Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

Revista on-line

Participe da próxima edição da Revista SAMIZDAT

domingo, 27 de janeiro de 2019

Rascunhos


Há sempre espaço

para mais um traço
- de medo

uma sombra
- de dúvida

ou um contorno
- de hesitação

os riscos incertos
de um sujeito-rascunho

um homem só fica pronto
- imutável

quando morto





sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A ponte



Viajar para Saturno não fazia parte das aspirações de Oleg, em criança. As leituras de juventude — muita ficção científica, muita divulgação científica — levaram-no, no entanto, para caminhos insuspeitos, mas empolgantes. Aos trinta e dois anos via-se a caminho de Encélado, uma lua de Saturno com aparentes boas possibilidades de desenvolver vida: tem água líquida, atividade hidrotermal e uma composição gasosa com algumas semelhanças com a da Terra. Tais condições, talvez amigáveis para humanos, desencadearam mais uma corrida espacial entre as nações do planeta azul. Haverá um momento em que pequenas colónias de homens terão necessariamente de procurar alternativas de espaço e de recursos naturais fora da superlotada e envenenada Terra.
Oleg integra a minúscula equipagem da Moct, a nave que já navega há quatro anos e ainda precisa de mais dezasseis para chegar a Saturno. Os três membros viajam em regime de oito meses de semi-hibernação induzida, por quatro meses de vigília/sono. O tempo custa a passar. Ainda falta quase um mês para Oleg voltar a ser submetido à fase letárgica. O isolamento é penoso e pérfido. Trocar palavras com a base terrestre é um exercício kafkiano, devido ao desfasamento temporal provocado pela distância. Uma palavra que ele lançasse agora para a Terra demoraria mais de três minutos a chegar lá; se devolvida logo, a resposta chegaria a Oleg mais de seis minutos depois. Não dava para conversar; só parodiar um patético diálogo de afásicos.
Oleg não estava tão isolado assim, tinha consciência. A enorme equipa que programara a missão a Encélado previra as intermináveis horas de solidão, estudara os gostos e a personalidade de cada cosmonauta. A Oleg forneceu quinhentos “teras” de filmes e livros, distribuídos por vários unidades de armazenamento.
No final da adolescência, Oleg continuava muito reservado. Era frequentador da biblioteca da sua cidade natal. Gostava de se internar no universo fantástico das secções; como descobridor de mundos, costumava aterrar numa galeria, explorar o continente de uma estante, deambular pelos vales surpreendentes das prateleiras, deslumbrar-se com as residências dos habitantes, entrar nas páginas de uma e tomar contacto com os inesperados moradores, às vezes, seres bizarros e inquietantes; outras, criaturas simpáticas e calorosas. À despedida, um conforto espiritual acompanhava-o, animando a sua condição de homem em busca de enriquecimento íntimo.
Da adolescência guardou aquele gosto pelo inesperado: entusiasmava-se com o que a sorte lhe atribuiria, em pesquisas aleatórias de leitura. Instalou-se no conforto de uma ténue gravidade artificial da zona de lazer, posicionou o visor a uma distância cómoda e lançou a pesquisa. A máquina apresentou-lhe “O jovem pastor e a fadazinha”, um conto valáquio de Gorki. À memória acorreu a imagem de um prado de extensão inimaginável. E do deslumbramento juvenil do pastorzinho aconchegado entre céu e planura.
Lembrava-se de todos os grandes clássicos: da monumentalidade de Tolstoi, da sátira social de Gogol, dos contos suaves e realistas de Chécov; este conto tinha estado encoberto, há tanto tempo que não o lia... Dentro em pouco, estava embrenhado nas peripécias ingénuas e carinhosas do pastor e da pequena fada nas margens do Danúbio:

«O pastor sentou-se à sombra de uma árvore solitária que, amante da liberdade, se afastara da floresta para crescer em plena estepe; erguia-se orgulhosa e altivamente, balouçando suavemente os ramos sob a carícia do vento que soprava do mar.
Era no mês de maio, um mês encantador, um mês alegre. A folhagem nova que o mês tinha feito nascer, de um verde magnífico, clamava alegria; o rumor dessa folhagem formava uma longa onda sonora que se alongava pelo céu de um azul vivo onde flutuavam suavemente brancas nuvens macias que fundiam sob os raios ardentes do alegre sol primaveril. A fada balouçava nos ramos da grande faia e cantava:

A brisa é suave e perfumada.
Traz até nós, de toda a parte
suspiros, murmúrios e ruídos…
Dormir será delicioso;
o sono será terno e puro
na maravilha de um tão belo dia.»

Oleg deitou-se no chão da nave, o corpo enclausurado, separado da sua Terra por centenas de milhões de quilómetros; na mente, a ponte que o terno e inspirador conto lançara e o ligava ao seu país. Imagens aprazíveis das juvenis deambulações pelas margens do Volga afagaram-lhe a superfície da alma. Vislumbres de casa, dos seus...
Continuou a reconfortar-se na leitura, nas evocações, o sorriso tristemente feliz.
Lá fora, a noite era a eterna e infinita estepe que o separava de casa.

Joaquim Bispo

*

Imagem: Franz von Lenbach, Um pastorzinho, 1860.
* * *






terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Meta-Oftalmologista


Foi o meta-oftalmologista quem diagnosticou a posição contrária de meus olhos: o esquerdo situava-se no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Esta seria uma condição inócua, disse ele então, se não estivéssemos em um mundo com os polos invertidos. Como assim, indaguei, enquanto o médico sentava-se, minha cútis ainda estranha ao toque de um terceiro. Simples, o polo sul está no lugar do polo norte e o polo norte está no lugar do polo sul, respondeu, e ao calar-se tinha no rosto uma expressão de alegria, como se tal esclarecimento bastasse.

Todos os vagos segundos desse diálogo já causavam em mim apreensão, e somente considerando a hipótese de que há tempos dentro de tempos, e existências dentro de existências, pude justificar as incontáveis teorias que me atormentavam, cada uma delas contendo implicações relativas à essa condição ou às circunstâncias responsáveis por ela. Pois qual seria o futuro agora, seria de sucesso, considerando o meu fracasso atual como consequência da ignorância em relação a esse defeito, ou seria de fracassos maiores, mais dignos de alguém com os olhos invertidos? Deveria cogitar uma carreira como inversor ou revisor de valores ou como obscenidade circense? Ou aceitar esse mal e mendigar em frente a óticas de renome?

Isso cogitava uma parte minha quando outra indagou qual o significado da moléstia. O médico, escrevendo num papel timbrado, falou que eu enxergava certo num mundo onde muitos enxergavam errado. E não só em relação às direções, prosseguiu ele, mas, também, em relação aos valores morais. Calou-se o doutor e calou-se eu, e ouvindo o rabiscar da caneta indaguei se deveria ou não confiar nele. Era um super-vilão regenerado, e mesmo que em teoria os super-vilões regenerados fossem mais confiáveis do que os cidadãos habitualmente honestos (ou assim anunciava o cupom de desconto), me era difícil aceitar seu prognóstico não obstante o mesmo explicasse muito. Pois Deus é testemunha de minha integridade e decoro, de meus erros moderados e, acima de tudo, de minha dor, afinal uma vida justa e virtuosa é uma vida de sofrimento. Aliás, como não sofrer com a verdadeira bondade, quando ela pressupõe nenhuma recompensa? Esta é a sua medida. Já no mal há algo que reafirma nossa identidade, torna o homem concreto. Meditando vim a sentir o silêncio branco do escritório, a enxergar a mesa branca à minha frente, a decoração de um branco também aviltante, e o médico, envolto numa aura de cifrões, estendendo-me uma receita de medicação. 

Corruptol 200 mg, disse ele. Por duas semanas, depois baixar para a metade. Mais duas semanas e marcar uma nova consulta. Seu corpo necessita de um pouco de má-fé. E calou-se, duro e inanimado feito suas palavras. Cumprimentei-o, e no solitário caminho entre cadeira e porta tive o primeiro lampejo de renovação, o meu primeiro passo em direção à mácula: considerei, como forma inicial de tratamento, deixar de remunerá-lo; mas daí lembrei que não existe justiça maior do que a de não pagar um médico.





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Dividir a vida










































quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As três Marias

Foto: Rene Burri, Alemanha, Berlim Ocidental, 1957.

A manhã já vai a meio. Mas tudo é silêncio. Cândida, Maria Inês, Maria Eulália e Maria Regina estão entregues à mudez. E às lembranças. E ao trabalho. A lida doméstica não pode parar. Tudo precisa estar pronto para o velório que começa em pouco tempo. Não há lugar para sons. O homem na sala, afundado no caixão de madeira entalhada, merece todos os silêncios. José da Anunciação Santos Martins. Marido. Pai. Que em vida arrancou de cada uma delas todas as palavras.
De Cândida (a que agora é rugas), os Como ele é lindo, meu Deus!, entremeados por suspiros adolescentes; o Sim! no altar da Igreja Matriz; os Ai, ai meu Deus! discretos do prazer amordaçado pelos bons costumes; os Graças a Deus! pelas três filhas perfeitas; os Por quê, meu Deus?, quando não foi capaz de parir um filho homem; o Não deixa, meu Deus!, quando soube da primeira traição; o Meu Deus, me ajuda!, quando apanhou pela primeira vez porque cobrou as infidelidades — e, das outras vezes,  porque o feijão estava salgado, porque a camisa estava mal passada, porque os pássaros cantavam, porque a chuva caía.
De Maria Inês, as súplicas e os gritos abafados pela mão que tampava a sua boca miúda para impedir os Não, papai!; Dói, papai!; Mamãe, me ajuda!; Eu não quero, eu não quero!; Vai embora, papai! E os Pai Nossos e as Ave Marias sussurrados como mantras todas as noites, depois que a mãe e as irmãs já estavam dormindo, ou quando calhava de não haver ninguém mais na casa além dela e daquele homem a quem devia respeito, obediência e nojo.
De Maria Eulália, as palavras entrecortadas pela gagueira que foi se acentuando a cada surra de cinto que a fazia se urinar e se descontrolar num tremor convulso. Os urros de dor das pancadas que nem a mãe nem as irmãs conseguiam interromper. E os Pa-ara! Pa-ara pe-elo a-amor de De-eus, pa-apai! desesperados que, quanto mais repetidos, mais enfureciam a besta.
De Maria Regina, as verdades reveladas às visitas, que se faziam de surdas; e ao padre, que se fazia de conselheiro e lhe pedia que rezasse por aquela “alma atormentada”; e à polícia, que não fazia nada além de mandar que abaixassem o tom de voz das brigas para não incomodar a vizinhança. E, ainda de Maria Regina, os berros de Monstro!; Desgraçado!; Vai para o inferno!; Em mim você não toca!; Em mim você não manda!; Se encostar na minha mãe de novo eu te mato, seu filho da puta! 
Morreu. O José da Anunciação Santos Martins. O filho da puta. 
Causa da morte: queda da escada.
Na perfeição desse dia de morte, quatro mulheres descansam seus medos. Não falam nada. Não precisam. Apenas seus olhares, que se cruzam ocasionalmente, sorriem no alívio do segredo que as une. Somente Cândida, Maria Inês, Maria Eulália e Maria Regina sabem de quem foi a mão que fez cessar todas as palavras.