Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A Fantasia Desmascarada


As demais crianças fugiam, mas ela não. Aberta ao acaso, alma à mostra, em seus muitos encontros admirava-os com os lábios entreabertos e sussurrantes, e tudo nela rescendia a palhaços de circo: a decoração do quarto, estampas de vestuário, as capas de caderno, os motivos de seu aniversário. E se desde as primeiras impressões fascinara-se pelos comediantes de picadeiro, somente na adolescência, com o ápice das fantasias eróticas, desentranhou-se-lhe o caráter da atração. Imaginava-se borrada pelo branco e o vermelho dos cosméticos, envolvida por um misto de essências perfumosas e suor de homem, corpos em conflito, e não obstante fossem cenas de sexo a nudez dos palhaços limitava-se à braguilha aberta, dela irrompendo um órgão genital feito de bexigas infladas.

Pretendendo violar as herméticas razões de seus desejos, despendeu a maior parte das remunerações com o primeiro emprego consultando um psicanalista, em cincos anos libertando-se das sessões e do tratamento ao sequer ouvir do afônico clínico o próprio nome. Passando ao exercício da autoanálise, redigiu diários e interpretou sonhos, escrutou a si, a seus motivos, e indene à própria averiguação, exasperada quanto à singular infinidade do espírito humano, consagrou-se a outro exercício, o da aceitação: tinha uma tara por palhaços, teria uma tara por palhaços, e já cursando a silhueta do desejo, tateando as imprecisas delimitações da vontade, vestiu o então namorado com roupas largas e coloridas, suspensórios, pintou-lhe os lábios de vermelho e as sobrancelhas de azul – enfim, fantasiou o embasbacado rapaz conforme os preceitos de sua perversão. Nessa tarde de matizes circenses, e testemunhas do céu alvoroçado em cores e calores, cometeram eles orgias funambulescas, do ato sucedendo-se como consequência única o constrangimento que levou ao término da relação.

Todavia, Ana estava decidida a concretizar esse delírio, e quando um circo compareceu à cidade ela era presença constante, e solitária, nas apresentações. Com os cabelos soltos, cor de mel, ocultando-lhe a face, e sabendo de sua estada aprazada, de seu destino aproximado, nos começos, intervalos e fins dos shows passeava entre as barraquinhas de pipoca e algodão-doce, entre os estandes e os atores saltimbancos, circulando inclusive entre os trailers onde alojavam-se os acrobatas e domadores, ou os bufões e as bailarinas e os cães adestrados. Ao pisar na terra acolchoada com serragem a moça aspirava as emanações úmidas e sufocantes dos animais, de seus dejetos, e fungando-as evocava, de certa forma, os juízos do coração.

Pois vagando assim, errando assim, uma noite reconheceu, após o espetáculo e vestido à paisana, e devido aos olhos estrábicos e incomuns, ao nariz adunco, um dos, senão o principal, palhaço da trupe. Desta feita apresentando-se ela, no rosto o sorriso incandescente como as lamparinas do palco, com o jovem entabulou um diálogo simples, direto e rápido, e pressentindo as graças da chance, tremendo e suando pelas mãos, convidou-o para sair e conhecerem-se melhor.

Ele aceitou.

Por mensagens combinaram a hora e o lugar, e nessa hora ela chegou cedo e nesse lugar chegou antes. Do banco na qual sentara-se abanou ao distingui-lo das distâncias e vultos, e em sua direção ele acorreu vestindo as mesmas vestes do encontro anterior, as mesmas roupas encardidas e velhas, e esse favorável descuido ela atribuiu a seu temperamento distraído, alheio e, sobretudo, apatetado, com as mãos e os pés grandes e desengonçados, olheiras semelhantes aos pântanos das narrativas de terror, o pomo de Adão pululando sorrateiramente na garganta tal qual um predador sob a pele. Não haveria um palhaço mais perfeito, denunciava o rosto de Ana, a expressão de Ana, e sentando-se lado a lado os dois conversaram, regidos pelo genuíno interesse dela, durante horas. Num surto de honestidade e coragem, com a testa luzindo em suor, a pele rescendendo a desejo, expôs seu fetiche ao impassível comediante.

Tudo bem, disse ele. Já estou acostumado.

Não obstante, estaria na cidade por mais somente aquela noite. O circo há de viajar, esclareceu, em tom profético, o rosto entregue a um hipotético horizonte, e afinal revelando-se diligente e perspicaz, propôs visitarem sua barraca, onde apanharia o traje de palhaço e o conjunto de maquilagem, e irem para a casa dela.

Ana aceitou.

Quarenta minutos depois entravam em seu apartamento, e ele, vestindo-se no banheiro, de lá irrompeu e surpreendeu-a com uma buzinada. Ana riu, sorriu, apreciou a miríade de cores faciais, a sobrecasaca roxa e as calças amarelas, a peruca avermelhada, e aproximando-se para beijá-lo recebeu nos lábios o esguicho de uma flor que cuspia água. Molhada, amaram-se sob a égide da madrugada, ouvindo o metálico cricrilar, ou gargalhar, da cama. Dormiram juntos, e ao despertar com as luzes da alvorada cortejando o quarto, ela tateou os lençóis e, abrindo os olhos, não descobriu-o a seu lado. Fora embora. Deixara como lembrança sobre o travesseiro, entretanto, a ponta vermelha do nariz.
Ana segurou-a, espreguiçou-se, e voltou a dormir. No caminho entre vigília e sonho, como lampejos cintilavam apreciações relativas à insatisfatória experiência e paralelos com as suas fantasias, todos eles negativos.

A realidade a decepcionara.

Palhaçada, murmurou Ana, e entregou-se ao vazio.

Share


Erik K. Weber
Gaúcho.






0 comentários:

Postar um comentário