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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da Dúzia à Graça




Num embaraço entre vida e morte, entre o corte e o saber-se vítima do acidente e de um tempo regressivo, derradeiro, Sidney Sherley atribuiu seu fim ao ato de escrever sobre a própria cabeça – cabeça como parte dele, parte como ele, cabeça enfim rolando no asfalto da estrada. Sabia, conforme narrava a história, que a de Charlotte Corday, decapitada em 1793, avermelhou-se e demonstrou inequívoca expressão de raiva ao ser estapeada pelo carrasco; que as dos ratos geravam atividade elétrico-cerebral relativa à consciência e cognição quando separadas do tronco; sabia, portanto, deste último intervalo, cujos segmentos ele haveria de repartir e usar tal qual um benéfico paradoxo de Zenão.

Surgira o desejo das palavras ao ver-se calvo num reflexo, ao investigar o crânio e suas reentrâncias e saliências, irregularidades, os inúmeros cortes e fissuras; nunca se conhecera assim, detalhado, e ante essa revelação informou-se acerca das ciências relativas à índole dos ossos e expressões, formas, e unindo material e vontade resolveu contar a história da própria cabeça – mas a história dela e só dela, dos detalhes alheios a ele; pois a cabeça era única, e malgrado contesse o cérebro e o princípio de uma união indissolúvel, tinha ela outra vida, exclusiva, cujas singularidades não representavam as características do corpo ou as circunstâncias do passado. Se os postulados da frenologia descreviam vinte e sete órgãos individuais que determinavam a personalidade, Sidney, aprofundando-se em estudos autênticos e apócrifos, logo denunciava muitos outros mais, ocultos pelo querer; registrou ele, no prefácio do livro, como a existência destes juízos fundamentava-se num atributo de omissão e codificação, e sobre como levávamos nos ombros um elemento estranho, rebelde, cujo desmembramento era objetivo almejado, exigindo eventual resolução.

Adquirindo dois ou três craniômetros, objeto semelhante aos antigos globos planetários, com suportes e arcos para medição da latitude e longitude, mapeou canais, pontos e ângulos enquanto lia e relia os tomos de Franz Joseph Gall e Johann Kaspar Lavater, enquanto estudava o saber atual, e todavia cabalístico, da neurologia, concebendo por fim a doutrina da crâniomancia; esta, ao interpretar as suturas superiores e compará-las às constelações, previa o destino e explicava aspectos psicológicos referentes ao indivíduo-alvo. Exceção a ela era a chamada ‘Fossa de Sherley’, um mal consolidado trauma encefálico na testa de Sidney que exigiria o uso de ferramentas inéditas, aptas a mensurar pormenores infinitesimais, de natureza esotérica.

Mesmo sendo homem de vocação numérica, sua prosa era a perfeita manifestação de expectativas artísticas: clara, simples e bela, e rabiscando não se interessava tanto pela constituição da história como pela relação da cabeça com a escrita. O ato de escrever, notou, era o ato de dar vida a essa parte oculta, a essa imaginação além da mente e matéria – e labutando no frio anoitecer do campo, entre sombras e tinteiros, ele afastava-se do momento e a tudo assistia, distante. Durante o trabalho nunca deixara de investigar o próprio rosto, e assim, num dos muitos e habituais exames, constatou a presença de indícios estranhos, suspeitos: as microexpressões da face traíam ironia, revelavam um sarcasmo involuntário – e vingativo.  Voltando ao texto, indagou se a caligrafia e a sintaxe não esconderiam segredos tal qual seu semblante escondeu. Enfrentou, então, espasmos que contraíram os olhos, venceu câimbras invasivas, paralisantes, e examinando o texto nele entreviu sugestões de cortes e separações, libertação. Naquela madrugada a tudo leu, e ao amanhecer, cansado e paranoico, concluiu que a cabeça conspirava contra o tronco, ansiosa por autonomia.

Vestindo-se e saindo, no automóvel, acelerou; iria ao psiquiatra, acabaria com este monstro descoberto e criado, monstro dele mesmo. Abrindo os vidros para aspirar a brisa matinal, os papéis e notas jogados alçaram voo, formando uma nuvem cuja silhueta retratou caveiras e ossos antes de cegá-lo.

Sidney Sherley bateu na traseira de um caminhão. 

Decapitado, e consciente, testemunhando as pedras do asfalto calçarem o fim, sabia ele de seus segundos finais, de seu erro, e sabia, também, que esse momento fora concebido pela cabeça – ou, se não, sua vida fora uma ironia sem pé e sem ela.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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