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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Como Lidar com Fanáticos: Teoria e Prática



           O caso foi que, na cidade de Jundiaí, no estado de São Paulo, a Companhia Teatral Palhaços de Atenas quis encenar uma adaptação do romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, financiada com recursos oriundos da Lei Rouanet, aquela lei que permite que empresas entreguem 4% do que pagariam em imposto de renda para projetos culturais, podendo, inclusive, beneficiar-se com isso, tendo seu nome entre os apoiadores do projeto. A captação até não foi difícil: livrarias, restaurantes, hotéis e até um grande banco quiseram vincular seus nomes a um espetáculo que popularizaria a obra de um Nobel de Literatura – popularizaria sim, porque, uma vez por mês, os artistas fariam apresentações exclusivas para alunos do Ensino Médio da rede pública.
            Qual não foi a surpresa da equipe quando, finda a primeira semana, veio contra eles a liminar de um juiz que, incitado por líderes religiosos, proibia a encenação.
            A vontade do diretor foi ir aos jornais mandar o meritíssimo juiz enfiar a liminar na bunda, pois o artigo 5º, IX da Constituição Federal garante plena liberdade para os artistas. Foi isso mesmo que lhe disse a atriz que interpretava Maria de Magdala, amante de Jesus, estudante de Direito cujos rompantes verbais punham em sobressalto sua família quando imaginava suas futuras atuações nos tribunais.
            Mas o diretor era um gentleman e imediatamente expôs o plano B, bem mais eficiente. Fora, incógnito, a uma igreja e conseguira doações de bíblias para todo o elenco. Juntos leriam uma história do livro sagrado e, reaproveitando todo o material da peça censurada, encenariam de improviso uma página das Escrituras Sagradas.
            Um exército de jornalistas esperava as palavras do diretor e eis que ele lhes disse simplesmente isso:
 – Reconhecemos nosso erro e, em sinal de paz, convidamos o meritíssimo juiz e os líderes religiosos que moveram contra nossa condenável peça essa piedosa ação para assistirem, no sábado, à montagem que faremos de histórias bíblicas, obedecendo estritamente o livro sagrado.
E, no dia seguinte, os jornalistas, juntamente com o juiz e os líderes religiosos, viram as filhas de Ló embriagando o pai e fornicando com ele, Jefté sacrificar a própria filha em holocausto ao Senhor, o festival de estupros promovido pela tribo de Benjamin, o príncipe Amnon violentando a própria irmã e Jesus Cristo açoitando vendilhões do templo que apregoavam os produtos vendidos pelos missionários da TV.
Finda a representação, o diretor foi ao proscênio e disse:
 – Agora desafio os senhores a proibirem a Bíblia Sagrada.
(18 de setembro de 2017)





domingo, 29 de dezembro de 2019

Depois do Paraíso



Olhei, desalentado e incrédulo para o terreno semeado e lavrado há pouco tempo. Todos os sulcos de terra, feitos com tanto esforço, estavam destruídos pelo bando de corvos que, como uma onda de carvão, faziam um festim com as sementes, numa algazarra inacreditável.
Atirei-lhes um pau, com pouca convicção, que caiu no meio das aves. Estas, porém, pouco ou nada se importaram. Mesmo aquela que foi atingida pelo míssil, limitou-se a um pequeno salto e a grasnar-me um insulto qualquer, indignada, antes de mudar de poiso.
Deixei-me ficar a assistir ao banquete.
De facto, sofro de uma falta de sorte impressionante. Os meus pais fartam-se de falar de um tempo em que estavam numa terra muito boa, onde as árvores davam tudo o que precisássemos, sem ter de cultivar…, mas foram expulsos de lá, por uma injustiça, ou um mal-entendido qualquer, do qual eu nunca me importara em saber pormenores. Agora, havia que trabalhar duramente, para arrancar alimentos desta terra paupérrima e ingrata… e dá-los aos canalhas dos corvos. 
— Os corvos fazem uma festa. — A vozinha sibilante fez-me olhar para o maciço de ervas, de onde espreitava a enorme serpente dourada que lá morava.
— Pareces feliz! — Exclamei, amargurado.
— Nem feliz, nem infeliz. — Mas a expressão da serpente parecia contradizê-la. — Simplesmente não é natural, teres de ferir a terra para produzir alimento… no fim, quem se consola são os corvos e os gafanhotos. Assim, encontram tudo o que precisam para encher a barriga, no mesmo sítio. Estão-te agradecidos, os bichinhos.
— Ah, cala-te! — Exigi, revoltado. — Qual é a alternativa?
— Podias voltar para a terra de onde os teus pais foram expulsos. Lá era tudo mais fácil. — A serpente concluiu, erguendo-se sobre o seu corpo, quase à minha altura. — Foi uma injustiça o que lhes fizeram.
— Eles dizem que têm lá guardas terríveis, que nos matam, se nos aproximarmos.
— Então… — Continuou o réptil. — Podias tornar-te pastor, como o teu irmão.
— Se ele já faz isso… — Desprezei o conselho. — Vamos comer só cordeiro? E o pão, as couves, os tomates…?
— Foi só uma sugestão… — Tenho a certeza de que a serpente encolheria os ombros se os tivesse. — Podias convencer o teu irmão a ser ele o lavrador.
— Ele não quer. Está muito contente com o seu trabalho, a passear os bichos pelas pastagens. — Retorqui, amargurado. — E só lhe acontecem coisas boas! Ainda outro dia, apareceu o senhor destas terras, que costuma levar alguns dos nossos produtos e não quis nada do que eu tinha! Mas o cordeirinho do meu irmão, não só gostou, como fez uma fogueira, para que o assassem e comessem ambos!
— Uma injustiça! — Apoiou a minha sibilante companheira.
— É mesmo! — Continuou. — Veio ali, com a sua túnica branca como a neve, lá de onde não falta nada, desprezar o meu trabalho, regado com o suor do rosto.
— Que sabe ele do trabalho duro do campo? — Interrogou uma conhecida voz suave, feminina. 
Voltei-me, para ver a antiga mulher de meu pai, segundo ela dizia, avançar na nossa direção. Ao chegar, chutou um alvo crânio de burro, que rolou até aos meus pés.
— Estavas a ouvir? — Perguntei desconfiado. — Será que a minha má sorte não estará relacionada contigo?
— Ouço mais coisas do que podes imaginar! — Afirmou ela, com um sorriso conhecedor. — Também não suporto injustiças, mas esse teu irmão, é quem está no caminho do teu reconhecimento. Eu não tenho nada a ver com isso. Pedi que não dissesses a ninguém que me conheceste, porque o teu pai não iria gostar.
— Sim o teu irmão podia, ao menos, ajudar-te no teu trabalho, em vez de ficar a tocar flauta, enquanto o rebanho pasta. — Acrescentou a cobra.
— Em tempos, — Disse eu melancolicamente, chutando o crânio descarnado. —, tive este burro, que me ajudava a lavrar e a transportar as cargas, mas depois morreu.
— Se calhar, devias alimentá-lo melhor… — Censurou a mulher com um risinho.
— Ou não lhe bater tanto! — A serpente também me recriminava.
— Era um descarado! — Enfureci-me. — Não queria trabalhar e quando lhe batia, para que o fizesse, ainda me ameaçava, dizendo que iria ser a causa da minha desgraça!
— O Criador saberá o que um simples burro queria dizer! — Estava ali a mulher, a criar o dogma da sabedoria dos jumentos, imagine-se.
— Era o que mais me faltava! — Exasperei-me. — Aqui a discutir a filosofia dos asnos com uma cobra e uma desconhecida.
— Não é filosofia! — Contrapôs o réptil. — Trata-se mesmo de tratar bem, quem nos ajuda! E eu não sou uma cobra, sou uma serpente!
— E eu não sou uma desconhecida! — Insurgiu-se a mulher. — Sabes o meu nome, chamo-me Lilith e, quase podemos dizer que sou tua tia! Afinal, também vivi com o teu pai.
— Chega de conversa! — Enervei-me. — Desapareçam e deixem-me só com a minha desgraça!
Ressentidos, mas obedientes, desapareceram assim que lhes virei as costas. Ao mesmo tempo, o número de corvos parecia reduzir; estava-se a acabar o suprimento de sementes.
— Irmão! — Ouvi a voz nas minhas costas.
— Só me faltava este! — Resmunguei baixinho.
— Vi um bando de corvos a vir nesta direção e desconfiei logo do que se passava! — A voz acriançada, que tanto me irritava, continuou. — Não posso acreditar, lá se foi a sementeira.
— Muito te preocupa! — Enfrentei-o. — Vai lá, limpar o traseiro às tuas ovelhinhas!
— Porque falas assim comigo? — Lá estava aquele ar de incompreendido, exatamente igual ao meu pai, que tanto me irritava. — Estou aqui em solidariedade contigo…
— Solidariedade?!? — Sentia-me cada vez mais furioso. — Sabes onde podes meter a tua solidariedade? Precisava é que me ajudasses a lavrar os campos!
— Tinhas um burrito a ajudar-te. — Passou ele da defesa, ao ataque, num instante. — Maltrataste-o e deste-lhe fome. Agora morreu e os outros, nem abeiram por aqui. Inclusivamente, são cada vez mais os animais que deixaram de nos falar, por causa dos teus atos.
— Também tu?!? — Enfureci-me. — Que querias? Que andasse com ele às costas como fazes com os cordeiros?!? Ele era preguiçoso e não queria puxar o arado. Era melhor se o meu trabalho fosse como o teu, de papo para o ar, à espera que as ovelhas cresçam!
— De papo para o ar?!? — Foi a vez dele se revoltar, enquanto que os corvos, sentindo os nossos gritos e a nossa raiva, crocitavam ainda mais alto e esvoaçavam mais furiosamente. —Também tu não gostas de trabalhar e escolheste a agricultura porque, do trabalho que o pai faz, só vias o descanso nos dias de chuva. Eras cego às jornas de sol a sol, a escavar e a lavrar as terras. Por isso te revoltas, só queres a parte boa dos ofícios. O pai, está triste com o teu desempenho e o Senhor também está desagradado. Começam a questionar se serás um bom herdeiro, ou se terão de repensar o assunto.
— Ah, traidor, que andas a armar-me uma cilada! — Exclamei, cheio de raiva, percebendo a extensão da trama e atirando-me ao pescoço dele.
Rolamos no chão, dando socos e puxando cabelos, insultando-nos mutuamente. As palavras doíam quase tanto como as pancadas. Até que me apercebi do crânio do burro, junto a mim. Parti-lho, com toda a força, na cabeça, pois estava queimado pelo sol. Aproveitando a confusão momentânea, agarrei na queixada e espetei-o no peito e no pescoço, enquanto a minha raiva não se esgotou.
Levantei-me a chorar de frustração e fitei, estarrecido, o corpo ensanguentado do meu irmão. Olhos esbugalhados, numa acusação muda. Estava morto!
Entrei em pânico e abanei-o, sem sucesso, enquanto me interrogava, desesperado. “Que iria fazer? Como fora capaz de tal crime? Que iriam dizer o pai e a mãe?”
Olhei em volta, para ver se havia alguém por perto e arrastei o corpo para as ervas mais altas. Escavei como um doido, até conseguir cobri-lo com grandes tufos de verdura. Os corvos haviam desaparecido como que por magia, porém, o vento acusava num sussurro: “Assassino, assassino”.
Larguei numa corrida, em busca de refúgio e proteção. Não diria a ninguém o que se passou, apenas que não via o meu irmão desde ontem. Armado com este alibi, atravessei a mata, sem reparar na mulher e na serpente, que assistiram a toda a cena, com ar de satisfação.
Ao sair da floresta, quase choquei com o dono das terras, na sua túnica alva, de cabelos e as barbas brancas a oscilar ao vento que soprava cada vez mais forte. Estaquei, aterrorizado, sem conseguir soltar palavra.
— Caim. — Trovejou ele. — Onde está o teu irmão, Abel?





quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Fugas




O velho repisa, uma a uma, as escadas exteriores do lar de idosos, agarrado ao corrimão e, em passos miudinhos e hesitantes, avança pelo passeio afora. Vejo-o da minha janela, onde costumo postar-me para ter uma ilusão de contacto com o mundo. Não é uma visão invulgar, mas geralmente os velhos vêm em grupo acompanhados por duas ou três funcionárias. Vêm apanhar um pouco de ar e de sol na pequena praceta ajardinada onde a autarquia instalou dois bancos de jardim. Creio mesmo que o lar se instalou naquele prédio por causa do esboço de jardim. Bem vejo que a diretora o mostra, quando uma nova família chega à procura de um lugar onde largar o familiar. Constatar que o lar até dispõe de um jardim sempre deve evitar alguns pruridos de consciência.

«Não sei. Parece a nossa rua, mas não tenho a certeza. Ela é que deve saber. Tenho de a encontrar. Não sei se disse que ia à mercearia. Talvez esteja ali à frente.»

Ver um velho a abandonar o lar sozinho espicaçou-me a pouca curiosidade que ainda tenho. Estaria a fugir? Ou só a espairecer? Tinha ar de mais de oitenta anos, estava de pijama, com um certo volume na zona da bacia, provavelmente uma fralda de adulto. Pesada, pelo aspeto. No seu passinho miúdo, já percorrera uns cinquenta metros, sem ninguém o travar. Olhava decididamente para o início da rua, como se levasse um destino consciente.

«Era ali. Era ali a mercearia. Mas agora não está lá. Como é que isto aconteceu? Se calhar é mais à frente.»

Vejo-o parar e olhar em volta. Andará à procura de alguma coisa? Não andamos todos? Afasto-me da vidraça, para ele não me ver. Pouco depois recomeça a andar. A sua figura um pouco curvada de riscas azuis e cinzentas verticais não suscita a atenção de ninguém. Não passam carros, não há mais pessoas na rua.

«Deve ter ido ao pão. Se lá for antes de almoço, talvez a ti Quitéria ainda tenha. Pão de verdade, de quilo, bem firme. Senão, traz papo-secos...»

Bem faz o velho — pirar-se dali. Imagino que tenha sido bancário, ou empregado de balcão. Há nele qualquer coisa de solicitude. Imagino como se deve sentir desfasado do mundo. Cá fora, todos com os olhos metidos no telemóvel, sem respeitar nada, nem ninguém. Lá dentro, só velhos de olhar parado, afundados em recordações. E funcionárias ríspidas e mandonas. Pirar-se, ir por aí afora, encontrar um pouco de coerência no mundo, um pouco de compaixão. Se calhar era o que eu devia fazer também. Estou aqui a fazer o quê? A espreitar a rua, a olhar para as árvores, para os automóveis que não passam.

«Não encontro a mercearia. Acho que vou já para casa. Ela já lá deve estar. Vou-lhe pedir pão com azeitonas — pão de côdea escura, azeitonas grossas retalhadas, a saber a sal.»

Uma funcionária já veio à janela espreitar. Tinha um ar apreensivo. Se calhar já deram pela falta do velho. Como a rua encurva ligeiramente, não conseguiu vê-lo, que já vai lá à frente. Voltou para dentro. Hei-de avisá-las ou deixo o velho escapar? A minha solidariedade vai para o velho. Talvez consiga alcançar o que deseja. Ele que goze uma réstia de ilusão de liberdade! E eu?

«É já ali a nossa casa. Parece, mas não sei bem; está esquisita. Está tudo diferente. Gostava que ela já lá estivesse. Ah, se me tivesse arranjado um pratinho de requeijão morno, com açúcar… Parece que já não o como há tanto tempo.»

E se fazem mal ao velho? É perigoso andar por aí. Não deve ter nada para roubar, mas nunca fiando. Há por aí muita malandragem. Maltratam só pelo prazer de ver sofrer. Se calhar ele ficava mais seguro no lar. Aonde é que ele vai, nesta idade? Agora foi abordado por dois tipos. Espero que não… Não; parece que estão só a conversar. A esta distância, não consigo perceber o que dizem.

O senhor precisa de ajuda? — pergunta um dos rapazes, estranhando as roupas e o ar atarantado do velho.
Simão Cordeiro dá pelo jovem, os seus olhos castanhos orlados de cinzento completam um rosto de desorientação e angústia. A voz sai-lhe sumida:
Quero a minha mãe!

Joaquim Bispo
*
Este texto obteve o 1º lugar na modalidade Prosa em âmbito Internacional, no concurso Professor Mário Clímaco / 2019, da ALEPON — Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova — Brasil.
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Imagem: Fernando Namora, Árvores, 1964.
Coleção Casa-Museu Fernando Namora, Condeixa-a-Nova.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O ESTRANHO VISITANTE


                                     



A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê! Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?!
Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.
Farto, saciado com a água fresca da moringa de barro, pensa num cigarrinho... Afinal, pressa num dia como hoje é bobagem! O corpo não suporta aquele calor infernal! Tem consciência de que hoje o trabalho rende pela metade.
Passa a botina pelo capim seco como se limpasse o chão, e solta o corpo num sentar extenuado. Passa a mão no embornal e dele retira um pedaço de fumo, o canivete, a palha de milho. A mão esquerda em forma de concha protege os fiapos de fumo que ele vai picando. Cheiro forte e bom! Não resiste... Coloca um naco na boca.
Cinco anos já se passaram desde que sua mulher se foi... Cinco anos doídos, arrastados, vazios. Doença maldita! Tudo tão rápido que não teve nem tempo para se acostumar com a ideia. Teve de se acostumar, precisou se arranjar mergulhado na dor. Ficou muito difícil, tanto que até hoje não se resignou.
Nessa época do ano ainda é pior! Dezembro lhe dá um desconsolo, um desamparo... A solidão é tamanha que parece transpirar pelos poros. Bom seria se não existisse este pedaço do ano!
Amanhã é Natal. Diacho de dia mais bobo! Ainda bem que já se preveniu... A garrafa de pinga o aguarda! É sempre assim. Começa a beber à noitinha e vara as outras vinte e quatro horas numa carraspana sem fim! Duro mesmo é o outro dia! Um vazio no estômago, enjoo, tremura no corpo, suadeira fria e um desânimo de dar pena! Pelo menos durante algumas horas não pensa. Apenas dorme. Se nos intervalos, entre um gole e outro, aquela saraivada de pensamentos teimosamente tenta chegar, Gregório não vacila. Sorve goles rápidos e constantes até que adormece. É assim o seu Natal. Nem abre as portas da casa! Pra quê? Não carece.
Mas agora, ali sentado, dando tragadas longas e repetidas no seu cigarro de palha, sóbrio, não tem como afugentar suas ideias. Se ao menos um filho viesse! Que nada! Isso só aconteceu no primeiro ano. Depois, foi tudo só. Ele e a vida...
Tem dia que fala sozinho, ou mesmo com seu pangaré. Fala pra ouvir o som da própria voz. Naquele fim de mundo, não arranja nem companheiro pra dar uma prosa! Às vezes, fica pensando se ainda sabe falar. Passa dias e dias, semanas inteiras sem dizer palavra. Fica feliz quando vê, pela poeira da estrada, uma boiada a caminho. Sabe que ali vai um peão e que vai lhe sobrar um dedo de prosa. A conversa é sempre a mesma. A saudação, o calor, a falta de chuva ou uma doença que apareceu em alguma rês. Ele se empolga tanto nestas proseadas que, às vezes, chega a acompanhar o peão, beirando a estrada, por um bom trecho do caminho! Só para ter o gostinho da companhia.
Na vila não se anima muito a ir. Só vai mesmo quando a necessidade manda. É muito distante e seu pangaré anda muito judiado pela seca. Se forçar muito pode ser desastroso! Imagina perder seu companheiro! Só lhe restará falar sozinho!
O seu cachorro também se foi. Velho, já com o focinho branco, cego feito tamanduá... Foi definhando, ficou encaramujado e, numa manhã, Gregório o encontrou estirado. Dia triste!
Agora lhe resta o pangaré. Está um traste velho, mas ainda lhe serve de companhia! É só a chuva chegar e ele estará mais forte. A idade não tem jeito, mas o capim gordo lhe trará novas carnes. A chuva não tarda. O dia dos Santos Reis está por aí, e na vinda sempre traz chuva!
Gregório ergue o chapéu, reverenciando os Santos. É assim. Mesmo quando pensa, quando invoca os santos de sua devoção, não deixa de reverenciá-los com seu chapéu. Santa veneração!
Joga o cigarro e, com a botina, o pisoteia várias vezes até se certificar de que realmente não há risco nenhum da brasa queimar o capim seco. Tem pavor de queimadas! Já viu tantas, mas não consegue se acostumar a elas. Fogo é bicho que teme!
Hora de recomeçar a lida. Se bem que a vontade é nenhuma, mas a praga tem que ser vencida agora, nesse tempo. É na terra seca que a raiz morre. É bem verdade que a sementeira fica na terra, mas até a chuva chegar, ela não germina. Dá tempo de recuperar o ânimo e preparar a nova roça. Nem sabe quantas vezes já capinou este mesmo trecho! Nem é bom pensar... Desanima!
E lá está Gregório novamente. Só se ouve o resvalo da lâmina na terra seca. Dezenas e dezenas de braçadas para capinar um pequeno trecho. A cada quarto de hora, ergue o corpo, espicha a coluna para trás colocando as mãos nas cadeiras. Serviço bruto! Pior ainda com aquele sol a lhe castigar o lombo!
Suspira fundo e volta à capina. O assa-peixe este ano está de matar! Há touceiras tão imensas que chegam a desanimar. Gregório procura nem olhar o que está por fazer. Prende os olhos no trecho em que labuta. Que adianta olhar? Nem desanimar adianta. De quando em quando lá está ele, parado. As mãos servindo de encosto do queixo no cabo da enxada. Fica tempo olhando, perdido, nem sabe onde! Sente pavor do escurecer! De noite, a solidão é mais triste. Muito mais...
Olha para o céu. O sol já está indo, baixo. No horizonte, um vermelhão só. Sinal de que a seca continua. Santo Deus, até quando?!
Gregório acelera o ritmo. Parece não querer parar. Quer prolongar o dia. Ah! Se pudesse... Já está bem escuro. Quase não consegue distinguir o trecho já pronto e bate várias vezes a enxada em torrões já revirados. Não adianta. É noite. Véspera de Natal!
Com a enxada nos ombros, o embornal de lado, a moringa na mão, pega o trilho de casa. Nem assobia. Está com o corpo aniquilado, seus passos são curtos, pausados. Quer demorar ainda mais a chegar.
Apesar do cansaço do corpo, andaria a noite toda se isso lhe tirasse da cabeça todas aquelas lembranças. Daria tudo e faria qualquer coisa para não estar sozinho. Se ao menos tivesse alguém, uma única viva alma pra prosear!
Bobagem! Ali só está ele. Ele e Deus, como costuma pensar. Pena hoje Deus não se tornar homem e passar o Natal ali, com ele! Poderiam conversar, comemorar, beber juntos. Arre, cada pensamento!
Gregório chega em sua casa. Nem tem vontade de acender a lamparina. Banho então, nem pensar! Pra quê? Daqui a pouco se encharca de pinga e aí é uma água só! Antes, porém, precisa comer alguma coisa. Ainda bem que deixou uma panela de arroz sobre o fogão de lenha, e tem linguiça dependurada na despensa. É o suficiente.
Enquanto acende a lamparina, faz uma oração para o Menino Jesus. Afinal, é o Seu dia! Tem que rezar agora porque, depois não vai lembrar nem do seu nome, quanto mais de oração!
Junta ao arroz uns pedaços de linguiça, atiça as brasas do fogão, coloca umas palhas de milho para aumentar o fogo e aquece a comida. O cheiro é divino! Chega a lhe dar água na boca!
Arranca as botinas, tira a camisa, passa as mãos pelos cabelos e puxa o banco para perto da mesa. Ia enfiando a primeira colherada de comida boca adentro, quando ouve uma voz:
- Ô, de casa!
Gregório estremece de susto. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pela voz, imagina ser uma pessoa idosa. Voz rouca, trêmula mesmo!
- Ô, de fora! Já tô indo!
Ainda sem se refazer do susto, sai rapidamente pela porta da cozinha, levando a lamparina nas mãos. Assusta-se ainda mais diante do que vê. Meu Deus, que trapo humano! Um homem, as roupas em farrapos, pés descalços, cabelos ensebados, barbas enormes, corpo magro, arqueado, rosto bem-feito, mas incrivelmente abatido. Olheiras escuras e profundas. A magreza excessiva deixa-lhe os ossos da face saltados, salientes. À primeira vista, uma visão chocante, aterradora! Aos poucos, vai se aproximando e a chama da lamparina vai delineando mais seus traços. Olhos serenos, incrivelmente serenos!
­- Boa noite! O que o traz aqui?
- Boa noite! Estou apenas à procura de um prato de comida. Espero que tenha sobrado alguma coisa por aqui. Estou faminto! Há vários dias que não sei o que é comer de verdade...
Gregório pensa na comida que acabou de esquentar e que estava prestes a devorar. É tudo que tem, mas não tem importância. Afinal, já almoçou hoje e não irá sucumbir se não comer agora. Rapidamente, gira o corpo sobre o calcanhar e entra pela cozinha. Passa a mão no prato de comida sobre a mesa, volta e o entrega ao estranho visitante.
O homem ávido por alimento, num instante abraça o prato e, com colheradas rápidas e incessantes, vai pondo fim a sua fome. Gregório fica espantado com a voracidade, com a rapidez com que o visitante esvazia o prato. Coitado! A que situação chegou!
Gregório está aturdido. Tanto que só agora percebe que não convidou o homem para se sentar! Meu Deus, ele devorou tudo aquilo de pé?! Que distração!
- Desculpe a pergunta, mas qual é sua graça?
- Mariano, meu bom homem. Mariano, seu criado!
- Vamos chegar, Seu Mariano!
Ao ser convidado a entrar, o homem vira-se para o lado, abaixa o corpo e pega um pacote que estava no chão.
Já dentro da cozinha, Gregório diz:
- Puxa a cadeira e senta um pouco...
- Vou aceitar, Seu...
- Gregório, isso... Meu nome é Gregório.
Mariano vai entrando. É realmente alto, tem que se curvar, baixar a cabeça para passar pelo batente da porta. Senta-se na cadeira de palha e encosta um cotovelo sobre a mesa. Gregório senta-se no banco, do outro lado, de frente para ele.
- Então, Seu Mariano, agora que já comeu, amansou o estômago, conta aqui pra esse velho, o que faz por estas bandas?
- Nada, não faço nada, Seu Gregório! Eu sou assim mesmo! Ando sempre, sem parada. Passo as noites ao relento, e vou comendo aqui, acolá, onde me dão um prato de comida... Hoje é diferente! É véspera de Natal! Não queria ficar sozinho pela estrada. É uma noite muito bonita pra guardar só comigo! Lá da estrada vi a luz da lamparina, e pensei que bom seria juntar a minha alegria desta noite com a de mais alguém, ou até mesmo dividi-la. Espero não estar atrapalhando!
- De maneira alguma, Seu Mariano! Eu tava até meio encabulado de ficar aqui sozinho hoje. Já fiz até minha oração porque... pensava em dormir cedo, não tinha nada que fazer!
Gregório sente vergonha de dizer que havia rezado antes porque planejara tomar um porre e cair pelas tabelas. Fica quieto. Apenas se cala, não vai mudar nada!
- Sabe, Seu Gregório, quando começou a escurecer, eu estava passando diante da sua porteira. O senhor estava na lida e parei pra observar. Vi que o senhor estava ansioso, querendo capinar mais e mais... A noite já havia caído e a enxada ainda zunia na escuridão. Deu-me a impressão de que não queria voltar pra casa. Estou enganado?
Gregório fica meio sem jeito de saber que foi observado, pensa um pouco e resolve falar.
- Não, Seu Mariano. É isso mesmo! Não queria voltar porque a noite é muito triste, principalmente a de hoje. Sem família, sem ninguém pra conversar. Juro mesmo, minha vontade era de...
- Beber até cair, não é Seu Gregório?
- Isso mesmo! Queria beber, beber até perder o tino e descansar esta velha cabeça que não para nunca. O senhor sabe o que é viver neste fim de mundo, sem escutar uma voz, tendo na cabeça as lembranças dos dias passados?! Fechando os olhos e vendo as crianças correrem de um lado pro outro, a patroa indo e vindo, cuidando da lida da casa... Abrindo os olhos e vendo o vazio, o silêncio, só isso, silêncio e solidão. É um fim de vida muito triste, Seu Mariano! Nunca pensei chegar a isso!
- Não acontece só com o senhor, Seu Gregório! Quantos solitários há por esse mundo de Deus?! Nem por isso a vida acaba! É preciso saber trabalhar essa solidão, esse silêncio! Pensamentos amargos e lembranças que machucam não ajudam em nada! Temos que aprender a enriquecer a nossa fé. É no silêncio que alimentamos nossos mais nobres sentimentos! O silêncio não é inexistência de palavras. Elas soam e falam para a nossa consciência. É a maneira mais pura, mais verdadeira de conversar. Se todos ouvissem essa conversa silenciosa a que me refiro, todos seriam mais felizes, mais completos, mais íntegros! É preciso ouvir, ouvir muito.
Gregório presta muita atenção em tudo que o visitante diz. Se entendeu direito, ele fala que ficar sozinho e em silêncio não é de todo ruim. Passa a mão pela cabeça, como se com isso ajeitasse os pensamentos e guardasse cada palavra dita pelo visitante. Afinal, a fala dele é um presente para os ouvidos! Há quanto tempo não proseia tão demoradamente com um amigo?! Ele, ali, hoje, só pode ser um presente do céu!
Gregório fica como que embevecido com a conversa do visitante. Nem se lembra da pinga, da aflição da tarde, para dizer a verdade, nem fome sente! É como se as palavras do amigo lhe tivessem abastecido o estômago, a alma. Só uma coisa lhe intriga! O pacote que o visitante trouxe à mão e que, cuidadosamente, protege durante todo o tempo. Que será que tem dentro?
Conversam muito, até altas horas da noite. Na verdade, nem sabem que horas são, mas o sono vem chegando. O andarilho, cansado da caminhada, e Gregório, extenuado pelo trabalho da capina. Percebendo o sono do amigo, adianta-se em arrumar uma cama no chão, ao lado da sua. Logo os dois estão deitados. Gregório tem vontade de continuar a prosa, até tenta, mas o cansaço é tamanho que nem consegue completar o pensamento. Dorme. Sonha sem parar... Sonhos bons!
É madrugada ainda quando Gregório acorda. No escuro, fica um tempo meio confuso. Os sonhos, o dia anterior, o anoitecer, a noite, o visitante... O visitante!
- Seu Mariano!
No escuro, ele chama pelo amigo. Ninguém responde.
- Seu Mariano!
Intrigado por não ouvir resposta, Gregório se levanta e acende a lamparina. Ninguém mais no quarto... A cama, estendida como na noite anterior. Ele havia se deitado! Deve estar na cozinha! Corre a casa toda. Nada! O visitante não está em canto algum. A casa continua toda trancada por dentro. O que teria acontecido?!
Os olhos de Gregório começam a percorrer tudo novamente. Aos poucos, sua cabeça vai compreendendo tudo o que aconteceu ali. Olha a cozinha, demoradamente. Fixa o olhar na mesa, onde conversaram. O pacote está lá, bem no centro. Fica curioso. Que será que traz? Por que será que o amigo deixou o embrulho sobre a mesa?
Indeciso, Gregório começa a rasgar o papel. Fica receoso, mas sente que é um presente para ele. Finalmente, a embalagem toda lacerada mostra o presente. Que encanto de presente! Um rádio!
Sorri, satisfeito. Liga-o, gira o botão sofregamente e, numa sintonia ruidosa, quase inaudível, entrecortada, acha uma emissora. Está começando a oração da manhã. A voz é rouca, doce, pausada, fala com o coração. Gregório apura os ouvidos... Conhece essa voz! Soa como a voz do visitante.
Não fica impressionado, nada o assusta. Afugenta as interrogações, não quer quebrar o encanto... Apenas entende. E reforça a sua fé.

                                                   Regina Ruth Rincon Caires
                                               
                                                                                                                                     





sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O OUTRO LADO DA CALÇADA

A chuva apertou e eu apertei o passo. Como sinto aflição de pingo na cabeça escorrendo
pelo pescoço, estava protegido de agasalho e capuz, vestindo um bermudão escuro até o
joelho e tênis. Ao dobrar apressado para entrar na portaria do meu prédio, ouvi uma
voz imperativa:

- Ô cidadão! Devolve o celular que pegou da menina ali embaixo.
- Hein?

Meia volta súbita e vi um homem de uns 35 anos corpulento, cabeça raspada, camisa escura
para fora da calça, onde era visível um volume escondido na cintura. No instinto, enfiei
a mão no bolso, meio sem entender, para me certificar que não havia trocado de celular
com minha filha instantes atrás ali embaixo na ladeira.

- O porteiro viu o senhor pegando o celular da menina.
- Ela é minha filha! Fui entregar um guarda-chuva para ela!
- Mas o porteiro viu na câmera que o senhor pegou celular dela. Ela desceu e o senhor
subiu correndo.
- Quero falar com o porteiro!
- Por favor, vamos esclarecer. Ele acionou a segurança.

Atravessamos a rua. Eu na frente, sem temores de paralelepípedos fora do lugar, limo
acumulado, calçamento escorregadio. Iniciei um suficiente diálogo.

- Quem é o senhor? Trabalha aqui no condomínio?
- Sou policial.

Medo. Se policiais fardados intimidam, agem como robôs manipulados, à paisana, então,
têm o dom da informalidade desgovernada. Podem fazer o que lhes der na telha. Podem julgar
de supetão, tomar decisões à luz do que carregam na cintura.

Em menos de um minuto, o porteiro gritou da portaria.
- Foi ele mesmo!
- Ele mesmo o quê?
- Que pegou o celular da menina.
- A menina é minha filha! E eu moro no prédio em frente, no mesmo condomínio.
Cuidado com essas acusações falsas. Vocês podem arrumar encrenca.

Fui sabiamente comedido e sereno. Não falei merda, não ameacei os imbecis. Dei as costas
e ainda ouvi vozes embaralhadas, na certa do policial e do porteiro.

- Desculpe, doutor, o senhor me desculpe...
- Esses tempos estão perigosos. Tem muito bandido por aí.

Subi a ladeira bufando com os pés encharcados. Voltei atravessando a rua indignado,
veio um sentimento estranho de que a culpa era do capuz. Tive que concordar com o policial:
que tempos de horror estamos vivendo. O criminoso e o justiceiro, o burro e o inocente,
o arrogante e o pacato cidadão, a autoridade cheia de si e o impotente humilhado, inacreditável,
tudo junto nas ruas, nas calçadas, nos logradouros, nos coletivos, nas nossas fuças.
Um toró de pensamentos me ensopou. O porteiro estava atento, mas não pensou. O policial miserável
que precisa fazer bico obedeceu. E também não pensou. Se eu tivesse roubado o celular de menina,
ia voltar calmamente para casa, na calçada em frente? Nada disso conta na hora limítrofe em que
as coisas acontecem de um jeito ou de outro.  Possibilidades catastróficas me invadiram em looping.
O que de real estava vivendo? Aconteceu o que penso que poderia ter acontecido? Ou poderia ter
acontecido como não aconteceu? Ou de fato aconteceu o que eu não imaginava acontecer num dia de
chuva forte, numa rua bucólica do Leblon?  Acho que estou estonteado, perdendo o chão de pedrinhas portuguesas, vendo luzes frias passando no teto.

A chuva apertou e eu apertei o passo. Como sinto aflição de pingo na cabeça escorrendo pelo
pescoço, estava protegido de agasalho e capuz, vestindo um bermudão escuro até o joelho e tênis.
Ao dobrar apressado para entrar na portaria do meu prédio, ouvi uma voz imperativa:

- Ô cidadão! Devolve o celular que pegou da menina ali embaixo.
- Hein?

Dei meia volta súbita e vi um homem de uns 35 anos corpulento, cabeça raspada, camisa escura
para fora da calça, onde era visível um volume escondido na cintura. No instinto, enfiei a
mão no bolso, meio sem entender, para me certificar que não havia trocado de celular com
minha filha instantes ali embaixo.

Pá.

Levei um tiro. O barulho seco me lembrou a espoleta de um revólver de xerife da Estrela e senti
uma ardência no lado direito do umbigo.

Hoje, dois meses depois, sigo para a quarta cirurgia.  No momento do incidente não foi atingido
nenhum ponto vital, aorta abdominal, rim, coluna, essas brabezas. Fui socorrido grogue pelos
porteiros do meu prédio e ainda percebi o vulto do sujeito corpulento correndo ladeira abaixo.
No entanto, enfurnado por 45 dias num leito da UTI, claro que o estrago no intestino delgado
foi devastador. Uma infecção se espalhou pelas minhas tripas e pressinto que não escapo dessa.

Estou na maca, contando luminárias frias no teto, duas, três, cinco, sete, oito, dez, sei que
na décima terceira é a porta do centro cirúrgico. Já me acostumei, tanto quanto com o gelado do
soro que me entorpece entranhas e ideias, produz paranoias e sentimentos de resignação, fantasia
e realidades atemporais, inconformidades e desejos de vingança, compaixão e saudade da vida breve.

Se sair vivo, talvez apareça no Natal, quem sabe magrinho, debilitado, com um saco de colostomia
escamoteado por uma camisa de festa, girando o arco da cadeira de rodas, onde vou fazer questão de
estacionar ao lado da minha filha, coitadinha, traumatizada, pivô incauto de uma desgraceira tipo
contando ninguém acredita, isso no campo do talvez. Porque no terreno das certezas, vou processar
o condomínio por manter nos seus quadros um porteiro adestrado a confundir guarda-chuva com celular,
pronto para mostrar serviço a qualquer custo, acionar o policial que faz bico e danar tudo.
Como o incidente se deu em bairro de rico, certamente a alegação de excludente de ilicitude será
derrubada por um advogado caro, o condomínio vai me indenizar por danos morais, lucros cessantes
e honrar as custas advocatícias, médicas e hospitalares, o porteiro vai perder o emprego, vai voltar
para sua Bonfim do Piauí, o policial vai ser afastado para funções administrativas, com vista grossa
da corregedoria para fazer bico em outros condomínios endinheirados.

O fato vai interessar à mídia, claro, aconteceu num bairro chique, longe das comunidades onde os
infernos são vulgares. Haverá tabefes de toda sorte nas redes sociais, vou ser acusado de fascista
(coitado do porteiro, assim dirão), elitista (ganhou na justiça porque tem grana, assim falarão),
esquerdopata (o policial cumpriu com o seu dever, assim repetirão). O síndico não vai me cumprimentar
e a senhora vizinha com perfume doce de mamãe vai me encontrar no elevador e aconselhar com carinho a não vestir mais capuz.

O enfermeiro avisa que estou falando alto demais, tudo embolado.
Acho que a anestesia está fazendo efeito.
Ou já morri e nem sei.





quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A grande história de um mundo singular



Contava vinte e um anos, velha para os quereres dos moços da região, e, por isso e mais um pouco, com a ânsia de menos uma boca para dar de comer, Alberina meteu-se a alcovitar a filha para deus e o mundo – com posses. Dizia que a filha era “moça casta e prendada”, dona dos saberes domésticos e divinos; que não era desse mundo. Dizia, inclusive, que ela mesma, a melhor pessoa, tratou de ensiná-la as rezas e os preparos de feijão verde, carne de sol, a mistura completa; e uns tantos pratos extravagantes quanto ela.
De muito se botar na mercearia de Dom Sebastião, andou se engraçando e cobiçando mais. Ia e vinha, brejeira que só ela, penteada e ajeitada, com os seios quase saltados, à base de excepcional aperto, para ver se conseguia ao menos um tiquinho de atenção; se lhe sobrava, claro, uns vinténs. Mas o fragor, que sacudia o peito do velho, era o viço da mocidade; pele morena de desejo, de um corpo enclausurado na pureza, que não tinha tino para essas coisas vãs.
Aliás, vale salientar, o senhor do sertão era o dono da única mercearia da cidade; e a única que poderia abastecer três cidades circunvizinhas. O ditoso reluzente, de ouros espalhados pelo corpo, com uns três ou quatro dentões à mostra; o autointitulado Dom, muito mais que qualquer doutor que pudesse aparecer na região, esforçava-se para sugar o frescor de Divanira, uma espécie, também, de rejuvenescimento, como um legítimo drácula, para abastecer-se de sangue novo; totalmente diva, divina, aos seus olhos, e para isso seria capaz de tudo. Dos pés à cabeça, a donzela era dotada de real inocência, que o veterano em provocar agruras, bufava em brasas para ser o primeiro a adentrar as entranhas do incógnito ser.
A mulher cavilosa, falava abertamente, sugerindo a troca de bens, a filha pelos mantimentos abundantes vislumbrados. Se preciso fosse, para acariciar o seu ego, daria um pouco do seu mel para adoçar a história. Ledo engano. Disparate. O velho nem tchuiu; era um cachorro Canindé alvoroçado atrás da caça.
Passou a incutir na cabeça da filha o valor de ter um homem bom, endinheirado, ainda que gastado, normal, para dar segurança à família. Que pensasse em seus pais e seus avós. Que não fosse egoísta, alma sebosa. Que seria uma oportunidade única, para saírem de desdita antiga. E que, além do mais, concorreria, para ganhar, à fortuna do solteirão, pois que não tinha ninguém para deixar - e esse alguém, então, só poderia ser ela.
Divanira elucubrava em ânsias de vômito. Não conjectura tamanha dor. Seu peito arfava, no rarear. Andava feito barata tonta dentro de casa. Não aguentava a ansiedade. Saía, amiúde, para se esconder debaixo de um pé de planta frondoso, para, simplesmente, se perder no tempo; e se esconder, e quedar-se, sutil, em posição fetal. Imaginava que se sair de uma situação dessa seria uma desfeita à sua família, uma desgraça eterna, maior do que a miséria comezinha, já acostumada a passar.  
Evitava sequer o confronto de olhares. Mas Alberina insistia em mandá-la “resolver a vida” por lá, na mercearia. Pedia um pacote de arroz, para meia hora depois pedir mais um pacote de feijão. O velho botava na conta, para cobrar caro mais adiante. A moça, olhando para o chão, não conseguia, no entanto, desviar-se dos gracejos: “Moça, olhe para o seu bem, esse velho que lhe quer!”. “Moça, dê um tiquinho de tempo; olhe para mim e deixe um sorriso, assim ficarei feliz!”. “Darei o que me pedir!”. Alberina nem sonhava a potência dessa última frase, senão forçaria o desconjuro; a agressão de amancebá-la, desse no que desse.
Já não vislumbrava se desvencilhar das amarras, tão cerradas, do destino. Quando pisava em casa, o pai acabrunhado por acolá, olhava torto, dando conta da tensão (decerto o único a defender Divanira); a avó, na toada de rezar o terço bento e rebento, pedia, em voz alta, que a neta arranjasse um homem bem rico, para terem um de-comer que prestasse, que isso era vida de cão; que não aguentava mais a dor, a falta do pão e da água; que, se fosse assim, preferia morrer a ter de continuar nessa podridão. O avô, seu Camundo, o sábio e que provia de tudo a família, homem respeitado e que há distantes tempos conseguiu reunir duzentas cabeças de bois, hoje estava completamente prostrado e alucinado no fundo da rede – entregue às baratas, não fosse Divanira, porque não servia mais às necessidades da família; e, inclusive, Alberina dizia que era castigo por ter botado tudo a perder.
Atolada na solidão, apartada da vida, não mais conseguia discernir o que era certo ou errado. Sentia-se órfão, deslocada. Até que, num ímpeto de loucura, sacudiu a peixeira que guardava no cós de uma calça escorada no mato seco, que usava para esfolar os bodes e os porcos; desusada, enferrujada, também, porque não prestava mais serviços. Pegou-a com gosto, como se carniceira fosse; pôs por dentro, aparada na cintura, para não chamar a atenção dos passantes, e saiu rumo à casa.
Uma légua não foi capaz de dissuadi-la do plano há pouco maquinado. Quem a via percebia o semblante diferente; um zumbi nas terras escassas - talvez pela falta de sustância, vagava. Na porta de casa, o dilema a cercou; um aviso, um fio de lucidez brotou. Ainda chegou a pegar no cabo; a mão pesou.
...
A notícia logo se espalhou na cidadezinha, porque, dizem, desgraça é bicho que corre solto: pendurada pelo pescoço, corda sisal grossa, no mesmo pé de juazeiro. Coruscou a aura de santidade no sertão. Liquidou o seu mundo singular. Pensou que, sendo assim, melhor se resolver com o homem lá de cima, com nossa senhora. Cria em vários mundos; que o mundo dela realmente não era esse, de intrigas, ambições e imprecações.





terça-feira, 17 de dezembro de 2019

meu peixe não durou uma semana - Poema de Mariana Godoy




meu peixe não durou uma semana
fingi estar mais triste do que realmente estava
maninho e eu nos preparamos para o velório
vestindo roupas pretas

ele segurava um guarda-chuva
como nos filmes americanos
enquanto eu carregava o peixe enrolado
num pedaço de papel higiênico

caminhamos em silêncio até o jardim
abrimos um buraco debaixo do limoeiro
rezamos pai nosso, ave maria
e cantamos a música do menino jesus

depois enfeitamos o túmulo com pedras
e gravetos

perguntei como poderia o peixe ter morrido afogado
e maninho respondeu
com toda sua sabedoria
“colocamos muita água”

aquela foi minha primeira vez no teatro.

























Do livro “O afogamento de Virginia Woolf”, Editora Patuá (2019).








segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Lírios do campo, cebolas e alhos

 Arte: © Editora Escriba Encapuzado 



Domingo. Dia de louvar o Senhor. Carlos Emannuel sentado no primeiro banco do templo. Para adorar e orar. Vestido como um manequim de vitrine de shopping americano. Calça Balmain de 2 mil dólares. Camiseta Versace de 540 dólares. Peças  saídas das prateleiras dos seus armários de madeira de lei e dos seus cabides com monograma de ouro. Nos pés, mocassins de Salvatore Ferragamo de 800 dólares. Uma roupa informal. Que faz parte do seu closet de 3 x 5 m recheado de ternos Armani de 3 mil dólares — cada um. Carlos Emannuel é uma vitrine de marcas importadas. Importadas como a universidade que ele cursou até o último ano para agradar o pai. Princeton. 
Agradava o pai, irredutível em suas opiniões, ou ia para o olho da rua dormir em uma vaga num cortiço. Ou para o puteiro, a convite de Doriana Michelle, que pagaria para poder gemer e foder de verdade com ele o que era teatro o restante da noite. Agradava o pai integralmente ou pegava dois ônibus lotados para chegar a um supermercado lotado e se enfiar num depósito lotado de caixas de hortaliças e vinhos baratos e sabões em pó que o fariam espirrar — alergias desde bebê —, e dar uns amassos durante o intervalo de almoço na Izildinha do caixa. Ele e ela, irmanados pelo gosto da mesma marmita: cebola e alho. Boca, peito, caralho, buceta fedendo à cebola e ao alho da boca um do outro. Um festival de temperos explodindo em arrotos durante a safadeza. Os dele, sonoros e descarados. Os dela, mais discretos e entrecortados pela respiração acelerada de um quase gozo. Quase. Porque nem era gozo aquele livramento silenciado. Ele tampando a boca oleosa de Izildinha para impedi-la de gritar. Ela engolindo toda a porra dele para não deixar vestígios. Se fossem pegos, poderiam dizer que era desejo, fogo, paixão, preliminares. Trepada, não. Ninguém podia provar nada. 
Carlos Emannuel e essa imagem recorrente que inventou nos anos de faculdade para se vingar do pai que o obrigava ao exílio acadêmico nas terras do Tio Sam. Tio de merda. Que permitia a ele somente uma montanha de livros entediantes. E duas ou três mulheres branquelas que ele podia convidar para sair no fim de semana graças à mesada generosa que o pai lhe mandava. 
Agradeciam-se assim. O pai e ele. Ele, por não ter que encarar a vida num supermercado. O pai, por vê-lo se transformar no seu orgulho, no seu filho de ouro. 
Graduou-se. Fez doutorado. Trocou o Oi! por um Hi, there! esnobe que o afastava da maioria das pessoas. Das pessoas interessantes que ele queria conhecer. 
Até que o pai morreu. Deixando para trás dívidas que nenhum credor perdoou. E a mãe idosa. Ah, sim! E a educação em Princeton. Impecável.
Foram-se embora, ele e a progenitora, de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, onde havia mais campo de trabalho para ele. Foram-se calados, apenas as malas e alguns objetos de casa dentro de um carro velho que fedia a pelo molhado de bicho. Empréstimo de um primo. A mãe, ele e um cachorro velho que morreu atropelado nas primeiras semanas da sua vida carioca.
Carlos Emannuel. Anos indo do trabalho para casa, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Anos agradecendo ao pai morto que lhe permitiu ser alguém. Anos ouvindo da mãe que era por mérito que ele estava reconquistando tudo na vida. Anos remoendo uma 
pergunta na cabeça: Que mérito? Não era mérito ele ter podido estudar em Princeton. Não era mérito ele não conhecer os ônibus lotados, nem os supermercados lotados, nem as carnes lotadas de tesão de Izildinha. 
Resolveu pedir perdão a Deus. A quem mais? Virou homem de igreja. Escolheu o melhor templo, o melhor pastor, e deu o melhor dízimo. Conheceu outros como ele: filhos do mérito. Participou de vigílias em grupo. Noites e dias de Bíblia e negócios. Viajou com eles, orou com eles, pescou com eles. Associou-se comercialmente a eles. Uma espécie de máfia de Cristo. Tudo o que tocavam virava ouro. Para honra e glória. 
Riqueza, um antigo status que voltava. E com isso as roupas, os carros, a cobertura em Ipanema. A praia que ele nunca frequentou porque não tinha tempo sobrando nem para a piscina da própria cobertura. Esqueceu-se da pergunta que o remoía. Tornou-se, freneticamente, um homem do trabalho e de Deus. E do dinheiro.
Casou-se com Maria Isabel. Filha de um concorrente. A concorrência virou sociedade. Tiveram dois filhos. Que também foram para Princeton. Ou para Yale. E agora têm três netos. Os primeiros a chegar ao colégio, à escola dominical, aos acampamentos da igreja, transportados por um motorista sorridente que todos os dias agradece ao Senhor Jesus pelo emprego que conseguiu na igreja. Agradece também a Carlos Emannuel. Com quem atravessa a cidade, no carro importado, para levá-lo ao único barbeiro em quem o patrão confia, na Zona Norte. Barba e cabelo no capricho. Todo sábado pela manhã. O único lugar em que Carlos Emannuel pode ouvir as gargalhadas de outros homens, felizes por coisas que só foram dele por alguns anos — os de luta. Ou que só lhe pertenceram no sonho em que havia Izildinha. A prestação atrasada do carro, o dinheiro contado para a cerveja no boteco da esquina, a vaquinha para o churrasco de aniversário, a transa apressada, os preços da passagem de ônibus, da luz, da água, da carne. A falta de segurança, as discussões sobre política e futebol — quase brigas —, o quarto ou quinto filho a caminho, o piquenique com a família e os amigos no parque, o remédio do câncer em falta na rede pública, a cunhada espancada pelo companheiro, o pai com Alzheimer, as três batidas na madeira para isolar as coisas ruins. 
Domingo. Dia dos homens de mérito. Dia de agradecer no templo. Agradecer. O que Carlos Emannuel sabe fazer melhor. Além, é claro, de transformar em ouro tudo o que toca.  
Ele está no primeiro banco. Reservado aos empresários que vão palestrar para os outros homens da Nação dos 159.  Que vão demonstrar como é possível enriquecer pelo mérito, pelo dízimo, pelo agradecimento. Aleluia! Que vão ensinar o toma-lá-dá-cá que eles precisam praticar para conquistar posição, respeito e, obviamente, muito, mas muito dinheiro e prestígio. O banco dos que não pecam. Porque pecado é não agradecer — ao pai; ao Pai. Porque pecado é não pagar o dízimo. Porque pecado é ser vagabundo. Porque pecado é ser gay. Porque pecado é foder a Izildinha. Porque pecado é não ter uma cobertura em Ipanema.
Carlos Emannuel está calado. Pensando na véspera. Na barbearia em que ele conheceu Raimundo. Que ganhou de presente do padrinho barba, cabelo e bigode. Com direito a massagem no rosto e toalha quente. Porque era dia do seu casamento. Raimundo. Vinte e quatro anos. Carregador no supermercado do bairro. Raimundo. Que não via a hora de dizer “minha esposa” para a namorada Izildinha, caixa do turno da noite no mesmo supermercado. Que ria, feliz, enquanto contava que as tias e as irmãs iam passar o dia na cozinha preparando salgados, caldos, estrogonofes —  Vai ter de frango e de carne!, ele dizia agitado — e docinhos, muitos docinhos. Para os convidados. A tia confeiteira estava fazendo um bolo-surpresa. De três andares. E os quatro engradados de cerveja, recebidos de presente dos dois gerentes do supermercado, já estavam gelados. Raimundo. Que convidou todo o mundo para a festa. Vai ter música até de manhã!, garantiu orgulhoso.
Domingo. No templo, Carlos Emannuel se levanta do primeiro banco. Uma a uma, vai tirando e largando pela nave central toda a roupa que cobre (em louvor de dólares) o seu corpo ainda rijo pelos ferros da academia. Respira fundo. Sorri. Gargalha. E caminha nu em direção à rua. Pensando em lírios do campo, cebolas e alhos. 

(Conto publicado originalmente na Antologia “Conte outra vez – 30 contos inspirados em canções de Raul Seixas”;  Editora Escriba Encapuzado, agosto de 2019, 1ª Edição,  Organização: T.K. Pereira)