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sábado, 25 de janeiro de 2020

Abraão e o GPS



Abraão nunca aceitara bem aquele filho nascido fora de tempo. Quando o Senhor lhe anunciou que ia ser pai, Sara já tinha alguma idade. Como podia ainda gerar descendência?
Sara tivera uma série de abortos espontâneos. O ambiente insalubre em que toda a gente vivia no século XXI, não ajudava. A carne estava carregada de hormonas, o peixe, de mercúrio e outros venenos, as verduras, de agrotóxicos e chumbo dos fumos de escape. Aquela estada em terra estrangeira também fora traumática. Fora vítima de violação e sabe-se lá se apanhara alguma doença. Depois de todas as provações, e já sem esperanças, veio aquela voz pausada e grave anunciar-lhe o que parecia impossível:
«Corta o teu prepúcio e daqui a um ano serás pai» — ordenara a voz do Senhor, em tom assertivo, vinda do telemóvel desligado.
Abraão não percebeu porque é que o prepúcio vinha ao caso — embora tivesse lido umas coisas sobre DST na Internet —, mas obedeceu e nasceu Isaac. Inacreditável; o Senhor prometera e cumprira, não havia dúvidas. Quase tão inacreditável foi a criança nascer com aqueles caracóis ruivos que não existiam na família. Por isso, Abraão sempre olhou o filho de través. «Crê e viverás!» — ameaçou Ele, certa vez, em voz austera vinda do robô de cozinha. Isso foi fácil. Abraão tinha vontade de acreditar.
A psicologia já vai tentando explicar — sem grande aceitação —, como é que o imaginado toma conta do racional e docilmente o conduz pelos meandros de efabulações puramente mentais, como se fossem eventos acontecidos. O pensamento desejoso, que entretanto foi dominando Abraão, teria talvez origem na sua convicção de que Isaac não era seu filho, e aliciava-o com a possibilidade de ele ser filho do Senhor. Mais valia que Isaac fosse filho de um ser sobrenatural, do que de algum vizinho dissimulado. Ser trapaceado nesta matéria por alguém próximo ou amigo de casa era intolerável.
Com o tempo, nem tal estratagema mental concedia ainda descanso. Já andava Isaac pelos onze anos quando o Senhor, usando a voz modulada de Celestino, na aplicação de GPS do telemóvel, comunicou a ordem fatídica:
«Vai à Peninha, constrói um altar sobre a Pedra da Visão e imola o teu filho Isaac.»
Abraão não resistiu muito, nem perguntou por quê. Se era o Senhor que mandava… Como sempre, a ordem não o constrangia e até vinha ao encontro de um pensamento acarinhado, mas mantido íntimo, e explicável talvez por essa animosidade escondida para com Isaac. Mas não deixava de ser uma ordem. Mandava-o matar o filho, num ritual de adoração comandado pelo próprio Senhor e não iria contra ela. Nem contra essa, nem contra nenhuma outra.
Dias depois, muito cedo, Abraão obrigou o filho a sair da cama e a acompanhá-lo. Numa mochila, meteu uma faca de cozinha, um isqueiro piezoelétrico e uma caixa de acendalhas ecológicas. Na bagageira do Jeep, já tinha uma saca de lenha do Aki.
Meio ensonado, Isaac demorou a estranhar a excursão matinal, até porque o pai, não sendo madrugador, de vez em quando tinha assim repentes inesperados.
«A 400 metros, entre na rotunda e saia na segunda saída» — dirigia Celestino, do telemóvel que Abraão fixara no interior do para-brisas.
Aonde vamos, pai?
Abraão não respondeu. Não gostava de ter de se explicar.
Pai! — insistiu Isaac.
Tá calado! Vamos ver o teu avô ao lar da Azóia. Mas primeiro passamos na Peninha, para ver a vista.
A esta hora? Com este nevoeiro? Porque é que a mãe não veio?
Seguiam então pela estrada secundária junto a Barcarena, quando Isaac deu um grito:
Cuidado! Pai!
O que foi? — assustou-se Abraão.
A ponte não está lá… Para, pai!
«A 200 metros vire à esquerda e entre na ponte!» — comandava impávido Celestino.
Estás parvo? É do nevoeiro! Não ouviste o que o Senhor disse? — ralhou Abraão, abrandando.
E tu não viste as placas? Para!
Arre, que é chato! Queres saber mais do que o Senhor?
Para, já! — gritou o miúdo, muito mais alto do que alguma vez gritara com o pai.
Abraão parou. Através da neblina matinal, nada de anormal parecia haver com a ponte. Saíram do carro e aproximaram-se do que devia ser a balaustrada. Afinal, era só um resto. Antes, uma grande placa horizontal derrubada por algum carro por sobre uns blocos de cimento esbranquiçado pela geada avisava: “Ponte destruída. Utilize a variante de Leceia”. Aproximaram-se mais. Lá em baixo a água rosnava irada e inquietante.
Tás a ver pai, eu não te disse? Havia placas de perigo desde lá atrás.
Mas o Senhor…
O GPS? É uma máquina, pai! Nem sequer está online. E há quanto tempo não o atualizas? Queres que eu te ensine a tirar isso da net?
Está atualizado — resmungou Abraão, desconfortável. — Tem-me dado bons conselhos. Confio mais no Celestino, como lhe chamas, do que nos mapas.
Ia-nos tramando de vez...
«Vire à esquerda e entre na ponte!» — continuava Celestino.
Ajustado o itinerário e ultrapassado o conflito motivado pelas condições rodoviárias, pai e filho seguiram o seu destino, sob o conselho sábio de Celestino:
«O abate deve ser rápido e a sangria total, conforme o procedimento ritual». Abraão atrapalhou-se, mas Isaac não pareceu aperceber-se. Ia entretido com o seu próprio smartphone, mas atento a se o pai não se enganava no caminho.
Em menos de meia hora, passaram o Guincho e chegaram à Peninha. O tempo continuava encoberto, mas já se avistavam pedaços da costa e do Cabo da Roca. Abraão pegou na mochila e na saca de lenha e chamou Isaac. Sobre uma rocha que culminava um esporão do barrocal, e depois de uns gestos rituais que aprendera, Abraão dispôs os cavacos sobre as acendalhas e começou a acender o lume.
Pai, o que estás a fazer? Uma fogueira aqui, sem a mãe, à hora do pequeno almoço... E o entrecosto? O que se passa contigo? — disparou Isaac, apreensivo.
É um sacrifício, uma ordem do Senhor. Não posso desobedecer.
Pai, foste outra vez aos saca-dízimos?
Não, rapaz, foi o Senhor mesmo que me disse para te imolar — anunciou Abraão em voz grave, enquanto tirava a faca da mochila.
Embora aterrorizado, Isaac acionou as três teclas de emergência-criança do seu smartphone, que ele sabia que enviavam um pedido de socorro e as coordenadas do aparelho.
Vais-me matar? O teu filho? — choramingou.
Tu não és meu filho. Basta olhar para essas melenas vermelhas!
Em estupefação, Isaac hesitava entre tentar fugir e argumentar. Nesse momento, o seu telemóvel começou a vibrar. Abraão arrancou-lho das mãos e atirou-o para a ribanceira de penedos.
Isaac nunca tinha visto o pai assim. Virou-se para fugir, mas a manápula do pai agarrou-o.
Larga-me, pai! Larga-me!
Já disse que não sou teu pai. Tá quieto! Eu tenho de oferecer este sacrifício ao Senhor, para que eu encontre graça diante d’Ele, me proteja e me torne feliz.
Tás louco, pai. HELP! Que conversa é essa? Essa voz do telemóvel são só gravações. Não é nenhum sábio, nenhum deus — gritava Isaac, tentando ganhar tempo como única saída do labirinto do medo. — Os primitivos é que sacrificavam animais e pessoas. Pensavam que assim tinham mais caça ou colheitas. Estamos no século XXI, pai!
Não quero ouvir mais tretas desta sociedade que não respeita os valores da tradição e da família — ripostou Abraão, enquanto arrastava o filho para junto da fogueira que já ardia bem. Tolheu-lhe os movimentos e dobrou-lhe o pescoço sobre a parte mais lisa da pedra.
Nesse momento, ouviu-se o sibilar característico de um drone, que deu uma volta larga, mas rápida, sobre os penhascos da Peninha. Era de tipo octogonal, tinha envergadura de um metro e apresentava câmaras e vários outros instrumentos apontados para baixo. Um altifalante berrou:
«Largue a criança. Já!»
Abraão não esperava esta interferência. Tentou prosseguir. O altifalante do drone, que agora pairava a uns quinze metros sobre o grupo, voltou à carga:
«Pare já ou disparamos!»
Larga-me, pai! Cuidado! Eles disparam! — gritou Isaac.
Abraão levantou a faca, mas, antes de desferir o golpe fatal no pescoço de Isaac, foi atingido por um dardo junto à clavícula. O efeito do entorpecente foi imediato. Deixou cair a faca, oscilou uns segundos e afundou-se no chão pedregoso. Isaac afastou-se do volume do pai, aliviado, mas meio confuso. Chegou-se à beira do rochedo e espreitou lá para baixo, tentando localizar o smartphone. Quinze minutos depois, chegou a Polícia e o Socorro médico. Duas estações televisivas de atualidade criminal chegaram logo a seguir.

Joaquim Bispo
*
Por seleção em concurso literário, este conto integra — páginas 104 a 107 — a 18ª edição (novembro/dezembro de 2019) da Revista LiteraLivre, em formato e-book:


*
Imagem: Giovanni Battista Tiepolo, O Sacrifício de Isaac, 1726–1729.
Afresco, 400 cm x 500 cm [?], Palácio Patriarcal, Udine, Itália.
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12 comentários:

Caro Joaquim Bispo,
Que prazer ler esta versão moderna de uma passagem do antigo testamento! Atenção ao falso deus, por mais que a expressão possa ser um pleonasmo!
Um abraço,

«Atenção ao falso deus, por mais que a expressão possa ser um pleonasmo!» — Rui, que maneira inteligente de dizer as coisas!
Abraço!

Fabuloso!, foi a palavra que me ocorreu. E, de facto, as boas fábulas são intemporais. Algumas até deixam escola e chegam a gerar negócio. Há que tentar não perder o fascínio pela fábula em si que, nas mãos de um exímio domador de palavras, ganha esta leitura deliciosa. Muito bom!

Fabuloso” só porque adapta uma história bíblica com o magnetismo das fábulas, mas se o texto agrada ao leitor…
Obrigado, Lia!

O "hitchcok das Casas novas", continua em forma. Não me surpreender, pois, eu já sabia que ele era assim. Essa de ouvir uma voz, vinda de um telemóvel desligado ...
maneldalcains.

Ouvir vozes está muito democratizado. Cada um ouve-as de onde quer.
Abraço!

Prezado Joaquim Bispo
Tive já ocasião de lhe transmitir o meu muito agrado pelas suas crónicas, bem escritas e de tema cativante.
Esta, então é do melhor, ligar temas distantes milhares de anos.
O meu apreço leva-me a colecionar as suas crónicas em pasta aparte no arquivo do computador, esperando continuar.

Uma observação: porquê POSTAR um comentário e não escrever?
É como dizer PRINTAR em vez de imprimir, etc.

Obrigado por este tão forte elogio, Incógnito!
Acerca de “postar”, a força do Inglês e alguma dificuldade de dizer o mesmo em Português, com poucas palavras, leva a estes anglicismos. De qualquer modo não fui eu que criei o “site”.
Abraço!

Incógnito?
Estava crente que o meu endereço ia claro.
Sou Francisco Mauricio, ffmauricio@sapo.pt

Eh, eh!
Olá, Francisco!
Abraço!

Joaquim Bispo, Os meus parabéns andas-te tu a perder tempo a trabalhar, quando o teu destino era escrever. Aguardo com alguma expectativa quando te aventuras a uma longa metragem literária.

Obrigado, André, mas a trabalhar “ganhei a vida”, enquanto que se fosse a escrever, já tenho dúvidas.
Lias uma longa metragem, André? Sendo assim, vamos a isso!

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