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sábado, 20 de abril de 2019

Desmorrer

Estou morto.
Morto de desalento.
Morto de medo.
Morto por um pé de vento.
Morto de saudade.
Morto de vergonha.
Morto de mediocridade.
Morto pelos acontecimentos.
Morto pelo que não acontece.
Morto pela enxurrada.
Morto sem tempo de prece.
Morto pelo destino.
Morto por uma viga.
Morto por uma vaga.
Morto por desatino.
Morto por um sniper.
Morto com 80 tiros.
Morto por "incidente".
Morto indigente.
Morto que ninguém suspeite.
Morto por manga com leite.
Morto na sala de espera.
Morto na multidão.
Morto pelo acaso.
Morto pelo descaso.
Morto com raiva na mão.
Morto pela burrice.
Morto pela malvadeza.
Morto pela avareza.
Morto por neuronicídio.
Morto por anestesia.               
Morto federal.
Morto estadual,
Morto municipal.
Morto global.
Merecidamente morto.
Injustamente morto.
Indefinidamente morto.
Meramente morto.
Fui morto em doses homeopáticas.
Fui morto de supetão.
Morto quando me vi no espelho.
Morto quando não me vi mais não.
Morto de tédio.
Morto de excesso.
Morto na encosta
que morreu sem remédio.
Morto pelo vazio.
Morto pela profusão.
Morto pelo escárnio.
Morto sem educação.
Morto pela língua que matam.
Morto pela língua que mata.
Morto sem interpretação.
Morto pela devoção.
Morto como um passarinho.
Que se debate por ressurreição,
a sentir pelo sopro da fresta que resta,
um desejo, um sonho, uma utopia
de um dia, tomara que esteja por vir,
que a gente quando morrer
só possa é morrer de rir.





quarta-feira, 17 de abril de 2019

À sombra da jabuticabeira - Texto de Vera Saad

À sombra da jabuticabeira 






     Filipa ainda sentia o gosto da jabuticaba que pegava do pé. O que disse a Angel ao descrever a casa onde cresceu, na Vila Mariana.
     Quando nasceu, já moravam na casa grande. Grande para uma família pequena, que, tijolo por tijolo, aos poucos se construía. Com a chegada da irmã, improvisaram um quarto de bebê no escritório. Quatro anos depois, nascia o irmão. O quarto de Filipa Maria recebeu-o com seu nome pintado em verde-claro na parede. Titia apegava-se à nova função. Dava as mãos aos dois com o zelo de mãe deitado em corpo de irmã mais velha.
     A casa ganhava gente. Duas janelas com a luz sempre acesa, e um cheiro gostoso da cozinha, sempre pronta a receber alguém. Era um sobrado com um quintal na frente e um jardim nos fundos, enfeitado por flores, duas gaiolas vazias e uma jabuticabeira. Nunca conseguiram prender um pássaro na gaiola. Meu tio soltava-os todos, que morriam desacostumados à própria natureza. 
    A porta da casa permanecia aberta. Titia crescera com a entrada e saída de vizinhos, parentes, amigos e até mendigos, que tocavam a campainha por uns trocados. Vovô compadecia-se dos que surgiam na casa, sujos, estômago vazio, rosto coberto de tristeza e pó. Abria a porta, oferecia toalhas, sabão e alguma dignidade em roupas limpas. Depois pedia à minha avó que preparasse um prato de comida. 
    Filipa Maria já chegou a ver um mendigo em seu quarto, quase nu. Usava a toalha rosa bordada à mão por minha avó e vestia as roupas do irmão de meu avô, que falecera por aqueles dias. 
     — O coração grande de papai. E ai de quem desobedecesse a esse coração grande e irascível. 
     Vovô sempre deixava um quarto vago aos parentes e amigos que chegassem de outras cidades. A casa grande da Vila Mariana era parada obrigatória a quem passasse por São Paulo. Ajudava os familiares em aperto.
     Minha tia lembrou-se de quando um primo distante, com fama de preguiçoso, passou a morar com eles. Vovô arrumou-lhe um cargo como contínuo, além de uma cama limpa na casa grande. 
    Com a roupa social emprestada de meu tio-avô — sua morte vestira muita gente —, o agregado saía de casa cedo e voltava à noite. Para algum lugar partia. Todos os dias. Algum canto abafado chamado trabalho, acreditavam.
     Até que um dia foi denunciado. Viram o primo deitado no banco de uma praça. Não era hora de almoço ou fim de expediente. O folgado fingia que ia para a empresa quando, na verdade, perambulava por São Paulo de manhã até o fim da tarde. Vovô ficou vermelho até as orelhas quando soube, esmurrou a mesa e expulsou o novo hóspede.
     A casa parecia sorrir com as explosões e a bondade repentinas de vovô. Aos domingos, todos se juntavam para ouvir minha tia tocar piano. Momento em que cantavam e brigavam juntos, quando melhor delineavam um verdadeiro retrato de família.
    Com a morte dos meus avós, os filhos permaneceram na casa por muito tempo, à sombra da jabuticabeira, como se minha mãe e meus tios tivessem crescido dentro de uma gaiola de portas abertas. Livres e, ao mesmo tempo, desacostumados a voar.
      Meus pais deixaram a casa para morar bem perto, em um apartamento quase vizinho.
     Com cerveja no corpo, titia tentou narrar a Angel a despedida da casa grande, mas a voz quase não saiu. Uma lembrança difícil.
      Seu cunhado, meu pai, fora demitido, e precisávamos todos de dinheiro.
     A irmã, minha mãe, sugeriu à minha tia que se mudassem. “Vai ser bom pros dois”, o que disse, sem se preocupar com as limitações de meu tio.
      Já as primeiras palavras ofenderam titia, preparada para a briga.
     Ao se desentender com a irmã, mamãe não viu outra saída que não a justiça. A briga arrastou-se por anos, com mandados judiciais, advogados, além do silêncio funesto entre irmãs.
     Tempos depois, quando já não precisávamos, eu havia me mudado, e papai ganhava estabilidade em outro emprego, a casa foi finalmente vendida e o dinheiro repartido em três.
    Titia largou o copo e pediu um cigarro a Angel. Tossiu nas primeiras tragadas. Com as tosses, soltou junto a fumaça do que se tornou a casa grande.
    — Passei lá dia desses. Uma imobiliária conseguiu demolir a casa. Mas a jabuticabeira continua de pé. É onde quero ser enterrada. À sombra daquela jabuticabeira.





     Autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Portal Cronópios e Revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.





terça-feira, 16 de abril de 2019

Garrafas no jardim



Afundadas na terra. Plantadas entre avencas e coqueirinhos e samambaias. O vício escondido pelas folhas dos vasos. Tudo tão bem disfarçado que eu me pergunto como é que o braço paralisado de papai consegue dar conta de cavucar e enterrar cada garrafa. E são muitas. Um cemitério delas.
Mamãe acredita — com sua fé nos santos e nas rezas — que ele não bebe mais. E nem as frequentes idas ao jardim nem o cheiro permanente das pastilhas de hortelã a fazem pensar diferente. Ela não quer enxergar. Não aguenta mais saber.  E mente. Para que a gente possa respeitá-lo. Respeito? Raiva. De escutar ela repetindo que a força do Espírito Santo o curou. De testemunhar a impotência dessa negação passiva, dessa responsabilidade repassada ao divino. Como todos os que se recusam a ver, mamãe dá nomes diferentes à própria fraqueza. Abnegação. Companheirismo. Amor. Mas tudo o que eu vejo é uma mulher perdida que se alimenta da crença em promessas convenientes. E um simulacro de homem que promete qualquer coisa para estimular a ingenuidade dessa crença. Cúmplices. A que finge; o que esconde.
Há anos, ouço desculpas. Coerentes, incoerentes, inúteis. É assim que ele relaxa; Ele está comemorando; Com esse calor, quem é que aguenta? 
Aniversário Natal formatura dos filhos férias nascimento dos netos aposentadoria o time dele ganhou o campeonato ele está sem dinheiro um amigo dele morreu. E as quedas, os esquecimentos, a magreza excessiva, os olhos congestionados, o andar em ziguezague, os vômitos, os banhos frios. Tudo escondido dos filhos. Ou nem tanto.
Mamãe não se dá conta, mas faz tempo que somos parte da mentira. De tantas. De todas. Um cardápio:

  1. Ele exagera, mas aguenta. 
  2. Se ele fosse viciado, já tinha morrido. 
  3. Quem não toma seus porres na vida? 
  4. Alcoólatra é uma palavra muito forte. 
  5. Todo o mundo bate o carro uma vez ou outra. 
  6. Caiu porque o chão estava molhado. 
  7. Ele para de beber a hora que quiser. 
  8. Ele bebe pra se divertir. 
  9. Ele até que diminuiu. 
  10. Deixa ele em paz.

Daqui a um ano, papai vai morrer. De cirrose. Nós ainda não sabemos, mas estaremos lá quando acontecer. Mudos. Coniventes. Preocupados. Temos nossas próprias garrafas no jardim. 





segunda-feira, 25 de março de 2019

A gruta da moura encantada



No tempo de D. Dinis, todos os mouros ligados ao controlo militar e administrativo do território tinham já sido expulsos das terras do Algarve. Mantinham-se, no entanto, as populações há muito arabizadas e mais ligadas ao solo e ao mar da região do que às elites do califado.
Ali Agat, por esses tempos apanhador de medronho na serra de Estoi, que depois vendia nas povoações ribeirinhas, andava certo dia embrenhado na mata arbustiva, atarefado a apanhar os frutos maduros e a encher com eles uma cesta de vime. Os demasiado maduros e os já bicados pelos pássaros iam-lhe enganando a fome. Quando o calor apertou, recolheu-se a uma sombra cerrada e foi roendo o pão de grão de bico que tinha trazido de casa. Depois, deitou-se a dormir debaixo de uma alfarrobeira de copa densa. Quando acordou, manteve-se ainda um pouco de costas no chão forrado de folhagem, a saborear o fresco, de olhar perdido no interior da copa da árvore, atravessada aqui e ali pelos raios de sol de princípio da tarde.
Viu, então, uma alfarroba de brilhos dourados e maior do que as outras. Colheu-a e logo suspeitou, pelo peso e pelo brilho, que devia ser de ouro. Meteu-a no bolso da jelaba e apressou-se a voltar para casa, para a mostrar à mulher. Andou, andou toda a tarde, mas a sua aldeia ficava longe e a alfarroba cada vez lhe pesava mais no bolso. A certa altura, sem poder mais, resolveu escondê-la na loca de uma árvore. Viria buscá-la depois. Pôs-se à procura de uma apropriada e foi então que uma cabra que por ali andava a pastar o interpelou:
Dá-me essa alfarroba, Ali Agat! É do meu pai; essa e muitas outras alfarrobas de ouro que deixou à minha guarda, quando teve de fugir para Granada.
Perante a atitude surpreendida dele, a cabra explicou-se:
Eu sou uma princesa moura, filha do emir de Al-Ulya. Como teve de fugir à pressa, quando o rei cristão entrou na nossa cidade, lançou-me um encanto, para eu ficar sempre de guarda aos seus tesouros.
Como sei que não me estás a mentir? — respondeu Ali Agat, desconfiado.
Vem comigo e verás! — disse a cabra, chamando-o para uma vereda estreita.
Ali Agat seguiu a cabra por muito tempo. Depois de serpentearem pela vereda da serra, chegaram à noitinha à entrada de uma gruta, meio escondida por baixo de um grande arbusto.
Baixa a cabeça e entra! — comandou ela, mas Ali Agat não queria entrar na gruta da cabra, sem saber o que viria depois. — Lá dentro vais descobrir tesouros como nunca conheceste — insistiu ela.
Ainda desconfiado, o algarvio acabou por entrar. A gruta era espaçosa e profunda e o chão estava ladrilhado de alfarrobas de ouro.
Uma por cada súbdito do meu pai — esclareceu a cabra —, mas ele fugiu há tanto tempo que já não deve vir buscar-me, nem livrar-me deste encanto. Só tu podes salvar-me. Basta dares-me um beijo. Quando mo deres, quebra-se o encanto e eu volto a ser a jovem princesa que era. Para isso, estou disposta a dar-te todo este ouro. Mas, com uma condição: tens de retirá-lo da gruta antes do nascer da lua.
Ali Agat, muito relutante, mas pensando como ficaria imensamente rico só por beijar uma cabra, acabou por aceitar. Apenas lhe deu um beijo na boca, ela transformou-se numa linda jovem, de belos cabelos negros e vestida com uma longa e leve jelaba verde-água. Ali Agat ficou encantado com a beleza da princesa, mas precisava apressar-se a recolher o ouro. Boa parte da noite entrou e saiu da gruta, carregando pesadas alfarrobas de ouro. Finalmente, quando já cansado arrastava a última alfarroba para fora da gruta e rejubilava, aconteceu o que temia: o grande halo prateado da lua já se erguia majestoso no céu escuro. Imediatamente, todo o ouro desapareceu, suspeitando ele que tivesse voltado para a gruta, cuja entrada se fechou com estrondo. E a linda princesa voltou a ser a cabra de antes.
Vê o que fizeste! — ralhou ela. — Com os teus vagares dobraste-me o encanto.
Ali Agat não sabia o que dizer, mas acabou por se desculpar com o cansaço. Disse-lhe que se esforçara tanto que até se esquecera da mulher, que já devia estar preocupada à espera dele. A cabra compreendeu:
Volta lá para a tua mulher, já que, a mim, só me fizeste mais infeliz. Mas sempre pelo mesmo caminho e sem olhar para trás. E leva estes dois saquinhos de figos para a viagem.

Ali Agat voltou pela mesma vereda, recolheu a cesta de medronhos e dirigiu-se para casa. Quando sentiu fome, tentou comer os figos que a cabra lhe dera, mas ainda estavam verdes e leitosos e já lhe tinham posto os bolsos a colar. Chegou finalmente a casa, onde a mulher já estava muito aflita, sem saber onde o procurar. Contou-lhe então tudo o que lhe tinha acontecido e porque se tinha atrasado:
Quando acordei da sesta, apanhei uma alfarroba de ouro mas, quando vinha mostrar-ta, encontrei uma cabra, que, na verdade, é uma princesa moura encantada e que tem uma gruta maravilhosa ladrilhada a ouro. Disse que seria todo meu se eu lhe desse um beijo e o tirasse da gruta antes de a lua nascer. Não consegui, porque entretanto apareceu a lua. Mas trouxe esta cesta de medronhos e estes dois saquinhos de figos. Só que ainda estão verdes.
Ai, Ali Agat, nem mentir sabes! — queixou-se a mulher. — Apanhaste outra vez uma barrigada de medronhos e ficaste a ver mouras encantadas e alfarrobas de ouro. Porque é que não deixas o medronho e voltas para a amêijoa?

Joaquim Bispo

*

Imagem: Joana Vasconcelos, Lilaea (secção), 2017.

* * *








quarta-feira, 20 de março de 2019

TRALHAS


Meu pai tinha uma fazenda. Eu tive uma fazenda na minha infância. 

Longe de ser um grande latifúndio, mas suficiente para ele criar 
alguns bois e algumas vaquinhas que davam leite. 
Meu pai tinha pavor de tomar leite direto da teta da vaca. 
Medo de brucelose e outras doenças que as vacas podem transmitir. 
Meu pai também tinha horror a salsicha. Conhecia como se 
fabricavam as salsichas.
A fazenda do meu pai ficava a uma hora de carro, uma Rural Willis, 
de onde morávamos, o que me permitia sábado sim, sábado não, me 
vestir de Tom Mix, prender a estrela de xerife na camisa quadriculada, 
calçar botas com esporas de mentirinha e madrugar para montar o Batuta, 
um cavalinho que meu pai comprou na Quinta da Boa Vista e me deu de 
presente de aniversário de cinco anos. 
Um dia, eu vesti na cintura uma cartucheira com um revólver de cano 
comprido e prateado da Manufatura de Brinquedos Estrela. Meu pai 
perguntou se eu ia matar os bois dele. Nunca mais vesti a cartucheira.
Os sábados na fazenda tinham um ritual. A gente chegava na casa principal, 
as montarias estavam prontas e partia a tropa de curral em curral 
para reunir a boiada do pasto, fazer contagem, aplicar remédios nos animais, 
reabastecer os cochos de sal grosso e verificar se tudo estava direitinho. 
Meu pai ia na frente, montando a égua Pratinha, ao lado de Seu Amado, 
o homem que cuidava da fazenda e dizia que eu era um menino muito amisaroso. 
Nunca entendi o adjetivo, mas, pelo jeito sorridente de pouco dente que ele 
dizia, achava que era coisa boa.
Atrás das duas montarias, seguia eu trotando o Batuta. E atrás de mim, 
Aguilar, o filho do seu Amado, tocava a pé um carro de boi carregado 
de tralhas: apetrechos, ferramentas, sal grosso, remédios, galões de leite, 
marmitas embrulhadas em pano de prato. Minha avó era quem preparava a minha 
marmita: arroz, caldo de feijão, carne moída com azeitona, purê de batata e 
um ovo frito em cima de tudo. 
Havia também várias capas de encerado de caminhão, caso chovesse.
A gente esquentava as marmitas no fogão de lenha da casa de sapê de Dona 
Iracema e Ico, o cara que cuidava do curral do Pau D’Alho, cujo nome minha 
mãe não gostava que eu dissesse porque lembrava um nome feio. 
Tempos depois entendi a rima.
Puxando o carro de boi, Pelé e Coutinho. Dois parelhos muito fortes e bonitos. 
Caminhavam na velocidade da placidez bovina e tinham um jeito que me encantava. 
Os passos eram simultâneos, os movimentos iguais. Quando um virava a cabeça 
para esquerda ou para direita o outro também virava para o mesmo lado, 
e vice e versa, numa harmonia que parecia que tinham ensaiado. Os dois se 
entendiam de olhos fechados e me hipnotizavam como mágicos.
Uma tarde, num sábado sem fazenda, meu pai me levou ao Maracanã, para assistir 
ao meu Botafogo jogar contra um time sensação vindo de uma cidade de praia 
em São Paulo. Era uma cidade que tinha praia de areia dura, onde carros trafegavam 
até a beirinha das ondas mansas, meu avô me mostrou na televisão.
O jogo no Maracanã foi um baile do time branco da praia paulista em cima do meu 
Botafogo, comandado por uma dupla de homens fortes, bonitos e harmônicos chamados 
Pelé e Coutinho. 
Aí, eu entendi o nome dos bois. 
Não eram plácidos e vagarosos como os da fazenda, mas ágeis e velozes como Corisco, 
o cavalo que Seu Amado montava. 
E também se entendiam de olhos fechados. E se movimentavam como ensaiados. 
E me hipnotizavam como mágicos.
Outro dia, soube que Coutinho havia morrido. Não o boi, mas o parelho de Pelé, 
do baile espetacular que vi no Maracanã.
Na mesma hora, um carro de boi encantado passou lentamente pela estrada da 
minha memória,  carregado de uma tralha imensa de lembranças felizes.








domingo, 17 de março de 2019

Dezoito horas abaixo





Para nós, a terra é nua e plana.
Não há sombras. A poesia
Mais do que a música há de ocupar
O vazio de um céu sem hinos...

Wallace Stevens – O Homem do Violão Azul





          Tenho uma história sobre aquele-eu que foi para Porto Alegre, dezoito horas abaixo, por uma pessoa. Foram alguns meses juntos para terminar sozinho. Quatro anos passados, em nova tentativa, para terminar sozinho. Percebi que eu queria, sim, a cidade. Voltar para os lugares que conheci, voltar para os lugares conhecidos. Quando não tive mais motivos para dirigir-me rumo ao sul, pensei em fotos esquecidas em um álbum esquecido. Tentei ignorar, mas algo não foi embora. A cidade revelou-se maior, do tamanho sincero de lembranças que não voltaram desapercebidas. Se eu soubesse que essa pessoa tornaria-se uma história que não traz saudade, faria tudo novamente. Pela cidade, esta pátria, Porto Alegre. Foram poucos dias que bastaram para a cidade permanecer memória. Eu quero andar por Menino Deus e pela Redenção, como quem toma chimarrão. Riscar o chão, ver o pôr-do-sol no Guaíba até marcar aquelas águas. Águas que já foram e voltaram, novas, como da primeira vez que lá estive. O rio não se lembrará de mim. Vou me apresentar, apertar as mãos e seremos velhos amigos. Antes eu era um estranho, sem chance da conversa ao pé das águas.











sábado, 16 de março de 2019

Na escuridão não existe cor-de-rosa

Ilustração: Leonardo Mathias (Todos os direitos reservados)


Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela. Ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d'água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez. Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem
restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command







terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Hino menino

Já faz muitos anos, mais de dez, quase quinze. Eu não era nem mãe ainda. Meu pai comentou que a escola fundada por ele não tinha hino, que a escola precisava de um hino. Entendi aquilo como um convite apelo e tomei pra mim o desafio de rabiscar num caderninho um refrão e mais duas estrofes.

Para o campo semântico, escolhi termos que sempre foram caros àquele educador apaixonado: paz, liberdade, abertura, respeito, aprendizado, criatividade, expressão, amizade, cooperação... Não demorou muito e, depois de alguns cortes e substituições de palavras para ajustar métrica e rimas, a letra ficou pronta. 

Tentei fazer a melodia também, mas não prestou. Passei, então, a tarefa para o meu irmão mais novo, que rapidinho solucionou o problema, ajeitando ritmo e cifras. Botou inclusive uma pausa bem oportuna, que virou o charme da música.

Já faz alguns anos que a letra do hino vem impressa na agenda dos alunos da escola, mas eu nunca tinha visto as crianças cantando os meus versinhos. Depois de tanta história, finalmente eu tive o prazer de assistir à apresentação do hino pela criançada. Foi na solenidade de aniversário dos 14 anos da escola, que concentrou na quadra mais de 400 alunos de educação infantil e ensino fundamental. As turmas de 3º, 4º e 5º anos, uniformizadas e regidas pela professora de música, fizeram o coro: “Atual é a vontade de aprender. Atual é o desejo de ser feliz...”.

Eu ouvia a harmonia do conjunto, mas meus olhos se fixavam mesmo era numa moreninha do 3º ano: minha caçula, muito tímida, mas demonstrando orgulho de estudar na escola que o vovô e a vovó construíram (hoje administrada com zelo e dedicação pela vovó, pelo tio e pela tia). A minha primogênita também estava participando, toda prosa, lá na plateia.

Quanta emoção! E quanta saudade do meu pai, que estaria hoje com 74 anos. “Quero um mundo criativo e bem aberto (...) Muita paz e muito amor eu vou plantar.”

Maria Amélia Elói





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Uma pedra no sapato de ténis



Casimiro Lopes começou a suspeitar de que qualquer coisa não estava bem quando, pela terceira vez, o seu parceiro habitual de ténis, Francisco Torrinha, deu uma desculpa para não fazerem a partida habitual. Não jogavam com muita regularidade — talvez de três em três semanas, muito longe das duas vezes semanais de uns anos atrás, quando ambos ainda estavam ao serviço da empresa —, mas era o suficiente para manterem a ilusão e a imagem de jogadores de ténis. Nem sequer eram grandes praticantes, apesar de jogarem juntos havia uns vinte anos. O ténis, agora, não passava de um pretexto para mexerem um pouco as articulações, calcificadas por tanto sedentarismo, e atualizarem o contacto.
Se, na primeira “nega”, Casimiro achou normal que o amigo não pudesse jogar por “ter de levar o carro à inspeção” e na segunda não pudesse, por andar “com uma dor lombar”, na terceira achou que as “compras no supermercado” bem podiam ser adiadas. Entre o surpreendido e o magoado, resolveu que não desafiava mais o amigo. Ele que telefonasse! Se a questão fosse circunstancial, Francisco haveria de arranjar um bocado da tarde para jogarem.
Passou-se um, passaram-se três meses e o telefone não cantou nenhum convite do amigo. Paciência! Casimiro é que não queria humilhar-se mais. Podia bem passar sem jogar ténis.
Quis o fado ou o diabo que Casimiro encontrasse um ex-colega da tropa, o Henriques, e chegassem à conclusão de que eram ambos jogadores de ténis a ressacar. E logo ali combinaram uma partida para o dia seguinte. Aziago dia esse!
Eram umas dez e meia, quando desceram dos balneários do Jamor para os campos de terra batida. O Henriques parecia jogar bastante melhor do que Casimiro, pelo que este se preparou para uma bela tareia. Na verdade, meia hora bastou para levar 6–2, na primeira partida.
Estavam a iniciar a segunda, com Casimiro a servir, quando este ouviu uma voz, seguida de uma risada, que muito bem conhecia. Estacou um momento, a determinar de onde vinha o som, e percebeu que vinha de um campo próximo, mas encoberto pelos arbustos de separação. Serviu, mas fez dupla falta. A seguir, meteu a bola na zona própria, mas um petardo do outro lado fê-lo ir buscá-la ao fundo do campo. Enquanto a apanhava, conseguiu espreitar por entre os arbustos e confirmar o que temia: Francisco Torrinha jogava ténis alegremente com outro tipo. E como se isso não bastasse, o outro era o Renato, o nojento Renato, o ex-colega de ambos que tinha das posturas mais irritantes na empresa. Irritante, manhoso e arrogante. Uma víbora com pernas.
O resto da partida correu ainda pior do que a primeira, se isso era possível. O sol queimava, a terra batida vermelha cegava, os olhos não conseguiam ver com precisão a trajetória das bolas. Quando a partida acabou com 6–0, Casimiro desculpou-se com o calor e voltaram aos balneários. Mais do que o calor, Casimiro já não aguentava a alegria que adivinhava no outro campo. Com o Renato!
O resto do dia não foi nada repousante para Casimiro. Pensou em mil e uma coisas que podia fazer, das mais vingativas às mais conciliadoras. A mais sensata, que acabou por prevalecer, quando, pelas três da manhã, o cansaço já se sobrepunha à raiva, foi a de confrontar Francisco com aquela facada nas costas.
No dia seguinte, foi esperá-lo à porta do infantário, aonde sabia que Francisco levava todos os dias a neta. Este não podia ter ficado mais surpreendido com a visita, mas pareceu a Casimiro que ele tentava disfarçar um ar comprometido:
Por aqui a esta hora? Pensei que a manhã era sagrada para ti!
Isso é um sarcasmo dos mais reles que já ouvi. Mais reles que isso é teres ido jogar ténis com o Renato — descarregou Casimiro, sem conseguir evitar o fel.
Mas o que é que estás a dizer? — ripostou Francisco, à defesa. — Quem é que te disse isso?
És capaz de negar na minha cara? Vá, diz; és? — faiscava Casimiro.
Sim, fui — admitia Francisco, vendo que não adiantava negar. — E daí? Qual é o problema?
O problema é que somos parceiros há vinte anos e ultimamente tens andado a evitar-me. E para quê? Para ires jogar com o mete-nojo do Renato! Com o Renato… Como é que foste capaz?
O que é que tem? Calhou! Encontrei-o no supermercado…
«Encontrei-o no supermercado» — repetiu Casimiro com voz de falsete. — Se te aparecesse o “Doninha” do Contencioso, também ias jogar ténis com ele, não? Agora vais com qualquer um? Não me admirava!
Ó Casimiro, qual é a tua? — aborrecia-se Francisco. — Mas então não posso ir jogar ténis com quem me apetecer? Era só o que faltava!
Pois, podes ir com quem te apetece, mas baldaste-te três vezes, quando te convidei. O que é que os outros têm a mais que eu não tenho?
Olha, por exemplo, estão dispostos a ir jogar de manhã, enquanto que tu…
Eu, quê? Se for o único período livre, posso ir de manhã. Ainda ontem fui — descaiu-se Casimiro — Tu é que nunca insististe!
Ah, tu podes jogar com outros e eu não posso! É essa a tua ideia de fidelidade?
Só fui porque tu nunca mais me ligaste. Assim, não! Também tenho sentimentos.
Ó Casimiro, não sejas assim! Não tem dado, mas podemos ir jogar um dia destes.
Amanhã? — apressou Casimiro, pela perspetiva de voltar a jogar com o amigo.
Eh, pá, amanhã não posso; tenho uma consulta no Centro de Saúde.
Eu não acredito que estava a ir na tua cantiga! — desesperou Casimiro. — Já percebi. Percebo até bem de mais. Sabes o que te digo? Vai-te catar! Eu não preciso de ti para nada. Se eu quiser jogar ténis tenho muito com quem.
Casimiro saiu de ao pé do amigo mais fulo do que nunca. «Falso!» — pensava para si. «Tu vais ver o que é bom...»
Daí a uns dias, tendo contactado um outro ex-colega que sempre conhecera como jogador de golfe, Casimiro deu as primeiras tacadas num campo de 9 buracos, num esplêndido espaço dos arredores. Saboreando o imenso relvado tratado e a cavaqueira com este amigo que já não via há algum tempo, comprazia-se sobretudo na vingança que estava a aplicar ao traiçoeiro Francisco.
«Bem fria é que ela sabe bem!» — confirmou ainda nesse dia, ao publicar no facebook uma selfie com o amigo golfista: tacos na mão, um esplêndido relvado e um lago em fundo, felizes.

Joaquim Bispo

*

Imagem: Pintura mural no interior do restaurante anexo ao “court” central do Jamor, c. 1945 (?).
* * *






quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

ALONZANFÃ

Zé Bumbo está animado para o carnaval. 
Zé Bumbo toda noite vai para o ensaio da escola.  
Zé Bumbo avisou à Adriane que até quarta-feira de cinzas 
vai varar madrugada na quadra.  
Adriane não gostou. Fez drama, disse que tinha 
aquelazinha de nome Janeide, madrinha de bateria, nesse angu. 
Adriane falou que não era boba, avisou que ia aprontar barraco na escola. 
Brigaram feio. 
Zé Bumbo ameaçou dar com a baqueta do bumbo na cabeça dela. 
Adriane disse que ia botar Zé Bumbo na cadeia. Debochou, riu na cara dele.  
Gritou “Lei Maria da Penha!” duas vezes. Ele perguntou quem era Penha. 
Adriane chamou Zé Bumbo de sonso e burro. 
Zé Bumbo não sabia o que era sonso, mas burro sabia. 
Lembrou da mãe e das professoras da escola primária pela metade.
Baixou a cabeça, esfregou a testa, sossegou o frege. 
Pensou no carnaval, na escola, na alegria com hora marcada. 
Zé Bumbo pediu desculpas. Não por Janeide, que só existia no enredo 
de Adriane. Nem pela tal de Penha, que nunca a viu mais gorda. 
Mas pela vontade que deu de dar com a baqueta na cabeça de Adriane. 
Adriane aceitou. Viu que ele estava fora de si. Viu que ela mesma estava 
rodopiando de ciúmes. 
Aquietaram-se. Choraram juntos. Beijaram-se. Abraçaram-se. Treparam. 
Noite inteira. Bum, bum, bum, bum, bum. Até que Zé Bumbo e Adriane 
perderam a hora. 
Chegaram os dois atrasados, cada um no seu serviço. 
Levaram descompostura dos seus chefes. 
Zé Bumbo engoliu sapo. 
Adriane tinha cabelinho nas ventas, disse poucas e boas à patroa. 
Largou vassoura, pano de chão, balde e Veja Lavanda no meio da sala. 
Zé Bumbo mais ajuizado. Pegou a pá e foi remexer cimento em silêncio. 
Só bumbo toca dentro dele. Zé Bumbo só tem o carnaval dentro dele. 
Não cabe mais nada. Apagou tudo que lhe aperreou. 
Lama tóxica. Chuvarada. Desabamento. Matança na comunidade. 
Os meninos que voaram do ninho para o Céu. 
Estranhou não estar ouvindo a voz familiar no rádio todas as manhãs, 
que sempre falava coisas indignadas que não entendia, 
mas ria do jeitão da voz. 
Zé Bumbo não ri mais. Zé Bumbo chora nada, vive nada. Só o Carnaval 
que está para chegar. 
Zé Bumbo não sente saudade de pai, mãe, irmãos, filho, de tudo que a 
vida levou pela enxurrada, pelos traficantes, pela polícia ou pelos 
milicianos que dizem donos da porra toda. 
Ano passado mandaram Zé Bumbo votar. Em qualquer coisa, mas votar. 
Pois votou em qualquer coisa. Diz que foi para acabar com a ladroagem. 
E com a sem-vergonhice também. 
Zé Bumbo não conversa com os colegas da obra. 
Zé Bumbo trabalha, toca bumbo e trepa com Adriane como se não houvesse
ninguém, nem nada mais em volta dele. 
Uma cimentada aqui, uma alisada ali, o tempo passando no muro que sobe. 
Zé Bumbo contempla a obra que chegou na metade.  
Lembra feliz que é dia de provar a fantasia na costureira.  
Uma fantasia a viver.  
Zé Bumbo vai ser soldado de Napoleão. Ensaia toda noite o samba enredo 
“ Alonzanfã. E se a França tivesse colonizado o Brasil? ”. 
Zé Bumbo não sabe o que o que é França Antártica. Acha que é cerveja. 
Também não sabe quem é Villegagnon do refrão do samba:  
“Villegagnon, Villegagnon, 
Se não perdesse a guerra, 
O Brasil era outra terra
Alonzanfã seria o hino
Mas Deus é quem manda no destino”
Zé Bumbo entende nada do enredo, sabe nada do que cantam.  
Não sabe o que é liberté, egalité, fraternité, sivuplé, merci,
(rendevu ouviu falar) e bom suar. 
Pensa que bom suar é trabalhar para levantar muro. 
Zé Bumbo só sabe a hora de bater o bumbo. 
Na certa nem sabe o que é França. Talvez nem sabe o que é Brasil. 
Vai ver que sabe sim: Brasil é seu bumbo, seu mundo é seu bumbo, 
seu bumbo é seu mundo. 
O resto que se foda. 
Zé Bumbo está animado para o carnaval. 





domingo, 17 de fevereiro de 2019

Velhos talheres












                               Voltei a usar os talheres que trouxe de São Paulo. Não deveria tê-los trazido, mas vieram. Anos depois de aqui chegarem, estão em uso novamente. Minha vida anterior, meus sentimentos de antes, meu antigo jeito de ser. Como se outra pessoa retornasse, se sentasse à mesa para tomar um café comigo, em uma infinita conversa sobre os anos que virão...












sábado, 16 de fevereiro de 2019

Carma


Dezoito anos sem um teto. Dezoito. Ela gosta dos números pares. Duas meias de lã, duas luvas de lã, dois sapatos, dois brincos de argola vagabundos. Escondidos no carrinho de supermercado parado ao lado da barraca improvisada com panos velhos. Na rua, nada está a salvo. Tem roubo. Tem porrada. Tem sangue pingando na calçada. Por causa de um barbante, de um jornal velho, de meia garrafa de pinga, de um papelão rasgado. Na rua, morre-se por um par. De luvas, de meias, de sapatos. Com a garganta cortada. Durante o sono pesado do porre de cada noite; de todas as noites. Na rua, dormir é luxo. Coisa de bêbado burro.
Ela se levanta às seis da manhã. Todo dia. Abre o saco de aniagem que ganhou na padaria. Confere cada item. Calça, uma a uma, um a um, luvas, meias e sapatos, e enrola no pescoço o cachecol comprido que encontrou no lixo faz alguns anos. Ela tem sorte. Sempre encontra o melhor descarte. E ainda ganha coisas boas das pessoas. Ela tem jeito de gente honesta. Não incomoda. Não toca no braço. Não cerca. Não insiste. Não grita. Não rouba. Já roubou. Muito. Mas não rouba mais. Pede. Troca latinhas e garrafas. Recebe pão, esmola, roupa velha, cobertor, sorriso. Trocas. Já roubou, sim. E já fez outras coisas.  Não interessa. Agora, ela só faz o que quer. 
Dezoito anos que fugiu das porradas da mãe drogada. Surra após surra. Porque não vendia todas as balas. Porque o dinheiro não dava para comprar outra pedra de crack. Porque se recusava a ser estuprada pelos homens para quem a mãe a oferecia. Não adiantou de nada. Destino é foda. Carma. Palavra forte. Ouviu de uma mulher que pastoreava carros no estacionamento do teatro. Carma. Carma. Carma. Carma. O dela era bem ruim. 
Quando fugiu de casa, carregou três coisas. O retrato de um artista americano recortado de uma revista antiga (dizia para si mesma que era o pai que não tinha conhecido); uma fé tão ingênua que era quase esperança; e a virgindade, intacta graças ao facão que encostava no meio das pernas dos homens que tentavam trepar com ela. 
Perdeu as três coisas no primeiro mês. O retrato, encharcado durante uma tempestade. A virgindade, na curra de quatro bêbados que ainda por cima bateram muito nela. A fé, destruída por cada caralho imundo que se enfiou dentro dela. Naquela noite e em muitas outras. Chorou no dia da curra. E sangrou. Depois que o choro e o sangue secaram, sentiu alívio. Perder tudo assim, de uma vez. Restar mais nada. Apenas realidade, essa ferida que só dói no primeiro corte. Sorte dela aprender assim tão rápido, tão de uma vez. 
Fez a vida nas ruas. Trepou, fodeu. Abriu as pernas para qualquer um que pagasse ou lhe desse alguma coisa. Dinheiro, droga, boneca, casaco, comida, batom. Trepou em beco, em mato, em ferrovia, embaixo de ponte. Entrou em carro para fazer boquete. Em carro. Um deslumbre. Aquele cheiro bom que vinha dos bancos. Os vidros parecendo uma vitrine; separando dois mundos. Queria ter um carro. Ia morar dentro dele, pensou, enquanto chupava o pau nojento do homem que gemia e puxava os cabelos dela como se fossem rédeas. 
Pegou barriga três vezes. Tirou dois. Um vingou. Descuido. Só percebeu quando não tinha mais o que fazer. Ninguém quis fazer. Ela tentou sozinha. Não deu certo. Sangrou tanto que foi levada para o hospital pelas mulheres da caridade que passavam uma vez por semana. Ninguém desconfiou dela. Ou sei lá. Desconfiou. Médico sabe. Mas achou melhor fingir que o sangramento era natural. A enfermeira lhe deu um remédio e a pôs numa maca suja e estreita no corredor. Dormiu feliz. Pensando em como era bom dormir numa cama. Esquecida de que a criança ainda estava dentro dela, viva. 
Acordou mãe. Convicta. Ia ter a cria, ia lutar por ela. Um pedaço de carne que tinha forças para sobreviver a tanto pau espetado no útero merecia viver. Nem faltava muito. Três meses. E ela começando a imaginar coisas demais. Pensando na cara do menino. Na cor do menino. Eram tantas as cores dos homens com quem trepava. Pensando no nome do menino. 
Nasceu menina. Magra, calada, parecida com ela. Não, menina não! Que pesadelo da porra! Ela não ia criar carne para nenhum fodido estuprar. Preferiu não dar nome para a criança calada. Fez bem. Não ia viver mesmo a infeliz. Ela sem leite, a caridade deixando alguma coisa uma vez por semana. Ela sem poder fazer a vida. 
Tem tempo. Mas ela ainda se lembra. Da menina arroxeando numa madrugada gelada. Do cobertor fino, cinza, enrolado no corpinho pequeno. Da morte feito passarinho, sem soltar um som. Teve inveja de uma passagem tão bonita. Queria morrer igual. Sem piar. E ficou lá muito tempo, olhando aquele rosto sem nome. Depois, aconchegou a menina nos braços, como gente viva. Caminhou muito tempo. Com pressa. Precisava chegar a um lugar antes que fosse de manhã. 
Quando deitou o corpo miúdo da criança na escadaria da igreja, faltava pouco para a primeira missa começar. Às sete horas, algumas pessoas chegariam. Algumas delas veriam o cobertor e se aproximariam. Um susto, um grito, um choro. Olhos procurando ao redor, tentando achar a filha da puta que tinha deixado a menina morrer. Ela já estaria longe. De volta para o seu canto sem igreja, sem hospital, sem cobertor. A pequenina ia ganhar solo sagrado no dia seguinte. Em cova rasa, como qualquer pobre fodido. Mas ia. Que esse povo de igreja não deixa ninguém sem enterro, sem reza. 
Porra! Não é para ficar lembrando a cria morta. As coisas que o tempo leva pertencem ao tempo. Carma. Carma. Carma. 
Duas meias de lã, duas luvas de lã. Guardadas porque o dia esquentou. Dois sapatos de homem de tamanho grande. Calçados para proteger os pés do asfalto quente e das calçadas imundas. Sapatos de pedir esmola. Encontrados no lixo. Tão novos que deveriam ser de gente que morreu. Falta pendurar nas orelhas pretas de sujeira os dois brincos de argola vagabundos. Ela gosta de números pares. E de pensar na morte dos passarinhos.





domingo, 27 de janeiro de 2019

Rascunhos


Há sempre espaço

para mais um traço
- de medo

uma sombra
- de dúvida

ou um contorno
- de hesitação

os riscos incertos
de um sujeito-rascunho

um homem só fica pronto
- imutável

quando morto





sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A ponte



Viajar para Saturno não fazia parte das aspirações de Oleg, em criança. As leituras de juventude — muita ficção científica, muita divulgação científica — levaram-no, no entanto, para caminhos insuspeitos, mas empolgantes. Aos trinta e dois anos via-se a caminho de Encélado, uma lua de Saturno com aparentes boas possibilidades de desenvolver vida: tem água líquida, atividade hidrotermal e uma composição gasosa com algumas semelhanças com a da Terra. Tais condições, talvez amigáveis para humanos, desencadearam mais uma corrida espacial entre as nações do planeta azul. Haverá um momento em que pequenas colónias de homens terão necessariamente de procurar alternativas de espaço e de recursos naturais fora da superlotada e envenenada Terra.
Oleg integra a minúscula equipagem da Moct, a nave que já navega há quatro anos e ainda precisa de mais dezasseis para chegar a Saturno. Os três membros viajam em regime de oito meses de semi-hibernação induzida, por quatro meses de vigília/sono. O tempo custa a passar. Ainda falta quase um mês para Oleg voltar a ser submetido à fase letárgica. O isolamento é penoso e pérfido. Trocar palavras com a base terrestre é um exercício kafkiano, devido ao desfasamento temporal provocado pela distância. Uma palavra que ele lançasse agora para a Terra demoraria mais de três minutos a chegar lá; se devolvida logo, a resposta chegaria a Oleg mais de seis minutos depois. Não dava para conversar; só parodiar um patético diálogo de afásicos.
Oleg não estava tão isolado assim, tinha consciência. A enorme equipa que programara a missão a Encélado previra as intermináveis horas de solidão, estudara os gostos e a personalidade de cada cosmonauta. A Oleg forneceu quinhentos “teras” de filmes e livros, distribuídos por vários unidades de armazenamento.
No final da adolescência, Oleg continuava muito reservado. Era frequentador da biblioteca da sua cidade natal. Gostava de se internar no universo fantástico das secções; como descobridor de mundos, costumava aterrar numa galeria, explorar o continente de uma estante, deambular pelos vales surpreendentes das prateleiras, deslumbrar-se com as residências dos habitantes, entrar nas páginas de uma e tomar contacto com os inesperados moradores, às vezes, seres bizarros e inquietantes; outras, criaturas simpáticas e calorosas. À despedida, um conforto espiritual acompanhava-o, animando a sua condição de homem em busca de enriquecimento íntimo.
Da adolescência guardou aquele gosto pelo inesperado: entusiasmava-se com o que a sorte lhe atribuiria, em pesquisas aleatórias de leitura. Instalou-se no conforto de uma ténue gravidade artificial da zona de lazer, posicionou o visor a uma distância cómoda e lançou a pesquisa. A máquina apresentou-lhe “O jovem pastor e a fadazinha”, um conto valáquio de Gorki. À memória acorreu a imagem de um prado de extensão inimaginável. E do deslumbramento juvenil do pastorzinho aconchegado entre céu e planura.
Lembrava-se de todos os grandes clássicos: da monumentalidade de Tolstoi, da sátira social de Gogol, dos contos suaves e realistas de Chécov; este conto tinha estado encoberto, há tanto tempo que não o lia... Dentro em pouco, estava embrenhado nas peripécias ingénuas e carinhosas do pastor e da pequena fada nas margens do Danúbio:

«O pastor sentou-se à sombra de uma árvore solitária que, amante da liberdade, se afastara da floresta para crescer em plena estepe; erguia-se orgulhosa e altivamente, balouçando suavemente os ramos sob a carícia do vento que soprava do mar.
Era no mês de maio, um mês encantador, um mês alegre. A folhagem nova que o mês tinha feito nascer, de um verde magnífico, clamava alegria; o rumor dessa folhagem formava uma longa onda sonora que se alongava pelo céu de um azul vivo onde flutuavam suavemente brancas nuvens macias que fundiam sob os raios ardentes do alegre sol primaveril. A fada balouçava nos ramos da grande faia e cantava:

A brisa é suave e perfumada.
Traz até nós, de toda a parte
suspiros, murmúrios e ruídos…
Dormir será delicioso;
o sono será terno e puro
na maravilha de um tão belo dia.»

Oleg deitou-se no chão da nave, o corpo enclausurado, separado da sua Terra por centenas de milhões de quilómetros; na mente, a ponte que o terno e inspirador conto lançara e o ligava ao seu país. Imagens aprazíveis das juvenis deambulações pelas margens do Volga afagaram-lhe a superfície da alma. Vislumbres de casa, dos seus...
Continuou a reconfortar-se na leitura, nas evocações, o sorriso tristemente feliz.
Lá fora, a noite era a eterna e infinita estepe que o separava de casa.

Joaquim Bispo

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Imagem: Franz von Lenbach, Um pastorzinho, 1860.
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