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domingo, 17 de novembro de 2019

Puerpério - Poema de Matheus Bibiano Branco






Puerpério





O rádio de pilha tocava a sépia,
Minha mãe mineira e crespa,
Como a cinza do cigarro,
A tomar uma cerveja de seiscentos,
De duas que comprei no boteco
Quando ainda vendiam às crianças.
As roupas no varal desprezavam o cheiro do mato
Enquanto o cão mijava na ciência de espera
Feita pelo gado com massa e argila nas bocas.


Pensava de morrer, pensava primeiro
De não deixar a mãe baleada de espinhos
- por isso a cerveja, a vela pro santo,
O limão-cravo, os cacos de vidro no muro.
Minha mãe com olhos de luneta pro quintal:
Sabia dela e do copo americano com engano dentro.
Mas até hoje mal compreendi, também não quero
Saber o porquê daquele sol sempre enforcado.



Do livro Entre o beiral e o abismo, Editora Patuá








sábado, 16 de novembro de 2019

Trocando de pele (despudoradamente inspirado em A Metamorfose, de Franz Kafka)

Quando certa manhã Berta despertou, depois de um sonho intranquilo, deu por si embaixo da cama. A princípio, teve dúvida se poderia iniciar dessa maneira a descrição dos acontecimentos, com uma frase despudoradamente roubada a um grande autor, mas concedeu-se a licença e o uso da ideia. Sem nenhum remorso pela usurpação. 
Lembrava-se do corpo se revirando entre os lençóis pintados de borboletas, na véspera. Lembrava-se das dores. Não daquela habitual, de quase todas as noites, mas de uma outra, diferente, que sentiu em cada membro, em cada órgão que se remexia, se esticava, transformando-a numa coisa alongada e perigosa. Em uma coisa fria e silenciosa que rastejou entre os sapatos e o tapete até se enrodilhar sob a cama e dormir. 
Achou graça na nova língua bipartida, que amanheceu testando os cheiros no ar. Podia sentir o veneno dentro de si. A toxina diluída em sua saliva, pronta para ser ejetada em picadas mortais. Quis se ver. Arrastou-se em direção à cômoda sobre a qual um espelho grande estava pendurado. Gostou do movimento sinuoso dos quadris lambendo o piso frio de porcelanato do quarto. Subiu com facilidade pela lateral do móvel de madeira. Leve. Corpo e propósito concentrados nas coisas que queria fazer, que deveria fazer, que faria. No cristal, a imagem borrada trouxe frustração. Esquecera-se da miopia das cobras. Até nisso se pareciam, ela e sua forma transmutada. Lamentou que os óculos, acomodados desde a véspera na mesinha de cabeceira, não lhe servissem mais agora, nessa reinventada concepção de si mesma. Do alto da cômoda, lançou para fora, mais uma vez, a língua dupla, experimentando os odores do próprio quarto.
Ouviu passos do outro lado da porta e imaginou alguém entrando e se deparando com ela. A mãe, preocupada com o fato de ela não ter ido para a escola. A irmã, para pegar emprestada alguma peça de roupa. A avó, para oferecer um pedaço de bolo, uma laranja, um suco fresco, um carinho. Ele. O padrasto. Procurando por ela sob qualquer pretexto idiota. 
Não. Ainda não era hora. 
Escondida pelas dobras da cortina, ouviu a mãe entrar e chamar por ela. Berta? Berta? Berta, onde você está? Sentiu-se tentada a responder. Mas a mãe não a compreenderia. E ela não podia correr o risco de ser ferida ou morta. Ou enxotada de casa.
Novamente, passos. A avó entrou sem bater, carregando uma bandeja. Estranhamente, os pães de queijo e as frutas não a apeteceram. A fome que ela tinha agora reclamava outro alimento. Alguns ratos no quintal. O canário do irmão, acuado na gaiola. Mais tarde, antes de matar o primeiro bicho, iria achar que não conseguiria. Mas, do bote até engolir cada animal, sentiu apenas fome, prazer, saciedade. Com os roedores, tudo foi mais rápido. A caça, a morte e a refeição executadas somente por instinto. Com o canário, uma hesitação. Que pôs em cheque as duas Bertas. Uma que pensava sobre a perda que seria infligida ao irmão, tão apegado à ave; outra que só seguia cumprindo o seu papel na cadeia alimentar. 
O canário morreu, basta dizer.
Como era bom ser Berta assim. Esgueirando-se pelas quinas das paredes, pela umidade das calhas. Escondendo-se sob os móveis, entre as plantas, no fundo dos armários. Roçando a pele fria e dura nos pés da geladeira e do fogão, nos pneus dos carros. Arrastando-se pela grama, pelos cascos das árvores enfileiradas em quadrados de terra desenhados na calçada da frente. Uma casa inteira para ela, quintal e arredores. Como era bom ser Berta e dormir sob a cama, enrodilhada em seu próprio corpo. Esperando. Alheia ao rebuliço das pessoas procurando por ela. Ao choro da mãe, às rezas da avó, ao ar abobalhado do irmão que não sabia o que pensar. Ao padrasto, o único calado, quieto. Com medo de que ela tivesse ido embora para se afastar dele.
Os passos dele, pressentiu-os — antes de ouvi-los. A porta se abriu sem qualquer ruído. Alerta, a língua farejou o ar, confirmando o cheiro do padrasto. 
Onde está você, minha bonequinha? Onde? Volta pra mim, meu docinho! 
Esperou que ele se sentasse na cama. Arquejante. Excitado pelo simples toque no lençol pintado de borboletas. Esperou que ele começasse a se masturbar, a mão suada se agitando  nervosa em volta daquele pênis duro que a penetrava com pressa, que a machucava com pressa. Então, deslizou suavemente até ele e subiu rapidamente por uma das pernas da sua calça, pegando-o de surpresa. Enquanto ele se debatia, tentando arrancá-la de dentro da roupa, os seus sensores de réptil a guiaram diretamente até os raios infravermelhos que vinham daquela fonte pervertida de calor. Sua língua bipartida saboreou antecipadamente algumas gotas de veneno. E, enfim, chegou ao alvo.
A picada só durou um instante. O grito, não. O grito durou muito mais. 






sábado, 9 de novembro de 2019

Uma Fatia de Vida


Era o momento crucial. Um movimento errado e perderia as muitas horas de preparação e, pior ainda, a única oportunidade de ser um Agente Temporal. Na Academia não havia segundas oportunidades, um chumbo, um falhanço e era o fim. Como os instrutores gostavam de dizer, só temos uma vida e esta é curta, há que acertar à primeira. Irónico, tendo em conta que muita da atividade futura dos que se formassem envolveria precisamente a correção de erros no passado!
Respirando fundo, olhou rapidamente à sua volta numa tentativa de acalmar os nervos em franja. Os poucos colegas finalistas estavam todos a trabalhar duramente, tentando ultrapassar a última barreira no longo e difícil percurso para o tão cobiçado crachá da Polícia Cósmica.
Não pôde impedir-se de reparar que muitos pareciam estar já na fase final do teste, pelo menos a avaliar pelas luzes que iam piscando nas máquinas de solidificação temporal colocadas nos vários postos de exame.
Isso provocou-lhe uma nova onda de pânico. E se fosse o único a falhar? Não que fosse vergonha não conseguir chegar ao fim do curso, só cerca de um por cento dos candidatos iniciais conseguia a tão almejada graduação, mas que soubesse nunca ninguém falhara tão perto desse objetivo. E por muito que gostasse de ser um pioneiro, esta era uma estreia que não desejava.
Calma, tinha de estar completamente calmo. Fechando os olhos, repetiu os exercícios respiratórios e mentais recomendados que o acompanhavam desde o primeiro ano, ou antes, desde a primeira semana de aulas, pondo de parte qualquer ideia de falhanço ou inadequação. Como lhe tinham dito vezes sem conta, “acreditar é concretizar”. Para o bem ou para o mal. E fora sempre verdade, muito antes até de ter ouvido a expressão e posto os pés na mais prestigiada Academia do Universo.
Sim, tendo nascido numa família marginal, para não usar o proibido termo pejorativo “criminosa”, só à custa de acreditar em si e de manter os olhos firmemente postos no objetivo formado quando assistira à primeira aula sobre profissões com uns tenros seis anos conseguira o acesso ao prémio ambicionado por tantos mas que pouquíssimos conseguiam, a entrada na Academia da Polícia Cósmica, ou como eram comummente chamada, a Escola dos Polícias do Tempo.
Sentindo-se melhor, olhou novamente para dentro da máquina. A cena estava quase perfeita, quase como a delineara no resumo do projeto entregue para aprovação antes desta sessão prática final e decisiva. As longas horas passadas a pesquisar nos Arquivos tinham compensado.
Tinha sido muito difícil, o estudo de tantos filmes antigos e quase ilegíveis, mas se fosse bem-sucedido teria pontos extras pela originalidade. É que ao contrário dos colegas não se limitara à parte dos arquivos que tinham sido preparados para pesquisa rápida. Não, gastara muito do seu pouquíssimo tempo livre a pesquisar manualmente, cruzando dados, investigando, descartando hipóteses que inicialmente pareciam promissoras, cansando vista e dedos até encontrar a cena perfeita.
Sabia das suas pesquisas prévias que em tempos recentes ninguém usara este planeta ou este período. Provavelmente porque com tanta população e tanta atividade frenética constante era difícil conseguir isolar um incidente com a certeza absoluta de que não afetaria esse presente ou, pior ainda, o futuro. Mas ele conseguira-o! Desde que, claro, a última parte corresse bem.
Espreitando pelas lentes, ficou tenso, com o dedo a rasar o painel do obturador, à espera do momento certo. Se a pesquisa fora difícil, focar a máquina também não fora nada fácil. Havia uma boa razão para os finalistas escolherem épocas mais próximas e planetas pouco povoados, as máquinas da Academia, mesmo as dos finalistas, não eram exatamente topo de gama. Eram perfeitas para uns duzentos a trezentos anos, mas para além disso só muito dificilmente se conseguia uma imagem com a nitidez necessária para o exigido no exame. E ele recuara quase três mil anos na sua tentativa de se distinguir dos colegas e ser o primeiro da turma.
Para o conseguir tinha entrado muitas vezes à socapa no laboratório, altas horas da noite, cortando nas poucas horas de sono para se habituar ao complicado sistema de focagem da máquina, recuando cada vez mais até ficar relativamente perto da época pretendida, uns meros trezentos anos depois. O tempo, infelizmente, não dera para mais, até porque as máquinas não eram rigorosamente iguais e tinha decidido que era mais importante adaptar-se às suas idiossincrasias do que recuar mais no tempo. Mesmo assim tivera algum azar, a que lhe calhara no exame era uma das que menos conhecia.
Os personagens principais já estavam na zona central de focagem, mesmo assim hesitou em premir o botão. Não podia ter a certeza, claro, mas tinha a sensação de que se esperasse mais uns segundos as coisas seriam ainda melhores. E os anos antes e durante a Academia tinham-lhe ensinado a importância de seguir os seus instintos, ideia corroborada pelo psicólogo que o avaliara como candidato à Academia e que lhe dissera que o seu instinto para o momento e ação certos era um dos seus pontos fortes.
Pronto, era agora o momento. A sua mão direita moveu-se rapidamente sobre os botões do painel, ajustando, premindo, enquanto tentava desesperadamente manter o aparelho de focagem o mais estável possível com a mão esquerda, tudo isso no meio de um verdadeiro espetáculo de fumo e luzes que enchia a máquina durante uma recolha, impedindo de ver o que se estava a recolher.
Durante uns instantes ansiosos, pareceu-lhe que iria falhar. Mas não, as luzes estavam a começar a ficar verdes, tinha pois uma amostra. A questão era agora, que amostra? A que idealizara e submetera à comissão de exames ou uma outra que lhe garantiria um chumbo, por muito boa que fosse? Sim, não bastava ter uma boa cena, a essência de um Agente Temporal era chegar cirurgicamente ao instante e local indicados, sem quaisquer desvios.
Durante a aparentemente longa espera pela solidificação da amostra, as dúvidas voltaram a assaltá-lo. E se esperara demasiado? E se o momento perfeito já tivesse passado? E se os espécimes tivessem entretanto saído da zona de focagem? Era lendária a história do agente novato que ao tentar apreender um fugitivo que se refugiara no passado falhara o alvo e retirara um elo chave, um daqueles personagens fundamentais de uma época, provocando todo o tipo de desvios na linha temporal que tinham exigido anos e imensos recursos para serem corrigidos.
O tempo foi passando, quase tão ruidoso como o seu coração acelerado. Perder ou ganhar, êxito ou falhanço total, tudo seria decidido nos próximos minutos.
O último indicador ficou finalmente verde, indicando que a amostra estava pronta para ser visualizada e retirada. Retendo o fôlego, ligou o ecrã minúsculo e espreitou quase a medo através da lupa. Estava perfeita, absolutamente perfeita.
Tinha a certeza de passar e com a pontuação máxima ou muito perto dela. A sua amostra tinha tudo a seu favor: origem obscura, época movimentada, número máximo de personagens principais e timing perfeito.
Com um sorriso de autossatisfação, olhou de novo para a sua fatia de vida: uma viela escura, um homem paralisado no momento da queda, com sangue na camisa, a mulher a seu lado de boca aberta num grito silencioso, outro homem com uma arma na mão apontada à mulher, uma bala parada no ar e um cão na ponta de uma trela a tentar em vão não ser esmagado pelo corpo em queda.
E na Chicago de 1973, um casal que passeava o cão desapareceu sem deixar traço, confundindo a polícia, as respetivas famílias e os amigos. Mas sem descendentes ou empregos de monta, o caso caiu rapidamente no esquecimento sem provocar ondas, deixando apenas uma pequena notícia nos jornais locais, jornais esses que estavam agora nos vastíssimos Arquivos da Academia.
O mesmo aconteceu a um ladrãozeco local conhecido por pequenos assaltos à mão armada, mas o seu desaparecimento passou totalmente despercebido: era um lobo solitário e ninguém sentiu a sua falta. Como a sua zona foi ocupada por um outro “marginal”, a polícia limitou-se a registar no seu ficheiro que mudara provavelmente de cidade por as coisas estarem a ficar demasiado quentes ali, ficheiro esse também nos Arquivos com a data do seu último assalto, a manhã do dia escolhido pelo candidato.

Quanto à fatia de vida, foi considerada suficientemente boa para ser colocada no museu da Academia como um exemplo perfeito daquela época naquele obscuro planeta, garantindo ao seu autor a concretização do seu sonho de infância, a entrada imediata no corpo de elite da Polícia Cósmica, os Agentes Temporais.