então, ninguém havia visto meu rosto, pois, cautelosamente, não quis valer-me dos hodiernos recursos que deram aos radialistas a possibilidade de serem vistos por seu público: hoje, muitos programas de rádio dispõem de câmeras que permitem que os internautas os vejam acontecendo ao vivo. Não, eu gravava meu programa antecipadamente e não dava aos neófitos da ópera mais que minha voz e meus conhecimentos.
          O momento do público finalmente me ver foi anunciado quando revelei que conquistara o papel de Violetta Gauthier, numa montagem de La Traviata, de Verdi, a estrear em Maio do presente ano no Teatro Municipal de São Paulo. Prontamente a imprensa enviou seus repórteres para contar aos seus leitores a aguardada estreia. E, para a surpresa de todos, soube-se que Mariana Fortunino era a mesma Mariana da Silva que leciona Língua Portuguesa na Escola Estadual Senador Robert Kennedy, em São Bernardo do Campo. E agora estava explicado por que há muito não era vista, nos lugares de sempre, aquela professora que tantas vezes cantara na missa na histórica igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem e tantas vezes complementara seu magro salário de educadora interpretando Dolores Duran nos bares de Santos ou tocando violino em cerimônias de casamento em Santo Amaro: a doida atrevia-se a compor, no mais prestigiado palco de São Paulo, o elenco de uma ópera italiana!
          Tal consagração não me valeu apenas menções honrosas na Câmara Municipal de São Bernardo e na Assembleia Legislativa, mas também ofensas pelas redes sociais, que, como disse Umberto Eco, deu voz aos idiotas, e, digo eu, também aos intolerantes: como é possível que uma negra faça o papel da amante de Alfredo Germont?
          É conhecido o ditado segundo o qual aos amigos não se dão explicações, porque eles não as exigem, nem aos inimigos, porque eles as desprezam, mas escrevo neste blog este manifesto não para responder aos insultos racistas – pois isso se faz com denúncias e processos judiciais – mas dissertar sobre a Arte e a representatividade negra: quem recusa a uma artista negra um papel que, historicamente, foi de artistas brancas não entende de Arte.
          Para começar, a Arte não tem de reproduzir a realidade. Vejamos: Romeu e Julieta é uma tragédia que se passa na Itália, mas seu texto nunca foi realista, pois foi escrito em Inglês. Desde a primeira representação, fugiu a esse realismo estreito advogado pelos conservadores: se Shakespeare fosse realmente fazer uma obra fiel ao seu cenário, deveria tê-la escrito no dialeto de Verona, cidade do Vêneto, Norte da Itália. Assim, tão legítimo quanto escrever em Inglês uma peça que se passa na Itália renascentista é deslocar esse cenário da Itália para os Estados Unidos, como fez, em 1996, o cineasta Baz Luhrmann, que, se deu ao loiro DiCaprio o papel de Romeu, deu ao negro Harold Pirrineau Jr. o papel de Mercúcio e transformou o loiro príncipe de Verona no negro comissário de polícia interpretado por Vondie Curtis-Hal. Sim, há lugar para negros nos roteiros shakespereanos, e profetizo o dia em que um diretor negro situará a Dinamarca na África, entre Angola e Moçambique, para que Cláudio sente-se em seu trono vestindo um manto de pele de leopardo e a presença de Hamlet seja anunciada ao som de atabaques.
          Usei o verbo “profetizo” não porque eu tenha poderes sobrenaturais para adivinhar o futuro mas porque, assim como é apenas questão de tempo para que um homossexual sente na cadeira que um dia foi de Barack Obama na Casa Branca, também chegará o dia em que um negro viverá Hamlet, pois os conflitos existenciais apresentados por Shakespeare se realizam em todas as épocas e em todos os continentes, como já demonstraram o já citado Luhrmann e o japonês Kurosawa que, em Trono Manchado de Sangue (1957), transportou para o Japão a tragédia de Macbeth. Fatalmente aqui ou em Pretória alguém africanizará a corte de Elsinor, e a história de Hamlet servirá aos negros para expressarem seus conflitos, da mesma forma que, quando Verdi italianizou a dor dos judeus na Babilônia, o pranto desses cativos animou os italianos a se livrarem da dominação austríaca. E quando eu, negra em diáspora, me encontro diante da cena em que Nabucco destrói o templo de Jerusalém, o que vejo são os terreiros de candomblé incendiados criminosamente no Brasil. As dores dos judeus da ópera de Verdi são as mesmas dores dos negros brasileiros.
          Finalizando: que Paris é essa, representada no palco em que me apresento? Não é a Paris do século 19, pois eu não me visto com pesados vestidos em forma de sino tal qual as mulheres da elite, imitando a rainha Vitória. Meus joelhos estão à mostra, como os das mulheres parisienses de hoje. Minha imaginária Paris paulista cantada em língua italiana, nisso, se parece com a Paris francófona além dos Pireneus. Como a Paris onde me movimento e canto, a capital da França tem negros e mestiços. Sempre os teve. O próprio Alexandre Dumas Filho, autor de A Dama das Camélias, obra que originou La Traviata, tinha nas veias negro sangue haitiano, pois mestiço também era Alexandre Dumas Pai, criador dos Três Mosqueteiros, e a quem Jacques Chirac concedeu a glória póstuma de um túmulo no Panteón, junto a outros mestres da língua francesa, como Voltaire e Victor Hugo. Sou, na Paris da ópera, uma cortesã negra, como o era a amante do poeta Baudelaire, Jeanne Duval, atriz e dançarina haitiana, sua musa. Minha Paris moderna e imaginária, cujos habitantes cantam em Italiano, afinal de contas, não é tão diferente da Paris verdadeira, e ambas as cidades comprovam que é impossível fechar aos negros as portas da Arte. Intolerantes, touché!
          Eu, Mariana Fortunino da Silva, agradeço, por fim, todos os aplausos e sigo com a missão que me foi dada por Violetta: “Sempre libera io deggio / Folleggiare di gioia in gioia” [“Sempre livre devo/ Farrear de festa em festa”].





terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O riso escarninho



Na altura, a incriminação não era opção. O meu desejo mais profundo era mesmo matar Estêvão Arunhos, um antigo mestre de obras e meu vizinho do rés-do-chão. A antipatia vinha de há muito, logo desde os primeiros encontros, quando me mudara para aquele condomínio. O seu ar boçal e desdenhoso manifestava-se em comentários mordazes ao meu modo de vestir, nos olhares irónicos, nos risos alarves, quando me via acompanhado. Não havia razões de reparo, a não ser a sua mentalidade retrógrada e fascista.
Durante mais de dois anos, revesti-me de compreensão e paciência, acreditando que o tempo acabaria por levá-lo a perceber que o meu modo de estar e de viver em nada perturbaria o sossego do prédio e o bem estar dos seus moradores. Cheguei mesmo a falar com ele de maneira cordata, apelando para a sua humanidade e para a paz no prédio. Em vão. Até me pareceu que tinha redobrado as provocações e os insultos, quase sempre de maneira indireta, de tal modo que eu não poderia, legalmente, afirmar que me insultara.
Então, um dia, depois de mais uma gargalhada escarninha que muito incomodou o meu novo companheiro, eu, Emanuel Crispim, resolvi abatê-lo. Uma pessoa daquela índole não tinha correção possível, não tinha um suficiente verniz civilizacional que lhe permitisse conviver com os seus semelhantes.
Depois da decisão tomada, comecei por obrigar-me a tomar consciência profunda de que nada podia revelar a ninguém desta minha decisão e das ações que me exigiria. Sabia bem que um segredo mal guardado já levou à prisão e ao cadafalso mais justiceiros pelas próprias mãos do que as investigações policiais. Em seguida, passei a matutar no modo e na arma para o abater. Tinha de ser longe do prédio para, tanto quanto possível, me manter ilibado. Convinha até que eu arranjasse um álibi, por exemplo, que fosse visto longe do local da execução, na data e hora calculadas.
Ocorreu-me, naturalmente, o óbvio: uma pistola, um tiro na nuca, um local isolado. Tudo isto constituía obstáculos. Teria de comprar a pistola, mas a quem e onde? E o local deserto... Como, se o homem estava reformado e não se afastava de casa mais do que ir ao café e às outras lojas do bairro?
Ao vê-lo entrar na loja de obras e ferragens tive a revelação de qual seria a arma — uma pistola de rebites industrial que comprara uma ano antes numa feira de velharias, na rua, só porque engraçara com o potencial concetual da maquineta. Estava guardada na arrecadação, desde então, e ninguém sabia que eu a tinha.
Desde esse momento, tudo começou a encadear-se. A arma, como ferramenta de operários e industriais da construção civil, era a ideal, se eu quisesse simular um suicídio ou uma vingança antiga de algum trabalhador enganado pelo contratador. Então, ouvi uma conversa no café, que me fez perceber que um vizinho de outro prédio fora operário da construção e que também não engraçava com o malfadado Estêvão das obras. Dizia que este lhe ficara a dever umas horas extraordinárias.
Esta nova informação caiu como sopa no mel. A desavença entre eles era conhecida e, melhor que tudo, o antigo operário amanhava uma horta clandestina numa zona próxima, mas bastante escondida pela vegetação local. Uma aproximação furtiva seria fácil para mim. Foi esta diferente exposição a olhares que me determinou a trocar de alvo. Matar este hortelão não me trazia qualquer alívio da vingança, mas permitia-me incriminar o Estêvão, tanto pelo conflito conhecido como, sobretudo, pela tão específica arma do crime. A pistola de rebites era a cara do antigo mestre de obras… E nada me ligava à vítima, nem um prédio comum. Não mataria quem me atormentava, mas ele haveria de bater com os costados na prisão por muitos anos!
A partir daí, a preparação tornou-se bem mais rápida. Escolhi uma hora que o Estêvão não pudesse provar que estivera com alguém, e o antigo operário ainda labutasse na horta — as horas do fim do dia, que, além disso, proporcionavam um lusco-fusco cúmplice.
A execução não foi bonita, nem digna de maior descrição. No dia marcado, meti-me pelo arvoredo, bem longe da horta do sacrificado, aproximei-me pelas costas tão silenciosamente quanto possível e, quando já estava a poucos metros, saltei para junto dele e disparei-lhe o rebite na parte de trás da nuca. O homem caiu desamparado sem um ai e eu afastei-me rapidamente, indo sair do arvoredo outra vez lá longe.
A morte foi descoberta no dia seguinte. A Polícia andou por aí a perguntar informações aos vizinhos, mas não vieram a minha casa. O Estêvão foi interrogado, mas, inexplicavelmente, não foi preso. Os vizinhos foram perentórios a afirmar a profunda inimizade dele com o morto, o que configurava um indício mais do que suficiente para o funesto desfecho, mas a Polícia não pareceu ter ficado convencida.
Durante semanas, nada mais se soube da investigação. Aparentemente, a Polícia tinha dado o caso como “sem pistas” e, provavelmente, arquivaria o processo, mais tarde. O Estêvão continuou a passear-se pelo bairro, para alguma irritação dos vizinhos, e, talvez por isso, deixou de ser provocatório para comigo.
Já andava a ponderar avançar dessa vez mesmo contra ele, embora sem grandes ideias, quando, certa madrugada, a Polícia me entrou porta adentro, revirou a casa, encontrou a pistola de rebites e me levou preso.
Eu não cabia em mim de perplexidade e acabei por confessar tudo. Mais do que a surpresa da situação, havia perguntas que martelavam na minha cabeça: por que não tinham prendido o Estêvão, mas tinham vindo a minha casa com tal certeza? Tentei que o inspetor que tratara do caso esclarecesse as minhas perguntas, sem sucesso.
Foi por alturas do julgamento que percebi o que tinha acontecido, através dos jornais sensacionalistas: o Estêvão apresentara um álibi — tinha obtido testemunhos pessoais e provas informáticas, com registos de imagem, de que nessa noite estivera muitas horas num site de encontros masculinos; e eu fora apanhado por uma denúncia: a mais recente visita secreta de casa do Estêvão tinha sido meu companheiro tempos atrás e, coscuvilheiro e metediço, tinha andado a meter o nariz nas minhas coisas. O julgamento foi rápido e nem sequer estranhei a dureza da pena de prisão: 25 anos.

Joaquim Bispo

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Por seleção em concurso literário, este conto integra a coletânea Procurados — “policial do ponto de vista do criminoso” — publicada pela editora brasileira Illuminare, em novembro de 2019.

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Imagem: Peter Paul Rubens, Dois Sátiros, 1618-1619.
Alte Pinakothek, Munique.

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domingo, 23 de fevereiro de 2020

VICENTÃO, O SEMIDEUS




Vicentão, caboclo indecifrável, sentia-se velho. Cansado, agigantado. A voz grossa soava quase ininteligível, era um sussurro entrecortado por pigarros e tosse. Mas as filas continuavam, desmedidas. Ainda penaria por vários anos. Não compreendia se a missão era bênção ou castigo. E não podia parar. Enquanto acordasse, enquanto entendesse o dia e a noite, seria o estandarte de fé, a crença, o fiapo de esperança daquela gente. Sabia da sentença. Ninguém, mais que ele, conhecia a pesada realidade. A verdade pura, sem cisma.
Havia tanto tempo desde o começo de tudo... Só os velhos moradores testemunharam. Do dia para a noite, ele apareceu por aquelas bandas vindo não se sabe de onde. Era fala corrente de que descera lá das terras de Lampião, mas ninguém afirmava. Precisava ter peito para cravar isso.
Ainda era homem novo, encorpado, de pele muito escura, com pesadas roupas recendendo a suor que, em segundos, impregnavam o recinto. Fedentina avinagrada. Mãos imundas, unhas de pontas amareladas. Boca negra sempre a mascar fumo-de-rolo. Olhos esbugalhados, de um verde fogueado, que pareciam penetrar nos pensamentos daqueles que os fitavam, ainda que quase encobertos pelo largo e ensebado chapéu. Razão pela qual, ninguém do povoado o encarava. Era olhar e baixar os olhos.
Malocou-se na beira do riacho, do lado da estrada. Abrigo de pau trançado, folhas de bacuri, tudo amarrado com cipó. E tinha Jurema, amigada. Moça sacudida, de longos cabelos negros e de feitio arisco. Pouco era vista. Nunca se afastava do trecho.
Vicentão só aparecia na corrutela quando precisava de arroz, feijão ou cachaça. As misturas da comida ele tirava do rio, do mato. Estranho era que ele não trabalhava. Ninguém compreendia como conseguia viver sem ganhar. E não era por falta de serviço! Ali, no povoado, havia muito serviço nas roças. O pagamento era tacanho, mas chegava.
Desde que o estranho homem imbicara por ali, tudo foi mudando. A vida já não era a mesma. De início, todos tentavam ignorar. Nada de fazer qualquer ligação das diferenças entre antes e depois do aparecimento de Vicentão. Ninguém queria pensar nisso. A prudência mandava afastar tal pensamento. Era visível que as portas das casas já não ficavam escancaradas, os portões viviam trancados, as noites passaram a ser temidas. Coisas estranhas, que só eram percebidas de dia, aconteciam à noite.
Com o decorrer do tempo, o coveiro reparou um aumento acentuado no número de corpos que enterrava. Quase sempre mortes violentas, sem explicação convincente. Quedas de cavalo, enforcamentos, corpos encontrados em lagoas, acidentes com facão, com foices. Assim morreram muitos sitiantes, pequenos agricultores.
E Vicentão continuava vivendo à beira do riacho. Vida de bicho. Engordava a olhos vistos, estava enorme. Em poucos anos, podia-se notar que ganhara o dobro do peso. E tornou-se pai de três bruguelos. Tudo macho.
De repente, sem alarde, passou a viver num pedaço de terra que lhe foi cedido por um grande fazendeiro. Ganhou casa, móveis, horta, porcos, galinhas... Uma vida de gente. Jurema cuidava da lida, plantava, e o excedente era vendido no povoado, por Vicentão. Usava uma carroça que gemia pela estrada. Dava dó do pobre animal a puxar todo aquele peso.
Além de vender sua mercadoria, passou a fazer orações em voz alta. Passava pelas ruelas a dizer boas novas, invocando as graças de Deus e dos santos da arcada celestial. E aquilo foi virando costume. Os menos afortunados, os mais desavisados, aqueles que se sentiam fragilizados e esquecidos pela salvação, encontraram sintonia nas palavras ditas por aquele vozeirão. Aproximavam-se e rogavam por uma reza, uma orientação, uma benzida. E, como tudo que afaga a esperança dá um sopro de vida, os moradores, enlevados, afirmavam que o filho havia reagido à doença, que a tosse havia cessado, que o ânimo havia arribado. Enfim, as rezas foram se avolumando. O povoado todo aguardava ansiosamente a chegada do Vicentão verdureiro.
As mortes diminuíram assustadoramente. Não pelas bênçãos recebidas do estranho homem. Antes disso. Mas ninguém tocava no assunto. As cismas não foram esquecidas, foram guardadas. Quem ousaria dizer numa prosa que desconfiavam que houvesse, por ali, um matador de aluguel?! Estava bom daquela maneira, não importavam as circunstâncias. Ao coveiro sobrava mais tempo de cuidar de outros afazeres. Modorrento, até cochilava nas tardes mornas.
Ao mesmo tempo em que ocorria a ascensão da fama de benzedor, Vicentão ia ganhando peso. Ganhara um corpo tão assustador, tão desproporcional que já não conseguia andar. Os joelhos não suportavam o peso, os pés inchados, esparramados, não coordenavam a caminhada. E, assim, também o serviço de vender a produção ficou a cargo de Jurema e dos meninos.
Vicentão já não arredava pé do sítio. Aliás, quase não arredava pé da imensa cadeira. E a casa passou a ser destino de procissões de fiéis. Filas diárias. Bastava raiar o dia, os crédulos iam chegando. Traziam doentes, crianças, pertences. Comum era o benzedor fazer uma oração tendo em mãos uma camisa, uma calça, uma veste do doente. Na ausência, o pedido de cura era endereçado ao dono daquela peça. O segredo era, depois, vestir o enfermo com aquela roupa, sem que fosse lavada.
A figura do benzedor, envolto em roupas brancas, com o peito coberto por profusos colares, quase estático na penumbra daquela sala toda enfeitada com flores de crepom, de imagens e quadros de santos, de velas acesas, era o retrato de uma entidade. Impossível mensurar a importância daquele homem na vida dos peregrinos. Era sagrado. Divindade. Nunca era questionado. Os incautos o veneravam.  Os incrédulos ficavam calados, simples assim. Era um respeito velado.
Muitas vezes, era visto como o próprio Deus a distribuir curas e milagres. Não era o intercessor, era o Rei. E as súplicas eram segredadas, os louvores eram cantados, a esperança, que transcendia a razão na presença Dele, era aspirada.
O povoado criou fama. Passou a ser lembrado na região toda, até mesmo nas cidades grandes. As caravanas chegavam aos montes. A peregrinação trouxe vantagem aos moradores. A vida melhorou muito. O povoado estava vistoso, cheio de vigor. Havia serviço de rádio, fábrica de vela, os moradores estavam até confabulando sobre abrir uma gráfica. Os santinhos encomendados nas cidades grandes saíam a preço muito alto, o lucro era pouco.
E chegou o serviço dos Correios. Dos bancos. E começou o asfalto. Brotaram novos empreendimentos, pousadas, bares, restaurantes. O povoado virou uma cidade. O progresso, conduzido por aquele forasteiro misterioso, foi galopante e atravessou décadas.
Vicentão, caboclo indecifrável, sentia-se velho. Cansado, agigantado. A voz grossa soava quase ininteligível, era um sussurro entrecortado por pigarros e tosse. Mas as filas continuavam, desmedidas. Ainda penaria por vários anos. Não compreendia se a missão era bênção ou castigo. E não podia parar. Enquanto acordasse, enquanto entendesse o dia e a noite, seria o estandarte de fé, a crença, o fiapo de esperança daquela gente. Sabia da sentença. Ninguém, mais que ele, conhecia a pesada realidade. A verdade pura, sem cisma.
E como penou. A jornada tornara-se arrastada e, caprichosamente, sugava dele cada fagulha de ânimo que brotava nem sabia de onde. Verdadeiro calvário.
E num começar de dia, igual a tantos que passara por ali, com os olhos cansados mirando a interminável fila de inocentes, Vicentão dobrou-se diante da vida. Uma vertigem, uma tremura esquisita, queimação insuportável no peito. A sororoca foi curta. Sem tumulto, sem sobressalto, partiu. A notícia saiu porta afora e todos se puseram de joelhos. Sem alarido, serenos.
Jurema, a eterna amigada, sabia dos desejos do benzedor. A cama de casal fora levada para os fundos da casa, colocada na sombra da figueira. Ali ele seria velado e ali seria enterrado. De início, todos ficaram apavorados com o carregamento do corpo até lá. Como levar aquele despropósito de cadáver até o terreiro, e como enterrá-lo?!
Todos os homens se apresentaram e ficaram planejando a remoção. Quem seguraria os braços, as pernas, os pés, a cabeça. O corpo! Era uma multidão girando em torno do defunto tentando achar o jeito mais acurado para o carregamento. E o susto foi geral. Na primeira tentativa perceberam que o corpo era leve feito paina. Não exigia força alguma para levantá-lo. Ficaram calados durante todo o trajeto até à figueira. Arranjado o corpo sobre a cama, todos rezaram em silêncio. Até na hora da morte, Vicentão tirava cartas da manga. Era criador de cismas. Soube, como ninguém, brincar com a vida. Ou com a morte. Ou com a fé.
Sepultado ali mesmo, sem qualquer encravo, fez do túmulo o seu santuário. Santuário do corpo. A alma? Sabe-se lá por onde anda... Os moradores antigos até têm cismas, mas ninguém tem peito para cravar.


Regina Ruth Rincon Caires


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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

AMOR DE MÃE

Não é porque há uma novela no ar com esse título, que eu tenho lembrado muito da minha mãe.
Antes fosse. Dona Valquíria partiu há 11 anos, mas deixou lembranças que me alfinetam pelo
menos dez a vinte vezes ao dia. Chega a ser transtorno obsessivo compulsivo ouvi-la do além.
Morro de medo de acabar como o Norman Bates, o filhinho maluquinho de Psicose do Hitchcock,
mas tento manter as estribeiras da lucidez mesmo com a voz de mamãe ecoando dentro de mim em
situações diversas.

Dona Valquíria era uma pessoa pitoresca e esquisita. Cheia de dogmas, certezas absolutas e
idiossincrasias. Tinha amizades e desafetos. Era inteligente e burra, refinada e tosca.
Expert em proferir besteiras e sabedoria. Vai entender. Boquirrota, falava o que lhe dava
na telha, desde observações impositivas, inoportunas, até conselhos estapafúrdios e raros
em conhecimento de causa.

O abandono precoce do marido – e um pai de maus bofes – não lhe transformou num açude de
ressentimentos, pelo contrário, lhe deu um atrevimento de transbordar uma vontade de viver
incomum para mulheres nascidas para casar. Era à frente do seu tempo. Secretária
executiva enérgica e eficiente, seletiva namoradeira, tinha fixação em sexo. Não me poupava
de prosas íntimas demais para uma relação entre mãe e filho, que deveria ser pautada pela doçura,
a firmeza e a liturgia da maternidade.

- Meu filho, antes passar desodorante, lave e seque bem as axilas. Aí sim, passe o bastão.
Senão vai ficar com cheiro de gambá acuado.

Quando desligo o chuveiro, é a ameaça que sempre ouço antes de pegar a toalha.

Num engarrafamento, tal como ela, sou viciado em fazer a prova dos nove com as placas dos
carros. Herança mais forte do que eu. Quando um sujeito fecha um cruzamento, lá vem ela
soprar no meu cangote.

- Um patife! Que papelão!

Sou um solteirão. Tive vários amores contidos, tenho nenhum, ou várias superpostos,
como queiram. Impossível não ouvir mamãe quando um affair se encorpa.

- Meu filho, essa menina não serve para você. Reparou o pé dela? Você não vai suportar
uma mulher com joanete.
- Meu filho, essa fuma demais. Não sabia que você gostava de lamber cinzeiro.
- Meu filho, cuidado com as virgens. Elas geralmente não gostam da primeira vez,
- Meu filho, não seja afoito na cama. Respeite o tempo de uma mulher.
- Meu filho, nenhum amor por uma mulher merece a sua tristeza.

E assim foi ou não foi, pior, continua indo ou não indo, para o bem ou para mal. Maldição.
Por mais que tenha apelado ao misticismo, aos deuses diversos, aos psicanalistas freudianos,
santos e entidades, às mesas de centros, às missas dominicais e às velas acesas, nunca deixei
de ouvir a mansidão feroz de sua voz, até quando me vejo à beira das vias de fato.

- Meu filho, numa relação sexual, o momento mais importante são as preliminares.
Faça o esforço que puder para que a moça não veja você descalçando as meias.
Não existe ato mais ridículo do que homem nu tirando a meia.

Ah, Dona Valquíria. Não ouvi sua voz hoje, acho que estou me libertando.
Acordei esbaforido, pouco antes do sol nascer, e corri para o laboratório fazer ultrassonografia
abdominal completa. Rotina, nada demais. Vi o dia amanhecer pelas frestas da sala de espera,
vi velhinhos amparados arrastando os pés, vi madames de óculos escuros e pulseiras douradas
reclamando com as atendentes, vi acompanhantes humildes levando carraspana de senhorinhas
impacientes, vi o que me pareceu um executivo metido a besta, terno bem cortado, sapatos
reluzentes e gel no cabelo para trás, de olhos num um jornal inglês, mão segurando um potinho
coletor. Vi um bebê sorridente e inquieto no colo da mãe, tão jovem, já carcomida pela vida.
Senti o cheiro de pão na padaria ao lado provocando meu jejum de 8 horas, chegando junto com o
aperto da bexiga cheia. Vi um casalzinho ansioso, trocando carinhos e cuidados, pensei, exame de
sangue, será que é dessa vez ou fica para o mês que vem? Liguei e desliguei o celular
infinitamente, na esperança de que o wi-fi me desse alguma atenção.

- Sr, José Reinaldo Ferreira Valença.
- Sim, sou eu.
- Pode me acompanhar, por favor.

E parti por um labirinto de corredores assépticos, onde moças de branco cruzavam-se apressadas
desfilando formalidade e simpatia.

- Por favor, entre nesta sala. A Doutora Priscila já vem lhe atender.

Não foi meu debut em ultrassonografias abdominais, mas pela primeira vez, meu clínico geral
resolveu que alguém deveria avaliar as dimensões da minha próstata, não do jeito digital,
mas com os recursos da tecnologia mais avançada, menos humilhante.

- Bom dia, meu nome é Priscila.
- Bom dia, doutora.

Era uma lindeza saída de um filme europeu. Delicada, mãos bem cuidadas, sorrisos amplos,
uma trança perfeitamente mal ajambrada descendo pelo ombro, olhos de metáforas de Machado
de Assis. Imaginei uma recém formada, pela idade e pela brejeirice atrevida de acomodar o
bumbum no banquinho em frente ao computador cheio de fios, scanners e telas.  Mantive um
silêncio rijo e discreto, a compostura conveniente e correta para um cinquentão diante de
uma ninfeta de jaleco.

- Senhor José, por favor, tire a bermuda e a camisa. E deita na cama, Só de cueca, tá?

Danou-se.

Minha mãezinha o que está no céu, santificado seja o vosso nome, está feita a minha desgraça.
Perdoai este filho que não deu ouvidos à sua sabedoria numa manhã apressada. E veio a voz
inconfundível, dessa vez, muito irritada e tarde demais.

- Meu filho, cansei de dizer: cueca velha e frouxa na virilha, nem pensar! Direto no lixo!

Ah, Dona Valquíria.





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Bloco Artificial




Atulhado; comprometido com o empreendedorismo (empresa dentro da empresa), com a voz ecoada do pastor, João Paulo não se encabulava e, pelo contrário, bradava gritos de energia, de sucesso, com a meta conquistada, de dez horas por dia de trabalho, domingo a domingo.
Chegava a casa, não raras as vezes, pelas onze, doze horas da noite, mulher e filhos no sono mais profundo. Não via o desenrolar do bloco familiar. Maria, então, dava duro na educação e na sustentação das duas crias. Contudo, João Paulo tinha um sonho, um sonho antigo e astucioso, que animava a dura perseguição de algum porvir: de ir à América, especialmente a Orlando; principalmente para curtir os parques e, quiçá, dar um traço e ficar por lá. Dizia, a quem perguntasse, que juntava dinheiro e trabalhava dobrado para, pessoalmente, agradecer ao Estado maioral, por segurar as pontas do mundo; e que, também, iria pelos filhos, para aproveitarem o que há de melhor; para aprenderem a ser gente, com o exemplo do magnânimo poderio.
Maria caiu enferma. Ela e os filhos, arriados de gripe; uma gripe estranha, muito forte, densa. João Paulo, com receio de ultrapassar o limiar da necessidade e do dengo, dignou-se, muito a contra gosto, a preparar uma composição de mel, cebola, alho e própolis. Disse que a mulher, com isso, poderia muito bem se virar. Além do mais, já havia suco de laranja, de caixa, na porta da geladeira; “vitamina C na veia!”. Maria, apesar dos pesares entendeu, o marido tinha um sonho, precisava trabalhar; o seu aposento por invalidez, de uma cegueira progressiva, não valia quase nada para o sonho; não poderia proporcionar o que tanto desejava.
Tio Fernando, um esquerdista desgraçado, assim designado por eles, lembrava, sempre que podia, as benesses de ter um plano público e universal de saúde; que, de outra forma, estariam tremendamente empenhados; que pensassem nisso. João Paulo, na última ligação, arrazoou a conversar, decretando: “Vá se foder, seu velho safado!”. Fernando continuou, como se nada houvesse acontecido, com suas aulas de português em escolas públicas da cidade; muito mal remunerado, desestimulado, somente pelo amor que devotava às crianças, inclusive aos filhos de Maria e de João Paulo.
João Paulo, então, para apressar os serviços, bem-disposto com o tutu na conta, passou a trabalhar doze horas por dia. No veículo alugado, transportava de tudo, como dizia: homem, mulher, viado. Não tinha besteira. Para ganhar dinheiro, falava, não tem esse negócio de discriminação, “até que eu trato bem esse povo, viu!?”. A despeito da aparente disposição, recebeu nota 4,5, pelo que ficou enfurecido e preocupado. “Deve ser um desses escrotos, que querem atrapalhar a vida de um pai de família, homem de bem!”. Mas seguiu firme na sina de bom colaborador (empreendedor do próprio destino), porque não havia tempo hábil para pensar ou respirar.
Do Estado não queria nada – mas não rejeitava, no íntimo, o aposento da mulher. “Isso é uma ninharia. Não dependo dessa porcaria, não. Eu trabalho é pra sustentar esse Estado ladrão!”.
Maria sempre, vai lá, vai cá, numa peinha de nada. Os filhos, Robson e Rarison, oito e seis anos, respectivamente, se revezavam nos cuidados, cada vez mais intensos. Havia dias que ela se perturbava com uma ruma de ocupação e com a ausência programada do marido. Já supunha que era proposital, para não ter de presenciar o grosso vazio que se amotinava. Antes, vinha duas vezes a casa, pelo menos, e passava algumas horas com os filhos. Decerto julgava que os filhos não precisassem mais dele, a não ser de um ralo dinheiro, que dispensava; uma legítima esmola para se virarem, na escola pública.
João Paulo não parava de pensar na América. Havia, pelo menos uma vez na vida, de ir para fazer como fazem os mulçumanos, que vão à terra sagrada de Meca. Talvez, a Meca ou a Jerusalém do capitalismo. Devia o esforço sobre-humano. Só o fato de pensar já o recuperava de uma rebordosa da consciência, que vagamente aparecia, pronunciando que teria de pensar primeiro em Maria.
Numa quarta, um fato inesperado: Maria se foi. João Paulo preparou uma cerimônia simples, em casa, para não ter de gastar muito. Morreu na madrugada, de diabetes não conhecida e não tratada, atestava o laudo. No começo da tarde, agilizou o enterro, e pronto. Indefinidamente – ou instintivamente –, imaginou que seria um problema a menos para concretizar o sonho.
Passou a exigir foco, disciplina, segundo o pastor coach ensinou. Os filhos extenuados, aulas e trabalhos domésticos drásticos, que João Paulo não se dignava de fazer, tomaram os meninos de tristeza e de solidão. Contraíram infecções cutâneas. João Paulo ordenou que parassem de frescura, que “homem que é homem não tem manha, não; é na base da porrada”. Porrada, porrada, não dava; mas ameaçava.
Robson e Rarison resolveram fugir, para a casa da avó Creusa, mãe da mãe, no interior. João Paulo não tinha contato com a sogra há anos. Havia se estranhado, porque ela não concordava com o casamento fugidio. De mais a mais, Creusa não teria sido convidada ao enterro da filha, tomando conhecimento dias depois. Para ela, a grande desgraça, da qual precisava se vingar.
Robson e Rarison desejaram que o pai se lascasse, bem longe deles.
João Paulo se escafedeu para a tão sonhada América. Embrenhou-se num caminho arriscado, pelo México, país que odiava; que servia apenas de caminho para o eldorado. Foi preso e deportado. Passou a endeusar ainda mais a América, porque, vociferava, “Agora eu sei que a lei lá funciona. Aquilo é que é país!”.








segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Eco - um poema de Gyzelle Góes





eco

dentro de mim as ilusões serpenteiam
você me grava uma canção 
e se torna mais distante 
além das árvores e dos pássaros 
além do nome que eu daria ao poema 

você me mostra a sua voz 
no tempo de um silêncio 
no tempo da rádio sem estação 
às cegas eu percebo
como um lugar desocupado









domingo, 16 de fevereiro de 2020

Empatia


Agora, ela está de perfil. Para quem não a conhece, parece apenas um desprezo ensaiado, uma sondagem de esguelha. Não é. O que ela está fazendo é se exibir, me mostrando o bico adunco. Para que eu saiba quanta dor ela é capaz de me causar. Para me dizer que não prossiga.
Preciso vencer o medo e cruzar o quintal até o galinheiro. Ignorar o movimento agressivo. A bípede levanta cada perna com lentidão e depois a mantém suspensa no ar por alguns segundos, antes de tocar o solo. Como um soldado marchando num desfile. É o que ela é: um soldado do mal. Desses que cometem atrocidades por prazer, e não por obediência ou disciplina. 
E Jesuína tem adeptos. Se eu não me apressar, ela logo convocará Geralda, Cícera, Teresa, e outras tantas recrutadas no caminho. Prontas a segui-la e a brigar por ela com a estupidez das turbas que se enfurecem por qualquer motivo que lhes determine o líder. Atrás delas, excitado pelas bundas de plumas empinadas, Julião, o galo velho que já faz tempo não acorda o dia. Bobo como qualquer macho na presença de um traseiro.
Faltam alguns passos. Poucos. E a porta do galinheiro me protegerá da tropa bicuda, das garras cheias de micróbios. Não tenho coragem de enxotá-las. Tenho dó. Um dó que se mistura ao medo, é verdade, mas que não deixa de ser dó. Viver ao ar livre, sob sol e chuva, ou empoleirada num pau; comer milho cru e minhocas; ter asas que não voam para longe. Pior que isso: ser morte certa em panelas fumegantes. 
Quem não seria como Jesuína? Mas ter motivo não é ter razão. E não vai ser em mim que ela e suas seguidoras vão descontar a raiva e a frustração e a impotência de serem galinhas. 
Eu tenho que me controlar. Até por quê, o meu pavor tem nome. Remorso. Porque eu sei o que vou fazer no galinheiro. Elas sabem o que eu vou fazer no galinheiro. Não é mesmo possível nenhuma simpatia entre nós. A cesta no meu braço condena as minhas intenções. Elas sabem que vou sequestrar seus filhos, que vou encher a cesta com muitos ovos. Sabem que foram expulsas do galinheiro para que eu possa ladroar à vontade. E que voltarão para um ninho vazio. 
Eu sou o inimigo. Contra mim, toda a artilharia. A fúria com que bicam meus pés e minhas pernas até me causar dor intensa. Dor que, em seguida, sou eu quem lhes causa mais intensamente.
Não é uma troca justa. Nenhuma troca é. Mas apesar da raiva e da razão que eu sempre penso ter, acabo deixando que machuquem as minhas carnes. Eu também preciso sofrer. Sentir remorso. Essa coisa que aceita castigo, mas não recua da intenção. Jesuína é meu castigo. Ela me sangra além da pele.







domingo, 9 de fevereiro de 2020

De amor também se morre



Era um belo jarro de porcelana branca, alto e levemente bojudo. Tinha uma asa longa, fina e angulosa e um bico discreto, mas funcional. O seu formato era elegante, sem grandes floreados ou arrebiques, e a porcelana da melhor qualidade: agradável ao tato, não muito pesada e de uma opacidade imponente que impunha respeito. O corpo, liso e ligeiramente cónico, era rematado por um pequeno arabesco em relevo, entrelaçado em torno da boca e das extremidades da asa.
Desde há anos que presidia orgulhosamente a todas as refeições daquela casa, sempre cheio de água bem fresca, vigiando tudo e todos com o seu olhar incansável. A sua simples presença no centro da mesa bastava para fazer calar o tilintar intempestivo das peças mais novas, sempre prontas para a tagarelice, impondo-lhes uma atitude mais condigna à solenidade da ocasião.
Era de longe o decano de toda a louça e tinha-se tornado um símbolo de autoridade e o repositório de todas as tradições e costumes da casa. Era o árbitro final de todas as questões, o disciplinador incontestado de todas as quebras de disciplina ou educação. Todos o respeitavam, acatando de imediato a sua menor ordem ou sugestão.
Durante a sua já longa vida vira e ouvira muita coisa, não só durante as refeições como também na cozinha e armários. Fora a testemunha de eleição de muitas conversas e discussões, de alegrias e tristezas, de partidas e chegadas, de celebrações e funerais. Conhecia como ninguém os diversos membros da família e a maior parte dos seus convidados, as suas manias e os seus gostos. Sabia quem o utilizaria com vontade e quem o deixaria especado, olhando-o, até, como se contivesse um veneno estranho e fatal.
Durante todo esse tempo, muita louça desaparecera, partida ou esquecida no fundo de algum armário, sendo de imediato substituída por novas peças, ou por outras trazidas à luz do dia após numerosos anos de esquecimento. Louça de todos os tipos e feitios, peças de uso diário ou que apenas eram utilizadas nas grandes ocasiões festivas.
Nunca lhes prestara grande atenção. Eram seres provisórios, hoje aqui, amanhã sabe-se lá onde. A sua posição era bem diferente, única e demasiado importante para ser facilmente substituído ou esquecido. Podia-se mesmo dizer que fazia parte da família, o que não andava longe da verdade, uma vez que já conhecera três gerações diferentes.
Um belo dia, mal tinham acabado de o pousar na mesa quando a viu. Por momentos o mundo à sua volta deixou de existir. O seu coração batia desordenadamente, fazendo saltar a água que foi salpicar a toalha imaculada. O ruído das vozes e dos talheres tornou-se difuso e tão longínquo que parecia vir de uma outra sala, ou, até, de um outro universo. Tudo o que o rodeava estava envolto numa penumbra cinzenta, opaca e sem contornos definidos, tornando impossível adivinhar o que nela se escondia. A sala tornara-se um turbilhão de tons escuros revolteando sem cessar, confundindo os olhos e a mente. Só ela permanecia bem nítida e imóvel, suavemente aureolada pela ténue neblina que se evolava da sopa quente.
Nunca vira nada de tão belo! Todos os pormenores se destacavam do cinzento baço e opaco do ambiente, como que brilhando sob luz própria. E que perfeição! O tom branco e levemente leitoso da porcelana do seu corpo; o brilho discretamente nacarado da sua pele; as magníficas rosas pintadas em cores suaves ao longo das faces; a forma elegante e ao mesmo tempo arrojadamente moderna do corpo; o pé, fino, pequeno e aparentemente tão frágil; a delicadeza das asas, deliciosamente curvas e bem moldadas; a tampa, sombreando delicadamente o corpo esbelto; a atitude modesta, mas simultaneamente majestosa e imponente. Era verdadeiramente a criatura ideal, um verdadeiro paradigma de beleza e elegância. Não lhe encontrava um único defeito, uma única imperfeição!
Seria incapaz de dizer o que se passara à mesa nesse dia. Nada vira, nada ouvira. Só tivera olhos para ela, ouvidos para tentar captar o menor murmúrio saído da sua divina boca. Quando a retiraram da sala sentiu uma tal sensação de perda, de desespero total, uma dor na alma tão súbita e acutilante, que foi forçado a render-se à evidência: apaixonara-se perdidamente pela nova terrina da sopa!
Ele, que nunca sentira o menor afeto, o menor amor por ninguém! Ele, que sempre fora da opinião que as paixões assolapadas, os grandes romances, cheios de suspiros e desejos, não passavam de invenções românticas destinadas a enganar os tolos, os fracos de espírito, os crédulos. Acreditava, isso sim, que uma longa convivência, interesses e opiniões comuns, uma certa necessidade de companheirismo, pudessem conduzir a um grande afeto entre dois seres. Poderia, mesmo, receber o nome de amor. Mas, paixão? Amor à primeira vista? Impossível!! Seria contra toda a lógica.
No entanto, o impossível acontecera. Só pensava nela, só tinha olhos e ouvidos para ela. Tudo o mais lhe parecia insignificante, indigno de ocupar a sua atenção ou o seu tempo. Quando estava só rememorava todos os pormenores da sua amada e imaginava conversas futuras entre os dois. Pela primeira vez desde que se conhecia sofria de solidão, da sensação de estar cortado dos outros, isolado num cantinho pequeno e abafado, sem ar novo e sem quaisquer perspetivas. A sua ausência era uma dor lancinante e sem remédio, que o atormentava até às raias da loucura. Sem ela, a vida não merecia ser vivida. Era realmente a Grande Paixão.
Deixou de se interessar pelo que o rodeava. A sua posição de árbitro final dos costumes e tradições passou a ser um peso insuportável, em vez de uma honra de que muito se orgulhava. Ressentia-se do tempo que as suas numerosas funções lhe tomavam e que tinha de ser roubado à contemplação do seu amor. Mal respondia às perguntas que lhe faziam e as maiores impertinências ou desleixos no serviço passavam sem qualquer reparo.
Nem o espanto incrédulo dos outros perante a sua nova atitude o incomodava, embora ainda uns dias antes fosse um verdadeiro escravo do ‘correto’, do ‘parece mal’. Agora, nada disso lhe parecia importante.
Vivia agora para a hora das refeições. Só nesses breves momentos em que a sopa era servida a podia ver, pois eram guardados em locais diferentes e bem afastados um do outro. Quando a via aparecer à entrada da sala, trazida em triunfo pelas mãos da empregada, bela, imponente, cheia de sopa aromática e fumegante, a água do jarro até parecia que cantava de alegria. Prazer intenso mas pouco duradouro, contudo, pois ela era retirada quase de imediato enquanto ele tinha de permanecer firme no seu posto até ao fim da refeição, que lhe parecia agora insuportavelmente longa e sem sentido. Nem sequer eram lavados ao mesmo tempo. Por isso raras vezes a via na cozinha.
Um dia em que, como de costume, a observava atentamente, tentando armazenar nos poucos momentos disponíveis as bases para os seus sonhos e lucubrações durante o longo intervalo de espera ansiosa, pareceu-lhe que um leve tom róseo cobria o branco leitoso da porcelana da sua amada. Seria efeito da luz? Ilusão ótica? Olhou melhor. O tom róseo permanecia inalterado e a tampa estremecia levemente, como que receosa do que fazia.
O pobre jarro mal podia acreditar no que os seus sentidos lhe mostravam. A emoção foi tão forte que uma boa dose da sua água caiu sobre a toalha, encharcando-a. Não havia dúvidas. Era amado!
As refeições seguintes passaram-se como que num sonho, entre olhares apaixonados e suspiros de emoção mal contida. O jarro da água, completamente louco de paixão, passava horas a fio inventando os planos mais inverosímeis e extraordinários que lhe permitissem um encontro, ainda que breve, com a sua amada. Um instante, um breve instante a sós com ela, era tudo o que pedia à vida, a única ambição que o movia.
Mas as circunstâncias pareciam que se conjugavam contra os pobres amantes desesperados. Durante as refeições, a bonita terrina nunca era pousada sobre a mesa, sendo levada de lugar em lugar até ser retirada quando todos estavam servidos. Nas longas horas de espera, ficava fechada num grande armário muito distante do dele. Nem na cozinha se encontravam. Como as suas pesadas responsabilidades o obrigavam a ficar na mesa até ao fim da refeição, quando o lavavam já ela estava arrumada e bem fechada no seu canto.
Isto constituía para o pobre jarro novo motivo para preocupações e desespero. A bela terrina, a sua bem-amada, não tinha, como ele, direito a um lugar isolado num armário. Considerada simples elemento de serviço, ficava misturada com outras peças grandes, na sua maioria travessas e taças, de que o jarro sentia um ciúme atroz. A simples ideia de que outros tocavam aquela porcelana delicada, ficando em contacto direto com ela durante horas a fio, enlouquecia-o por completo.
Havia, ainda o perigo de as longas horas de convivência fazerem mudar os seus sentimentos, criando um forte afeto, talvez mesmo amor, por outro que não ele.
Ganhou verdadeiro ódio a algumas das outras peças, detestando muito particularmente uma grande travessa de desenhos vagamente chineses que lhe parecia ostentar ultimamente um ar de autossatisfação completamente idiota. Só não a desafiou abertamente porque não teve oportunidade para tal. Mas vontade não lhe faltou!
Era verdadeiramente exasperante. À medida que o tempo passava sem solução à vista o desespero mais completo tomava conta deles. A água já não cantava no jarro durante as refeições. Parecia mesmo suspirar de tristeza, deixando um travo amargo na boca e uma sensação de sede que nada conseguia apagar. Quanto à sopa, ficava fria mal a metiam nela.
Para complicar ainda mais as trágicas circunstâncias em que viviam, vieram os longos e quentes dias de verão. Devido ao forte calor que então reinava, havia dias em que não se servia sopa, e o pobre jarro da água era obrigado a suportar as lentas refeições estivais sem ter sequer o consolo de um breve olhar daquela que dava significado à sua triste vida. Pensou morrer de desgosto e desespero. Ali estava ele, para ali sozinho e desolado, enquanto outros passavam o verão inteiro fechados com Ela!
Quando a situação atingia as raias do inaceitável e o jarro da água começava a contemplar seriamente a hipótese de enlouquecer de vez, eis que tudo mudou. Foi admitida ao serviço uma nova empregada, novata no assunto e, por isso, desconhecendo os hábitos e costumes da casa. Logo na primeira refeição que serviu, assim que acabou a distribuição da sopa retirou-se, colocando a bela terrina em cima da mesa, muito perto do jarro de água.
Este mal podia acreditar na sua sorte. Que felicidade inesperada! Estavam finalmente juntos, separados por uns escassos centímetros de ar perfumado pela sopa da sua bem-amada. A sua alegria transbordou, turbando-lhe o pensamento, enevoando-lhe a visão e tornando-o surdo e mudo. Mas não por muito tempo. Apercebendo-se de que a situação não poderia durar, recompôs-se o mais rapidamente possível e tomou as rédeas da situação. Como lhe competia, de resto.
Naqueles breves instantes de indizível êxtase, os pobres amantes, tão infelizes até então, tentaram compensar no pouquíssimo tempo de que dispunham os muitos dias de angústia e desespero porque tinham passado. Trocaram as palavras mais ternas, as juras mais solenes, as promessas mais insensatas. Uma eternidade de amor no espaço de breves minutos. Muito e pouco, ao mesmo tempo. Insuficiente para apagar o fogo da sua paixão, mas o bastante para os satisfazer por momentos.
Quando a retiraram do seu lado o jarro da água mergulhou num estado de euforia tal que chegou a recear pela sua integridade física. Foi com grande dificuldade que conseguiu acalmar-se, e só ao fim de muitas horas pode relembrar com algum sangue frio todos os pormenores de tão momentoso encontro.
O pior é que em vez de o acalmar a experiência só serviu para lhe exacerbar o espírito. Antes tinha desejado apenas um instante, ainda que breve, com a sua adorada. Agora, este parecia-lhe um nada insignificante, algo que mal valia a pena ter vivido. Queria mais, muito mais. Um lugar permanente ao lado dela, sem mais ninguém por perto. Horas e horas de convívio e partilha de experiências. Vê-la na mesa a seu lado durante toda a refeição, admirando a maneira magistral como ele controlava o serviço. Enfim, queria o possível e o impossível.
Apesar de tudo, as coisas melhoraram um pouco a partir daí. A nova empregada era um pouco descuidada com o serviço, por isso encontravam-se na cozinha com uma certa frequência, enquanto esperavam que ela arrumasse tudo. É certo que nem sempre ficavam suficientemente perto um do outro para poderem conversar, mas podiam trocar olhares e suspiros.
A sua paixão aumentava a cada encontro. Além de bela, elegante, magnífica, a sua adorada era também terna e sensível. Que encanto de conversa, que frescura de ideias! Que sentimentos delicados! Que maneiras educadas! Não havia dúvidas, o exterior era apenas um pálido reflexo do maravilhoso interior da bela terrina. O pobre jarro da água sentia-se totalmente enfeitiçado e o mais feliz dos mortais por ser amado por um ser tão divinal. Seria capaz de vender a alma ao diabo em troca de uma vida em comum com ela.
Veio mesmo um dia - oh! momento supremo - em que se tocaram, num instante de delírio e êxtase impossíveis de descrever. Muito ao de leve, é certo, mas foi um toque, asa com asa. Era a primeira vez que sentia na sua a pele da sua amada, tão suave, tão macia, tão arrebatadoramente aveludada. Um arrepio percorreu-o de alto a baixo, sentiu mesmo uma tontura que lhe enevoou os sentidos durante largos instantes. Quando recuperou o sangue-frio, já tinham sido separados.
Os seus sonhos aumentaram então de tom. Já não lhe chegava a ideia de longas horas de amena e agradável conversa. A ideia de partilhar um mesmo espaço com tão fascinante criatura tornava-se dia a dia mais atraente. A obsessão era de tal modo forte que o jarro da água abandonou totalmente qualquer pretensão de vigilância do serviço ou manutenção das tradições. Que lhe importava o passado, quando o único futuro por que ansiava lhe era negado? Que acabasse tudo, que viesse o caos mais completo e devastador! Pelo menos isso estaria mais de acordo com o seu estado de espírito.
Uma noite, porém, deu-se a tragédia! A sopa estava demasiado quente e a empregada, atrapalhada, deixou cair a terrina que se desfez em pedaços. O pobre jarro da água sentiu-se paralisar de terror. Para onde quer que olhasse só via pequeninos pedaços de porcelana branca, manchados de espessa sopa de tomate. Era a catástrofe inesperada que vinha pôr fim a todas as suas esperanças, destruir todos os seus sonhos, todas as hipóteses de um futuro a dois.
Chorando convulsivamente de desgosto, teve de assistir à descuidada remoção dos restos da sua bem amada. Ninguém parecia importar-se com o sucedido, ninguém queria saber do pobre ser destroçado que ali jazia, desfeito sem qualquer esperança de recuperação. Os únicos comentários que ouviu referiam-se à perda da sopa e à necessidade de aquisição de nova terrina. Como se esta alguma vez pudesse ser substituída!
O pobre jarro da água estava totalmente destroçado. Como poderia continuar a viver, dia após dia, refeição após refeição, sem aquela presença luminosa, sem o único ser que dava sentido à sua existência? É certo que pouco se viam. Mas os instantes que até há pouco lhe pareciam insignificantes, meras migalhas incapazes de satisfazerem os desejos da sua alma, eram agora eternidades sem fim quando comparados com o que o esperava: anos a fio com o peso daquela ausência sem remédio.
Sentia o coração partir-se dentro dele e uma tremenda lassidão, um cansaço imenso que o prostrou por completo. As lágrimas continuavam a cair, mas de mansinho, quase a medo, como que envergonhadas. Já não sentia forças para grandes convulsões ou gritos de desespero. O que sentia ia demasiado fundo para isso.
Quando alguém lhe pegou para se servir de água, as muitas lágrimas que chorara tinham-no tornado demasiado escorregadio e difícil de agarrar.
Juntaram-se no caixote do lixo.

Luísa Lopes