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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Amigos


Foi ao jantar, em casa da minha irmã, na Beira, que o assunto da amizade foi levantado.
Pai, o Bruno quer que eu lhe empreste o street-skate — lançou o meu sobrinho Sérgio, logo no princípio do creme de ervilhas.
Porquê? Ele não tem? — retorquiu o meu cunhado, meio desinteressado.
Só tem um dos básicos. Mas, como vai passar o fim de semana a Lisboa, quer ir ao passeio do Parque das Nações com uma máquina a sério.
E então, emprestas?
Achas? Só entrou na escola o mês passado. Eu sei lá se ele mo perde ou o estraga? — argumentava o meu sobrinho, para encobrir o egoísmo dos seus 13 anos.
Isso é que não pode ser — devolveu o pai. — Se estraga, tem de pagar. Ou comprar novo. Fora isso… Porque é que só entrou agora?
O pai veio trabalhar para cá. Acho que é técnico de máquinas na fábrica.
E esse Bruno já te emprestou alguma coisa? Ou é daqueles que só pede, mas nunca empresta? — tentava o pai avaliar o amigo do filho pelo critério da reciprocidade.
Ele é um egoísta; está sempre a dar desculpas. Só me emprestou três jogos para a playstation. E foi porque eu lhe pedi muito.
Mas, vocês não são amigos?
Sim — concedia Sérgio, a contragosto. — Mas eu mal o conheço…
Foi nesse ponto da conversa que eu intervim, aproveitando os momentos antes do prato principal.
A questão da amizade, e de como lidamos com ela, é das mais importantes, sobretudo para quem está a crescer, porque pode moldar toda a futura maneira de estar na vida. A História e a Literatura têm-nos fornecido inúmeros exemplos de amizades, desde Os 3 mosqueteiros, em que há um companheirismo igualitário, à amizade, digamos, assimétrica de D. Quixote e Sancho Pança.
Lá vem o momento Acontece — ironizou a minha irmã, referindo-se ao extinto programa cultural da televisão.
Na verdade — continuei eu, ignorando acintosamente a provocação —, confunde-se frequentemente amizade com coleguismo. No coleguismo, há apenas confluência de interesses.
Então, e na amizade, não há interesse? — avançou o meu cunhado, fisgado no interesse, mas no interesse na conversa.
A amizade é algo bem mais desinteressado. Pode mesmo dizer-se que o interesse está afastado da relação de amizade. É uma afeição desinteressada, até altruísta, alicerçada na longa convivência anterior, na qual todas as provas de lealdade e honestidade foram superadas. A partilha é então praticada naturalmente, sem esperar contrapartidas. Vou contar-vos o que me aconteceu em 1976, quando fui às vindimas a França.
Imediatamente, cessaram as perguntas e a atenção redobrou. Histórias antigas eram o gáudio do meu sobrinho, e até a restante família não as desdenhava.
Eu não ia bem às vindimas; ia a caminho de Inglaterra, zangado com o nosso país, mas aproveitei para fazer o caminho à boleia pelo sul de Espanha. Demorei quase um mês a chegar a França e quando lá cheguei estava com pouco dinheiro. Então, parei duas semanas numa quinta acima de Bordéus para me reabastecer de algum dinheiro.

«Na altura, ganhei uns 400 e tal francos.» — Algumas lembranças pediam passagem, mas nem todas encaixavam na coesão da narrativa.

Chateado com o frio que o início de outubro trazia e eu não previra, em vez de progredir, resolvi voltar. E, como antes, aconteceram-me as peripécias mais bizarras.

«Estive mais de duas horas à espera por uma ligação telefónica para Portugal.»

Entretanto, os anfitriões apresentavam um bacalhau com batata doce que devia estar suculento. O meu sobrinho, esse já estava preso à história.
A questão é que eu, para não gastar dinheiro desnecessariamente, continuei à boleia. Fartava-me de andar a pé, e aceitava todo o tipo de transporte. Antes de Bordéus aceitei boleia de uma ambulância, que entrou numa via rápida, mas logo a seguir ficou sem gasolina. O enfermeiro, em vez de me deixar ali, vestiu-me uma bata e fomos ambos à boleia buscar gasolina. Simpático, não?

«Para sair de Bordéus, andei 14 quilómetros a pé.»

Ainda nesse fim de tarde, a começar a chover, e sem encontrar dormida a preços aceitáveis, o que me valeu foi um empregado português de um hotel, que me cedeu, de graça, o modesto quarto dele, porque nessa noite não dormia lá. Estão a ver o que é solidariedade, ajuda desinteressada?
Sem te conhecer, tio? Fogo!
Lá fora, um compatriota é um meio amigo. No dia seguinte, ia eu caminhando pela berma da estrada, no meio de uma paisagem deslumbrante de verde, quando vi que outro caminhante se aproximava. Era outro português que vinha das vindimas. Chamava-se Zé Duarte e era um tipo surpreendente. De 26 anos e cabelo comprido, muito alegre, disse que tinha andado quinze dias à procura de vindimas, sem êxito, e tinha gasto a “massa” toda.

«Logo aí, desconfiei que podia ser mentira, talvez com medo que eu o “cravasse”.»

Disse que tinha 6 passaportes conseguidos quando se lhe acabava a “massa”. Ia aos consulados portugueses, dizendo que fora roubado, e aí pagavam-lhe a viagem de regresso, davam-lhe dinheiro para comida — 200 ou 300 francos — e novo passaporte. Partilhei logo com ele uns “comes” e cigarros. Nada de mais, se pensarmos que éramos ambos portugueses e jovens e estávamos na difícil condição de “penduras”.

«Nada de mais, realmente. Mas se ele me tivesse pedido dinheiro? Hum, não sei, não!»

Nessa noite, depois de algumas boleias, ora separados ora juntos — numa delas, fui eu que intercedi por ele, que ia na estrada depois de uma boleia —, alugámos um quarto baratinho com cama de casal e lá jantámos também uns “comes” que comprámos.
Assim, sem o conheceres, tio? — estranhou o meu sobrinho.
Pois, arrisquei, mas confiei no bom tipo que parecia ser. Aliás, eu é que pressionei, porque ele queria dormir numa gare ou num prédio em construção, como tinha feito nos últimos dias. Disse que só tinha 100 francos.

«Arrisquei, reconheço! Devo ter confiado no esconderijo em que tinha o grosso do dinheiro — um bolso falso de umas calças que iam no fundo da mochila.»

Deixa lá agora a história, senão não comes nada — ralhou a minha irmã. Realmente, quase todos estavam a acabar e eu a meio do bacalhau.
Desculpa; está ótimo. A batata doce dá-lhe um toque exótico — redimi-me.
Concentrei-me na tarefa degustativa, enquanto os restantes faziam alguns comentários, realçando a imprudência de me relacionar tão proximamente com um desconhecido, ainda por cima com indícios preocupantes. A minha cabeça, entretanto, debitava lembranças.

«Era possível dormir por 60 escudos em Portugal, 100 pesetas em Espanha e 12 francos em França. A peseta estava a cerca de 50 centavos e o franco a cerca de 8 escudos. Muitos bancos espanhóis e franceses não aceitavam escudos, devido à proximidade temporal da revolução portuguesa. Só se podia sair do país com um máximo de 7500 escudos. Nas fronteiras havia que passar por uma alfândega e por um controlo de polícia.»

Quando atacámos o queijo de pasta mole, continuei.
No dia seguinte, a partir de Bayonne esteve sempre a chover. Resignámo-nos a apanhar um autocarro e depois o comboio para Hendaye e dali para Vitória, já em Espanha, tentando esgotar os últimos trocos franceses. O tempo das moedas nacionais tinha destas bizarrias. Em Hendaye, o nosso grupo cresceu: um casalito francês pediu-nos ajuda para passar a fronteira, porque não tinha passaporte.

«Ele talvez tivesse, mas era um menor de 17 anos. Ela nem idade, nem papéis. Ambos a fugir aos pais.»

Em Irun — a fronteira espanhola — o Zé disse-lhes para seguirem ao longo da gare e da linha e saltarem o muro, para não passarem na alfândega. Pouco depois, apareceram do outro lado da estação, já na parte espanhola, mas ainda cheios de medo.
Andavas metido com boa gente... — ironizou o meu cunhado.
Quando se passa por situações precárias, está-se mais disponível para ajudar outros em situações semelhantes. Esse foi um dos meus dias mais longos. Começámos por esperar 3 horas pelo comboio. Eu distribuí os meus “comes” e fomos os 4 até Vitória.

«O Zé tinha “erva” e o francês mostrou-se interessado em comprar. Foram ambos fumar um “charro”. Voltaram eufóricos.»

O Zé todo o caminho cantou todas as canções e mais uma, desde revolucionárias portuguesas, algumas da autoria dele, até egípcias, brasileiras e chilenas. Não se calou durante o tempo todo, enquanto os franceses e 4 espanhóis que iam no mesmo compartimento, vindos das vindimas, adormeceram. Em Vitória, à uma da manhã, todos os hotéis estavam cheios — disseram-nos — e os que tentámos estavam fechados.

«Não podíamos ir para a gare, por causa da miúda que tinha medo de ser apanhada pelos “flics”.»

O Zé sugeriu dormir debaixo de um viaduto, eu alvitrei ir andando até amanhecer, mas chovia um pouco e acabámos por entrar na porta de um prédio e dormimos na entrada: eles metidos nos sacos de dormir, ela sentada num saco e encostada a outro e eu sentado num degrau e reclinado sobre a mochila, e depois deitado em cima de um tapete de arame.

«O francês pagou por “erva”, que daria para fazer talvez uns dois cigarros, 400 pesetas, contadas ali na obscuridade e no silêncio imposto de uma entrada de residências.»

O frio não foi nada meigo. Posso garantir-vos que é das piores maneiras de passar uma noite.
Então, e a solidariedade e a amizade que tens estado a apregoar? — voltava ao ataque o meu cunhado. — Eles no saquinho e tu ao frio!
Estávamos todos irmanados no sacrifício e continuávamos juntos, que era o principal. Não havia era sacos para todos… — tentei eu a justificativa pelo circunstancial.
E depois, tio?
De manhã, nada se via ainda e já havia muitas pessoas a passar na rua. Alguém começou a descer as escadas do prédio onde estávamos e eis-nos a levantar de um salto, a arrumar as coisas e a “cavar” porta fora. A rapidez não foi suficiente porque o fulano que desceu viu bem que tínhamos saído do prédio e que tínhamos ar de ter estado por ali “acampados”. Os outros voltaram a deitar-se. Eu apenas me sentei — o frio era muito e eu ansiava pelo dia. Outros moradores desceram, mas dessas vezes sem reação da nossa parte. Daí a bocado, fomos para a estrada e separámo-nos. Nunca mais vi os jovens franceses.
E o outro gandulo? — mais uma “farpa” do meu cunhado.
Até Burgos, ora intercedia eu por ele, ora ele por mim. O pior é que caía uma chuva gelada, de que nem a toalha que pus pela cabeça protegia. Na última boleia, no quentinho do carro e com a noite mal dormida, o sono atacou-me bem. Em Burgos, fui trocar 1000 escudos por pesetas e nem me despedi do Zé, pensando que voltaria a encontrá-lo mais tarde, mas não.

«Estava cansado, chateado com o frio e talvez temesse que o dinheiro do Zé acabasse e ele se “pendurasse” em mim. Pequenices pessoais que mesmo aquela tão especial viagem ainda não conseguira apagar.»

Nunca mais o vi. Como gostava de o reencontrar para reavivar estas memórias! Daí para a frente, talvez pela falta do otimismo do Zé, talvez pelo frio, não aguentei muito. Vesti mais uma camisa — o que perfazia uma camisola interior, duas camisas, uma camisola de gola alta e um casaco de malha —, mas apesar de me abrigar atrás de uma árvore, o frio entrava-me por todos os lados. Fui tomar um café à gare dos comboios e lá fiquei a cabecear com os cotovelos apoiados numa mesa. Depois, comprei bilhete para Portugal. Que se lixasse a sovinice. E a boleia e Espanha e mais o frio. Estava “pelos cabelos”. Às 11 da noite estava na Guarda.
Ó Mário — chateou-se a minha irmã — achas que isso são histórias edificantes para o Sérgio? Andar feito vagabundo, a acamaradar com tipos sem eira nem beira?

«E não ouviste tu o que eu pensei entre aspas!»

Se calhar, afastei-me do assunto principal. O que eu queria mostrar é que podemos ajudar alguém, ser solidários e amigos, mesmo que não conheçamos bem esse alguém. Há sempre uma incerteza no primeiro contacto. O reverso é: como podemos ser generosos e magnânimos, sem nos arriscarmos a ser usados e abusados? O que achas, Sérgio?
Sim, vou emprestar o street-skate ao Bruno. Já antes me tinha decidido. Mas se ele mo estragar, nunca mais lhe empresto nada.
O licor de ameixa após o café soube-me maravilhosamente.

Joaquim Bispo

Imagem: Joan Miró, O pássaro de plumagem levantada voa para a árvore prateada, 1953

* * *





segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da Dúzia à Graça




Num embaraço entre vida e morte, entre o corte e o saber-se vítima do acidente e de um tempo regressivo, derradeiro, Sidney Sherley atribuiu seu fim ao ato de escrever sobre a própria cabeça – cabeça como parte dele, parte como ele, cabeça enfim rolando no asfalto da estrada. Sabia, conforme narrava a história, que a de Charlotte Corday, decapitada em 1793, avermelhou-se e demonstrou inequívoca expressão de raiva ao ser estapeada pelo carrasco; que as dos ratos geravam atividade elétrico-cerebral relativa à consciência e cognição quando separadas do tronco; sabia, portanto, deste último intervalo, cujos segmentos ele haveria de repartir e usar tal qual um benéfico paradoxo de Zenão.

Surgira o desejo das palavras ao ver-se calvo num reflexo, ao investigar o crânio e suas reentrâncias e saliências, irregularidades, os inúmeros cortes e fissuras; nunca se conhecera assim, detalhado, e ante essa revelação informou-se acerca das ciências relativas à índole dos ossos e expressões, formas, e unindo material e vontade resolveu contar a história da própria cabeça – mas a história dela e só dela, dos detalhes alheios a ele; pois a cabeça era única, e malgrado contesse o cérebro e o princípio de uma união indissolúvel, tinha ela outra vida, exclusiva, cujas singularidades não representavam as características do corpo ou as circunstâncias do passado. Se os postulados da frenologia descreviam vinte e sete órgãos individuais que determinavam a personalidade, Sidney, aprofundando-se em estudos autênticos e apócrifos, logo denunciava muitos outros mais, ocultos pelo querer; registrou ele, no prefácio do livro, como a existência destes juízos fundamentava-se num atributo de omissão e codificação, e sobre como levávamos nos ombros um elemento estranho, rebelde, cujo desmembramento era objetivo almejado, exigindo eventual resolução.

Adquirindo dois ou três craniômetros, objeto semelhante aos antigos globos planetários, com suportes e arcos para medição da latitude e longitude, mapeou canais, pontos e ângulos enquanto lia e relia os tomos de Franz Joseph Gall e Johann Kaspar Lavater, enquanto estudava o saber atual, e todavia cabalístico, da neurologia, concebendo por fim a doutrina da crâniomancia; esta, ao interpretar as suturas superiores e compará-las às constelações, previa o destino e explicava aspectos psicológicos referentes ao indivíduo-alvo. Exceção a ela era a chamada ‘Fossa de Sherley’, um mal consolidado trauma encefálico na testa de Sidney que exigiria o uso de ferramentas inéditas, aptas a mensurar pormenores infinitesimais, de natureza esotérica.

Mesmo sendo homem de vocação numérica, sua prosa era a perfeita manifestação de expectativas artísticas: clara, simples e bela, e rabiscando não se interessava tanto pela constituição da história como pela relação da cabeça com a escrita. O ato de escrever, notou, era o ato de dar vida a essa parte oculta, a essa imaginação além da mente e matéria – e labutando no frio anoitecer do campo, entre sombras e tinteiros, ele afastava-se do momento e a tudo assistia, distante. Durante o trabalho nunca deixara de investigar o próprio rosto, e assim, num dos muitos e habituais exames, constatou a presença de indícios estranhos, suspeitos: as microexpressões da face traíam ironia, revelavam um sarcasmo involuntário – e vingativo.  Voltando ao texto, indagou se a caligrafia e a sintaxe não esconderiam segredos tal qual seu semblante escondeu. Enfrentou, então, espasmos que contraíram os olhos, venceu câimbras invasivas, paralisantes, e examinando o texto nele entreviu sugestões de cortes e separações, libertação. Naquela madrugada a tudo leu, e ao amanhecer, cansado e paranoico, concluiu que a cabeça conspirava contra o tronco, ansiosa por autonomia.

Vestindo-se e saindo, no automóvel, acelerou; iria ao psiquiatra, acabaria com este monstro descoberto e criado, monstro dele mesmo. Abrindo os vidros para aspirar a brisa matinal, os papéis e notas jogados alçaram voo, formando uma nuvem cuja silhueta retratou caveiras e ossos antes de cegá-lo.

Sidney Sherley bateu na traseira de um caminhão. 

Decapitado, e consciente, testemunhando as pedras do asfalto calçarem o fim, sabia ele de seus segundos finais, de seu erro, e sabia, também, que esse momento fora concebido pela cabeça – ou, se não, sua vida fora uma ironia sem pé e sem ela.





sábado, 20 de janeiro de 2018

A menina que tinha pena de cotonete


Você pode me achar maluca, mas tenho dó de cotonetes. Se há alguma explicação, explico.

Sou neta única de um casal de avós daqueles que só existem em histórias fofinhas.
Ele Romualdo, ela, Lurdinha. Passei parte da minha infância e atravessei da adolescência
à vida adulta aproveitando as férias num sítio nos arredores de São João del Rey,
onde moravam.

Vovô era um velho comprido, espigado, magrinho, cuja cabeça farta de cabelos branquinhos
me intrigava por não ter ficado careca, como os avós fofinhos das histórias fofinhas.
Caladão, discreto, esguio, elegante. O tempo não foi lhe curvando, porém encolhendo
a barriga presa a um cinto quatro dedos acima do umbigo, que sustentava uma calça larga
de pregas até os chinelos que aconchegavam meias azuis.

Meu avô só usava azul. Calça, camisa, meias, casaco, pijamas, talvez cuecas samba-canção.
Só azul, tudo azul. Dos pés à cabeça branquinha.  Cruzeirense, a mania da cor era resultado
de uma promessa de jamais mudar a indumentária absolutamente celeste quando o Cruzeiro de
Tostão dilacerou de 6 o Santos de Pelé. Eu não era nascida, mas lembro detalhes do jogo
através da suas palavras e lágrimas.

Lurdinha era o contrário. Espevitada e boquirrota, tinha a língua nos cotovelos.
A diferença de personalidade entre os dois era na falação, pois o corpo, a cabecinha de
densos cabelos brancos e a finura alta eram as mesmas. Apaixonada pelo marido, embarcou
na tal promessa e até camisola, os vestidos, os casacos de tricô, as saias longas e o
avental de cozinha também eram azuis.

Há lendas que se contam dos dois. Quando a vitoriosa FEB desembarcou na Capital Federal
em garboso desfile militar, estavam eles no Rio, na certa para homenagear alguns
conterrâneos de São João del Rey, uma das cidades que mais mandaram soldados para a Itália.
No meio da multidão, surge engalanado sobre um jipão o bravo General Zenóbio da Costa,
comandante da Infantaria da Força Expedicionária, celebridade nos jornais e revistas
ufanistas da época. Lurdinha não se conteve ao reconhecer um famoso, esgarçou o cordão de isolamento e explodiu em gritos esganiçados.

- Zenóbio!!! Zenóbio!!! Zenóbio!!!! 

A voz era tão aguda e aflautada que abafou os rufares da banda marcial. Os cavalos da guarda
do general se assustaram, um Dragão da Independência caiu de um tordilho empinado e meu
avô imediatamente tratou de sumir com Lurdinha pelo povo, enfiando-se no primeiro bonde
que encontrou. Diz se deste episódio, que ao chegar na casa de parentes no Engelho Velho,
naquela noite a cobra fumou.

- Onde já se viu, Lurdinha! Um chilique de macaca de auditório! Em pleno desfile de heróis!

Certa vez, viajavam de ônibus de São João para Belo Horizonte, quando Lurdinha engrenou
a conversa sobre uma comadre que estava sendo traída pelo marido. Empolgou-se na prosa,
a ponto de falar mais alto que o coveniente, não só incomodando os passageiros, como também
- e principalmente - o discreto marido. E detalhou o ponto mais alto da carraspana da
comadre ao traidor em altos decibéis.

- Patife! Miserável! Cafajeste! 

Para deixar bem claro que Lurdinha não estava lhe passando uma descompostura em público,
Romualdo elevou a voz, num tom acima do dela.

- Mas que coisa! Sempre achei o Juvenal um patife, miserável, cafajeste! 

Histórias como as de Romualdo e Lurdinha transbordam. Cada um deve ter algumas para contar e
eternizar, mesmo sem ter presenciado. Passam de gerações a gerações como verdades que poderiam
ser, mas na certa, de tanto se contar, verdades sempre serão.

Mas uma delas eu vivi diante do meu nariz. Estava de namorado novo, quando fomos viajar pelas
Minas Gerais. No trajeto, um pernoite no sítio dos avós em São João Del Rey.  Romualdo e
Lurdinha nos receberam com a fidalguia de sempre, uma mesa típica das delicias de Minas e
uma gentileza inusitada, avançada para a época, ao arrumar o quarto de casal para a neta e
seu namorado.

No jantar, deu-se o ápice da viagem inteira.

- Menina, você quer saber de uma coisa? 
- O quê, vó? 
- Seu avô está com herpes. 

Silêncio. Colheres de bambá de couve rasgada paralisaram na beira de bocas semi abertas.

- No pau, minha filha. 

Meu avô, bicou sua cachacinha, girou a língua pelos lábios, desviou o olhar da mesa para a
lua que ensaiava sair de trás dos morros de Minas e entrar pelo avarandado. Vovó trovejou.

- Não pegou essa doença comigo! Há mais de 20 anos não há sexo nessa casa!  

Meu namorado se aproximou de mim em cochichos. 

- É genético? 
- O quê? Herpes? 
- Não, a língua solta. 

Claro que houve gargalhadas gerais e meu esguio e discreto avô, esguio e discreto
permaneceu, saboreando sua pinguinha mineira.

Foi a última vez que os encontrei juntos. Vó Lurdinha teve um mal súbito e Vô Romualdo
não entendeu porque ela estava demorando em ir para a cama dormir. Arrastou seus chinelos
com meias azuis até a sala e a viu sentada na poltrona, televisão ligada já fazendo chiado,
novelo de tricô caído pelo chão. Deste dia em diante, ele nunca mais falou. Nem uma palavra.
Nem queria saber de jogo do Cruzeiro. Permaneceu mudo perambulando pela casa por mais três meses, até que vestiu seu pijama azul, encostou a cabecinha branca no travesseiro, fechou os
olhos e resolveu encontrá-la para sempre. Tinham 99 anos ele, 95 anos ela.

Hoje, toda vez que uso cotonete, fico comovida, lembro de Vó Lurdinha e Vô Romualdo.
Não posso pegar um só e separá-lo dos outros. Dá peninha. Dá tanta saudade que sempre
pego dois.  Olho para eles juntinhos por um instante eterno, as memórias brotam. Suspiro fundo,
vida que segue. Seco os ouvidos, as dobras das orelhas, embrulho num papel e coloco os
dois na lixeirinha. Um do lado do outro. Dois. Como creio que deve ser o número
da felicidade.





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

o mundo acaba no quadril - Poema de Nil Kremer








 o mundo acaba no quadril
  no íngreme trajeto até os ouvidos
   nos olhos acaba o mundo
    guardião do indizível
     sob as expressivas sobrancelhas
      na glote contraída acaba o mundo
       pigmeu que regurgita atrocidade
        na sobriedade em demasia
         na vaidade prostrada
          na cama desarrumada o mundo acaba
           na piada mal contada
            nas vértebras ignoradas
             no redemoinho dos teus cabelos o mundo acaba
              na conivência de amores tracejados
               rascunhos e estragos da boca de lobo
                no volúvel
                 no contraditório
                 o mundo, este invólucro reutilizado
                acaba no pecado mal consumado
               na rasura sobressalente
             no semáforo inerte
           na conversão pós delito
         na negligência da faixa amarela
       na quirela dada aos porcos
     o mundo acaba
   pra renascer na massa de modelar
 e desaguar no rosto
feito pinta próximo aos lábios









terça-feira, 2 de janeiro de 2018

HOMEOPATIA - parte III







Carnaval

Surdos, pandeiros e tamborins ecoavam naquele desfile. Mas ele só tinha olhos – e ouvidos – para uma das passistas daquela ala.


Talismã

O caminhão derrapou no trevo da estrada. Um amuleto, um pingente de quatro folhas, pendia ironicamente do retrovisor.


Orgulho

Só havia uma coisa que o Dr. Coelho, renomado cirurgião, se recusava a operar: lábio leporino. Questão de autoestima.