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domingo, 25 de março de 2018

Cinzas da vida



Ficou-lhes sempre na lembrança que tinham casado uns dias antes de Salazar ter caído da cadeira — 1968. Escolheram a igreja de São João Batista ao Lumiar, para a cerimónia religiosa, e o Castanheira de Moura, um restaurante da Estrada da Torre, para a boda. Vieram muitos familiares de Amélia, do Alvito, e alguns outros convidados do noivo Leonardo, da zona de Lisboa. Enquanto não arranjavam casa, ficaram a viver em casa da mãe dele, que tinha um andar espaçoso na zona velha da Quinta de S. Vicente.
Os primeiros anos correram bem, tanto quanto podem correr a quem tem ordenados de datilógrafa e de eletricista; valia-lhes não pagarem renda de casa. Depois ela conseguiu entrar para hospedeira de terra, no Aeroporto, e ele para técnico do Rádio Clube, mas, se entrava mais dinheiro, a separação determinada pelos horários ditou um maior afastamento.
Quando o 25 de abril de 74 rebentou com os dias negros da Ditadura, abriu também janelas de esperança a todos os que viviam vidas de cinza. Amélia viveu as euforias das manifestações, das lutas por melhores salários, das liberdades conquistadas. Passou a sair com colegas que, como ela, terminavam o turno à meia-noite, para beber um copo. Era bem mais apetecível do que ir a correr para casa, onde a esperava a sogra controladora. Leonardo fazia geralmente o turno da meia-noite às oito da manhã.
No grupo de quatro ou cinco colegas, rapidamente se aproximou do Paulo, que, além de uma boa figura, tinha carro e era a boleia certa para casa. Por fins de novembro, Amélia passou a ser visita frequente do quarto dele na Calçada de Carriche. Nunca o marido suspeitou, embora a mãe não deixasse de o informar das horas a que ela chegava a casa.
Certa noite, lá por maio, o desejo não pôde esperar por um quarto — amaram-se no banco do pendura do carro de Paulo, numa rua sem casas dos altos do Restelo. De vidros embaciados, uma lanterna acesa tentando descortinar o que se passava lá dentro foi um final desagradável — pós-final, felizmente. Dois polícias de giro identificaram os amantes e aconselharam maior discrição.
No dia seguinte, o alarme: um dos polícias telefonou para casa de Amélia — sabe-se lá com que intuitos lúbricos — e não houve como negar a relação extra-conjugal. Depois de discussões violentas, Amélia saiu de casa. Paulo recolheu-a e durante umas semanas parecia que a situação era o melhor que lhes podia ter acontecido, a não ser…
A não ser pelos meandros escuros da natureza humana. Pareceu a Paulo que a situação de Amélia era de dependência, e tornou-se um pouco sobranceiro. Além disso, a relação perdera aquela fulgurância de chama que só a clandestinidade atiça. Sexo sem ser furtivo perdia parte da graça. E Amélia não deixou de o perceber. Dois meses depois, mudou-se para um quarto que dividia com uma amiga.
Paulo não gostou. Mesmo sem a excitação de coisa proibida, sexo em casa, disponível sem muito trabalho, agradava à sua preguiça inata. Agora voltava a ter de se esforçar — combinar encontros, organizar e acompanhar passeios, fazer trabalho de sedução. E tornou-se altamente ciumento. Quando soube que Amélia tinha saído com um grupo de outro colega, fez uma cena. Mas Amélia tinha crescido, à imagem do país, que estava muito mais aberto e liberal. Já não estava para aturar manápulas de controlo. E rompeu com Paulo.
Ao contrário do homem de ideias arejadas que Paulo parecera ser, revelou-se, afinal, um tipo misógino e vingativo: no auge do ressabiamento, telefonou para o ex-marido de Amélia. Identificou-se, pediu desculpa pelos atos anteriores, declarou-se solidário com a sua situação de marido enganado e pediu solidariedade para a sua similar situação de amante enganado. Por palavras hábeis, demonstrou como ambos tinham sido atirados para a mesma humilhante condição por uma mesma pessoa, uma mulher volúvel, sem caráter. A terminar, indicou pormenorizadamente o local onde ela se encontrava com o novo namorado.
Leonardo, querendo recuperar alguma dignidade que julgava perdida, dispôs-se a mostrar firmeza conjugal. Dirigiu-se ao local indicado e efetivamente apanhou os amantes em flagrante. Uma moca de Rio Maior, que nessa altura era muito popular nas lutas políticas norte-sul, foi a ajudante que convocou para dar o necessário corretivo na ex-mulher. Deixou-a inanimada com escoriações e hematomas nas pernas, nas costas, no peito e um traumatismo craniano. O namorado escapou antes que Leonardo pudesse apanhá-lo.
A Polícia tomou conta da ocorrência e o processo da agressão foi a tribunal em novembro. Depois de ouvir as queixas de uma e as razões de outro, o despacho do juiz foi claro: admoestava-se o ex-marido pela conduta descontrolada, mas tomava-se em conta a humilhação a que tinha sido sujeito. Verberava-se com ênfase a conduta traiçoeira de Amélia, causa primeira das posteriores agressões. Referia-se que, felizmente para ela, já não se apedrejavam adúlteras, como era de lei nos tempos sagrados relatados na Bíblia.
De nada valeu que o advogado de Amélia lembrasse que não era ela que estava a ser julgada, que ela é que fora agredida barbaramente, e que todo o indivíduo tem direito a não ser discriminado perante a Justiça, conforme a Declaração dos Direitos Humanos.
Amélia ouviu uma repreensão verbal por conduta indigna e o ofendido um pedido de comiseração, tendo em conta os tempos desvairados que se atravessavam. Saiu calada. Sentiu-se outra vez género menor. Percebeu que os tempos de liberdade e luz que a sociedade vivia não tinham tocado alguns setores.
Pouco depois, o golpe contra-revolucionário de 25 de novembro de 75 punha um ponto final nas aspirações progressistas pós-ditadura de Salazar. Nada que ainda causasse perplexidade a Amélia. Claramente, o 25 de abril não chegara à Justiça, mas também já não ia chegar. Três meses depois, aceitou a carta de chamada de um primo e mudou-se para o Canadá. De vez.

Joaquim Bispo

Imagem: Jean-Paul Laurens, O Papa e o Inquisidor [Sixto IV e Torquemada], 1882.

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Este conto integra a coletânea “Direitos humanos e minorias” da Revista Gueto, 2º semestre de 2017, edição especial, pp. 64–66.


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4 comentários:

Gostei de ler e realmente a liberdade não chegou (mesmo hoje em dia) às mulheres e não somente em relação a uma igualdade comportamental, mas também em relação ao nível salarial.

realmente Portugal é o País mais INJUSTO da Europa (e com classificação de topo na injustiça mundial) onde o dinheiro compra a Justiça.

veja-se por exemplo o caso Ricardo Salgado, que depois de ter saqueado o dinheiro dos clientes e contribuintes, é recompensado com uma diminuição para 1/3 da sua fiqança e agraciado com uma reforma de 90.000 € mensais mais 13º e 14º mês.

Impressionante não é?

Meu caro Joaquim.
Antes de se transformar em cinzas, nunca devemos esquecer o calor, os calores, dos bons borralhos...
Nem sempre, mas, por vezes, dão nisto.
maneldalcains.

Os meus cumprimentos. Os tempos mudaram, mas muito do que fala ainda subsiste. Os ventos de Abril não conseguiram acabar com certas práticas... Os meus cumprimentos.

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