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segunda-feira, 25 de junho de 2018

O incendiário


«Tudo menos troça!» Mauro pediu mais uma cerveja. Mantinha na retina a imagem da jovem em risinhos e a cochichar com as amigas, na véspera. É claro que era um falhado, toda a gente sabia isso, mas troça é que não. Para a menina do papá era muito fácil rir-se dele. Não tivera de passar pela experiência de dormir debaixo de um viaduto, na vila; não tinha de aceitar o trabalho que aparecesse, fosse ajudante de trolha, fosse ajudante de cargas, na serração. Com 19 anos, ele não tinha um telemóvel de jeito, não tinha carro, não tinha amigos, não tinha nada. Vivia com a mãe viúva, sempre com recomendações; que se esforçava, mas não lhe dava um mínimo para um rapaz dos tempos atuais. Às vezes, não lhe dava nem trocos para ir ao café. Ficava a ver televisão em casa, mundos magníficos tão diferentes da sua aldeia encravada entre montes cobertos de pinheiros e eucaliptos, revoltado com a sua vida sem futuro.
Saiu do café e acendeu um cigarro. Caminhou na direção oposta da sua casa, ao longo da estrada iluminada por alguns candeeiros esparsos, que ladeava a pequena ribeira que atravessava Lage Fundeira. Passou em frente da vivenda de Carla. Imaginou-a em frente a um computador, a trocar piadas com amigas e amigos. Voltou a lembrar-se do riso dela. Um incómodo voltou a atravessá-lo. Prosseguiu até as casas acabarem e sentou-se numa pedra a ouvir a ribeira. Aquele enorme silêncio, em vez de o acalmar, trouxe-lhe uma visão clara do seu exílio. Só, abandonado, miserável, esmagado debaixo de toneladas de pasmaceira.
Cheirou-lhe a fumo. Mais uma vez. Na véspera, o fogo andara numa serra não longe dali. Tinham lá estado os bombeiros e a televisão. Uma animação enorme. Se tivesse carro, tinha lá ido ver. Acendeu outro cigarro e observou o insinuante bruxulear da chama do isqueiro. Baixou a cabeça, pensativo.
Quando os bombeiros chegaram, meia hora e tal depois, Mauro observava da janela de casa o fogo a alastrar pelo mato próximo da zona onde o incêndio tinha começado — uma pequena várzea de feno seco do pai de Carla. Um autotanque e um carro de transporte com 8 bombeiros, num alvoroço de sirenes, postaram-se na estrada contígua ao fogo. Com grande agilidade e rapidez, os homens desenrolaram mangueiras, puxaram-nas, avançaram em direção ao fogo, e lançaram jatos de água sobre o mato em chamas. Era belo e empolgante. Mauro chamou a mãe e saiu de casa a correr. Para ver de perto o ataque às chamas e ajudar aqueles homens esforçados. Pouco depois chegaram mais dois autotanques e outros carros e em menos de outra meia hora estava o fogo dominado. Ainda andaram por ali muito tempo, para assegurar o rescaldo, a Guarda alvitrou que devia ter sido uma ponta de cigarro acesa atirada de um carro, mas depois foram-se todos embora e Lage Fundeira voltou ao sossego característico. Fora tudo tão rápido, que nem apareceu a televisão.

Mauro não gostou de tanta eficácia. Esperava que o incêndio durasse pelo menos um dia, mas nem sequer pôde ver um helicóptero a lançar água sobre nuvens de fumo e chamas. Tinha de ser mais esperto, planear minimamente, executar sem ser de impulso.
Na segunda-feira seguinte, ao lusco fusco, Mauro desceu à azenha velha, depois tomou o antigo trilho dos moleiros, serra acima. Meia hora depois chegou a um barrocal, a que chamam Fraga do Mocho, que agora está envolvido por uma mata de urzes e giestas. Escolheu uma área bem densa e seca e instalou o seu engenho — uma cana oca cheia de musgo seco, com uns vinte fósforos na ponta. Junto a essa ponta, três acendalhas e uma boa dose de caruma, e gravetos de giesta. Depois de confirmar que tudo estava estável e aplicado conforme tinha pensado, acendeu a ponta inicial da cana e afastou-se para um ponto da serra afastado mais de cem metros, de onde podia assistir ao eclodir do fogo.
O engenho não o desiludiu, nem o resultado. Assim que o musgo em brasa atingiu os fósforos, foi tudo muito rápido: chamas surgiram, os gravetos incendiaram-se, em breve a giesta a que estavam ligados começou a arder e depois outras giestas em todas as direções até o fogo atingir o eucaliptal anexo, onde as línguas de fogo começaram a trepar por dezenas de metros. Em pouco tempo, o incêndio tinha uma frente de quase cem metros e uma altura de vinte ou trinta. A salvo e com a retirada planeada, Mauro deliciou-se com a magnificência e a sofisticação daquele espetáculo admirável. A potência e o fulgor das labaredas impressionavam. As chamas dançavam e insinuavam-se por entre os estáticos troncos. O calor começava também a atingi-lo. Em êxtase, abriu as calças e masturbou-se à vista daquela visão luxuriante. O fogo alastrava com rapidez. O orgasmo intenso, com o seu efeito de alheamento, quase o pôs em perigo. Desatou a correr, apanhou mais à frente o trilho que trouxera e em vinte minutos estava em casa.
Essa foi uma noite em que Mauro não dormiu. Nem Mauro, nem os outros habitantes da aldeia. Em poucas horas, o fogo ganhou três quilómetros de frente. Pela manhã, o horizonte estava escondido por rolos de fumo negro e surgiram dois pequenos aviões de ataque a fogos a lançar grandes jorros de água sobre as chamas. Levantavam-se enormes nuvens de fumo branco. Parecia um cenário de guerra, ou, pelo menos, dos filmes de guerra. Pelo meio-dia, temeu-se que as chamas chegassem à aldeia. Houve ordem de evacuação, mas Mauro conhecia a região — foi instalar-se junto da ermida da Senhora do Alto, de onde podia continuar a presenciar o espetáculo das chamas e de todo o aparato para as combater. À tardinha, o fogo tinha ultrapassado a serra e mudado de concelho e todos puderam voltar a casa e contabilizar as perdas: quatro ou cinco palheiros ardidos, gados tresmalhados, muitos hectares de floresta queimados. O Telejornal mostrou uma reportagem do incêndio e, pela primeira vez, Lage Fundeira apareceu na televisão.

Um ano depois, Mauro continua sem amigos, sem namorada e sem trabalho certo, mas não está muito decidido a incendiar a serra outra vez. A encosta negra está longe de lhe transmitir os apelos lúbricos que a floresta verde proporcionava.

Joaquim Bispo

*
Este conto integra — páginas 91 a 93 — a 9ª edição da Revista LiteraLivre, em formato e-book, resultante de concurso literário de abril de 2018: https://issuu.com/revistaliteralivre/docs/revista_literalivre_9__edi__o

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Imagem: António Grancho, Incêndio, 2003.

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domingo, 24 de junho de 2018

A Esfíncter do Caráter



Na privada libertava-se dos encargos intestinais, o recinto silente senão pela turbulência da difusão abaixo, frias gotas violentando suas nádegas de querubim. Há cinco dias não desopilava as entranhas, há cinco dias sustinha no ventre o fardo de lapsos gastronômicos e falhas etílicas, e mesmo sendo homem de jamais exercitar as tripas em banheiros públicos foi constrangido a tanto quando um de seus orifícios ressoou feito as trombetas do juízo final, a sonora flatulência saturando o gabinete onde, por acaso e sorte, labutava a sós. Era manhã, a mais cândida e bela das manhãs, e lançando-se Juvenal ao toalete agradeceu e abominou a divina providência da carne e da digestão, trancou a fechadura e contemplou, com fascínio jamais antes exibido naqueles olhos inanimados, o trono de porcelana. Desafivelou o cinto, arriou a calça, sentou e aliviou-se num rompante, tudo rápido como a vertiginosa criação do universo; logo de pé, virou-se, e nas imundícies expelidas vislumbrou estrelas e astros, as radiantes constelações, e vislumbrou, também, preso na caixa d’água, um aviso com letras capitais: NÃO CAGAR. DESCARGA ESTRAGADA. Àquele alerta só temeu após pressionar o botão e descobri-lo solto e inútil, em seguida ouvindo o borbulhar dos canos e o escorrer de gotas entre os dejetos abaixo, que, diga-se de passagem, avolumavam-se para fora da água acumulada como as ilhas fétidas e horripilantes das histórias de terror.

Mas Juvenal não ingressara no serviço público por ser besta, ou apenas besta. Destrancou a fechadura, analisou o vazio do corredor e saiu do edifício central assim como entrou: sorrateiro, através de uma porta lateral da qual guardava a chave. Não atravessou a sala de recreação onde descansavam os colegas, já fartos do dia, do calor ou do frio, das horas intangíveis. Tendo o costume de compartilhar com eles o intervalo do almoço, e para que se sucedesse a insuspeita rotina, voltou ao seu gabinete e depois de alguns falsos minutos retornou ao edifício, à sala de recreação, no local percebendo o fôlego suspenso dos colegas, percebendo olhos arregalados, atentos, dois ou três deles a vigiar a passagem lúgubre e afastada que conduzia ao toalete. Em voz alta, mãos na cintura, questionou o silêncio opressivo, e a ele ninguém respondeu. Então ouviu gritos, balbúrdia, e saltitando até a entrada do acesso enfiou-se às cotoveladas entre o grupo ali reunido e viu duas mulheres a esbravejar, 

Um cagalhão desses é coisa sua, Suzana.

Pois a vaca cagalhona é você, disse a segunda. Argumentavam em frente ao banheiro, envoltas por um ar visível e pestilento como a bruma de pântanos ou cemitérios clandestinos, e ao término dessas últimas ofensas, leve epílogo das anteriores, atacaram-se e enlaçaram-se, morderam-se, o indivisível ímpeto da raiva contrariando as leis da física e das massas, as duas tombando no chão e arrancando mechas de cabelos enquanto Juvenal e mais outros a elas se dirigiam, não com a velocidade exigida pela urgência, mas com certa curiosidade e relutância. Precisaram de força e paciência, e separadas as duas Suzana exibia cravado na coxa esquerda um garfo torcido não obstante sangue nenhum escorresse do ferimento. Durante o sucedido Juvenal foi o mais prestativo dos socorristas, e o mais justo dos árbitros ao condená-las:

Duas mulheres desse tamanho e comportam-se feito crianças.

Mas sua reprimenda não surtiu efeito, e elas, separadas e contidas, xingavam-se aos berros, coisa que Silvério, o porteiro, expôs como solução emergencial a análise das câmeras de segurança para apurar quem por último visitara o banheiro. Dada a atmosfera obscura do local, ninguém viu os lábios de Juvenal embranquecerem, ou o modo estranho como se deixou na parede. Dirigiu-se o bando inteiro à sala adjacente, onde um computador armazenava as imagens, e sentando-se Silvério em frente à tela e digitando a senha, acessando a central de gravações, comentaram eles acerca do cheiro recém surgido, de queimado. Parado na porta, Astor, o mais velho dos funcionários, espiou em direção à sala de recreação e arregalou os olhos.

Fogo, gritou, e todos correram, engalfinharam-se numa fileira de empurrões e, em busca da saída, enfrentaram as chamas, cortinas e sofás flamejantes, enfrentaram a fumaça preta e condensada cujas linhas revoltas preconizavam a alegria da salvação. Com vinte minutos de incêndio o prédio crepitou e desfez-se em ruínas. Suzana e Sandra, as duas brigonas, em frente aos escombros choramingavam num abraço de paz e amizade, confortadas por colegas cujas máscaras de fuligem exibiam emaranhados de lágrimas.

Quando os bombeiros enfim assomaram à cena, nada restava senão a soturna estrutura do que parecia uma basílica de carvão, e, também, um morno resquício de sorriso nos lábios de Juvenal.





quarta-feira, 20 de junho de 2018

TOLERÂNCIA

  Fizeram 70 anos de casados Dagmar e Décio.
  As filhas Desirré, Domitila e Dulce, genros,
netos, bisnetos, parentada próxima e distante,
amigos de longo e pouco tempo sopraram velinhas em torno
da mesa. Era um bolo exuberante, escoltado por uma legião
de brigadeiros, cajuzinhos, bem-casados e línguas de sogra.
  Juarez, o churrasqueiro da vila, cuidou de tirar retrato.
- Um sorriso, seu Décio! Tá todo mundo feliz.
  Décio não mexeu uma ruga.
  Dagmar caçoou.
- Se ele rir, a dentadura cai.
  Até o vira lata levantou as
orelhas, abanou o rabo. Dizem que riu.
  Décio permaneceu de cara amarrada.
  Desirré, a mais velha, insistiu.
- 70 anos, pai. Três filhas, três genros, onze netos,
seis bisnetos, um casal de tataranetos e um batalhão de amigos! Vida linda, pai!
  Silêncio.
  Juarez já servia saideiras de linguiças, lascas de alcatra e iniciava a sobremesa:
banana d´água na brasa com canela e açúcar. O cavaquinho chorava Noel, Ernesto,
Jacob e Pixinguinha, prenúncios que a cervejada e o domingo iam longe.
As bundas gordas rebolavam aos pélvis e passos de pretensos mestre salas,
as crianças faziam com bolas de guardanapo lances de Copa do Mundo.
E Décio seguia estatuado na cadeira de vime, mãos entrelaçadas, um polegar
se enrolando no outro, o único movimento muscular existente.
- Vô Décio, vem dançar o miudinho.
- Deixa ele, Michele. Se seu avô está mexendo o dedo
é porque está agradado da vida.
  Um dos genros quis ser simpático.
- Seu Décio! Conta pra gente: qual o segredo de tantos
anos de casamento?
- Zíper.
  Foi só o que disse. Nenhum sorriso. Apenas um gesto
do polegar grudado ao indicador, percorrendo a boca de
uma ponta a outra. E foi eloquente ao seu modo. Repetiu:
- Zíper.
  Dagmar interveio.
- É fechecler, Décio. Para com essa mania de modernidade.
  Zíper.

Enquanto dançava-se, cantava-se e gargalhava-se, pelas telas
da memória de Décio passava um filme mal editado e de tempo
embolado, fragmentos de más lembranças.

- Calça pescando siri? É casamento de nossa primogênita,
Décio. Está um perfeito tabaréu.
  Zíper.
- Se é para passar o sábado no turfe, que jogue num cavalo
que não manca.
  Zíper.
- Vem pra casa, Décio. Larga esse carteado. Seu neto vai nascer.
Tomara que não venha a sua cara.
  Zíper.
- Você não desligou o filtro, Décio. Encharcou a cozinha toda.
Pega logo esse rodo, vai.
  Zíper.
- Serão numa repartição pública sexta-feira? Tem sirigaita aí.
Essa sua cara de songamonga não me engana.
  Zíper.
- A comadre Odete descobriu que o Jandir tinha uma amante.
Despejou água fervendo no ouvido dele. Ouviu, Décio?
Estou avisando: já botei a chaleira pra ferver.
  Zíper.
- O dinheiro da feira está minguando. É jogo, cachaça ou mulher?
Ou tudo junto?
  Zíper.
- Sonhei casar Domitila com cadete das Agulhas Negras. Diz que está
de flerte com um cabo dos Bombeiros. Menina sem ambição.
Puxou ao pai.
  Zíper.
- Décio, quantas vezes?! Bisnaga de creme de barbear na pia dá nisso:
escovei os dentes com Bozzano.
  Zíper.
- Isso é hora de me incomodar? Vai dormir, Décio! Não tem nada
pra você entre as minhas pernas.
  Zíper.
- O papagaio fugiu pro vizinho e está lá gritando
palavrão. Foi você que ensinou, diacho.
  Zíper.
- O vizinho queria tirar satisfações com você. Eu é que fui lá resolver.
  Zíper.
- Até a vizinhança sabe que você é de fritar bolinho.
  Zíper.

  Uma passagem peculiar emergiu das entranhas de Décio. Lembrou de uma
decisão honrada há mais de 20 anos.
- A partir de agora, só falo com você em inglês, velha chata.
- Tá, maluco, Décio? Você nem sabe dizer gudimôrningui.
- O que quer dizer isso?
- “Bom dia”, seu burro.
- Então nem “bom dia” eu digo mais.
- E você lá dá “bom dia” pra alguém? Só se for pras suas vagabundas.
  Zíper.

  Quase dez da noite. O chorinho aquietou, o pandeiro sossegou, a brasa
esfriou, o que sobrou do bolo esfarelou. Despedidas emocionadas, palmas
para o casal.
- Faz um discurso, Décio, diz alguma coisa. Os parentes vieram
homenagear a gente.
  Ziper.

  Atordoado com a gentarada alegre daquele domingo,
Décio só se deitou para lá de meia noite. De pijama listrado,
posicionou-se rijo. Pés juntos, mãos sobre a barriga, dedos entrelaçados.
Olhou fixo para o teto. Dagmar ensaiava os primeiros roncos.
- Dagmar... acorda, Dagmar!
- Que diabo, Décio! Resolveu falar?! Agora?!
- Não gosto de baunilha.
- O quê?
- O glacê do bolo tinha gosto de baunilha.
- Deixa de ser ingrato, seu chato. Dulce confeitou o bolo com
tanto carinho.
- Muita baunilha. Enjoa.
- Ah, vai amolar o boi. Vai no banheiro, vomita a baunilha e vê
se desce junto pelo vaso.

  A duas quadras da casa dos pais, Desirré embalava o neto caçula
que teimava em não dormir, quando ouviu palmas no portão.
- Dona Desirré, acho bom a senhora ir até a vila agora.
Melhor ir rápido.
  Descalça, de camisola, sem penhoar, Desirré largou a criança com
o marido e correu. Até que paralisou. Uma pequena horda de enxeridos
se aglomerava na entrada da vila. Lá no fundo, luzes de ambulância,
polícia e rabecão piscavam um ar de festa que não havia. Desirré se
espremeu entre os curiosos, escapuliu esbaforida do cordão de isolamento
e viu um corpo enrolado num lençol sendo colocado no papa defunto.
Viu dois policiais examinando uma serra de cortar pão ensanguentada.
Viu outros dois policias retirando o pai de dentro da casa em direção
ao camburão. Tiveram a gentileza de não enfiar um velho de 96 anos na
caçamba. Sentaram o infeliz no banco da frente, algemado com as
mãos para trás. Desirré voou, rodou pela viatura, socando lataria e janelas
fechadas. Décio olhou para a filha sem mexer uma ruga. Desirré olhou
o pai e se desmilinguiu em câmera lenta. E bateu mãos
e testa no vidro. E gritou em silêncio. E babou de soluçar.
E se descabelou. E se entupiu de baba e coriza. E pranteou de engasgar.
E deixou cair o pivô da frente.
A sirene começou a tocar. Desirré se jogou no capô de braços abertos e
viu pelo para-brisa manchas no pijama listrado do pai. Sangue
ainda fresco, respingado no rosto craquelado e nos últimos fiapos brancos da careca.
Viu os olhos do velho Décio querendo dizer tudo. Mas, sem coragem ou sem vontade,
diziam nada.
  Zíper.





domingo, 17 de junho de 2018

Livre epiderme



Livre epiderme







     A mão esquerda voltou a ser o que era, livre epiderme. Um dos dedos, o segundo, retornou ao seu estado inicial. O metal nele arranhava a grua do ônibus, o banco e a mesa de pedra. Sempre se ouvia quando tocava o mundo, lembrando que o vínculo era físico e sonoro. A pele não era mais pele, era pele e metal opondo-se às coisas. Agora, nada opõe-se ao mundo, a pele é novamente pele, única como sempre foi. As digitais da mão estão de volta, a mão que cumprimenta, segura, abraça, sem muita habilidade, mas com toda a vontade, agora, de volta ao contato puro. Sem intermediação.






























sábado, 16 de junho de 2018

Dos pesos

Duas calças, um vestido preto, um edredom de listras azuis. Confere. Já deixei pagos. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda para guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio; não cabe mais nada. Tem uma mala lá dentro. Tamanho gigante. Comprei hoje. Sim, no banco de trás pode ser. Mas é tão pouco peso que eu aguento sozinha. Eu aguento carregar até coisa mais pesada. Sim, eu volto semana que vem. Vou trazer mais peças. Dois conjuntos de blazer e saia, e um terninho. Não, não é tudo a mesma coisa. Terno tem calça. Conjunto pode ser de qualquer coisa. Tailleur. Chamava assim. Tinha que ser com saia. Terninho chamava slack. Acho que sumiram com um monte de palavras estrangeiras de uns anos pra cá. Os estrangeiros não sumiram. Só as palavras. Tem um francês que mora em cima de mim. Não. Acima. Não fede nem cheira. Tem cheiro de europeu, só isso. Bonito. Ô! Bonito. Se morasse em cima de mim eu ia gostar. Tem cara de bom amante. Faz barulhos de bom amante. Barulhos que não acontecem mais lá em casa. Mas ele mora acima. Infelizmente. Ninguém sumiu com ele como sumiu com as palavras estrangeiras. Vai ver é porque ele trepa bem. Tailleur e slack não deveriam ser lá essas coisas na cama dos linguistas. Dispensados com desonra. Tem doisedredons também pra próxima semana. O estampado com flores e o cor-de-rosa. Pesados. Mas eu aguento peso. Como estas onze sacolas cheias de comida. Penduradas em duas mãos. As minhas. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio. Tem uma mala lá dentro. Gigante. Comprei hoje. Mas eu já disse isso. Pra moça da lavanderia. No banco de trás, agora, também não cabe mais nada. Tem duas calças, um vestido e o edredom de listras. No chão do carro? Pode, sim. Atrás. Cinco sacolas de um lado, cinco de outro. São só sacolas de comida mesmo. E uma vai comigo no banco da frente. Precisa, sim. Faz as contas. Onze não se divide por dois. Nem nove, nem sete, nem um. Eu não tenho TOC. Eu gosto de números ímpares. Por exemplo: um dia. Sem dividir por dois. Um prato. Um travesseiro. Uma toalha. Uma televisão. Sem dividir por dois. Todas as novelas; a das 6, a das 7, a das 9. Sem dividir o controle remoto. Nem a tela. Telejornal, não. Cansa. A cara certinha do William B. cansa. Menos a boca. De quem beija bem. Os certinhos sempre são os mais tarados. Como ex-seminarista. Dormi com um, faz anos. Banquete pra muitos talheres. Repressão liberada é fogo. É um tira-atraso toda hora. Menos na hora do telejornal. Telejornal corta qualquer tesão. Acidente, corrupção, futebol. Morte todo dia. Na tela. Na vida. Um peso danado. Mas eu aguento peso. Eu já falei isso também. Subi com um engradado de cervejas. Geladas. Tomei todas. De dia mesmo. Fiz a mala gigante antes da hora do jantar. Desci com ela depois do jantar. Pesada. Levando o que tinha que ir embora. Eu aguentei o peso. Não disse que aguentava? Agora, só falta guardar a mala no carro. Pesada. Dentro dela, o que não é meu. E se não é meu, vai embora. Vai sumir. Como sumiram o tailleur e o slack.
Boa noite. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra colocar a mala no porta-malas. Não! Tira a mão daí! Larga essa mala, porra! 






terça-feira, 5 de junho de 2018

ampulheta




enquanto tivermos tempo
haverá o sonho
o gosto
o cheiro

um cigarro aceso
no cinzeiro

uma gota 
para transbordar o copo

alguma chance 
de sermos verdadeiros

entre medos
erros e poemas tortos

um suspiro 
antes de dizer 
já chega