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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Eco - um poema de Gyzelle Góes





eco

dentro de mim as ilusões serpenteiam
você me grava uma canção 
e se torna mais distante 
além das árvores e dos pássaros 
além do nome que eu daria ao poema 

você me mostra a sua voz 
no tempo de um silêncio 
no tempo da rádio sem estação 
às cegas eu percebo
como um lugar desocupado









domingo, 16 de fevereiro de 2020

Empatia


Agora, ela está de perfil. Para quem não a conhece, parece apenas um desprezo ensaiado, uma sondagem de esguelha. Não é. O que ela está fazendo é se exibir, me mostrando o bico adunco. Para que eu saiba quanta dor ela é capaz de me causar. Para me dizer que não prossiga.
Preciso vencer o medo e cruzar o quintal até o galinheiro. Ignorar o movimento agressivo. A bípede levanta cada perna no ar com lentidão e depois a mantém suspensa no ar por alguns segundos, antes de tocar o solo. Como um soldado marchando num desfile. É o que ela é: um soldado do mal. Desses que cometem atrocidades por prazer, e não por obediência ou disciplina. 
E Jesuína tem adeptos. Se eu não me apressar, ela logo convocará Geralda, Cícera, Teresa, e outras tantas recrutadas no caminho. Prontas a segui-la e a brigar por ela com a estupidez das turbas que se enfurecem por qualquer motivo que lhes determine o líder. Atrás delas, excitado pelas bundas de plumas empinadas, Julião, o galo velho que já faz tempo não acorda o dia. Bobo como qualquer macho na presença de um traseiro.
Faltam alguns passos. Poucos. E a porta do galinheiro me protegerá da tropa bicuda, das garras cheias de micróbios. Não tenho coragem de enxotá-las. Tenho dó. Um dó que se mistura ao medo, é verdade, mas que não deixa de ser dó. Viver ao ar livre, sob sol e chuva, ou empoleirada num pau; comer milho cru e minhocas; ter asas que não voam para longe. Pior que isso: ser morte certa em panelas fumegantes. 
Quem não seria como Jesuína? Mas ter motivo não é ter razão. E não vai ser em mim que ela e suas seguidoras vão descontar a raiva e a frustração e a impotência de serem galinhas. 
Eu tenho que me controlar. Até por quê, o meu pavor tem nome. Remorso. Porque eu sei o que vou fazer no galinheiro. Elas sabem o que eu vou fazer no galinheiro. Não é mesmo possível nenhuma simpatia entre nós. A cesta no meu braço condena as minhas intenções. Elas sabem que vou sequestrar seus filhos, que vou encher a cesta com muitos ovos. Sabem que foram expulsas do galinheiro para que eu possa ladroar à vontade. E que voltarão para um ninho vazio. 
Eu sou o inimigo. Contra mim, toda a artilharia. A fúria com que bicam meus pés e minhas pernas até me causar dor intensa. Dor que, em seguida, sou eu quem lhes causa mais intensamente.
Não é uma troca justa. Nenhuma troca é. Mas apesar da raiva e da razão que eu sempre penso ter, acabo deixando que machuquem as minhas carnes. Eu também preciso sofrer. Sentir remorso. Essa coisa que aceita castigo, mas não recua da intenção. Jesuína é meu castigo. Ela me sangra além da pele.







domingo, 9 de fevereiro de 2020

De amor também se morre



Era um belo jarro de porcelana branca, alto e levemente bojudo. Tinha uma asa longa, fina e angulosa e um bico discreto, mas funcional. O seu formato era elegante, sem grandes floreados ou arrebiques, e a porcelana da melhor qualidade: agradável ao tato, não muito pesada e de uma opacidade imponente que impunha respeito. O corpo, liso e ligeiramente cónico, era rematado por um pequeno arabesco em relevo, entrelaçado em torno da boca e das extremidades da asa.
Desde há anos que presidia orgulhosamente a todas as refeições daquela casa, sempre cheio de água bem fresca, vigiando tudo e todos com o seu olhar incansável. A sua simples presença no centro da mesa bastava para fazer calar o tilintar intempestivo das peças mais novas, sempre prontas para a tagarelice, impondo-lhes uma atitude mais condigna à solenidade da ocasião.
Era de longe o decano de toda a louça e tinha-se tornado um símbolo de autoridade e o repositório de todas as tradições e costumes da casa. Era o árbitro final de todas as questões, o disciplinador incontestado de todas as quebras de disciplina ou educação. Todos o respeitavam, acatando de imediato a sua menor ordem ou sugestão.
Durante a sua já longa vida vira e ouvira muita coisa, não só durante as refeições como também na cozinha e armários. Fora a testemunha de eleição de muitas conversas e discussões, de alegrias e tristezas, de partidas e chegadas, de celebrações e funerais. Conhecia como ninguém os diversos membros da família e a maior parte dos seus convidados, as suas manias e os seus gostos. Sabia quem o utilizaria com vontade e quem o deixaria especado, olhando-o, até, como se contivesse um veneno estranho e fatal.
Durante todo esse tempo, muita louça desaparecera, partida ou esquecida no fundo de algum armário, sendo de imediato substituída por novas peças, ou por outras trazidas à luz do dia após numerosos anos de esquecimento. Louça de todos os tipos e feitios, peças de uso diário ou que apenas eram utilizadas nas grandes ocasiões festivas.
Nunca lhes prestara grande atenção. Eram seres provisórios, hoje aqui, amanhã sabe-se lá onde. A sua posição era bem diferente, única e demasiado importante para ser facilmente substituído ou esquecido. Podia-se mesmo dizer que fazia parte da família, o que não andava longe da verdade, uma vez que já conhecera três gerações diferentes.
Um belo dia, mal tinham acabado de o pousar na mesa quando a viu. Por momentos o mundo à sua volta deixou de existir. O seu coração batia desordenadamente, fazendo saltar a água que foi salpicar a toalha imaculada. O ruído das vozes e dos talheres tornou-se difuso e tão longínquo que parecia vir de uma outra sala, ou, até, de um outro universo. Tudo o que o rodeava estava envolto numa penumbra cinzenta, opaca e sem contornos definidos, tornando impossível adivinhar o que nela se escondia. A sala tornara-se um turbilhão de tons escuros revolteando sem cessar, confundindo os olhos e a mente. Só ela permanecia bem nítida e imóvel, suavemente aureolada pela ténue neblina que se evolava da sopa quente.
Nunca vira nada de tão belo! Todos os pormenores se destacavam do cinzento baço e opaco do ambiente, como que brilhando sob luz própria. E que perfeição! O tom branco e levemente leitoso da porcelana do seu corpo; o brilho discretamente nacarado da sua pele; as magníficas rosas pintadas em cores suaves ao longo das faces; a forma elegante e ao mesmo tempo arrojadamente moderna do corpo; o pé, fino, pequeno e aparentemente tão frágil; a delicadeza das asas, deliciosamente curvas e bem moldadas; a tampa, sombreando delicadamente o corpo esbelto; a atitude modesta, mas simultaneamente majestosa e imponente. Era verdadeiramente a criatura ideal, um verdadeiro paradigma de beleza e elegância. Não lhe encontrava um único defeito, uma única imperfeição!
Seria incapaz de dizer o que se passara à mesa nesse dia. Nada vira, nada ouvira. Só tivera olhos para ela, ouvidos para tentar captar o menor murmúrio saído da sua divina boca. Quando a retiraram da sala sentiu uma tal sensação de perda, de desespero total, uma dor na alma tão súbita e acutilante, que foi forçado a render-se à evidência: apaixonara-se perdidamente pela nova terrina da sopa!
Ele, que nunca sentira o menor afeto, o menor amor por ninguém! Ele, que sempre fora da opinião que as paixões assolapadas, os grandes romances, cheios de suspiros e desejos, não passavam de invenções românticas destinadas a enganar os tolos, os fracos de espírito, os crédulos. Acreditava, isso sim, que uma longa convivência, interesses e opiniões comuns, uma certa necessidade de companheirismo, pudessem conduzir a um grande afeto entre dois seres. Poderia, mesmo, receber o nome de amor. Mas, paixão? Amor à primeira vista? Impossível!! Seria contra toda a lógica.
No entanto, o impossível acontecera. Só pensava nela, só tinha olhos e ouvidos para ela. Tudo o mais lhe parecia insignificante, indigno de ocupar a sua atenção ou o seu tempo. Quando estava só rememorava todos os pormenores da sua amada e imaginava conversas futuras entre os dois. Pela primeira vez desde que se conhecia sofria de solidão, da sensação de estar cortado dos outros, isolado num cantinho pequeno e abafado, sem ar novo e sem quaisquer perspetivas. A sua ausência era uma dor lancinante e sem remédio, que o atormentava até às raias da loucura. Sem ela, a vida não merecia ser vivida. Era realmente a Grande Paixão.
Deixou de se interessar pelo que o rodeava. A sua posição de árbitro final dos costumes e tradições passou a ser um peso insuportável, em vez de uma honra de que muito se orgulhava. Ressentia-se do tempo que as suas numerosas funções lhe tomavam e que tinha de ser roubado à contemplação do seu amor. Mal respondia às perguntas que lhe faziam e as maiores impertinências ou desleixos no serviço passavam sem qualquer reparo.
Nem o espanto incrédulo dos outros perante a sua nova atitude o incomodava, embora ainda uns dias antes fosse um verdadeiro escravo do ‘correto’, do ‘parece mal’. Agora, nada disso lhe parecia importante.
Vivia agora para a hora das refeições. Só nesses breves momentos em que a sopa era servida a podia ver, pois eram guardados em locais diferentes e bem afastados um do outro. Quando a via aparecer à entrada da sala, trazida em triunfo pelas mãos da empregada, bela, imponente, cheia de sopa aromática e fumegante, a água do jarro até parecia que cantava de alegria. Prazer intenso mas pouco duradouro, contudo, pois ela era retirada quase de imediato enquanto ele tinha de permanecer firme no seu posto até ao fim da refeição, que lhe parecia agora insuportavelmente longa e sem sentido. Nem sequer eram lavados ao mesmo tempo. Por isso raras vezes a via na cozinha.
Um dia em que, como de costume, a observava atentamente, tentando armazenar nos poucos momentos disponíveis as bases para os seus sonhos e lucubrações durante o longo intervalo de espera ansiosa, pareceu-lhe que um leve tom róseo cobria o branco leitoso da porcelana da sua amada. Seria efeito da luz? Ilusão ótica? Olhou melhor. O tom róseo permanecia inalterado e a tampa estremecia levemente, como que receosa do que fazia.
O pobre jarro mal podia acreditar no que os seus sentidos lhe mostravam. A emoção foi tão forte que uma boa dose da sua água caiu sobre a toalha, encharcando-a. Não havia dúvidas. Era amado!
As refeições seguintes passaram-se como que num sonho, entre olhares apaixonados e suspiros de emoção mal contida. O jarro da água, completamente louco de paixão, passava horas a fio inventando os planos mais inverosímeis e extraordinários que lhe permitissem um encontro, ainda que breve, com a sua amada. Um instante, um breve instante a sós com ela, era tudo o que pedia à vida, a única ambição que o movia.
Mas as circunstâncias pareciam que se conjugavam contra os pobres amantes desesperados. Durante as refeições, a bonita terrina nunca era pousada sobre a mesa, sendo levada de lugar em lugar até ser retirada quando todos estavam servidos. Nas longas horas de espera, ficava fechada num grande armário muito distante do dele. Nem na cozinha se encontravam. Como as suas pesadas responsabilidades o obrigavam a ficar na mesa até ao fim da refeição, quando o lavavam já ela estava arrumada e bem fechada no seu canto.
Isto constituía para o pobre jarro novo motivo para preocupações e desespero. A bela terrina, a sua bem-amada, não tinha, como ele, direito a um lugar isolado num armário. Considerada simples elemento de serviço, ficava misturada com outras peças grandes, na sua maioria travessas e taças, de que o jarro sentia um ciúme atroz. A simples ideia de que outros tocavam aquela porcelana delicada, ficando em contacto direto com ela durante horas a fio, enlouquecia-o por completo.
Havia, ainda o perigo de as longas horas de convivência fazerem mudar os seus sentimentos, criando um forte afeto, talvez mesmo amor, por outro que não ele.
Ganhou verdadeiro ódio a algumas das outras peças, detestando muito particularmente uma grande travessa de desenhos vagamente chineses que lhe parecia ostentar ultimamente um ar de autossatisfação completamente idiota. Só não a desafiou abertamente porque não teve oportunidade para tal. Mas vontade não lhe faltou!
Era verdadeiramente exasperante. À medida que o tempo passava sem solução à vista o desespero mais completo tomava conta deles. A água já não cantava no jarro durante as refeições. Parecia mesmo suspirar de tristeza, deixando um travo amargo na boca e uma sensação de sede que nada conseguia apagar. Quanto à sopa, ficava fria mal a metiam nela.
Para complicar ainda mais as trágicas circunstâncias em que viviam, vieram os longos e quentes dias de verão. Devido ao forte calor que então reinava, havia dias em que não se servia sopa, e o pobre jarro da água era obrigado a suportar as lentas refeições estivais sem ter sequer o consolo de um breve olhar daquela que dava significado à sua triste vida. Pensou morrer de desgosto e desespero. Ali estava ele, para ali sozinho e desolado, enquanto outros passavam o verão inteiro fechados com Ela!
Quando a situação atingia as raias do inaceitável e o jarro da água começava a contemplar seriamente a hipótese de enlouquecer de vez, eis que tudo mudou. Foi admitida ao serviço uma nova empregada, novata no assunto e, por isso, desconhecendo os hábitos e costumes da casa. Logo na primeira refeição que serviu, assim que acabou a distribuição da sopa retirou-se, colocando a bela terrina em cima da mesa, muito perto do jarro de água.
Este mal podia acreditar na sua sorte. Que felicidade inesperada! Estavam finalmente juntos, separados por uns escassos centímetros de ar perfumado pela sopa da sua bem-amada. A sua alegria transbordou, turbando-lhe o pensamento, enevoando-lhe a visão e tornando-o surdo e mudo. Mas não por muito tempo. Apercebendo-se de que a situação não poderia durar, recompôs-se o mais rapidamente possível e tomou as rédeas da situação. Como lhe competia, de resto.
Naqueles breves instantes de indizível êxtase, os pobres amantes, tão infelizes até então, tentaram compensar no pouquíssimo tempo de que dispunham os muitos dias de angústia e desespero porque tinham passado. Trocaram as palavras mais ternas, as juras mais solenes, as promessas mais insensatas. Uma eternidade de amor no espaço de breves minutos. Muito e pouco, ao mesmo tempo. Insuficiente para apagar o fogo da sua paixão, mas o bastante para os satisfazer por momentos.
Quando a retiraram do seu lado o jarro da água mergulhou num estado de euforia tal que chegou a recear pela sua integridade física. Foi com grande dificuldade que conseguiu acalmar-se, e só ao fim de muitas horas pode relembrar com algum sangue frio todos os pormenores de tão momentoso encontro.
O pior é que em vez de o acalmar a experiência só serviu para lhe exacerbar o espírito. Antes tinha desejado apenas um instante, ainda que breve, com a sua adorada. Agora, este parecia-lhe um nada insignificante, algo que mal valia a pena ter vivido. Queria mais, muito mais. Um lugar permanente ao lado dela, sem mais ninguém por perto. Horas e horas de convívio e partilha de experiências. Vê-la na mesa a seu lado durante toda a refeição, admirando a maneira magistral como ele controlava o serviço. Enfim, queria o possível e o impossível.
Apesar de tudo, as coisas melhoraram um pouco a partir daí. A nova empregada era um pouco descuidada com o serviço, por isso encontravam-se na cozinha com uma certa frequência, enquanto esperavam que ela arrumasse tudo. É certo que nem sempre ficavam suficientemente perto um do outro para poderem conversar, mas podiam trocar olhares e suspiros.
A sua paixão aumentava a cada encontro. Além de bela, elegante, magnífica, a sua adorada era também terna e sensível. Que encanto de conversa, que frescura de ideias! Que sentimentos delicados! Que maneiras educadas! Não havia dúvidas, o exterior era apenas um pálido reflexo do maravilhoso interior da bela terrina. O pobre jarro da água sentia-se totalmente enfeitiçado e o mais feliz dos mortais por ser amado por um ser tão divinal. Seria capaz de vender a alma ao diabo em troca de uma vida em comum com ela.
Veio mesmo um dia - oh! momento supremo - em que se tocaram, num instante de delírio e êxtase impossíveis de descrever. Muito ao de leve, é certo, mas foi um toque, asa com asa. Era a primeira vez que sentia na sua a pele da sua amada, tão suave, tão macia, tão arrebatadoramente aveludada. Um arrepio percorreu-o de alto a baixo, sentiu mesmo uma tontura que lhe enevoou os sentidos durante largos instantes. Quando recuperou o sangue-frio, já tinham sido separados.
Os seus sonhos aumentaram então de tom. Já não lhe chegava a ideia de longas horas de amena e agradável conversa. A ideia de partilhar um mesmo espaço com tão fascinante criatura tornava-se dia a dia mais atraente. A obsessão era de tal modo forte que o jarro da água abandonou totalmente qualquer pretensão de vigilância do serviço ou manutenção das tradições. Que lhe importava o passado, quando o único futuro por que ansiava lhe era negado? Que acabasse tudo, que viesse o caos mais completo e devastador! Pelo menos isso estaria mais de acordo com o seu estado de espírito.
Uma noite, porém, deu-se a tragédia! A sopa estava demasiado quente e a empregada, atrapalhada, deixou cair a terrina que se desfez em pedaços. O pobre jarro da água sentiu-se paralisar de terror. Para onde quer que olhasse só via pequeninos pedaços de porcelana branca, manchados de espessa sopa de tomate. Era a catástrofe inesperada que vinha pôr fim a todas as suas esperanças, destruir todos os seus sonhos, todas as hipóteses de um futuro a dois.
Chorando convulsivamente de desgosto, teve de assistir à descuidada remoção dos restos da sua bem amada. Ninguém parecia importar-se com o sucedido, ninguém queria saber do pobre ser destroçado que ali jazia, desfeito sem qualquer esperança de recuperação. Os únicos comentários que ouviu referiam-se à perda da sopa e à necessidade de aquisição de nova terrina. Como se esta alguma vez pudesse ser substituída!
O pobre jarro da água estava totalmente destroçado. Como poderia continuar a viver, dia após dia, refeição após refeição, sem aquela presença luminosa, sem o único ser que dava sentido à sua existência? É certo que pouco se viam. Mas os instantes que até há pouco lhe pareciam insignificantes, meras migalhas incapazes de satisfazerem os desejos da sua alma, eram agora eternidades sem fim quando comparados com o que o esperava: anos a fio com o peso daquela ausência sem remédio.
Sentia o coração partir-se dentro dele e uma tremenda lassidão, um cansaço imenso que o prostrou por completo. As lágrimas continuavam a cair, mas de mansinho, quase a medo, como que envergonhadas. Já não sentia forças para grandes convulsões ou gritos de desespero. O que sentia ia demasiado fundo para isso.
Quando alguém lhe pegou para se servir de água, as muitas lágrimas que chorara tinham-no tornado demasiado escorregadio e difícil de agarrar.
Juntaram-se no caixote do lixo.

Luísa Lopes