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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Cidade dos Anjos


A longa travessia do deserto aproxima-se do fim. Em breve atingiremos o mosteiro e a parte mais fácil da viagem. Todos estão contentes, prevendo uns dias de descanso na cidade, com os seus luxos e distracções. Para não destoar finjo sentir a mesma sensação de alívio e de prazer. Mas os meus sentimentos são totalmente opostos. Ainda não foi desta que reencontrei a Cidade dos Anjos.
Já se avista uma mancha de verdura no horizonte. Se seguisse os meus desejos voltaria para trás, de regresso ao deserto, para ali morrer ou encontrar o objecto dos meus anseios. Mas esta caravana depende de mim. Se morresse estes homens ficariam entregues a si próprios e às suas inimizades pessoais. As mercadorias seriam roubadas e muitos dos que nos aguardam com ansiedade perderiam a fortuna e com ela a razão de viver. Nunca a responsabilidade me foi tão pesada. Só me consola a ideia de que mesmo que andasse pelo deserto anos a fio o mais certo é não voltar a ser admitido na cidade de sonho.
Há quem diga que a juventude é desperdiçada nos jovens. E têm razão. Aos 20 anos atingi a felicidade máxima mas fui incapaz de o compreender. Em vez de aceitar o que me era oferecido imerecidamente recusei-o sem hesitações, convencido de que o voltaria a encontrar após uma longa vida repleta do que o mundo chama sucesso. Hoje, rico, respeitado e temido, tento em vão recuperar a única coisa que me faria feliz. Por isso continuo a dirigir estas caravanas ao longo de viagens repletas de privações e de perigos quando podia gozar a vida na bela mansão que construí e que em tempos me parecia ser o máximo a que podia aspirar. E continuarei a fazê-lo enquanto me restar um sopro de vida.
Sou originário de um país distante daquele em que vivo. Pobre e miserável, mal me lembro dos meus pais. Fui criado nas ruas e ali desenvolvi técnicas de sobrevivência e de astúcia que mais tarde me serviram para singrar nos negócios. Devia ter uns 19 anos quando a Grande Caravana parou na vilória onde vivia. Era uma visita inesperada, pois éramos demasiado pequenos e fora do caminho para termos contacto com os grandes comerciantes. Um ou outro vendedor ambulante, quanto muito uma pequenina caravana com dificuldades económicas, eram o máximo a que podíamos aspirar. Mas a doença atacara alguns dos carregadores e fora tomada a decisão de parar por alguns dias a fim de lhes dar a oportunidade de se restabelecerem.
O acampamento tornou-se ponto de peregrinação para todos os vadios da cidade. Mas como a segurança era apertada em breve desistiram. Só eu permaneci por ali, fascinado por aquele amontoado de pessoas que falavam várias línguas, na maior parte desconhecidas, que se vestiam de maneiras tão diversas e estranhas e que pareciam, aos olhos de um mendigo de província, ricos para além de todos os sonhos. Aos poucos fiz-me amigo dos guardas, a quem prestava todo o tipo de serviços e que tratava sempre com uma subserviência que não podia deixar de lhes ser agradável. Nunca me cansava de ouvir as histórias que contavam, embora mesmo então suspeitasse que muitos dos detalhes mais exóticos eram acrescentados simplesmente para gozarem com a minha ignorância e credulidade. Mas eram boas histórias, cheias de magia e aventura, e a minha alma sedenta absorvia-as com avidez.
Apesar dos cuidados prestados alguns dos carregadores morreram. Após o funeral o líder da caravana anunciou que tentaria substituí-los, embora sem grande esperança. Conhecia de sobejo o nosso tipo de povoação e bem sabia que embora falássemos muito estávamos agarrados ao nosso quotidiano e pouca vontade tínhamos de arrostar com o desconhecido. De facto fui o único que me apresentei. O meu aspecto e o meu passado estavam contra mim mas os guardas conheciam-me e falaram a meu favor. Fui, pois, admitido à experiência, na condição implícita de, caso não satisfizesse, ser substituído na primeira oportunidade. Agarrei pois nos poucos trapos que possuía e abandonei para sempre a terra que me vira nascer, decidido a singrar na vida, fosse com aquela caravana ou por qualquer outro modo. Nunca senti saudades e tenho passado a pequena distância da que se pode considerar como a “minha terra” sem sentir a tentação de a voltar a ver.
Decidido a conquistar um lugar permanente não me poupei a esforços, executando pronta e alegremente as tarefas mais duras e mais sujas, tornando-me prestável aos meus superiores directos e lutando o mais possível por me tornar simpático a todos. Aos poucos adquiri a reputação de ser um trabalhador honesto, esforçado e com quem se podia contar. Ao atingirmos a cidade seguinte novos carregadores foram contratados mas o meu lugar estava assegurado. Tornara-me um membro daquela respeitada companhia e com as poucas moedas que recebi a troco do meu trabalho apressei-me a comprar roupas dignas da minha actual posição.
Ocupado como estava a garantir o meu lugar não me preocupara em saber para onde íamos nem o que transportávamos. Agora, que me sentia mais seguro, apercebi-me pela primeira vez da carga preciosa que levávamos para terras distantes: vasilhas de metais preciosos, especiarias, perfumes, vidros e, até, alguns animais exóticos cuidadosamente acomodados em jaulas protegidas do calor e do mau tempo. Tinha tido a sorte de me ligar a uma das grandes caravanas que levavam sedas e outros materiais preciosos para Ocidente trocando-as por preciosidades desconhecidas ou raras no seu país de origem. As viagens eram longas e muito perigosas mas em caso de sucesso os lucros eram fabulosos.
Sentia-me, já, perfeitamente à vontade no meu novo ambiente quando detectei um certo nervosismo nos meus companheiros. Aproximava-se o pior momento de uma odisseia recheada de perigos: a travessia do inóspito deserto. Pelo que então ouvi contar parecia ser um local perigosíssimo, um dos piores conhecidos até então. Embora o nosso trajecto nos levasse apenas através de um dos extremos as condições eram horrorosas. A zona central era considerada intransitável e não havia memória de alguém a ter atravessado e sobrevivido para contar a história. Antes de iniciarmos a travessia parámos para nos abastecermos de água até ao limite das nossas capacidades, para repousar um pouco e para melhorar as condições das jaulas dos preciosos animais que transportávamos. Só viajaríamos de manhã cedo e ao fim do dia, descansando durante a parte mais quente do dia. Mesmo assim todos receavam a provação que se aproximava.
E tinham razões para isso. Nunca esquecerei essa minha primeira travessia, e isto para além das razões que em breve descreverei. Embora esperasse o pior a minha imaginação ficou bem aquém da realidade. A minha vilória ficava numa zona agreste mas fresca de Verão, embora gélida de Inverno. Não havia muita verdura mas também não havia calor. Nada me preparara para as condições que agora enfrentava. O calor era sufocante, e isto logo de madrugada. As noites, em contrapartida, eram do mais gélido que até então experimentara. Caminhava como que num sonho, ou melhor, num pesadelo, limitando-me a seguir numa semi-inconsciência os vultos que via vagamente à minha frente. Quando estes paravam, parava também, quando arrancavam fazia o mesmo, automaticamente. As areias escaldavam mesmo através das solas das minhas sandálias novas, despertando-me do meu pesadelo quando permanecia quieto durante demasiado tempo.
Não sei quantos dias passei deste modo, sem saber se estava acordado ou se dormia. Pelo que hoje sei, foram semanas, mas pareceram-me longos anos sempre iguais e repletos de tortura. Mal me dei conta dos comentários dos meus companheiros, que se regozijavam com a aproximação do fim desta etapa. Na altura parecia-me impossível que houvesse algo no mundo que não fosse areia, calor e vento.
Parámos para a que deveria ser a nossa última noite no deserto. Parecia um local mais abrigado do que de costume, no sopé de duas dunas altas, quase umas colinas, terminadas em bico e com uma depressão em concha entre elas. Parecia um lugar menos inóspito do que muitos outros em que pernoitáramos e por isso não entendi o desagrado dos meus companheiros. Protestavam contra os atrasos que nos tinham impedido de sair do deserto nesse dia e lançavam olhares suspeitosos para as colinas. Aproximava-se o pôr-do-sol e a azáfama era grande. Tendo terminado as minhas tarefas decidi subir uma das colinas, a que ficava mais próxima, para ver se do topo se avistava realmente o fim do deserto. Ao trepar comecei a notar um ligeiro som, quase que de tambores distantes, que parecia acompanhar os meus passos. Atingi o topo no momento em que o sol atingia o horizonte, incendiando as areias a toda a volta. Era magnífico! Decidi sentar-me e contemplar o espectáculo, totalmente esquecido por momentos da dureza dos últimos dias. Fi-lo com cuidado, para não me afundar na areia mais do que o necessário. Os meus movimentos foram acompanhados de um som cavo e alto, que na altura atribuí a um grande tambor, um dos poucos instrumentos que então conhecia. Nem mesmo agora poderia descrever totalmente a qualidade desse som, apesar de entretanto muito ter visto e conhecido.
Sobressaltado levantei-me de um pulo, fazendo com que uma boa porção de areia deslizasse colina abaixo. O som fez-se ouvir de novo. Espantado, olhei em torno de mim, tentando detectar a sua origem. Na base da colina os meus companheiros davam sinais de susto, fazendo os gestos habituais a cada um contra os malefícios e o mau-olhado. Eles não tinham sido com certeza. Do outro lado da colina apenas se avistava o deserto, tão despido de vida como até então o conhecera. Virei-me, finalmente, para o espaço entre as duas colinas.
Este tinha a forma de uma gigantesca concha, de superfície regular e lisa. Quase que parecia feita por mão humana, tão harmoniosas eram as suas dimensões e curvatura. Algo se passava naquela zona. O ar, até então límpido, turvava-se e agitava-se em torvelinhos e pequenos redemoinhos. Franzi os olhos para tentar ver com mais clareza. Mas tudo estava turvo e apenas me parecia avistar, aqui e acolá, formas indistintas, vultos gigantescos que se torciam, quer por efeito do ar quer por movimento próprio. Decidi aproximar-me para ver melhor. Desci, pois o lado da colina que levava à depressão, originando cascatas de areia a cada passo e sempre acompanhado pelo som cavo e ressoante que me despertara a atenção.
Dei meia dúzia de passos e hesitei quando um torvelinho mais forte me surgiu pela frente, cegando-me por instantes. Ainda pensei em recuar mas a curiosidade foi mais forte e, com os olhos fechados como protecção contra os grãos de areia arrastados pelo vento, dei mais um passo. A súbita calmaria surpreendeu-me de tal modo que abri imediatamente os olhos. Mas fechei-os de novo tal foi o espanto que me tomou. Ou estava a sonhar ou enfrentava uma das célebres miragens de que tanto ouvira falar mas que ainda não tivera oportunidade de ver. Como nada de mal me aconteceu decidi-me a dar nova olhadela, convencido de que apenas veria areia à minha frente. Mas não!
A visão permanecia intacta, tal como a avistara por fugazes instantes. Se era uma miragem, então a minha primeira experiência nesse campo ultrapassava tudo o que me tinham contado. À minha frente erguia-se um muro alto e brilhante, por cima do qual se avistavam cúpulas e telhados igualmente brilhantes. O meu primeiro pensamento foi o de estar perante a cidade para onde nos dirigíamos e que, por erro de cálculos, estaria mais próxima do que pensávamos. Mas se isso fosse verdade tê-la-ia avistado do acampamento. Mas era, sem dúvida, um grande aglomerado de edifícios, a avaliar pelo número de telhados que avistava.
Cuidadosamente, fui-me aproximando do muro. Não poderia dizer de que era feito. Parecia ser de metal brilhante, talvez cobre ou bronze, mas ao tocar-lhe, a medo, dava a sensação de pedra. Uma pedra muito lisa e polida, que parecia brilhar com uma luz própria, pois o sol já desaparecera e começavam a ver-se as primeiras estrelas. O muro era um pouco mais alto do que eu, sem reentrâncias ou portas, e encurvava-se ligeiramente rodeando os edifícios. Devia conter uma área enorme, a avaliar pela sua ligeiríssima curvatura, área essa que excedia em muito a da concavidade entre as duas colinas.
Tendo intimamente decidido que ou estava morto ou entrara num mundo de sonhos, comecei a caminhar ao longo do muro decidido a penetrar no seu anterior. Ao fim do que me pareceram horas – e que talvez o fossem – tive de me render à evidência. O muro permanecia liso e sem sinais de entrada. Parei para descansar um pouco, embora surpreendentemente não me sentisse fatigado. A vontade de visitar aquela área murada era cada vez maior mas não via bem como fazê-lo. Cheguei-me bem ao muro, à procura de qualquer imperfeição a que me pudesse agarrar. Nada encontrei. Mas ao erguer os braços com desespero apercebi-me de que as minhas mãos quase chegavam ao topo. Sempre considerara a minha grande altura como uma desvantagem – e era-o quando tentava passar despercebido após um pequeno roubo – mas agora parecia-me uma dádiva sem preço. Com um pouco de esforço talvez conseguisse agarrar-me ao topo do muro e trepar a força de pulso. E assim fiz. Foram várias as tentativas falhadas e a areia onde tombava parecia endurecer a cada queda que dava. Mas o sucesso coroou por fim os meus esforços.
Empoleirado no topo do muro sentei-me para recuperar as forças e para decidir o passo seguinte. À minha frente estendia-se uma cidade magnífica, toda ela feita do mesmo material brilhante do muro. Os edifícios eram elegantes, bem desenhados e espaçosos, encimados por cúpulas e telhados de feitios caprichosos e estranhos. Estavam separados uns dos outros pelo que só se poderia denominar de jardins, embora não se assemelhassem a nada que até então visse. Se ignorássemos as cores, seriam jardins normais, belos e opulentos como nenhuns, mas possíveis. Mas o colorido estragava essa ilusão. Parecia predominar um tom de laranja acobreado, intercalado, aqui e acolá, por lampejos multicores que pareciam piscar e reluzir como se tivessem vida própria. As formas assemelhavam-se às da nossa relva, arbustos ou flores mas de colorido e brilho inimagináveis.
Tudo isto apenas serviu para me convencer de que morrera e me encontrava nalgum mundo do Além de que nunca ouvira falar. Como nada tinha a perder saltei do muro bem decidido a explorar este mundo estranhamente fabuloso que se estendia a perder de vista. Embora tivesse caído desamparado não me magoei. Parecia até que o solo se torcera para melhor me amparar. Mas foi apenas uma breve sensação que logo pus de parte como impossível.
Comecei a caminhar ao longo de um dos muitos carreiros que avistara, rodeados de pequenos arbustos cintilantes. Era neles que se viam os lampejos multicores, que na altura me deslumbraram por nada ter visto de semelhante. Hoje posso compará-los a grandes diamantes fulgindo à luz de múltiplas velas. Mas não pareciam ter uma origem física ou então esta era tão pequena que me passou despercebida. A temperatura estava amena e corria uma ligeira aragem que parecia perfumada de aromas desconhecidos e suaves. Ao fim de algum tempo apercebi-me de que, embora não se visse vivalma, o silêncio era quebrado por sons distantes, apenas detectáveis. Parei para me concentrar neles. Por mais que me esforçasse não os ouvia com nitidez. Pareciam um sussurro, melodioso mas tão baixo que era quase inaudível, que atribuí à vez a música e a vozes, sem ficar com a certeza de nada.
Acabei por desistir e prossegui o meu caminho, parando, por vezes, para apreciar um edifício ou um grupo de flores exóticas. Não sei por quanto tempo caminhei assim. Pareceram-me horas, mas podem ter sido dias ou apenas minutos. Nada do que então me aconteceu tem raízes na experiência humana e por isso não tenho a certeza de nada. Nem sequer de não ter sido tudo um sonho.
Apercebi-me, finalmente, de que o carreiro por onde seguia tinha um propósito determinado, encaminhando-se, decididamente, em direcção ao que se poderia chamar o centro de toda aquela cidade. Não parecia ser o único, pois de ambos os lados avistava agora outros carreiros que pareciam ter o mesmo destino. Isso alegrou-me e preocupou-me ao mesmo tempo. Embora até então não avistasse vivalma achava improvável que tantos edifícios estivessem desabitados. Parecia tudo demasiadamente bem cuidado para estar abandonado. À minha estupefacção pelo que via juntava-se agora uma pontinha de receio pela recepção que poderia ter. Bem vistas as coisas não passava de um intruso e se os possíveis habitantes quisessem ter visitas então por certo teriam aberto portas na muralha da sua cidade.
Mas o medo apenas serviu para me incentivar. Quer estivesse morto, vivo ou a sonhar, a minha decisão era só uma: seguir esta aventura até ao fim. Apressei, pois, o passo, ansioso por conhecer o passo seguinte de tão estranha saga.
O carreiro desembocou, finalmente, numa praça que me pareceu enorme. Estava totalmente deserta. Ao centro avistava-se o que parecia ser uma estátua alada. Para ali me dirigi. Era a representação de um animal estranho. Parecia-se com um dragão, mas as suas enormes asas eram semelhantes às das águias e demasiado pequenas para tão gigantesco corpo. As patas também eram estranhas, terminando as da frente em forma de mão humana. Fora representado soerguido nas patas traseiras, com o focinho erguido para os céus e com as asas totalmente abertas. Nas patas dianteiras, perturbadoramente humanas e elegantes, segurava um pequeno baú semi-aberto.
Aproximei-me mais e, muito a medo, abri-o por completo. O seu interior continha um rolo de pergaminho e alguns anéis dourados. Enquanto hesitava, sem saber o que fazer, o pergaminho desenrolou-se por si mesmo e vi que na sua superfície estavam desenhados estranhos caracteres. Nessa altura não sabia ler e, mesmo se o soubesse, duvido que conseguisse traduzir aquela escrita. Mas isso não foi necessário porque uma voz sussurrante murmurou aos meus ouvidos:
“Se o teu coração é intrépido e quiseres conhecer os habitantes desta cidade, então coloca um destes anéis no dedo médio da mão esquerda. Mas lembra-te: tens muito a perder e pouco a ganhar.”
Com a impetuosidade da juventude nem hesitei. Estendi a mão e agarrei num dos anéis contidos no baú. Parecia demasiado grande para os meus finos dedos mas ao enfiá-lo no dedo indicado pareceu encolher, ajustando-se perfeitamente à minha pele.
A princípio nada mudou. A praça estava tão deserta como dantes, o sussurro distante continuava indecifrável e as cores que me rodeavam eram as mesmas. Mas pouco a pouco as coisas começaram a mudar, começando por uma ligeira turvação das imagens, que se foi acentuando até tudo se ter modificado. O espanto foi tão grande que quase sufoquei. Parecia-me que mudara novamente de mundo.
A praça estava agora cheia de criaturas que se moviam graciosa e apressadamente. Em vez do acobreado brilhante que parecia imperar anteriormente tudo agora tinha cores maravilhosas, intensas e variegadas. O sussurro aumentara de tom e, embora continuasse ininteligível, via-se agora que era o som de centenas de vozes erguidas em conversação ou canto. Era, verdadeiramente, um mundo à parte.
Concentrei-me nas criaturas que via um pouco por toda a parte. Muitas tinham forma humana, mas muito esguia e estilizada, parecendo flutuar sobre o chão de modo contínuo e suave. Outras tinham formas estranhas, uma mistura de elementos humanos e animais ou, até, totalmente desconhecidas. Mas todas tinham um elemento em comum: ao olhá-las ficava com uma sensação de beleza e de harmonia como não voltei a experimentar desde então, nem mesmo face às mais belas mulheres ou aos mais encantadores objectos. Aquilo que, descrito, poderia dar uma ideia de pesadelo, traduzia-se, sem que soubesse como, numa beleza ímpar e, acima de tudo, numa sensação de “verdade”, como se aquela fosse a única forma possível, ideal, para aquele ser.
Essa sensação de beleza sem igual estendia-se aos edifícios, que me pareciam ainda mais magníficos agora que os via na sua multiplicidade de cores. As coberturas fantásticas revelavam pormenores delicados, uma autêntica filigrana etérea mas que dava, ao mesmo tempo, a ideia de permanência, de durabilidade eterna que não se consegue obter com as fortalezas mais sólidas que entretanto conheci. Mas o material de que eram feitos permanecia uma incógnita.
A amenidade do ar era ainda mais pronunciada, se tal fosse possível, e os aromas suaves que transportava enchiam-me o espírito de delícias desconhecidas. Apesar da longa caminhada que efectuara para ali chegar sentia-me completamente fresco e repousado. Aliás, nunca me sentira melhor e não voltei a ter, desde então, uma sensação que se lhe aproximasse. Se ao menos tivesse sabido apreciar o que então tive em vez de me deixar cegar pela ideia de um futuro de prosperidade material!
Permanecia especado junto à estátua, de boca aberta de espanto e sem saber como reagir quando senti um leve toque no ombro esquerdo. Com o susto dei um enorme pulo, que me levou a pelo menos dois metros de distância. Virei-me e vi que uma das criaturas semi-humanas me olhava, a sorrir. Era bela, como todas as outras, distinguindo-se de uma mulher normal apenas devido aos olhos de um vermelho cintilante, facetados como pedras preciosas, e por duas minúsculas asas que lhe saíam da nuca. Bem mais alta do que eu, olhava-me, no entanto, quase de igual para igual e o seu sorriso fez com que os meus nervos agitados se acalmassem de imediato. Antes mesmo de falar já sabia que não me tinha inimizade, mas que sentia por mim uma certa parcialidade mesclada de indiferença. Aproximei-me, pois, até estarmos quase juntos.
— Bem-vindo à nossa cidade – disse, numa voz onde ressoava um ligeiro trinado e que era impossível de classificar. Aqui até os não convidados têm a sua oportunidade de escolher.
E fazendo-me sinal para a seguir dirigiu-se para um edifício redondo que ocupava um dos lados da praça.
Embora cheio de perguntas não me atrevi a erguer a voz. Havia algo naquela criatura que, embora não despertasse medo, me impedia de sentir um completo à-vontade na sua presença. Em silêncio, pois, atravessámos a imensa praça até atingirmos o nosso destino. Subidos cinco degraus deparámo-nos com duas portas imensas e escuras, que me impressionaram de modo desagradável. A sua superfície estava repleta de desenhos que pareciam tridimensionais e vivos. Quando fitava um deles nada se mexia mas pelo canto do olho via que o resto se retorcia e enclavinhava, quase como um ninho de cobras. Era a primeira coisa desarmoniosa que via desde que subira ao muro e fiquei cheio de vontade de fugir dali.
No entanto a criatura que me fizera sinal não parecia preocupada. Tocou-lhes com um dedo anormalmente fino e elas abriram-se com um chiar de dobradiças mal oleadas. Por momentos fez-se silêncio na praça e, ao virar-me, vi que todas as criaturas tinham parado e nos contemplavam. Mas não poderia dizer se com agrado ou desagrado. Mas logo tudo voltou ao normal.
Como hesitasse a minha acompanhante voltou a tocar-me no ombro – sempre o esquerdo – e fez-me sinal para entrar. Com o coração aos pulos, assim o fiz, fechando os olhos e dando um passo enorme para que a provação acabasse depressa. Quando os voltei a abrir era como se não o tivesse feito. O interior era do mais escuro que jamais vira. Não conseguia, literalmente, ver a minha mão quase em frente dos olhos. Foi um dos momentos mais aterradores da minha vida. Pensei que o meu fim chegara ou que, caso já estivesse morto, tivesse sido enviado para um dos piores infernos de que ouvira falar.
Quando pensei não poder suportar mais a escuridão e o silêncio a voz da criatura soou novamente, parecendo ainda mais musical do que lá fora:
— Este é o edifício que contém o Espelho das Almas. Só este tomará a decisão final, mas para lá chegar é preciso passar por várias provas, que podem ser fatais. Todos os que visitam a nossa cidade têm de passar por aqui. A alternativa é serem eliminados para todo o sempre.
A única parte boa deste discurso era a ideia de que afinal não devia estar morto. Embora a ideia das provas me assustasse sempre fui lutador e não me agradava a perspectiva de nem ao menos tentar. Estava para dizer isso mesmo quando a criatura, que parecia adivinhar-me os pensamentos, acrescentou:
— Muito bem. Prossigamos. Estamos no corredor da Confiança. Esta parte do percurso tem de ser feita na escuridão, e sem qualquer apoio. O caminho não tem obstáculos e basta dar cinquenta passos em frente, sem hesitações ou paragens. Volto a lembrar: uma prova falhada representa a obliteração.
As coisas começavam mal. Sempre tive medo do escuro, o que não é de estranhar para quem teve de sobreviver durante longos anos nas escuríssimas ruelas de uma vilória, onde nunca se sabia em que ou em quem poderíamos tropeçar. Ainda hoje tenho uma profunda cicatriz resultante de um encontro aziago com um cão esfaimado numa noite sem Lua. Mas sou um lutador, como já referi, e morto por morto preferia sair tentando.
Abafando o melhor possível os meus receios comecei a caminhada, tentando manter um ritmo certo e sem hesitações. O chão era estranho, parecendo umas vezes mole e outras duro. Mas segui sempre em frente, contando mentalmente. Foram os cinquenta passos mais longos da minha vida. Ao dar o último todo o local se encheu de luz, uma luz esverdeada e forte, que quase me cegou, após a escuridão anterior. A criatura estava à minha frente, sorrindo.
— Primeira prova superada. Entramos agora na Câmara dos Desejos. A prova consiste em escolher um objecto de entre os muitos que a povoam. Só se for o objecto certo é que o caminho fica livre.
Verifiquei, então, que o corredor que percorrera desembocava numa imensa câmara repleta de estantes e mesas onde se viam as coisas mais díspares, tudo iluminado por uma luz difusa e esverdeada que parecia provir de todos os lados ao mesmo tempo. O coração caiu-me aos pés. O que seria o objecto certo, no meio de todo aquele bazar? Embora contrariado penetrei na Câmara e comecei a analisar os objectos que a enchiam. Havia de tudo um pouco: preciosos e baratos, metálicos, de vidro, de madeira, tecidos, pergaminhos, frascos de perfume, enfim, uma colecção capaz de fazer inveja ao mais cotado mercador. Mas nada me parecia digno de ser escolhido. Oh, havia coisas fabulosamente belas, sobretudo para um provinciano como eu. Mas, não sei bem porquê, não me decidia a escolher nenhuma delas. Não me pareciam suficientemente ”únicas”.
E assim fui andando, de mesa em mesa e de estante em estante, tudo vendo e tudo rejeitando. A criatura parecia não ter pressa, mantendo-se imóvel junto a uma pesada e retorcida grade de ferro que parecia guardar a única saída. Já tinha visto tantas coisas que me sentia tentado a desistir quando algo me chamou a atenção. Aproximei-me e vi, na prateleira mais baixa de uma pequena estante o que à primeira vista não passava da reprodução grosseira e demasiado colorida de um coração rodeado de grandes chamas. Parecia impossível que no meio de tantas riquezas uma pobre coisa como aquela me tivesse chamado. Mas fora isso que acontecera. Sentia-me irresistivelmente atraído por aquela imagem baratucha e nem sequer bem feita. Tentei afastar-me por diversas vezes, mas via-me forçado a voltar atrás e a contemplá-la de novo.
Desisti de lutar. Agarrei-a e levei-a até à criatura, absolutamente certo de que era o meu fim. Aquele não podia ser o objecto certo, o único que me tinha sido pedido. Estendi-lho, encolhendo-me um pouco com receio do que estava para vir. Mas com grande surpresa minha a grade deslizou para um dos lados deixando a descoberto uma pequena passagem que terminava numa nova porta.
— Mais uma prova superada. Já só falta mais uma, antes de chegarmos ao Espelho das Almas.
Virou-se e dirigiu-se para a outra porta. Esta era bastante estranha, mesmo depois de todas as coisas esquisitas que vira até então. Não parecia sólida mas feita de uma espécie de nevoeiro multicor, onde se agitavam formas indistintas e se moviam vultos que não se chegava a perceber bem o que eram. Mas sólida ou não barrava totalmente o caminho.
— Chegámos à Ponte do Mundo. Tem três guardiães. Mais uma vez é preciso escolher o certo e pedir-lhe passagem.
E sem acrescentar mais nada passou através da barreira. Como não sabia que fazer, decidi-me a imitá-la. Aproximei-me e parei por instantes tentando perceber o que via. Mas as imagens entrevistas eram demasiado vagas e difusas para que pudesse dizer a que correspondiam. Por isso dei um passo em frente, convencido de que iria ser muito desagradável passar por ela. Estava à espera de uma sensação de frio húmido e pegajoso, como o que costumava sentir na minha terra em certas noites de Inverno. Mas nada senti. A porta era como se não existisse. A única diferença é que agora via o que estava por detrás dela.
À minha frente via uma larguíssima ponte lançada sobre um abismo aparentemente sem fundo. Pelo menos era bem larga no início. Mas ia estreitando até que, a cerca de metade do caminho, já só dava para cerca de quatro pessoas a par. Era nesse ponto que se viam três vultos. Deviam ser os guardiães.
Como a criatura que me acompanhava parecia ter desaparecido fui avançando cautelosamente pela ponte. À medida que me aproximava podia ver melhor o tipo de criaturas que me aguardavam. Eram seres muito estranhos e um pouco assustadores.
O da esquerda tinha um corpo entroncado e forte mas não muito alto. Vestia de castanho-escuro, algo que parecia quase uma couraça. A cabeça, no entanto, destoava do conjunto: estreia e pontiaguda, parecia-se com uma raposa, mas com grandes olhos de pupila vertical como a dos gatos e dois pequenos cornos retorcidos no topo. As mãos, poderosíssimas, terminavam em garras como as das águias e seguravam uma lança que parecia demasiado alta para aquele corpo.. O do meio tinha um corpo um pouco mais alto do que o meu, mas bem proporcionado. A cabeça era a de um cão, de dentes pontiagudos e olhos coruscantes e tinha nas mãos uma poderosa acha de guerra. O da direita tinha um corpo de serpente, grossíssimo, enroscado em inúmeros anéis de onde sobressaíam duas enormes asas. Tudo isto encimado por uma enorme cabeça de touro de cuja boca saíam labaredas.
Estava ainda mais atrapalhado do que na Câmara dos Desejos. Não sabia qual deles escolher, pois todos me pareciam igualmente assustadores, em particular o do meio, com a sua cabeça de cão. Como já disse anteriormente, os meus encontros com cães não tinham sido dos mais felizes. Por isso concentrei a minha atenção nos outros dois. Sentia-me tentado a escolher o da esquerda, uma vez que tudo até então estivera relacionado com aquele lado. Mas a desproporção entre o corpo e a cabeça repugnavam-me. Virei-me para o da direita e estava já perto quando tive a mesma reacção. Havia algo no conjunto que me desagradava imensamente. Acabei por me aproximar do do meio, pois, embora detestasse cães, era o que me repelia menos.
Vi-me assim face a face com a sua bocarra escancarada, que parecia capaz de me arrancar a cabeça. Quando o vi levantar a acha pensei que chegara o meu último momento. Mas virou-se para um dos lados e acertou com ela no ser cabeça de raposa, que prontamente se evaporou. Fez o mesmo do outro lado, ficando a ponte vazia com excepção de nós os dois. A sua imagem tremeluziu, então, e pareceu deslizar pelo caminho à minha frente, desaparecendo por um arco que se avistava ao longe. E fiquei só.
Decidi caminhar até esse arco, notando que a ponte se estreitara de tal modo que mal tinha largura para o meu magro corpo. A criatura da praça aguardava-me junto ao arco.
— Falta apenas a prova do Espelho das Almas. Mas esta é apenas uma escolha.
Virando-se, passou por baixo do arco. Fiz o mesmo.
Estávamos numa pequena sala redonda, que parecia ter apenas aquela abertura. À minha frente via-se uma superfície polida, que parecia atrair-me de modo misterioso. Aproximei-me sem qualquer receio até estar a poucos centímetros dela. Vi então que uma estranha criatura me contemplava. Tinha corpo de dragão, mas de um dragão pequenino e lindo, com maravilhosas escamas verdes e amarelas que pareciam cintilar e mudar de aspecto continuamente. De cada lado saíam enormes asas vermelhas, capazes de fazerem voar um corpo bem maior do que aquele. O mais estranho era a cabeça: não se assemelhava a nada que alguma vez tenha visto, mas parecia estar estranhamente em harmonia com o resto.
Fiquei embasbacado, contemplando aquele ser estranho que via onde esperara ver a minha imagem. Não sei quanto tempo decorreu nesse silêncio estupefacto mas por fim arranquei-me àquela contemplação que me deliciava sem que soubesse porquê e virei-me na direcção do arco. A criatura permanecia no mesmo ponto, mas parecia maior, mais luminosa e amigável do que antes. Ia perguntar-lhe o significado de tudo o que vira e vivera quando mais uma vez pareceu adivinhar os meus intentos.
— Essa é a imagem da tua alma. Se decidires ficar na cidade, será essa a tua forma. Quanto às provas, penso não precisar de te explicar a primeira. Confiaste nos teus instintos, que te diziam que eu não era capaz de te fazer mal. Na segunda demonstrastes que o teu maior desejo é uma vida vivida com emoção e encantamento, ansiando sempre por mais e melhor. E na terceira sobrepuseste o teu sentido da harmonia das coisas aos teus gostos pessoais. Demonstrastes, pois, seres digno de aqui viver.
Deu dois passos em frente e prosseguiu:
— Mas tens de escolher. Se aqui ficares, terás de renunciar à vida que poderias vir a ter se te fores embora. E tenho de dizer-te que seria uma bela vida, cheia de sucesso, riquezas, amizades e amor. Aqui terás paz, harmonia e uma longa existência sem sobressaltos ou angústias. Escolhe!
E foi então que cometi o maior erro da minha vida. Era novo, nada vira, nada experimentara para além de miséria e trabalhos duros. A ideia de vir a ser rico, considerado, de ver coisas e lugares, de conhecer novas gentes e novos costumes foi mais poderosa. Escolhi a vida.
Não precisei de abrir a boca. Assim que a minha mente formalizou a escolha logo me encontrei no topo da colina a que subira para ver se o deserto estava a chegar ao fim. A noite começava a cair, com a rapidez própria do deserto. Não entendia como isso era possível, uma vez que tinha a sensação de terem passados horas desde que saíra do acampamento. Se calhar tinham sido dias. O vento do fim da tarde acalmara e a depressão entre as duas colinas estava perfeitamente lisa e regular.
Trôpego e sem bem saber o que fazia desci o mais depressa possível até ao acampamento onde fui recebido com total indiferença. Ninguém dera pela minha ausência. Comecei até a pensar que tudo não passara de um sonho ou de uma alucinação provocada por excesso de sol e de fadiga. Mas na minha mão esquerda brilhava um anel dourado que nunca possuíra.
No dia seguinte a viagem prosseguiu sem percalços de maior, dando início a uma carreira que me tornou num dos mercadores mais ricos e invejados do meu tempo. Viajei incessantemente, vi maravilhas incontáveis, rodeei-me de luxo e de amigos dedicados, mas nunca fui totalmente feliz. A recordação daquela a que chamo a Cidade dos Anjos não me abandona o espírito, fazendo-me ansiar por uma paz e harmonia inexistentes neste mundo. Há anos que a procuro, muito particularmente junto às Colinas das Areias Cantantes, fenómeno que a população local jura ser provocado pelos espíritos que habitam por debaixo do deserto.
Mas nunca mais a avistei e começo a pensar que morrerei sem alcançar aquilo que levianamente recusei aos 20 anos.

Luísa Lopes

Photo by zhao chen on Unsplash

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