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domingo, 19 de janeiro de 2020

Estigmas



Talvez não devesse ter suscitado isso. Tenho consciência da desordem que provoquei. Mesmo que entalado por anos, não podia ter partido para a irresponsabilidade – assim como ele sempre o fez. Fiz um propósito, de não me misturar com a laia dos Borges. Não sou desse sangue sujo. Renego, veementemente. Lutei toda a minha vida para sair do estigma de ser filho de quem sou; e ser um igual. Agora, me sinto como um coco seco boiando em um rio caudaloso. Não sei se bem ou mal.
O coração é um poço de desejos, de contrações irresistíveis, à procura de luz. Fui me esgueirando, para sobreviver, desde quando mãe morreu. Silvia. Silvia Brandão. Uma mulher que veio e partiu do nada. Sem admitir, claro, o velho ficou em pé de guerra com a consciência; um querer-dominação velado, doentio, criminoso. Mas, antes disso, fez mãe sofrer demasiado. Quem sabe, e é esse instinto que me atormenta, não foi ele quem a matou de desgosto? Simplesmente a desprezou. Era a criada. Não, burro de carga mesmo. Sem voz nem vez. Foi angariando a dor; avultando em seu peito, a ponto de arfar a morte, pouco a pouco.
Jerônimo mexia com “acertos”; assim qualificava. Mãe já se afobava por isso, palavras de tia Luzia. Eu, muito pequeno, ainda assim sentia esse rarear de vida. Abafava-me, contorcia-me. Éramos dois. Jerônimo, do mundo; dos Borges. Foi num desses acertos que armou a tocaia. Resolveu apagar um antigo parceiro, o Dionísio, com um tiro seco na nuca, dentro de nossa casa. Falava para quem quisesse ouvir que mãe era puta, safada; que seria a próxima; que não olhasse para o lado, se quisesse estar viva. Condenava-a por ter gerado aquele mal-estar. Para Jerônimo, mãe tinha um caso com Dionísio. Talvez soubesse que não tinham nada; mas, como desejava suprimir a concorrência nos serviços, e para deixar vivo o aviso à mãe, decidiu eliminar o sujeito.
Frágil como um beija-flor – aliás, cheirava a rosas; leite de rosas, mais especificamente –, mãe amofinava com o tormento e com a violência da chegada de Jerônimo. Entrava, porta adentro, para dizer, aos gritos, que um dia ia pegá-la de surpresa; que se preparasse, que o coro ia comer; que a esfolaria viva e deixaria a carniça para os urubus comerem. Nas investidas, dava-lhe golpes fortíssimos, com o que aparecesse pela frente, panelas, cadeiras e mesas; que também infligiam a mim, eu com cinco ou seis anos.
Vi mãe se despregar da vida, literalmente. Não tendo acesso a médico, ou a qualquer tipo de assistência, prisioneira que era, sem conseguir respirar, por seguidas gripes, problemas de respiração, e uma progressiva e severa tuberculose, confirmada depois pelo laudo cadavérico; sem poder ver sequer um raio do sol, respirar ar puro, agonizou nos meus braços, enquanto lhe dava água com bolacha, pensando eu, ingênuo, que padecia de fome ou fraqueza.
Dia 12.05.2008 mãe morreu. E Jerônimo sentiu por não ter pegado ela no flagra. Vociferou que ela fugia, arredia, “de suas obrigações”. Chamou-a de covarde, ingrata. Enquanto eu ouvia as barbaridades, me penitenciava por não ter feito mais, sem entender. O velho ainda tentou me seduzir para o poder dos Borges; que eu seria famoso e respeitado; seguiria a sina dos grandes homens da região; que era um tratado que eu deveria respeitar; que não iria me forçar, mas que tinha um prazo, quinze anos, idade em que saberia empunhar faca, revólver, espingarda. Veio tia Luzia e me resgatou, escondido numa mala, do destino assombroso que se desenhava. Fomos embora para São Paulo.
O velho hoje é evangélico. Disse que pediu perdão a Deus, “que é Pai misericordioso”. Que eu, humano, devia perdoar. Que eu não devia guardar rancor de um homem maluco, criado no meio dos Borges; sem alternativa, teve de ganhar a vida na justiçagem. Que eu o perdoasse para ter paz. E aí, justo nesse ponto, quando quis usar de suas artimanhas para me amarrar, sentir remorso, estourei o horror que era ser seu filho; ter seu sangue. Que ele havia matado minha mãe de desgosto; de seguidas moléstias, físicas e da alma. Que nos tratou como animais, enquanto ficamos sob seu jugo. Que ele merecia morrer da morte mais penosa. Que eu não teria nada a ver com isso. Saí, e o velho continuou falando; resmungando baixo, cara de coitado, soturno.
Poucos dias depois, a notícia: Jerônimo foi tragado para as profundezas do inferno. Viveu e não deu conta de nada. Nunca foi penalizado pelos seus crimes, imensos. Houve a condescendência de um Estado falho; que nunca chegou àquele lugar, no interior do interior do Ceará. Abandonou-nos à sorte. Todos sabiam, mas ninguém se metia. Tinham medo, talvez. Mais provável que não estivessem nem aí. Admitiam uma suposta profissão de “justiceiro”. Seguro, o tinhoso levantava ares de poder, provocava respeito. Nem padre, nem delegado, nem prefeito, nem nada. Todos aos seus pés.
Falei tudo e talvez não devesse ter falado. Mas não me penalizo mais. Pelo menos me esvaziei. De tudo, restou o cheiro de rosas, que hoje me guia pelos caminhos incertos da vida; longe, muito longe dos estigmas do passado.





sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A foto embaixo do armário








           Achei embaixo do armário uma pequena foto. Eu estava muito novo. Olhar essa foto me fez triste pelas flores que deixei de apreciar e pelos pores-do-sol que deixei de ver. Ainda assim, guardo a mesma inocência de gostar de flores e a ausência de ver o crepúsculo que ilumina o jovem que não sou.





Do livro A Estante Deslocada









quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Acalanto de passagem


Escultura: Johnson Tsang


A profissão, escolheu cedo. Nenhum acaso, nenhuma hesitação. Apenas um desejo de estar lá. De estar lá inteira, com mãos de afagos, lágrimas honestas. E um dó imenso daquele silêncio obrigado, daquela hora repleta de ninguém, do frio permanente. Quis ser o que era. Tinha de ser. Foi feita para a despedida, para o momento em que os remorsos e a saudade e todos os duelos tramados entre razão e emoção se tornam inúteis.
Quem mais entenderia o nada como ela? Ela que sempre foi nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho. Ela e sua presença ignorada. Sem chamados, sem vozes de afeto, sem abraços de carinho, sem direito a querer, doer, gritar. Quem mais enxergaria o nada? Esse não ser que ainda assim se desconforma. Esse não ter que ainda assim cobiça. 
Por isso se entregava a eles. Para lhes dar o impensado: atenção. Uma ou duas carícias leves no rosto frio, na cabeça fria, nas mãos postas em entrelaçamento de oração. Tivessem ou não fé. Para lhes recitar um monólogo curto de acalanto. Um acalanto de passagem. 
Ela escolheu. Em cada ida ao quarto apertado e sem janelas da avó doente, esquecida sobre a cama suja. Em cada poço escuro que viu no fundo dos olhos da mãe traída, abandonada. Escolheu que morrer devia ser sem solidão. 
Quando começou na profissão de preparar os mortos, ninguém ligou. Não houve desprezo, nojo, deboche. Ela não valia opinião. Não rangia tábuas. Então, ficou sozinha com o primeiro corpo. Depois com outro, e mais outro, e mais tantos que os anos trouxeram. Iguais em sua última presença visível. Nus. Marcados. Solitários. 
Imaginava-os em medo, angústia, ansiedade. Espíritos, energias, matérias, o que quer que fossem. Presos ainda à tensão da vida. Procurando por um rosto conhecido na sala impessoal com cheiro de substâncias fortes. Buscando suas gentes de afeto. Não havia. Ali, só mesmo ela. Para limpá-los, vesti-los, pôr-lhes um terço entre os dedos, pentear-lhes os cabelos. Para fazê-los se sentir um pouco mais que inquilinos em vias de despejo. 
Ela escolheu.







quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Laços Inquebráveis



        
A noite estava fria e tempestuosa. O vento agitava fortemente os ramos das árvores, que dançavam vigorosamente e se vergavam quase até se quebrarem. As nuvens corriam velozmente pelo céu, ora ocultando a Lua ora libertando-a, o que dava origem a um grotesco e fantasmagórico jogo de sombras sobre o solo. As inúmeras folhas caídas que juncavam os passeios e os relvados rodopiavam em espirais fantásticas, num frenesim contínuo e sem sentido, parecendo, por momentos, quase vivas. Sentia-se que a chuva não podia andar longe e que, quando começasse a cair, seria um autêntico dilúvio. No horizonte distante um raio riscava por vezes o céu tenebroso, refletindo-se nas escuras e ameaçadoras nuvens, mas silenciosamente, como se achasse que a noite já era demasiado ruidosa com o assobio avassalador do vento.
         Escudada por detrás dos espessos e pesados cortinados de veludo vermelho escuro, ligeiramente entreabertos, Sílvia perscrutava fixamente a escuridão que envolvia o enorme jardim e os campos circundantes, com uma atenção concentrada e sem interrupções. Já há horas que observava a aproximação da tempestade. Esperava de instante a instante assistir ao desabar da chuva, presenciar o relampejar dos relâmpagos, escutar o estrépito dos trovões. Mas só o vento se apresentara, forte, em rajadas repentinas e violentas seguidas de acalmias momentâneas.
         Toda a sua atitude era de expectativa, como se aguardasse a qualquer momento a chegada de alguém, que tardava. O seu corpo, tenso, mantinha-se ereto e rígido, com o braço direito ligeiramente erguido e a mão crispada sobre o cortinado. O vestido, longo, negro, de corpo justo e saia caindo em pregas moles, acentuava ainda mais a esbelteza esguia do seu corpo, contribuindo fortemente para lhe conferir aspeto hierático de uma estátua antiga. Na face imóvel e pálida só os grandes olhos cinzentos se moviam, relanceando sem parar de um lado para o outro, como se receassem perder algum pormenor da cena exterior.
         Por detrás dela a sala estava bastante escura, apenas iluminada por um pequeno candeeiro de mesa, coberto com uma pala escura, e pelo fogo quase apagado a um canto da grande lareira de pedra lavrada. Era um compartimento quase quadrado, amplo, de paredes escuras e móveis pesados e ricamente decorados. Os numerosos objectos delicados, dispostos pelas várias mesas espalhadas pela sala, o tapete espesso e macio que cobria a quase totalidade do soalho e os inúmeros quadros nas paredes denotavam uma certa opulência, embora um pouco gasta e antiquada. O aspeto geral era um tanto ou quanto claustrofóbico, devido às cores escuras e ao facto de as janelas estarem totalmente tapadas com cortinados, que chegavam até ao chão, e a porta fechada.
         Lá fora o vento aumentava cada vez mais de intensidade, soprando agora de modo contínuo, embora com grandes flutuações de direcção e ruído. A temperatura na sala baixara imenso, em parte devido ao apagar progressivo do fogo, prestes a extinguir-se, mas também por influência das condições exteriores. As janelas mal vedadas e a enorme chaminé deixavam penetrar o frio crescente de tão desagradável noite.
         De repente Sílvia estremeceu, parecendo acordar de um longo transe. Largou a cortina, voltou-se e pareceu, finalmente, aperceber-se da alteração sofrida pelo ambiente da sala. Com movimentos bruscos, mas decididos, aproximou-se rapidamente da lareira e acrescentou-lhe um pouco da lenha armazenada ao lado, remexendo as brasas com um belo atiçador em ferro muito bem trabalhado. Quando tudo ficou a seu contento dirigiu-se para um cadeirão em couro negro, muito gasto, colocado a um dos lados da lareira, e sentou-se, apoiando a cabeça numa das mãos. Parecia meia adormecida, completamente imóvel e de olhos semicerrados.
         O relógio bateu as horas, onze lentas e sonoras badaladas, que ecoavam na sala quase deserta. Ao extinguir-se o som da última um ruído novo vindo do exterior sobrepôs-se ao assobiar agudo do vento. Eram passos lentos, comedidos e pesados, que se aproximavam da casa ao longo do caminho em saibro. Sílvia ergueu bruscamente a cabeça mas deixou-se ficar onde estava. Parecia saber o que este novo som significava e ter decidido aguardar o desenrolar dos acontecimentos confortavelmente instalada. Quem a visse neste momento nunca poderia imaginar a atitude expectante e ansiosa que apresentara até há bem pouco tempo, nem as horas que passara espiando esse mesmo caminho por entre os cortinados. Limitou-se a levar por momentos a mão direita ao cabelo, como para se certificar de que tudo estava em ordem, voltando depois à imobilidade anterior.
         Os passos deixaram de se ouvir mas passados alguns minutos a maçaneta da porta da sala rodou sem ruído. A porta abriu-se devagar e com uma certa dificuldade. Sílvia levantou-se, então, com um salto brusco e como que surpreendido, precipitando-se para a personagem que acabara de entrar. Era um homem alto e encorpado, de ombros um tanto ou quanto curvados. Estava envolvido num grosso casacão, de gola levantada para lhe proteger as orelhas, e tinha um espesso gorro de pele de raposa enfiado na cabeça. Mesmo assim trazia consigo uma intensa sensação de frio, como se a tempestade que reinava no exterior tivesse aproveitado aquela oportunidade para penetrar à vontade na sala que lhe fora até então vedada.
         Sílvia abraçou-se-lhe ao pescoço com uma sofreguidão exigente e ávida. Parecia tentar extinguir em segundos longas semanas, quiçá meses, de ausência e de saudade. Quando finalmente se soltou, ajudou-o desajeitadamente a retirar os pesados agasalhos que trazia, atirando-os descuidadamente para cima da cadeira mais próxima, que estremeceu com o peso desacostumado.
         Pode-se então ver que o visitante já não era novo, havendo entre ele e Sílvia muitos anos a separá-los. Tinha os cabelos bastante grisalhos, um pouco longos sobre o pescoço, e um pequeno bigode cuidadosamente aparado. Apesar das pequenas rugas que lhe sulcavam a testa e as faces o seu aspeto denotava vigor e energia. Os olhos, contudo, tinham uma expressão de cansaço e sofrimento, como se esta visita tardia fosse para ele um motivo de preocupação e desgosto em vez da ocasião feliz que a atitude da mulher denotava.
         Aproximaram-se os dois da lareira e o homem começou a aquecer metodicamente as mãos enregeladas. De pé a seu lado, Sílvia devorava-lhe os traços com os olhos, parecendo comparar mentalmente o que via com algo meio esquecido que trazia de há muito na memória. Passado algum tempo foram sentar-se num pequeno sofá de dois lugares, colocado mesmo em frente do fogo que agora crepitava com fulgor. Instalados lado a lado, muito juntos e de mãos dadas, assim permaneceram durante longo tempo, sem falarem e sem se olharem, como se o que existia entre ambos estivesse muito para além de simples gestos ou palavras.
         Tinham-se conhecido muito jovens ainda. Ela era a única descendente de uma antiga e prestigiada família um tanto ou quanto arruinada e que vivia isolada na sua bela propriedade. Quase não tinham contactos com os restantes habitantes da região, bastando-se totalmente a si próprios não tanto por soberba mas mais por costume ancestral e acanhamento. Durante gerações a família fora tão numerosa que não havia necessidade de procurar companhia e convívio fora dela. Quando os seus números se reduziram por causa de uma série de tragédias e desgraças era tarde de mais. Tinham perdido o hábito de estabelecer contactos com desconhecidos.
Sílvia era, por isso, uma criança solitária e estranha, que passava os dias dando longos passeios pelo imenso parque um pouco selvagem que rodeava totalmente a casa familiar, mergulhada em sonhos e fantasias inspirados pelos poucos livros de contos e romances que fora autorizada a ler. Vivendo num mundo de adultos com ideias bastante antiquadas sobre a educação adequada para uma rapariga, tudo ignorava do mundo que existia para lá dos muros da propriedade, mundo esse que aliás nunca vira. O pouco que ouvia dizer sobre ele também não era de molde a despertar-lhe a curiosidade ou o desejo de o explorar, pelo que vivia para ali encerrada sem mesmo disso ter consciência.
Ele pertencia a uma das novas famílias recém-chegadas à região por causa das indústrias ali instaladas após a construção da linha de caminho de ferro. Desde muito pequeno frequentara creches e escolas, convivendo com todo o tipo de crianças e adultos. De uma inteligência muito viva e possuidor de uma curiosidade insaciável, encorajado e incentivado pelos adultos que o rodeavam, o seu maior prazer consistia em partir à descoberta de coisas novas e desconhecidas. Fossem pessoas, livros ou locais, perante algo que descobria ou via pela primeira vez a sua satisfação era igualmente delirante.
Um dia de Verão em que, como de costume, partira à descoberta do mundo, decidiu percorrer até ao fim o caminho que seguia ao longo do muro da propriedade da família de Sílvia, circundando-a por completo e separando-a de modo efetivo dos campos de cultivo que a rodeavam. Já o tentara de outras vezes, mas por pouco tempo, pois o muro era tão alto que de fora apenas se avistavam os topos de algumas árvores, o que tornava o passeio muito pouco interessante. Desta vez, porém, decidiu persistir até acabar de o explorar. As férias iam a mais de meio e já esgotara os locais a explorar, as experiências a fazer, as pessoas a visitar, os livros a ler ou reler. Embora sem grande interesse sempre seria um passeio novo. E havia, ainda, a hipótese remota de conseguir avistar um dos misteriosos habitantes daquele lugar proibido, o que valeria, só por si, o cansaço e o aborrecimento da longa caminhada. As muitas histórias que circulavam sobre tão estranha família tinham despertado nele uma imensa vontade de os ver e estudar, quase como se fossem animais ou plantas exóticos e desconhecidos.
Durante uma boa hora caminhou sempre a passos largos, sem nada encontrar que lhe pudesse despertar o mínimo interesse. De um lado tinha o muro, que era totalmente liso e estava em muito bom estado, coberto aqui e ali de trepadeiras densas e antigas. Do outro, simples campos lavrados, planos e sem nada de diferente dos muitos outros campos daquela região. Já estava arrependido de ter iniciado tal projeto e a tentação de voltar para trás crescia a cada momento que passava. Só não o fez porque a ideia de largar uma exploração a meio e sem nada ter descoberto o enchia de desgosto e relutância. Mas sentia-se cada vez mais cansado e cheio de calor e de sede.
Tinha decidido parar no primeiro sítio propício para um bem merecido descanso quando deparou com um pequeno ribeiro que cruzava o caminho que vinha percorrendo. Este subia um pouco e a água passava-lhe por baixo, espartilhada por um cano largo que atravessava o muro e desaparecia para dentro da propriedade. Encantado com esta descoberta, saciou a sua sede e sentou-se apoiando as costas no tão detestado muro, mesmo junto ao ponto em que este era atravessado pelo cano.
Durante alguns minutos limitou-se a descansar, deleitando-se com a vista dos campos à sua frente e com o voo preguiçoso de uma ou outra ave cruzando os céus mesmo à sua frente. Mas a sua inquietação natural não lhe permitia ficar totalmente quieto durante muito tempo. Olhando em redor em busca de algo que o distraísse enquanto se recompunha do esforço despendido na longa caminhada apercebeu-se de que um pouco mais adiante havia uma falha no muro. Era um buraco de bom tamanho, situado rente ao solo, mas tão tapado por plantas silvestres que se não se tivesse sentado naquela posição nunca se teria apercebido da sua existência.
Cheio de curiosidade levantou-se para explorar melhor o seu achado. Tendo o máximo cuidado para não se arranhar afastou algumas das plantas e verificou que o buraco, de contornos irregulares, atravessava o muro de lado a lado. Através dele conseguia ver uma zona de árvores, bem afastadas umas das outras, e, para além delas, os muros brancos de uma grande casa. Era o tão desejado interior da propriedade, até aí vedado aos seus olhares curiosos.
Ficou parado durante alguns momentos, hesitando sobre o que havia de fazer. Entrar ou prosseguir o seu caminho? Lembrando-se, no entanto, de que sempre ouvira dizer que naquela imensa propriedade viviam muito poucas pessoas decidiu arriscar-se. Se fosse apanhado, tanto pior! A sua família era bem conhecida e respeitada na região, assim como a sua curiosidade e mania das explorações. Deste modo não poderia haver dúvidas quanto às suas intenções se fosse apanhado em propriedade alheia. Para dizer a verdade, o saber que iria fazer algo de proibido e, quem sabe, de perigoso, apenas serviu para lhe aguçar a vontade de examinar mais de perto aquele local, o único que não conhecia em toda uma vasta região.
Afastando cuidadosamente as plantas que lhe vedavam o caminho, rastejou através de tão providencial abertura, mas mais por espírito de precaução do que por necessidade: um adulto passaria à vontade, embora dobrado em dois. Uma vez do outro lado endireitou-se e olhou com intensa curiosidade para o espetáculo que se lhe deparava. O parque era muito belo, semeado de árvores frondosas e de flores de todos os tipos. Estava um pouco abandonado, com ervas a cresceram por todos os lados, o que só lhe aumentava o encanto um pouco selvagem, pelo menos aos olhos de um rapazito que não percebia o interesse que poderiam ter lugares demasiadamente arranjados e ordenados. O local por onde entrara ficava em frente de uma das alas laterais da casa, pelo que apenas se via, ao longe, uma parede lisa, cortada periodicamente por janelas pequenas e retangulares. Quanto a pessoas, não se avistava nem uma.
Um tanto ou quanto a medo decidiu afastar-se do muro e explorar um pouco mais aquele novo e maravilhoso local. Mas havia tantas coisas belas para ver que em breve se esqueceu da posição equívoca em que se encontrava. Correu, pulou, tocou em árvores, arbustos e flores com um enorme prazer e total descontração. Esquecera-se completamente de que não fora convidado para aquele local e que o melhor era não se demorar e não se distanciar muito do muro e do buraco por onde entrara.
Por isso assustou-se imenso quando viu um pequeno vulto surgir repentinamente à sua frente. Era Sílvia, que já há um bom bocado observava as manobras daquele estranho rapaz que tão inesperada e ruidosamente invadira os seus domínios, habitualmente tão desertos e silenciosos, e que decidira ser altura de lhe falar. A sua primeira reação foi fugir o mais depressa possível, mas não o fez de imediato, talvez por curiosidade em estudar um pouco a primeira pessoa que ali encontrava e que tanto desejara ver. Mas estava pronto a fazê-lo de um momento para o outro, sentindo a segurança íntima de saber que seria decerto capaz de correr muito mais depressa do que aquela criança que o defrontava. Sílvia era bem mais nova do que ele e tinha muito menos experiência de contactos humanos mas tinha a vantagem de se saber em sua casa e, portanto, dentro da razão. Conseguiu, pois, intimidar o rapaz durante o tempo suficiente para travarem conhecimento.
Ao fim de alguns momentos de conversa já se sentiam como velhos amigos. O rapaz estava habituado a falar com quem encontrava nos seus longos passeios, quer fossem conhecidos ou estranhos, embora fosse a primeira vez que invadia propriedade alheia o que não deixava de lhe causar uma certa insegurança nas maneiras e no falar. Quanto a Sílvia, embora receosa por natureza a novidade não lhe desagradava totalmente, pois vinha quebrar a monotonia das tardes sempre iguais e solitárias e da ausência total de outras crianças da sua idade com quem pudesse brincar ou trocar impressões ou ideias. Embora fossem muito diferentes no feitio e nos gostos em breve descobriram que gostavam de falar um com o outro. Ou seja, ele falou, contando-lhe mil pormenores dos seus passeios, família e amigos. Ela limitou-se a ouvi-lo com grande atenção fazendo uma ou outra pergunta ou comentário, mas sem nada dizer sobre a sua vida ou interesses. O que agradou a ambos.
Passado algum tempo de ameno convívio o rapaz lembrou-se que era mais do que tempo de regressar a casa, uma vez que ainda tinha um longo caminho a percorrer e aproximava-se a hora do jantar. Antes de partir, porém, combinaram encontrar-se de novo no dia seguinte, a meio da tarde. O rapaz preferiria um convite a sério que lhe permitisse entrar pelo portão principal, abertamente e sem embustes, mas Sílvia tinha a certeza de que a família nunca lhe permitiria o convívio com um intruso recém-chegado à região e que ainda por cima invadira a até então inviolável propriedade da família. Convenceu-o, por isso, de que seria bem mais fácil e conveniente continuar a utilizar o buraco do muro e que, uma vez que tinham a autorização dela, as suas idas e vindas passavam a ter o selo da legitimidade. E assim passou a ser.
Durante o resto daquele Verão viram-se quase todos os dias, passando tardes inteiras na companhia um do outro, mas sem nunca saírem dos limites do parque. O rapaz bem tentou convencê-la a ir com ele visitar os seus sítios favoritos, ou, pelo menos, a dar alguns passos no caminho que circundava o muro, mas Sílvia recusou sempre. Já se sentia muito feliz por parte do mundo exterior ter vindo ter com ela, trazendo-lhe novas histórias e diversões. Não via qualquer necessidade de sair para ver por si própria coisas que, suspeitava-o fortemente, eram bem mais interessantes quando experimentadas por interposta pessoa, sem perigos ou incómodos de qualquer espécie.
Quando recomeçaram as aulas deixaram de se ver tão amiudadamente, uma vez que Sílvia estudava em casa com a ajuda de uma tia idosa que lhe ensinava o pouco que achava correto para a educação de uma rapariga de boas famílias. Só um dia por outro é que ele conseguia escapar às suas pesadas obrigações durante algumas horas, correndo de imediato para junto da amiga que encontrava vagueando pelo parque, como se o esperasse desde sempre. Sentiam saudades um do outro, mas ela bem mais do que ele pois na sua ausência nada tinha que a distraísse. Enquanto que o rapaz tinha novos estudos e novos colegas para explorar, Sílvia tinha de se contentar com as recordações do tempo passado em conjunto e do muito que ele lhe tinha contado.
Mal as férias começaram imediatamente voltaram ao seu já velho hábito de passarem juntos todas as tardes, fizesse sol ou chuva. Se o tempo estava bom, passeavam pelo parque ou sentavam-se muito simplesmente à sombra de uma das inúmeras árvores frondosas ali existentes. Se o tempo estava desagradável ou chuvoso, refugiavam-se num pavilhão meio arruinado existente a um canto do jardim, outrora local privilegiado de encontros e chás e onde agora ninguém entrava. Mas mantinham-se sempre bem longe da casa da família de Sílvia de modo a evitarem o perigo de serem vistos por uma das janelas, embora entre eles continuassem a manter a ficção de que os seus encontros nada tinham de clandestino ou furtivo.
E assim se estabeleceu o padrão dos anos que se seguiram. O rapaz continuava a descobrir o mundo e os seus mistérios, transmitindo depois tudo o que vira, vivera ou pensara à companheira que o aguardava no jardim murado, sempre paciente e igual a si mesmo, como que parado no tempo. Quanto a Sílvia, guardava cuidadosamente na memória tudo o que ele lhe contava, quer o entendesse ou não, para lhe servir de alimento e consolo durante as longas horas em que se não viam. Nunca sentiram a mínima necessidade de inventar jogos ou histórias que os ajudassem a passar o tempo de que dispunham para estar juntos. A vida dele chegava bem para ocupar ambos.
E durante todo esse tempo nunca o rapaz conheceu ou sequer avistou qualquer dos parentes de Sílvia ou os pais dele souberam da estranha amizade de férias que o filho arranjara. Viviam realmente num mundo só deles, alheios a tudo o que os rodeava.
Os anos passaram e o rapaz teve de partir para uma outra cidade a fim prosseguir os seus estudos. As separações eram agora mais longas, chegando a durar meses de cada vez, mas a sua relação permanecia igual ao que sempre fora. Sílvia continuava a viver totalmente isolada do mundo exterior, e a sua solidão aumentava cada vez mais à medida que os parentes mais idosos iam morrendo. Por fim, ficou a viver sózinha com uma velha tia e com meia dúzia de criados, já bastante idosos e sem quaisquer relações exteriores. Quanto ao rapaz, embora no seu novo meio conhecesse muita gente interessante e muitas raparigas bonitas e fascinantes, o seu espírito tinha sempre presente a estranha rapariguinha que um dia conhecera ao invadir propriedade alheia e que tão grande lugar adquirira na sua vida.
Acabados os estudos, regressou finalmente a casa a fim de se integrar na empresa paterna que um dia esperava vir a dirigir. Sílvia era já uma mulher, bela, calma, encantadora e muito mais fascinante do que qualquer das raparigas que conhecera durante os longos e frutuosos anos da sua ausência. Vestia sempre de escuro, quer por gosto quer por necessidade provocada pelos numerosos lutos que sofrera e os longos vestidos um tanto ou quanto antiquados que usava faziam realçar ainda mais a sua estranha e pálida beleza e o ar um pouco distante que lhe era habitual. Caminhava com uma elegância suave e calma, quase como se pertencesse a uma outra realidade, mais leve e etérea do que o barulhento mundo que se espraiava para lá dos altos muros do parque. Mas continuava a escutá-lo com a mesma atenção fixa e apaixonada dos seus tempos de criança, parecendo estar sempre disponível para o receber e nunca se queixando das ausências e demoras a que as suas obrigações o obrigavam. A única alteração nos seus hábitos era o terem agora livre acesso à mansão que durante tantos anos apenas pudera admirar por fora.
O rapaz descobriu, então, que a simples amizade dos seus tempos de infância e juventude se transformara em algo muito diferente, mais profundo e exigente. Estava verdadeiramente apaixonado por ela e mal conseguia suportar a ideia de um dia a vida os poder separar. Por sua vontade passariam juntos todos os momentos do dia, e era com enorme relutância que a deixava a fim de cumprir os seus deveres profissionais, sociais ou familiares. Decidiu-se, finalmente, a falar com os pais que, embora espantados, nada tinham a opor aos desejos do filho, apesar de não conhecerem ainda a rapariga que o conquistara de forma tão completa. O mais difícil foi convencer Sílvia, a quem a perspetiva de qualquer mudança enchia de pavor, da validade dos seus planos para um futuro em conjunto. Teve de lhe prometer que ficariam a viver na grande propriedade murada, não tendo ela qualquer necessidade de sair para o exterior, nem mesmo para a cerimónia do casamento.
Só à custa destas garantias conseguiu, por fim, a anuência, embora relutante, de Sílvia. Não por esta não lhe ter amor ou uma grande vontade de estar com ele, mas muito simplesmente porque, devido às muitas perdas que sofrera, tinha receio de tudo o que pudesse alterar o mundo artificialmente perfeito que criara no seu espírito para ambos. Ficaram finalmente noivos numa tarde de meados de Dezembro, mal iluminada por um pobre sol muito pálido e frio. Para selar a sua promessa deu-lhe um pesado anel antigo que descobrira num antiquário, com um belo rubi rodeado de três pequenos diamantes, tudo engastado num aro de ouro velho, muito bem trabalhado com arabescos estranhos e complicados e que lhe pareceu ser o complemento perfeito para a figura delicada e um pouco gótica da sua noiva. O seu desenho antigo e barroco agradou sobremaneira a Sílvia, pois fazia-lhe recordar os contos fantasticamente românticos que adorava ler enquanto aguardava a sua chegada. No seu espírito atribuiu-lhe de imediato um passado fabuloso e, até, certos poderes mágicos. O casamento seria no fim da Primavera, altura em que os pais do rapaz conheceriam finalmente a noiva do filho. Deixaram-se já o sol se punha, depois de se terem despedido repetidas vezes e de outras tantas terem voltado atrás para trocarem mais um olhar ou um comentário apaixonado.
A tragédia deu-se nessa mesma noite, quando já todos dormiam na povoação vizinha, tornando-se impossível descobrir a sequência exata dos factos uma vez que ninguém sobreviveu. Era, contudo, opinião geral que a velha tia, sentindo frio naquela desagradável noite de início de Inverno, atiçara demasiado o fogo na lareira do seu quarto, provocando o incêndio devastador que consumira toda a casa e os seus poucos habitantes. A destruição foi total. Paredes, telhado, móveis, objetos, tudo ruiu e foi consumido pela terrível deflagração. Os ossos carbonizados que se encontraram tiveram de ser enterrados em campas assinaladas de um modo um tanto ou quanto arbitrário, pois foi impossível obter uma identificação positiva de quem quer que fosse. A única peça encontrada intacta, como que por milagre, foi o anel de noivado de Sílvia, descoberto casualmente meio enterrado debaixo de uma pedra totalmente enegrecida pelas chamas.
O rapaz ficou inconsolável e quase louco de desgosto. Durante meses e meses passou todo o seu tempo livre vagueando pelos restos do parque, rondando em torno das ruínas da casa, afastando pedras e restos carbonizados de todos os géneros à procura nem mesmo ele sabia bem de quê. Afastou-se por completo do convívio dos amigos e da sociedade, tornando-se um verdadeiro recluso que mal dizia meia dúzia de palavras em todo o dia. O seu interesse pelo mundo e pelos acontecimentos que nele ocorriam desapareceu por completo e era só com grande dificuldade que conseguia abandonar a sua obsessão durante o tempo suficiente para gerir o negócio que um dia herdaria.
Mandou alargar o anel que dera a Sílvia naquele dia fatídico, de modo a poder usá-lo no dedo mínimo da mão esquerda. Não era de modo algum o tipo de anel próprio para um homem, mas trazia-o sempre consigo embora não lhe desse qualquer conforto. Muito pelo contrário, só servia para lhe recordar continuamente a perda tremenda que sofrera, trazendo-lhe à mente o aspeto encantador de Sílvia no momento em que lho colocara no dedo, a sua emoção transbordante e os projetos de futuro que então pareciam prestes a cumprir-se. Adquiriu a propriedade murada que frequentara às escondidas durante tantos anos mas recusou-se a efetuar quaisquer obras ou trabalhos de recuperação. Nem mesmo permitiu que de vez em quando limpassem o parque, de modo a evitar que fosse totalmente invadido pelas ervas daninhas.
Uma noite em que, como de costume, vagueava sem rumo pelo parque agora abandonado pareceu-lhe ver uma luz que brilhava por entre as árvores na direção onde ficava a antiga casa. Ao investigar mais de perto ficou espantado ao ver o edifício intacto em todo o seu esplendor de outrora. Um tanto ou quanto aterrorizado e cada vez mais confuso, subiu os dois degraus largos do patamar, abriu a porta da frente e penetrou no que lhe pareceu ser uma sólida casa, mobilada tal como a conhecera antigamente. E ali estava Sílvia, a sua Sílvia tão apaixonadamente amada, bem viva e de boa saúde, com o aspeto exato de quando a vira pela última vez. Sentiu-se de tal modo atordoado com o desenrolar inesperado dos acontecimentos que nem pensou em protestar quando ela lhe pegou na mão, levando-o para a sala onde tantas vezes tinham tomado chá após o seu regresso definitivo a casa. Passaram a noite a conversar e a rir como costumavam fazer, sem nunca aludir à terrível catástrofe que lhe parecia agora não ter passado de um estranho e incompreensível pesadelo.
Ao deixá-la, já o sol nascia, prometeu voltar mal ficasse livre das  obrigações profissionais que o obrigavam agora a partir bem contra os seus desejos. Ao regressar ao fim da tarde já não encontrou a casa, apenas os escombros a que já se habituara e de que conhecia cada recanto, cada pedra enegrecida, cada pedaço carbonizado. Ficou desesperado, sem saber o que pensar. Depois de muitas horas em que pensou enlouquecer ocorreu-lhe, de repente, que na véspera fizera um ano exato sobre o seu noivado e a morte de Sílvia. Não percebia a relação da data com a sua alucinação da noite anterior, mas o facto de se ter lembrado dessa conexão acalmou-o um pouco.
Talvez houvesse algo na data que lhe permitira rever o passado com aquele realismo verdadeiramente espantoso. Ou quem sabe se a intensidade do seu amor e do seu desespero possibilitara o regresso de Sílvia ao mundo dos vivos durante uns breves momentos. Se assim fosse, que fazer para repetir a experiência? Como gostaria de voltar a viver essas poucas horas todas as noites! Mesmo que tudo não passasse de uma alucinação do seu pobre cérebro sobrecarregado de tristeza e desgosto preferia endoidecer por completo a continuar a viver sem a sua Sílvia.
Mas por mais que tentasse, as ruínas permaneceram apenas ruínas, noite após noite, tal como tinham ficado desde o incêndio, e ninguém apareceu a povoá-las até se ter passado de novo um ano sobre a data do noivado. Nessa noite, mais uma vez a casa surgiu a seus olhos tal como a vira daquela última vez, tendo lá dentro uma Sílvia intacta e maravilhosa, que ostentava no seu fino dedo o pesado anel que ele agora usava continuamente. De novo conversaram e riram toda a noite, sem qualquer alusão à tragédia que destroçara as suas vidas ou à impossibilidade do momento presente.
E o mesmo aconteceu ano após ano. Na noite do aniversário do trágico acontecimento que lhe destruíra a vida era-lhe dado reviver com toda a clareza tanto a casa como a noiva que perdera. Uma noiva sempre bela e que não envelhecia, permanecendo parada no tempo enquanto que a ele começavam a pesar os anos, enchendo-o de rugas e de cabelos brancos, curvando-lhe os ombros e dificultando-lhe os movimentos. Vivia agora no receio de que vendo-o assim, tão velho e acabado, Sílvia deixasse de o amar, preferindo à realidade as recordações do homem que um dia fora.
Mas nunca se atreveu a permanecer junto dela após o nascer do sol, por receio do que pudesse acontecer quando tudo voltasse ao seu aspeto real. Só esperava que um dia a morte o rejuvenescesse e o levasse permanentemente para dentro daquela casa, onde poderia passar a eternidade ao lado de Sílvia, a única mulher que alguma vez amara.