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domingo, 22 de abril de 2018

Suor de Bunda


Não lavo as mãos quando vou ao banheiro, revelou Ignácio, em tom de confidência, a Lionel, colega de repartição. Um erro, diria do ato nas semanas posteriores, pois Lionel, até então discreto, propalou tal confidência a mundos e fundos, acrescendo falsos detalhes para dar à história melhor graça: as mãos dele têm fungos, perdeu um dos testículos num surto de gonorreia, nem no banho as limpava. Tudo isso inventou Lionel, rancoroso sabe-se lá por quê, e malgrado Inácio repreendesse-se por ter confiado a ele uma de suas íntimas peculiaridades, terminou não apenas aceitando tamanha indiscrição, mas entendendo-a como fundamental às suas aspirações, dir-se-ia um alerta da grande latrina universal.

Soube que Lionel entregara seu segredo ao ouvir, dos outros, comentários indiretos acerca de higiene, sobre a importância de se banhar as mãos no lavabo, sobre a proliferação de floras bacteriológicas em dedos e partes do corpo expostas ao ar. Ouvindo essas observações e similares, entendendo e acolhendo suas razões de ser, não confrontou o colega, não deu sinal de consciência, impérvio expondo-se às intempéries; assim deixou seguir a malha dos dias até escutar de Lionel, num evento qualquer, enquanto degustavam bolinhos e discutiam temas casuais, a seguinte pergunta:

Mas então, Ignácio, você lava as mãos quando vai ao banheiro?

Naquele momento calaram-se os presentes, Ignácio tendo certeza da emboscada moral quando em sua direção voltaram-se, ávidos tal qual Hitler ante a fronteira polaca. Todos conspiravam contra ele, todos e o mundo, era o seu raciocínio, e não obstante a raiva atacasse-lhe os nervos, permaneceu calmo e comedido, à indagação respondendo:

Sim, sempre lavo.

Ouviram-se risinhos, galhofas abafadas, e encarando-se os duelistas Lionel também não demonstrou incômodo. Interessante, disse, e a conversa retornou a seu curso ordinário.

No dia posterior Ignácio e Lionel não compareceram à repartição, e apesar de existir animosidade entre eles, e agora esse conveniente elo omissivo, ninguém demonstrou preocupação, considerando tal embate natural ao ambiente de trabalho, falando-se, inclusive, que os mais inocentes e santos faziam da rotina um fardo intolerável. Apesar de Ignácio logo voltar ao departamento, Lionel continuou sumido, não atendendo sequer as ligações e mensagens enviadas, coisa estranha a sua índole. Vai ver ele não lavou as mãos quando no banheiro e morreu em consequência, brincou Flávio nesse mesmo dia em um dos intervalos, cutucando Ignácio com o cotovelo; este, despreparado, engasgou-se e tossiu, nem tanto incomodado pela brincadeira como por sua própria vulnerabilidade à ela. Mas riu, tomando o gracejo por último aviso, o derradeiro, o prenúncio de sua confissão e liberação.

Pois então faltaram Flávio e Ignácio, e nesta mesma tarde investigadores de polícia irromperam edifício adentro. Lionel fora encontrado, explicaram eles, assassinado, seu corpo deposto no esgoto. As mãos, decepadas, ornavam o banheiro da rodoviária pública, fechadas rigor mortis em torno de um bilhete narrando a vida e os sofrimentos de Ignácio, como sempre se sentira e fora desprezado por não lavar as mãos no banheiro, o seu ódio, a promessa de vingança e vítimas, a missiva assinada com sua nova alcunha criminosa: Suor de Bunda.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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