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sexta-feira, 25 de maio de 2018

A angústia do dirigente na iminência do embate



Estou nervoso, Lampreia!; acha que vamos conseguir mostrar um bom jogo no domingo?
Presidente, estou convencido que vai ser dos melhores da temporada.
Ah, ótimo! Adoro desfrutar de uma partida de futebol, no seu conceito mais puro: o embate vigoroso entre duas equipas de garbosos mancebos, virtuosos no tratamento de uma bola com os pés, envolvidos numa sã competição inspirada no lazer varonil, e comandados por duas mentes altamente estratégicas que analisam ao pormenor as forças e as fraquezas da equipa adversária.
Felizmente, nisso, somos dos melhores.
O adversário é difícil, hem!?
Muito difícil! Tive de chegar aos oitenta mil.
Então, quer dizer que estamos com força anímica para vencer!
Com tendência para 3–1. É o que está combinado.
1?
Presidente, fica sempre bem um golo de honra, para abrilhantar a nossa vitória.
Mas, a forma física deles parece estar em alta.
Sim, mas a preparação física de véspera vai incluir uma jantarada bem regada. Só para alegrar um pouco a noite.
Jantarada é uma boa solução. E os nossos, estão motivados?
Muito! Já lhes lembrei que a claque ficaria muito aborrecida se eles não se esforçassem.
Ah, pois ficaria! E não é para brincadeiras…
Para nenhum se esquecer disso, já marquei uma conferência de balneário para a próxima terça.
Conferência de balneário parece-me bem. E os árbitros?
O costume: fruta ou chocolate, conforme os gostos. Fruta russa e chocolatinhos de Cabo-Verde.
Não há nenhum com gostos menos exóticos?
Um preferiu um voucher para uma digestão em Ibiza.
Muito bem, Lampreia! Gosto de ver tudo bem encaminhado, mas, sabe, às vezes, temo que este desporto transmita, aos mais novos, uma imagem de competição desregrada; que se perguntem onde fica o desporto pelo desporto, o prazer do esforço físico, o ideal de que o importante não é a vitória, mas sim a participação.
O clube tem sempre esse lema como bandeira: participação. Queremos que as claques compareçam massivamente no estádio, com todos e com tudo — cornetões, matracas, very lights — sobretudo quando a bancada adversária for poderosa ou os árbitros pouco propícios. A bola é redonda e o nosso clube não tem proteção celeste, digamos assim; precisa de ajuda.
Muito bem, Lampreia! E a pedagogia social, o fair play, a gentileza para com o adversário? Não nos esqueçamos que os jovens copiam, na vida de todos os dias, o que observam em campo!
Se o Paulinho Quebra-ossos tiver de meter os pitões na cara do Juvenal Gazela e lhe quebrar os queixos… é chato, mas é a vida. Às vezes, é a única maneira de acalmar um espírito demasiado fogoso e impedir um golo certo. Só podemos esperar o fair play do Juvenal de dar a outra face, não é?
Isso mesmo. Aprecio o espírito cristão.
Os espectadores gostam sempre de ver uma boa metáfora bíblica. Estamos à espera de quarenta mil.
Como é isso, Lampreia? Pensei que o estádio só comportasse trinta e três mil!
É! Não pude suportar a imagem de sete mil rostos juvenis, chorosos por não conseguirem ingresso.
Ah! Muito bem, Lampreia!; vejo que tem bom coração.
Obrigado! O desporto sadio toca-me fundo. Acredito que é o melhor sustentáculo de mentes saudáveis e um formidável gerador de cidadania responsável.
Estou absolutamente de acordo. Isso e uma imprensa livre.
Sim, sai amanhã mais uma dose das escutas aos nossos adversários, e que já enviei aos jornais de referência: Offside, Penalty e Hat-trick.
É isso que precisamos — jornalismo desportivo de investigação.
Já avisei os repórteres que a avença está a pagamento.
Perfeito, Lampreia! O desporto deste país nem sabe quanto lhe deve. Nem o clube de todos nós.
Cerca de seis milhões. Já fiz as contas. Mas não se preocupe — o perdão do empréstimo bancário do Banco Benemérito Nacional ao clube já está assegurado.
Nem sei como lhe agradecer, Lampreia!
Sugiro um apoio vigoroso do clube à minha candidatura autárquica!
Pode contar com ele, Lampreia! Um amigo na Câmara é bom para o clube e é bom para o desporto. Bola para a frente!

Joaquim Bispo

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Imagem: Jean-Baptiste Oudry, Uma Lebre e uma Perna de Cordeiro, 1742.
(Natureza Morta)

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