Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

Revista on-line

Participe da próxima edição da Revista SAMIZDAT

sábado, 20 de abril de 2019

Desmorrer

Estou morto.
Morto de desalento.
Morto de medo.
Morto por um pé de vento.
Morto de saudade.
Morto de vergonha.
Morto de mediocridade.
Morto pelos acontecimentos.
Morto pelo que não acontece.
Morto pela enxurrada.
Morto sem tempo de prece.
Morto pelo destino.
Morto por uma viga.
Morto por uma vaga.
Morto por desatino.
Morto por um sniper.
Morto com 80 tiros.
Morto por "incidente".
Morto indigente.
Morto que ninguém suspeite.
Morto por manga com leite.
Morto na sala de espera.
Morto na multidão.
Morto pelo acaso.
Morto pelo descaso.
Morto com raiva na mão.
Morto pela burrice.
Morto pela malvadeza.
Morto pela avareza.
Morto por neuronicídio.
Morto por anestesia.               
Morto federal.
Morto estadual,
Morto municipal.
Morto global.
Merecidamente morto.
Injustamente morto.
Indefinidamente morto.
Meramente morto.
Fui morto em doses homeopáticas.
Fui morto de supetão.
Morto quando me vi no espelho.
Morto quando não me vi mais não.
Morto de tédio.
Morto de excesso.
Morto na encosta
que morreu sem remédio.
Morto pelo vazio.
Morto pela profusão.
Morto pelo escárnio.
Morto sem educação.
Morto pela língua que matam.
Morto pela língua que mata.
Morto sem interpretação.
Morto pela devoção.
Morto como um passarinho.
Que se debate por ressurreição,
a sentir pelo sopro da fresta que resta,
um desejo, um sonho, uma utopia
de um dia, tomara que esteja por vir,
que a gente quando morrer
só possa é morrer de rir.





quarta-feira, 17 de abril de 2019

À sombra da jabuticabeira - Texto de Vera Saad

À sombra da jabuticabeira 






     Filipa ainda sentia o gosto da jabuticaba que pegava do pé. O que disse a Angel ao descrever a casa onde cresceu, na Vila Mariana.
     Quando nasceu, já moravam na casa grande. Grande para uma família pequena, que, tijolo por tijolo, aos poucos se construía. Com a chegada da irmã, improvisaram um quarto de bebê no escritório. Quatro anos depois, nascia o irmão. O quarto de Filipa Maria recebeu-o com seu nome pintado em verde-claro na parede. Titia apegava-se à nova função. Dava as mãos aos dois com o zelo de mãe deitado em corpo de irmã mais velha.
     A casa ganhava gente. Duas janelas com a luz sempre acesa, e um cheiro gostoso da cozinha, sempre pronta a receber alguém. Era um sobrado com um quintal na frente e um jardim nos fundos, enfeitado por flores, duas gaiolas vazias e uma jabuticabeira. Nunca conseguiram prender um pássaro na gaiola. Meu tio soltava-os todos, que morriam desacostumados à própria natureza. 
    A porta da casa permanecia aberta. Titia crescera com a entrada e saída de vizinhos, parentes, amigos e até mendigos, que tocavam a campainha por uns trocados. Vovô compadecia-se dos que surgiam na casa, sujos, estômago vazio, rosto coberto de tristeza e pó. Abria a porta, oferecia toalhas, sabão e alguma dignidade em roupas limpas. Depois pedia à minha avó que preparasse um prato de comida. 
    Filipa Maria já chegou a ver um mendigo em seu quarto, quase nu. Usava a toalha rosa bordada à mão por minha avó e vestia as roupas do irmão de meu avô, que falecera por aqueles dias. 
     — O coração grande de papai. E ai de quem desobedecesse a esse coração grande e irascível. 
     Vovô sempre deixava um quarto vago aos parentes e amigos que chegassem de outras cidades. A casa grande da Vila Mariana era parada obrigatória a quem passasse por São Paulo. Ajudava os familiares em aperto.
     Minha tia lembrou-se de quando um primo distante, com fama de preguiçoso, passou a morar com eles. Vovô arrumou-lhe um cargo como contínuo, além de uma cama limpa na casa grande. 
    Com a roupa social emprestada de meu tio-avô — sua morte vestira muita gente —, o agregado saía de casa cedo e voltava à noite. Para algum lugar partia. Todos os dias. Algum canto abafado chamado trabalho, acreditavam.
     Até que um dia foi denunciado. Viram o primo deitado no banco de uma praça. Não era hora de almoço ou fim de expediente. O folgado fingia que ia para a empresa quando, na verdade, perambulava por São Paulo de manhã até o fim da tarde. Vovô ficou vermelho até as orelhas quando soube, esmurrou a mesa e expulsou o novo hóspede.
     A casa parecia sorrir com as explosões e a bondade repentinas de vovô. Aos domingos, todos se juntavam para ouvir minha tia tocar piano. Momento em que cantavam e brigavam juntos, quando melhor delineavam um verdadeiro retrato de família.
    Com a morte dos meus avós, os filhos permaneceram na casa por muito tempo, à sombra da jabuticabeira, como se minha mãe e meus tios tivessem crescido dentro de uma gaiola de portas abertas. Livres e, ao mesmo tempo, desacostumados a voar.
      Meus pais deixaram a casa para morar bem perto, em um apartamento quase vizinho.
     Com cerveja no corpo, titia tentou narrar a Angel a despedida da casa grande, mas a voz quase não saiu. Uma lembrança difícil.
      Seu cunhado, meu pai, fora demitido, e precisávamos todos de dinheiro.
     A irmã, minha mãe, sugeriu à minha tia que se mudassem. “Vai ser bom pros dois”, o que disse, sem se preocupar com as limitações de meu tio.
      Já as primeiras palavras ofenderam titia, preparada para a briga.
     Ao se desentender com a irmã, mamãe não viu outra saída que não a justiça. A briga arrastou-se por anos, com mandados judiciais, advogados, além do silêncio funesto entre irmãs.
     Tempos depois, quando já não precisávamos, eu havia me mudado, e papai ganhava estabilidade em outro emprego, a casa foi finalmente vendida e o dinheiro repartido em três.
    Titia largou o copo e pediu um cigarro a Angel. Tossiu nas primeiras tragadas. Com as tosses, soltou junto a fumaça do que se tornou a casa grande.
    — Passei lá dia desses. Uma imobiliária conseguiu demolir a casa. Mas a jabuticabeira continua de pé. É onde quero ser enterrada. À sombra daquela jabuticabeira.





     Autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Portal Cronópios e Revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.





terça-feira, 16 de abril de 2019

Garrafas no jardim



Afundadas na terra. Plantadas entre avencas e coqueirinhos e samambaias. O vício escondido pelas folhas dos vasos. Tudo tão bem disfarçado que eu me pergunto como é que o braço paralisado de papai consegue dar conta de cavucar e enterrar cada garrafa. E são muitas. Um cemitério delas.
Mamãe acredita — com sua fé nos santos e nas rezas — que ele não bebe mais. E nem as frequentes idas ao jardim nem o cheiro permanente das pastilhas de hortelã a fazem pensar diferente. Ela não quer enxergar. Não aguenta mais saber.  E mente. Para que a gente possa respeitá-lo. Respeito? Raiva. De escutar ela repetindo que a força do Espírito Santo o curou. De testemunhar a impotência dessa negação passiva, dessa responsabilidade repassada ao divino. Como todos os que se recusam a ver, mamãe dá nomes diferentes à própria fraqueza. Abnegação. Companheirismo. Amor. Mas tudo o que eu vejo é uma mulher perdida que se alimenta da crença em promessas convenientes. E um simulacro de homem que promete qualquer coisa para estimular a ingenuidade dessa crença. Cúmplices. A que finge; o que esconde.
Há anos, ouço desculpas. Coerentes, incoerentes, inúteis. É assim que ele relaxa; Ele está comemorando; Com esse calor, quem é que aguenta? 
Aniversário Natal formatura dos filhos férias nascimento dos netos aposentadoria o time dele ganhou o campeonato ele está sem dinheiro um amigo dele morreu. E as quedas, os esquecimentos, a magreza excessiva, os olhos congestionados, o andar em ziguezague, os vômitos, os banhos frios. Tudo escondido dos filhos. Ou nem tanto.
Mamãe não se dá conta, mas faz tempo que somos parte da mentira. De tantas. De todas. Um cardápio:

  1. Ele exagera, mas aguenta. 
  2. Se ele fosse viciado, já tinha morrido. 
  3. Quem não toma seus porres na vida? 
  4. Alcoólatra é uma palavra muito forte. 
  5. Todo o mundo bate o carro uma vez ou outra. 
  6. Caiu porque o chão estava molhado. 
  7. Ele para de beber a hora que quiser. 
  8. Ele bebe pra se divertir. 
  9. Ele até que diminuiu. 
  10. Deixa ele em paz.

Daqui a um ano, papai vai morrer. De cirrose. Nós ainda não sabemos, mas estaremos lá quando acontecer. Mudos. Coniventes. Preocupados. Temos nossas próprias garrafas no jardim.