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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A COROA DA JAMAICA

“Com umas cordas [Jesus], fez um chicote e expulsou-os a todos do Templo, com as ovelhas e os bois. Deitou por terra o dinheiro dos banqueiros e derrubou-lhes as mesas.”
(João 2, 15)

            Era uma vez um homem justo e honrado que se tornou presidente do Brasil. Numa noite de quarta-feira, após cumprir seus compromissos de chefe de Estado e de governo, ele ligou a televisão, pois isso sempre o ajudava a pegar no sono. Eis que, passando os canais, ele viu um pastor chamado Valdemito Sandiablo, que alugava longas horas da programação de uma emissora de TV aberta, anunciando um martelo ungido, que teria o poder de, pela graça de Deus, realizar desejos. Bastava que o fiel o comprasse, por um preço bem superior a um salário mínimo, e tocasse com ele os objetos que desejava. Sem pensar duas vezes, o presidente ligou para o número indicado na tela e comprou o objeto, dando o endereço de seu apartamento em São Paulo, para onde iria no fim de semana almoçar com a filha e o genro.
            Eis que, na semana seguinte, em visita oficial ao Reino Unido, o presidente do Brasil, ao lado do Ministro da Justiça, diante de várias câmeras, postou-se diante do Palácio de Buckingham, onde seria recebido pela Rainha. Para surpresa de todos, o presidente desabotoou o paletó e fez ver que, por baixo dele, enfiado na calça, estava o famoso martelo ungido. Exibindo-o para as câmeras, disse: “Em nome de Jesus de Nazaré, eu tomo posse deste palácio e de tudo a que a ele se relaciona: a coroa da Inglaterra e de todos os reinos da monarquia britânica.” Feito isso, foi ao encontro da Rainha e anunciou: “Madame, se Vossa Majestade não me entregar agora diante das câmeras a coroa da Inglaterra e abdicar do trono em meu favor, estará comprovado o estelionato praticado por um líder religioso brasileiro, que vende por um preço extorsivo este martelo ungido, dizendo que, pela graça de Deus, este objeto realiza desejos.”
            A Rainha não teve outra reação a não ser rir do absurdo, ao que retorquiu o presidente: “Usarei as imagens de sua risada como prova do crime desse fariseu. Senhor Ministro da Justiça, na falta de um delegado de polícia, é a Vossa Excelência que faço a denúncia. É preciso colocar esse criminoso na cadeia. E declaro aqui, diante das câmeras, que está suspensa a concessão dessa emissora que aluga o espaço que lhe foi concedido pelo Estado brasileiro para um homem que engana pessoas pobres e ignorantes e lhes rouba as economias, ao invés de veicular uma programação que promova a cultura e a informação, como manda a nossa Constituição.”
No dia seguinte, os jornais acusaram o presidente de atentar contra democracia, contra a liberdade de expressão e contra a liberdade religiosa. Retrucou o presidente que nenhuma igreja havia sido fechada, nenhum altar destruído, nem uma única palavra tinha sido dita por ele, presidente, contra a fé cristã, contra o islamismo, contra o candomblé ou qualquer outro credo, mas que condenara a prática de estelionato por parte de um líder religioso que deveria levar consolo aos fiéis e não abusar de seu sofrimento para extorquir-lhes as minguadas economias. E a prova de que o martelo ungido não tinha nenhum poder mágico para realizar desejos estava registrada por aquelas câmeras: a risada da Rainha tinha sido exibida em todos os telejornais. E a emissora que permitira que esse crime de estelionato alcançasse os lares de tantos brasileiros era cúmplice do crime, e, por isso, sua concessão estava sendo justamente cassada. Era assim que ele agia em favor do bem comum – o que se dissesse ao contrário nada mais poderia ser que tentativas de misturar o sagrado direito à liberdade de expressão com a prática do mais nefasto estelionato.
O pastor Valdemito tentou sair do Brasil tão logo viu encerradas as atividades da emissora com ele acumpliciada, mas a Polícia Federal retirou seu passaporte e o algemou no aeroporto. Sabendo da prisão do seu líder, os fiéis foram à rua protestar. Em cadeia nacional de rádio e televisão, o presidente prontamente os tranquilizou:
– Senhores, retirarei a denúncia contra o pastor Valdemito tão logo a Rainha da Inglaterra me conceda seu trono. Ou pelo menos coloque não todos os seus reinos em minhas mãos, mas tão só o reino da Jamaica. Já encomendei mesmo a um artista plástico a confecção de uma coroa para quando ela me declarar monarca da pátria de Bob Marley. Pois, como todos vocês viram, eu toquei com o martelo ungido o Palácio de Buckingham. E o pastor Valdemito garantiu em seu programa que, pela graça de Deus, quem comprasse aquele martelo ungido teria seus desejos realizados. Dou a ele a oportunidade de provar a veracidade dos poderes que ele atribuiu ao martelo.
No dia seguinte, os outros pastores responderam que o martelo não funcionou para o presidente porque ele não tinha fé. Em novo pronunciamento, o presidente mostrou a bela coroa que fora confeccionada especialmente para ele e disse:
– Encontrem um único fiel com fé do tamanho de um grão de mostarda, e eu o levarei até Londres para que faça o mesmo teste que eu fiz. Se a Rainha o nomear imperador da Jamaica no lugar dela, eu retirarei a acusação contra Valdemito e ele estará livre.
Responderam os pastores que aquele pedido não podia ser realizado pelo martelo ungido, pois isso dependia da vontade da Rainha, a quem Deus dotara de livre arbítrio, como a todos os seres humanos.
 – Faço então outra proposta. Valdemito pode ir ao Hospital do Câncer, onde certamente haverá pessoas de muita fé, aptas a receberem um milagre. Faça ele desaparecer um único tumor maligno pelo poder da oração, como tantas vezes disse no seu programa de TV que tinha feito. Eu então reconhecerei que ele é um homem de Deus e retirarei a acusação de estelionato contra ele. Irei mesmo visitar o Hospital do Câncer amanhã e o convido a vir comigo, pois a Constituição garante o direito à assistência religiosa aos enfermos internados e ele pode fazer essa boa ação. Mas, se não conseguir curar ninguém, acrescentarei contra ele a acusação de charlatanismo.
Valdemito não se animou a acompanhar o presidente na visita ao Hospital do Câncer, a Rainha não entregou o trono da Jamaica ao presidente e, assim, aquele santo homem continuou preso e o seus fiéis passaram a orar todos os dias para que ele tivesse forças para suportar essa provação que Deus lhe enviara.

(São Gonçalo, 1º semestre de 2015 – versão final: 20/07/2016)





quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Prioridades







Fábio, de olhos fixos no ecrã, roía nervosamente a tampa da caneta. Apontamentos, rabiscados em dezenas de folhas, estavam espalhados sobre o tampo da secretária, por baixo dos cotovelos e sobre o teclado. No ecrã, as linhas pretas sobre fundo branco, pareciam ondular e emitiam reflexos sobre as lentes dos óculos. De tempos a tempos, ideias brotavam, através dos dedos para as teclas e fundiam-se em frases, que se materializavam no texto.
Subitamente, uma dúvida assaltou-o e começou a rebuscar os rascunhos, até que, pelo canto do olho, percebeu a presença encostada ao umbral da porta.
Olhou, entre o surpreendido e o confundido para Eduarda que, de braços cruzados, exibia uma expressão de desagrado.
— É... para ir jantar? — Perguntou hesitante e confundido, se tinha feito algo errado.
— Era. Era mesmo para ir jantar. — A voz rouca dela era firme e cheia de acusações. — Há mais de uma hora, quando te vim chamar e me disseste que já ias.
— Uma hora?!? — Ele continuava confundido. — Chamaste-me? Não ouvi...
— Sim, uma hora, Fábio Ferreira. Mais de uma hora que estive à tua espera. Acabei agora mesmo o meu jantar… frio!
— Oh, meu amor, desculpa-me, mas eu... — Principiou a desculpar-se.
— Sim, eu sei, tens esse teu maldito livro na cabeça e não tens espaço para mais nada. Há mais de quatro meses que não pensas noutra coisa... mesmo!
— … tenho de acabar este livro, enquanto não o fizer, não consigo sequer dormir!
A posição dela alterou-se. Colocou as mãos atrás do corpo e olhou para o chão enquanto se queixava baixinho:
— Não aguento mais isto…
— Por favor... — Ele ergueu-se e tentou abraçá-la, mas foi sacudido de imediato. — Não vês que é uma fase? Assim que terminar o livro, tudo será diferente.
— Diferente? Diferente até quando? Até ao próximo livro? Achas que é fácil? Viver num mundo sozinha, em que tu estás de corpo presente, mas com a cabeça sabe-se lá onde? Faço-te perguntas e não respondes ou respondes tanto tempo depois que já nem sei do que falas. Há quanto tempo não temos uma conversa sobre qualquer coisa? Passo refeições sozinha, a olhar para televisão, sem saber o que está a dar... contigo a meu lado.
— Mas estou ao teu lado sempre que posso... Acusas-me de ser lento a responder-te porque estou ausente e não te dou atenção. Para ti é fácil, a tua cabeça está cheia de ligações ao mundo e ao ambiente que te rodeia. A minha, está cheia de mundos e de vida interior... quando demoro a responder, é porque já vivi uma vida inteira, entre a tua pergunta e a minha resposta.
Ela olhou-o estranhamente e ele sorriu-lhe com tristeza enquanto apreciava o cabelo claro, curto, que lhe dava um aspeto de rapazinho e o rosto fino e sardento que ele tanto amava. Tentou acariciar-lhe o rosto, mas ela evitou o contato.
— Ausente, sempre! — Concluiu ela. — Seja absorvido por um livro, seja a escrevinhar com demência em qualquer papel, ou enclavinhado no computador! — A voz alterada atenuou-se e as lágrimas pareciam querer explodir nos olhos castanhos. — Onde estás tu, que não estás comigo? Que é que te leva para esse mundo distante, onde eu não estou e não te faço falta?
— Não é verdade, que não me fazes falta! Eu amo-te, preciso de ti e não posso viver sem ti!
— Para te lavar a roupa, arrumar a casa e... fazer amor... quando te lembras. Quantas vezes dormiste, nessa secretária, só este mês? Quantas vezes vieste gelado para a cama, já de madrugada, apenas para te enroscares em mim e adormecer de imediato? Estou farta!
— Desculpa-me! Eu compreendo que não deve ser fácil para ti, mas não consigo evitar. São os mundos, dentro da minha cabeça, milhões de mundos, aos quais me ligo e me perco. Quando as ideias começam a fluir, é como um transe onde visualizo cada cena, cada personagem, cada expressão. Tenho de escrever tudo, antes que se vá. Antes que desapareçam para sempre, como farrapos de um sonho aos primeiros raios da alvorada.
— Não posso mais! — Ela repetiu agora voltando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto. — Fica-te com os teus mundos e não me incomodes... eu vou arranjar, o que for preciso, para não te incomodar mais.
A porta do quarto estrondeou com força fazendo tremer os vidros na cristaleira.
Ele quedou-se em pé, olhando o corredor e a luz que se escoava por baixo da porta. Sabia que devia ir ter com ela, tentar compor as coisas, a sua cabeça fervilhava de ideias, de coisas que precisava escrever. Olhou para a secretária e, no chão, reluzia o apontamento que ele procurava. Apanhou-o, sentou-se em frente ao computador e recomeçou a escrever.
A luz do sol entrava pelas aberturas das persianas. Fábio dormia com a cabeça sobre a secretária, os óculos dobrados a marcar-lhe o rosto e a boca aberta numa respiração pesada. Alguns papéis espalhavam-se pelo chão.
Eduarda, mala na mão, olhou-o uma última vez. As lágrimas corriam-lhe livremente pelo rosto enquanto, por breves instantes, refulgiram com aquele brilho que ele em tempos acendia neles. Depois, como que acordada de um sonho, limpou as lágrimas com as costas da mão e pousou as chaves da casa, na secretária ao pé do homem adormecido.
Caminhou, lenta, mas firmemente e saiu do apartamento, fechando a porta com cuidado, para não acordar o marido.





terça-feira, 27 de agosto de 2019

As quatro estações









domingo, 25 de agosto de 2019

O Apocalipse de Atouguia


(Sibila neandertal)


Atouguia era uma mulher neandertal que vivia na zona mais ocidental da atual Península Ibérica, 29 mil anos antes do presente. A sua vivência simples de recoletora, adaptada às condições climáticas de então, foi certo dia marcada pelo terror de um feroz ataque de esguios e sanguinários invasores. Fugiu, escondeu-se numa loca rochosa, ouviu os gritos desesperados dos seus irmãos. Assistiu em agonia à morte de todos os membros do seu clã, que, depois de esquartejados pelas lâminas de sílex dos atacantes, foram comidos, numa orgia de sangue e ferocidade, que durou vários dias. Obrigada pela fome a tentar escapar, foi descoberta, apanhada e tornada alvo da turba cro-magnon. Violada repetidamente em festim da carne viva, acabou por ser poupada, não devido à alvura da pele da sua raça, mas à intensidade rubra dos cabelos. Os recém-chegados passaram a ser os seus donos e os novos senhores do seu mundo esfacelado. Tornou-se mãe de uma criança mista, calada e estranha.
A sua cria ainda durou quatro anos, mas, mais frágil do que as da sua antiga tribo, acabou por morrer aninhada nos seus braços. Atouguia sepultou-a na reentrância de uma falésia calcária, na zona do Lapedo, com alguns mimos de conchas e ossos pintados de ocre e, entre os joelhos, um coelho acabado de sacrificar. Depois, enlouquecida de dor e desesperança, retirou-se para um monte chamado Berlenga e pôs-se a profetizar desgraças para os seus captores e para a mãe Terra, em grandes lamentos que lhe eram revelados — dizia. Este é o rol das suas visões:

1 — Sentada no mais alto dos penedos da Berlenga e embrenhada na minha dor, lastimava a lonjura infinita do mar, quando ouvi uma voz potente atrás de mim. Voltei-me mas só vi uma névoa que parecia o meu pai. Ele falou lenta, mas profundamente, em frases cortadas por silêncios:
2 — Eu vejo o mal que vai assolar o mundo. Vejo turbas em fúria, vejo grandes tribos ser dizimadas, vejo a mãe Terra negar o alimento aos famintos. Aqueles que agora se banqueteiam com as nossas carnes amargarão a crueza da sua violência. Esta Terra que foi sempre mãe solícita e generosa, vai negar-lhes o úbere.
3 — Durante muito tempo, andarão enganados, iludidos pela sua própria expansão. Crescerão, invadirão campos e mares, expulsarão os seres irmãos dos territórios que cobiçam. Serão tantos que a Terra será incapaz de os alimentar. Apertarão o úbere da Terra até o esmagar, mas ele não verterá uma gota.
4 — Pragas envolverão as suas aldeias e tornarão arenosas as planuras. Querendo mais comida para si, espalharão venenos para debelar as pragas que lhes roubarão um resto de sustento. Matarão assim também os insetos úteis e não haverá pólenes a passar de flor em flor. Não haverá mais frutos, nem mais árvores novas, nem mais comida para os animais.
5 — Grandes incêndios engolirão florestas e matos e não restarão animais que eles possam caçar. Quando pensarem descansar, não terão sombras em que se refrescar, o sol queimará as suas peles e não terão descanso. Doenças e maleitas corroerão as suas entranhas e vomitarão os fígados, os bofes e as tripas. Fugirão para lá dos mares, mas o panorama será igualmente desolador.
6 — Vão-se arrastar nas campinas, tentando roer as ervas esparsas, mas elas serão amargas e envenenarão os seus ventres; em vão, percorrerão as margens dos rios e do mar, em busca de vermes e bolores, mas nada haverá que lhes mate a fome, nem água sã que lhes mate a sede.
7 — Os mananciais envenenados serão aterrados e secarão. Alucinados por pestes e epidemias deitarão as culpas aos seus semelhantes e eles próprios se dizimarão. As tribos famélicas e enlouquecidas enfrentarão outras tribos e os cadáveres insepultos secarão ao sol. Nem os abutres lhes quererão arrancar qualquer pedaço das carnes venenosas.
8 — As hecatombes serão diárias. Por fim, será tão evidente a insensata vida que escolheram que muitos se arrependerão, mas será tarde. A mãe Terra será um local morto. E terá de voltar a esforçar-se sozinha para recuperar do cataclismo que esta vil espécie Lhe infligiu.
9 — Esta é a revelação feita a Atouguia, que desvela o futuro da Terra. Ouvi!

Joaquim Bispo

*
Por seleção em concurso literário, este texto integra a coletânea "A Arte do Terror Volume 6 ou Apocalipse", projeto da editora Elemental Editoração.
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Imagem: Fernand Cormon, Caim fugindo perante a maldição de Jeová, 1880.
Coleção Museu d'Orsay, Paris.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

PRELÚDIO







Pela escuridão do quarto, imagina ser noite.  Ou madrugada...
Perdera a noção do tempo. Foram muitas mortes, muitos renascimentos. Tanta aflição, tantas dores, tanta luta! Mas, agora, vindo não se sabe de onde, é invadido por um deleitoso sossego.  
No silêncio, entrecortado pelo gotejar do soro no equipo, os pensamentos, de maneira incansável se avolumam, se atropelam como se disputassem uma corrida derradeira. E no peito, o retumbe do coração mais parece o bater das asas inexperientes do menino passarinho. Sabe que está longe disso.
A inércia do corpo não lhe permite observar aquilo que não esteja na direção dos olhos. Vê o teto, apenas o teto. Ainda lhe restaram os ouvidos. Ouve perfeitamente. E sente o toque. Incomoda-se quando percebe os olhos mendicantes de Leninha. Sabe que ela procura uma certeza. Quer saber se ele está ali, se a escuta, se a reconhece.  Mas, infelizmente, não tem o controle da resposta.
Leninha deve estar por ali, em algum lugar do quarto. Há um ressonar leve espalhado na penumbra, tão leve quanto ela. Companheira de vida, cumplicidade velada. Filhos não brotaram. Apesar da expectativa levada por toda vida, percebeu que a esperança escorreu pelos cantos dos olhos quando Leninha sentiu que as regras haviam cessado. Neste dia, chorou. Foi a única vez que se mostrou derrotada. Aconchegada nos braços ternos de Nestor, extravasou a dor da frustração. Alisava a barriga com desdém, com raiva, dizendo-se seca, estéril. Menosprezava-se.
E sabe que deveria ter amenizado a dor da companheira. O problema poderia não estar com ela! Nunca avaliaram, nunca procuraram orientação médica. Poderia ter dito isso a ela. Mas não disse. Talvez por orgulho, talvez por culpa. E ela nunca aventou tal possibilidade. Talvez por respeito, talvez por amor.
Para ele, a vida era um querer sem freios. Eram metas, metas e metas. Alcançada a primeira, nem a degustava e já era sugado pela engrenagem da próxima, da próxima e da próxima. A vida era uma moenga de momentos, de sonhos. Para Leninha, não. Passava plena pelos minutos, pelas horas, pelos dias, pela vida. Talvez o constante brilho do olhar e a perene ternura do seu trato tenham norteado e protegido a caminhada confiante de Nestor. Para ele, isso era absoluta convicção. Pena nunca ter dito a ela.
Há um ressoar de passos no corredor. Deve ser a enfermeira. Cerra os olhos. A voz suave, sussurrada, avisa que vai substituir o soro e ministrar um medicamento. O líquido queima e dá a sensação que vai rasgando a veia quando injetado na canícula. Certamente deve ser sonífero. Ou analgésico. Interessante que, hoje, as feridas das costas não latejam. O colchão d’água está mais suportável, refrescante.
A enfermeira sai e Nestor reabre os olhos. Ainda bem que Leninha não acordou. Continua ressonando, mansamente. Sempre foi assim, sono profundo, restaurador. Talvez seja pela ausência de remorsos.
De volta à penumbra, os pensamentos voam para as palavras irreverentes da mãe, lá atrás. Ela dizia que todo moribundo, antes de morrer, apresentava uma melhora assustadora. Mas que isso não a enganava. Sabia que a morte era matreira e que só queria abocanhar a vítima com mais vigor.  Nestor sente vontade de rir, de gargalhar... A alma gargalha.
Leninha acorda. Busca, com os pés, os chinelos no chão. Aproxima-se da cama. Agora ele a vê. Está colocada bem de frente, na mesma direção dos olhos dele. Bonita. Mesmo com os cabelos grisalhos totalmente desgrenhados, continua formosa. Serena. Mas os olhos embaciaram. Olha fixamente no rosto do amado, bem de perto. É possível sentir o respirar pelas narinas. Tão perto, tão longe... Nestor sente a carícia das mãos que passam pelos cabelos, pela testa, pelo rosto... Leninha fala com os olhos, abraça com o cuidado. E ele se abandona no abraço. Quer matar a saudade. Quer tocar aquele rosto, agradecer, gritar o seu amor. Impossível. Mas ela sente, ela sabe. Sempre soube. 
Nestor fecha os olhos. Quer emoldurar, na memória, aquele rosto. Quando os reabre, ela não está mais ali. Silenciosa, voltou ao descanso. E ele, segue envolto num turbilhão de pensamentos. Teima ser mais forte que a droga que lhe foi injetada.
De repente, o peito inicia um repique. Batidas aceleradas do coração provocam certa confusão nas ideias, parece que o corpo todo estremece, uma onda de calor insuportável percorre as veias, queima. Depois, abranda. Chega um frio abominável, insano.
Ele sabe que são as asas na constante luta pelo voo. Devem carregar o cansaço acumulado por tantos anos. Puxa vida, tem ainda tanta coisa para pensar! Mas está confuso. Não consegue conectar o fio do pensamento que estava por ali, com ele, ainda há pouco. E sente um cansaço incontrolável, os olhos pesam, as ideias fogem. Nem ouve mais o ressonar de Leninha. O gotejar cessa.
O dia ainda nem clareou e o soro foi retirado. Leninha tem a certeza da qual tanto se esquivara.
Ele não está mais ali.
O velho pássaro pousou.                                         
                
Regina Ruth Rincon Caires





quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A Fantasia Desmascarada


As demais crianças fugiam, mas ela não. Aberta ao acaso, alma à mostra, em seus muitos encontros admirava-os com os lábios entreabertos e sussurrantes, e tudo nela rescendia a palhaços de circo: a decoração do quarto, estampas de vestuário, as capas de caderno, os motivos de seu aniversário. E se desde as primeiras impressões fascinara-se pelos comediantes de picadeiro, somente na adolescência, com o ápice das fantasias eróticas, desentranhou-se-lhe o caráter da atração. Imaginava-se borrada pelo branco e o vermelho dos cosméticos, envolvida por um misto de essências perfumosas e suor de homem, corpos em conflito, e não obstante fossem cenas de sexo a nudez dos palhaços limitava-se à braguilha aberta, dela irrompendo um órgão genital feito de bexigas infladas.

Pretendendo violar as herméticas razões de seus desejos, despendeu a maior parte das remunerações com o primeiro emprego consultando um psicanalista, em cincos anos libertando-se das sessões e do tratamento ao sequer ouvir do afônico clínico o próprio nome. Passando ao exercício da autoanálise, redigiu diários e interpretou sonhos, escrutou a si, a seus motivos, e indene à própria averiguação, exasperada quanto à singular infinidade do espírito humano, consagrou-se a outro exercício, o da aceitação: tinha uma tara por palhaços, teria uma tara por palhaços, e já cursando a silhueta do desejo, tateando as imprecisas delimitações da vontade, vestiu o então namorado com roupas largas e coloridas, suspensórios, pintou-lhe os lábios de vermelho e as sobrancelhas de azul – enfim, fantasiou o embasbacado rapaz conforme os preceitos de sua perversão. Nessa tarde de matizes circenses, e testemunhas do céu alvoroçado em cores e calores, cometeram eles orgias funambulescas, do ato sucedendo-se como consequência única o constrangimento que levou ao término da relação.

Todavia, Ana estava decidida a concretizar esse delírio, e quando um circo compareceu à cidade ela era presença constante, e solitária, nas apresentações. Com os cabelos soltos, cor de mel, ocultando-lhe a face, e sabendo de sua estada aprazada, de seu destino aproximado, nos começos, intervalos e fins dos shows passeava entre as barraquinhas de pipoca e algodão-doce, entre os estandes e os atores saltimbancos, circulando inclusive entre os trailers onde alojavam-se os acrobatas e domadores, ou os bufões e as bailarinas e os cães adestrados. Ao pisar na terra acolchoada com serragem a moça aspirava as emanações úmidas e sufocantes dos animais, de seus dejetos, e fungando-as evocava, de certa forma, os juízos do coração.

Pois vagando assim, errando assim, uma noite reconheceu, após o espetáculo e vestido à paisana, e devido aos olhos estrábicos e incomuns, ao nariz adunco, um dos, senão o principal, palhaço da trupe. Desta feita apresentando-se ela, no rosto o sorriso incandescente como as lamparinas do palco, com o jovem entabulou um diálogo simples, direto e rápido, e pressentindo as graças da chance, tremendo e suando pelas mãos, convidou-o para sair e conhecerem-se melhor.

Ele aceitou.

Por mensagens combinaram a hora e o lugar, e nessa hora ela chegou cedo e nesse lugar chegou antes. Do banco na qual sentara-se abanou ao distingui-lo das distâncias e vultos, e em sua direção ele acorreu vestindo as mesmas vestes do encontro anterior, as mesmas roupas encardidas e velhas, e esse favorável descuido ela atribuiu a seu temperamento distraído, alheio e, sobretudo, apatetado, com as mãos e os pés grandes e desengonçados, olheiras semelhantes aos pântanos das narrativas de terror, o pomo de Adão pululando sorrateiramente na garganta tal qual um predador sob a pele. Não haveria um palhaço mais perfeito, denunciava o rosto de Ana, a expressão de Ana, e sentando-se lado a lado os dois conversaram, regidos pelo genuíno interesse dela, durante horas. Num surto de honestidade e coragem, com a testa luzindo em suor, a pele rescendendo a desejo, expôs seu fetiche ao impassível comediante.

Tudo bem, disse ele. Já estou acostumado.

Não obstante, estaria na cidade por mais somente aquela noite. O circo há de viajar, esclareceu, em tom profético, o rosto entregue a um hipotético horizonte, e afinal revelando-se diligente e perspicaz, propôs visitarem sua barraca, onde apanharia o traje de palhaço e o conjunto de maquilagem, e irem para a casa dela.

Ana aceitou.

Quarenta minutos depois entravam em seu apartamento, e ele, vestindo-se no banheiro, de lá irrompeu e surpreendeu-a com uma buzinada. Ana riu, sorriu, apreciou a miríade de cores faciais, a sobrecasaca roxa e as calças amarelas, a peruca avermelhada, e aproximando-se para beijá-lo recebeu nos lábios o esguicho de uma flor que cuspia água. Molhada, amaram-se sob a égide da madrugada, ouvindo o metálico cricrilar, ou gargalhar, da cama. Dormiram juntos, e ao despertar com as luzes da alvorada cortejando o quarto, ela tateou os lençóis e, abrindo os olhos, não descobriu-o a seu lado. Fora embora. Deixara como lembrança sobre o travesseiro, entretanto, a ponta vermelha do nariz.
Ana segurou-a, espreguiçou-se, e voltou a dormir. No caminho entre vigília e sonho, como lampejos cintilavam apreciações relativas à insatisfatória experiência e paralelos com as suas fantasias, todos eles negativos.

A realidade a decepcionara.

Palhaçada, murmurou Ana, e entregou-se ao vazio.





terça-feira, 20 de agosto de 2019

Cosme e Damião

Perguntou o delegado enfurecido.
- Como é o seu nome?
Algemado, preso na cadeira, respondeu de olho no chão.
- Cosme e Damião da Silva.
O policial levantou a voz e o corpanzil.
- Tá de sacanagem comigo? Ou é Cosme ou é Damião?
- Já disse, doutor: Cosme e Damião da Silva.  Minha mãe
queria gêmeos. Só veio eu.  Meu pai registrou assim.
- Quer dizer que você é dois em um?
- Como o doutor quiser... polícia manda, preto pobre
obedece.
- Você roubou a bolsa da velha?
- Foi o Cosme.
O delegado mandou-lhe um cachação de derrubar cadeira
e suspeito juntos.
- Levanta, seu debochado. Quem vai apanhar agora é o Damião.
Pra deixar de ser dedo-duro.





sábado, 17 de agosto de 2019

Minha casa, sem móveis, sem nada



 light house window glass home blue living room room interior design windows curtains daylighting steamed window covering







               Minha casa, sem móveis, sem nada, desprovida de tudo, perdeu suas divisões. Não há mais quarto, sala, cozinha, o apartamento é um só. Me alimento em qualquer lugar, durmo em qualquer lugar. Sempre que abro os olhos estou olhando para algo diferente. Fecho os olhos olhando para o céu, em diferentes posições. Já acordei com a cabeça encostada na porta. Dormi aquecido pelo fogão. Perdi qualquer distinção. A liberdade, a minha liberdade acontece assim. Tudo se unifica sem diferença, sem nome; posso me encostar e aqui ficar quando sentir cansaço. Em qualquer lugar. Em todos os lugares. Em nenhum lugar.

















sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Aposentadoria


A casa grande, com quatro quartos e quintal e varanda. Jardim e horta em comunhão sem hóstia. No chão, o brilho-fruto de todos os panos esfregados diariamente pelos braços de veias saltadas. A vida inteira limpando para os outros. Para a mulher de salto alto, para o homem de sapatos de cadarço, para o rapaz de tênis, para a menina de botas. Pisadas grandes, pequenas, tortas, transformando em barro as poças de sabão que ela mal termina de esparramar pelo piso. Um bom-dia esquálido. Três, quatro indiferenças despercebendo a sua presença acima da superfície do assoalho sempre sujo, da cozinha sempre suja, dos banheiros sempre sujos. Dia 1, dia 2, dia todos. Até hoje, dia de acabou. De ir embora sem olhar pra trás. Que ela não é boba como a esposa de Ló. Olhar pra quê? Pra quem? É para frente que ela olha e busca. O gozo se antecipando na cabeça. A imagem da casa comprada pelos filhos. Com cama de rainha e chuveiro quente. Redondo e largo como um prato branco. Com geladeira de dois andares. Tudo em 12 vezes no Magazine Luiza. Com jardim na frente. Em cores mais bonitas que as cores das aquarelas penduradas nas paredes da casa dos patrões — e que ela nem sabe que se chamam aquarelas. Pinturas, quadros. Gostou deles a vida toda assim, com esses nomes mais simples. Mas o jardim dela é mais lindo. E vai ficar ainda mais, agora que ela pode cuidar de tudo sem pressa. Pra que pressa? O sonho na cabeça, tão bom que já nem é mais pra frente que ela olha e busca: é pra dentro. A dor no peito, tão forte que ela não acha mais ar. A mão suja de sangue pressionando o estômago que a bala perdida estraçalhou. A cortina dos olhos se fechando a contragosto. Apagando todas as aquarelas.