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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Veredas


Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado






terça-feira, 25 de setembro de 2018

Atlântida era uma ilha


O continente de Atlântida era uma ilha

Que existiu antes da grande inundação
Na área que agora chamamos Oceano Atlântico.
Donovan — Atlantis

Paulo estava a dar as primeiras chuveiradas no “Ruca”, quando recebeu uma chamada em tom de secretismo de Henrique, o seu ex-colega do secundário e companheiro esporádico de pesca no paredão de Paço d’Arcos.
Podes falar? — perguntou Henrique, encostado ao ancinho metálico, a um canto de um relvado de Odivelas que fora incumbido de varrer nessa manhã pelo chefe da brigada municipal de jardineiros.
Espera só um momento — pediu Paulo, a arranjar tempo para ligar o sistema de auricular ao telemóvel. — Diz lá!
Voltaste a saber mais alguma coisa da Andreia? A “Coca-bichinhos”!
Henrique referia-se a uma colega de ambos do secundário, morena e de oculinhos, que tinha sempre boas notas, especialmente a Estudo do Meio. Na altura, chegaram a fazer todos parte do mesmo grupo, mas a faculdade separara-os: Henrique fora para Antropologia, Paulo para Veterinária, e Andreia para Oceanografia.
Não, porquê? — respondeu Paulo, de novo a aspergir com a mangueira o cavalo de pelo avermelhado da escola de equitação de Fontanelas, em que trabalha a recibos verdes.
Encontrei uma publicação dela na Net, uma tese. Parece que está a fazer o mestrado em Paleoceanografia na Universidade do Algarve.
Ah, fixe! Conseguiste o contacto?
Não, na tese não tem nada. Nem encontro a página dela no facebook. Mas bem que gostava de lhe falar. Se calhar, um dia destes, ligo para a Universidade. Queria tirar umas dúvidas… A tese dela deu-me volta à cabeça — desabafou Henrique, também de auricular no ouvido e de novo a recolher a folhagem que as árvores largaram sobre a relva.
Então, por quê? Agora interessas-te por Oceanografia?
Lembras-te da nossa conversa sobre mitos, há quinze dias? — lançou Henrique, sem responder à pergunta. Falámos da Atlântida… Porque tínhamos estado a ouvir o velhinho Atlantis, do Donovan. Estive a pesquisar essa lenda e fui parar à tese da Andreia — esclareceu Henrique. — É por isto que te estou a ligar: ou o relato do Platão sobre a Atlântida reflete um acontecimento histórico, no sentido de verdadeiro, acontecido, ou a coincidência é inacreditável. Mas depois falamos melhor. Vamos lá no domingo?
— … Atlântida? Oh, pá, um continente no meio do Atlântico, com uma civilização avançadíssima, e que ainda ninguém encontrou… — gracejou Paulo, depois de uma hesitação, ao ouvir na mesma frase “Atlântida” e “acontecimento histórico”.
Sentindo que o ponto da conversa era crucial, Henrique encostou a vassoura ao carrinho de dois contentores cilíndricos em que tem acumulado os resíduos vegetais do jardim e acendeu um cigarro. Parece-lhe que o fumo o ajuda a pensar.
Ok, ok! Sabemos que os mitos são pouco credíveis, mas, mesmo assim, tomamos alguns senão como verdades, pelo menos como conceções do mundo que estruturam as nossas vidas. Talvez por terem caráter inspirador e gerador de atração sobre as pessoas — nós. Olha os anjos-da-guarda, olha as fadas, olha as mouras encantadas! Ao longo dos séculos, temos vivido, e vivemos, embebidos em mitos, ou não?
Sim, sem dúvida — condescendeu Paulo, a espalhar espuma sobre o pelo do cavalo, que vai buscar a um balde com uma esponja. — Os mitos fazem parte da nossa cultura, formatam-nos, mas não passam de uma espécie de histórias de um universo maravilhoso, sem fundamento objetivo ou científico. Por isso é que lhes chamamos mitos, coisas pouco credíveis, crenças injustificadas.
Pois, mas, se calhar, alguns são sedimentações de algo real, mas cujos fundamentos se perderam — insistia Henrique.
Diz-me um!
Olha, por exemplo, o Adamastor dos Lusíadas é muito credível como hiperbolização das enormes vagas oceânicas! E as mouras encantadas como exorcização das tentações suscitadas pelas belas e enigmáticas mulheres berberes. E o dilúvio, que aparece na tradição oral de todas as culturas?
Tá bem, mas não me venhas falar da Atlântida! Só porque o Platão falou dela com tantos pormenores como se a conhecesse de a visitar, não quer dizer que não tenha inventado tudo!
Não! A descrição dele é realmente impressionante, mas qualquer escritor mediano consegue descrever um local com tal carga de pormenores que parece falar de coisas reais, que conhece. Não; eu falo de uma coincidência tal que leva a admitir que, se a Atlântida não existiu, há conclusões científicas indiretas que apontam causas para a sua destruição na data indicada por Platão.
Causas para a destruição do que se calhar não existiu? Que formulação mais bizarra! Que coincidência é essa? — interessou-se Paulo, a secar o cavalo com panos de feltro.
Assim à distância, é difícil explicar-te. Queria mostrar-te um gráfico das temperaturas médias do mar nesses tempos da Atlântida. Podemos falar disso no domingo? Apareces?
*
Claro que no domingo seguinte Paulo apareceu no paredão, munido de duas canas, um saquinho de isco e um balde. Atacou de imediato:
Então, mostra lá esse gráfico!
Henrique puxou do telemóvel e mostrou ao amigo um gráfico que supostamente representava as temperaturas médias na Gronelândia entre há 80.000 anos e o presente. Parecia haver uma constância relativa muito grande entre o início do gráfico e a zona de há 15.000 anos, altura a partir da qual o gráfico mostrava várias enormes oscilações, encerrando com outro longo período de grande constância entre os 10.000 anos e o presente, mas de temperatura uns vinte graus mais elevada.
Antes de mais, como é que sabem? — perguntou Paulo, desconfiado e farto de teorias da conspiração.
Não acredito que perguntes isso… — começou Henrique, mas achou por bem tentar explicar: — Também não te sei detalhar as técnicas; sei que os cientistas engendram os mais incríveis processos para conseguirem as respostas que precisam, ainda que por métodos indiretos. Para a temperatura da Gronelândia, extraem amostras cilíndricas da capa gelada e analisam a composição dos vários estratos temporais em quantidade e tipo de micropartículas. Para determinarem a temperatura da superfície dos oceanos ancestrais, medem o volume e o tipo de micro-organismos mortos, contidos no estrato de lodo de cada período. Esses seres eram plâncton que vivia à superfície e cada espécie tinha a sua maior população a determinadas temperaturas. Conseguem assim aproximações muito fiáveis. Foi nessas medições que a Andreia trabalhou, para a tese.
Ok, acredito — avançou Paulo, a afastar a chateza do discurso técnico. — Mas o que é que a Atlântida tem que ver com micro-organismos?
Então, relembrando: Platão escreveu no Timeu e no Crítias que um sacerdote egípcio contou ao grande Sólon que, para lá das colunas de Hércules — o atual estreito de Gibraltar —, havia uma ilha enorme, em pleno Oceano Atlântico, com uma grande civilização e um grande poderio militar, mas que foi destruída por terramotos e se afundou 9.000 anos antes dele, Sólon, isto é, 9.600 anos antes de Cristo.
Hum, já não retinha esses pormenores. E então?
Então, olha para o gráfico e diz-me o que vês aqui, nos 9.600 anos antes de Cristo… — apontava Henrique.
Paulo olhava, mas não tinha a certeza do que o amigo queria mostrar. Henrique prosseguiu, apontando com o dedo:
Depois de um longuíssimo período glacial, iniciado mais ou menos há 80.000 anos, houve um violento aquecimento, aí há 14.500 anos. É este traço quase vertical. Voltou a arrefecer, aos solavancos, durante quase 3.000 anos e voltou a subir violentamente há… 11.600 anos. Ou seja, 9.600 anos antes de Cristo. É este traço que mostra um aumento “brusco” de temperatura de uns 12 graus. Depois, pesquisa “Younger Dryas”!
Henrique fez uma pausa, à espera de uma reação.
Não dizes nada? — acabou por perguntar.
Tá bem, aqueceu, e daí?
Não é fantástico? Não achas extraordinária esta coincidência de Platão indicar, com tanta precisão, uma data na qual a ciência atual afirma que realmente aconteceu algo dramático, como prova este gráfico — um brutal aumento de temperatura? E, como é lógico, há uma consequência intimamente relacionada com o aumento da temperatura global — o degelo das calotes polares e a subida dos oceanos. Agora, andamos preocupados em travar o aumento global da temperatura no planeta nos 2 graus desde a Revolução Industrial, mas as temperaturas deduzidas de amostras da capa gelada da Gronelândia indicam, para aquela época, uma subida de uns 10 ou 12 graus, em poucos anos, talvez menos de cem. E outros estudos são perentórios de que o nível do mar subiu entre 100 e 140 metros, desde então. Não é fantástico? Essa subida terrível das águas pode ter simplesmente submergido a Atlântida, ou o aumento avassalador e repentino do peso de tanta água pode ter provocado fraturas dos estratos submarinos, com os consequentes terramotos.
Eh, pá! Realmente! Incrível! Isso é muito interessante!
A crosta terrestre é uma casquinha maleável, mas quebradiça. Por essa altura — ouvi eu numa aula —, terão desaparecido um ou dois quilómetros de espessura de gelo na Escandinávia, o que teve como consequência a elevação dessas terras. O peso dos gelos deslocou-se lá de cima para os oceanos, em água. É fácil aceitar que esta basculação de enormes massas pode ter provocado reajustes das placas submarinas, com abatimentos das placas e tsunamis consequentes. Talvez tenha sido essa inundação avassaladora que deu origem às lendas diluvianas que atravessam todas as culturas.
Paulo manteve-se uns momentos calado, a digerir o que ouvira. Depois, reagiu:
Tudo isso até pode ser verdade, mas não prova a existência da Atlântida…
Claro, eu também não afirmo isso, mas temos de concordar que é de uma coincidência perturbadora.
Depois de iscarem os anzóis, os lançarem para bem dentro do rio, e se instalarem nas rochas próximas, prosseguiram a conversa sobre o tema, enquanto esperavam que algum peixe picasse. Como seria o estuário do Tejo, quando o nível do mar estava 100 metros mais baixo? A quantos quilómetros estaria a costa? Seria fácil aos africanos atravessar o Mediterrâneo, para a Europa. Talvez de ilhota em ilhota, com a ajuda de troncos, como Henrique ouvira numa aula sobre a Arte do Paleolítico.
Se calhar, não morriam afogados aos milhares, como nos nossos tempos tão evoluídos… — considerou Paulo, amargo.
E imaginaram o drama de todos os grupos humanos — vivessem na lendária Atlântida ou tão só nas inúmeras costas da Europa Ocidental —, ao verem as águas invadirem em poucos anos as suas áreas de instalação, a cada ano um pouco mais acima. Refletiram em como estaremos em vias de viver tempos com problemas semelhantes — de que a subida das águas é só o mais evidente —, devido ao inquestionável aquecimento global.
Sabes que já se vão apanhando, nas nossas costas, peixes que antes só se encontravam em meios sub-tropicais? — adiantou Henrique. — Li há dias. Pescada do Senegal, sável africano, peixe-porco…
E questionaram a clarividência das respostas de agora, que não parecem muito diferentes das de então.
Nesses tempos, talvez se invocassem as divindades marinhas e se realizassem sacrifícios para que elas se tornassem propícias — conjeturou Paulo. — Agora vemos esforços igualmente inglórios e de aparência mágica, como é tentar travar o avanço do mar lançando para as praias ameaçadas milhares ou milhões de metros cúbicos de areia… Que o mar leva de seguida.
O Homem continua a não ter uma noção clara da sua pequenez, em face de forças desta amplitude. E se os oceanos subissem 100 metros em cinquenta anos? — dramatizou Henrique.
A conversa trouxera à tona da consciência alguma inquietação que habitualmente se mantinha submersa. Numa consulta ao smartphone, Henrique mostrou-se alarmado.
Está a acontecer. Olha para isto!
A notícia ecológica do dia era a separação de um iceberg de 6000 quilómetros quadrados, da placa antártica. Um vídeo aéreo mostrava uma falésia de gelo sobre o oceano, com uma extensão a perder de vista.
Diz aqui que é do tamanho do Algarve e que corresponde a mais de 1.100 quilómetros cúbicos de água — o cenho de Henrique carregou-se.
A conversa cessou. Mantiveram-se calados por muito tempo, olhos postos na água que até então sempre lhes parecera tão hospitaleira. A ténue sensação de estarem a prever o futuro — um futuro ameaçador — dava-lhes um aperto no peito.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Nicholas Roerich, A destruição da Atlântida, 1928.

* * *





sábado, 22 de setembro de 2018

O Último Dos Flatos


No mais alto andar da biblioteca o jovem Vanderlei vagava entre alfarrábios, lustres e ilustres à mercê de sua atenção. Era robusto, com dedos gordos e roliços, dir-se-ia um homem só deles, as unhas roídas até a carne, a camisa lisa até a intolerância; vaidoso, assim julgava-se e assim julgavam-no, o brilho da cabeleira a realçar cada um dos fios. Vagava ao léu, nem tanto Vanderlei errando como seu interesse, absorto em afiar as vistas numa lombada chamativa, num título intrigante, de acordo com os humores daquela manhã outonal, quando usaria de marca livro uma das folhas secas caídas lá fora.
E era silencioso, considerando tal atributo fundamental ao correto entendimento de ideias e tomos. Livro nenhum entrega-se a quem não compartilha de seu calar, refletia ele, acariciando o raciocínio na cabeça, mimando-o até, do nada, soltar uma ventosidade. 

Ôa, disse, e tencionou as nádegas. 

Ante o testemunho dos volumes, alastrou-se um odor incômodo e nauseabundo, eflúvio semelhante ao dos antigos faraós em seus túmulos. Nossa mãe, comentou o jovem, fedor horrível, e abanou as mãos com intuito de dispersá-lo. Mas a fedentina resistiu, e dali a cinco minutos Vanderlei concluía que o cheiro não abrandava, estarrecido em descobrir a força de seu intestino e de sua obra; também, indagou-se da ventilação, do ambiente fechado, e acusando a corrente de ar frio ouviu o abrir e fechar de portas. Num dos extremos do salão desconhecidos entravam, gritando e tagarelando. Encontrava-se ele no meio daquele retângulo arquitetônico, distante dos acessos e das conversas mas não dos vocábulos e de sua errônea arguição.

Você peidou, disse alguém.

Não, não, foi você, e riram. Imaginou uma turba de bárbaros ensandecidos, homens e mulheres armados com tochas e forcados, a moral dos cães em seu encalço. Alinhavam-se as estantes entre dois corredores, e vindo eles de um lado Vanderlei foi para o contrário, afastando-se rumo ao fundo da biblioteca, retiro onde almejava se ocultar. Estava ali em jogo seu nome e sua reputação, e assim, conforme avançava a multidão, avançava Vanderlei, o ranço a difundir-se em sentidos internos e externos, a conceber horrores olfativos indescritíveis. Ao alcançar o fundo do salão, esbarrou em duas mesas de estudo, encurralado nem tanto pelos invasores como pelo universo, como por uma insurreição de vocábulos e críticas. Não arriscaria passar por eles, meditou o bom moço, não arriscaria a confissão do crime.

Daonde vem esse fedor de carniça, gente, falou alguém.

Desconsolado, Vanderlei fixou os olhos nas mesas. Para elas se dirigiam, entendeu. Não havia saída, quiçá nunca houve. Erguendo o olhar, viu pelas janelas panorâmicas o sol, entre nuvens e edifícios cristalinos cujo reflexo do céu destinava-se a uma revelação.

***

No velório comentaram de como Vanderlei era alegre, de como nunca externara tendências agressivas ou, em supostas escolhas suicidas, a preferência por saltar de grandes alturas.





quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O LANÇAMENTO


- Hoje tem.
Foi a senha que Clotilde passou para Ofélia, que passou
para Lenyr, que passou para o Sr. Waldênio.
- Naquela na porta no metrô.
Foi a contra senha.
E o quarteto se mobilizou. Clotilde foi ao salão.
Ofélia pintou as unhas. Lenyr subiu no banquinho para
alcançar a caixa de bijuterias. O Sr. Waldênio fez barba,
encharcou-se de Velva, aparou bigode grisalho, escovou
paletó xadrez e levou algum tempo para escolher gravata
mais chamativa.
Encontraram-se na saída do metrô.
- Ofélia, você não tem espelho?
- Quebrou, Lenyr. Dá azar.
- Tá se vendo. Borrou o batom. Parece boca de palhaço cego.
- Não seja indelicada, Clotilde.
- Sr. Waldênio, não se meta. Tenho que zelar para a amiga
não passar ridículo.
Mais não falaram. Entraram os quatro na livraria. Já havia
uma pequena fila em direção ao autor, debruçado sobre a mesa,
mãos felizes e sorriso sincero para todos os presentes.
Não entraram na fila. Não gostam de livros. A intenção sempre
foi única, há mais de 20 anos: frequentar noites de autógrafos,
vernissages, inaugurações de butique. Não perdiam uma.
Assim, garantiriam o jantar e, de bolsas cheias de
salgadinhos, canapés, mini sanduíches e de salsicha com queijo
espetados no palito, talvez, o café da manhã do dia seguinte.
Como sempre, estrategicamente, se separaram. Um em cada ponto
da livraria, mas sem nunca entrar na fila. Ficaram em lugares
chaves, onde os garçons passavam com água, refrigerante e
vinho branco básico.
- Onde estão os canapés?
- E os salgadinhos?
- Não tem coxinha?
- Nem palitinho de salsicha.
Estavam os quatro com o buraco no estômago. Recusaram o vinho
para não dar azia.
Lá pelas tantas, Clotilde ultrapassou a fila um tanto mais
caudalosa, sob a indiferença dos convidados que riam e
confraternizavam. E chegou à mesa do autor. Sem pudores.
- Lançamento mais chinfrim, meu senhor.
O autor levantou os olhos, com semblante perplexo, simpático.
Quis dizer alguma coisa. Não deu tempo.
- Tomara que seu livro seja como esse coquetel. Um fracasso.
E saiu Clotilde acompanhada dos indignados Lenyr, Ofélia e
o Sr. Waldênio pela livraria afora. Todos marchando em silêncio
em direção ao metrô.
- Paciência, Clotilde. Na próxima teremos mais sorte.
- Do jeito que esses intelectuais andam mesquinhos,
só inauguração de farmácia.






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os vivos - poema de Maurício Fronzaglia




Os vivos



Os mortos se reconhecem
amam-se
multiplicam-se
invadem
espalham-se
dominam.


Esparramam
ávidos sorrisos
submersos no asfalto.


Do Livro Demônios Azuis, 2010.


















domingo, 16 de setembro de 2018

Em nome


Foi pelo sangue de Cristo. Pelo sangue de Cristo que o sangue dela escorreu. Eles disseram. Em nome do Senhor Jesus! Eles gritaram. Antes de entrar. E ela achou bonito. E respondeu Aruê! Mas eles não ouviram. Eles não queriam ouvir. Mugindo em rebanho de fúria. E falavam numa língua estranha que não vinha do Espírito. Sobre demônios e abominações. Mas Legião eram eles. E repetiam e repetiam e repetiam. Está amarrado em nome de Jesus! A cada altar quebrado. A cada estátua estilhaçada. A cada flor pisada. A cada soco e pontapé que deram na menina mais linda do terreiro. A filha mais querida de Ogum. Mas foi em nome de Jesus. Cada rasgão no seu vestido branco novo. O vestido que a madrinha fez pra ela. Branco como o ojá arrancado da sua cabeça. Em nome de Jesus. As contas arrebentadas da guia azul e branca de Ogum explodindo no chão do terreiro. As pulseiras rapinadas por garras de harpias. Em nome de Jesus. Em nome de Jesus, a cabeça do babalorixá rachada contra a parede. Vermelhos. A parede. A cabeça. O vestido. E os gritos pingando. Encharcados de Jesus. Submissão. Dominação. 
Foi assim que eles chegaram. Porrada e benção. Belzebus procurando por si mesmos em estátuas e flores e altares. Arrastando pelos cabelos fartos a menina do vestido branco-encarnado. Pela rua. Pelas calçadas de cuspes. Pela Via Dolorosa dos olhares estáticos.
A menina mais amada de Ogum. Sangue e vergonha. Sacrifício cruento. Amarrada em nome de Jesus. Do Jesus que quebra e arrebenta. Imagem e semelhança dos homens.