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sábado, 20 de abril de 2019

Desmorrer

Estou morto.
Morto de desalento.
Morto de medo.
Morto por um pé de vento.
Morto de saudade.
Morto de vergonha.
Morto de mediocridade.
Morto pelos acontecimentos.
Morto pelo que não acontece.
Morto pela enxurrada.
Morto sem tempo de prece.
Morto pelo destino.
Morto por uma viga.
Morto por uma vaga.
Morto por desatino.
Morto por um sniper.
Morto com 80 tiros.
Morto por "incidente".
Morto indigente.
Morto que ninguém suspeite.
Morto por manga com leite.
Morto na sala de espera.
Morto na multidão.
Morto pelo acaso.
Morto pelo descaso.
Morto com raiva na mão.
Morto pela burrice.
Morto pela malvadeza.
Morto pela avareza.
Morto por neuronicídio.
Morto por anestesia.               
Morto federal.
Morto estadual,
Morto municipal.
Morto global.
Merecidamente morto.
Injustamente morto.
Indefinidamente morto.
Meramente morto.
Fui morto em doses homeopáticas.
Fui morto de supetão.
Morto quando me vi no espelho.
Morto quando não me vi mais não.
Morto de tédio.
Morto de excesso.
Morto na encosta
que morreu sem remédio.
Morto pelo vazio.
Morto pela profusão.
Morto pelo escárnio.
Morto sem educação.
Morto pela língua que matam.
Morto pela língua que mata.
Morto sem interpretação.
Morto pela devoção.
Morto como um passarinho.
Que se debate por ressurreição,
a sentir pelo sopro da fresta que resta,
um desejo, um sonho, uma utopia
de um dia, tomara que esteja por vir,
que a gente quando morrer
só possa é morrer de rir.


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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


2 comentários:

O texto vai indo lindamente, daí no final...morrer de rir! Uma tragédia morrer de rir, inclusive meio sem graça. Tinha uma escalada, uma força e aí acabou fraco tipo uma risada sem graça. Mas tem uma potência...

Unknouwn: morri de curiosidade sobre sua identidade.

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