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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os vivos - poema de Maurício Fronzaglia




Os vivos



Os mortos se reconhecem
amam-se
multiplicam-se
invadem
espalham-se
dominam.


Esparramam
ávidos sorrisos
submersos no asfalto.


Do Livro Demônios Azuis, 2010.


















domingo, 16 de setembro de 2018

Em nome


Foi pelo sangue de Cristo. Pelo sangue de Cristo que o sangue dela escorreu. Eles disseram. Em nome do Senhor Jesus! Eles gritaram. Antes de entrar. E ela achou bonito. E respondeu Aruê! Mas eles não ouviram. Eles não queriam ouvir. Mugindo em rebanho de fúria. E falavam numa língua estranha que não vinha do Espírito. Sobre demônios e abominações. Mas Legião eram eles. E repetiam e repetiam e repetiam. Está amarrado em nome de Jesus! A cada altar quebrado. A cada estátua estilhaçada. A cada flor pisada. A cada soco e pontapé que deram na menina mais linda do terreiro. A filha mais querida de Ogum. Mas foi em nome de Jesus. Cada rasgão no seu vestido branco novo. O vestido que a madrinha fez pra ela. Branco como o ojá arrancado da sua cabeça. Em nome de Jesus. As contas arrebentadas da guia azul e branca de Ogum explodindo no chão do terreiro. As pulseiras rapinadas por garras de harpias. Em nome de Jesus. Em nome de Jesus, a cabeça do babalorixá rachada contra a parede. Vermelhos. A parede. A cabeça. O vestido. E os gritos pingando. Encharcados de Jesus. Submissão. Dominação. 
Foi assim que eles chegaram. Porrada e benção. Belzebus procurando por si mesmos em estátuas e flores e altares. Arrastando pelos cabelos fartos a menina do vestido branco-encarnado. Pela rua. Pelas calçadas de cuspes. Pela Via Dolorosa dos olhares estáticos.
A menina mais amada de Ogum. Sangue e vergonha. Sacrifício cruento. Amarrada em nome de Jesus. Do Jesus que quebra e arrebenta. Imagem e semelhança dos homens. 











segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Sitiada


As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo

A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios

- o inverno encerrou a trégua -

E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência

Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência






sábado, 25 de agosto de 2018

A extinção do Português



Há tempos tive a visão clara da extinção do Português. Um grupo de brasileiros, provavelmente recém-chegado, tentava fazer-se compreender num restaurante de Lisboa. E entender o empregado. Um deles acabou por exclamar: — Não entendi porra nenhuma!
Estará o Português em perigo? A incomunicabilidade entre versões de uma língua é um forte sinal de alarme. Uma língua tem um comportamento semelhante a uma espécie viva: evolui a partir de uma antepassada, ganha massa crítica de indivíduos, autonomiza-se, cria rebentos semelhantes, pode expandir-se, pode ficar isolada, definhar e morrer.
Hoje, existem cerca de seis mil línguas, fora os dialetos, mas todos os anos desaparecem dez, em média. Com elas perdem-se os tesouros culturais que veiculavam. E, tal como as espécies, uma língua, uma vez extinta, não reaparece mais. O limite da sobrevivência situa-se por volta dos cem mil falantes. Na história humana terão já desaparecido mais de vinte mil línguas. Algumas, pelo contrário, sobrevivem há mais de dois mil anos. O segredo do sucesso parece ser o grande número de falantes. Como o número de indivíduos nas espécies, o número de indivíduos que usa uma língua assegura-lhe a continuidade.
Neste ponto, o Português, com os seus 250 milhões de falantes, tem boas condições de sobrevivência e até de expansão. Só o Brasil tem quase 210 milhões. Outros milhões são falantes em grandes países africanos com excelente potencial de crescimento. É uma das nove línguas que, só elas, congregam metade da população mundial. É como uma espécie endémica; o seu êxito é inquestionável. Evoluiu do latim, a partir do regionalismo galaico-duriense, e conseguiu constituir-se como língua autónoma, apesar do convívio contagioso com o castelhano. Mas estes 250 milhões ainda falam uma só língua?
As virtualidades que lhe deram nascimento podem ser também as que a ameaçam. Como os tentilhões de Darwin, cujas populações insulares evoluíram de maneira díspar devido ao isolamento forçado, as diversas populações de falantes do Português, separadas por oceanos e sujeitas à deriva linguística, vão desenvolvendo línguas-filhas, afastadas da origem e entre si. O próprio território imenso do Brasil, com as suas inúmeras paisagens humanas, tem produzido e alimentado muitas, nas suas versões orais. Que vão contaminando a escrita.
Neste aspeto, os acordos ortográficos são, para a unidade da língua, como as seleções de cruzamentos e de ninhadas são para os criadores de animais domésticos: fortalecem, artificialmente, as características de resistência desejadas. Parece, no entanto, que, mais do que acordos, o que fortalece a unidade de uma língua é que os seus falantes, por mais dispersos e distantes que se encontrem, a usem, a oiçam, a leiam numa versão comum que, não sendo homogénea, seja sentida como familiar, como os diversos timbres e modas vocais entre os membros de uma família são entendidos como familiares, e não língua estranha.
Outra estratégia de preservação e expansão é a disseminação. Enquanto as plantas desenvolveram estratégias de dispersão de esporos e sementes, faixas das populações que falam o Português, devido ao fado secular da pobreza, têm sido obrigadas a emigrar, levando consigo a semente linguística. Esta estratégia, embora tenha criado, ao longo dos séculos, bolsas de falantes da língua de Camões, parece ter como resultado não mais do que um enquistamento das primeiras gerações, e uma permanência linguística forçada pela tradição, entre gentes remotas. A imigração, pelo contrário, tem criado populações que se veem contaminadas pela língua de acolhimento.
No económico reside uma grande parte do poder de uma língua no confronto com outras. O sucesso do Inglês reside muito na racionalidade e na simplicidade gramatical dessa língua e na brevidade da maior parte das suas palavras, mas assenta sobretudo no poder económico dos países que a usam. Esse poder impõe-na nos fóruns internacionais, nas agências de notícias e no entretenimento. Há miúdos, pelo mundo fora, a entender o Inglês desde os três ou quatro anos. O cinema introduz anglicismos na linguagem de todos. O Inglês é um macho alfa em exercício. O Mandarim será outro, em breve. Podem usar-se poucas estratégias em presença de um macho dominante. Lutar é uma, mas costuma dar mau resultado; fugir é outra, mas não conduz à procriação. Usar as capacidades intelectuais para superar o adversário, imediatamente ou a prazo, é o que consegue levar os genes a bom porto.
Na seleção natural não há só competição; as simbioses e outras formas de cooperação são modos de organização que podem desencadear os resultados desejados. Por exemplo, conseguir que outros países tratem o Português como segunda língua, e vice-versa, é uma estratégia de cooperação que pode produzir bons frutos.
A força do audiovisual é enorme, chega a públicos imensos. Trocar telenovelas, filmes e outros programas entre espaços do Português permite tomar contacto com outros sotaques e, na prática, homogeneizar a língua. Tornar aliciante e saborosa a palavra de uns perante os outros é uma boa estratégia de sedução de falantes. São “contaminações” positivas, que alargam e tornam coeso o grupo.
De importância menor, mas não negligenciável, está a palavra escrita. Uma literatura pujante em Português, rica em vocabulário e em sonoridades subjacentes, seria a cereja em cima do bolo linguístico. Para que esta bela espécie não se extinga.

Joaquim Bispo
*
Esta crónica foi uma das dez finalistas, na sua categoria, do Concurso Literário de 2018 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, Leopoldina, Minas Gerais, Brasil.

*
Imagem: Carlos Alberto Santos, Camões [um dos 124 cromos, a partir de guaches, desta coleção], 4ª edição, [Lisboa], Agência Portuguesa de Revistas, 1966. 


* * *





segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O FILHO DO SURDO

Nem o mais puro dos crendeiros poderia perceber que os raios que cruzaram os céus
da floresta significavam algo além de chuva próspera. Raios severos era desgrama,
rezava o senso comum e as matildes maldosas do fim de mundo nos cafundós daquele
pontinho insignificante onde sei lá nem sei. Chuva boa é o que não era.
Diziam que o diabo estava mandando mensagem.

– Maricota pariu um padre!

Gritos foram ouvidos entre trovões e peidos de horror. De fato, uma mulher se
estrebuchava de dor nos quartos, quando se deram os primeiros, segundos e terceiros
trovões de nuvens nenhumas sobre aquela insignificância de vida terrena. Ao quarto
trovão, que clareou o céu noturno, que fez desaparecer a lua e seus luares, que fez
a terra tremer, que fez espocar onda de três metros nas margens plácidas do rio largo,
afluentes e igarapés, que dizimou bichos maus nadadores, que confessou-se o inconfessável
pela iminência do Juízo Final, pariu-se a desgraça em forma de gente e choro, que fez
a parideira falecer no ato e o chão de terra e folha molhada receber de súbito carne
viva e gosmenta, onde lá ficou a berrar, até que um surdo caboclo errante viesse a perceber
que era hora de acudir um inocente.

E assim conta-se sobre o momento em que, enjeitado desde a prenhez, que depois por
circunstâncias do destino comandado por almas incautas, um anjo caído veio ao mundo.
Pois fora um ribeirinho surdo de nascença, que nada ouvia, portanto nada falava, quem
acolheu a posta de carne e berro, enterrou a parideira do jeito que pôde ali mesmo e
seguiu com o menino mata adentro, à procura de quem lhe desse guarida nessa vida de
nada a oferecer. Andou a esmo pela floresta já densa pelos caprichos geográficos,
foi dar com os costados numa aldeia, protegida por cercas vivas de vegetação hostil,
mas com um buraquinho entre galhos e espinhos, capaz de servir de passagem estreita
a um surdo e seu pedaço de ser, até encontrar uma mulher indígena de descendência goyá,
que disse em seu falar esquisito algo que o surdo entendeu, mais ou menos assim:

– Fala, homem. O que traz entre os trapos?

Nada de fala de volta. Talvez um grunhido ao erguer do recém-nascido, acompanhado de uma
expressão que valia mais que mil palavras.

 – Entendi, foi o que supostamente apreendera o surdo do som que se espargiu entre
aqueles beiços cor de urucum.

O surdo também fez que entendeu e levantou os braços, entregando sua oferenda aos desígnios
dos bons deuses daquela gente. Recebeu em troca um colar de dente de jacaré. O que seria
uma das esposas de um murumuxaua de uma suposta tribo extinta pegou nos braços a encomenda
considerada divina, acolheu em seu colo e deu as costas ao surdo, que baixou a cabeça,
fez sinal da cruz, deu meia-volta e sumiu no breu. Mal sabia a silvícola o que portava
nas suas mãos.

O menino ganhou acolhimento numa aldeia de Goyazes primitivos e denominação Membira Capanós, como se filho do surdo fosse. Mas o início da convivência foi tenso. Como a índia apresentou o achado, pensou-se que fosse caça. E decidiram assá-lo. Mas a sabedoria do pajé goyá cuidou de desfazer a intenção.

– Não se come caça filhote, disse ele em seu dialeto. Há que se engordarem suas carnes e tripas,
até que todos possam repartir a refeição mais robusta com justeza, concluiu com a hierarquia
que o tempo havia lhe conferido.





sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Deslocamento Terrestre - I








                Decidi que jamais deixaria vazio meu bilhete de ônibus. Nunca menos que uma passagem, para sempre chegar em casa, ou o mais próximo possível. Um último recurso. Ao virar a chave da porta, tomo banho, como, descanso. Não demoro em repor esse valor. Sempre terei como voltar, não importa aonde vá. Sempre terei como voltar.

















quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Sombras de carne


Lola limpou a boca no lençol, pouco se importando com o olhar magoado do rapaz ao seu lado. Aqueles encontros estavam começando a irritá-la. Rodrigo aparecia mais de uma vez por semana no Mercado Municipal, com um jeito desamparado de cachorro com fome, e ela acabava por ser deixar vencer pela piedade. Os olhos... Eram os olhos de Rodrigo que atraíam, prendiam. Não a boca, nem os gestos que não passavam de uma mão trêmula e gelada, e de um único grito abafado na hora do gozo. Seus olhos, no entanto, cuspiam sofrimento, escondiam algum segredo.
Havia entre os dois um comércio. Nada mais. Lola não gostava da demora do rapaz, do tempo arrastado que levava para gozar. Uma coisa tão simples essa de trepar, mas Rodrigo insistia em fazer de cada vez um ritual de afeto, como se estivessem num encontro. Ela já estivera com outros da idade dele, outros que se apaixonaram pelos seus seios e pelo seu sexo sem pelos, que a tocaram como gatos nervosos, desajeitados, arranhando, mordendo, se esfregando em sua pele lisa. Mas Rodrigo tinha aqueles olhos, só podia ser isso! E ela acabava por se deitar com ele novamente, rendendo-se a preliminares que não permitia a ninguém mais.
— Por que é que você limpou a boca? — o rapaz quis saber.
Sem lhe dar resposta, Lola enfiou o corpo carnudo debaixo do chuveiro. Ela tinha pressa. Sempre tinha. As coisas deveriam estar fervendo no mercado, e Xavier não gostava de ficar sozinho na banca. Reclamava da demora nas entregas e pedia a ela que não se ausentasse por tanto tempo. 
Não que desconfiasse dela. Não, isso nunca. Mas ficava desorientado quando a mulher não estava por perto para atender os fregueses. Embrulhava os queijos e as compotas no papel errado, amassava as frutas, e os fregueses só não iam embora por causa da amizade. Ela e Xavier mantinham a banca desde que tinham se casado, 18 anos antes. 
Dezoito anos atrás Rodrigo tinha três anos, pensou, se esquecendo do marido e do mercado. Mas logo afastou o pensamento e se concentrou no vaivém da toalha com que enxugava as costas.
Desde que Xavier tinha ficado doente, havia algum tempo, nunca mais fora o mesmo. Acabaram-se as brincadeiras prolongadas no colchão, o sexo em pé, atrás da porta, quando a urgência não permitia chegar ao quarto, e as fugas para os fundos da banca, onde se excitavam como adolescentes, escondidos atrás dos caixotes de fruta. Ela se acostumara, ano a ano, a fazer tudo com pressa. Não fosse aceitar aquela rapidez do marido, ficaria sem nada.
Traiu Xavier, pela primeira vez, seis anos antes. 
Um freguês perguntou se faziam entregas em domicílio e ela mesma se encarregou de ir levar as compras. Preferia que o marido ficasse na banca. Por mais desajeitado que fosse, Xavier era melhor do que ela nas contas, e havia ainda os fornecedores, com quem Lola preferia não ter que lidar. Quando chegou ao apartamento sofisticado, foi o próprio freguês quem lhe abriu a porta. Alto, com a pele clara e os cabelos escuros levemente ondulados, recendia a um perfume discreto, mas insinuante. Lola teve vontade, assim que o viu, de passear os dedos naquele peito largo. Deve ser bom deitar em cima dele depois do sexo, se pegou pensando. Depois, as mãos que se roçaram na entrega das compotas, o pacote que caiu, os dois corpos que se abaixaram juntos na tentativa de pegá-lo, e o perfume que se impregnou nos seus sentidos, roubando-lhe o juízo. Por fim, os olhos se provocaram. E os dois se completaram pela fome. Era assim que Lola gostava de se lembrar das coisas.
Fizeram sexo, ela e o homem do perfume suave, por quase um ano. Ele ia até a banca, encomendava os produtos e pedia que fossem entregues em sua casa. E a entrega se fazia no suor dos corpos apressados. Lola lhe fez uma exigência: que comprasse sempre muito. Aplicava, assim, ao amante e a si mesma, um mea culpa. Ambos pagavam, a seu modo, pelo que consumiam. 
Quando o amante parou de procurá-la, Lola percebeu que não sentia falta dele, mas das compras que fazia em abundância. E decidiu que era preciso repor o prejuízo. Da banca e do corpo. Um a um, foram surgindo outros fregueses. No princípio, ocasionais, induzidos pela boca pintada de Lola, que parecia a polpa das frutas que vendia. Mas, em poucos meses, o plantel que a solicitava era constante.
Assim que Xavier quis contratar um ajudante para ajudá-la com as entregas, ela se opôs: Desse jeito, o lucro vai-se embora!, afirmou. Aos 42 anos, Lola se rendia pela primeira vez em sua vida a um vício. Viciou-se não somente no sexo diversificado, mas na urgência, no desejo pelos corpos que aliviavam os seus tremores. Nenhum dos amantes dava trabalho. Nenhum deles fazia do sexo mais do que o prazer das línguas ansiosas, das penetrações que a invadiam com mais ou menos força. Aceitava o aperto nos seios, as bofetadas ocasionais que levava ou dava, a cavalgada e a posse animal. Recusava-se, apenas, a dentes que lhe marcassem o corpo que Xavier veria, cedo ou tarde; e aos beijos na boca, que se empenhava em reservar para o marido. Negava-se, também, a se deitar com menores, e com mais de um amante ao mesmo tempo. Afora essas rejeições, fazia pouco sexo com mulheres, porque sentia falta da penetração e dos fluidos.
O primeiro rapaz com quem fez sexo tinha uns 20 anos. Lembrava-se sempre dele e dos outros, de mesma idade. É impressionante como são desajeitados!, pensava, observando seus gestos durante a trepada. Como muitos deles não tinham dinheiro ou renda, comprometiam-se com a obrigação de levar pais e amigos à banca no mercado. Cumpriam direito o trato, com medo de perder Lola e ter que correr atrás das jovens cheias de espinhas e regras que os afastavam por pudor ou esperteza.
Rodrigo tinha ido à banca, pela primeira vez, num dia frio. Primeiro, ficou olhando para o chão, com timidez, mas no momento em que seu olhar cruzou com o dela, Lola percebeu a inquietação que havia naqueles olhos que fugiam de tudo. Chegando ao pequeno apartamento do rapaz para entregar as frutas e os doces, surpreendeu-se com a arrumação e o bom-gosto do lugar. E surpreendeu-se mais ainda quando Rodrigo lhe disse que morava sozinho. Fizeram um sexo ruim sobre a cama macia e larga, mas Lola não estava interessada nas habilidades de Rodrigo. Impressionava-se era com os gestos relutantes e respeitosos do rapaz. 
— Primeira vez? — perguntou, curiosa.
— Não, com certeza não. Mas, de uma certa maneira, sim.
Apesar de intrigada, Lola decidiu que já tinham conversado demais. Coitado, não bate bem das ideias, pensou enquanto saía do apartamento de Rodrigo, logo depois.
Agora, já eram cinco meses que o rapaz a procurava. Procurava sempre, em excesso. E Lola concordava em se deitar com ele por pena, curiosidade, culpa. Sim, era culpa aquele sentimento que sempre a levava a fazer coisas das quais se arrependia depois. Sentia-se culpada por não conseguir dar a Rodrigo o alívio que vira em outros homens, em outros rapazes como ele. Era o mesmo sentimento que a tomava quando percebia os olhares perdidos de Xavier, o cenho franzido, as mãos apertadas como se fossem dar socos no vazio, ou como se pensamentos absurdos lhe passassem pela cabeça.
Chega!, pensou contrariada, descendo com barulho as escadas do prédio de Rodrigo. Enquanto caminhava de volta ao mercado, decidiu que se livraria dele. Rodrigo não lhe fazia bem ao corpo nem aos pensamentos, que se aceleravam em hipóteses que ela não conseguia entender. 
Que se foda com os seus segredos!, decidiu, pouco antes de chegar à banca. Resolveu que seria aquela noite mesmo que o dispensaria. Xavier estava fora, num dos cursos para comerciantes que vivia fazendo, e ela teria tempo de sair e voltar sem ser vista. O marido não era homem de controlar os seus passos, mas ela preferia não ter que se explicar, para não ter que mentir. Orgulhava-se de pensar que não mentia para Xavier. Eu omito coisas dele, eu o engano, mas não minto para ele, repetia para si mesma quando a consciência teimava em vir à tona.
Aprontou-se rapidamente e borrifou nos pulsos e nas orelhas o perfume que usava diariamente. Em vez do táxi que inicialmente pensou em pedir, preferiu caminhar. A distância não era muita. 
A noite estava um pouco fria e a falta do agasalho fez com que seus mamilos se avolumassem sob o vestido de malha decotado. Prosseguiu a passo rápido, dando-se conta de onde estava apenas quando começou a ouvir algumas cantadas pesadas e assovios que a incomodaram. O atalho pela praia não tinha sido uma boa escolha. Percebeu, tarde demais, que atravessava uma das zonas de prostituição da cidade. Nos muros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao longo do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas, daqueles espelhos incômodos. Nervosa, se encostou nas grades de uma loja fechada e vomitou.
Pouco depois, retomou a caminhada com passos ainda mais rápidos. Virando a última esquina em frente ao porto, suspirou aliviada. Foi quando viu os dois corpos projetados numa parede mais à frente. Pensou em parar, em recuar, mas alguma coisa a atraiu, deixando-a excitada. Com tesão, procurou com pressas os próprios seios, apertando-os com força e sem parar. Devagar, gemendo baixo, aproximou-se mais e mais do muro que se contorcia. Queria ser parte daquele clímax.
Então, seus olhos se cruzaram com outros. Nos de Rodrigo, mais nenhum segredo. Nos de Xavier, o fogo que ela tinha perdido para sempre. 





quinta-feira, 26 de julho de 2018

Insaneamento


Duas guerras
Tsunami
Overdose
Aguentou

Três safenas
Dinamite
Tiau da Rita
Engoliu

Choque elétrico
Carcinoma
Tiroteio
Suplantou

Morreu mesmo
Aos trinta e seis
(Vai entender,
Acho esquisito)
Morreu mesmo
O grande herói
Foi de mosquito


Maria Amélia Elói





quarta-feira, 25 de julho de 2018

Sémen



O mundo desabou para Cátia e Flávio quando souberam que não podiam ter filhos. O veredito dos testes de fertilidade, em que ambos tinham andado enredados nos últimos meses, foi o mais cruel: tinham de abdicar da aspiração de transmitir vida. E criá-la. De construir um homem ou uma mulher, desde o nada à vida adulta.
Casados havia oito anos, tinham vivido tranquilos quanto a esse aspeto. Quando o decidissem, o ventre de Cátia incharia, tinham por seguro. No ano em que ela fez 35, decidiram que era tempo de terem um filho. Não convinha adiar mais.
Foi o período de maior e mais livre intimidade do casal. Todos os anteriores constrangimentos de gravidezes indesejadas tinham ficado para trás. Já não era preciso usar preservativo, já não era preciso tomar a pílula. Ou interromper o coito, quando ela descansava da pílula e tinham acabado os preservativos. O desfrute mútuo fora profundo e total.
Passaram os meses, mas as tentativas mantiveram-se infrutíferas, no sentido literal do termo. Depois tornaram-se frenéticas e cada vez mais angustiadas. Pressentiam-lhes a inutilidade. Por fim, tinham entregado as suas dúvidas à ciência, que os desenganou de vez.
Não é uma notícia com que um casal, ainda na casa dos trinta, lide bem. Só uns dias depois começaram a recordar e a dar atenção ao que mal tinham ouvido da boca da médica: Flávio é que não podia ter filhos. A sociedade moderna, felizmente, já dispõe de “soluções” que permitem ultrapassar esta situação de esterilidade, quer pela inseminação artificial, com base num banco de esperma, quer pela adoção. E há tantas crianças à espera de um lar de verdade!
Durante semanas levantaram hipóteses e trocaram dúvidas. Era evidente para Flávio que Cátia deveria tentar ser mãe biológica, antes de enveredarem pela adoção. Ela só punha a reserva do dador que lhe calharia: podia ser muito feio, podia ter taras. E outros medos que a situação de ausência de controlo lhe levantava. A brincar, disse que, como o bebé não se ia parecer com o marido, o ideal era que fosse tão bonito como o seu ídolo musical Vicente del Cuore.
A ideia surgiu e fixou-se, como mancha de cereja em toalha de linho. Por que não? A ideia parecera absurda quando lançada, mas expressa por palavras passou a ter uma existência de possibilidade. Havia a possibilidade de Cátia obter o sémen de Vicente; por que não? Podia apiedar-se do problema de Cátia e doá-lo caridosamente. Ou podia agradar-se do corpo de Cátia, que era uma mulher bonita: corpo bem torneado, rosto oval, olhos azuis, cabelo castanho claro caído sobre o seio esquerdo. Assim Cátia conseguisse seduzi-lo. Quando a ideia ganhou vantagem sobre outras e as expulsou, Cátia passou mesmo a pôr a hipótese de sequestrá-lo e obter o sémen pela força do Viagra, caso outras soluções não resultassem. Flávio estava por tudo.
Como primeiro passo, Cátia definiu a inscrição no clube de fãs de Vicente del Cuore. Depois, aproximou-se do grupo que acompanhava o cantor a todos os espetáculos. Ficou logo um pouco desanimada quando soube que, daquele enorme grupo de trinta ou quarenta mulheres em que metade queria meter-se na cama com o ídolo, apenas duas se vangloriavam disso. E que del Cuore devia ser muito cuidadoso, pois usara preservativo em ambos os casos. Não valia a pena pedir-lhe ajuda procriadora. Nem iria ser fácil roubar-lhe o sémen.
Soube, no entanto, que o cantor, embora esquivo nos contactos de intimidade total, era pródigo em contactos mais egoístas: oito confessaram, um tanto envergonhadas, que já tinham aceitado na boca a desejada semente do irresistível ídolo.
Por aí enveredou o seu plano. Pois que fosse na boca. Andaria sempre prevenida com um frasquinho de plástico. Se algum dia conseguisse o que antevia — e então isso parecia-lhe bem ao seu alcance —, disfarçadamente o verteria no frasquinho e de seguida, na casa de banho ou no carro, o introduziria em si, com um longo aplicador de plástico. Resultaria? Por que não?
Iniciou o jogo de sedução com olhares e sorrisos de coqueteria, na receção coletiva que o cantor sempre concedia às fãs depois de cada espetáculo. A que só ia em período de ovulação. Não queria desperdiçar a oportunidade, que provavelmente surgiria.
Uns sete meses depois, o artista deu pela flor que ela empunhava:
Minha querida, por si, pela beleza dessa flor que me quer oferecer, vou recebê-la a sós. Para me explicar por onde andou toda a minha vida essa sua beleza que suplanta a da flor.
O narrador dispensa aqui os pormenores sórdidos das técnicas e das manobras que um artista idolatrado usa de modo a transferir a veneração idealista de uma admiradora para práticas de submissão à sua vontade lúbrica. Neste caso, era um cordeiro que ingenuamente tencionava “comer” o lobo. Só que os lobos têm mais experiência que os cordeiros e antecipam as frágeis manhas das presas. Quando Vicente del Cuore percebeu que Cátia executava movimentos inesperados, logo após o orgasmo dele, deu-lhe um safanão que fez saltar o frasquinho e o seu precioso conteúdo para debaixo de uma cadeira. Levantou-se brusco e irado, abriu a porta do camarim e gritou pelo segurança:
Luís, tira-me já esta gaja daqui!
Cátia nem teve tempo de cobrir o peito. O segurança, entroncado e de braços tatuados, agarrou-a pelos cabelos, empurrou-a para outra divisão e obrigou-a a ajoelhar-se e a abocanhar o seu membro. Quando atingiu alguma excitação, forçou-a a dobrar-se sobre o tampo de uma mesa e penetrou-a brutalmente. A dor foi fina e cortante. Cátia gritou, mas levou um murro na cara, de través. Dois minutos depois foi abandonada no chão, ensanguentada, em lágrimas silenciosas.
Flávio levou muito tempo a conseguir que a mulher lhe explicasse o que tinha acontecido. Sentados no leito onde já tinham vivido tantas euforias, ela quase só chorava. Sentia-se humilhada e traída por todos, até pelo marido. Fora a sua infertilidade que a levara ali. Flávio mostrou-se revoltado e queria arranjar um grupo para dar uma sova no segurança de del Cuore. A não ser que ela fizesse queixa à Polícia. Cátia só tentava dormir. Não queria nem lembrar-se daquele animal.
O fisiológico, no entanto, segue o seu próprio caminho, sem cuidar das alegrias ou dos sofrimentos que pode desencadear no emocional. Um mês depois, Cátia soube que estava grávida.
Flávio ficou dividido: no fim de contas, era uma oportunidade de ela ser mãe. Que podia não se repetir. Cátia não via o lado útil da situação. Sentia-se magoada e atraiçoada até pelo seu corpo. Não era assim que imaginara ter um filho. Fruto de uma violação, como acontece nos cenários de guerra. Conseguiria amar e criar uma criança gerada naquelas circunstâncias? O que estava verdadeiramente em causa? Precisava de meditar profundamente.
Durante uma semana ouviu o seu íntimo, atenta e honestamente. Depois tomou a sua decisão.

Joaquim Bispo

*
Este conto integra — páginas 128 a 131 — a 10ª edição da Revista LiteraLivre, em formato e-book, resultante de concurso literário de junho de 2018: https://issuu.com/revistaliteralivre/docs/revista_literalivre_-_10__edi__o

*
Imagem: António Grancho, Transmutação, 2017.

* * *






sexta-feira, 20 de julho de 2018

FUNDO DO POÇO

Ico voltava da roça para o casebre de barro salpicado, quando avistou a
sogra balançando na rede e a filha brincando de acertar o bico do galo
com o milho. Viu que a menina não acertava uma, deixando o galo irritado
de tanto perder o milho para a galinhas em volta. Galo magro e bobo. Ico
fez da enxada um pau para se encostar, passou a mão grossa na testa suada
e sorriu para a menina, que quando o percebeu espantou a galinhada e veio
correndo pular no colo do pai.
- Fininha, assim você vai matar o galo.
Os dois se abraçaram em rodopio, fazendo alvoroço na poeira do chão seco.
A velha levantou a cabeça, espiou com cara feia e rachada. Não gostava
daquele homem que tinha emprenhado a filha quatro anos antes, e o pior:
se aboletado no casebre em troca de dar conta do roçado em volta. Não era
terra extensa e rica. Muito pelo contrário, do amanhecer até o sol a pino,
Ico percorria o roçado, mexendo e cavucando a terra com enxada e ancinho,
misturando bosta de boi e água do poço, espalhando grão de milho, na
esperança de que aquilo em um tempo desse em milharal.
Acontecia. Sempre antes do Dias de Reis, enchia meia-dúzia de balaios de
espiga, sendo que cinco eram vendidos aos atravessadores e um inteirinho,
o de melhor qualidade, deixava dentro de casa. E tal como o galo e as galinhas,
iam os quatro – ele, mulher embuchada, sogra de maus fígados e filha pequena,
levando a vida como Deus quisesse.
Havia também mais uma boca para alimentar: a porca, que se satisfazia com
uma mistureba de espigas que não prestavam, restos de caules e folhas,
poucas sobras dos pratos e das latas de banha que faziam as vezes de panelas.
Durante um desses rodopios rotineiros, Ico ouviu gritos vindos da direção do poço.
Reconheceu a voz. Largou a menina no chão e enlouqueceu-se em torno de um buraco
fundo, cavado até onde a água quisesse aparecer. Lá dentro, sua mulher Dininha
gritava por socorro.
Pela largura do poço mal cabiam duas pessoas. Mas Ico se meteu assim mesmo,
até desabar sobre Dininha, que já nos últimos respiros da exaustão, agarrou-se
ao marido, puxando mais ainda para as profundezas, onde água e lama já lhes
cobriam as cabeças.  Debateram-se e gritaram por mais de horas, sem que ninguém
notasse suas agonias. Aos poucos foram se entregando ao destino.
A menina percebeu que o pai a tinha largado esbaforido correndo para trás do casebre.
Na sua inocência de quatro anos, custou a perceber que ele não voltaria mais.
E quando se deu conta, puxou a avó para catar pai e mãe pelo terreiro, enxotando
galinhas, chutando a porca. Na beira do poço, viu sandálias descalçadas. Mesmo inocente,
atinou para o que tinha acontecido.
Já era fim de tarde do dia seguinte, quando dois vizinhos distantes da roça apareceram
montados em seus cavalos. O sujeito maior de apelido Pau de Coqueiro - acompanhado de
seu menino adolescente chamado Filho do Coco - por ser magro e comprido, meteu-se no
buraco de cabeça para baixo com a corda de laçar reses amarrada na cintura.
Por mais de meia hora ficou por lá, pelejando, pelejando. Até que, dado um sinal,
seu filho amarrou a corda nos animais, que às chicotadas e aos gritos de ôs, ôs, ôs,
puxaram tudo que vinha lá do poço. Primeiro apareceu Pau de Coco, depois, amarrado a
seus pés o casal grudado pela lama, abraçadinho como se dormisse pela primeira vez. Fedia.
A velha gritou de horror. Ameaçou se atirar no poço, mas ficou entalada na beirada.
Tentou se jogar entre as patas dos cavalos, engoliu terra, gritou para que o senhor
lhe mandasse um raio, fez de tudo para morrer de desespero, ali, na hora, naquele
pavoroso cenário. Vagou pelo terreiro, esconjurou a vida e a neta, fruto da desgraça
enlameada.
- Que o diabo te carregue! Eu é que não tenho que te carregar, sua peste!
A menina fez que ia abrir um berreiro, mas nem chorou. Na sua cabecinha de quase quatro
anos, desabou a certeza de que estava sem ninguém na vida. E jurou limpar aquele lamaçal
da memória. Não se sabe se conseguiu, mas por um longo tempo, não só deixou de falar de
pai e mãe, mas trancou a boca para qualquer outro tipo de prosa.  Custou a tomar tenência
para fugir. Mas até a madrugada que decidiu largar Abiricó para trás na carroça de milho,
por um tempo mais interminável que a eternidade, teve que ser carregada pelo diabo
em forma de velha coscorenta. 





terça-feira, 17 de julho de 2018

Rua 1 - Fragmento de Nestor de Miranda



RUA 1



Bahia com Afonso Pena, uma hora da tarde, domingo.
Um homem, de mãos dadas com um menino de
menos de seis anos, vem pelo passeio, em direção
oposta a minha. O menino − com um sorriso trivial,
dolorosamente inocente − aponta para um canto (sujo)
da calçada e diz:

− Olha, pai, é ali que a vovó ficava.

O homem nada fala: franze o cenho, segura a mão da
criança com um pouco mais de força, aperta o passo.
Seguem, desaparecem entre os transeuntes.

− Olha, pai, é ali que a vovó ficava.




Do livro Silhuetas (Editora Calamares).



A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre


https://www.editoracalamares.com.br/
https://conformitatisosor.wordpress.com/







segunda-feira, 16 de julho de 2018

Opinião

(Ilustração Claudio Delamare, feita para este  conto — in memoriam)

Discutiram desde os primeiros encontros. Porque ele gostava de cães e ela amava gatos. Porque o melhor dia da semana era sexta-feira, mas não para ele, que preferia o sábado. Assistir ao jogo ouvindo rádio, coisa de maluco, ela debochava. Ou não, rebatia ele. Lavar os cabelos todos os dias. Ou em dias alternados. Tomar chope com ou sem colarinho. Ser protestante. Ser católico, espírita, budista, ateu.
Com os anos, casaram-se. Igreja ou cartório. Poucos ou muitos convidados. Pela manhã, no inverno; à noite, na primavera. Não tiveram filhos. Ninguém queria. Mas discutiram até sobre os porquês. Ela, porque era mulher de carreira, bem sucedida e sem tempo. Ele, por qualquer motivo diferente do dela. 
Carro branco; moto preta. Macarrão com molho de alcaparras; camarão na moranga. Lispector, a melhor. Hilst, a incomparável. E enquanto ela escutava jazz no home theatre, ele aumentava o volume dos clássicos no headphone.
Discutiram muito sobre sexo. O deles, o dos outros, o dos anjos. E sobre a cor do mar: azul, verde, acinzentado. Sobre verduras, estrelas, rodapés, sentimentos, fantasmas, sogras, drogas, duendes, países, escovas de dentes. Cada um seguiu em frente — com sua couve ou agrião, com hipernovas ou anãs, com sua Áustria ou Dinamarca. Prontos, sempre, para a próxima rodada de opiniões.
Quando ela ficou doente, discutiram sobre o diagnóstico, antes e depois de o médico dizer que era grave. Tratamento tradicional ou alternativo. Em casa ou no hospital. Com ou sem cirurgia. Ela pediu para morrer. Ele disse que não.
Ela morreu assim mesmo.
Ele foi para casa. Fechou as cortinas, arrumou, lavou, recolheu o lixo. Recolheu em algumas malas tudo o que era dela. Depois, carregou para o quarto o porta-retratos prateado e o colocou no travesseiro ao seu lado. 
Antes de dormir, disse para a foto dela: 

Você diz que morreu.  Mas amanhã nós vamos discutir sobre isso, viu?







segunda-feira, 25 de junho de 2018

O incendiário


«Tudo menos troça!» Mauro pediu mais uma cerveja. Mantinha na retina a imagem da jovem em risinhos e a cochichar com as amigas, na véspera. É claro que era um falhado, toda a gente sabia isso, mas troça é que não. Para a menina do papá era muito fácil rir-se dele. Não tivera de passar pela experiência de dormir debaixo de um viaduto, na vila; não tinha de aceitar o trabalho que aparecesse, fosse ajudante de trolha, fosse ajudante de cargas, na serração. Com 19 anos, ele não tinha um telemóvel de jeito, não tinha carro, não tinha amigos, não tinha nada. Vivia com a mãe viúva, sempre com recomendações; que se esforçava, mas não lhe dava um mínimo para um rapaz dos tempos atuais. Às vezes, não lhe dava nem trocos para ir ao café. Ficava a ver televisão em casa, mundos magníficos tão diferentes da sua aldeia encravada entre montes cobertos de pinheiros e eucaliptos, revoltado com a sua vida sem futuro.
Saiu do café e acendeu um cigarro. Caminhou na direção oposta da sua casa, ao longo da estrada iluminada por alguns candeeiros esparsos, que ladeava a pequena ribeira que atravessava Lage Fundeira. Passou em frente da vivenda de Carla. Imaginou-a em frente a um computador, a trocar piadas com amigas e amigos. Voltou a lembrar-se do riso dela. Um incómodo voltou a atravessá-lo. Prosseguiu até as casas acabarem e sentou-se numa pedra a ouvir a ribeira. Aquele enorme silêncio, em vez de o acalmar, trouxe-lhe uma visão clara do seu exílio. Só, abandonado, miserável, esmagado debaixo de toneladas de pasmaceira.
Cheirou-lhe a fumo. Mais uma vez. Na véspera, o fogo andara numa serra não longe dali. Tinham lá estado os bombeiros e a televisão. Uma animação enorme. Se tivesse carro, tinha lá ido ver. Acendeu outro cigarro e observou o insinuante bruxulear da chama do isqueiro. Baixou a cabeça, pensativo.
Quando os bombeiros chegaram, meia hora e tal depois, Mauro observava da janela de casa o fogo a alastrar pelo mato próximo da zona onde o incêndio tinha começado — uma pequena várzea de feno seco do pai de Carla. Um autotanque e um carro de transporte com 8 bombeiros, num alvoroço de sirenes, postaram-se na estrada contígua ao fogo. Com grande agilidade e rapidez, os homens desenrolaram mangueiras, puxaram-nas, avançaram em direção ao fogo, e lançaram jatos de água sobre o mato em chamas. Era belo e empolgante. Mauro chamou a mãe e saiu de casa a correr. Para ver de perto o ataque às chamas e ajudar aqueles homens esforçados. Pouco depois chegaram mais dois autotanques e outros carros e em menos de outra meia hora estava o fogo dominado. Ainda andaram por ali muito tempo, para assegurar o rescaldo, a Guarda alvitrou que devia ter sido uma ponta de cigarro acesa atirada de um carro, mas depois foram-se todos embora e Lage Fundeira voltou ao sossego característico. Fora tudo tão rápido, que nem apareceu a televisão.

Mauro não gostou de tanta eficácia. Esperava que o incêndio durasse pelo menos um dia, mas nem sequer pôde ver um helicóptero a lançar água sobre nuvens de fumo e chamas. Tinha de ser mais esperto, planear minimamente, executar sem ser de impulso.
Na segunda-feira seguinte, ao lusco fusco, Mauro desceu à azenha velha, depois tomou o antigo trilho dos moleiros, serra acima. Meia hora depois chegou a um barrocal, a que chamam Fraga do Mocho, que agora está envolvido por uma mata de urzes e giestas. Escolheu uma área bem densa e seca e instalou o seu engenho — uma cana oca cheia de musgo seco, com uns vinte fósforos na ponta. Junto a essa ponta, três acendalhas e uma boa dose de caruma, e gravetos de giesta. Depois de confirmar que tudo estava estável e aplicado conforme tinha pensado, acendeu a ponta inicial da cana e afastou-se para um ponto da serra afastado mais de cem metros, de onde podia assistir ao eclodir do fogo.
O engenho não o desiludiu, nem o resultado. Assim que o musgo em brasa atingiu os fósforos, foi tudo muito rápido: chamas surgiram, os gravetos incendiaram-se, em breve a giesta a que estavam ligados começou a arder e depois outras giestas em todas as direções até o fogo atingir o eucaliptal anexo, onde as línguas de fogo começaram a trepar por dezenas de metros. Em pouco tempo, o incêndio tinha uma frente de quase cem metros e uma altura de vinte ou trinta. A salvo e com a retirada planeada, Mauro deliciou-se com a magnificência e a sofisticação daquele espetáculo admirável. A potência e o fulgor das labaredas impressionavam. As chamas dançavam e insinuavam-se por entre os estáticos troncos. O calor começava também a atingi-lo. Em êxtase, abriu as calças e masturbou-se à vista daquela visão luxuriante. O fogo alastrava com rapidez. O orgasmo intenso, com o seu efeito de alheamento, quase o pôs em perigo. Desatou a correr, apanhou mais à frente o trilho que trouxera e em vinte minutos estava em casa.
Essa foi uma noite em que Mauro não dormiu. Nem Mauro, nem os outros habitantes da aldeia. Em poucas horas, o fogo ganhou três quilómetros de frente. Pela manhã, o horizonte estava escondido por rolos de fumo negro e surgiram dois pequenos aviões de ataque a fogos a lançar grandes jorros de água sobre as chamas. Levantavam-se enormes nuvens de fumo branco. Parecia um cenário de guerra, ou, pelo menos, dos filmes de guerra. Pelo meio-dia, temeu-se que as chamas chegassem à aldeia. Houve ordem de evacuação, mas Mauro conhecia a região — foi instalar-se junto da ermida da Senhora do Alto, de onde podia continuar a presenciar o espetáculo das chamas e de todo o aparato para as combater. À tardinha, o fogo tinha ultrapassado a serra e mudado de concelho e todos puderam voltar a casa e contabilizar as perdas: quatro ou cinco palheiros ardidos, gados tresmalhados, muitos hectares de floresta queimados. O Telejornal mostrou uma reportagem do incêndio e, pela primeira vez, Lage Fundeira apareceu na televisão.

Um ano depois, Mauro continua sem amigos, sem namorada e sem trabalho certo, mas não está muito decidido a incendiar a serra outra vez. A encosta negra está longe de lhe transmitir os apelos lúbricos que a floresta verde proporcionava.

Joaquim Bispo

*
Este conto integra — páginas 91 a 93 — a 9ª edição da Revista LiteraLivre, em formato e-book, resultante de concurso literário de abril de 2018: https://issuu.com/revistaliteralivre/docs/revista_literalivre_9__edi__o

*
Imagem: António Grancho, Incêndio, 2003.

* * *





domingo, 24 de junho de 2018

A Esfíncter do Caráter



Na privada libertava-se dos encargos intestinais, o recinto silente senão pela turbulência da difusão abaixo, frias gotas violentando suas nádegas de querubim. Há cinco dias não desopilava as entranhas, há cinco dias sustinha no ventre o fardo de lapsos gastronômicos e falhas etílicas, e mesmo sendo homem de jamais exercitar as tripas em banheiros públicos foi constrangido a tanto quando um de seus orifícios ressoou feito as trombetas do juízo final, a sonora flatulência saturando o gabinete onde, por acaso e sorte, labutava a sós. Era manhã, a mais cândida e bela das manhãs, e lançando-se Juvenal ao toalete agradeceu e abominou a divina providência da carne e da digestão, trancou a fechadura e contemplou, com fascínio jamais antes exibido naqueles olhos inanimados, o trono de porcelana. Desafivelou o cinto, arriou a calça, sentou e aliviou-se num rompante, tudo rápido como a vertiginosa criação do universo; logo de pé, virou-se, e nas imundícies expelidas vislumbrou estrelas e astros, as radiantes constelações, e vislumbrou, também, preso na caixa d’água, um aviso com letras capitais: NÃO CAGAR. DESCARGA ESTRAGADA. Àquele alerta só temeu após pressionar o botão e descobri-lo solto e inútil, em seguida ouvindo o borbulhar dos canos e o escorrer de gotas entre os dejetos abaixo, que, diga-se de passagem, avolumavam-se para fora da água acumulada como as ilhas fétidas e horripilantes das histórias de terror.

Mas Juvenal não ingressara no serviço público por ser besta, ou apenas besta. Destrancou a fechadura, analisou o vazio do corredor e saiu do edifício central assim como entrou: sorrateiro, através de uma porta lateral da qual guardava a chave. Não atravessou a sala de recreação onde descansavam os colegas, já fartos do dia, do calor ou do frio, das horas intangíveis. Tendo o costume de compartilhar com eles o intervalo do almoço, e para que se sucedesse a insuspeita rotina, voltou ao seu gabinete e depois de alguns falsos minutos retornou ao edifício, à sala de recreação, no local percebendo o fôlego suspenso dos colegas, percebendo olhos arregalados, atentos, dois ou três deles a vigiar a passagem lúgubre e afastada que conduzia ao toalete. Em voz alta, mãos na cintura, questionou o silêncio opressivo, e a ele ninguém respondeu. Então ouviu gritos, balbúrdia, e saltitando até a entrada do acesso enfiou-se às cotoveladas entre o grupo ali reunido e viu duas mulheres a esbravejar, 

Um cagalhão desses é coisa sua, Suzana.

Pois a vaca cagalhona é você, disse a segunda. Argumentavam em frente ao banheiro, envoltas por um ar visível e pestilento como a bruma de pântanos ou cemitérios clandestinos, e ao término dessas últimas ofensas, leve epílogo das anteriores, atacaram-se e enlaçaram-se, morderam-se, o indivisível ímpeto da raiva contrariando as leis da física e das massas, as duas tombando no chão e arrancando mechas de cabelos enquanto Juvenal e mais outros a elas se dirigiam, não com a velocidade exigida pela urgência, mas com certa curiosidade e relutância. Precisaram de força e paciência, e separadas as duas Suzana exibia cravado na coxa esquerda um garfo torcido não obstante sangue nenhum escorresse do ferimento. Durante o sucedido Juvenal foi o mais prestativo dos socorristas, e o mais justo dos árbitros ao condená-las:

Duas mulheres desse tamanho e comportam-se feito crianças.

Mas sua reprimenda não surtiu efeito, e elas, separadas e contidas, xingavam-se aos berros, coisa que Silvério, o porteiro, expôs como solução emergencial a análise das câmeras de segurança para apurar quem por último visitara o banheiro. Dada a atmosfera obscura do local, ninguém viu os lábios de Juvenal embranquecerem, ou o modo estranho como se deixou na parede. Dirigiu-se o bando inteiro à sala adjacente, onde um computador armazenava as imagens, e sentando-se Silvério em frente à tela e digitando a senha, acessando a central de gravações, comentaram eles acerca do cheiro recém surgido, de queimado. Parado na porta, Astor, o mais velho dos funcionários, espiou em direção à sala de recreação e arregalou os olhos.

Fogo, gritou, e todos correram, engalfinharam-se numa fileira de empurrões e, em busca da saída, enfrentaram as chamas, cortinas e sofás flamejantes, enfrentaram a fumaça preta e condensada cujas linhas revoltas preconizavam a alegria da salvação. Com vinte minutos de incêndio o prédio crepitou e desfez-se em ruínas. Suzana e Sandra, as duas brigonas, em frente aos escombros choramingavam num abraço de paz e amizade, confortadas por colegas cujas máscaras de fuligem exibiam emaranhados de lágrimas.

Quando os bombeiros enfim assomaram à cena, nada restava senão a soturna estrutura do que parecia uma basílica de carvão, e, também, um morno resquício de sorriso nos lábios de Juvenal.





quarta-feira, 20 de junho de 2018

TOLERÂNCIA

  Fizeram 70 anos de casados Dagmar e Décio.
  As filhas Desirré, Domitila e Dulce, genros,
netos, bisnetos, parentada próxima e distante,
amigos de longo e pouco tempo sopraram velinhas em torno
da mesa. Era um bolo exuberante, escoltado por uma legião
de brigadeiros, cajuzinhos, bem-casados e línguas de sogra.
  Juarez, o churrasqueiro da vila, cuidou de tirar retrato.
- Um sorriso, seu Décio! Tá todo mundo feliz.
  Décio não mexeu uma ruga.
  Dagmar caçoou.
- Se ele rir, a dentadura cai.
  Até o vira lata levantou as
orelhas, abanou o rabo. Dizem que riu.
  Décio permaneceu de cara amarrada.
  Desirré, a mais velha, insistiu.
- 70 anos, pai. Três filhas, três genros, onze netos,
seis bisnetos, um casal de tataranetos e um batalhão de amigos! Vida linda, pai!
  Silêncio.
  Juarez já servia saideiras de linguiças, lascas de alcatra e iniciava a sobremesa:
banana d´água na brasa com canela e açúcar. O cavaquinho chorava Noel, Ernesto,
Jacob e Pixinguinha, prenúncios que a cervejada e o domingo iam longe.
As bundas gordas rebolavam aos pélvis e passos de pretensos mestre salas,
as crianças faziam com bolas de guardanapo lances de Copa do Mundo.
E Décio seguia estatuado na cadeira de vime, mãos entrelaçadas, um polegar
se enrolando no outro, o único movimento muscular existente.
- Vô Décio, vem dançar o miudinho.
- Deixa ele, Michele. Se seu avô está mexendo o dedo
é porque está agradado da vida.
  Um dos genros quis ser simpático.
- Seu Décio! Conta pra gente: qual o segredo de tantos
anos de casamento?
- Zíper.
  Foi só o que disse. Nenhum sorriso. Apenas um gesto
do polegar grudado ao indicador, percorrendo a boca de
uma ponta a outra. E foi eloquente ao seu modo. Repetiu:
- Zíper.
  Dagmar interveio.
- É fechecler, Décio. Para com essa mania de modernidade.
  Zíper.

Enquanto dançava-se, cantava-se e gargalhava-se, pelas telas
da memória de Décio passava um filme mal editado e de tempo
embolado, fragmentos de más lembranças.

- Calça pescando siri? É casamento de nossa primogênita,
Décio. Está um perfeito tabaréu.
  Zíper.
- Se é para passar o sábado no turfe, que jogue num cavalo
que não manca.
  Zíper.
- Vem pra casa, Décio. Larga esse carteado. Seu neto vai nascer.
Tomara que não venha a sua cara.
  Zíper.
- Você não desligou o filtro, Décio. Encharcou a cozinha toda.
Pega logo esse rodo, vai.
  Zíper.
- Serão numa repartição pública sexta-feira? Tem sirigaita aí.
Essa sua cara de songamonga não me engana.
  Zíper.
- A comadre Odete descobriu que o Jandir tinha uma amante.
Despejou água fervendo no ouvido dele. Ouviu, Décio?
Estou avisando: já botei a chaleira pra ferver.
  Zíper.
- O dinheiro da feira está minguando. É jogo, cachaça ou mulher?
Ou tudo junto?
  Zíper.
- Sonhei casar Domitila com cadete das Agulhas Negras. Diz que está
de flerte com um cabo dos Bombeiros. Menina sem ambição.
Puxou ao pai.
  Zíper.
- Décio, quantas vezes?! Bisnaga de creme de barbear na pia dá nisso:
escovei os dentes com Bozzano.
  Zíper.
- Isso é hora de me incomodar? Vai dormir, Décio! Não tem nada
pra você entre as minhas pernas.
  Zíper.
- O papagaio fugiu pro vizinho e está lá gritando
palavrão. Foi você que ensinou, diacho.
  Zíper.
- O vizinho queria tirar satisfações com você. Eu é que fui lá resolver.
  Zíper.
- Até a vizinhança sabe que você é de fritar bolinho.
  Zíper.

  Uma passagem peculiar emergiu das entranhas de Décio. Lembrou de uma
decisão honrada há mais de 20 anos.
- A partir de agora, só falo com você em inglês, velha chata.
- Tá, maluco, Décio? Você nem sabe dizer gudimôrningui.
- O que quer dizer isso?
- “Bom dia”, seu burro.
- Então nem “bom dia” eu digo mais.
- E você lá dá “bom dia” pra alguém? Só se for pras suas vagabundas.
  Zíper.

  Quase dez da noite. O chorinho aquietou, o pandeiro sossegou, a brasa
esfriou, o que sobrou do bolo esfarelou. Despedidas emocionadas, palmas
para o casal.
- Faz um discurso, Décio, diz alguma coisa. Os parentes vieram
homenagear a gente.
  Ziper.

  Atordoado com a gentarada alegre daquele domingo,
Décio só se deitou para lá de meia noite. De pijama listrado,
posicionou-se rijo. Pés juntos, mãos sobre a barriga, dedos entrelaçados.
Olhou fixo para o teto. Dagmar ensaiava os primeiros roncos.
- Dagmar... acorda, Dagmar!
- Que diabo, Décio! Resolveu falar?! Agora?!
- Não gosto de baunilha.
- O quê?
- O glacê do bolo tinha gosto de baunilha.
- Deixa de ser ingrato, seu chato. Dulce confeitou o bolo com
tanto carinho.
- Muita baunilha. Enjoa.
- Ah, vai amolar o boi. Vai no banheiro, vomita a baunilha e vê
se desce junto pelo vaso.

  A duas quadras da casa dos pais, Desirré embalava o neto caçula
que teimava em não dormir, quando ouviu palmas no portão.
- Dona Desirré, acho bom a senhora ir até a vila agora.
Melhor ir rápido.
  Descalça, de camisola, sem penhoar, Desirré largou a criança com
o marido e correu. Até que paralisou. Uma pequena horda de enxeridos
se aglomerava na entrada da vila. Lá no fundo, luzes de ambulância,
polícia e rabecão piscavam um ar de festa que não havia. Desirré se
espremeu entre os curiosos, escapuliu esbaforida do cordão de isolamento
e viu um corpo enrolado num lençol sendo colocado no papa defunto.
Viu dois policiais examinando uma serra de cortar pão ensanguentada.
Viu outros dois policias retirando o pai de dentro da casa em direção
ao camburão. Tiveram a gentileza de não enfiar um velho de 96 anos na
caçamba. Sentaram o infeliz no banco da frente, algemado com as
mãos para trás. Desirré voou, rodou pela viatura, socando lataria e janelas
fechadas. Décio olhou para a filha sem mexer uma ruga. Desirré olhou
o pai e se desmilinguiu em câmera lenta. E bateu mãos
e testa no vidro. E gritou em silêncio. E babou de soluçar.
E se descabelou. E se entupiu de baba e coriza. E pranteou de engasgar.
E deixou cair o pivô da frente.
A sirene começou a tocar. Desirré se jogou no capô de braços abertos e
viu pelo para-brisa manchas no pijama listrado do pai. Sangue
ainda fresco, respingado no rosto craquelado e nos últimos fiapos brancos da careca.
Viu os olhos do velho Décio querendo dizer tudo. Mas, sem coragem ou sem vontade,
diziam nada.
  Zíper.





domingo, 17 de junho de 2018

Livre epiderme



Livre epiderme







     A mão esquerda voltou a ser o que era, livre epiderme. Um dos dedos, o segundo, retornou ao seu estado inicial. O metal nele arranhava a grua do ônibus, o banco e a mesa de pedra. Sempre se ouvia quando tocava o mundo, lembrando que o vínculo era físico e sonoro. A pele não era mais pele, era pele e metal opondo-se às coisas. Agora, nada opõe-se ao mundo, a pele é novamente pele, única como sempre foi. As digitais da mão estão de volta, a mão que cumprimenta, segura, abraça, sem muita habilidade, mas com toda a vontade, agora, de volta ao contato puro. Sem intermediação.






























sábado, 16 de junho de 2018

Dos pesos

Duas calças, um vestido preto, um edredom de listras azuis. Confere. Já deixei pagos. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda para guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio; não cabe mais nada. Tem uma mala lá dentro. Tamanho gigante. Comprei hoje. Sim, no banco de trás pode ser. Mas é tão pouco peso que eu aguento sozinha. Eu aguento carregar até coisa mais pesada. Sim, eu volto semana que vem. Vou trazer mais peças. Dois conjuntos de blazer e saia, e um terninho. Não, não é tudo a mesma coisa. Terno tem calça. Conjunto pode ser de qualquer coisa. Tailleur. Chamava assim. Tinha que ser com saia. Terninho chamava slack. Acho que sumiram com um monte de palavras estrangeiras de uns anos pra cá. Os estrangeiros não sumiram. Só as palavras. Tem um francês que mora em cima de mim. Não. Acima. Não fede nem cheira. Tem cheiro de europeu, só isso. Bonito. Ô! Bonito. Se morasse em cima de mim eu ia gostar. Tem cara de bom amante. Faz barulhos de bom amante. Barulhos que não acontecem mais lá em casa. Mas ele mora acima. Infelizmente. Ninguém sumiu com ele como sumiu com as palavras estrangeiras. Vai ver é porque ele trepa bem. Tailleur e slack não deveriam ser lá essas coisas na cama dos linguistas. Dispensados com desonra. Tem doisedredons também pra próxima semana. O estampado com flores e o cor-de-rosa. Pesados. Mas eu aguento peso. Como estas onze sacolas cheias de comida. Penduradas em duas mãos. As minhas. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio. Tem uma mala lá dentro. Gigante. Comprei hoje. Mas eu já disse isso. Pra moça da lavanderia. No banco de trás, agora, também não cabe mais nada. Tem duas calças, um vestido e o edredom de listras. No chão do carro? Pode, sim. Atrás. Cinco sacolas de um lado, cinco de outro. São só sacolas de comida mesmo. E uma vai comigo no banco da frente. Precisa, sim. Faz as contas. Onze não se divide por dois. Nem nove, nem sete, nem um. Eu não tenho TOC. Eu gosto de números ímpares. Por exemplo: um dia. Sem dividir por dois. Um prato. Um travesseiro. Uma toalha. Uma televisão. Sem dividir por dois. Todas as novelas; a das 6, a das 7, a das 9. Sem dividir o controle remoto. Nem a tela. Telejornal, não. Cansa. A cara certinha do William B. cansa. Menos a boca. De quem beija bem. Os certinhos sempre são os mais tarados. Como ex-seminarista. Dormi com um, faz anos. Banquete pra muitos talheres. Repressão liberada é fogo. É um tira-atraso toda hora. Menos na hora do telejornal. Telejornal corta qualquer tesão. Acidente, corrupção, futebol. Morte todo dia. Na tela. Na vida. Um peso danado. Mas eu aguento peso. Eu já falei isso também. Subi com um engradado de cervejas. Geladas. Tomei todas. De dia mesmo. Fiz a mala gigante antes da hora do jantar. Desci com ela depois do jantar. Pesada. Levando o que tinha que ir embora. Eu aguentei o peso. Não disse que aguentava? Agora, só falta guardar a mala no carro. Pesada. Dentro dela, o que não é meu. E se não é meu, vai embora. Vai sumir. Como sumiram o tailleur e o slack.
Boa noite. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra colocar a mala no porta-malas. Não! Tira a mão daí! Larga essa mala, porra! 






terça-feira, 5 de junho de 2018

ampulheta




enquanto tivermos tempo
haverá o sonho
o gosto
o cheiro

um cigarro aceso
no cinzeiro

uma gota 
para transbordar o copo

alguma chance 
de sermos verdadeiros

entre medos
erros e poemas tortos

um suspiro 
antes de dizer 
já chega