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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Candy

 
Terminei o dia de trabalho. Não queria fazer mais nada, estava saturado, farto!
Arrumei as coisas da secretária para uma gaveta, como se varresse o lixo para debaixo do tapete. Empurrei tudo para o recipiente aberto e encerrei-o em seguida com uma sonora pancada. Despedi-me dos meus companheiros de escritório, de forma seca e ausente e procurei ar puro, com avidez, no exterior do edifício.
Estava já escuro, as pessoas passavam apressadas, embrulhadas em casacos, protegendo-se do vento cortante… como detesto o inverno… sair de casa de noite e regressar de noite.
Desde o início da tarde que o estômago me ardia, num mal-estar permanente; estava assim desde que soube que o meu supervisor chegaria amanhã, para uma reunião especial.
"Mas que raios, quererá ele comigo?" Pensei diversas vezes. "Não me lembro de nenhum problema, nem nenhum erro cometido recentemente. Na certa vamos ter nova vaga de despedimentos e eu vou ser o primeiro." O azedume do estômago aflorava-me à boca.
 Passei a paragem do autocarro e decidi ir a pé para casa, "ruminando" na minha pouca sorte; com duas semanas de separado, o que me estava a faltar era mesmo ser despedido. Joana fora intransigente e impulsiva, como era sempre, aliás. Sem dúvida que, esquecer a Francisca no infantário era muito mau, mas as coisas que Joana me disse, mereceram bem as minhas respostas e aliviaram o meu remorso… agora estavam as duas na casa da minha sogra, para gaudio desta última, a velha viúva azeda que nunca gostou de mim. "Mas se ela acha que vou pedir desculpa por ter dito o que merecia ouvir, que pense melhor!" Resmungava para comigo.
Parei numa pequena tasca e pedi cerveja, "Com Favaios!", acrescentei depois. Foi apenas a primeira, depois veio outra e mais outra, parei nem sei quando. Quando chegou a altura de pagar, nem percebi a quantidade de cervejas que havia na conta, mas achei caro… ou tinha bebido muito.
Sentia-me mesmo embriagado. Hesitava ao evitar os obstáculos, a cabeça estava um pouco confusa e havia um zumbido permanente nos ouvidos, a perturbar-me. Fiquei contente por ter vindo a pé, assim tinha tempo para que "os vapores se dissipassem." Agora que pensava naquilo, ultimamente os meus dias acabavam embriagado, ou quase, mas até aí, fora sempre em casa. Era a primeira vez que bebia tanto, sem ser para se deitar de imediato. "Nota mental: não é bom beber fora de casa, a cama está demasiado longe."
À medida que me afastava do centro da cidade, as ruas estavam com menos transeuntes. Por fim, entrei numa alameda, na qual nunca tinha reparado muito bem, porque quando passava de automóvel ia compenetrado na estrada e se vinha de transporte público, estava demasiado apertado para ter vontade de apreciar a paisagem. Mas a verdade é que havia vivendas bastante bonitas, conseguia-se divisar, mesmo com o tempo escuro e invernal, grandes relvados, para lá dos muros baixos, fazendo realçar a grandiosidade dos edifícios. Gostava de um dia conseguir ter dinheiro para uma casa destas, mas agora com a separação... pensão de alimentos… "Pobre Francisca, minha filha querida, ainda não sabes como a tua vida vai mudar." Este pensamento fez-me limpar uma lágrima.
As frondosas árvores, de ambos os lados da rua, quase não deixavam a fraca luminosidade do fim de tarde chegar ao chão, criando um rendilhado de luz e sombra e retirando o pouco calor dos idos de outubro. Um arrepio percorreu-me a espinha, à medida que entrava naquele frio mundo de sombras.
Ia já a meio da travessia, quando me apercebi de algo que se moveu no jardim onde passava e olhando naquela direção, divisei uma criança envergando um casaco grosso castanho e uma botas de água vermelhas, sobre um pijama cor-de-rosa. Aparentava ter uns cinco ou seis anos e não havia nenhum adulto à vista. O murete do jardim não tinha mais do que uns cinquenta centímetros, facilmente transponível e ela andava a remexer nos grupos de arbustos que enfeitavam o relvado bem cuidado. Senti um aperto no coração ao lembrar que poderia ser Francisca, sensivelmente da mesma idade, sozinha e sem vigilância, tão próxima da estrada e à mercê de estranhos.
— Olá. — A menina apercebera-se da minha presença. — Viste a Candy? É uma gatinha pequenina, toda branca, com uma mancha negra na testa.
— Olá. — Respondi. — Não, não vi, mas uma menina tão pequena não devia estar cá fora sozinha, pois não?
— O papá está a trabalhar, a falar ao telefone e não viu que a Candy fugiu. — O sorriso dela era desarmante. — Eu não o incomodei, a mamã está sempre a dizer para eu não aborrecer o papá quando ele está a trabalhar.
— Já sei como se chama a tua gatinha e tu, como é o teu nome? — Sorri-lhe de volta.
— Chamo-me Lúcia e tu?
— Meu nome é Pedro. Já fugiu há muito, a bichinha? 
— Foi há poucochinho. A porta da cozinha estava aberta e ela fugiu. Foi quando o papá veio deitar o lixo, o telefone tocou e esqueceu-se de fechar.
Como a criança retomou a busca, decidi-me a ajudá-la, afinal não tinha nada melhor para fazer e não havia ninguém à espera em casa. Afadiguei-me a sacudir arbustos e a espreitar os ramos das árvores, na tentativa de divisar a criatura.
— Sabes? — Comecei. — Tenho uma filha mais ou menos da tua idade.
— A sério? — Ela parou para me olhar. — Como se chama? Porque não a trouxeste para nos ajudar a procurar?
— Chama-se Francisca e não a trouxe porque não sabia que ia encontrar uma menina bonita como tu a precisar de ajuda. — Respondi, sem conseguir suster um sorriso.
— A mamã diz que Deus põe as pessoas certas no nosso caminho, quando precisamos delas. — Ela fez uma cara séria enquanto acenava com a cabeça afirmativamente.
— Então achas que Deus me enviou para te ajudar a encontrar a Candy? — Ergui as sobrancelhas interrogativamente. — Ou foste tu que foste enviada para me ajudar de alguma forma?
— Oh, isso já não sei, é muito complicado para mim. — Ela fez uma careta divertida. — O que anda a fazer a tua Francisca?
A pergunta acertou-me de chofre e por uns segundos fiquei "engasgado" sem conseguir responder.
— Ela… Está com a mãe. — Acabei por dizer.
— Com a mãe? Não estão em tua casa? — A argúcia da criança surpreendeu-me.
— Bem, não. A mãe achou que precisava de ter "umas férias" e foi para casa da avó da Francisca. — Ajoelhei frente a ela para ficarmos cara-a-cara.
— Isso não é bom! — Lúcia arregalou os olhos numa expressão mista de espanto e seriedade. — A Francisca deve estar muito triste por não te ver, eu ficava de certeza, se estivesse longe do meu papá. Devias ir buscá-la, já, já para o pé de ti, dar-lhe muitos beijinhos e pedir desculpa por teres deixado que a levassem embora. — Quase não conseguia suster as lágrimas perante a reprimenda da criança, mas ela não se deteve. — O meu papá passa muito tempo ao telefone e a mamã ralha muito com ele, mas eu não gosto que eles discutam. Por vezes, ele está a falar com os clientes, mas tem sempre um sorriso e uma festinha para me dar.
Virei o rosto para o lado, para ocultar uma gota teimosa, que se escapava pelo canto do olho. Revia ali a minha história, pela voz de uma criança.
— A vida não é assim fácil, minha querida. — Fiz-lhe uma festa no rosto suave e infantil que fitava atentamente o meu, triste e envelhecido. — Muitas vezes deixamos que o nosso emprego se coloque acima do que é realmente importante e ao fim e ao cabo, o trabalho só nos traz desilusões.
— Vai correr tudo bem, vais ver! — Ela fez um sorriso radioso. — Fala com a mamã da Francisca, se estiverem todos juntos, tudo o resto vai correr bem! — No mesmo segundo, retomou a sua busca, indiferente à comoção que me causara. 
Eu continuei de joelhos no relvado, pensativo. 
— Acho que ela não está aqui. Terá fugido para o outro lado da rua? — A criança perguntou em voz alta.
— Não. — Respondi alarmado, enquanto limpava as lágrimas à manga do casaco. — Não deves atravessar a rua sem a mamã ou o papá. Eu vou tocar a campainha e digo que é preciso ir procurar do outro lado.
— Espera. — Ela começou a correr, através de uma sebe lateral, para as traseiras da casa. — O papá está a trabalhar, não o incomodes, eu vou ver se a Candy já voltou, se não, digo ao papá que vou procurar na casa da vizinha.
Passaram-se longos minutos sem qualquer atividade. As luzes no interior da casa continuavam com a mesma tonalidade, sem aspeto de serem ligadas outras ou apagadas aquelas. Debati-me um pouco com a intenção de tocar à campainha ou espreitar as traseiras da vivenda, mas acabei por concluir que a gata já deveria estar em casa e que a criança se esquecera de mim, entretida a brincar com a amiga.
  Retomei o regresso a casa, com os vapores do álcool quase completamente dissipados. Peguei no telemóvel, marquei um número, por demais gravado na minha cabeça e aguardei, enquanto me torturava mentalmente: "Nem sequer vai atender".
— Estou? — A voz de Joana ecoou, triste, no meu ouvido.
— Olá querida, como tens andado? Como está a nossa menina? Sinto muito a vossa falta, sabes? — Inquiri, com as lágrimas novamente a assomar aos olhos.
Percorri o resto do escuro caminho a falar com ela, a minha esposa, mulher que eu escolhi e mãe da minha filha, que eu nunca deveria ter deixado que se afastassem de mim. Choramos ambos ao telefone, pedimos desculpa, lamentamos o que estávamos a fazer a nós e à doce Francisca. Naquela mesma noite peguei no carro e fui buscá-las para a casa de onde nunca deveriam ter saído e foi um dos episódios mais felizes de toda a minha vida.
Também o dia seguinte tinha boas novidades: a temida reunião, era para me aumentar e dar novas responsabilidades, uma progressão na carreira… a pequena Lúcia tinha razão, assim que estivéssemos juntos, tudo ficaria bem.
No fim do expediente, regressei pelo mesmo caminho do dia anterior e entrei na sombria alameda. Nem parecia a mesma do outro fim de tarde, muito mais luminosa, com alguns automóveis estacionados e pessoas a circular nos passeios.
Consegui chegar à casa de Lúcia, que identifiquei facilmente pelo alpendre e as sebes baixas que separavam o relvado do passeio. Uma senhora rondando os quarenta anos, aparava a sebe com uma tesoura de poda.
— Boa tarde — Saudei a mulher, que me olhou com curiosidade antes de responder à saudação. — A senhora deve ser a mãe da Lúcia, suponho.
— Sim. — Confirmou ela demonstrando suspeição. — Quem quer saber?
— Desculpe-me o abuso, meu nome é Pedro e conheci a sua filha, criança maravilhosa. — A mulher franziu o sobrolho. — Ela disse-me coisas fantásticas e eu queria agradecer, pois tudo o que me disse foi realidade. É verdade, quase me esquecia, a Candy apareceu?
— Candy?!? — Ela corou e, com os olhos húmidos, gritou-me. — Quem é você? Que quer daqui? Desapareça!
— Como?!? — Estupefacto com a expulsão e sem saber como reagir, obedeci, afastando-me. — Está bem, desculpe, mas não entendo o motivo para se ter ofendido.
Olhei por cima do ombro algumas vezes, enquanto me afastava, ela estava parada, a vigiar os meus passos.
— Espere! — Gritou-me. — Volte, por favor. Desculpe-me, quero fazer-lhe uma pergunta.
Regressei, mas mantive-me a uma distância segura, enquanto ela, sem largar a enorme tesoura de poda, me avaliou com o olhar.
— Quando conheceu a minha filha? — Interrogou.
— Ontem à noite, quando regressava a casa do emprego. — Respondi prontamente.
— Era a minha filha, a Lúcia? — A mulher não acreditava.
— Não sei se era sua filha, estava neste jardim, disse que esse era o nome dela e, quando foi embora, foi por aquela passagem na sebe para as traseiras dessa casa. — Assegurei.
Contei tudo o que se tinha passado, a nossa conversa enquanto procurávamos a gatinha Candy, que nunca cheguei a ver e descrevi a forma como a menina estava vestida.
A mulher, que desde o reinício da nossa conversa mantinha uma mão sobre a boca, moveu-a para os olhos e explodiu num pranto.
Cada vez mais atrapalhado, não sabia como reagir e aproximei e afastei várias vezes a mão, indeciso se a deveria ou não tentar acalmar. Não foi preciso, no entanto, pois ela conseguiu dominar-se sozinha.
— A minha filha Lúcia, morreu há três anos, aqui mesmo em frente à porta, vestida da forma como me descreveu. Foi atropelada, quando saiu de casa, sem que o meu marido se apercebesse, atrás da gatinha que lhe déramos no aniversário. — A mulher pareceu ter envelhecido vários anos, com o choro e o soluçar que lhe afrontavam o peito. — Não sei quem você é, se está a falar verdade, se é um mentiroso ou um pervertido, que vem com intenções escusas, mas acredito que a minha menina ainda anda por aí, perto de mim. O cheiro dela nunca desapareceu do quarto e por vezes acho que a ouço cantarolar, ou rir no jardim.
— Lamento, minha senhora, não sabia… não percebo… — Tentei desculpar-me, completamente confundido.
— De qualquer modo, — Ela não se deixou interromper. — gosto da ideia de ela ter sido um anjo, que Deus me emprestou por algum tempo e agora anda por aí a fazer o bem. Se está a falar verdade, fico feliz, se está a mentir, não quero saber. De ambas as formas, peço-lhe que se vá embora, respeite a minha dor e não volte mais. — Com isto virou-me as costas e saiu do relvado pela mesma passagem utilizada por Lúcia no dia anterior.
Ainda hoje, muitos anos depois, não sei exatamente o que se passou naquele fim de tarde, quem era aquela criança que encontrei, à procura de uma gatinha que não cheguei a ver. Mas cada vez que penso nisso e, abraçado a Joana, vejo a minha Francisca crescer feliz e saudável, não posso deixar de acreditar que Lúcia era mesmo um anjo que Deus trouxe ao meu caminho, para me levar a fazer o que era correto.



Manuel Amaro Mendonça





segunda-feira, 25 de maio de 2020

O muro global



Na reunião de Agenda da estação de televisão, já se notava a agitação própria do final. Tinham sido distribuídos os serviços de política nacional, os desportivos, os criminais e os de sociedade. Só faltava um fait divers. Alguém adiantou a informação de que o furtivo graffiter ShameU andaria a pintar um novo painel.
Este artista de rua emergente tinha vindo a ganhar relevância e visibilidade com impressivas pinturas a spray de médio e grande formatos, sempre de temática provocatória. Não tão genial, nem tão difícil de encontrar como o quase mítico inglês Banksy, ShameU suscitava, no entanto, cada vez mais curiosidade pública. Quase um ícone nacional, Vhils ganhava em popularidade, mas aplicava-se numa área diferente — a intervenção mecânica em paredes, jogando com os diversos matizes das camadas subjacentes. Além de ser uma figura já bastante vista e acessível. Também o simpático Smile aparecera já inúmeras vezes no ecrã. ShameU era quase desconhecido do grande público, e tinha fama de maldisposto.
Eu faço isso! — decidiu Edite Silva, sacolejando a cabeça para afastar uns fiapos de cabelo que lhe tocavam nas pestanas.
Terá sido a curiosidade pessoal que levou a subdiretora a assumir este trabalho de rua. Ou uma vontade de ser associada no futuro a esta celebridade nascente. Era conhecida por ter apetência pela imprensa cor de rosa.
A assistente fez o contacto e combinou os pormenores: seria à tardinha, num muro de suporte de uma escarpa sobranceira a um acesso rodoviário na Pontinha.
Tem de ser mais cedo. Diz-lhe para estar lá às 4!
Horas depois, com um operador de reportagem a tiracolo, Edite aproximou-se do graffiter que, empoleirado numa plataforma e de máscara protetora na cara, ia compondo a imagem que idealizara, num muro de uns cinco metros de altura já muito sobrerriscado.
O trabalho estava no início. Em primeiro plano, a toda a altura, sobressaía o que parecia vir a ser a Estátua da Liberdade de Nova Iorque, vista de costas.
Uns miúdos que já por ali andavam, aproximaram-se mais, ao reconhecer a estrela televisiva. ShameU pousou a lata de spray que estava a usar e desceu. Aceitara a entrevista decidindo que “A televisão é uma oportunidade top” e esperara a equipa de reportagem trabalhando, mas vagamente constrangido. Toda a sua estratégia era de divulgação da mensagem, mas não tinha simpatia pela grande media.
Apresentados, Edite, expedita e decidida, delineou o que pretendia:
Começamos por conhecer o seu percurso, o que faz e porquê. Eu vou-lhe fazendo perguntas, enquanto o repórter de imagem vai mostrando o seu trabalho. No fim, teremos de fazer uns planos de corte, para montar a reportagem. Ok?
O graffiter assentiu, um pouco atarantado com aquela velocidade toda.
Vamos lá! — comandou a jornalista. Pigarreou ainda um pouco, a aclarar a voz, e começou: — Hoje viemos conhecer um graffiter, um talentoso artista de rua. ShameU, há quanto tempo pinta, o que pinta, e porquê? Fale-nos um pouco de si!
No secundário já tinha “jeitinho” para o desenho. Infelizmente, não tive nota para entrar em Belas-Artes. Fazia parte de uma crew que assinava todos os muros vazios que encontrava. E de vez em quando fazíamos umas figuras pop-art e letras muito perspetivadas. O que me trouxe para o graffiti de intervenção foi a exigência ética de denunciar os crimes da América. Tinha acontecido o assalto sem justificação e a destruição do Iraque, e ninguém parecia importar-se; muitos até apoiavam a carnificina. Morreram centenas de milhares de iraquianos. Inocentes. Exceto o exemplo corajoso de Carlos Fino, a voz do dono passava uma mensagem mansa de justiça e normalidade. Daquele ato bárbaro, ao nível de um Hitler. Uma injustiça brutal, o mal puro à solta.
Foi então que começou a pintar os muros da cidade?
No princípio, a imagem era, para mim, uma perda de tempo e de tinta. A mensagem era tudo. Uma frase, a negro, a denunciar os massacres infligidos pela América aos povos era o necessário e suficiente. “A matança de Bush já atinge os duzentos mil civis”, por exemplo. Às vezes, acrescentava o link da Internet com essa notícia. Depois percebi a força das imagens, sobretudo ao ver as pinturas do Banksy. O que não impedia a frase forte, rápida de aplicar em qualquer muro, a denunciar as canalhices da época; por exemplo: “Obama matou hoje mais 17 crianças no Paquistão”.
Parece então que você, com tantos atentados aos direitos humanos por esse mundo fora, escolhe os Estados Unidos como “o mau da fita”!
A América, como superpotência ultradesenvolvida, é suscetível de admiração pelas massas, e por isso tem uma responsabilidade especial. A minha crítica é mais um queixume. Ela apregoa-se como um farol de liberdade, mas não passa de uma carcereira implacável. Existem hoje mais de mil bases militares norte-americanas fora dos Estados Unidos, espalhadas por todo o planeta. E ai do país que não eleja um governo que ela não aprove. Pode ser o mais querido pelos seus povos… o mais certo é ser boicotado, sabotado, invadido. Veja os casos de Cuba, do Iraque, da Líbia.
Eram países comandados por ditadores sanguinários, certo? Você é contra a democracia? — reagiu Edite, abespinhada.
Aqueles a quem a senhora chama ditadores, foram, muitas vezes, os líderes que retiraram os respetivos países de baixo da pata colonialista. Promoveram o desenvolvimento, retiraram milhões da pobreza. Foram heróis para os seus povos. É certo que, muitas vezes, foram ingénuos, como crianças inexperientes, e cometeram erros. Por eles devem ser criticados. Mas faz sentido que eu seja mais crítico para com eles do que para com os “adultos”, isto é, as nações ricas, com longas histórias de aperfeiçoamento democrático, que, ainda para mais, se pretendem fazer passar por defensoras dos direitos humanos? — ShameU gesticulava, acentuando as palavras com movimentos largos. — Como foi possível e porque é que se condenou e executou Saddam, mas se desculpou e se ignorou o morticínio injustificado provocado por Bush? Num mundo que respeitasse os apregoados direitos humanos, Bush teria comparecido perante um tribunal, por crimes contra a Humanidade. Que eu saiba, não foi executado, nem sequer preso. Nem se pôs essa hipótese! Que tolerância se pode ter pela América?; que admiração pode suscitar? — continuou, empolgado. — Para um cidadão do Mundo, é indiferente se chamam democracia às apalhaçadas eleições internas que uma superpotência faz. Interessa-lhe é que não sabote os governos que os outros países elegeram; muito menos que lhes vá lançar bombas em cima.
Já vi que você tem a cartilha bem estudada…
Infelizmente, não — ripostou o graffiter, de cenho contristado. — Demasiadas vezes ainda acredito nos noticiários. São eles que nos formatam a cabeça, de tal maneira que aceitamos as maiores desumanidades, só por virem defendidas pelos meios de comunicação. Acha normal que a comunicação social — que devia ser uma força formadora de mentes livres —, continue a veicular as mentiras americanas, depois da mentira do Iraque? Uma comunicação alinhada com um dos lados é um ataque à liberdade. É uma agente ativa do aprisionamento mundial.
Então, o que significa essa Estátua da Liberdade que você está a pintar?
Representa a atitude da América. O braço em tensão vai mostrar a força musculada com que ela se aplica a estender arame farpado por sobre todo o mundo — um globo terrestre que vai estender-se por vinte metros de parede, cruzado em todas as direções por um labirinto de muros, sobre os quais ela está a aplicar intermináveis rolos de arame farpado.
A sua atitude é muito negativa. Quer dizer que não acredita na Liberdade, nem nos meios de comunicação para a defender?
É, é isso mesmo! — assegurou, convicto. — O Wikileaks faz mais pela informação independente e pela liberdade dos povos do que a comunicação social mundial. Só depois das denúncias de Assange, de Snowden e de Manning é que já se vão ouvindo críticas ao presidente americano. Atualmente, um psicótico que está a retirar os Estados Unidos de todos os acordos, a erguer muros em todas as relações internacionais, e que usa o garrote económico como arma de submissão dos povos. Em termos de ferocidade, não é melhor que os outros.
Muito bem, vou deixá-lo a terminar a sua obra. Desejo-lhe boas inspirações!
Meia hora depois, numa sala de montagem, Edite dava indicações ao operador para a sequência dos planos da entrevista.
João, tenho agora uma reunião. Mete o áudio da parte inicial, em que ele diz que o Bush matou civis e aquelas cenas do Iraque, mas sobre a imagem da parede toda riscada, na parte ainda não pintada. Não metas o Obama, nem a parte em que critica os noticiários. Acaba com um zoom out dele em cima do escadote, a pintar a imagem da Estátua da Liberdade. Não passes do minuto e meio! A peça vai para o ar perto das nove.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Banksy (atribuído), Soldados apagando símbolo pacifista, sem data.

* * *





sábado, 23 de maio de 2020

SANTO SEGREDO




No canto do quarto, no restolho de um berço, Zaqueu dormia. Aquele arremedo de cama, sem grades laterais, havia servido como abrigo de muitos rebentos, ali, por aquelas paragens. De tamanho reduzido, não permitia que o menino esticasse as pernas. Dormia como vivia: encolhido. Não reclamava, era o suficiente.
Pareada com a dele, a cama grande da mãe era dividida entre ela, Gerusa – a filha mais velha, já moça, e a caçulinha. Mais lá no canto, dormiam os gêmeos, um cheirando o pé do outro. O espaço era abarrotado, sobrava apenas um vão para a velha cômoda, perto da porta. Móvel imenso, carregado por gerações. E sobre a cômoda, a santa.
Desde os quatro anos, Zaqueu passou a coabitar com a santa. Até então, era apenas uma peça de barro, um adereço que a mãe cuidava com muita afeição e que servia para escorar um puído rosário que lhe era enlaçado nos ombros.
De início, a convivência com a santa foi turbulenta. Tempo de pavor, de gritaria, de desespero. Um desassossego só. Período sem entendimento. Foram muitos tapas, beliscões, conflitos, engalfinhamentos. Ninguém compreendia as atitudes de Zaqueu. Era desacreditado, tido como doido. Mas, não era. Só ele sabia que não era. Só ele, não. Ele e a santa.
Nem bem escurecia, não restava opção que não fosse se aninhar. O dia levava, com a sua claridade, as brincadeiras, o andar sem rumo, a largueza de correr pela estrada tentando chegar ao encontro do céu e da terra, lá no fim, no mesmo lugar em que se esconde o pote de ouro. E todos se recolhiam. A mãe e a irmã mais velha, cansadas com a trabalheira do dia, dormiam assim que colocavam o corpo na cama. Parecia desmaio. Os gêmeos ficavam arreliando por um tempo, mas logo o sono os vencia. A caçula, pendurada na mirrada teta da mãe, resmungava por pouco tempo.
Zaqueu, não. Lutava contra uma insônia sem nome. Remexia-se tanto na minúscula cama que o pano amarfanhado que forrava o colchão escapava das beiradas. E aí, nessa briga de pernas, tudo começou.
Em noite de lua clara, com a luminosidade que vazava as telhas desalinhadas, conseguia divisar os vultos da mãe e dos irmãos. Mas, nas noites negras, na pretura do quarto, não via nada, absolutamente nada. E observava tudo isso quando estava deitado, com a cabeça levemente alteada pelo surrado travesseiro. Tinha uma visão turva do ambiente, menos da santa. Ela estava sempre lá, no lugar mais alto, imponente. O rosto era suave, havia mansidão naquelas mãos em gesto de dar, de receber. Era bonita. A cobra sob os pés era o incômodo. O menino não entendia a razão de aquela cobra fazer parte do adorno. Mau gosto.
Nesse tempo, Zaqueu não tinha mais que quatro anos. Não havia razão aparente para a falta de sono. O corpo estava sempre cansado das estripulias do dia, a comida era pouca, mas costumeira. Só o que lhe cutucava o sossego era a saudade do pai. Havia partido em busca do sonho sulista logo que a mãe embarrigou da caçula.  Até ali, nada de notícia. Era só essa amolação que ele remoía. Nada mais. Era uma saudade tão aguda que não tinha dia que Zaqueu não apertasse os olhos para tentar ver o pai despontar lá longe na estrada, voltando.
E numa noite, num repente, Zaqueu olhou o vulto da santa e percebeu que o quarto começou a ficar iluminado. Era uma luz tão intensa emanada das mãos e da cabeça da santa que parecia feixe de raios incandescentes. A potência da luz era tamanha que ofuscava totalmente a visão, alucinava, cegava. Queimava os olhos. Não havia como olhar demoradamente naquela direção. E Zaqueu, assustado, gritava, se debatia, pedia para que a mãe desviasse aquela luz.
A mãe, sem entender o pavor da criança, tentava de todas as formas acalmar Zaqueu. Sentia angústia quando ouvia os gritos em razão de não compreender de qual luz ele falava, que claridade era aquela que ninguém mais via! Querendo engolir a dor que teimava em lhe castigar o peito e lutando para enxotar o pensamento de que o filho era leso das ideias, a mãe ralhava com o menino em altos brados, tentava fechar-lhe a boca, dava-lhe beliscões como se quisesse trazê-lo para a realidade. Ordenava que ele se calasse, que parasse com aquele berreiro que tirava o sossego das crianças.
E nada. A cena se repetiu por muito tempo.  Zaqueu chorava e gritava até perder o fôlego e adormecer, exausto.
A caçulinha já corria sozinha por todos os cantos quando, pela primeira vez, após meses e meses de constantes crises de pavor, Zaqueu não se incomodou com as luzes. Não gritou, não esbravejou. Aliás, naquela noite, a santa não ficou iluminada. O menino dormiu encolhido, mansamente. O sono era tão profundo e sereno que, sentindo os sacolejos, Zaqueu despertou totalmente confuso. Custou a perceber que a mulher que o tocava não era a mãe. Era a santa. E não ficou assustado. Não gritou, nem esperneou. Sentou-se, rapidamente. Apesar da escuridão da noite, via com nitidez a figura angelical ao seu lado.
Com calma, a santa acomodou-se, acariciou os cabelos do menino e tomou-lhe as mãos. Arrepiado, olhou para os pés dela. Ainda bem que a cobra não estava lá. Sentiu um alívio.
A santa, amorosamente, dizia que Zaqueu não precisava temer a presença dela, que seriam grandes amigos. Sussurrou que estava se sentindo sozinha, que queria conversar, que sofria quando Zaqueu olhava para ela e punha-se a gritar, que nunca teve a intenção de assustá-lo. Ele perguntou a razão do silêncio da santa por todos aqueles anos, que ela poderia ter falado com ele, ele a teria ouvido. Ela retrucou que não, que ele precisava de um tempo para amadurecer, e agora com sete anos, Zaqueu teria a capacidade de compreender e conseguiria guardar segredo da amizade deles. Se o menino falasse sobre isso com alguém, iria voltar para a condição de amalucado.
Naquela noite, não conversaram muito. Reservaram tempo para pensar sobre o encontro, sobre as sensações. E vendo que o menino estava sonolento, a santa, sussurrando, entoou uma cantiga de ninar. A melodia na voz tão doce logo trouxe o silêncio.
Ao acordar, Zaqueu colocou-se diante da santa e, com um sorriso travesso, enviou-lhe uma piscadela. Sentia-se seguro, confiante. Teria um dia ainda mais completo. Passou pela mãe esperando que ela bronqueasse com o falatório da noite. Imaginava que ela tivesse escutado a conversa dele com a santa. Nada. Ninguém tocou no assunto.
Que vontade de contar! Mas não podia, era trato guardar segredo. Um dia alguém iria perguntar.  Até lá, não teria que se preocupar. Levou tempo para ficar convencido de que a conversa com a santa não era percebida por outros ouvidos. Sentiu-se confortado. Teriam muita liberdade nas conversas.  E quantas aconteceram! Encontrava na santa a melhor amiga, a conselheira, a parceira de risadas gostosas, a confidente. Artífice da esperança.
Demorou a falar sobre a saudade do pai. Por muitas vezes, planejou perguntar sobre a volta dele. Sabia que a santa guardava segredos sobre este assunto, que conhecia os seus sentimentos. Mas tinha medo de ouvir a resposta. 
Zaqueu desenvolvia, a cada dia, uma tolerância amorosa com os irmãos, estava sempre de prontidão para amainar as rusgas entre eles, vivia uma ligação de profundo afeto e esmerada proteção com a mãe. Apesar da dificuldade da vida, do pouco, a paz era infinita.
De começo, a mãe ficou confusa com a parada da gritaria e do choro.  Observava de longe. Ruminou pensamentos por algum tempo, ficou cismada, mas como a vida já havia lhe cobrado tanto, entregou-se à ventura. Assim era melhor, muito melhor...
Uma noite, Zaqueu resolveu falar com a santa sobre o pai. Perguntou se ele voltaria algum dia. Depois que fez a pergunta, o coração pulava no peito. Queria ouvir, mas queria que a resposta fosse aquela que precisava ouvir. Mas não ouviu nada. A santa não falou. Reservada, combinou que a resposta seria buscada por eles dois, era um novo compromisso.
Sem entender, Zaqueu nunca mais tocou no assunto.
E nesse compasso, a vida seguia. A irmã mais velha já estava casada, os gêmeos eram homens feitos, trabalhadores. Zaqueu era um jovem cheio de sonhos. O maior deles: o sonho sulista. Falava sempre com a santa sobre o desejo de pousar em outras terras. E sentia que este tempo havia chegado. A mãe acompanhava os planos, agoniada. 
Numa última conversa, sem que ele soubesse que assim seria, a santa, com a mesma ternura, com o mesmo cuidado de todos aqueles anos, alisava os cabelos de Zaqueu e dizia que chegando ao destino, ele encontraria a resposta que mais buscou ouvir. Lá, no desembarque, terminaria o compromisso que eles tinham selado. Então, seria o fim de um tempo e o início de outro. E foi um abraço longo, um abraço de adeus. O menino, que deixara de ser menino, percebeu que seria o último encontro. Não questionou, não pediu, não implorou. Compreendeu. A santa ficaria ali, sobre a velha cômoda. Era o seu canto.
Em meio a choros e despedidas, bagagem carregada de sonhos, Zaqueu partiu.
Naquela noite, não haveria conversa com a santa. Nem na outra, nem na outra...
Três dias depois, o ônibus chegava ao destino.
O dia acabava de clarear, o sol despontava com uma luminosidade intensa, parecia que labaredas brotavam do céu. Zaqueu protegeu os olhos. Desta vez, a claridade descomunal não o fez gritar, nem chorar. Não sentiu pavor, não sentiu medo. Compreendeu.
De repente, ouviu alguém chamar pelo seu nome. Demorou um tempo para assimilar. Virou-se devagar e percebeu que o velho ao seu lado dizia: “meu filho”... 
Nas mãos dele, uma fotografia. A mesma foto que Zaqueu havia tirado, dias atrás, para fazer os documentos.  
Olharam-se, profundamente, em silêncio. E foi um abraço longo, um abraço de saudade.

Regina Ruth Rincon Caires      










quarta-feira, 20 de maio de 2020

VRIDO

Ela falava os vrido. E cuidava deles com o carinho de ourives.
Limpava com tanto esmero, parecia que não existiam.

As janelas se abriam em flor saudando a sua chegada.
Os olhos do chão brilhavam com seu afago.
As louças dos banheiros saltitavam tal poodles quando
chega a dona. As portas se abriam sozinhas e, se pudessem,
se curvariam à sua presença.

Ela tratava as coisas como joias. As frestas milimétricas
entre os livros, os cantos mais altos, os rodapés mais esquecidos,
os bibelôs mais gentis, os porta-retratos mais afetuosos,
as dobrinhas da cozinha mais gordurentas.

Era tudo coisa-pessoa que merecia respeito, devotadas mãos,
gestos suaves, força, quando preciso, no escovão,
delicadeza de cotonete.

Sua flanelinha amarela era a vilã da poeira. Seu espanador, um pincel.
Sua vassoura, seu pas de deux. Enquanto bailava por todos os cantos, cantava.
Sua faxina era arte.

Gorda e ágil. Doce e arretada. Diabética, talvez, só Deus saberia,
só Deus cuidaria. Nem moça nem velha. Sorriso gostoso de criança,
daqueles que faz das maçãs donas do rosto inteiro e dos olhos, japoneses.

Bom humor sempre, serviço devido nunca.

Na hora de ir embora, banho tomado, cheirosa e sestrosa, deixava
sua pureza no cheirinho da casa feliz. E tinha lá o seu bordão:
- Até de hoje a quinze, Seu Zé.

Um dia, pisando em nuvens, encontrou no caminho um portão imenso,
de ferro forte sem fim. Achou a maçaneta de ouro sem brilho, embaçada,
como à pompa e à circunstância não cabia.
Começou a esfregar sua flanelinha amarela, quando um velho de barba
longa e branca apareceu.

- Você por aqui? Tão cedo?
- Foi Dona Covrid que mandou. Eu vim.

Até de hoje a sempre, Dida.






terça-feira, 19 de maio de 2020

Colapsos para se reinventar



Estava refletindo sobre a dinâmica de trabalho em tempos de crise. Como se já não bastasse a aflição da dúvida do amanhã, ainda estou sendo constantemente testado sobre a necessidade de minha permanência na empresa. Parece que estou em casa sem fazer absolutamente nada, comendo o mísero dinheiro acumulado do seu gordo cofre. Sim, a empresa, certamente (conheço de números e softwares e internet e o escambau), possui uma monumental quantia para se manter, sem qualquer movimentação, por, pelo menos, cinco anos. Mas o dono, numa demonstração piedosa (a imagem que faz de si), reúne-se, quase que diariamente, para se lamentar; para dizer que a empresa anda “mal das pernas”, “muito mal” (e reforça a tônica da palavra mal), e se despede pedindo empenho, “sangue nos olhos”. A vontade é de dizer: “Querido chefe, estou com sangue não só nos olhos, que estão para explodir com o volume de planilhas e de relatórios, mas, inclusive, nos dedos, nos punhos, no cérebro, nos pulmões arfados, com o sistema prestes a colapsar”.
Outro dia, numa dessas tentativas frustradas de desabafar com o Orfeu, um colega de trabalho, ouvi, como um tiro no peito, o canalha me falar: “Que é isso, Dalton, você é um brincalhão! Que merda é essa de cansaço? Tu trabalhava duro, eu lembro, das oito às seis, praticamente sem descanso, e agora tá de mimimi. Daqui a pouco o chefe vai te tirar” – e encadeou uma gargalhada desconexa, desesperada. “Sabe que ele tem sempre uma carta na manga!” – e desligou.
Caralho, eu não me emendo, fui ligar logo para quem? Passei três dias e três noites sem dormir direito. Já não durmo bem. O pulha pensa bem que sou obrigado a trabalhar vinte e quatro horas por dia, quando os supervisores e o próprio chefinho disparam e-mails e mensagens para todos os meus contatos, até de madrugada. Que caralho!
Orfeu é um bajulador. Pensa, o desgraçado, que a maneira dada a que se presta agora, na hora do aperreio; na hora que “a empresa mais precisa”, vai levá-lo ao tão sonhado cargo de supervisor – e acho que há uma sordidez aí em sonhar que serei seu subordinado.
Para a empresa, óbvio, somos apenas ferramentas para o seu intento espúrio; peças substituíveis. E digo mais: só não estamos enfurnados naquela sala horrorosa porque a empresa não aguenta mais receber multa. Com a quantidade de processos nas costas, aí sim, não suportaria mais um gigantesco por quebra das regras de isolamento. Só por isso.
Apesar do chefinho perguntar sobre a família – quem sabe uma sordidez arraigada dos crápulas –, mesmo sabendo que moro com um cachorro, num aparente estado de preocupação, não para de me mandar fake news, alardeando um possível retorno; ou seja, manda às duas da madrugada, para voltarmos ao batente às oito do mesmo dia. Piada. De mau gosto, claro.
Pelo visto, salvando a Deysi da recepção, que está com o marido internado, e que não tem a menor condição de me atender, a minha confidente e amiga, para a qual rezo todos os dias, terei de reinventar o próprio sentido de se reinventar, já que o termo não para de ser esculachado pelo meu chefe. Reinventar, portanto, servirá a uma nova versão de mim, quiçá mudar os rumos, prontamente, quando essa loucura passar.





domingo, 17 de maio de 2020

O medo que sinto desta chuva - poema de Leandro Rafael Perez













leandro rafael perez | escamandro





Do livro "lança além do real só", Editora Patuá.

















sábado, 16 de maio de 2020

Lory Versace



O olho inchado se destaca no rosto cheio de hematomas. O sangue fresco escorre por uma das narinas. Ela cambaleia. O corpo inteiro dor e calafrios. Mas não para. Não pode. Precisa pegar dois ônibus, chegar em casa onde as amigas vão cuidar dela sem perguntar nada. São todas parte de uma mesma história recorrente. 
Ela é Lory Versace. Uma travesti. Faz questão de ser chamada assim. De noite, de dia. Está acostumada às ameaças e aos deboches, a apanhar de machos enfurecidos. Resiste há anos, apesar da violência das porradas que não são mais frequentes porque ela aprendeu a se desviar dos momentos ruins. Porque ela virou criatura das sombras. Afasta-se entre uma transa e outra. Evita os postes de luz no calçadão. Não entra em brigas. Só não pode fugir é dos clientes. E alguns deles a espancam porque ela é o que é. Porque ela faz com que vejam a si mesmos na espiral de mentiras e de hipocrisia com que camuflam suas vidas. Nunca agrediu nenhum deles de volta. Não sabe ferir ninguém. 
Há pouco mais de uma hora, ela entrou num carro. Percebeu a armadilha assim que a porta se fechou. Depois de um tempo, o cheiro do ódio é como o cheiro do sangue, nauseante. Não reagiu. Deixou ele enfiar e tirar de dentro dela o caralho furioso. Permitiu os tapas, os socos, os palavrões. Em breve, tudo acabaria. Mas não. Aquele homem estava possuído por um ódio anormal. Imobilizada pela faca encostada no pescoço, não pôde impedir o pedaço de pau que ele enfiou dentro dela. Nem pôde estancar o sangue que esguichou do seu ânus rasgado pela violência. Quando ele a soltou, ficou aliviada. Mas logo ele a ergueu pelos cabelos, puxando-os como rédeas. E num golpe único com a faca afiada cortou-os bem rente da cabeça, ferindo o coro cabeludo dela. Então ele gozou, urrando. 
Ela cambaleia novamente, quase cai. Se recompõe e corre para pegar o ônibus que está chegando no ponto. Ninguém repara nela. No seu rosto roxo, no seu olho inchado, na roupa rasgada, na perna escorrida de sangue. Nem na faca ensanguentada que ela agarra com força na mão direita. 








sábado, 9 de maio de 2020

Trabalho de Casa



A culpa é toda do Paulo. Se não tivesse passado o semestre todo a provocar-me e a insultar-me eu nunca teria feito o Seguidor.
Sou na melhor das hipóteses um aluno medíocre, totalmente satisfeito por ir passando simplesmente nos exames. Não estou interessado numa carreira nos Corpos Governativos, por isso mesmo que acabe em último na minha turma, isso será suficientemente bom para os meus objetivos. É claro que o meu orgulho nunca permitiria que isso acontecesse, mas desde que as minhas notas me mantenham nos dois terços inferiores da turma, estou bem. Só os do terço superior entram automaticamente, os outros têm de se sujeitar a mais estudos e exames que só podem ser feitos voluntariamente.
Mas o Paulo não me deixava em paz. Mal reparou que a Ana estava interessada em mim, ou antes, que eu estava interessado nela, estava sempre a apontar as minhas falhas, a minha falta de ambição, a minha “estupidez”. Tornei-me motivo de gozo da turma e, graças aos amigalhaços do Paulo, o palhaço da escola. Nunca lhe ocorreu que eu pudesse ter outros planos e que obter boas notas poderia interferir com eles. Mal se entra no terço superior de uma turma ficamos condenados a tornarmo-nos parte do Governo.
É uma vida boa, segura, com bons salários, mas não é definitivamente para mim. Planeava estabelecer-me por conta própria, provavelmente nos extremos do Espaço conhecido, onde se fazem e perdem fortunas em minutos mas onde a vida nunca é aborrecida. Queria aventura, mudança, viver no fio da navalha. E para o conseguir tinha de garantir que quem mandava me via como um inútil. Ou antes, inútil de acordo com as regras vigentes e bom apenas para receber o subsídio básico que a nossa gloriosa sociedade atribui aos aleijados, aos doentes e aos burros. Ninguém passa fome, mas só os melhores são chamados a servir. É esse o seu lema.
Se pensam que era uma tarefa fácil, então devem ser realmente muito estúpidos. Com o meu QI podia facilmente arrasar em todos os testes e exames. Garantir o número apropriado de respostas erradas era extremamente difícil. Nunca chumbei, mas curiosamente, do ponto de vista dos professores, a minha média flutuava sempre mesmo abaixo da linha de separação do terço superior da turma. Não a ultrapassei uma única vez, nem mesmo quando 20 dos melhores alunos desceram vários lugares devido a uma partida que correu seriamente mal. E só vos digo que isso exigiu cálculos realmente complicados.
Tinha até planos para escrever um manual sobre o assunto mal me visse em segurança fora do sistema. Achei que seria um bestseller entre as pessoas a quem não agradava a vida “segura” que a nossa sociedade estava apostada em garantir a toda a gente, quer a quisessem ou não. Ia chamar-lhe “Como ter êxito na vida fazendo de lorpa”. Podia ser o início da minha fortuna.
Mas o Paulo estragou todos os meus planos e o futuro glorioso que eu podia ter tido. Não posso culpar a Ana, apesar de que nada teria acontecido se eu não me tivesse apaixonado por ela. Independentemente do papel que terá desempenhado, fê-lo inconscientemente. Nos meus momentos mais sérios acredito até que ela mal dava pela minha existência. Ou que tenha amado o Paulo. É que acabou por se casar com um tal José, um rapaz simples e não demasiado brilhante cuja existência ignorávamos. Era alguns anos mais velho que nós, um vizinho da sua terra natal por quem tinha uma paixoneta desde miúda. Gerem agora um vasto complexo agrícola e pelo que ouvi foram-lhes concedidos quatro filhos.
Mas permitam que retome a narrativa.
Tinha descoberto que estava loucamente apaixonado por Ana, a rapariga a quem tinha sido atribuído lugar à minha esquerda nas aulas. Nunca tínhamos conversado, mas isso não era um problema. Ela era mesmo muito bonita, com o tipo de beleza popularizado pela estrela Real-Vi mais popular na altura, com uma voz musical e movimentos elegantes e sinuosos. Raramente falava nas aulas e as suas notas eram consideravelmente inferiores às minhas. É claro que presumi imediatamente que estava a fazer o mesmo jogo que eu, a fingir-se de estúpida para poder viver a sua própria vida. Nunca me ocorreu que fosse simplesmente tapada, não com aquele aspeto de deusa superior.
Paulo sentava-se do outro lado dela e apercebeu-se logo do modo como eu a olhava. Não estava minimamente interessado, não era o género de beleza que apreciava, mas não podia permitir que um dos Estups ansiasse pela beldade da turma. A guerra foi declarada e as operações decorriam em duas frentes. Por um lado, perseguia-a ativamente, com resultados indiferentes, confesso, e por outro lado nunca perdia uma oportunidade de me meter no meu lugar. Ou antes, no lugar que achava que era o meu.
Fiz ouvidos moucos vezes sem conta, firmemente decidido a não deixar que nada interferisse com o meu objetivo final. Mas quando o Professor Silva anunciou o projeto especial que daria metade da nota final e o Paulo começou a comportar-se como se já tivesse ganho, estalou algo dentro de mim. Decidi que iria arrancar-lhe o prémio, custasse o que custasse. Se com isso conseguisse atrair a atenção de Ana, tanto melhor. Mas bater Paulo e os seus amigalhaços era tudo o que eu desejava. Por uma vez iria mostrar quem era realmente e ser o melhor de todos.
Tínhamos três meses para concluir o projeto e passei mais de um mês a pesquisar os extensos arquivos da Universidade. Procurava algo especial, uma ideia que sobressaísse de repente com um fulgor súbito de brilhantismo. Descartei ficheiros mais recentes, dando preferência aos mais antigos e quase esquecidos que toda a gente ignorava. Se quisesse encontrar algo diferente e invulgar teria de sair da rota batida.
O tempo já escasseava e eu começava a entrar em desespero quando descobri um vislumbre de uma ideia. Veio, acreditem ou não, de uma história antiga, quase um conto de fadas, da época lendária anterior à Era Espacial, uma época chamada “Época da Guerra Fria” ou, às vezes, “Época da Paranoia Nuclear”. A linguagem era difícil, com muitas palavras desconhecidas, e o conceito de uma sociedade sem viagens espaciais e receosa da energia nuclear muito difícil de entender. Mas deu-me a ideia de que precisava desesperadamente.
Passei as duas semanas seguintes a pesquisar a tecnologia de que precisaria para implementar a engenhoca que tinha em mente e a procurar, ou antes, a roubar as peças caras de que precisava. Era nanotecnologia no seu melhor e a maior parte dos componentes vieram do Departamento de Tecnologia Avançada. Não que soubessem que me estavam a subsidiar. Comparados com os que estudara minuciosamente tendo em vista a minha futura carreira numa parte incerta do universo, os seus dispositivos de segurança eram canja.
Construir o Seguidor foi a parte mais fácil. Fui sempre habilidoso com ferramentas e mesmo em miúdo, lá na terra, conseguira desempenhos das nossas ferramentas robóticas bem acima dos obtidos até pelos trabalhadores mais hábeis. Fora esse o meu passaporte para esta Universidade, a melhor em todos os planetas habitáveis. Não estava interessado no que boas notas me poderiam dar, mas queria a melhor educação possível. Ser-me-ia útil mais tarde.
Ficou finalmente pronto dez dias antes do final do prazo. Era realmente bastante simples, uma pequena esfera que cabia na palma da mão, totalmente lisa por fora mas incrivelmente complexa por dentro. Era a minha implementação do “espião” da história que tinha lido, mas muito mais eficiente e difícil de detetar do que um desastrado ser humano ou um satélite. Podíamos inculcar-lhe uma determinada pessoa e segui-la-ia então para todo o lado, gravando, em imagens e áudio, tudo o que essa pessoa fazia, via, vivia ou dizia. Era capaz de voar, rastejar ou esconder-se e graças ao seu tamanho e revestimento camaleónico era praticamente indetetável.
As coisas ainda podiam ter acabado bem se eu tivesse sabido parar a tempo. A tarefa pedia apenas um projeto escrito, bastar-me-ia pois apresentar a ideia básica e alguns dos conceitos envolvidos para ter uma boa nota. Bateria certamente Paulo e todos os outros e talvez impressionasse até Ana. Sem a engenhoca em si, a coisa pareceria um mero acaso feliz, uma proeza única na vida de um tipo bastante normal e não muito brilhante. Não poria em perigo os meus planos para o futuro.
Mas não consegui resistir à tentação de testar a minha maquineta em Paulo. Lancei-a, pois, e durante os dias seguintes diverti-me imensamente com as suas palhaçadas e, sobretudo, por saber que ele não fazia a menor ideia de que todos os seus movimentos estavam a ser seguidos. Dei umas boas gargalhadas à custa dos seus hábitos pessoais, o modo como Ana e algumas outras raparigas lhe davam para trás quando ele pensava que ninguém o via e as muitas horas que passava a estudar até as matérias mais simples. Afinal parecia não ser tão inteligente como afirmava constantemente e conseguia as suas boas notas à custa de muito esforço.
O seu projeto era bom, mas não brilhante. Eu tê-lo-ia batido facilmente com uma mera exposição escrita. Mas na véspera do dia em que tínhamos de entregar o nosso trabalho de casa vi-o mostrar secretamente a Ana a engenhoca que tinha construído. Ficou tão impressionada que até aceitou sentar-se à mesa dele na cerimónia dos prémios do fim do ano. E isso selou a minha perdição.
Queria que ela lamentasse não ir comigo, apesar de nunca termos trocado mais de meia dúzia de acenos. Por isso no dia seguinte entreguei ao Professor a minha preciosa esfera, juntamente com a teoria e cálculos envolvidos na sua construção.
Mesmo então senti algumas dúvidas por tê-lo feito. Mas à medida que as semanas foram passando aparentemente sem consequências comecei a sentir-me mais descansado. Tive uma boa nota, claro, a melhor da turma, mas com muito trabalho árduo consegui novamente baixar a minha média até ao nível desejável. Formei-me mesmo abaixo do terço superior, o suficiente para ficar por conta própria em termos de escolher o meu futuro.
Pelo menos, foi o que pensei...
Estava eu a embalar alegremente os meus haveres para deixar para sempre este planeta demasiado civilizado quando eles apareceram. Não sei que tipo de identificação me mostraram ou até se a mostraram, não era necessária. Via-se à légua que pertenciam ao Corpo Secreto. Mal os vi, soube que podia dizer adeus a todos os meus projetos de aventura e fortuna. Apesar das minhas notas, tinha sido escolhido para ser um membro da elite, para aderir “voluntariamente” ao grupo mais de topo dos inúmeros Corpos Governativos da nossa sociedade.
Paulo teria ficado de rastos se soubesse, era para isto que tinha trabalhado tão arduamente e sem êxito. Esta gente seguia regras diferentes. Ninguém sabia quem escolhiam ou as razões dessa escolha. Uma coisa era certa, não bastava ter as melhores notas.
E aqui estou eu, dois anos depois, um membro muito valioso, mas secreto, da Sociedade a que tinha jurado escapar. Durante algum tempo continuei a fazer de parvo na esperança de ser expulso. Mas não resultou. Se nos tornamos membros, não há como sair. É para a vida.
Optei pois pelo caminho oposto, trabalhar duramente para ir subindo na hierarquia o mais rapidamente possível. Já fui promovido duas vezes, um recorde, e não me espantaria sê-lo novamente antes do final do ano. A este ritmo, em breve dirigirei o Departamento ou, pelo menos, uma parte dele. É esse o meu objetivo. Talvez no topo haja alguma liberdade, alguma sensação de descoberta e aventura. Não pode ser tudo tão chato e seguro como é agora. E uma coisa é certa, pelo menos a vida será então muito mais confortável e luxuosa.
A parte pior é saber que estou preso. Inicialmente tinha planos de fuga, de me escapulir quando menos esperassem. Mas a ideia da minha pequena esfera pôs fim a isso. Como é que sei que não a estão a usar em mim? Podia, é claro, conceber um detetor. Sabendo o que sei, seria até bastante fácil. Mas se me estão a espiar por meio da esfera, saberiam que o estava a fazer e poderiam fazer-me parar a qualquer altura ficando com o detetor para os seus próprios fins. E mesmo que não me estejam a espiar constantemente, quem me diz que não lançarão o Detetor num momento crucial?
Não, a minha única esperança é chegar ao topo deste grupo. Com os meus miolos e motivação, não deverá ser difícil nem levar demasiado tempo. Só espero que isso não me leve a outro grupo, uma espécie de círculo interior desconhecido de todos nós. E a outro, depois desse, com aquelas bonecas de encaixar que vi um museu em miúdo. Seria horrível se acabasse a gerir todo este universo!
E tudo porque quis impressionar uma miúda com o brilhantismo do meu trabalho de casa!


Luísa Lopes





quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Vida Que Eu Quero


Cabelo comprido, desgrenhado e barba de vários dias, com passos inseguros, o homem arrastou-se pelo meio da esplanada. Aparentava uns sessenta anos e envergava um blusão bege sovado e umas calças de ganga, que já tinham conhecido melhores dias, terminando numas sapatilhas de pano, sujas e rasgadas. Para dar um pouco de dignidade, trazia debaixo do braço um jornal, dobrado, como se o fosse ler.
O empregado do café reconheceu-o e deixou-o passar pela sua frente, após o qual exibiu uma careta mista de tristeza e desprezo, acenando negativamente com a cabeça.
O vagabundo dirigiu-se ao funcionário que se encontrava na caixa, atrás do balcão, que exibiu uma expressão contristada, assim que se apercebeu da sua presença.
— Bom dia senhor António. — Entaramelou o recém-chegado, em ar de gozo, demonstrando uma clara embriaguez. — Ainda tens os jornais de ontem?
— Boa tarde, senhor Fernando. — Corrigiu-o o outro, que aparentava uns trinta anos, baixo, de cabelo curto. No rosto simpático, os olhos pequenos, fitavam o interlocutor com preocupação, respondendo ao cumprimento com a formalidade, que não era obviamente usual.
— Ou isso. — O outro não se preocupou, rematando rapidamente. — Para mim, bom dia ou boa tarde, o que interessa é que seja bom e bom, é poder ter qualquer coisita com que forrar o estômago.
— Não comeste nada ainda? São quase cinco da tarde… — Novamente a expressão de preocupação. — Mas para beber havia…
— Oras! Era o restito de uma garrafosa que me deram ontem, que ajudei a descarregar um camião. — Riu-se o Fernando, levando a mão às costas. — Hoje estou aqui que não posso das cruzes.
— Não te pagaram? — António surpreendeu-se.
— Pagaram pois! — O outro escandalizou-se. — Não te disse que me deram uma garrafa de tinto? Isso e duas latas de atum, a larica é que era muita e dei cabo de tudo à noite.
— Valha-te Deus! — Havia lágrimas nos olhos do mais jovem.
— Que queres que faça? — Justificou-se o mais velho. — O pessoal agora põe o papel todo no papelão, ninguém dá nada para recolher, tenho de correr quilómetros à cata. O sovina do farrapeiro anda a chular-me e cada vez paga menos, além de que acho que a balança está aldrabada.
— Vem. Anda a comer alguma coisa. — António abriu o balcão, para que o outro entrasse para a cozinha.
Enquanto o vagabundo se sentava à mesa, onde normalmente se preparavam as refeições, o outro deu instruções à cozinheira para que preparasse um prego em prato “bem abonado” e trouxesse uma bebida qualquer sem álcool. Depois sentou-se frente ao convidado, ignorando os resmungos da mulher.
 — Mas arranjas os jornais ou não? — Insistiu Fernando, apesar de estar já pronto para comer. — É que se não, tenho de ir à minha vida, procurar noutro lado.
— Sim, tenho ali muitos jornais, acalma-te. — Sossegou-o o mais novo. — Então agora andas ao papel, é?
— Tem de ser! Um gajo tem quem de ganhar a vida, não é? — Afirmou Fernando, convicto.
— É assim que ganhas a vida? Dá para comer?
— Assim, assim. — O velho encolheu os ombros. — É mais para o tabaquito e uns copos, aqui e ali. Comer, normalmente é à noite, quando vem o pessoal da ajuda de rua; uma sopita quente, uma carnita e uns iogurtes. Dá para o gasto. Dantes, andava a pedir, ou a arrumar carros, mas andava sempre com chatices, havia gajos que assaltavam ou riscavam os carros que eu devia estar a guardar e se eu chiava, ainda lerpava por cima. O lixo é mais seguro, embora não possas mostrar que tens guito, nem trazer muito papel junto, ou vem por aí algum cabrão e leva-to.
A cozinheira pousou o prato fumegante na frente do homem, que atacou o manjar com unhas e dentes, enquanto ela se deixou ficar em pé, junto dos dois.
— Ontem, como me emborrachei, — disse com a boca cheia, — esqueci-me da sopa e prontos, lerpei.
— E onde dormes? — Intrometeu-se a cozinheira.
— Por aí! — A refeição desaparecia sofregamente, mas ele não deixava de responder ao interrogatório. — Antes dormia numa casa abandonada, mas deitaram-na abaixo. Fico normalmente na antiga mercearia do Silveira, que está vazia há muitos anos.
— Porque não fazes o que eu te disse já tantas vezes? — Os olhos de António reluziam e sentiam-se os dentes cerrados com força por trás dos lábios finos.
— Nããã! — Recusou o outro. — Que vou fazer agora, da maneira que estou? Já viste o meu aspeto?
— O aspeto pode ser composto.
— Tenho vergonha, não percebes? — Com o prato vazio, o vagabundo impacientava-se. — Que vou fazer agora para casa, para uma família a que não pertenço? Velho, desdentado… derrotado! Vai buscar os meus jornais, que tenho mais o que fazer!
Com as lágrimas nos olhos, António afastou-se, a saber dos jornais.
— A minha vida é esta! Estavam cheios de mim no trabalho, mandaram-me embora, velho de mais para me empregar, novo demais para a reforma, que querias que fizesse? — Reafirmou Fernando, perante a expressão de desaprovação da cozinheira. — Ir para casa viver de subsídios, ou ouvir piadas de que sem o filho não sou nada? Há quatro anos que vivo nas ruas e safo-me bem! Quero lá eu saber de casas cheias de regras e mulheres mandonas! Sempre fui senhor de mim e ganhei o meu sustento! Em mim, mando eu!
— Pelo menos enquanto te derem de comer e não precisares que cuidem de ti! — Exclamou com desprezo a mulher, empurrando-lhe um saco plástico, com duas sandes, para debaixo do braço.
Sem recusar a oferta, o velho saiu da cozinha para a entrada do café, onde recebeu o embrulho com jornais amarrotados.
— Obrigado pela comida! — Atirou Fernando, afastando-se a cambalear.
A cozinheira materializou-se ao lado de António e abraçou-o com carinho, ao ver as grossas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Ele, estático, com a visão do sem-abrigo a afastar-se, moveu os lábios, num sussurro: “Até à próxima, pai.”





domingo, 26 de abril de 2020

Pra que a morte não caiba



Pra que a morte não caiba

(Maria Amélia Elói)

Cabe o fim dos tempos
a eternidade
o embargo
o estorvo
nesta quaren-quasequatrocen-tena.

Estranho.
Triste.
Não há recém-nascido no berço.
O resguardo é outro.

O terço, nas mãos que o contam,
pede só o retardo
da morte,
seu egresso
e fracasso.

Está tudo suspenso.

Uma preguiça
cansada de durar tanto.
Um medo de criança
ante a vida postergada.

Não pode cão na praça
beijo, namoro.
Não pode menino solto
brincadeira no pátio da escola
nem bola de sorvete na sorveteria da esquina.
Não pode circo, cinema
vento e árvore na calçada
trânsito 
abraço e bolo de aniversário.
Não pode nem hóstia, nem hóstia.

Todos à parte, vigiados, segregados, devidamente higienizados, limpos.
Sem refresco.
Desejos sucintos.

Só pode o necessário.

E eu entendo, mas não é fácil.
Obedeço. Só a vida é necessária.

Resta o fôlego da fé
resistência.
Toda a dor da abstinência.
Pra que a morte não caiba.


Imagem: André Cerino, "A pequena pianista", da série Imaginário, 150 x 150 cm, acrílico sobre tela, 2019.