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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Confissão de Teresa Brito


Nova Friburgo, 1º de fevereiro de 2016.

Querido Júlio,
Cartas saíram de moda, meu grande amigo. Há quantos anos você não recebe uma? Foram substituídas por e-mails e redes sociais, mas eu precisava escrever esta para agradecer o grande, ousado e honesto gesto que teve para comigo. De um tão íntegro jornalista e tão leal amigo, não era de se esperar menos, mas todo o bem que se faz deve ser reconhecido.
As coisas que vou lhe dizer nesta carta, melhor seria dizer olhando nos olhos o meu grande amigo, mas tenho urgência para desabafar e falta-me disposição para encontrá-lo no calor de São Gonçalo, sua tórrida cidade natal, onde você persiste em viver apesar do sucesso e da insistência de seus amigos em levá-lo para o Rio de Janeiro. Sempre evito ir a São Gonçalo no verão, a cidade mais quente de nosso estado, e tanto pior agora, em que cheguei à menopausa. Sim, aos 44 anos, esta bela e desejada mulher torna-se estéril.
Então, entrincheirada em minha casa do alto das Braunes, entre as montanhas de Nova Friburgo, faço o balanço da minha vida. Não tive filhos e não sei como seria minha vida se os tivesse tido. Teria eu alcançado o sucesso que alcancei se tivesse de cuidar de uma criança como acho que se deve cuidar? Sofreria sentimentos de culpa enquanto andasse pelo mundo interpretando meu repertório, deixando meu hipotético filho por mais de uma semana sem me ver? Não sei.
Ninguém nunca duvidou de meu amor pelas crianças. A começar pelos meus sobrinhos, que já me acompanharam em breves excursões aos países fronteiriços nos períodos de férias escolares. E minha dedicação a abrigos e hospitais infantis ajudaram sim a impulsionar minha carreira de cantora. O fato de várias vezes por ano me apresentar em benefício dessas instituições e todo ano, religiosamente, bancar a ceia de Natal no orfanato Santa Clara granjeou-me a simpatia de muita gente, a começar entre os cidadãos de minha Friburgo natal, onde candidatos a todos os cargos sempre disputaram o privilégio de tirar uma foto comigo – e infelizes daqueles a quem eu desmenti publicamente o apoio quando via minha foto estampada em seus panfletos eleitorais. Mas não sei o que trará para mim este ano que se inicia, pois quando saio para os lugares que sempre frequentei nas temporadas que passei aqui já não vejo tantos sorrisos.
Eis que tudo mudou naquele dia em que você estava ao meu lado, e, se não estivesse, não sei se teria tido tanta coragem. A filha do prefeito, num jantar beneficente, se aproxima de mim, com sua filha no colo e o bispo – irmão de minha mãe – ao seu lado – e pede-me que seja madrinha de sua filha, e eu lhe dei a resposta que sempre dei quando alguém de minha família pedia-me para batizar uma criança:
– Não.
– Por quê? Sempre fomos amigas e antes disso você era amiga de minha mãe.
E confessei diante do meu tio o que nunca tinha confessado a ninguém – e ele entendeu por que desde que voltei da França, onde fiz meu Mestrado, nunca mais me confessei nem comunguei:
 – Não posso porque estou excomungada.
Sua Reverendíssima engasgou com o vinho que bebia. O ruído do bispo engasgado atraiu todos os olhares.
 – O que foi, Reverendo? – acudiu, prestativo, o Secretário de Saúde do município.
O bispo estava sem palavras.
 – Sente-se mal, Reverendo?
 – Não faça perguntas, Secretário. O bispo está calado porque mentir é pecado e ele não quer dizer a verdade. Ele acaba de saber que, há 20 anos, voltei ao Brasil excomungada.
Peguei na sua mão, meu querido, e levei você para o jardim, longe dos olhos e ouvidos de todos.
– Júlio, meu tio bispo não terá coragem de comentar isso com ninguém, é um assunto embaraçoso para ele, mas não posso ter a mesma confiança em Adriana nem no Secretário. Essa minha frase lacônica vai se espalhar e a cidade vai querer saber por que estou excomungada. Somente a você eu daria uma entrevista sobre o assunto.
No dia seguinte, o prefeito telefonou-me porque queria reafirmar sua admiração por minha pessoa e porque a filha não quis lhe dizer por que eu recusara ser madrinha de sua neta: teria mudado de religião?
– Já que esta é uma ligação privada e eu lhe conheço do tempo em que foi meu professor de Matemática, não vou lhe tratar por Vossa Excelência. O senhor realmente quer saber ou está me ligando apenas para que eu não pense mal do seu Secretário de Saúde? Ele estava ao lado do bispo meu tio quando eu disse o motivo. Ele não lhe disse nada?
A resposta do prefeito veio após uma pausa que demonstrou a insegurança na sua  negativa.
 – Não tenho nada contra a sua família, mas não vou batizar sua neta porque estou excomungada. Jura que ninguém mais na prefeitura sabe disso?
 – Excomungado Frei Caneca também foi e é herói brasileiro.
 – Mas o motivo de minha excomunhão não me fará heroína do Brasil. Seja sincero. Se a história se espalhar por Friburgo, eu prometi dar uma entrevista ao jornalista Júlio Lopes antes que a história transponha os limites de minha cidade natal.
 – Você não quer guardar segredo?
– Por mais que eu goste da sua filha, não a considero capaz de guardar segredo. Ela está sempre nas colunas sociais e é tão comum pessoas da sua família serem vistas ao meu lado que ela já deve ter dito às amigas que estava apenas esperando minha vinda à cidade para me convidar para madrinha. Tanto assim que fez o convite com meu tio do lado, que presidirá a cerimônia. Quando os fotógrafos virem outra madrinha no meu lugar, o que ela dirá às pessoas?
– Teresa, faça como quiser. Eu tenho que interromper esta conversa porque preciso visitar uma escola que está em reforma.
Desliguei o telefone e, como sempre fazia, peguei o ônibus e desci até a Praça Getúlio Vargas, ao redor da qual estão os melhores restaurantes da cidade, para almoçar. Enquanto me servia de salada e queijo de cabra, ambos produzidos no distrito de São Pedro da Serra e comercializados por um preço deliciosamente impensável para vocês aí da planície, aproximou-se de mim uma colunista do principal jornal da cidade e perguntou se eu ficaria na cidade até o batismo de Lurdinha, neta do prefeito. Estava claro que ela estava plantando verde para colher maduro, ou talvez estivesse dizendo uma missa encomendada pelo prefeito, a fim de que eu revelasse logo o que tinha a dizer e eximisse sua família e seu secretário do ônus de terem divulgado o boato de minha excomunhão.
 – Não serei madrinha de Lurdinha.
 – Não dará essa alegria ao seu tio, o bispo?
 – Não posso. Por mais que sejam estreitos meus laços de afeto com a família do prefeito, os regulamentos da Igreja não me permitem, e meu tio, que conhece muito bem o Código de Direito Canônico, entenderá. Mas devido à nossa estreita amizade, creio que alguém da minha família será chamada para substituir-me. Só não sei dizer ainda quem. Pergunte à mãe de Lurdinha, minha querida amiga Adriana, a quem caberá a honra.
O dono do restaurante, onde iniciei minha carreira de cantora, veio pessoalmente cumprimentar-me. Pediu-me pela centésima vez uma foto e eu gentilmente fiz uma selfie e peguei meu celular para, pela centésima vez, postá-la numa rede social. Foi quando vi que havia uma mensagem de meu tio chamando-me à Catedral de São João Batista, do outro lado da rua. Mas que eu tomasse um táxi e entrasse pelos fundos, para que não me vissem atravessando a praça. Quis pagar a conta, o proprietário recusou-se a receber, deixei a gorjeta para o garçom e fui a pé mesmo, sem importar-me que todos me vissem.
Ele esperava-me na sacristia e assustou-se quando percebeu que eu chegara até ele entrando pela porta principal.
– Teresa, eu pedi discrição.
 – Mais de 30 pessoas me viram almoçar naquele restaurante. Todos sabem que o senhor é meu tio. Pior seria se eu almoçasse lá e eles não me vissem encaminhar-me até aqui para cumprimentá-lo como sempre fiz. Pensariam que há algum conflito entre nós.
 – Mas infelizmente há.
 – Meu conflito não é com o senhor, tio, é com a Igreja. Não assuma uma culpa que não tem.
– Não posso permitir que ponha a culpa na Igreja, e, como titular desta diocese, o papa me autoriza a solucionar esse conflito. Os bispos podem anular excomunhões.
 – Não quero anulá-la, meu tio. Não vou me declarar arrependida.
– Filha, já pensou nas consequências?
 – Uma vez que não há mais Inquisição, que mal poderia me causar?
 – Não falo apenas da sua alma, mas eu mesmo serei atingido por isso. Sua confissão teve testemunhas, alguém falará quando derem pela sua falta no batizado de Lurdinha, o rumor se espalhará, não poderei fingir ignorância. Se eu contar a verdade, o que será de mim? Eu era um padre perdido nas favelas da capital, até que meu antecessor morreu e o Vaticano achou por bem me nomear bispo de minha cidade natal, por sua causa. O trabalho filantrópico que você fazia junto ao meu antecessor chamou a atenção da Cúpula Romana e isso pesou muito para a minha indicação para este posto. Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu acreditava que passaria o resto dos meus dias aqui e nesta mesma Catedral jazeria. Mas quando a notícia se espalhar, será um milagre se me deslocarem para a Diocese de Petrópolis, aqui do lado. Você não quer me dar o gosto de passar o resto dos meus dias neste posto, junto à minha família?
 – Meu tio, aprendi a não negar minhas convicções. E se, nesses vinte anos, mesmo excomungada, nunca deixei de colaborar com as obras sociais da diocese, assim continuarei.
 – A questão não é apenas o dinheiro que você arrecada!
 – A questão não é apenas posar ou não com Lurdinha nas colunas sociais!
 – Afinal, o que você fez, minha filha?
– Quando fazia meu Mestrado em Paris, envolvi-me com um rapaz. Eu fiquei grávida e abortei.
Meu tio ficou alguns instantes sem fala.
– Mas você já podia ter resolvido isso. O papa Francisco mudou as regras e, nesse caso, até os simples sacerdotes podem anular a excomunhão.
 – Os povos europeus obrigaram o papa a mudar as regras. Houve uma época em que o povo de Roma elegia os papas, mas desde que, há mil anos, esse direito foi negado ao povo romano, a Igreja é impermeável à democracia. Toda a Europa legalizou o aborto. Em alguns países, como Itália, Portugal e Irlanda[1], isso foi feito por plebiscito, o que resultou na excomunhão desses eleitores, a maioria que votou pelo sim. Com tanta gente impossibilitada de batizar as crianças que continuam a nascer na Europa, e não havendo bispos suficientes para tantos excomungados, Francisco decidiu facilitar as coisas. Então, em nome da democracia, quero ser mais uma nas estatísticas de excomunhão.
 – O que pretende? Perder sua alma?
 – Não, mas pretendo salvar as mulheres pobres. Sou uma privilegiada, que pude fazer Mestrado na França e realizar com segurança a decisão que tomei. Como as mulheres ricas do Brasil podem. Em 2013, o Sistema Único de Saúde atendeu mais de 100 mil mulheres vítimas de abortos clandestinos mal feitos. Quantas morreram? Quantas ficaram com sequelas? Eu não. Fiz em segurança num país desenvolvido, em que as pessoas enfrentaram esse tabu. Se eu declarasse tê-lo feito no Brasil, algum puritano se levantaria exigindo minha prisão. Mas lá na Europa não é crime.
 – Teresa, não se trata apenas de garantir que eu tenha uma sepultura nesta Catedral, junto a meus antecessores, na capela do Santíssimo, mas também de que no futuro haja escolas e praças em Nova Friburgo com o seu nome.
 – Não quero prejudicá-lo, tio, mas não posso deixar que os dogmas da Igreja continuem prejudicando as mulheres pobres. Enfrentarei esse tabu. Darei uma entrevista ao jornalista Júlio Lopes e nós dois aguentaremos as consequências dela.
 – Você se acha uma nova Lady Di? Quer causar uma crise na diocese como ela causou uma crise na monarquia britânica?
 – Mas se a monarquia sobreviveu, a diocese também sobreviverá. Desse modo, Lady Di forçou a monarquia a modernizar-se. É preciso que as mulheres brasileiras, assim como as europeias, forcem igualmente a Igreja a modernizar-se.
 – Você quer dizer que a Igreja não deve mais condenar o aborto?
 – Não. Estou dizendo que a Igreja não deve mais chantagear os governos nacionais para que condenem quem aborta. Os dogmas da Igreja não devem ser leis nacionais.
No dia seguinte, você subia de São Gonçalo a Friburgo e gravava em minha casa a entrevista que causou furor na TV e continua sendo exaustivamente compartilhada nas redes sociais, tantos meses depois.
O show que havia programado em Aparecida foi cancelado. Em outras cidades, fanáticos de diversos credos fizeram algazarra diante dos teatros em que me apresentava. A venda dos ingressos diminuiu mas eu sou constantemente solicitada a dar entrevistas e a assinar artigos de opinião nos jornais. Uma professora de Niterói, que foi minha colega de faculdade, escreveu-me sugerindo que finalmente me candidatasse ao Doutorado, fazendo um estudo sobre Simone de Beauvoir ou outra feminista da Literatura Francesa. Já se oferecia para ser minha orientadora e garantia que a editora da Universidade publicaria minha tese, na certeza de engordar seus magros cofres. Um partido de extrema esquerda me convidou para candidatar-me ao Senado em 2018. Portas se fecham e janelas se abrem.
Enquanto escrevia a segunda página desta carta, ouvi um grupo de pessoas passarem diante da minha casa e gritarem contra mim os nomes de “vagabunda”, “assassina” e “abortista”. Já não ando de ônibus como antes, preservo-me andando de carro pelas cidades, mas tanto ódio será insuficiente para matar-me de fome. Mas é suficiente para matar de hemorragia um número incontável de faveladas.
Veremos o que os anos reservam para este corpo agora estéril e esta mente sempre fértil. Guarde bem esta carta. Um dia alguém ganhará dinheiro com ela.
Sua eterna amiga,
Teresa Brito.

(São Gonçalo, 14 de novembro de 2017.)



[1] Teresa enganou-se. No momento em que escrevia a carta, o aborto ainda não era legalizado na Irlanda, mas passou a sê-lo por ocasião de um plebiscito em plebiscito realizado em 26 de maio de 2018, quando 1.429.981 pessoas votaram “Sim” e apenas 723.632 votaram “Não”.





domingo, 29 de setembro de 2019

Na Margem do Lago



Tabor avançou até ao tabuado do cais, pela terra amarela e poeirenta, que tudo invadia. Os pés, descalços e sujos, estavam calejados e nem se desviavam das pequenas e aguçadas pedras, que infestavam o chão. Debaixo do inclemente sol laranja, que dominava o céu sem nuvens, sentou-se no toco de madeira, que estava no fim do cais, de propósito para o efeito. À sua frente, a mesma terra amarela e poeirenta, estendia-se até às escarpas desoladas, quase no limite do horizonte, ocupando o lugar onde, ainda há alguns anos, estavam as águas cristalinas que matavam a sede e a fome, a muitas dezenas de famílias. O tablado do cais, erguia-se, como uma ponte inacabada, sobre a terra árida, mesmo ao lado dos esqueletos abandonados de barcos de pesca.
Era pouco mais do que uma criança, quando os pais se mudaram para a margem daquele lago. Sabia que fugiam da guerra, mas pouco mais. Ficaram a viver numa casa de adobe e telhado de junco, construída com as suas próprias mãos, numa comunidade piscatória.
Já devia ter uns dez anos, quando mudaram outra vez. Recordava-se de falarem, com preocupação, da descida alarmante do nível do lago, que diziam ser causada pela guerra, que secara ou desviara quase todos os rios. Como provas dessa guerra, só se recordava de ter visto, algumas vezes, ruidosas máquinas voadoras, cor de areia, ostentando um retângulo vermelho com uma lua branca. Sobrevoavam o lago e faziam todos procurar abrigo, apavorados. Nunca lhes fizeram mal, limitavam-se a rasgar o céu, com estrondo e até elas, com o tempo, deixaram de aparecer.
Foi necessário, nessa altura, construir novo cais, umas boas centenas de metros mais à frente e arrastar os barcos de volta às águas. Depois disso, cada verão que passava, parecia mais quente que o anterior e mais um ou dois metros de areia ficavam expostos… e o inverno, furioso de trovoadas secas e ventos ciclónicos, não o retornavam ao nível anterior. As árvores iam-se ficando para trás e apenas uma ou outra, se aventurava a crescer mais próximo da água, no solo arenoso e quase estéril. Ainda “perseguiram” o lago mais três vezes, antes dos pais morrerem, primeiro um e depois outro, com pouco tempo de diferença. A falta da água, suportaram-na, mas não conseguiram viver um sem o outro.
Ayla foi um ar de primavera que surgiu na sua vida. Sensivelmente da mesma idade, de amigos de infância tornaram-se um só e, por algum tempo, ambos conseguiram esquecer a vida amarga e dura, com a fome sempre à espreita.
De tempos em tempos, apareciam grupos de três ou quatro pessoas, mortos de fome e sede, provenientes do Norte, que contavam histórias terríveis de grandes cidades incendiadas, muitos mortos de fome e de doença. Poucos se quedavam; também ali não havia muito que os satisfizesse e por isso, rumavam ao Sul… exceto os demasiado doentes, que ficavam enterrados num qualquer sítio, próximo de onde tinha sido sepultado o último cadáver. O cemitério organizado, ficava já demasiado longe, para que valesse a pena a extenuante caminhada sob o sol inclemente.
O lento encolher do lago, obrigava a construção de um novo cais, de quatro em quatro anos. Começaram a construí-lo cada vez mais longo, para que se mantivesse mais tempo na água, mas isso obrigava a ir buscar mais madeira, cada vez mais longe, aos esquálidos bosques a sul, pelo que acabaram por reciclar os tabuados anteriores. Alguns aldeãos eram contra, reclamavam que o lago voltaria a encher e os demolidos cais, teriam de ser reerguidos.
Mas até os vizinhos iam reduzindo. Os lavradores tinham cada vez mais dificuldade em produzir as suas colheitas no solo seco e o que nascia, era débil e mirrado, os pescadores apanhavam cada vez menos peixe e mais pequeno. Por vezes, enormes cardumes de peixes mortos inundavam as praias e ele estavam semanas sem pescar. O vento norte, carregado de areia, visitava-nos frequentemente durante o inverno e fustigava as folhas tenras das plantas destruindo as colheitas. A caça foi desaparecendo também, procurando água noutras paragens. Poucos eram já os aldeãos, que continuavam a reconstruir a casa a cada dez anos, perseguindo a fugidia água, onde os peixes eram cada vez mais pequenos. Todos os meses havia uma família que ia embora, ou o último elemento de outra, que falecia.
Brincou com o buraco nas calças, que lhe deixava o joelho quase exposto, enquanto lágrimas pingavam sobre o tecido empoeirado. Mesmo quando nasceu Raíssa, ele não acedeu a procurarem novas paragens. Primeiro porque a mãe estava frágil, depois, porque a criança era frágil… era melhor ficarem, ali tinham o sustento ainda certo e os pescadores eram cada vez menos. Fizeram uma festa na aldeia, quase não nasciam crianças e aquela, era uma promessa de que tudo poderia voltar a ser como antes.
Raíssa acabou por morrer. Tinha pouco mais de um ano… sempre fora débil e não aguentou a dieta de peixe e os poucos legumes desidratados, que se conseguiam arranjar. A pequena tumba, ficara lá para trás, ao pé da última casa que ocuparam antes desta.
Mesmo assim, ele não se decidiu a abandonar aquele local desolado e mantiveram-se lá, cada vez mais sozinhos. Ela não o culpava pela morte da filha, mas olhava-o com ressentimento. Não lhe respondeu, da última vez que lhe disse que tinham de mudar novamente, como já estavam a fazer os últimos quatro vizinhos que restavam. Dois deles partiram, mas de vez, para Sul e só três novas casas de adobe foram erguidas nas novas margens do lago, que tinha nessa altura já pouco mais de um quilometro de largo.
Foi com dificuldade que conseguiu convencer os vizinhos a construir o novo cais, mas fizeram-no. Uma vez mais, desmontaram o anterior e acartaram-no, tábua por tábua, até o montarem no novo local … há quantos anos isso fora…
Tabor não se lembrava já quando partira o último vizinho. Quando fora que ele pegara nos parcos haveres, na mulher e nos dois filhos quase adultos e partira ao longo do leito seco do rio, que em tempos alimentara o lago. Todos se foram e nenhum voltou… apenas ele, teimoso, insistira com a mulher, Ayla, que o lago haveria de voltar, quando a natureza fizesse as pazes com os homens.
Quando precisava de alguma coisa que não possuía, caminhava mais de meio dia, até à aldeia mais próxima e regressava, já noite muito escura, guiado pela fogueira que Ayla acendia na aridez da planura e ali ficava, até que ele regressasse.
Há cerca de um mês, fizera a extenuante caminhada até à aldeia… encontrara-a vazia. Chorara, no regresso, ao ver a pobre velha, em pé, ao lado da fogueira, suportada pela esperança do seu regresso. Teve a certeza que, se não voltasse, ela ficaria ali a esperá-lo, até que a luz dos seus dias se apagasse.
Agora, como nunca antes, sentia-se velho e vencido. A natureza não iria, nunca, perdoar aos Homens e Deus, era mais que certo, ou morrera, ou abandonara-nos para sempre.
Nas noites geladas, sentava-se em frente a Ayla, com a esquálida fogueira pelo meio, olhando aquele rosto vincado pelas rugas, que em tempos fora jovem e belo e perguntava-se se conseguiria suportar o dia em que ela partiria, ou como seria para ela, se ele se fosse primeiro.
Eram esses os seus pensamentos ali, no cais de um lago seco, sentado no toco de madeira a olhar o sol laranja que, do alto seu trono, zombava da desgraça dos orgulhosos humanos. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, deixando sulcos lamacentos. O vento picava-o com areia, enquanto assobiava fortemente e foi empurrado por ele, que tomou a decisão e levantou-se do toco, que era o seu local de espera.
No outro dia de manhã, Tabor e Ayla, com os seus parcos haveres, numa padiola que arrastavam pelo chão, deixaram a casa de adobe, junto ao cais.
 Partiram, em direção a Sul, sem saber se seriam os últimos humanos da Terra.





sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Estalactites

No princípio
era apenas o verbo

gotejando


com o tempo
calcificou–se

em palavras
e conceitos

pontiagudos

instáveis
– e temerários





quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Manual do Ponto Final



Adoro ler, ouvir, espreitar términos de relacionamentos. Caço intés. Apuro tiaus. Sou pesquisadora de adeuses.

Não é que eu seja má sádica perversa. Não é que eu torça para as pessoas quebrarem laços ou que me alegre em vê-las se despedindo. Simplesmente preciso dar vazão à curiosidade e catalogar prática tão comum. Como é que se rompe?
Fui a campo e consegui relacionar cada experiência profissa!
Lourdes Efigênia reuniu o anel, o perfume e o bichinho de pelúcia que recebera de Luiz Oscar e deixou o pacote em frente à porta da casa dele. Tocou a campainha e saiu correndo. Para não ter notícia do estado depressivo que certamente arrasaria o coitado, ela mudou de nome, de sexo, de cidade, de planeta. Até morreu para não correr o risco de reencontrá-lo.
O militar logo se refez. Na verdade não chegou a se desfazer. Verteu nem sangue nem lágrima na farda camuflada. Reaproveitou a joia da ex com a Maria Marlene – porque a fila tem de marchar. O novo namoro durou pouco, pois para ele era questão de honra terminar uma história. Levou a donzela a um restaurante, desdobrou-se em cavalheirismo, beijou-a com gosto, tirou cinco selfies em casal e pagou a conta sozinho. Então, ainda à mesa, ao fim da noite romântica, ele elencou os sonoros termos de demissão que havia ensaiado: “Bye bye, baby”, “Já vai tarde”, “C'est fini”, “Tiau, querida”, “Teje livre”, “Sai do meu pé, chulé”, “Larga de mim, xaxim”, “Vai cheirar pó, socó”, “Libertas quæ sera tamen”, “Adeus, amor”, “Vaza”. Maria quedou, apoplética. Depois disparou uma gargalhada interminável, seguida de soluço convulsivo. Aí se ergueu com olhos de fel, tomou a bandeja do garçom mais próximo e deu com ela na cabaça de Luiz, deixando-o tinto de vinho, sangue, molho de tomate e constrangimento. Ah, e de coma na UTI.
Mário César escolheu o Dia dos Namorados para surpreender Ana Francisca. Barbeou-se, comprou um bom vinho, reservou o quarto Supercaliente, no melhor motel da cidade, ornou o ambiente com pétalas de rosas vermelhas e levou o violão para uma suposta serenata. Vendou os olhos verdes da amada e disse que só tiraria a faixa assim que ela entrasse no local preparado. Quando Mário retirou-lhe a venda, porém, Ana disparou a berrar: “Aqui eu não quero. Me tira daqui. Me leva pra casa agora”. (É que a moça tinha vivido naquela mesmíssima suíte a noite mais voluptuosa de sua vida, com seu primeiro e inesquecível amor, e o fantasma de Alcides Ricardo atentou a memória dela, azando o escândalo.)
João Tenório me relatou que prefere levar um bico no buzanfã a dar um chega pra lá na companheira. “Mesmo quando sei que sou corno, deixo a namorada terminar. Depois do fora, relembro cada detalhe e sinto uma autopiedade bonita” – afirmou.
Já Aurélia Morgana disse que é proativa e não aceita ninguém desmanchar com ela. Ao pressentir o menor sinal de que será descartada, ela prepara o xeque-mate e arrasa o companheiro⁄oponente.
Márcia Juliane tem know-how. Já foi deposta de dezenas de rolos, namoros, noivados e casamentos. Contou que odeia as preliminares melosas que antecedem o arremate rescisório: “Não aguento quando a criatura vem com aquela lorota de que eu mereço alguém melhor, de que não consegue me fazer feliz. É ridícula essa falta de objetividade”.
Numa publicação do Face, Neuzinha Felicidade relatou: “Ô trem custoso ter que dizer com civilidade ao sparring que a gente gostaria de estar podendo não estar ali com ele”. Hoje em dia ela não julga mais quem termina relacionamento pelo WhatsApp. “Pé na bunda virtual foi feito pra pessoas como eu. É digno, é clean, não borra a maquiagem, não solta as tiras, não faz você ter que sair correndo de madrugada de pijama com medo do surto psicótico do conge”.
Reuni bastante conteúdo acerca dos derradeiros suspiros do amor. Dó, dor, vexame, alívio, desespero... Haverá de um tudo no meu Manual do Ponto Final, que em breve se tornará o best-seller dos refugos sentimentais.

Maria Amélia Elói





quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O condutor de rebanhos




Um certo pastor de ovelhas foi imortalizado por Esopo, que contou como ele se divertia a enganar os vizinhos, gritando “Lobo!” sem justificação. Aborrecido por já não conseguir enganar ninguém, vendeu terras e rebanho e foi viver para uma vila distante. Instalou-se num casarão da rua principal — a Alameda do Ocidente —, rodeado por outras casas de gente bem instalada na vida, mas com as traseiras para uma rua de casebres humildes — a Rua Terceira.
Jorge — assim se chamava o anónimo pastor de Esopo — foi vivendo uma existência tão ou mais monótona do que vivia na serra, mas depressa embirrou com um orgulhoso vizinho das traseiras que cultivava tabaco e açúcar. O antigo pastor começou a espalhar rumores de que este vizinho, chamado Galego, tinha amigos de mau porte e pretendia contratar vândalos do Leste para trabalhar nas plantações. Para manter o bom ambiente da vila, dizia Jorge, o melhor era que os cidadãos honrados da rua mais nobre se unissem e obrigassem o suburbano a mudar de modos.
Na verdade, os vizinhos, sem conhecerem a fama antiga de Jorge, mostraram-se indignados com o comportamento do rústico Galego e apoiaram as medidas propostas pelo distinto vizinho que denunciara tão deplorável conduta. Como soluções drásticas não pareceram adequadas, os notáveis da vila decidiram apenas boicotar a sua atividade produtiva. A partir de então, o cultivador não poderia abastecer-se no comércio local, fosse qual fosse o ramo. Nem vender. Esperava-se que o garrote económico o levasse a abandonar a vila e a comunidade pudesse regressar a uma vida tranquila.
Passado algum tempo, Jorge embirrou com outro vizinho humilde. Queixou-se ele às autoridades da vila, de que então já fazia parte, que um tal Pelesete causava muitos incómodos a um outro, chamado Moisés, que entretanto chegara, mas pretendia instalar-se na propriedade de Pelesete, com o argumento de que em tempos ali vivera. Começara por pedir para ficar num descampado, mas, aos poucos, foi expandindo o espaço ocupado e a retórica proprietária. Jorge cedo gostou dele, sobretudo porque lhe permitia caçar naqueles terrenos sem autorização. Daí a defender as suas pretensões foi um passo.
A princípio, o conselho local de homens sensatos não apoiou tão estranha reivindicação, mas Jorge, que vinha a ganhar poder nos negócios da terra, foi muito incisivo nas denúncias das supostas malfeitorias de Pelesete e acabou por levar o seu intento avante. Já não estava em causa a maior ou menor razão de Pelesete, mas a sua fama de brigão e má rês. Decidiu-se manter uma aparente imparcialidade, mas de cada vez que Pelesete reclamava pelos seus direitos de propriedade, o alegado usurpador agredia-o e clamava por ajuda das autoridades, que emitiam sempre o mesmo discurso: «Moisés tem o direito de se defender».
Passado mais algum tempo, Jorge voltou a tomar de ponta um vizinho — Babel —, que vivia num terreno barrento, com grandes dificuldades. Não se sabe bem se Jorge cobiçou a olaria de Babel, ou se não gostou da sua postura altiva, o certo é que passou a acusá-lo das maiores infâmias contra a mulher e os filhos e afirmando que aquele escondia estricnina e outros venenos com que pretendia envenenar a família.
O Grão Conselho, agora já presidido por Jorge, em vista da gravidade das acusações, resolveu intervir de forma decidida e decisiva, e não de formas mais ou menos mitigadas como anteriormente. Enviou os bombeiros à procura dos venenos. Em vista dos resultados negativos, enviou uma brigada da Proteção Civil, que também veio de mãos a abanar. Já bastante irritado, o Conselho enviou a Polícia, com ordens para prender o assassino em potência e encontrar a todo o custo os tão perigosos instrumentos de morte. Os militares avançaram destruindo tudo à passagem e, na confusão criada, o potencial envenenador acabou por ser morto.
Para grande frustração do Conselho, no entanto, não foram encontrados os venenos temíveis. «Eles estão lá», afiançava Jorge, que comandara pessoalmente a operação. Passaram dias, passaram meses, mas ninguém encontrou qualquer veneno. Os familiares de Babel, na falta do patriarca, passaram a viver na pobreza, acusando, à socapa, Jorge de ter inventado tudo para ficar com a olaria, que, em vista das dificuldades, a família teve de vender.
O resultado dramático desta operação de justiça preventiva desencadeada por Jorge suscitou grande constrangimento em todos aqueles que tinham acreditado na veemência das acusações e que, piamente convencidos, tinham apoiado a operação punitiva que veio, ela sim, a revelar-se assassina.
Jorge pareceu acalmar por algum tempo, mas foi sol de pouca dura. Certo dia, saiu-se com uma nova acusação. Segundo ele, um outro empresário que tinha uma confeitaria no fim da Alameda do Oriente estaria a roubar-lhe as receitas dos bolinhos da sorte, pelo que apelava a toda a população para que boicotasse a produção de doçaria do gatuno.
Foi a gota de água que faltava. O povo começou a murmurar, houve quem investigasse o passado de Jorge, soube-se o caso das mentiras que, compulsivamente, lançara quando era pastor numa aldeia distante e onde era conhecido por Jorge Trafulha.
O Grão Conselho reuniu-se de emergência e discutiu-se o problema de Jorge, já como caso patológico. Em vista das provas demolidoras, o Conselho mandou emendar a injustiça feita ao cultivador Galego, voltando ele a poder vender os seus produtos na vila; delimitou e atribuiu um bocado generoso de terreno ao alegado intruso Moisés, devolvendo ao injustiçado Pelesete a maior parte da sua propriedade; obrigou Jorge a devolver a olaria aos familiares do infortunado Babel e a indemnizá-los pelas agressões sofridas, e instituiu o livre comércio em toda a vila, quer de doçaria, quer de quaisquer outros produtos.
Jorge Trafulha, em vista da grave derrota sofrida — em perda de poder, de prestígio, de credibilidade e até de grande parte da fortuna —, achou melhor voltar ao antigo trabalho de pastor. “Talvez ele aprenda humildade com as ovelhas e moderação com o silêncio edificante das serranias”, comentava-se, mas, pode alguém ser quem não é?
Sabe-se, sim, que o sobrenome “Trafulha” passou, desde então, a ter o sentido pejorativo que hoje conhecemos.

Joaquim Bispo

*
Esta fábula foi selecionada em concurso literário para integrar a coletânea de contos “Esopo Revisitado”, da Editora Olympia.
*

Imagem: Styler [João Cavalheiro], Sem título (Pastor) [Ti Lopes], grafíti (detalhe), 2018.
Alpedrinha, Portugal.
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O ESTRANGEIRO




         Escada de madeira, avariada. Puída feito tudo o que a vista alcança dali. Cassiano, acomodado num degrau, tronco dobrado sobre os joelhos, esfrega o dedo do pé na saliência de um prego pronto a se soltar.
         Na cabecinha de onze anos, é um vaivém de imagens que analista nenhum conseguiria ordenar. No peito, é só amargura. Sente-se como um alienígena, pior que isso, um terrestre desfocado. Não tem nada a ver com tudo aquilo. A cidade, o mar, a vida da favela... Tudo lhe é terrivelmente estranho! Nem mesmo estes dez meses o deixaram mais familiarizado. Não se afina, é sempre um vendido!
Bem que avisara o pai... Não é vida para eles! Como poderia uma família da roça, rude, simplória, acostumar-se numa cidade daquele tamanho?! Pode até ser uma cidade linda, maravilhosa, cheia de modernices, mas os problemas que lhes traz a tornam uma cidade madrasta. Que saudade do seu cantinho! Chega a lhe doer no peito!
Sente uma pena tão grande do pai! Está cada dia mais magro, consumido, desesperado. É muito mais difícil do que imaginou! Com a graça de Deus, a mãe conseguiu colocação na casa de uma dona, lá na cidade. Cuida da roupa e da arrumação da casa. Sai ainda escuro, e volta já à noitinha. Sempre cansada, desgastada.
A irmã, no viço dos seus dezesseis anos, não consegue trabalho. Cuida do barraco, displicentemente, e dorme quase o dia todo. Quando escurece, veste a mesma roupa surrada de todas as noites, e sai. Sempre tem uma amiga para visitar, um emprego para ver... Sempre arruma motivo para sair, se bem que o pai já não está engolindo tudo isso! Cassiano percebe que o velho fica ainda mais abatido quando, vendo a filha sair, encosta-se à porta do barraco e deixa os olhos correrem pela escada, vendo-a desaparecer na penumbra, lá embaixo. Se pelo menos não pintasse tanto o rosto, não usasse aquela água de cheiro tão forte!
Cassiano entende tudo, não pode afirmar nada, mas tem a liberdade de, pelo menos em pensamento, maquinar suas premissas. Aliás, é isso que faz o tempo todo! A lógica é uma constante. Tem os pés no chão. Não é dado a aventuras. Por ele, nunca teriam arredado pé do mato. Lá estava a dignidade. Pobreza não é a morte, pior que ela é a indignidade da vida que levam agora.
Pai teimoso! Não é teimoso... É descabidamente sonhador, só isso! Pensava ter na cidade grande a mola mágica para o sucesso. Não vacilou em vender toda a colheita, pedir as contas, botar os trens num caminhãozinho alugado e rumar para cá. Nem precisa dizer que o dinheiro não deu nem para o começo! Foi suficiente apenas para comprar o barraco. Chegou todo animado e sonhou até com a compra de uma casa! Andava de corretor em corretor, com o dinheiro embolado nos bolsos. Não demorou a se decepcionar e tentar, pelo menos tentar, pôr os pés no chão.
 E foi este barraco que conseguiu pagar. Desde então, só Deus sabe da penúria. A comida, minguada, como podia... Agora, com o emprego da mãe, pelo menos pão não falta. Leite? Só no sonho. Perceptível até para olhos menos detalhistas, a fome que os aflige. A magreza cadavérica do pai, o raquitismo de Cassiano, com braços demasiadamente longos, evidenciados pela extrema fragilidade do corpo. As pernas, sequiosas de carne, deixam os joelhos saltados, salientes, desproporcionais. O calção nem lhe para na cintura, vive caído, à altura dos quadris e, consequentemente, quase lhe cobrindo os joelhos. Figura triste aos olhos! Tremendamente frágil, chegando mesmo a instigar pena.
Mais triste ainda é sua inércia. Passa o tempo todo ali, naquela mesma escada, olhando sem perceber, o sobe-e-desce das pessoas. Às vezes encolhe-se, tomba o corpo de lado para dar lugar a um passante mais descuidado, estabanado. Dali só sai para ir ao barraco pegar um pão, e quando escurece. Nem à escola vai! O pai, aborrecido, decepcionado, achou melhor nem tentar a matrícula. A escola do sertão era tão fraca que Cassiano não tem condição de acompanhar o estudo daqui.
Cassiano até que gostou! Não tem mesmo ideia pra aprender nada, ainda mais aqui! Só faltava ter que ir pra escola! Seria em outra situação e mais uma vez, um peixe fora d’água.
Em meio a tudo isso, nessa aflição, ainda tem o direito de ficar ali, sentado, parado. Graças a Deus, não é exigido pra nada! Não tem ânimo mesmo! Se bem que é torturante ficar ali, remoendo todos aqueles martírios na cabeça, mas que fazer?! Dos males, o menor... Duro mesmo deve ser o dilema do pai! Afinal, ele deve se sentir responsável por todo esse transtorno.
Cassiano pensa no pai. Hoje ele saiu cedo, como quase todos os dias. Nem imagina o que ele faz pelas ruas. Diz que vai à procura de emprego, mas... Inutilmente. Sempre volta arrasado, mais desiludido que quando saiu.
No começo, quando chegou, Cassiano ainda se animava em subir, à noite, até o barraco de Dona Guidinha e passar os olhos pela televisão. Mas eram tantas crianças que se juntavam à porta, faziam tanto barulho que mal dava para Cassiano ouvir o som que saia do aparelho. Não podia reclamar, ia contra a corrente e ali no morro, ou se é mais um ou está morto. Cassiano preferiu se calar. Conhecia bem a política do morro e, aos poucos, foi abandonando o passatempo. Agora, basta escurecer e ele já se deita.
 É isso que não consegue engolir! A violência da favela. O perigo iminente e latente do morro... É assustador! Coisa comum é ver brigas, tiros, mortes. Nem sabe quantos garotos da sua idade morreram por aqui nestes últimos meses! É rotina... Toda manhã os corpos aparecem jogados, perfurados por balas ou castigados por pancadas. Comum acontecer e difícil suportar... Impossível mesmo! Cassiano fica apavorado, temeroso, perdido.
Sua irmã chega à porta do barraco. Espreguiça o corpo demoradamente. Dormiu até agora. Já é quase noite! Está chegando a hora de Cassiano entrar. Sente vontade de esperar a mãe, ali. Mas, é perigoso, não convém.
O pai está demorando mais que o costume! Cassiano não se sente confortado. Gosta de ter o pai por perto quando a noite chega. Não tem remédio... É noite, e o jeito é entrar.
Cassiano ergue o corpo, olha novamente lá embaixo, no pé da escada. Nada... Nenhum dos dois aponta. Entra no barraco. A irmã, exalando um cheiro de flor, enjoativo, tem um espelho nas mãos e passa, repetidas vezes, o batom nos lábios. É bonita a danada! Cassiano olha-a demoradamente e pensa em como seria bom se ela tivesse metade da beleza em juízo. No mínimo sofreria menos no futuro. Esse tipo de vida nunca acaba bem, sempre deixa marcas e dissabores profundos.
Está assim, pensando, quando ouve a porta do barraco bater. A danada já saiu e ele nem percebeu!
Cassiano estremece quando se lembra de que está sozinho. Bem que a mãe podia chegar logo! Olha pela fresta da porta, mas nada vê. Está muito escuro lá fora... Senta-se no banco da cozinha e não consegue ficar sereno. Dentro do peito, a aflição, o desespero, o medo. Não quer ficar sozinho. Por que sua irmã não ficou com ele até a mãe chegar? Menina matreira! Pensa em contar tudo ao pai. Por que ele também não chega?!
Cassiano resolve se deitar. Quem sabe o sono vem e leva toda essa aflição. Amanhã é outro dia.
Bobagem! Nem deitado consegue sossego. A cama é um suplício quando está ansioso! Parece que vem vindo alguém... Ainda bem, é a mãe!
Tem vontade de correr, jogar-se em seus braços, esquecer toda aquela angústia, mas não tem costume! Não quer que ela saiba que sentiu medo. Já está tão baqueada, chega a dar pena! Ele não se acha no direito de levar queixume algum até ela. Tem de ajudá-la, isto sim!
-         Cassiano, cadê o pai?
-         Ainda não voltou. Saiu cedo e não falou nada...
-         E Clarinha?
-         Já saiu. Deve ter ido na casa...
-         Deixa pra lá, filho... Já comeu?
-         Já, mãe.
Nem bem entra e pega na arrumação. Clarinha, ultimamente, tem sido mais desleixada com a casa. Está uma baderna!
Cassiano percebe que a mãe, a todo instante, olha pela fresta da porta. Também está preocupada com a demora do pai. Que será que aconteceu? Nunca faz isso! Sabe que a família se sente desprotegida à noite, sem ele. Seu pai podia ser aventureiro, mas tinha muito cuidado com eles. Não fazia nada, é verdade, mas estava sempre presente. Não tinha vícios, ainda bem! Na situação em que estão agora, seria um caos ainda maior se ele não fosse comedido! Não bebia nunca. Admirável em meio a tantas decepções, o pai mantinha caráter firme feito rocha. Não buscava refúgio em vício algum, nem em seus sonhos se refugiava mais! Hoje tem os pés fincados no chão, os devaneios se foram... Está sem saída! Se ao menos arrumasse dinheiro para voltarem para o mato! Mas, como?! Talvez até tenha meios para isso, mas o pior de tudo é que perdeu o ânimo! Tem medo agora... Não quer parecer aventureiro, e sofre terrivelmente. Cassiano torce por essa aventura. De voltar... Quer voltar. É tudo o que mais deseja! Que adianta? Nunca terá coragem de conversar isso com o pai. Imagina!
As horas vão correndo. Já é noite alta, o morro está quase todo apagado. E, nada do pai. Que angústia!
A mãe, andando de um lado pro outro, não para de rezar. Cassiano fica mais aflito diante da insegurança da mãe. Ela, adulta, desprotegida, e ele, como se sente?!
A madrugada chega, junto com ela, Clarinha. Cara amarrotada. Entra falando alto, os cabelos num completo desalinho, agitada. É só o tempo de tirar a roupa, e cai na cama. Nem pergunta pelo pai. Pelo jeito nem tem tino para isso. Está esquisita!
Cassiano, apesar de aflito, encolhido sob as cobertas, não resiste ao sono e dorme profundamente.
Acorda sobressaltado com os gritos da mãe. É uma sensação horrorosa! O coração lhe bate na goela, nem sabe para que lado da cama descer as pernas... É terrivelmente assustador!
Num instante está na porta do barraco. Os olhos, ofuscados pela claridade do dia, teimam em não parar abertos. A cabeça, ainda meio atordoada, fica lerda para perceber o que está acontecendo. Chega perto da escada e olha lá embaixo. Vê a mãe, debruçada. Há muitas pessoas por perto, mas percebe que tem alguém deitado no chão. De repente, lembra-se da noite anterior, da demora do pai... Desce as escadas feito um doido, aos trotes. Difícil abrir caminho por entre as pessoas. Antes não tivesse conseguido.
No chão, estirado, pálido feito cera, olhos fixos e semiabertos, o pai. Cassiano compreende tudo. O pai, morto.
A mãe, ajoelhada ao lado, está calada, perplexa, incrédula. Não chora, apenas olha. Está como que hipnotizada, sem movimentos.
Cassiano sente o chão fugir, a cabeça rodar, não reconhece ninguém entre os curiosos. Todos estranhos. Tão estranhos quanto é aquela cidade, aquele morro, aquele barraco, aquela vida. Sente vontade de gritar, de correr, de entender. Por que tudo aquilo?! O que está acontecendo?!
Quando cai em si, está sozinho. As pessoas se foram, o corpo do pai levado não sabe pra onde... Sua mãe... Sua irmã... Cassiano não sabe de nada...
Agora está ali, sentado. Na mesma escada, no mesmo degrau, apenas com os seus pensamentos. Quem será que o matou? Por quê? O que a vida quis dele? Perguntas e mais perguntas fervilham em sua cabeça. Inutilmente. É apenas mais uma morte, como tantas outras. Sem explicação, sem fundamento. No morro é assim. Ou se é mais um, ou está morto. Ele não quis ser mais um. Foi só isso!

                                                                         Regina Ruth Rincon Caires
             






sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A DECOLAGEM

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri, aceita, instantes de atrapalhação no troca troca.
Derrubamos coisas, deixamos o livro cair e perder a página marcada.
-Desculpe, lembra da página?

Digo que lembro, mentira, não tem importância. Fecho o livro e olho
para ela, que a esta altura está sorrindo para mim.
Pergunto alguma bobagem, ela responde com uma expressão nada de boba.
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

Ela faz o sinal da cruz e eu finjo que pratico o mesmo ritual.
Achamos graça, trocamos olhares e a conversa flui. Falamos de nós
mesmos, do trabalho, da vida. Gargalhamos discretos, tentando tapar
a boca, disparamos olhares gostosos.  Até que emudecemos no aviso
de apertar o cinto.

Quando chegamos ao desembarque, ofereço uma carona de taxi,
mesmo que seja fora do meu caminho. Ela aceita sem jeito e descobrimos
que iremos para o mesmo hotel.

Durante o dia inteiro, somos separados pelos afazeres. Ao cair da tarde,
corro para o hotel, afrouxo a gravata no engarrafamento e tenho uma
surpresa. No hall, ela está me esperando.
- Não tinha nada a fazer no quarto. Hotel é muito chato, impessoal.
Um drink, topa?

Perco a fala e quando passa a súbita pasmaceira emocional, desembesto.
- Cla, cla, claro...

Descubro que ela tem poder.
- Um Jack Daniels, por favor. Cowboy. Dois?
- Do-dois...

Escolhemos numa mesinha de canto, discreta e providencial.
A conversa que ficou no ar engrena de vez. Falamos mais coisas,
pedimos mais um, dois, três, quatro, infinitos Jack Daniels,
a esta altura já acompanhado de gelo e água cristal em copo longo,
para equilibrar a emoção e razão, e evitar um exagero vexatório.
Sentimos no travesso esbarrar de nossas mãos a excitação romântica
que pinta em cores fortes, a partir de um instante só os olhos falam.
E um beijo infinito se dá.
Ela é atingida por um raio de juízo.
-Nossa! Viu que horas já são?

E eu, num gesto inédito para um encabulado contumaz,
atiro meu relógio no balde de gelo.

Acordamos enroscados com o sol nas frestas da cortina que esquecemos
de fechar à chegada sôfrega. Não vou assustá-la pelo adiantado da hora,
mas ela, mais responsável do que eu, pula da cama, corre para o banheiro
e, enquanto uma cara de bobo acompanha a nudez dos seus movimentos,
creio que deusas existem e que uma delas, a mais perfeita, acabou de
operar um milagre na minha vida. Aos poucos vou me dando conta do feitiço
que me pegou e noto que não estou no meu apartamento. Vou catar minhas
roupas e enrolar ao máximo até seu banho acabar.
E me faço de sonso.
- Não sei do meu celular.
- No seu bolso, tontinho.

Começa a despedida em grande estilo, de novo as roupas no chão,
cabelos molhados pincelando meu corpo de cheiro de shampoo, salivas com
gosto de sexo e hortelã,  mais e melhores despudores. Juro que ouço fogos
de artifício, o tempo inexiste.
Até que embrenhados num torpor delicioso ela demonstra quem tem o juízo.
- A que horas é sua reunião?

Lembro do diabo da reunião.
- Acho que 11.

Agora tenho certeza de quem está mandando na minha vida.
- Corre que são quase 10.

O dia passa modorrento e disperso. A reunião chatérrima. O mundo corporativo,
mais uma vez, me apresenta sinais de cansaço e ventos tóxicos. O almoço com
o cliente caminha protocolar, hipócrita, interesseiro, com tudo para não
resultar em bons negócios. Digo foda-se.  Vou perder o avião, vou ficar mais
uma noite, vou acreditar no amor de filmes da sessão de tarde.
Salto esbaforido do taxi na porta do hotel, onde ela acaba de entrar num Uber.
Abro os braços de náufrago e me jogo no para brisa. Os seguranças tentam me
conter, grito pelo seu nome, socorro, ela abre a janela e diz:
- Vem.

E vou. Para onde o destino quiser. Vou viver a ardência da paixão, que vai
virar amor, que vai consolidar um amizade rara, que nunca vai perder o tesão,
o carinho e a vontade de viver o turbilhão que mereceremos viver:
casamento com amigos, dancing all night long, lua de mel em castelos normandos,
a volta feliz ao nosso ninho novinho e gostoso, que de tão gostoso, não
nos poupa em materializar a cumplicidade do nosso amor  num primeiro filho,
que logo terá uma irmã, que depois de alguns anos, surgirá um temporão
levado da breca, que nos encharcará os olhos, quando olharmos em volta o
nosso mundo esculpido, a nossa paz vivida, a sabedoria e a maturidade com
as quais enfrentamos  perrengues, indisposições da convivência, chatices
banais. É o amor companheiro, o sublime estado de arte dos relacionamentos.
Choramos abraçados e carinhosos, diante de tantos porta-retratos,
estantes que contam a nossa história, só em lembrarmos o quanto é
certo que a vida nasce do detalhe.

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, o lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri educada.
- Não, obrigado.

E mergulha na revista de bordo. 
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

O voo passa rápido, não trocamos uma palavra sequer.





terça-feira, 17 de setembro de 2019

Quando eu for cachorro - poema de Maria Amélia Dalvi

Quando eu for cachorro




Quando eu for cachorro
vou dormir com meu corpo
entre suas pernas.
Cabeça, tronco, orelhas
encaixados nas suas curvas
— cada breve respiração muda
como se fosse eterna.

Porei todo o meu medo à prova
quando você trancar a porta
saindo de casa, o olhar incerto.
Eu me entreterei com brinquedos:
comida, cochilos, bocejos, coceira
— farei com que acredite:
maior desejo é que você regresse
(mesmo se for mentira).

Entenderei sem ficar magoada
as interrupções de nossas conversas;
esperarei sem me exasperar
(curtindo sua dedicação
eternamente furtiva):
fecharmos uma pauta completa.

Roerei um pouco, de leve,
suas coisas favoritas —
que é pra eu apor minhas marcas em tudo,
lembrando que o amor,
mesmo denso, é breve.

Havendo dias de chuva
tremerei de preguiça
com você entre cobertas;
pedirei que não levante,
esteja sempre à mão, à vista:
e apenas me ame.

Trarei meus trágicos
olhos de compreensão
à maneira de uma oferta,
nas vezes em que você estiver
às raias do desespero;
então morderei seu braço
com impiedoso carinho
e direi, em silêncio,
que prefiro o mundo
com você bem perto.





segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Arremate



Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.
O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Só de uma coisa eu tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.





segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Cidade dos Anjos


A longa travessia do deserto aproxima-se do fim. Em breve atingiremos o mosteiro e a parte mais fácil da viagem. Todos estão contentes, prevendo uns dias de descanso na cidade, com os seus luxos e distracções. Para não destoar finjo sentir a mesma sensação de alívio e de prazer. Mas os meus sentimentos são totalmente opostos. Ainda não foi desta que reencontrei a Cidade dos Anjos.
Já se avista uma mancha de verdura no horizonte. Se seguisse os meus desejos voltaria para trás, de regresso ao deserto, para ali morrer ou encontrar o objecto dos meus anseios. Mas esta caravana depende de mim. Se morresse estes homens ficariam entregues a si próprios e às suas inimizades pessoais. As mercadorias seriam roubadas e muitos dos que nos aguardam com ansiedade perderiam a fortuna e com ela a razão de viver. Nunca a responsabilidade me foi tão pesada. Só me consola a ideia de que mesmo que andasse pelo deserto anos a fio o mais certo é não voltar a ser admitido na cidade de sonho.
Há quem diga que a juventude é desperdiçada nos jovens. E têm razão. Aos 20 anos atingi a felicidade máxima mas fui incapaz de o compreender. Em vez de aceitar o que me era oferecido imerecidamente recusei-o sem hesitações, convencido de que o voltaria a encontrar após uma longa vida repleta do que o mundo chama sucesso. Hoje, rico, respeitado e temido, tento em vão recuperar a única coisa que me faria feliz. Por isso continuo a dirigir estas caravanas ao longo de viagens repletas de privações e de perigos quando podia gozar a vida na bela mansão que construí e que em tempos me parecia ser o máximo a que podia aspirar. E continuarei a fazê-lo enquanto me restar um sopro de vida.
Sou originário de um país distante daquele em que vivo. Pobre e miserável, mal me lembro dos meus pais. Fui criado nas ruas e ali desenvolvi técnicas de sobrevivência e de astúcia que mais tarde me serviram para singrar nos negócios. Devia ter uns 19 anos quando a Grande Caravana parou na vilória onde vivia. Era uma visita inesperada, pois éramos demasiado pequenos e fora do caminho para termos contacto com os grandes comerciantes. Um ou outro vendedor ambulante, quanto muito uma pequenina caravana com dificuldades económicas, eram o máximo a que podíamos aspirar. Mas a doença atacara alguns dos carregadores e fora tomada a decisão de parar por alguns dias a fim de lhes dar a oportunidade de se restabelecerem.
O acampamento tornou-se ponto de peregrinação para todos os vadios da cidade. Mas como a segurança era apertada em breve desistiram. Só eu permaneci por ali, fascinado por aquele amontoado de pessoas que falavam várias línguas, na maior parte desconhecidas, que se vestiam de maneiras tão diversas e estranhas e que pareciam, aos olhos de um mendigo de província, ricos para além de todos os sonhos. Aos poucos fiz-me amigo dos guardas, a quem prestava todo o tipo de serviços e que tratava sempre com uma subserviência que não podia deixar de lhes ser agradável. Nunca me cansava de ouvir as histórias que contavam, embora mesmo então suspeitasse que muitos dos detalhes mais exóticos eram acrescentados simplesmente para gozarem com a minha ignorância e credulidade. Mas eram boas histórias, cheias de magia e aventura, e a minha alma sedenta absorvia-as com avidez.
Apesar dos cuidados prestados alguns dos carregadores morreram. Após o funeral o líder da caravana anunciou que tentaria substituí-los, embora sem grande esperança. Conhecia de sobejo o nosso tipo de povoação e bem sabia que embora falássemos muito estávamos agarrados ao nosso quotidiano e pouca vontade tínhamos de arrostar com o desconhecido. De facto fui o único que me apresentei. O meu aspecto e o meu passado estavam contra mim mas os guardas conheciam-me e falaram a meu favor. Fui, pois, admitido à experiência, na condição implícita de, caso não satisfizesse, ser substituído na primeira oportunidade. Agarrei pois nos poucos trapos que possuía e abandonei para sempre a terra que me vira nascer, decidido a singrar na vida, fosse com aquela caravana ou por qualquer outro modo. Nunca senti saudades e tenho passado a pequena distância da que se pode considerar como a “minha terra” sem sentir a tentação de a voltar a ver.
Decidido a conquistar um lugar permanente não me poupei a esforços, executando pronta e alegremente as tarefas mais duras e mais sujas, tornando-me prestável aos meus superiores directos e lutando o mais possível por me tornar simpático a todos. Aos poucos adquiri a reputação de ser um trabalhador honesto, esforçado e com quem se podia contar. Ao atingirmos a cidade seguinte novos carregadores foram contratados mas o meu lugar estava assegurado. Tornara-me um membro daquela respeitada companhia e com as poucas moedas que recebi a troco do meu trabalho apressei-me a comprar roupas dignas da minha actual posição.
Ocupado como estava a garantir o meu lugar não me preocupara em saber para onde íamos nem o que transportávamos. Agora, que me sentia mais seguro, apercebi-me pela primeira vez da carga preciosa que levávamos para terras distantes: vasilhas de metais preciosos, especiarias, perfumes, vidros e, até, alguns animais exóticos cuidadosamente acomodados em jaulas protegidas do calor e do mau tempo. Tinha tido a sorte de me ligar a uma das grandes caravanas que levavam sedas e outros materiais preciosos para Ocidente trocando-as por preciosidades desconhecidas ou raras no seu país de origem. As viagens eram longas e muito perigosas mas em caso de sucesso os lucros eram fabulosos.
Sentia-me, já, perfeitamente à vontade no meu novo ambiente quando detectei um certo nervosismo nos meus companheiros. Aproximava-se o pior momento de uma odisseia recheada de perigos: a travessia do inóspito deserto. Pelo que então ouvi contar parecia ser um local perigosíssimo, um dos piores conhecidos até então. Embora o nosso trajecto nos levasse apenas através de um dos extremos as condições eram horrorosas. A zona central era considerada intransitável e não havia memória de alguém a ter atravessado e sobrevivido para contar a história. Antes de iniciarmos a travessia parámos para nos abastecermos de água até ao limite das nossas capacidades, para repousar um pouco e para melhorar as condições das jaulas dos preciosos animais que transportávamos. Só viajaríamos de manhã cedo e ao fim do dia, descansando durante a parte mais quente do dia. Mesmo assim todos receavam a provação que se aproximava.
E tinham razões para isso. Nunca esquecerei essa minha primeira travessia, e isto para além das razões que em breve descreverei. Embora esperasse o pior a minha imaginação ficou bem aquém da realidade. A minha vilória ficava numa zona agreste mas fresca de Verão, embora gélida de Inverno. Não havia muita verdura mas também não havia calor. Nada me preparara para as condições que agora enfrentava. O calor era sufocante, e isto logo de madrugada. As noites, em contrapartida, eram do mais gélido que até então experimentara. Caminhava como que num sonho, ou melhor, num pesadelo, limitando-me a seguir numa semi-inconsciência os vultos que via vagamente à minha frente. Quando estes paravam, parava também, quando arrancavam fazia o mesmo, automaticamente. As areias escaldavam mesmo através das solas das minhas sandálias novas, despertando-me do meu pesadelo quando permanecia quieto durante demasiado tempo.
Não sei quantos dias passei deste modo, sem saber se estava acordado ou se dormia. Pelo que hoje sei, foram semanas, mas pareceram-me longos anos sempre iguais e repletos de tortura. Mal me dei conta dos comentários dos meus companheiros, que se regozijavam com a aproximação do fim desta etapa. Na altura parecia-me impossível que houvesse algo no mundo que não fosse areia, calor e vento.
Parámos para a que deveria ser a nossa última noite no deserto. Parecia um local mais abrigado do que de costume, no sopé de duas dunas altas, quase umas colinas, terminadas em bico e com uma depressão em concha entre elas. Parecia um lugar menos inóspito do que muitos outros em que pernoitáramos e por isso não entendi o desagrado dos meus companheiros. Protestavam contra os atrasos que nos tinham impedido de sair do deserto nesse dia e lançavam olhares suspeitosos para as colinas. Aproximava-se o pôr-do-sol e a azáfama era grande. Tendo terminado as minhas tarefas decidi subir uma das colinas, a que ficava mais próxima, para ver se do topo se avistava realmente o fim do deserto. Ao trepar comecei a notar um ligeiro som, quase que de tambores distantes, que parecia acompanhar os meus passos. Atingi o topo no momento em que o sol atingia o horizonte, incendiando as areias a toda a volta. Era magnífico! Decidi sentar-me e contemplar o espectáculo, totalmente esquecido por momentos da dureza dos últimos dias. Fi-lo com cuidado, para não me afundar na areia mais do que o necessário. Os meus movimentos foram acompanhados de um som cavo e alto, que na altura atribuí a um grande tambor, um dos poucos instrumentos que então conhecia. Nem mesmo agora poderia descrever totalmente a qualidade desse som, apesar de entretanto muito ter visto e conhecido.
Sobressaltado levantei-me de um pulo, fazendo com que uma boa porção de areia deslizasse colina abaixo. O som fez-se ouvir de novo. Espantado, olhei em torno de mim, tentando detectar a sua origem. Na base da colina os meus companheiros davam sinais de susto, fazendo os gestos habituais a cada um contra os malefícios e o mau-olhado. Eles não tinham sido com certeza. Do outro lado da colina apenas se avistava o deserto, tão despido de vida como até então o conhecera. Virei-me, finalmente, para o espaço entre as duas colinas.
Este tinha a forma de uma gigantesca concha, de superfície regular e lisa. Quase que parecia feita por mão humana, tão harmoniosas eram as suas dimensões e curvatura. Algo se passava naquela zona. O ar, até então límpido, turvava-se e agitava-se em torvelinhos e pequenos redemoinhos. Franzi os olhos para tentar ver com mais clareza. Mas tudo estava turvo e apenas me parecia avistar, aqui e acolá, formas indistintas, vultos gigantescos que se torciam, quer por efeito do ar quer por movimento próprio. Decidi aproximar-me para ver melhor. Desci, pois o lado da colina que levava à depressão, originando cascatas de areia a cada passo e sempre acompanhado pelo som cavo e ressoante que me despertara a atenção.
Dei meia dúzia de passos e hesitei quando um torvelinho mais forte me surgiu pela frente, cegando-me por instantes. Ainda pensei em recuar mas a curiosidade foi mais forte e, com os olhos fechados como protecção contra os grãos de areia arrastados pelo vento, dei mais um passo. A súbita calmaria surpreendeu-me de tal modo que abri imediatamente os olhos. Mas fechei-os de novo tal foi o espanto que me tomou. Ou estava a sonhar ou enfrentava uma das célebres miragens de que tanto ouvira falar mas que ainda não tivera oportunidade de ver. Como nada de mal me aconteceu decidi-me a dar nova olhadela, convencido de que apenas veria areia à minha frente. Mas não!
A visão permanecia intacta, tal como a avistara por fugazes instantes. Se era uma miragem, então a minha primeira experiência nesse campo ultrapassava tudo o que me tinham contado. À minha frente erguia-se um muro alto e brilhante, por cima do qual se avistavam cúpulas e telhados igualmente brilhantes. O meu primeiro pensamento foi o de estar perante a cidade para onde nos dirigíamos e que, por erro de cálculos, estaria mais próxima do que pensávamos. Mas se isso fosse verdade tê-la-ia avistado do acampamento. Mas era, sem dúvida, um grande aglomerado de edifícios, a avaliar pelo número de telhados que avistava.
Cuidadosamente, fui-me aproximando do muro. Não poderia dizer de que era feito. Parecia ser de metal brilhante, talvez cobre ou bronze, mas ao tocar-lhe, a medo, dava a sensação de pedra. Uma pedra muito lisa e polida, que parecia brilhar com uma luz própria, pois o sol já desaparecera e começavam a ver-se as primeiras estrelas. O muro era um pouco mais alto do que eu, sem reentrâncias ou portas, e encurvava-se ligeiramente rodeando os edifícios. Devia conter uma área enorme, a avaliar pela sua ligeiríssima curvatura, área essa que excedia em muito a da concavidade entre as duas colinas.
Tendo intimamente decidido que ou estava morto ou entrara num mundo de sonhos, comecei a caminhar ao longo do muro decidido a penetrar no seu anterior. Ao fim do que me pareceram horas – e que talvez o fossem – tive de me render à evidência. O muro permanecia liso e sem sinais de entrada. Parei para descansar um pouco, embora surpreendentemente não me sentisse fatigado. A vontade de visitar aquela área murada era cada vez maior mas não via bem como fazê-lo. Cheguei-me bem ao muro, à procura de qualquer imperfeição a que me pudesse agarrar. Nada encontrei. Mas ao erguer os braços com desespero apercebi-me de que as minhas mãos quase chegavam ao topo. Sempre considerara a minha grande altura como uma desvantagem – e era-o quando tentava passar despercebido após um pequeno roubo – mas agora parecia-me uma dádiva sem preço. Com um pouco de esforço talvez conseguisse agarrar-me ao topo do muro e trepar a força de pulso. E assim fiz. Foram várias as tentativas falhadas e a areia onde tombava parecia endurecer a cada queda que dava. Mas o sucesso coroou por fim os meus esforços.
Empoleirado no topo do muro sentei-me para recuperar as forças e para decidir o passo seguinte. À minha frente estendia-se uma cidade magnífica, toda ela feita do mesmo material brilhante do muro. Os edifícios eram elegantes, bem desenhados e espaçosos, encimados por cúpulas e telhados de feitios caprichosos e estranhos. Estavam separados uns dos outros pelo que só se poderia denominar de jardins, embora não se assemelhassem a nada que até então visse. Se ignorássemos as cores, seriam jardins normais, belos e opulentos como nenhuns, mas possíveis. Mas o colorido estragava essa ilusão. Parecia predominar um tom de laranja acobreado, intercalado, aqui e acolá, por lampejos multicores que pareciam piscar e reluzir como se tivessem vida própria. As formas assemelhavam-se às da nossa relva, arbustos ou flores mas de colorido e brilho inimagináveis.
Tudo isto apenas serviu para me convencer de que morrera e me encontrava nalgum mundo do Além de que nunca ouvira falar. Como nada tinha a perder saltei do muro bem decidido a explorar este mundo estranhamente fabuloso que se estendia a perder de vista. Embora tivesse caído desamparado não me magoei. Parecia até que o solo se torcera para melhor me amparar. Mas foi apenas uma breve sensação que logo pus de parte como impossível.
Comecei a caminhar ao longo de um dos muitos carreiros que avistara, rodeados de pequenos arbustos cintilantes. Era neles que se viam os lampejos multicores, que na altura me deslumbraram por nada ter visto de semelhante. Hoje posso compará-los a grandes diamantes fulgindo à luz de múltiplas velas. Mas não pareciam ter uma origem física ou então esta era tão pequena que me passou despercebida. A temperatura estava amena e corria uma ligeira aragem que parecia perfumada de aromas desconhecidos e suaves. Ao fim de algum tempo apercebi-me de que, embora não se visse vivalma, o silêncio era quebrado por sons distantes, apenas detectáveis. Parei para me concentrar neles. Por mais que me esforçasse não os ouvia com nitidez. Pareciam um sussurro, melodioso mas tão baixo que era quase inaudível, que atribuí à vez a música e a vozes, sem ficar com a certeza de nada.
Acabei por desistir e prossegui o meu caminho, parando, por vezes, para apreciar um edifício ou um grupo de flores exóticas. Não sei por quanto tempo caminhei assim. Pareceram-me horas, mas podem ter sido dias ou apenas minutos. Nada do que então me aconteceu tem raízes na experiência humana e por isso não tenho a certeza de nada. Nem sequer de não ter sido tudo um sonho.
Apercebi-me, finalmente, de que o carreiro por onde seguia tinha um propósito determinado, encaminhando-se, decididamente, em direcção ao que se poderia chamar o centro de toda aquela cidade. Não parecia ser o único, pois de ambos os lados avistava agora outros carreiros que pareciam ter o mesmo destino. Isso alegrou-me e preocupou-me ao mesmo tempo. Embora até então não avistasse vivalma achava improvável que tantos edifícios estivessem desabitados. Parecia tudo demasiadamente bem cuidado para estar abandonado. À minha estupefacção pelo que via juntava-se agora uma pontinha de receio pela recepção que poderia ter. Bem vistas as coisas não passava de um intruso e se os possíveis habitantes quisessem ter visitas então por certo teriam aberto portas na muralha da sua cidade.
Mas o medo apenas serviu para me incentivar. Quer estivesse morto, vivo ou a sonhar, a minha decisão era só uma: seguir esta aventura até ao fim. Apressei, pois, o passo, ansioso por conhecer o passo seguinte de tão estranha saga.
O carreiro desembocou, finalmente, numa praça que me pareceu enorme. Estava totalmente deserta. Ao centro avistava-se o que parecia ser uma estátua alada. Para ali me dirigi. Era a representação de um animal estranho. Parecia-se com um dragão, mas as suas enormes asas eram semelhantes às das águias e demasiado pequenas para tão gigantesco corpo. As patas também eram estranhas, terminando as da frente em forma de mão humana. Fora representado soerguido nas patas traseiras, com o focinho erguido para os céus e com as asas totalmente abertas. Nas patas dianteiras, perturbadoramente humanas e elegantes, segurava um pequeno baú semi-aberto.
Aproximei-me mais e, muito a medo, abri-o por completo. O seu interior continha um rolo de pergaminho e alguns anéis dourados. Enquanto hesitava, sem saber o que fazer, o pergaminho desenrolou-se por si mesmo e vi que na sua superfície estavam desenhados estranhos caracteres. Nessa altura não sabia ler e, mesmo se o soubesse, duvido que conseguisse traduzir aquela escrita. Mas isso não foi necessário porque uma voz sussurrante murmurou aos meus ouvidos:
“Se o teu coração é intrépido e quiseres conhecer os habitantes desta cidade, então coloca um destes anéis no dedo médio da mão esquerda. Mas lembra-te: tens muito a perder e pouco a ganhar.”
Com a impetuosidade da juventude nem hesitei. Estendi a mão e agarrei num dos anéis contidos no baú. Parecia demasiado grande para os meus finos dedos mas ao enfiá-lo no dedo indicado pareceu encolher, ajustando-se perfeitamente à minha pele.
A princípio nada mudou. A praça estava tão deserta como dantes, o sussurro distante continuava indecifrável e as cores que me rodeavam eram as mesmas. Mas pouco a pouco as coisas começaram a mudar, começando por uma ligeira turvação das imagens, que se foi acentuando até tudo se ter modificado. O espanto foi tão grande que quase sufoquei. Parecia-me que mudara novamente de mundo.
A praça estava agora cheia de criaturas que se moviam graciosa e apressadamente. Em vez do acobreado brilhante que parecia imperar anteriormente tudo agora tinha cores maravilhosas, intensas e variegadas. O sussurro aumentara de tom e, embora continuasse ininteligível, via-se agora que era o som de centenas de vozes erguidas em conversação ou canto. Era, verdadeiramente, um mundo à parte.
Concentrei-me nas criaturas que via um pouco por toda a parte. Muitas tinham forma humana, mas muito esguia e estilizada, parecendo flutuar sobre o chão de modo contínuo e suave. Outras tinham formas estranhas, uma mistura de elementos humanos e animais ou, até, totalmente desconhecidas. Mas todas tinham um elemento em comum: ao olhá-las ficava com uma sensação de beleza e de harmonia como não voltei a experimentar desde então, nem mesmo face às mais belas mulheres ou aos mais encantadores objectos. Aquilo que, descrito, poderia dar uma ideia de pesadelo, traduzia-se, sem que soubesse como, numa beleza ímpar e, acima de tudo, numa sensação de “verdade”, como se aquela fosse a única forma possível, ideal, para aquele ser.
Essa sensação de beleza sem igual estendia-se aos edifícios, que me pareciam ainda mais magníficos agora que os via na sua multiplicidade de cores. As coberturas fantásticas revelavam pormenores delicados, uma autêntica filigrana etérea mas que dava, ao mesmo tempo, a ideia de permanência, de durabilidade eterna que não se consegue obter com as fortalezas mais sólidas que entretanto conheci. Mas o material de que eram feitos permanecia uma incógnita.
A amenidade do ar era ainda mais pronunciada, se tal fosse possível, e os aromas suaves que transportava enchiam-me o espírito de delícias desconhecidas. Apesar da longa caminhada que efectuara para ali chegar sentia-me completamente fresco e repousado. Aliás, nunca me sentira melhor e não voltei a ter, desde então, uma sensação que se lhe aproximasse. Se ao menos tivesse sabido apreciar o que então tive em vez de me deixar cegar pela ideia de um futuro de prosperidade material!
Permanecia especado junto à estátua, de boca aberta de espanto e sem saber como reagir quando senti um leve toque no ombro esquerdo. Com o susto dei um enorme pulo, que me levou a pelo menos dois metros de distância. Virei-me e vi que uma das criaturas semi-humanas me olhava, a sorrir. Era bela, como todas as outras, distinguindo-se de uma mulher normal apenas devido aos olhos de um vermelho cintilante, facetados como pedras preciosas, e por duas minúsculas asas que lhe saíam da nuca. Bem mais alta do que eu, olhava-me, no entanto, quase de igual para igual e o seu sorriso fez com que os meus nervos agitados se acalmassem de imediato. Antes mesmo de falar já sabia que não me tinha inimizade, mas que sentia por mim uma certa parcialidade mesclada de indiferença. Aproximei-me, pois, até estarmos quase juntos.
— Bem-vindo à nossa cidade – disse, numa voz onde ressoava um ligeiro trinado e que era impossível de classificar. Aqui até os não convidados têm a sua oportunidade de escolher.
E fazendo-me sinal para a seguir dirigiu-se para um edifício redondo que ocupava um dos lados da praça.
Embora cheio de perguntas não me atrevi a erguer a voz. Havia algo naquela criatura que, embora não despertasse medo, me impedia de sentir um completo à-vontade na sua presença. Em silêncio, pois, atravessámos a imensa praça até atingirmos o nosso destino. Subidos cinco degraus deparámo-nos com duas portas imensas e escuras, que me impressionaram de modo desagradável. A sua superfície estava repleta de desenhos que pareciam tridimensionais e vivos. Quando fitava um deles nada se mexia mas pelo canto do olho via que o resto se retorcia e enclavinhava, quase como um ninho de cobras. Era a primeira coisa desarmoniosa que via desde que subira ao muro e fiquei cheio de vontade de fugir dali.
No entanto a criatura que me fizera sinal não parecia preocupada. Tocou-lhes com um dedo anormalmente fino e elas abriram-se com um chiar de dobradiças mal oleadas. Por momentos fez-se silêncio na praça e, ao virar-me, vi que todas as criaturas tinham parado e nos contemplavam. Mas não poderia dizer se com agrado ou desagrado. Mas logo tudo voltou ao normal.
Como hesitasse a minha acompanhante voltou a tocar-me no ombro – sempre o esquerdo – e fez-me sinal para entrar. Com o coração aos pulos, assim o fiz, fechando os olhos e dando um passo enorme para que a provação acabasse depressa. Quando os voltei a abrir era como se não o tivesse feito. O interior era do mais escuro que jamais vira. Não conseguia, literalmente, ver a minha mão quase em frente dos olhos. Foi um dos momentos mais aterradores da minha vida. Pensei que o meu fim chegara ou que, caso já estivesse morto, tivesse sido enviado para um dos piores infernos de que ouvira falar.
Quando pensei não poder suportar mais a escuridão e o silêncio a voz da criatura soou novamente, parecendo ainda mais musical do que lá fora:
— Este é o edifício que contém o Espelho das Almas. Só este tomará a decisão final, mas para lá chegar é preciso passar por várias provas, que podem ser fatais. Todos os que visitam a nossa cidade têm de passar por aqui. A alternativa é serem eliminados para todo o sempre.
A única parte boa deste discurso era a ideia de que afinal não devia estar morto. Embora a ideia das provas me assustasse sempre fui lutador e não me agradava a perspectiva de nem ao menos tentar. Estava para dizer isso mesmo quando a criatura, que parecia adivinhar-me os pensamentos, acrescentou:
— Muito bem. Prossigamos. Estamos no corredor da Confiança. Esta parte do percurso tem de ser feita na escuridão, e sem qualquer apoio. O caminho não tem obstáculos e basta dar cinquenta passos em frente, sem hesitações ou paragens. Volto a lembrar: uma prova falhada representa a obliteração.
As coisas começavam mal. Sempre tive medo do escuro, o que não é de estranhar para quem teve de sobreviver durante longos anos nas escuríssimas ruelas de uma vilória, onde nunca se sabia em que ou em quem poderíamos tropeçar. Ainda hoje tenho uma profunda cicatriz resultante de um encontro aziago com um cão esfaimado numa noite sem Lua. Mas sou um lutador, como já referi, e morto por morto preferia sair tentando.
Abafando o melhor possível os meus receios comecei a caminhada, tentando manter um ritmo certo e sem hesitações. O chão era estranho, parecendo umas vezes mole e outras duro. Mas segui sempre em frente, contando mentalmente. Foram os cinquenta passos mais longos da minha vida. Ao dar o último todo o local se encheu de luz, uma luz esverdeada e forte, que quase me cegou, após a escuridão anterior. A criatura estava à minha frente, sorrindo.
— Primeira prova superada. Entramos agora na Câmara dos Desejos. A prova consiste em escolher um objecto de entre os muitos que a povoam. Só se for o objecto certo é que o caminho fica livre.
Verifiquei, então, que o corredor que percorrera desembocava numa imensa câmara repleta de estantes e mesas onde se viam as coisas mais díspares, tudo iluminado por uma luz difusa e esverdeada que parecia provir de todos os lados ao mesmo tempo. O coração caiu-me aos pés. O que seria o objecto certo, no meio de todo aquele bazar? Embora contrariado penetrei na Câmara e comecei a analisar os objectos que a enchiam. Havia de tudo um pouco: preciosos e baratos, metálicos, de vidro, de madeira, tecidos, pergaminhos, frascos de perfume, enfim, uma colecção capaz de fazer inveja ao mais cotado mercador. Mas nada me parecia digno de ser escolhido. Oh, havia coisas fabulosamente belas, sobretudo para um provinciano como eu. Mas, não sei bem porquê, não me decidia a escolher nenhuma delas. Não me pareciam suficientemente ”únicas”.
E assim fui andando, de mesa em mesa e de estante em estante, tudo vendo e tudo rejeitando. A criatura parecia não ter pressa, mantendo-se imóvel junto a uma pesada e retorcida grade de ferro que parecia guardar a única saída. Já tinha visto tantas coisas que me sentia tentado a desistir quando algo me chamou a atenção. Aproximei-me e vi, na prateleira mais baixa de uma pequena estante o que à primeira vista não passava da reprodução grosseira e demasiado colorida de um coração rodeado de grandes chamas. Parecia impossível que no meio de tantas riquezas uma pobre coisa como aquela me tivesse chamado. Mas fora isso que acontecera. Sentia-me irresistivelmente atraído por aquela imagem baratucha e nem sequer bem feita. Tentei afastar-me por diversas vezes, mas via-me forçado a voltar atrás e a contemplá-la de novo.
Desisti de lutar. Agarrei-a e levei-a até à criatura, absolutamente certo de que era o meu fim. Aquele não podia ser o objecto certo, o único que me tinha sido pedido. Estendi-lho, encolhendo-me um pouco com receio do que estava para vir. Mas com grande surpresa minha a grade deslizou para um dos lados deixando a descoberto uma pequena passagem que terminava numa nova porta.
— Mais uma prova superada. Já só falta mais uma, antes de chegarmos ao Espelho das Almas.
Virou-se e dirigiu-se para a outra porta. Esta era bastante estranha, mesmo depois de todas as coisas esquisitas que vira até então. Não parecia sólida mas feita de uma espécie de nevoeiro multicor, onde se agitavam formas indistintas e se moviam vultos que não se chegava a perceber bem o que eram. Mas sólida ou não barrava totalmente o caminho.
— Chegámos à Ponte do Mundo. Tem três guardiães. Mais uma vez é preciso escolher o certo e pedir-lhe passagem.
E sem acrescentar mais nada passou através da barreira. Como não sabia que fazer, decidi-me a imitá-la. Aproximei-me e parei por instantes tentando perceber o que via. Mas as imagens entrevistas eram demasiado vagas e difusas para que pudesse dizer a que correspondiam. Por isso dei um passo em frente, convencido de que iria ser muito desagradável passar por ela. Estava à espera de uma sensação de frio húmido e pegajoso, como o que costumava sentir na minha terra em certas noites de Inverno. Mas nada senti. A porta era como se não existisse. A única diferença é que agora via o que estava por detrás dela.
À minha frente via uma larguíssima ponte lançada sobre um abismo aparentemente sem fundo. Pelo menos era bem larga no início. Mas ia estreitando até que, a cerca de metade do caminho, já só dava para cerca de quatro pessoas a par. Era nesse ponto que se viam três vultos. Deviam ser os guardiães.
Como a criatura que me acompanhava parecia ter desaparecido fui avançando cautelosamente pela ponte. À medida que me aproximava podia ver melhor o tipo de criaturas que me aguardavam. Eram seres muito estranhos e um pouco assustadores.
O da esquerda tinha um corpo entroncado e forte mas não muito alto. Vestia de castanho-escuro, algo que parecia quase uma couraça. A cabeça, no entanto, destoava do conjunto: estreia e pontiaguda, parecia-se com uma raposa, mas com grandes olhos de pupila vertical como a dos gatos e dois pequenos cornos retorcidos no topo. As mãos, poderosíssimas, terminavam em garras como as das águias e seguravam uma lança que parecia demasiado alta para aquele corpo.. O do meio tinha um corpo um pouco mais alto do que o meu, mas bem proporcionado. A cabeça era a de um cão, de dentes pontiagudos e olhos coruscantes e tinha nas mãos uma poderosa acha de guerra. O da direita tinha um corpo de serpente, grossíssimo, enroscado em inúmeros anéis de onde sobressaíam duas enormes asas. Tudo isto encimado por uma enorme cabeça de touro de cuja boca saíam labaredas.
Estava ainda mais atrapalhado do que na Câmara dos Desejos. Não sabia qual deles escolher, pois todos me pareciam igualmente assustadores, em particular o do meio, com a sua cabeça de cão. Como já disse anteriormente, os meus encontros com cães não tinham sido dos mais felizes. Por isso concentrei a minha atenção nos outros dois. Sentia-me tentado a escolher o da esquerda, uma vez que tudo até então estivera relacionado com aquele lado. Mas a desproporção entre o corpo e a cabeça repugnavam-me. Virei-me para o da direita e estava já perto quando tive a mesma reacção. Havia algo no conjunto que me desagradava imensamente. Acabei por me aproximar do do meio, pois, embora detestasse cães, era o que me repelia menos.
Vi-me assim face a face com a sua bocarra escancarada, que parecia capaz de me arrancar a cabeça. Quando o vi levantar a acha pensei que chegara o meu último momento. Mas virou-se para um dos lados e acertou com ela no ser cabeça de raposa, que prontamente se evaporou. Fez o mesmo do outro lado, ficando a ponte vazia com excepção de nós os dois. A sua imagem tremeluziu, então, e pareceu deslizar pelo caminho à minha frente, desaparecendo por um arco que se avistava ao longe. E fiquei só.
Decidi caminhar até esse arco, notando que a ponte se estreitara de tal modo que mal tinha largura para o meu magro corpo. A criatura da praça aguardava-me junto ao arco.
— Falta apenas a prova do Espelho das Almas. Mas esta é apenas uma escolha.
Virando-se, passou por baixo do arco. Fiz o mesmo.
Estávamos numa pequena sala redonda, que parecia ter apenas aquela abertura. À minha frente via-se uma superfície polida, que parecia atrair-me de modo misterioso. Aproximei-me sem qualquer receio até estar a poucos centímetros dela. Vi então que uma estranha criatura me contemplava. Tinha corpo de dragão, mas de um dragão pequenino e lindo, com maravilhosas escamas verdes e amarelas que pareciam cintilar e mudar de aspecto continuamente. De cada lado saíam enormes asas vermelhas, capazes de fazerem voar um corpo bem maior do que aquele. O mais estranho era a cabeça: não se assemelhava a nada que alguma vez tenha visto, mas parecia estar estranhamente em harmonia com o resto.
Fiquei embasbacado, contemplando aquele ser estranho que via onde esperara ver a minha imagem. Não sei quanto tempo decorreu nesse silêncio estupefacto mas por fim arranquei-me àquela contemplação que me deliciava sem que soubesse porquê e virei-me na direcção do arco. A criatura permanecia no mesmo ponto, mas parecia maior, mais luminosa e amigável do que antes. Ia perguntar-lhe o significado de tudo o que vira e vivera quando mais uma vez pareceu adivinhar os meus intentos.
— Essa é a imagem da tua alma. Se decidires ficar na cidade, será essa a tua forma. Quanto às provas, penso não precisar de te explicar a primeira. Confiaste nos teus instintos, que te diziam que eu não era capaz de te fazer mal. Na segunda demonstrastes que o teu maior desejo é uma vida vivida com emoção e encantamento, ansiando sempre por mais e melhor. E na terceira sobrepuseste o teu sentido da harmonia das coisas aos teus gostos pessoais. Demonstrastes, pois, seres digno de aqui viver.
Deu dois passos em frente e prosseguiu:
— Mas tens de escolher. Se aqui ficares, terás de renunciar à vida que poderias vir a ter se te fores embora. E tenho de dizer-te que seria uma bela vida, cheia de sucesso, riquezas, amizades e amor. Aqui terás paz, harmonia e uma longa existência sem sobressaltos ou angústias. Escolhe!
E foi então que cometi o maior erro da minha vida. Era novo, nada vira, nada experimentara para além de miséria e trabalhos duros. A ideia de vir a ser rico, considerado, de ver coisas e lugares, de conhecer novas gentes e novos costumes foi mais poderosa. Escolhi a vida.
Não precisei de abrir a boca. Assim que a minha mente formalizou a escolha logo me encontrei no topo da colina a que subira para ver se o deserto estava a chegar ao fim. A noite começava a cair, com a rapidez própria do deserto. Não entendia como isso era possível, uma vez que tinha a sensação de terem passados horas desde que saíra do acampamento. Se calhar tinham sido dias. O vento do fim da tarde acalmara e a depressão entre as duas colinas estava perfeitamente lisa e regular.
Trôpego e sem bem saber o que fazia desci o mais depressa possível até ao acampamento onde fui recebido com total indiferença. Ninguém dera pela minha ausência. Comecei até a pensar que tudo não passara de um sonho ou de uma alucinação provocada por excesso de sol e de fadiga. Mas na minha mão esquerda brilhava um anel dourado que nunca possuíra.
No dia seguinte a viagem prosseguiu sem percalços de maior, dando início a uma carreira que me tornou num dos mercadores mais ricos e invejados do meu tempo. Viajei incessantemente, vi maravilhas incontáveis, rodeei-me de luxo e de amigos dedicados, mas nunca fui totalmente feliz. A recordação daquela a que chamo a Cidade dos Anjos não me abandona o espírito, fazendo-me ansiar por uma paz e harmonia inexistentes neste mundo. Há anos que a procuro, muito particularmente junto às Colinas das Areias Cantantes, fenómeno que a população local jura ser provocado pelos espíritos que habitam por debaixo do deserto.
Mas nunca mais a avistei e começo a pensar que morrerei sem alcançar aquilo que levianamente recusei aos 20 anos.

Luísa Lopes

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