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domingo, 9 de agosto de 2020

Feliz Aniversário, querido!



Feliz aniversário, querido!
Espero e temo este dia há semanas e ei-lo que chegou, finalmente. É o nosso dia, o nosso vigésimo aniversário de casados, o vigésimo segundo da nossa vida em comum e o vigésimo terceiro da data em que nos conhecemos.
Na solidão profunda destes últimos meses tenho pensado muito em nós, no que fomos e no futuro que poderíamos ter tido. Dei por mim a recordar detalhes que pensava esquecidos, a primeira vez que te vi, magro como um espeto e com um ar perdido no meio de um grupo turbulento, o primeiro presente que me deste, totalmente desadequado mas bem típico do teu alheamento às convenções, as trocas de olhares cúmplices quando ouvíamos ou víamos algo a que reagíamos do mesmo modo, as pequenas coisas do dia-a-dia em que nem reparamos na altura mas que vão pesando, como teres sempre café pronto às horas em que gosto dele, enfim, duas décadas lado a lado numa quase simbiose.
Nunca me considerei romântica, em miúda não sonhava com o Príncipe Encantado nem com viver uma grande paixão, achava a leitura de romances uma autêntica perda de tempo e francamente, fazia-me imensa confusão assistir aos dramas permanentes em que as minhas colegas e amigas pareciam mergulhar com prazer. Tive namorados antes de ti, claro, mas nada que me fizesse pensar num futuro a dois.
Mesmo contigo, não foi exatamente amor à primeira vista. Sim, reparei em ti naquela festa universitária em que nos conhecemos, mas mais por pareceres totalmente deslocado naquele ambiente e eu própria não me sentir exatamente muito à vontade, aquele tipo de reuniões com muita gente, muito barulho e muito álcool nunca foi bem o meu género.
Vimo-nos depois bastantes vezes, sempre em grupo, mas acabávamos sempre a conversar só os dois, talvez por os restantes estarem mais interessados em namoriscar uns com os outros ou com elementos que iam agregando ao grupo. E descobrimos que tínhamos muitos gostos e interesses em comum — e muitas coisas em que discordávamos totalmente, mas que nos davam um enorme prazer em discuti-las.
Até que um dia... não, não foi o célebre “raio de amor” a “seta de Cupido”, mas algo fez clique em mim e descobri que ansiava por ver-te, por passar mais tempo a sós contigo. E das saídas em grupo passámos a saídas a dois, apenas como amigos, inicialmente, depois, como todos previam, como namorados. E exatamente um ano depois daquela primeira festa decidimos viver juntos, casando o mesmo dia dois anos depois.
Nunca me contaste como tinha sido para ti, quando te despertei a atenção ou até se a nossa relação fora simplesmente fruto de passarmos tanto tempo juntos. Mas penso que foi logo de início, durante muito tempo pedias sempre para mim um “Poupa Cabeças”, uma mistela horrível muito na moda entre a população universitária que não queria beber muito (uma minoria, claro) e que eu odiava mas que fora a minha opção naquela primeira festa.
Outros pequenos detalhes durante a nossa vida em comum levam-me a acreditar que me amaste ainda antes de eu saber a tua importância na minha vida. Como alguns dos presentes que me davas e que tanto confundiam a minha família e amigos, mais habituados a coisas mais convencionais como flores ou joias. Sim, receber um modelo em lata de um elétrico no primeiro aniversário de casamento pode parecer ridículo para quem não saiba que foi num que decidimos namorar e que eu te tinha contado umas semanas antes que em miúda adorava os brinquedos de lata de um primo e que tinha imensa pena de nunca ter tido nenhum.
Vista de fora, a nossa parecia uma relação fria, distante, a ponto de familiares e amigos pensarem que não duraria, que iríamos certamente divorciar-nos. É certo que raras vezes mostrávamos afeto em público, sou reservada por natureza e isso também não estava no teu feitio. Esta carta é até o mais próximo que alguma vez estivemos de falarmos dos nossos sentimentos. Mas nunca senti necessidade de te ouvir declarar o teu amor por mim e penso que o mesmo se dava contigo, somos ambos pessoas que preferimos os atos às palavras. E por atos não me refiro a andar sempre aos abraços e beijinhos, como alguns casais que conhecemos e que afinal pouco duraram, mas sim àquelas pequenas coisas que mostram que entendemos realmente o outro e que a sua felicidade nos importa. Bastávamo-nos um ao outro e ainda bem uma vez que nunca conseguimos ter filhos, nunca lhes sentimos exatamente a falta, foi sempre um caso de se vierem serão bem-vindos, mas se não acontecer, tudo bem, não há drama.
Mas senti que estava na altura de fazer algo diferente, era literalmente um caso de agora ou nunca, escrevi-a pois como uma espécie de marco, de fronteira entre o que tem sido e o dia de amanhã, um ato simbólico, a tal “closure” tão querida dos americanos. Porque amanhã...
Sei que todos me consideram doida por te ter mantido assim durante tantas meses. Perdi a conta às conversas bem-intencionadas de familiares, amigos, enfermeiros, médicos, até o padre que visita diariamente esta instituição, todas no sentido de ser altura de me despedir, de seguir em frente com a minha vida em vez de passar aqui os dias a ler-te, a contar-te coisas do meu dia-a-dia (na maioria inventadas, não tenho propriamente vida fora daqui), a pôr a música de que gostas, enfim, a tentar ocupar o teu tempo e o meu com coisas que sempre te interessaram.
Não o fiz por ter esperança que acordes, que voltes para mim, que haja um milagre, como dizem por aí, mas por precisar deste tempo para me habituar à ideia de que te perdi, se é que isso é possível. E, como sabes, sempre gostei de números certinhos e dizer “quase 20” não tem o mesmo impacto de um “20” puro e seco.
Ficará sob a tua almofada na última noite que passas fisicamente entre nós. Sim, fisicamente, porque espiritualmente já me deixaste há muito, partiste no dia do teu acidente...


Luísa Lopes, 9 de agosto de 2020





terça-feira, 28 de julho de 2020

Sem Te Olhar Nos Olhos


Com quase setenta anos, João Henrique Antunes era ainda um homem elegante e bem-parecido. Naquele frio fim de tarde de março, hesitava frente à capela mortuária, debaixo do céu cinzento de nuvens ameaçadoras. Algumas das pessoas que entravam, olhavam-no com curiosidade.
Por fim, encheu o peito de ar e subiu os quatro degraus necessários para atravessar o umbral.
Lá dentro estava quente. Viam-se irradiadores nas paredes laterais. No centro da nave estava um caixão coberto de flores, com muitas mais no chão. De um lado e outro do esquife, pessoas sentadas e, aqui e além, pequenos grupos que conversavam em voz baixa. Todos olharam o recém-chegado com variados graus de curiosidade e persistência, mas a maioria regressou ao que estava a fazer.
João, após mirar rapidamente os presentes, despiu o sobretudo azul escuro e colocou-o sobre o braço, dirigindo-se depois à mesa, onde se encontrava o livro de condolências. Por uns segundos, repousou os olhos azuis sobre a foto ao lado do livro. A mesma fotografia que vira no jornal: Eduarda, mais de quarenta anos depois! Embora a dor que ela provocou na altura, estivesse bem gravada na memória. Estava mais velha, claro, mas envelhecera bem, continuava bela. Os olhos castanhos e o rosto moreno, adornado pelo cabelo, agora branco, era a mulher que ele gostaria de ter a seu lado. Ele, que estava viúvo há mais de dez anos.
Assinou o livro com a caligrafia quase ilegível, que lhe era característica e acrescentou “Eterna Saudade”, enquanto pensava quantas vezes, noutros casos, tinha dito estas duas palavras tão sentidas, sem que significassem praticamente nada.
Encarou então as pessoas à volta do ataúde. Reconheceu um ou dois rostos, de amigos dela, mas de quem já nem recordava o nome, mas distinguiu o irmão de Eduarda, que aparentemente não tinha tirado os olhos dele, desde que chegara.
Altivamente, costas bem direitas, dirigiu-se a ele, Pedro, que sempre o culpara de algo que ele suspeitava o que era, mas nunca teve a certeza. Estendeu a mão num cumprimento, a que o outro tardou em responder, fitando-a como se tivesse lepra. Por fim, Pedro ergueu-se, apertou-lhe a mão e abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido: “Que fazes aqui? Não sabes que não és bem-vindo?”
João afastou-se ligeiramente do homem, fitou-o nos olhos, tão parecidos com os da irmã e com um sorriso triste, respondeu-lhe, num meio sussurro: “Os meus sentimentos pela tua perda.”
Depois, virou-lhe simplesmente as costas, para olhar o corpo em repouso no caixão. Parecia mais pequena, embora ela nunca tivesse sido grande. A mulher pequena e turbulenta, que fez as delícias da sua vida, por cerca de três anos. Apesar do seu tamanho, quando o deixou, ficou um enorme espaço vazio, que nunca ninguém conseguiu preencher… e ele bem tinha tentado.
As memórias daquela época, os finais da década de 1980, estavam bem frescas na sua memória. Com vinte e oito anos, estava num período excelente no departamento de marketing da empresa onde trabalhava; ganhava bem, era amigo do patrão e o mundo sorria-lhe, principalmente a parte feminina. Vivia com Eduarda há três anos, que conhecera no casamento do irmão, Pedro, com quem se fizera amigo na faculdade.
Eduarda conseguia encher uma casa, a falar e a rir das suas próprias palavras. Tinha sempre tema de conversa e ele recordava-se de muitas vezes lhe ter pedido para se acalmar e falar menos, que estava cansado de a ouvir. Não imaginava, na altura, como haveria de lhe sentir a falta.
— Não ouviste o que te disse? — Insistiu Pedro, sobre o ombro, em voz baixa.
— Sim, ouvi. — Respondeu João asperamente, no mesmo tom, sem se voltar. — Não tens o direito de decidir isso, como não tinhas o direito de te intrometer.
— Ela era minha irmã! — O outro começou a alterar-se.
— Acalma-te e senta-te, não queiras dar espetáculo. — Tornou João, mais conciliador. — Tua irmã, mas minha mulher, a tua intromissão entre nós, deu no que deu.
— O quê?!? — Pedro ficou lívido. — Queres justificar os teus atos com a minha intromissão? Eu tive de intervir, para a defender das tuas atitudes. Porque foste tu que a afastaste! Eu só colaborei naquilo que ela me pediu: que nunca te dissesse onde ela estava.
— Era minha mulher e eu tinha o direito de saber, de lhe perguntar porque me abandonou, se estava tudo bem entre nós. — João voltou-se para o interlocutor. — Tinha direito a uma segunda oportunidade…
— …ou terceira, ou quarta… — Continuou o outro com um sorriso de escárnio. — Estavas sempre a traí-la! Foi por isso que te abandonou!
Os presentes estavam a ficar nervosos com a conversa dos dois, cada vez mais alterados.
— Senhores, por favor. Respeitem ao menos a mulher, que aqui está deitada. — Um outro homem, dos seus quarenta anos, logo seguido por uma mulher pouco mais nova, aproximaram-se. — Tio, então? — Dirigiu-se a Pedro que, assim admoestado, virou costas e abandonou a capela.
— As minhas desculpas, não devia ter cedido à provocação. — Pediu João. — Eu sou ex-marido da Eduarda e…
— Sim, a minha mãe disse-me, pouco tempo antes de falecer, que poderia aparecer por aqui. — Continuou o homem. — Meu nome é Henrique e sou o filho mais velho, esta é a minha irmã, Idalina.
Olharam-se nos olhos e a João pareceu-lhe ver uma versão de si próprio quando era mais novo. Não lhe faltavam os olhos aquosos azuis e o nome parecia um carimbo de identificação. Já Idalina, tinha os olhos castanhos e pequenos da Eduarda.
— A minha mãe deixou-me uma carta para si. — Também Henrique parecia perturbado com aquela semelhança, enquanto lhe entregava um envelope. — A doença que a levou, foi lenta a consumi-la e ela teve tempo de sobra, para preparar as despedidas. A carta, disse-me, já está escrita há muitos anos, mas nunca teve coragem de a enviar. Não sei o que diz, não abri, mas também não quero saber exatamente quem é você, nem o que fez à minha mãe. Por favor, leia-a lá fora e… agradeço que não volte.
Derrotado, consciente de ter estado a falar com o seu próprio filho, abandonou a capela, sentindo dezenas de olhos nas costas. Lá fora, atravessou o olhar azedo de Pedro, envolto em baforadas nervosas de fumo, mas seguiu em sentido contrário, para evitar retomar uma discussão velha de quarenta anos.
Sentou-se num dos bancos de pedra, oculto das vistas de quem circulasse por ali e abriu o sobrescrito, que revelou uma cola ressequida e soltou pequenos grãos de pó. Lá dentro havia uma folha escrita e uma fotografia de Eduarda, a perder cor e ligeiramente desenquadrada, mas linda como ela era há quarenta e muitos anos. Os olhos aparentavam ter estado a chorar, mas era ela, a mulher que sempre amara. É verdade que a traíra algumas vezes, que ela descobrira uma e outras não, mas ela perdoara sempre e retomavam a relação ainda com mais força que antes.
Foi numa dessas alturas que ela se fora. Tinham discutido por causa de uma colega do emprego, a Lurdes, mas fizeram as pazes. Uma vez mais ele tinha prometido que não teria mais nada com ela. Dois dias depois, Eduarda foi-se embora, sem uma palavra; quando ele regressou do emprego, simplesmente todos os vestígios da presença dela haviam desaparecido.
Nos dias seguintes iria aumentar o desespero, à medida que as colegas de trabalho diziam que não a viram e que já não ia ao emprego há uns dias. Por fim, procurou Pedro, que o recebeu com “quatro pedras na mão” e lhe disse que a irmã estava bem. Bem melhor agora, que estava longe de João. Não queria vê-lo mais e pedia que não a procurasse.
Inicialmente, ainda pensou seguir o irmão, ou mandar segui-lo, para perceber onde ela se acoitava, mas depois, o orgulho foi mais forte e achou que ela haveria de voltar. Mas à medida que o tempo se passava, foi-se deixando abater até que um dia, bebido além da conta, foi fazer uma cena à casa de Pedro e acabaram à pancada. A mulher dele chamou a polícia e João foi proibido de se aproximar dele. O orgulho e a vergonha fizeram com que nunca mais a procurasse.
Ao retirar a carta de dentro do sobrescrito parecia sentir já o peso da acusação sobre ele.
A folha estava amarelada e datava de três anos após o ter deixado. Estava escrita a esferográfica azul, naquela caligrafia tão feminina que ela tinha e rezava assim:

11 de abril de 1991
João, meu amor.
Penso que ainda te posso chamar assim, porque, apesar de tudo, o meu amor por ti é que me levou a tomar a atitude que tomei. O problema principal é que tu não consegues ter apenas uma mulher e eu não consigo deixar de te perdoar… e fico a odiar-me por isso.
Cada vez que me olhas com os teus olhos de anjo, me pedes perdão e dizes que não se volta a repetir, eu sei que é apenas um intervalo. Por trás desse olhar doce, há um coração volúvel, que, por muito amor que me tenha, não se consegue preencher só comigo.
Só agora, sem te olhar nos olhos e quase três anos depois, me sinto com coragem para te dizer o que me vai no coração. Temo, porém, que te sintas encorajado a procurar-me e, uma vez mais, me faças cair na teia dos teus encantos, onde eu sei que sou enganada e não me importo. Não o faças por favor.
Casei com um homem bom e companheiro, que não teve qualquer pejo em cuidar do teu filho, como se dele fosse. Sim, eu estava grávida quando me vim embora e agora estou novamente, desta vez deste homem puro, que não me vai trocar por outra na primeira oportunidade.
Foi-me insuportável, depois de me garantires que não tornavas a sair com a Lurdes, eu descobrir, sem querer, que continuavas a fazê-lo. Só que desta vez, não precisei que me dissessem, vi-o com os meus olhos e tens a prova na tua mão.
Recebe um beijo desta que te ama e continua a tua vida, livre das amarras que te prendiam a mim, preenchendo o teu coração com quantas mulheres conseguires.
Sempre com muito amor, Eduarda.

PS: Depois de muito pensar, decidi não te enviar esta mensagem, não quero correr o risco de que me faças destruir este casamento. Talvez um dia me decida a dar-ta, quando já for tarde demais para me quereres, ou eu a ti.

Sentiu-se atordoado com a catadupa de informação que recebera, ela não o deixara porque tinha outro, ou porque não o amava, mas porque sabia que estava a ser traída novamente. A prova em sua mão?!?
Olhou de novo a fotografia mal-enquadrada da bela Eduarda e percebeu que, em segundo plano, ele próprio e Lurdes, beijavam-se, acoitados no umbral de uma porta.



Manuel Amaro Mendonça







domingo, 26 de julho de 2020

Calipígia



Tampouco era feia de rosto. Tampouco antipática. Tampouco tinha cabelos quebradiços ou desbotados. Tão menos ainda se esforçava para parecer o que era, por essência. Ai, que ódio! A mulher vestia-se somente de espontaneidade naquela microcalcinha dos diabos que fazia os glúteos perfeitos realçarem sobremaneira. E habitava nas costas dela uma tatuagem floral cuidadosamente disposta, como que se escorregasse de cima a baixo. Aquele derrière era algo simplesmente impossível de se desviar os olhos.

Nas revistas, no cinema e na TV, essas mulheres não me afetam. Podem até cansar de se exibir, que não me abalam. Existe o santo photoshop. Existe lente aumentativa, diminutiva. Há manipulação da beleza. Há marketing bom pra valer. Há os cremes tapadefeitos e as cirurgias que reparam até falha na alma. Mas, ao vivo, a coisa muda de figura. Eu juro que vi o corpo perfeito. Mas eu não estava preparada. Deparei com aquela criatura justamente no vestiário da academia que frequento! Uma tormenta em plena manhã de segunda-feira, depois de eu haver me esgotado naqueles aparelhos deformadores, depois de haver subido na balança denunciadora do sorvete do fim de semana.

Então, eu a fitei com extrema força, como se fosse possível sugar-lhe todos os sublimes contornos. Eu a fitei com aquela inveja pura da pecadora embutida que não ousa se despir nem dentro do próprio armário. Eu a despi da tatuagem e da bunda linda, e ainda havia beleza nela que não acabava. Eu ambicionei despojar-me da mesma forma, e que em mim houvesse tamanha formosura. Porque ela estava bem tranquila, consciente das nádegas que tinha, em harmonia com a gordura zero, o circuito impecável, a nudez ideal.

A calipígia não se abalou. Cumprimentou-me com educação e continuou enxugando o corpo que acabara de banhar. Conversava animada com as amigas de maromba, movendo graciosa os traços desenhados, em especial os seios a pino. Pontilhados de gotículas d’água desciam atrevidos pela tatuagem dorsal até a belíssima poupança rebolativa. Nada nela sobrava nem faltava; enquanto em mim restava a humilhação: eu era apenas eu, num corpo torto e lipidinoso – maxiceroula bege, tudo o mais coberto possível e, mesmo assim, salientando excessos –; enfim, eu não era aquela mulher feliz em sua microcalcinha vermelha.

Ela podia desnudar-se para o espelho, para as amigas, para seu homem, para a plateia, diante do sol ou da lua. Imagino que já tenha se despido na arquibancada durante um jogo de futebol só porque sentia calor insuportável. Ela vive pelada, acredito. Nasceu para causar encanto, êxtase e desconforto.
Vênus estátua, tudo bem; mas remelexo durinho de perfeição viva, longe de mim! É meu direito nunca mais vê-la nua. É meu direito não ter o desprazer de reencontrá-la. Troco o horário da malhação, saio da academia, tranco-me num agasalho Adidas pra sempre, furo os olhos. Não mereço outra agressão da calipígia.

Crônica de Maria Amélia Elói, menção honrosa no XXXIX Concurso Literário Felippe D'Oliveira, 2016.







sábado, 25 de julho de 2020

A Grande Extinção


Albbano chegou cedo ao “Fetal”, com o coração de sangue frio em agonia. Na véspera, mais um dos seus torossauros poedeiros dava mostras de mal-estar e doença. Alongou o olhar pelo extenso paúl em que habitualmente pastavam e não pôde evitar o desalento. Só meia dúzia era visível. Em ansiedade, apressou o passo para a chocadeira central.

O sol iniciava o percurso descendente sobre a área predominantemente agrícola que será conhecida, sessenta e cinco milhões de anos depois, por Lourinhã e se estende bem para dentro do espaço que será mar no futuro. Em todos os ninhos urbanos terminaram já as diligências alimentares do período zenital, exceto no ninho de Albbano. Não é comum ele atrasar-se, quanto mais não aparecer em tempo de tão vital necessidade. Alddina mantinha quentes as fatias de ovos de anquilossauro com caules tenros de rhynia, enquanto, inquieta, espreitava o caminho, na esperança da chegada iminente do companheiro. A certo momento, achou que tamanho atraso não podia significar nada de bom e resolveu pedir ajuda ao filho de ambos, através do comunicador. Alccino não se surpreendeu com a chamada da mãe, porque era frequente ela ligar-lhe para contar pequenas peripécias domésticas, mas quando ouviu a sua voz angustiada a dizer que o pai ainda não chegara para se alimentar, entregou de imediato as tarefas de extração salina que executava numa bacia marinha interior e correu a procurar o pai. Já não era a primeira vez que ele se perdia ou dava sinais de desorientação.
O teu pai saiu do ninho mal raiava o sol e disse que ia ao Vale Fetal, como todos os dias — informou ela. — Estamos na época em que eclodem muitos ovos e é preciso não haver descuidos com as dificuldades das crias.
Está bem, mãe, não te preocupes que eu vou procurá-lo. Assim que o encontrar, comunico contigo — sossegou-a ele.
Alccino transpôs rapidamente a distância até à exploração pecuária do pai. Com o olhar percorreu as suaves ondulações cobertas de polipódios, onde pastavam pachorrentamente uma dúzia de torossauros, e a tentar discernir que animais chafurdavam na lonjura dos paúis das zonas baixas. Não viu a silhueta altiva do pai, um parassaurolofo corpulento, mas um pouco dobrado pela idade. Entrou na chocadeira central, e os funcionários disseram que o tinham visto cedo, mas que ficara abatido quando soubera de mais três eclosões goradas.
Alccino pediu a dois para, em conjunto, fazerem uma busca na exploração.
Eu vou pela encosta do lado esquerdo, e vocês procurem no vale, junto à zona húmida! A propriedade é grande e ele pode estar caído em qualquer lado.
Embora achasse que era mais provável encontrá-lo nas zonas baixas, pensou que, em cotas mais elevadas podia avistar maiores distâncias e descobri-lo. Após um tempo de caminhada atenta pela vertente da ladeira, alcançou o alto da colina. Cheiros adocicados embebiam-no. Por momentos, abstraiu-se do que o trouxera ali. Olhou a toda a volta. Para norte, a vista admirável e querida do seu Vale Fetal, com o verde de vários matizes a colorir a distância até à vertente oposta e mais além. Para sul, a dois vales de distância, as manchas redondas e ocres dos ninhos urbanos da povoação. Mais perto, os vales dos vizinhos e amigos Esppinos e as suas explorações pecuárias de alamossauros, os enormes herbívoros ternos e pachorrentos. Seria possível que o pai tivesse vindo visitar os amigos? Antes de decidir procurá-lo junto dos vizinhos, pensou entender o que acontecera. O pai tinha ficado desanimado com as notícias da manhã na chocadeira e, com a idade, isso desorientara-o. Veio-lhe à memória outro episódio de há muitos anos, quando uma epidemia lhe matara dezenas de animais. Nessa altura, foram descobri-lo amodorrado numa enorme rocha lisa virada ao sol do oeste, implantada num esporão elevado de onde se avistava o mar e aonde só se chegava por uma vereda. Orientou os funcionários para voltarem ao trabalho e pôs-se a caminho.
Realmente foi encontrar o pai alapado na Pedra do Poente em grande prostração. A crista, habitualmente alaranjada, era agora cinzento-esverdeada. Não parecia ferido, só abatido. Aproximou-se suave, mas não furtivamente. Queria ajudá-lo, não invadir a sua privacidade.
Então, pai! Está aqui! Estávamos a ficar preocupados...
Não obteve reação. Albbano mantinha um olhar de enorme tristeza perdido na lonjura. Nada parecia poder animá-lo.
Não fique assim, pai! — disse Alccino cheio de ternura. — São só mais três ovos gorados. Já aconteceu muitas vezes.
O rosto do ancião baixou, em dor interior, sem responder.
Tem de aceitar, pai! Os tempos de fartura e fertilidade já lá vão. Este é o mundo que temos agora.
Alccino comunicou com a mãe a sossegá-la e continuou a tentar animar o pai, com argumentos racionais de relativização dos prejuízos. Finalmente, Albbano começou a falar em voz baixa, pausadamente.
Não são só mais três ovos gorados, filho, nem só mais um animal morto! Nós estamos a extinguir-nos. O ambiente está envenenado com os compostos de irídio que servem para tudo. As crias não conseguem romper a casca. Está cada vez mais dura e inquebrável. E não é só com os animais. Como já te contei algumas vezes, para tu nasceres houve que quebrar a casca artificialmente. Nós, os parassaurolofos, praticamente já só nascemos de crustatomia. Se não fossem os cuidados obstétricos, desaparecíamos. O panorama geral é preocupante. As crias não conseguem romper a casca, os ovos não são fertilizados, as populações de todas as espécies estão a diminuir a um ritmo assustador. Todos os anos desaparecem muitas espécies para sempre.
Calou-se, por momentos, como que a lembrar-se de outros exemplos. Alccino respeitou o silêncio do idoso.
A destruição da vida no planeta, tal como a conhecemos, está a tomar proporções gigantescas. Dantes, além, avistava-se o tremeluzir da superfície do mar. Agora, o que se vê são reflexos de objetos a flutuar. Mantas de tralha a cobrir enormes áreas de oceano. Há quanto tempo lá não vais? É triste, deprimente, apetece não voltar lá mais. Como nos deixámos chegar a esta situação? Estamos mesmo em perigo, acredita!
Fez uma pausa, a ganhar alento.
Eu vou-me informando, sabes! Recebo muita divulgação científica. Já houve outras épocas da Terra com indícios semelhantes e que resultaram em enormes extinções. A maior foi há 185 milhões de anos, que fez desaparecer 96% das espécies marinhas e 70% das terrestres. Devido à gravíssima situação que atravessamos, os cientistas já falam na Extinção em massa do Cretácico, a época atual, ou a Quinta Extinção. Estão registadas cerca de oitocentas espécies que se extinguiram nos últimos quinhentos anos, mas, como a maioria não está documentada, os cientistas calculam que é mais provável que se tenham extinguido entre vinte mil e dois milhões de espécies, só no último século. E, tendo em conta os limites do conhecimento atual, a taxa anual de extinção pode chegar às 140.000 espécies. Estamos no limiar da catástrofe.
Alccino agachou-se, abatido pela força terrível dos números que o pai lhe atirava. A preocupação com o desaparecimento do progenitor desvanecera-se, mas agora um peso inesperado acabrunhava-o. Como era possível que nunca tivesse ouvido falar disto?
Percebes, agora, porque estou desanimado, sem esperança? — interpelou-o Albbano. Há muito que me vou dando conta do que os cientistas vão divulgando.
Mas, pai — reagiu Alccino —, não são só teorias malucas de tipos que veem um mosquito e lhes parece um alamossauro? É que eu nunca ouvi falar disso…
Não, Alcci, quem afirma que a extinção atual é um facto são cientistas conceituados entre os seus pares. Dão conferências, mostram dados, mas parece que ninguém os ouve. E dizem mais; dizem que somos nós — a espécie dominante —, que estamos a provocar a extinção em curso. Com a caça intensiva, a introdução de organismos perigosos para os nativos, a destruição dos ambientes naturais, a desflorestação, a sobreexploração agrícola, a poluição, o envenenamento com agrotóxicos e hormonas pecuárias. Infelizmente, o que está na raiz de todos estes problemas é o crescimento populacional contínuo da nossa espécie e o consequente superconsumo. Já viste que os animais, sobretudo os grandes, não têm áreas onde possam viver em liberdade? O planeta está praticamente todo ocupado por nós...
Mas sempre houve espécies a desaparecer de maneira, digamos, natural, pela natural seleção natural…
Sim, só que com a nossa ação, a que alguns também chamam natural, mas de extensão e intensidade avassaladoras, a perda de biodiversidade é dez a cem vezes mais rápida. E seremos nós que acabaremos por pagar um preço demasiado alto pela rápida diminuição do único conjunto de vida que conhecemos no Universo. Ficaremos sozinhos. Sem a concorrência que vencemos, extinguimo-nos também. Foi uma má opção termos dado ouvidos ao venerado texto que nos aconselhou a multiplicar-nos e a prevalecer sobre todos os outros companheiros de viagem desta nave cósmica.
Isso não pode ser assim tão dramático, pai. Nós somos a espécie mais bem sucedida de toda a história do planeta...
Este sucesso começa a parecer demasiado catastrófico. Os factos são conhecidos, mas infelizmente desconsiderados. E quando há tipos que, como eu, prestam atenção aos problemas ambientais, também não sabem como resolvê-los ou ajudar a minorá-los. A minha “solução” hoje foi esta: deprimir-me. A da nossa espécie devia ser positiva, assertiva, concertada, global, muito profunda. Eu não quero mostrar-te para onde deves olhar, só gostava que tomasses consciência de que há muita coisa a distrair-nos e que nos deixamos alegremente ocupar com problemas menores. A maior razão da minha desesperança é que não acredito que algum dia consigamos inverter o caminho de razia que trilhamos. Quando deteriorarmos o planeta a um nível irreversível, seremos nós a extinguir-nos. Ironicamente, essa pode ser a solução para o planeta e para a vida que restar: livrar-se de nós.
Albbano calou-se. Pai e filho mantiveram-se pensativos ainda por algum tempo. Talvez por ter desabafado, Albbano começou a sentir-se com forças para regressar. Em passos brandos, porque anoitecia e a vereda podia atraiçoar, dirigiram-se para o ninho, em silêncio. Por cima do horizonte, ia nascendo o cometa, que, havia semanas, iluminava as noites em todo o mundo, fazendo os agourentos predizer desgraças iminentes. A majestosa cauda ocupava já boa parte do lado nascente do céu. Caminhar para aquele esplendor celeste não atenuava a sombra de preocupação com a saúde do pai com que Alccino vinha a cismar.
Alddina recebeu-os ainda apreensiva, mas já calma. Depois de uma refeição ligeira, Albbano aninhou-se. Alccino chamou a mãe e agacharam-se a conversar.
Mãe, o pai não está bem. Fez-me uma conversa completamente alucinada. Só fala em fim do mundo e em catástrofes. É expectável que um ancião tenha conversas relacionadas com a morte que se avizinha, mas parece-me que ele está obcecado com ideias de aniquilamento. Temos de o levar ao cuidador mental.
O olhos de Alddina humedeceram. Em esgar, pronunciou:
Já há algum tempo me tinha apercebido de que algo não estava bem, mas não queria admitir. Deve ser excesso de trabalho. Meu querido Albba!

Joaquim Bispo
*
Imagem: Rembrandt (atribuído), Retrato de um velho,1632.
Coleção Museu Fogg, Harvard, E.U.A.

* * *





quinta-feira, 23 de julho de 2020

FLOR-DE-CAPITÃO





O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do piso. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas.
O deleite da menina era revirar aquilo tudo. Perdera a conta de quantas vezes havia realizado o mesmo ritual de desdobrar e dobrar as peças, passar os dedos pelos bordados, espetar o pente nos ralos cabelos, arrastar o véu e os xales pelo chão.  Sempre sob o olhar saudoso e atento da avó.  
Um dia, percebeu que, sob as pesadas cobertas, havia um embrulho. Curiosa, quis saber do que se tratava. A avó, pacientemente, contou que eram sementes de flor-de-capitão, e recomendou que a menina não mexesse ali, pois elas não poderiam ser plantadas, nunca. As sementes tinham sido dadas pela comadre da avó, com a sugestão de que fossem semeadas no entorno da horta. A florada traria borboletas, abelhas e as hortaliças ficariam mais viçosas e saborosas. Mas, depois de uma conversa com o avô, ficara terminantemente proibida a semeadura. Irritado e em desacordo, ele havia falado que aquilo era uma praga, que infestaria as plantações, as pastagens. Enfim, era uma ordem: as sementes não poderiam ser espalhadas.
A menina, pouco convencida, fechou o baú. Foi para o terreiro, brincou, chegou mesmo a esquecer do embrulho sob as cobertas. O dia passou quente, mas a tarde começou a ficar carrancuda. Enormes nuvens espalhavam-se pelo céu, nuvens negras. E, junto com o baixar do sol, veio a lembrança das sementes.
Correu até lá. Aproveitou que a avó estava ocupada com a cata dos ovos, distante dali, abriu o baú, retirou tudo com muito cuidado e encontrou o saco de papel abarrotado de sementes. Pegou o pacote, colocou-o no chão, voltou as roupas no lugar, tudo arrumadinho. Abraçou as sementes, olhou de um lado, do outro e saiu em disparada antes da chegada da avó.
Lá fora, o tempo havia fechado por completo. Trovões, relâmpagos. Começou a ficar espantada. Queria abrir o pacote, mas precisava voltar para casa. Andou um pouco na direção do cafezal, ajeitou-se sob a saia do pé de café e começou a desembrulhar as sementes. Eram muitas, excessivamente frágeis, parecidas com minúsculas folhinhas secas.
Um relâmpago intenso clareou o céu, um trovão ensurdecedor ecoou e a menina, de susto, quase engoliu a língua.
- Tinhoca! Tinhoca! Anda menina! A chuva vai ser braba!
De longe, as vozes da mãe e da avó gritavam o nome dela. Precisava ir, e precisava guardar as sementes! Como?!
Não teve saída. Acomodou o embrulho no tronco do pé de café, planejando que voltaria na manhã seguinte para buscá-lo. Feito isso, saiu desembestada para casa. No caminho, o vento a deslocava do chão. Bastou colocar os pés no alpendre, a chuva veio feito dilúvio.
À noite, deitada, imaginava como iria secar e embalar as sementes para guardá-las novamente no baú. E, arquitetando, conjeturando, dormiu. 
Acordou com o mugido do gado no curral. Correu para a porta da cozinha, a chuva havia parado, a umidade cobria tudo. Mal trocou de roupa, passou a mão num embornal e rumou para o esconderijo das sementes.
Não havia pacote, não havia sementes. Vasculhou tudo, andou por várias fileiras de pés de café, pelos carreadores. Nada. Tudo era barro vermelho, lama. A chuva de vento varrera toda a roça, desfolhara o cafezal.
E as sementes?! Como explicaria?
Ficou pensativa por alguns dias. Depois, esqueceu...
E os dias corriam. A menina não teve mais vontade de mexer no baú. Quando lembrava, empurrava a ideia. Nem passava pelo quarto.
As chuvas se foram, o sol reinou escandaloso, as plantas pareciam ainda mais verdes, as flores coloriam tudo. As flores?!
- Tinhoooooooooooca!!!
                                                           
                                                            
                                         Regina Ruth Rincon Caires          






segunda-feira, 20 de julho de 2020

DEPOIS DAQUELE PORRE

Se beber, não dirija. Se beber, não case. Se beber, não digite em redes sociais.
Se beber, não dê defeito.

A essas advertências, mantras dos bons modos, acrescento uma de minha propriedade,
que passo adiante depois de sentir nas entranhas suas consequências devastadoras.

Se beber, não transe com estranhos.

Explico.  Num dos raros momentos em que abri as pernas sem um pingo de entusiasmo
sóbrio por um sujeito desconhecido, dei azar. Ou melhor, dei chance para o azar.
Irresponsáveis, não nos demos conta da falta da camisinha, confiamos nas palavras
cheias de desejo e álcool de um e de outro, e transamos selvagem no banheiro reservado
à presidência da empresa onde uma amiga era executiva.

Explico melhor. A amiga executiva era minha aluna de inglês, que me convidara para
um happy hour, onde a champanhe correu solta entre salas de reunião, gabinetes chiques
e pelas minhas veias, alimentando fantasias libidinosas que devia a mim mesmo.

Era o dia, era a hora. E assim, caminhando em câmera lenta, soltando eloquências,
possuída por uma felicidade extrema, me vi atraída por um cinquentão charmoso e
sedutor, que me devolvia em dobro as flechas maldosas que meus olhares atiravam.

Enquanto a champanhe aumentava sua torcida por mim, já me imaginei levantando
a saia com uma mão e abrindo seu cinto com a outra, como de fato, a ideia se
materializou poucas flutes depois, sentada numa bancada de pia, ora cravando minhas
unhas nas suas costas, ora desgrenhando seus cabelos grisalhos, sempre trocando gostos
secretos de álcool e gente, num escambo de línguas travessas e lábios atrevidos,
indo e voltando, ao tempo em que os relógios dormem.

Adorei.

O diabo é que ele era o Presidente da empresa. Minha amiga ficou uma arara, fazer o quê?
Não sabia que era a vez dela.

Se acreditasse em pragas e mandingas, atribuiria à ex-amiga a responsabilidade pela
enxaqueca a cada dia de menstruação atrasada. O teste de farmácia foi cruel.
Repeti no dia seguinte. Mesmo resultado. Danação.

Com os dois medidores na mão, corri para a empresa do sujeito, que fez questão de não
me reconhecer na sua antessala pomposa, mas mesmo assim cochichei discretamente a notícia
ao seu ouvido de mercador e esfreguei os testes na cara dele. Num estalar de dedos,
um segurança vestido de Armani me levou ao elevador, sem precisar me tocar pelo braço.

Mas nada foi tão humilhante, desconcertante e abjeto quanto receber à noite um envelope
com 20 mil dólares, endereçado à clínica do ginecologista Dr. Jair Pires Manella,
com um bilhete cifrado: "Cuide bem dela, Anjinho, do seu jeito. É uma boa moça".

No mesmo instante meu sangue ferveu. E desceu.

A gravidez psicológica interrompida, se não apenas me privou de um filho, me gerou
um monstro irreconhecível. Entrei pela reunião do Conselho da empresa às 9:30 em ponto,
propositalmente descabelada, malvestida, descalça, desbocada e despejei o envelope com
18 mil dólares na cabeça do Presidente, que não ousou mexer um músculo.

Não eram 20 mil dólares? Eram. Mil foram para o segurança elegante me deixar entrar.
E outros mil para ele me proteger quando terminei o barraco.





domingo, 19 de julho de 2020

Casarão 111




O balanço de ferro fornido à esquerda, colado à porta de entrada, acendia o vazio e o temor – pode-se vislumbrar, dada a idade do dono da casa, que não mais haveria crianças dispostas a usá-lo, quiçá um bisneto distante. Era, decerto, um enfeite relegado à própria sorte.
A parte que compreendia o vestíbulo era invariavelmente penumbra. A luz estava constrita aos corredores laterais; e as janelas, imensas, que ocupavam consideráveis espaços das paredes, estavam enrijecidas pelo bolor interno.
Quando eu ia à casa de meu tio-avô, era um evento perigoso. O pobre homem, depois da morte da ditosa esposa, não se sentia digno de viver; entregava-se ao acaso, suplicando que o tempo-carrasco fosse breve. Mamãe, no entanto, sentia-se na obrigação de visitá-lo, de levar, como bem entendia, um pouco de afago, o famoso bolo de milho, de sua predileção, e reportar que sua irmã, minha avó, igualmente doente, lhe mandara lembranças e, de pronto, ele aquiescia, com uma reverência cortês, e desejava-lhe saúde.
As palavras, raras, que saltavam de sua boca eram para suplicar que minha mãe não o abandonasse, que se sentia só, e desandava a chorar, sendo consolado por seu ombro ossudo. Eu acompanhava a cena e logo, assustado com o velhote lamurioso, me atrevia a ingressar num dos rincões mais obscuros de toda a América – assim o projetava em minha mente. O detalhe é que queria ser arqueólogo, cientista, e que devia superar esse tremendo obstáculo: tinha medo do escuro, do imponderável.
Pensava que a casa era feita de material resistente, dado ter de suportar o peso das cadeiras da sala, que não se moviam por nada; era preciso três homens para mexê-las. A mesa, então, era propriamente uma árvore maciça, pouco lapidada, que teria sido içada por um helicóptero e colocada ali. Mas o que me interessava mesmo eram os animais empalhados, expostos como troféus nas paredes da sala. O lado direito começava com alguns ornamentos chineses, imagino, porque o homem era fascinado pela cultura oriental, seguidos de uma coleção gigantesca de borboletas brilhantes, uma cabeça de jaguatirica e outra de javali – este, com a boca semicerrada, que delimitava a passagem de um certo curioso para os outros cômodos. À esquerda, variavam, em fileiras desconexas, chifres, sendo um, a meu ver, tipicamente de rinoceronte; mais aves, estas espalhadas pelo chão.
Questionava-me, ardentemente, como aquele homem pouco, débil e atarantado, seria capaz de tamanhas aventuras. Visto que aqui não há nada dessa fauna, teria se deslocado para outros países, a fim de capturá-los; especialmente para a África, tão desejada por mim.
Como faria para conversar com ele? Minha mãe, ao menor sinal, dava-me beliscões e dizia, entredentes: “Fique quieto ou não vem mais!”. Prostrava-me ao seu lado, atento, para ver se sobrava alguma informação, mas o homem era monossilábico, praticamente só respondia aos questionamentos de mamãe, sim ou não, e largava um ligeiro sorriso; para alegrá-lo, passava em câmera lenta as fotos de família, falando de um a um, titio isso, titio aquilo; o homem se ocupava, e eu quase morria de tédio.
Além do mais, perpassava a casa a figura enigmática de Aglaides, uma senhorinha de seus setenta anos. Para não fugir à regra da época, era tratada como a governanta: “Esta é como se fosse da família! São tantos anos, né, Aglaides?”, dizia mamãe, com o semblante amável. Para nos agradar, ou distrair, saíam de suas santas mãos quindins e pudins – até hoje não tenho ideia de ter comido algo parecido. Isso, sim, refreava o tédio. Mas, se me ausentava para ficar na sala e tentar uma brecha para adentrar os quartos, muitos, Aglaides dava um jeito de me seguir, espanando os objetos e espalhando a poeira – lógico, uma tática, já que tinha forte alergia; para me ejetar para próximo de minha mãe, ou, quiçá, irmos embora de uma vez.
Sim, titio guardava algo indecifrável aos mortais. Quase sempre entorpecido pelos remédios fortíssimos para dor, assim declarava Aglaides; com mobilidade restringida também pela artrite, tentava se comunicar com o olhar – e, nesse dia, transmitia, perceptível para mim, a excitação e o desespero.
No ano de 1980, aconteceu um evento que o debilitou primeiro: ser associado ao tráfico de animais silvestres. Sendo “franco das ideias”, como titia contava, conseguiu ser absolvido, livrando-se da prisão – mas, de fato, teve de realizar trabalhos voluntários por dois anos, atuando na recuperação e na reinserção de animais na natureza. Nesse meio tempo, com a incerteza de um pesado processo sobre seus ombros, sofreu o revés de perder titia num acidente de carro, quando voltava de Baturité.
Daí, seu único e excêntrico filho partiu sem destino sabido. Não percebo se por confusão, mas uns diziam ser Noruega, outros Dinamarca. Certo é que se regalou com parte da fortuna deixada pela mãe, cerca de dois milhões de cruzeiros.
Vovó não admitia a desgraça que pesava sobre sua família, mormente em seu irmão querido. Deu-nos, a todos os seus filhos e netos, a incumbência de cuidar dele, até os últimos dias.
Aglaides podia facilmente tripudiar de nossa inteligência com aquela carinha inocente. Mas, para mim, estava cheia de más intenções ou mancomunada com alguém, à espreita de algum tesouro escondido ali, no misterioso solo.
Sendo aprendiz de arqueólogo, resolvi protegê-lo. Entrei no quarto de titio enquanto Aglaides saía para obrar no banheiro do quarto dos fundos. Vasculhei rápido todos os espaços. Encontrei duas chaves amarradas com arame no bolso de uma calça enxovalhada. Tentei abrir as portas do guarda-roupa. Na última, quase sem esperanças, consegui; e, penetrando mais, por baixo de um fundo falso, coruscou a boca de um cofre. Além da chave, havia um código, o que me fez praticamente desistir. Foi quando, revirando suas gavetas, encontrei um carnê velho de banco e algumas letras e números escritos na folha final. A combinação bizarra de números e letras me lembrava algo sobrenatural, como se fossem signos gravados numa pedra. Suei, testei um por um e, finalmente, transpus a barreira. Amontoavam-se, como papéis quaisquer, dólares; e, ao fundo, brilharam as barras de ouro.
Ouvi os passos de alguém, supostamente Aglaides me procurando. Pus cada objeto nos seus devidos lugares e me retirei, de fininho. Na verdade, bem na hora, mamãe também afirmava que teria sido uma excelente tarde e que viria mais vezes, beijando a mão de titio, já se despedindo. Aglaides me deu um tapinha nas costas, consistente o bastante para me desequilibrar, caindo aos pés de minha mãe. Logo correram para me levantar: “Está caindo de maduro, menino?!”. Acintemente, Aglaides pensava que me demoveria de futuras aventuras.
Corri para o carro sem me despedir de titio. O olhar dele pesava mais e o corpo parecia capengar como uma múmia. Mamãe pedia desculpa por minha falta de educação; que não teria me ensinado a me portar assim. Estava me borrando de medo, inclusive, de ser descoberto e, por isso, sofrer graves consequências.
Ao som de Alceu Valença, convidando-me para o casual deleite, sem mais nem menos sobreveio o carão e a ordem para desligar o rádio. Assustei-me com o arroubo. Mamãe disse que eu estava muito atrevido para o seu gosto. Desandei a chorar. Ela não tolerava me ver sofrer; pedia-me, repetidamente, desculpas pelo tom, e justificava o cansaço, o mal de amor, as desinteligências com meu pai. Enfim, caiu comigo no choro.
Aproveitei a deixa, depois de um tempo; pensando em desopilar, soltei: “Mamãe, abri o cofre do titio; encontrei muito ouro e dinheiro!”. “Como não?! É mesmo, seu tio é bem rico, posso ver”. Titio andava vestido em molambos, apesar de ter sido alto funcionário do governo, sendo afastado “por motivo de força maior”. “Sim, mamãe, posso garantir que vi; esse carro ficaria cheinho de dinheiro vivo!”. “Pensei que fosse alguma coisa séria, João. Pare com essa conversa tola. Chegando em casa, já sabe, três dias sem videogame”.
Querendo saber notícias do irmão, que não atendia aos seus telefonemas, vovó determinou que mamãe corresse para a Rua da Sorte, nº 111. Não havia ninguém, uma alma viva ou morta, que se pudesse vislumbrar. A primeira impressão era de que haviam levado o titio para algum asilo, já que Aglaides estava bastante idosa. Mamãe ligou para os irmãos e familiares, nenhuma notícia. Buscou os necrotérios, os hospitais, e nada a respeito. Misteriosa, ainda mais, a placa que repousava na lateral da casa: “À venda”. Quem a havia colocado ou autorizado que se colocasse? Ligou para o corretor, que desconversou; alegou, furtivo, que a casa teria ido a leilão, por dívidas.
Virou caso de polícia: inconcluso. Seria o crime perfeito? Suspeitaram de Aglaides, a velha serviçal; mas esta, pelo que se apurou, jazia numa cama na Santa Casa, vegetando.
Vovó baixou o decreto: que encerrassem o dito acontecimento na família; não se tocava no assunto. A matriarca precisava depurar-se da dor. Respeitamos. Agora, conto o que se passou, quando tinha dez anos, sendo indagado constantemente por minha mãe, hoje idosa, que ficou paranoica: “E havia dinheiro mesmo? Como Aglaides ficou daquele jeito? Coitadinha! Que fim levou titio?”.







sexta-feira, 17 de julho de 2020

Água-viva - poema de Lilian Aquino





quinta-feira, 16 de julho de 2020

Identidade

Foto: Alexander Khoklov

Fato. Havia um lugar acolhedor. Amortecido em fluido. Úmido. Quente. Dentro. Boato. Todo o mundo tem de sair. Fato. As recompensas. A cara ansiosa da mulher que você chama mãe. A voz que você escuta há nove meses (no seu caso, há quase 10). Peito. Leite quente. Banho quente. Berço quente. Tato. Contato. Colo. [nota mental (sempre quis fazer uma) : não tenha pressa em andar]. Boato. Pode ser nada disso. Pode ser que você faça parte de uma estatística hostil. Dos que vão. Para a lata do lixo, para o fundo do rio, para o orfanato com nome de santo (há sempre mais de uma opção de inferno). Que você faça parte da lista dos destinados ao frio eterno. Carnes que nunca vão conhecer essas coisas de afetoabraço, beijo, carinho. Fato. Você vai crescer, estudar. Aprender sobre coisas, bichos, plantas, planetas. Nos livros. Na vida. Aprender sobre o homem. Ou tentar. Boato. Depende. Roleta russa. Você vai crescer. Se não morrer antes. De bala, de porrada, de fome, de abandono, de overdose. Você vai crescer. Nessa coisa de estatura. Mas não vai conhecer nem letra nem palavra. Possibilidade: você se tornar um desses que acreditam em Terra plana. Probabilidade: você se tornar um desses que chamam um vírus letal de a little flu. Fato. A revolução do primeiro beijo tira o ar [aquela boca macia bem que podia nunca mais se descolar da sua]. As revoluções são ritos de passagem. E os ritos de passagem são importantes. Boato. (Correção: Os ritos de passagem doem). Porrada. Em vez do beijo, soco no estômago. Também tira o ar. Invasão. Um corpo sobre o seu corpo. Pesado, indesejado. Uma mão. Suja. Que força a sua boca e enfia lá dentro um membro. E você nunca mais se esquece de que esse membro se chama caralho. Fato. Você prepara o cabelo, as unhas, as roupas, o currículo. Vai atrás do primeiro emprego. Paciência. Questão de tempo. Mas o seu tempo de espera tem mãe, tem pai, tem casa. E cama de madeira, e bebida, e comida quatro vezes por dia. Mamãe prepara. Dois banhos quentes por dia. Um deles, depois da academia. Aulas de piano (que mamãe acompanha da poltrona da sala). Diversão até de madrugada naquela plataforma imbatível que oferece filmes em cardápio. Boato. Você caiu do outro lado, pessoa. E engrossa o índice dos desempregados, dos que vendem droga na porta da escola — aquelas que você só vai conhecer do lado de fora —, dos que vendem balinha no sinal, dos que entregam panfletos nas ruas, dos que comem restos de lixo, dos que fumam crack. Certeza mesmo só o colo. Do velho desgraçado que não se importa nem um pouco com a idade das suas mãos minúsculas sobre o caralho dele. Ele arrota profanações. Você vomita porra. Fato. Você escolhe o sonho. Do casamento, da casa própria, do carro do ano, dos filhos adoráveis que viajam para parques temáticos nas terras do Tio Sam e ganham carro novo na maioridade. E quando paisagem perfeita do seu sonho se desintegra, você aprende o que é botox, preenchimento, lifting facial. Todos os postiços agora lhe pertencem. Boato. Você aceita a realidade. E não faz nada para retardar a erosão do tempo. Um rosto sem retoques, sentado, todos os dias, em meio a livros, papéis, pessoas, discutindo o destino das minorias, a preservação das florestas, a distribuição de renda, a violência contra a mulher. Com filhos. Sem filhos. Tanto faz. O mundo grita. Você escuta. Porque você grita com ele. 
Boato. Ainda não terminou. A cada 15 dias você pinta os cabelos. 
Fato. Tudo acaba. A cada 15 dias você recomeça.