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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Meta-Oftalmologista


Foi o meta-oftalmologista quem diagnosticou a posição contrária de meus olhos: o esquerdo situava-se no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Esta seria uma condição inócua, disse ele então, se não estivéssemos em um mundo com os polos invertidos. Como assim, indaguei, enquanto o médico sentava-se, minha cútis ainda estranha ao toque de um terceiro. Simples, o polo sul está no lugar do polo norte e o polo norte está no lugar do polo sul, respondeu, e ao calar-se tinha no rosto uma expressão de alegria, como se tal esclarecimento bastasse.

Todos os vagos segundos desse diálogo já causavam em mim apreensão, e somente considerando a hipótese de que há tempos dentro de tempos, e existências dentro de existências, pude justificar as incontáveis teorias que me atormentavam, cada uma delas contendo implicações relativas à essa condição ou às circunstâncias responsáveis por ela. Pois qual seria o futuro agora, seria de sucesso, considerando o meu fracasso atual como consequência da ignorância em relação a esse defeito, ou seria de fracassos maiores, mais dignos de alguém com os olhos invertidos? Deveria cogitar uma carreira como inversor ou revisor de valores ou como obscenidade circense? Ou aceitar esse mal e mendigar em frente a óticas de renome?

Isso cogitava uma parte minha quando outra indagou qual o significado da moléstia. O médico, escrevendo num papel timbrado, falou que eu enxergava certo num mundo onde muitos enxergavam errado. E não só em relação às direções, prosseguiu ele, mas, também, em relação aos valores morais. Calou-se o doutor e calou-se eu, e ouvindo o rabiscar da caneta indaguei se deveria ou não confiar nele. Era um super-vilão regenerado, e mesmo que em teoria os super-vilões regenerados fossem mais confiáveis do que os cidadãos habitualmente honestos (ou assim anunciava o cupom de desconto), me era difícil aceitar seu prognóstico não obstante o mesmo explicasse muito. Pois Deus é testemunha de minha integridade e decoro, de meus erros moderados e, acima de tudo, de minha dor, afinal uma vida justa e virtuosa é uma vida de sofrimento. Aliás, como não sofrer com a verdadeira bondade, quando ela pressupõe nenhuma recompensa? Esta é a sua medida. Já no mal há algo que reafirma nossa identidade, torna o homem concreto. Meditando vim a sentir o silêncio branco do escritório, a enxergar a mesa branca à minha frente, a decoração de um branco também aviltante, e o médico, envolto numa aura de cifrões, estendendo-me uma receita de medicação. 

Corruptol 200 mg, disse ele. Por duas semanas, depois baixar para a metade. Mais duas semanas e marcar uma nova consulta. Seu corpo necessita de um pouco de má-fé. E calou-se, duro e inanimado feito suas palavras. Cumprimentei-o, e no solitário caminho entre cadeira e porta tive o primeiro lampejo de renovação, o meu primeiro passo em direção à mácula: considerei, como forma inicial de tratamento, deixar de remunerá-lo; mas daí lembrei que não existe justiça maior do que a de não pagar um médico.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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