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domingo, 24 de junho de 2018

A Esfíncter do Caráter



Na privada libertava-se dos encargos intestinais, o recinto silente senão pela turbulência da difusão abaixo, frias gotas violentando suas nádegas de querubim. Há cinco dias não desopilava as entranhas, há cinco dias sustinha no ventre o fardo de lapsos gastronômicos e falhas etílicas, e mesmo sendo homem de jamais exercitar as tripas em banheiros públicos foi constrangido a tanto quando um de seus orifícios ressoou feito as trombetas do juízo final, a sonora flatulência saturando o gabinete onde, por acaso e sorte, labutava a sós. Era manhã, a mais cândida e bela das manhãs, e lançando-se Juvenal ao toalete agradeceu e abominou a divina providência da carne e da digestão, trancou a fechadura e contemplou, com fascínio jamais antes exibido naqueles olhos inanimados, o trono de porcelana. Desafivelou o cinto, arriou a calça, sentou e aliviou-se num rompante, tudo rápido como a vertiginosa criação do universo; logo de pé, virou-se, e nas imundícies expelidas vislumbrou estrelas e astros, as radiantes constelações, e vislumbrou, também, preso na caixa d’água, um aviso com letras capitais: NÃO CAGAR. DESCARGA ESTRAGADA. Àquele alerta só temeu após pressionar o botão e descobri-lo solto e inútil, em seguida ouvindo o borbulhar dos canos e o escorrer de gotas entre os dejetos abaixo, que, diga-se de passagem, avolumavam-se para fora da água acumulada como as ilhas fétidas e horripilantes das histórias de terror.

Mas Juvenal não ingressara no serviço público por ser besta, ou apenas besta. Destrancou a fechadura, analisou o vazio do corredor e saiu do edifício central assim como entrou: sorrateiro, através de uma porta lateral da qual guardava a chave. Não atravessou a sala de recreação onde descansavam os colegas, já fartos do dia, do calor ou do frio, das horas intangíveis. Tendo o costume de compartilhar com eles o intervalo do almoço, e para que se sucedesse a insuspeita rotina, voltou ao seu gabinete e depois de alguns falsos minutos retornou ao edifício, à sala de recreação, no local percebendo o fôlego suspenso dos colegas, percebendo olhos arregalados, atentos, dois ou três deles a vigiar a passagem lúgubre e afastada que conduzia ao toalete. Em voz alta, mãos na cintura, questionou o silêncio opressivo, e a ele ninguém respondeu. Então ouviu gritos, balbúrdia, e saltitando até a entrada do acesso enfiou-se às cotoveladas entre o grupo ali reunido e viu duas mulheres a esbravejar, 

Um cagalhão desses é coisa sua, Suzana.

Pois a vaca cagalhona é você, disse a segunda. Argumentavam em frente ao banheiro, envoltas por um ar visível e pestilento como a bruma de pântanos ou cemitérios clandestinos, e ao término dessas últimas ofensas, leve epílogo das anteriores, atacaram-se e enlaçaram-se, morderam-se, o indivisível ímpeto da raiva contrariando as leis da física e das massas, as duas tombando no chão e arrancando mechas de cabelos enquanto Juvenal e mais outros a elas se dirigiam, não com a velocidade exigida pela urgência, mas com certa curiosidade e relutância. Precisaram de força e paciência, e separadas as duas Suzana exibia cravado na coxa esquerda um garfo torcido não obstante sangue nenhum escorresse do ferimento. Durante o sucedido Juvenal foi o mais prestativo dos socorristas, e o mais justo dos árbitros ao condená-las:

Duas mulheres desse tamanho e comportam-se feito crianças.

Mas sua reprimenda não surtiu efeito, e elas, separadas e contidas, xingavam-se aos berros, coisa que Silvério, o porteiro, expôs como solução emergencial a análise das câmeras de segurança para apurar quem por último visitara o banheiro. Dada a atmosfera obscura do local, ninguém viu os lábios de Juvenal embranquecerem, ou o modo estranho como se deixou na parede. Dirigiu-se o bando inteiro à sala adjacente, onde um computador armazenava as imagens, e sentando-se Silvério em frente à tela e digitando a senha, acessando a central de gravações, comentaram eles acerca do cheiro recém surgido, de queimado. Parado na porta, Astor, o mais velho dos funcionários, espiou em direção à sala de recreação e arregalou os olhos.

Fogo, gritou, e todos correram, engalfinharam-se numa fileira de empurrões e, em busca da saída, enfrentaram as chamas, cortinas e sofás flamejantes, enfrentaram a fumaça preta e condensada cujas linhas revoltas preconizavam a alegria da salvação. Com vinte minutos de incêndio o prédio crepitou e desfez-se em ruínas. Suzana e Sandra, as duas brigonas, em frente aos escombros choramingavam num abraço de paz e amizade, confortadas por colegas cujas máscaras de fuligem exibiam emaranhados de lágrimas.

Quando os bombeiros enfim assomaram à cena, nada restava senão a soturna estrutura do que parecia uma basílica de carvão, e, também, um morno resquício de sorriso nos lábios de Juvenal.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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