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sexta-feira, 20 de julho de 2018

FUNDO DO POÇO

Ico voltava da roça para o casebre de barro salpicado, quando avistou a
sogra balançando na rede e a filha brincando de acertar o bico do galo
com o milho. Viu que a menina não acertava uma, deixando o galo irritado
de tanto perder o milho para a galinhas em volta. Galo magro e bobo. Ico
fez da enxada um pau para se encostar, passou a mão grossa na testa suada
e sorriu para a menina, que quando o percebeu espantou a galinhada e veio
correndo pular no colo do pai.
- Fininha, assim você vai matar o galo.
Os dois se abraçaram em rodopio, fazendo alvoroço na poeira do chão seco.
A velha levantou a cabeça, espiou com cara feia e rachada. Não gostava
daquele homem que tinha emprenhado a filha quatro anos antes, e o pior:
se aboletado no casebre em troca de dar conta do roçado em volta. Não era
terra extensa e rica. Muito pelo contrário, do amanhecer até o sol a pino,
Ico percorria o roçado, mexendo e cavucando a terra com enxada e ancinho,
misturando bosta de boi e água do poço, espalhando grão de milho, na
esperança de que aquilo em um tempo desse em milharal.
Acontecia. Sempre antes do Dias de Reis, enchia meia-dúzia de balaios de
espiga, sendo que cinco eram vendidos aos atravessadores e um inteirinho,
o de melhor qualidade, deixava dentro de casa. E tal como o galo e as galinhas,
iam os quatro – ele, mulher embuchada, sogra de maus fígados e filha pequena,
levando a vida como Deus quisesse.
Havia também mais uma boca para alimentar: a porca, que se satisfazia com
uma mistureba de espigas que não prestavam, restos de caules e folhas,
poucas sobras dos pratos e das latas de banha que faziam as vezes de panelas.
Durante um desses rodopios rotineiros, Ico ouviu gritos vindos da direção do poço.
Reconheceu a voz. Largou a menina no chão e enlouqueceu-se em torno de um buraco
fundo, cavado até onde a água quisesse aparecer. Lá dentro, sua mulher Dininha
gritava por socorro.
Pela largura do poço mal cabiam duas pessoas. Mas Ico se meteu assim mesmo,
até desabar sobre Dininha, que já nos últimos respiros da exaustão, agarrou-se
ao marido, puxando mais ainda para as profundezas, onde água e lama já lhes
cobriam as cabeças.  Debateram-se e gritaram por mais de horas, sem que ninguém
notasse suas agonias. Aos poucos foram se entregando ao destino.
A menina percebeu que o pai a tinha largado esbaforido correndo para trás do casebre.
Na sua inocência de quatro anos, custou a perceber que ele não voltaria mais.
E quando se deu conta, puxou a avó para catar pai e mãe pelo terreiro, enxotando
galinhas, chutando a porca. Na beira do poço, viu sandálias descalçadas. Mesmo inocente,
atinou para o que tinha acontecido.
Já era fim de tarde do dia seguinte, quando dois vizinhos distantes da roça apareceram
montados em seus cavalos. O sujeito maior de apelido Pau de Coqueiro - acompanhado de
seu menino adolescente chamado Filho do Coco - por ser magro e comprido, meteu-se no
buraco de cabeça para baixo com a corda de laçar reses amarrada na cintura.
Por mais de meia hora ficou por lá, pelejando, pelejando. Até que, dado um sinal,
seu filho amarrou a corda nos animais, que às chicotadas e aos gritos de ôs, ôs, ôs,
puxaram tudo que vinha lá do poço. Primeiro apareceu Pau de Coco, depois, amarrado a
seus pés o casal grudado pela lama, abraçadinho como se dormisse pela primeira vez. Fedia.
A velha gritou de horror. Ameaçou se atirar no poço, mas ficou entalada na beirada.
Tentou se jogar entre as patas dos cavalos, engoliu terra, gritou para que o senhor
lhe mandasse um raio, fez de tudo para morrer de desespero, ali, na hora, naquele
pavoroso cenário. Vagou pelo terreiro, esconjurou a vida e a neta, fruto da desgraça
enlameada.
- Que o diabo te carregue! Eu é que não tenho que te carregar, sua peste!
A menina fez que ia abrir um berreiro, mas nem chorou. Na sua cabecinha de quase quatro
anos, desabou a certeza de que estava sem ninguém na vida. E jurou limpar aquele lamaçal
da memória. Não se sabe se conseguiu, mas por um longo tempo, não só deixou de falar de
pai e mãe, mas trancou a boca para qualquer outro tipo de prosa.  Custou a tomar tenência
para fugir. Mas até a madrugada que decidiu largar Abiricó para trás na carroça de milho,
por um tempo mais interminável que a eternidade, teve que ser carregada pelo diabo
em forma de velha coscorenta. 


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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


1 comentários:

Como sempre lindo, onde o que escreve, se consegue visualizar.

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