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quinta-feira, 22 de março de 2018

O Defeito Necessário



Tudo o mais em Leila era perfeito, as feições e linhas da face, cada traço delicado, mesmo as clavículas ou suas ebulições intestinais, destacando-se nela as coxas cujo tamanho e lisura, cujos músculos agigantados desafiavam as proporções do corpo feminino. Tudo o mais era perfeito, tudo, menos o nariz de gancho, e isso constataram os pais quando Leila nasceu, conferenciando eles acerca do membro desproporcional, de sua origem, se oriundo de um ascendente macabro e desconhecido ou se consequência de lastimosas anomalias genéticas. Quando com as mãos encobriam aquela tromba o bebê mudava e afigurava-se belo e divino, e ante às imposições desse fenômeno ótico-estético aos genitores restou suplicar pelo bem da filha, pela saúde, pela sorte de um acidente. Como se ouvindo aos clamores a menina cresceu e com sucesso ignorou a mácula em sua face, e ignorou também as insinuações dos amigos ou as injúrias professadas por outras crianças, tendo cada gracinha o condão metafísico de intensificar o encanto de seu rosto.

Pois viveu Leila desse jeito até a adolescência, alheia à magnitude da falha e da virtuosidade, e foi só ao beijar e por descuido cravar o nariz no olho de um namoradinho, ferindo-o, que teve consciência de si. Após visitar a emergência de um hospital e tomar conta do amado, no banheiro de casa trancou-se e à frente do espelho estudou sua deformidade. Soube-se amaldiçoada ao ver o que de espaço ocupava ela, e virando-se de perfil soube-se amaldiçoada em dobro. Era o tamanho, a curvatura de bico, o osso acima e entre os olhos, e com estes enevoados e já não mais inocentes agradeceu a ausência de verrugas.

Sou a bela e a fera em pessoa, refletiu. 

E fungou.

Ciente do contraste entre formosura e monstruosidade, e ignorando o assédio constante do animal homem e do animal mulher, que desconsidera méritos ou deméritos físicos, compreendeu como certas situações agora se explicavam, vide quando a ela ofereciam, em trens e coletivos, o banco reservado aos deficientes. 

E fungou e chorou mais. 

Entretanto a perfeição em Leila abrangia, além do exterior, seu interior, as rebuscadas sinuosidades do coração e da vontade, pois as provações da vida nela despertavam outra força, outra manifestação do belo, este não visto mas sentido. Para a mulher o inferno não passa de distração, evocou ela o verso de seu compositor predileto, e mal ruminado o até então escuso infortúnio decidiu acerca de como agir: faria uma rinoplastia. Assim foi em frente, altiva, e a consciência do defeito e a confiança exibida a tornaram ainda mais atraente. Amantes e galanteadores a enxergavam e cortejavam-na com despudor, e cercada de flores ela indagou se aquele órgão de bruxa não exalava feromônios. As amigas, belas e sedutoras também, inexistiam ao seu lado: viviam, ou escorriam, à sombra do nariz. Independente, Leila não quis ajuda dos pais, nem aos íntimos exprimiu sua vontade, apenas juntou moedas e sorriu ao ter em mãos os valores da cirurgia e, nos ouvidos, a confirmação do médico.

É um procedimento de rotina, disse ele. Tudo hoje é um procedimento de rotina, reiterou.

Dias antes da operação, rolando sobre a cama fofa e perfumada, sonhou com praias e ondas gigantes, a derradeira e maior delas retraindo-se até restar uma duna alta, vergada e sombria, desfazendo-se ao vento. A intervenção ocorreu sem adversidades, e a cara, inchada e roxa, foi isolada em ataduras. Retiradas as últimas, duas semanas depois, o curativo já não úmido e rosado, e refeita a cútis e suas cores, de imediato assomou-lhe a seguinte revelação: sim, era linda e formosa, mas não tanto quanto com o defeito. Aliás, era bem comum e ordinária.

Após a consulta final, exausta e chegando no lar, entrou no quarto e chorou ao enxergar em seu travesseiro a marca de uma reentrância singular e curva como os acasos da vida.


https://palpebrascomoondas.wordpress.com/

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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