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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Joanete de Aquiles


Para Xeylla convergiam os olhares, sentada ela na beira da água. Inadmissível tê-la em sua linha de visão e não admirá-la, inadmissível desvê-la, mas admissível, isso sim, desnudá-la, afinal o belo atrai a verdade e o olhar como o fogo atrai a morte. E o belo nela era um belo trágico, o belo de em nenhum outro momento voltar a ser tão linda, tão bem-feita e conforme as circunstâncias. Também era Xeylla saudabilíssima e, acima de tudo, jovem, ou seja, bonita e com o aval dos segundos, minutos e horas. Além deste instante só decairia, tal efemeridade a ela conferindo outro triunfo. Mas não foram os cabelos longos e lisos, e castanhos, ou os olhos verde-esmeralda, ou os lábios carnudos e vermelhos, a atrair Moacir. Nem a cútis angelical ou o amorenado do sol. Atraiu Moacir, veja só, as suas joanetes. 

Piscina morna, nadava e mergulhava ele junto à borda assim de vislumbrá-las.

Quase afogou-se.

Quem sabe se resultado das faculdades da água, ou da refração do sol em seu turvo interior, viu-as diante de si como se aumentadas e magnificadas. Eram monstruosas, não naturais, havendo entre elas e o começo ou fim dos dedões uma tênue linha escura. Sobre Moacir cabe retratá-lo como um tarado, e isso reconheceria o mesmo. E era um tarado consciente, de se sabê-lo ao observar-se as entradas em sua cabeleira, esta marca de Caim dos libertinos. E, revele-se mais, sua tara era, justamente, a joanete. Ao tê-las diante de si engasgou e teve de assomar à superfície. Antes de inteirar-se de Xeylla, tossiu, e ao aliviar-se da irritação ouviu ela indagar-lhe acerca do sucedido. Nesse momento reestruturou-se a realidade, e os olhos focaram as esvoaçantes íris verdes-esmeralda da escultura à sua frente.

Sim, sim, disse ele, hábil palrador. Entrou água na minha garganta.

Me assustei, disse Xeylla, e ele riu.

Dado esse começo, mais e a tara e a desenvoltura e o charme de sua lábia, sendo a conversa, convicção de Moacir, não uma necessidade ou hábito intrínseco, mas arte, demorou-se dialogando com a moça, os braços fortes e delineados deitados no lado de fora. Era um tarado, esse Moacir, e além de tudo um tarado confiante. Evitando de manifestar demasiado interesse, afinal o desdém é arma de sedução, anunciou o tardar da hora e a obrigação de ir embora, e secando-se combinou de adicioná-la em suas redes sociais.

Tchau, disse ele, a sorrir.

Já no outro dia entabulavam, através do feérico mundo virtual, as mais animadas conversações, os dois discutindo acerca de astrologia, animais fofinhos, seriados e filmes, de viagens futuras e aventuras anteriores. Acertaram-se como sói acontecer em raras ocasiões, e contendo e liderando seu desejo Moacir almejava, sobretudo, ter diante de si não a exultante carne feminina mas as joanetes. Iniciativa dele, combinaram de encontrarem-se em um bar, e há de se auscultar agora os fundamentos relativos à atração de Xeylla. Pois bela como era, habituada ao constante assediar masculino e, assim, tendo diante de si fileiras e fileiras de homens, escolheu ela, entre todos os concorrentes, Moacir. Malgrado fosse um adulto comum, com vida e visual comum, e ignorando justamente essas características, algo haveria de atraí-la – e isso indagou uma amiga dela ao ver as fotografias de Moacir.

Não sei, disse Xeylla, não sei. Minha atração não tem nome.

Verdade seja dita, ela sabia, mas não reconhecia. Sabia, através desse fantasmagórico entendimento feminino, acerca de Moacir, de sua tara, e sabia disso e mais, mas somente nos obscuros recessos do coração, no lugar onde tudo elucida-se em intuições ao invés de sentenças. Em nenhum momento fora ludibriada, em nenhum momento fora vítima das habilidades sedutoras do rapaz, afinal a mulher tem uma vantagem derradeira sobre o homem: a de ser senhora de seu destino.

Marcaram de se encontrar no bar às nove horas, e nele beberam e comeram e divertiram-se como se o relacionamento dos dois estivesse atrelado a outras circunstâncias e contiguidades, como se a história deles remetesse a outras vidas, eras e dimensões. Terminada a janta, terminadas as entradas, logo estavam na casa de Moacir, abraçando-se e beijando-se no sofá. O incenso indiano, mais as canhestras motivações etílicas, a tudo davam ares de sonho. Ela usava sandálias, e os olhos dele eram escravos do chão.

Por que tanto olha para os meus pés, perguntou ela.

São lindos, disse ele e, agachando-se e tomando os dois em suas mãos, abriu as fivelas das sandálias. Desnudou-os. Tremia, tremia e suava o jovem Moacir, cintilando no rosto a alegria dos satisfeitos. Vagarosa e cuidadosamente alisou os calcanhares, as solas, e conforme os dedos moviam-se Xeylla cedia aos convites da carne. Quando acariciou a joanete direita, assombro, a mesma caiu. 
Deus do céu, exclamou Moacir, no chão restando o curvilíneo envoltório.

Joanetes artificiais, esclareceu Xeylla. São tão charmosas, e silenciando arrancou a outra.

Branco, como se testemunhasse a ressureição de um morto, Moacir levantou-se, recuou. Destituída das joanetes, Xeylla afigurava-se linda em excesso, estonteante, linda como nenhum homem haveria de recusar, com exceção do homem à sua frente.

Fora, ordenou ele, e nunca mais se viram ou ouviram.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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