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sábado, 22 de setembro de 2018

O Último Dos Flatos


No mais alto andar da biblioteca o jovem Vanderlei vagava entre alfarrábios, lustres e ilustres à mercê de sua atenção. Era robusto, com dedos gordos e roliços, dir-se-ia um homem só deles, as unhas roídas até a carne, a camisa lisa até a intolerância; vaidoso, assim julgava-se e assim julgavam-no, o brilho da cabeleira a realçar cada um dos fios. Vagava ao léu, nem tanto Vanderlei errando como seu interesse, absorto em afiar as vistas numa lombada chamativa, num título intrigante, de acordo com os humores daquela manhã outonal, quando usaria de marca livro uma das folhas secas caídas lá fora.
E era silencioso, considerando tal atributo fundamental ao correto entendimento de ideias e tomos. Livro nenhum entrega-se a quem não compartilha de seu calar, refletia ele, acariciando o raciocínio na cabeça, mimando-o até, do nada, soltar uma ventosidade. 

Ôa, disse, e tencionou as nádegas. 

Ante o testemunho dos volumes, alastrou-se um odor incômodo e nauseabundo, eflúvio semelhante ao dos antigos faraós em seus túmulos. Nossa mãe, comentou o jovem, fedor horrível, e abanou as mãos com intuito de dispersá-lo. Mas a fedentina resistiu, e dali a cinco minutos Vanderlei concluía que o cheiro não abrandava, estarrecido em descobrir a força de seu intestino e de sua obra; também, indagou-se da ventilação, do ambiente fechado, e acusando a corrente de ar frio ouviu o abrir e fechar de portas. Num dos extremos do salão desconhecidos entravam, gritando e tagarelando. Encontrava-se ele no meio daquele retângulo arquitetônico, distante dos acessos e das conversas mas não dos vocábulos e de sua errônea arguição.

Você peidou, disse alguém.

Não, não, foi você, e riram. Imaginou uma turba de bárbaros ensandecidos, homens e mulheres armados com tochas e forcados, a moral dos cães em seu encalço. Alinhavam-se as estantes entre dois corredores, e vindo eles de um lado Vanderlei foi para o contrário, afastando-se rumo ao fundo da biblioteca, retiro onde almejava se ocultar. Estava ali em jogo seu nome e sua reputação, e assim, conforme avançava a multidão, avançava Vanderlei, o ranço a difundir-se em sentidos internos e externos, a conceber horrores olfativos indescritíveis. Ao alcançar o fundo do salão, esbarrou em duas mesas de estudo, encurralado nem tanto pelos invasores como pelo universo, como por uma insurreição de vocábulos e críticas. Não arriscaria passar por eles, meditou o bom moço, não arriscaria a confissão do crime.

Daonde vem esse fedor de carniça, gente, falou alguém.

Desconsolado, Vanderlei fixou os olhos nas mesas. Para elas se dirigiam, entendeu. Não havia saída, quiçá nunca houve. Erguendo o olhar, viu pelas janelas panorâmicas o sol, entre nuvens e edifícios cristalinos cujo reflexo do céu destinava-se a uma revelação.

***

No velório comentaram de como Vanderlei era alegre, de como nunca externara tendências agressivas ou, em supostas escolhas suicidas, a preferência por saltar de grandes alturas.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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