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sábado, 22 de dezembro de 2018

Excelsior, O Amante Final



Quando Svetlana ganhou, de amigo secreto, um vibrador, não conteve as gargalhadas. Riu, riu até as lágrimas infringirem a secura de seu olhar, e com ela riram as amigas. Quem, indagou, usa um objeto desses? Quem, meu bom Deus? Todavia a maioria das meninas ali, na solidão ou no desejo, servia-se desse estratagema e, se não dele, de outros – mas a verdade não convinha ao momento, a verdade nunca convém. Posou com o consolo ao lado do rosto, e analisando as fotografias riu-se mais. Para iniciantes, declarou Jordana, amiga de infância, referindo-se ao tamanho: era curto e fino, rosa feito um batom, e correu de mão em mão até decidirem elas o seu nome: César Augusto, em homenagem ao cantor favorito de Svetlana. Encerrada a reunião, guardou o falo artificial na dobra mais obscura e inacessível da bolsa, e ao chegar em casa, resolvida a ignorá-lo, embalsamou-o entre as meias e calcinhas do armário.

Pois se antes escarnecia dele, em um mês não escarnecia mais. Crescera em Svetlana a curiosidade, uma fome de revolução, e feito um surto a ideia de usá-lo amadureceu, colocando-a ela em exercício num de seus fins de semana. Acendeu velas aromáticas, deitou-se na cama de rosas e rendas e, ao final do ato, soube-se satisfeita. Habituada ao amor, dinheiro e saúde, nunca imaginara lhe faltar algo, menos ainda um objeto. Refeita, e tamanho o clímax, estendeu o lençol no varal, nele formando-se a úmida silhueta de um fantasma.

Mas, perguntou-se, ao entrar em casa, mas e se me falta mais? E se me falta muito mais?

A essa indagação reagiu galgando o comércio da cidade, afinal se algo havia de lhe faltar seria em tamanho ou diversidade, não em categoria. Ademais não era mulher de se contentar com o mínimo, o básico, e visitando os jardins do sexo retornou ao lar com um novo vibrador. Enjeitou César Augusto ao armário, entre calçados antigos, não sem antes acariciá-lo e exaltá-lo.

Bom menino, disse.

Chamou o novo consolo de Chaves. Era a chave de sua felicidade, e o nome de uma de suas mais amadas figuras televisivas. Maior, marrom, os dedos não se fechavam em torno dele. Apesar de Chaves agradá-la, malbaratava as horas investigando, na internet, outros modelos, cores e formas, havendo, além dos já conhecidos e humanos, os vibradores elétricos, mecânicos e digitais, os semelhantes aos aríetes medievais, ou os vibradores manufaturados com o mesmo titânio usado na fuselagem de aeronaves espaciais.

Cansando dele como cansava de tudo, da rotina e de si, em três meses substituiu-o por outro. Seu nome: Excelsior, fabricado para representar a estranha genitália de um dragão nórdico. Este contorcia-se feito uma língua curiosa e era encoberto por três séries de ferrões curvos e macios. Com a cólera das grandes amantes entregou-se a ele como não entregara-se aos anteriores, e já madrugada adentro sentiu o ventre revirar, clamar em dor. Não dormiu, indagando-se dos estragos interiores, se deveria ou não confessar o ato às suas confidentes, se deveria ou não ir à emergência, enfim acalmando-se com o amanhecer e o consolo, veja só, do sol, esse cafetão das estrelas. Por ele iluminada, aberta a janela, as cortinas e sua alma, decidiu conter-se, evitar o uso e o costume de outros amores senão o do diminuto César Augusto.

E assim foi. Todavia, e não obstante jamais fosse admiti-lo, ou mesmo manifestar tal sensação em termos, nunca deixou de excitar-se ao enxergar um extintor de incêndio.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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