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terça-feira, 20 de novembro de 2018

O descasamento de Mirna e Raul

- Já deu.
- Já deu.
Não houve DR, nem louças quebradas. A indiferença decidiu.
22 anos de casados. Nenhum filho. Nenhum projeto comum.
Nenhum grupo de amigos assíduos. Nenhum cachorro.
Nenhum um gato. Nenhum hamster. Nem família tinham mais.
Todos os parentes bem distantes. Ou já falecidos.
- Já deu.
- Já deu.
A conclusão, pelo menos, foi a dois. De resto, nada de
afinidades. Ele, futebol, ela, paciência no celular.
Ele, exatas, ela, humanas. Ele, rabada com polenta,
ela, japa. Ele, pelada, ela, pilates.
- Já deu.
- Já deu.
O sexo era bissexto. Porém mecânico. Ele, ejaculação precoce.
Nem Boston Medical Group daria jeito. Ela, frigidez absoluta.
Ele, rápido para acabar a canseira. Ela, olhos abertos, contando
insetos mortos no lustre.
- Já deu.
- Já deu.
Não se dependiam financeiramente. O divórcio seria amigável.
Nenhum bem, nenhum mal. Tudo se arrastava para um fim sem graça.
Até que ele teve uma ideia.
- Uma festa!
- Uma festa?
- Sim! Convidaremos os padrinhos de 22 anos atrás, procuramos
um juiz para homologar o divórcio.
- Nem sabemos mais desse amigos.
- A gente acha. Lembro que eles adoravam uma boca livre.
Champanhe!
- Isso! Champanhe! Um brinde aos ex-casais civilizados.
Foram ao mesmo advogado de família.
- Vocês têm certeza?
- Toda certeza.
- Nenhuma dúvida.
Acharam os amigos nas redes sociais. Prepararam um convite informal.
“Mirna e Raul convidam para a cerimônia íntima de seu divórcio.
Sem tristeza, decisão madura, que queremos compartilhar com raros amigos”
- Que mau gosto.
- Ficaram malucos.
- Depois de 22 anos?
- Tem traição aí no meio.
Enganaram-se os amigos de outrora. Não havia traição. Apenas desgaste
natural das relações sem propósito que não atingem o sublime estágio
do amor companheiro. Nem briga por apertar errado a pasta de dente houve.
Nem por toalha jogada na cama. Nem por sutiã pendurado na maçaneta.
Estavam decididos e desejavam comemorar.
Dia da festa. No apartamento em Ipanema mesmo. Vista para Lagoa,
que entardecia como o amor deles. Os quatro casais foram chegando.
Eram recebidos com uma taça de champanhe na mão, sorrisos desenxabidos
e uma estranheza no ar. Não tocaram nos assuntos motivadores.
- Gente, obrigado pelos presentes!
- Que surpresa!
- É para cada um de vocês economizarem essas coisas chatas de casa nova
de solteiro.
- Um chá de panela às avessas.
Todos riram. O champanhe já fazia efeito. Mas houve um momento de silêncio.
- Senhoras e senhores, estou aqui de modo pouco usual para homologar uma
decisão menos usual ainda.
Todos riram mais alto.
-  Mas como Juiz de Vara de Família, o ritual me obriga a uma pergunta de
praxe: Mirna Cruz Madeira, você está consciente da decisão de se divorciar
amigavelmente de Raul Batista Madeira?
- Siiim!!!
- Raul Batista Madeira, você está consciente da decisão de se divorciar
amigavelmente de Mirna Cruz Madeira?
- Siiim!!
Até na enfática afirmação estavam afinados.
- A partir de agora, Mirna voltará a seu nome de origem: Mirna Melo Cruz.
De acordo?
- Siim.
- Por favor, testemunhas assinem o documento.
Após o ritual, foi servido o jantar. Roast beef com batata rosti,
saladas diversas, bobó de camarão. O champanhe deu lugar a infinitos
Bordeaux e Chardonnay. De sobremesa, frutas, mousse de chocolate amargo
e rocambole cremoso de morango. Não houve bolo, nem distribuição de
bem casados. Seria despautério demais.
Depois de muita dança, lá pelas tantas, todos se despediram. Padrinhos, madrinhas,
testemunhas e recém divorciados. Foram para suas casas trocando as pernas.
Mirna e Raul partiram cada um no seu Uber, cada um para um apart hotel próprio,
já arrumados para a nova vida.
Dois anos depois.
Claudio e Glória, duas das testemunhas daquela festa estranha, porém aninada,
avistaram ao longe Mirna e Raul saindo do cinema. De mãos dadas, sorridentes,
feições de pombinhos. Já abraçados, foram vistos entrando num bistrô no mesmo
shopping, começando a brindar com champanhe, trocando beijos ardentes e carícias
um tanto impróprias para o local.
- Você está vendo, Glorinha?
- Palhaçada. Quero as cafeteiras que comprei para cada um de volta.
- Relaxa, querida. Vai ver que a separação foi um fracasso.
E saíram os dois de fininho, Claudio e Glória, para não serem vistos por
Mirna e Raul.
Certos de que só o amor tem suas inexplicações.
E que não se fazem mais descasamentos como antigamente.








sábado, 17 de novembro de 2018

Maternidade








                       Observa a mãe o menino que muda a cada ano. A cada dia acrescido à sua vida, o filho vai se tornando outra pessoa, descobrindo os detalhes do mundo, como as pessoas são e como se comportam. A mãe, forte e estabilizada, tem que sempre reaprender. Não é de repente, do dia para a noite, que o menino se tornará adulto. Assistindo a novas conquistas, a novos começos, todos os dias ela é uma nova mãe. A maternidade é presenciar amorosamente a descoberta do mundo por aquele que insiste em abraçá-la sem se importar em nada com o que esteja acontecendo.








Ilustração: Ziraldo













sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O livro do rabino

O livro do rabino






Não me entendam mal. Sou uma mulher de fé. Apenas que não de uma única fé, ou, pelo menos, não dessas fés professadas na pele como marcas no dorso de animais. Nem de qualquer outra que se vista de paramentos e símbolos para convencer, para exibir força, para arrebatar adesões. Fé é coisa pessoal, cunhada por percepções e sentimentos que nos atingem, moldam, convencem, confortam, impulsionam. Individualmente. Tudo o mais é domínio. Ou mentira. Ou coletivo submisso.
No entanto, esbarrei com esse livro numa tarde de calor e livraria. Um olhar comprido à capa e uma leitura das orelhas, em homenagem ao título atraente: A alma imoral. Pronto. Eu já estava curiosa. Um rabino? Um sacerdote judeu falando do imoral? Que fosse italiano, polonês, espanhol. Sacerdotes não falam do imoral. Hipocrisia. Conflito de interesses.
Nada de folhear aquele livro pequeno. Como eu poderia? Detesto papéis dúbios, posições que confundem, prática e discurso dissonantes. Aos homens santos, as coisas santas. Nada de desvios. Que de imoralidade vivemos nós, os que respiramos fora da religião e dos acertos com deus, os que não brigamos em rinhas para ganhar um céu, os que não nos sujeitamos ao marca-passo das alienações. Mas aquele nome, aquele título esmurrou a porta do meu cérebro exigindo uma chance.
Como última resistência, agarrei-me à imagem habitual e entediante de um rabino que escreve sobre deus, vive em sinagogas e fala aos crédulos sedentos da palavra. De qualquer palavra que alivie os desejos, que perdoe as infrações chamadas de pecado, que conduza a um banalizado e eterno paraíso. Nada sobre o proibido. Porque um rabino não fala do proibido.
Abri assim mesmo. De uma vez. E deixei os meus olhos lerem sobre o transgredir. E sobre a traição. E sobre a desobediência. E sobre o desrespeito. Não havia ali um rabino, um sacerdote judeu. Pontos; contrapontos. Palavras de um homem inquieto, inquietante. De um homem firme. Pontos; contrapontos. Nem santidade nem doutrinação. Uma proposta. A alma que transgride para transformar. Que transforma para adaptar-se. Evolutiva como as espécies. Sobrevivente.
Lembrei-me da minha fé ciclotímica, repleta de um incessante questionar refletir ouvir depurar acolher questionar cuspir procurar questionar. Mas sempre fé. Inabalável em todas as suas dúvidas. Transgressora, imoral. Uma fé metamórfica. E tive vontade de acreditar na existência de um deus que paira sobre todas as coisas. Que faz com que o sentido de tantos caminhos seja um lugar aonde chegar. Que dá outro propósito ao sofrimento, às feridas, à deterioração da carne e da mente que não seja o de ganhar a vida eterna. 
Não acredito nesse deus da livraria. Nem acima nem abaixo das coisas. Na minha fé não há um deus a enfrentar, com quem brigar, ou a quem culpar, implorar, chorar ou pedir um pouco de carinho e de descansos. Não há respostas. Não há deus. Apenas silêncio. 
Mas, então, por que o meu silêncio não se cala? Por que me revolto com a inexistência dessa divindade que acende o imaginário de alguns, a esperança de outros? Qual o sentido disso tudo para os meus pensamentos que nunca cessam de se rever? Que estão sempre revogando o instituído e ordenando tentativas anárquicas? Como eu poderia ser uma mulher de fé, se sou uma mulher sem deuses? 
Estou cansada desta minha fé diferente. Desta perversidade reconfortante à qual me incentivo cotidianamente. Da serenidade entediante que só me convém por breves instantes. Sou uma criatura que se convida e se lança prazerosamente às violações. Contudo, não as do corpo, que sirvo de sexo, álcool, diversão e cuidados em iguais partes. Minhas violações são imateriais. Nutro a minha vida na destruição do vigente, no questionamento do que se enraíza em doentia imutabilidade. Não aceito preceitos. Aceito a fé. A que tenho em algumas coisas; a que tenho no nada. No nada que incita a repor. No nada que é inexistência a preceder existência.
Será essa a alma que transgride? Esse espaço que transborda e se esvazia em rompimentos? Essa força vital que corrompe o comodismo e se propõe à honestidade da incerteza? Se for verdade que seja desse jeito, eu posso pensar que alguma parte de mim é alma. Imoral e santa. Desobediente e dócil. Fiel e traidora. Consentida e rebelada. Se for mesmo assim, eu aguento ter alma.






sábado, 27 de outubro de 2018

Primavera



À flor da pele

regarei
com a gota d´água


desabrochando o caos






sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Rebentação


Entre mãe e filha
surgem silêncios
intransponíveis
dores que a palavra
inalcança
ranços impenetráveis
trançados de fel e espinho
abismos cercados de neve

Do amor incondicional
provêm pactos do imaculável
omissões toscas e rudes
simulacros
ilicitudes
vermes que não morrem
medos que
nem uma nem outra
tocam
ilhas de fogo
que não penetram
lacunas
que não preenchem

Espera-se de mãe e filha
esforço de tanto altruísmo
afeto tão reto e sem culpa
que a farsa
não raro se impõe
por mero casuísmo

Deviam
ousar a verdade
arrombar ruídos,
traumas, heranças
confessar
cada desvio
domar desgostos
infringir 
o sangue
qualquer paradigma
simplificar-se

Mãe e filha
cada uma
vez ou outra
bem que podia 
rasgar o véu
do afeto perfeito
largar a vergonha
perder as estribeiras

Devia 
assentir 
a sentença
soberana
de que tudo é obra
dá muito trabalho
manter esse elo

Rebentar como que 
de novo
enquanto mãe
enquanto filha
escalando o poço profundo
de cada dia

Aprender assim
pouco a pouco
materno-filialmente
a lançar-se
de mãos dadas
heroicas
peitando a pirambeira

(Maria Amélia Elói)





quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A selva




Há muito que os homens saíram da selva. Não lhes servia tanta incerteza, tanto perigo de vida. Aos poucos, com avanços e recuos, organizaram-se para autodefesa, assistência mútua, caça. Criaram normas de funcionamento coletivo do grupo, muitas vezes tácitas, outras bem expressas. Para evitar aproveitamentos egoístas. Para que o grupo fosse o lar de cada um. E afastaram-se da selva e das suas práticas ferozes.
Sem que o percebessem, os animais observavam-nos, curiosos, e acabaram por conseguir copiar o Conselho da Tribo. Pelo menos em alguns dos seus aspetos formais. Chamaram-lhe o Conselho da Selva e funciona desde então. Reúne-se uma vez por ano, ou a qualquer momento, em sessão extraordinária, a pedido de algum grupo. Geralmente, é apresentado um problema, levantada uma questão, feita uma queixa ou uma reivindicação. Segue-se alguma troca de ideias, muita algazarra, mas por fim o Conselho costuma concluir com uma declaração por maioria absoluta.
Muitas e muitas reuniões do Conselho já aconteceram ao longo dos milénios. Da maioria não restou memória, mas de outras foram guardados registos, geralmente em cascas de árvores ou numa escrita indecifrável em campos pedregosos. Por exemplo, há uns sessenta anos, foi realizada uma reunião a pedido dos castores. Decorreu numa mata contígua a um rio nórdico. Dado o início, um castor barbado com ar envelhecido, tomou a palavra:
Caros companheiros silvícolas, estamos fartos de cortar e transportar árvores de sol a sol, sem a ajuda de ninguém. Há milénios que o fazemos, sem lamúrias da nossa parte, nem razão de queixa, da vossa. As barragens vão-se construindo, com esforço nosso, que ninguém reconhece, mas com grande beneficio para todos. Continuaríamos a fazê-lo sem queixumes, se as condições não estivessem a mudar. Mas estão. Os nossos filhos precisam de acompanhamento, as nossas famílias precisam de atenção. Os tempos são de cuidados e apoio ao desenvolvimento dos jovens e de maior convívio familiar. Não podemos, não queremos, chegar a casa tão tarde e de ânimo derrubado por tanto trabalho. Daí, que chegámos a esta situação limite, em que temos de ser bem claros. Das duas, uma: ou algum dos excelentíssimos grupos aqui presentes se compromete a ajudar-nos a construir as barragens, ou não cortamos nem mais um galho depois das 17 horas. Gostaria que refletissem bem se querem os rios represados, de modo a servirem todos, ou se querem deixar a água ir-se embora.
Gerou-se um burburinho, mas que era habitual em cada Conselho. Algumas poucas vozes manifestaram-se a favor dos castores, mas a grande maioria estava até escandalizada com a desfaçatez daquela reivindicação. Ao fim de pouco mais de meia hora estava o consenso formado. Um gato gordo e lanudo foi o encarregado de resumir a superior posição conjunta do Conselho:
Oiçam, amigos dentolas — declarou ele —, não venham para aqui com essa moda dos homens, das oito horas de trabalho, que aqui não há regras nem regulações; aqui é a selva!
A reunião foi dada por encerrada e não se falou mais nisso.
Há quarenta anos, foi a vez da passarada granívora pedir a reunião do Conselho. Decorreu num campo de centeio ressequido e já ceifado. Um pardal empertigado, mas nervoso, explicou a reivindicação da classe:
Como sabem, recentes acontecimentos da área humana e suas decorrências provocaram uma grave rutura na já enfraquecida produção agrícola. Semeou-se muito menos, pelo que houve poucas searas. Temos estado a viver à míngua. Esquadrinhamos campos e mais campos, mas, entre grãos soltos e respigos, não conseguimos enganar a fome. O que reivindicamos é uma mesada, um papo mínimo de grãos, para podermos viver com dignidade, sem andar a pedir nem a roubar.
Como sempre, muito burburinho, alguma discussão e a sábia decisão do Conselho.
Ó companheiros dos bicos direitos — explicou o falcão encarregado de divulgar a determinação —, vocês até podem ter muita razão, mas não se percebe aonde se iria armazenar tanto grão, quem iria administrá-lo, nem quem iria buscá-lo, nem aonde... Um tal pacto social obrigaria à criação de uma organização enorme, que iria agravar o problema. Além disso, vêm aqui fazer reivindicações, mas nenhum ser que viva na selva pode reivindicar quaisquer direitos. Isso de salários mínimos são modas dos homens. Aqui, cada um que trate de si; é a selva. Quem não aguenta arreia… Por que não se tornam carnívoros?
A reunião terminou com muitos piados tristes e outros irados, mas a vida na selva prosseguiu como antes.
Outras vezes se reuniu entretanto o Conselho da Selva, mas o plenário do ano passado foi especialmente participado e demorado. Fora solicitado por um amplo conjunto de animais, com as seguintes queixas:
Tem havido muitos incêndios, há zonas em que o pasto desapareceu, mas há outras que se mantêm férteis — expôs um coelho. Seria sensato que se reservasse uma parte do pasto das zonas fartas, para apoiar as que o não têm.
Antes que houvesse oportunidade de se iniciar a vozearia, o presidente da mesa — um javali —, mandou avançar o segundo orador.
Há muitos rios poluídos — alegou um sável —, os nossos irmãos têm que se deslocar para águas não poluídas, mas onde a comida não dá para todos — os que estão e os que chegam. Seria inteligente criar uma bolsa de comida para distribuir pelos carenciados.
Novo gesto rápido do javali, novo orador.
A população cresceu, mas cada vez são menos as zonas livres de pesticidas, que envenenam larvas, insetos e minhocas — explicou um melro. — Os recursos, como estão distribuídos, não dão para todos. Deveríamos encontrar uma solução que permitisse que todos pudéssemos viver. Não faz sentido, nos tempos tão civilizados em que estamos, que uns vivam bem, sem dificuldades, sem preocupações de aonde ir buscar a comida, e que outros sobrevivam cada dia na angústia da fome.
Sabem o que ouço dizer aos homens? — continuou o melro. — Como é público, eles inventaram máquinas para tudo, de modo que muitos serviços são feitos por elas, e os trabalhos que exigem mão humana já não chegam para todos. Não se trata de não quererem trabalhar; é que ora uns, ora outros, muitos são obrigados a ficar sem trabalho. E os subsídios de desemprego, que deviam tapar os buracos no sistema, afunilam e deixam muitos homens de fora. Em risco de fome. Como nós. Ouço-os discutir e dizer que as sociedades humanas e organizadas não deviam ser tão ferozes com os seus desempregados; que têm a obrigação humanitária e lógica de criar condições de vida para todos; que deviam inventar um sistema em que cada cidadão tivesse acesso a uma distribuição mínima, só por estar vivo. Para se manter vivo. Quer trabalhasse ou não. Se trabalhasse, juntaria essa remuneração extra ao tal rendimento incondicional e poderia viver mais desafogado. Posso garantir-vos que eles estão a pensar seriamente nisso. Mas, é claro, eles são inteligentes.
Gerou-se uma algazarra diluvial. O caso não era para menos e suscitava o desagrado, quando não a revolta, de grande parte do auditório. Foi precisa a intervenção áspera do presidente, para trazer alguma contenção à reunião.
Tanto quanto sei — disse um cão —, eles gostariam de conseguir aplicar essa solução, mas não sabem aonde ir buscar tantos recursos para distribuir por todos. Alguns dizem que reservando metade de todos os rendimentos individuais, para distribuição equitativa geral, se conseguiria pôr o modelo em funcionamento.
Isso não faz nenhum sentido, na selva! — adiantou-se um lobo. — Nós nascemos na selva e nela queremos continuar a viver. É na selva que desenvolvemos o nosso estado natural. Alimentamo-nos, procriamos, sobrevivemos. Conhecemos os nossos amigos, conhecemos os nossos inimigos, sabemos aonde procurar comida, sabemos onde nos esconder. Nós devemos manter impoluta a nossa natureza. Leis, direitos, proteções especiais só viriam desvirtuar-nos. A nossa lei é a da sobrevivência, que não é uma lei; é um estado. Os mais fortes comem os mais fracos, os mais espertalhões sobrevivem melhor do que os menos astutos. Com genuinidade, com luta pela vida, com ferocidade e esperteza. E é assim que deve ser.
Esta intervenção provocou um ribombar de aplausos e clamores de entusiasmo, perante os olhares desanimados dos queixosos, e praticamente determinou o parecer final do Conselho.
Meus amigos — leu o bufo real, muito compenetrado —, todos sabemos que a vida é difícil para quem vive na selva e que por isso muitos gostariam de experimentar soluções abstrusas, que lhes parecem boas, mas sabemos que é o idealismo a falar. Sempre assim vivemos, sempre preferimos a selva às malucas derivas dos homens. Não há nenhum homem que goste de viver na selva mais do que nós. A selva é um ambiente natural. Não tem leis. A preocupação que temos com os outros é se pertencem à nossa cadeia alimentar. E se os comemos é sem rebates de consciência, sem hesitações, sem rancor. E ninguém fica incomodado com isso. Cada um faz o que quer, se puder. Cada um tenta sobreviver como pode. É o nosso amado modo de vida. Sabemos que pode parecer cruel, mas tem a beleza inigualável da autorregulação. Nem todos vivem bem, nem todos sobrevivem, mas é assim; é a selva.
Desde então, não tem havido reuniões extraordinárias do Conselho.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Henri Rousseau (o alfandegário), Cavalo atacado por um jaguar, 1910.

* * *






segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A Câmara Pornográfica




Quando Lobato faleceu ninguém tinha ou sabia da chave do escritório, e evitando a janela lateral, pois situava-se o apartamento no oitavo andar, viúva e neto recorreram a um chaveiro com a finalidade de ordenar o seu espólio. Sendo ele investigador de polícia, adentraram o recinto na expectativa de relatórios, inquéritos e documentos, mas ali debateram-se com outro espetáculo: era o crepúsculo de uma quarta, e nem o sol moribundo como fonte de iluminação deixou de projetar nas muralhas daquele covil um sem número de silhuetas lascivas, concebidas a partir dos periódicos estocados em caixas e armários, tantas as revistas eróticas quanto as categorias de depravação.

A viúva, mulher franzina e apagada, cheia de hesitações, se não foi molestada pelas protuberâncias e quinas o foi pela simples existência, pelo que viu e sentiu ao defrontar-se com as obsessões do falecido. Colocou uma das mãos na testa e a segunda no peito, e acudida pelo neto, que antes enxotou o animado chaveiro, sentou-se de cócoras.

Ai, ciciou Helena, como dói.

Tamanho susto resultou no cancelamento da missa de sétimo dia e no silêncio dos familiares, e já então, graças à faxineira, conhecidos e desconhecidos discutiam o evento e os mal-intencionados atribuíam tais indecências à viúva e não ao velho. Roger, o neto, desdenhando as fofocas e servindo-se do sono barbitúrico de sua avó, com interesse técnico folheou uma ou duas, ou três ou trinta, e ao decidir livrar-se delas recorreu a um terceiro, desembolsando o triplo do acertado quando o mesmo viu as gravuras e recusou-se a trabalhar.

Ante o sorriso do porteiro levaram-nas dentro de caixas e despejaram-nas numa carroça, e depois de seis viagens o aposento enfim cintilava, em harmonia com o crucifixo acima da janela. Por ela ingressavam os raios da tarde silenciosa, destacando-se nos móveis um suor endurecido como cera de vela, estrias feitas à unha e, no chão, entre os ladrilhos de madeira, fios de musgo, e isso viu Helena da última leva sair. À noite sua ínfima compleição assumiu outra estatura sobre a cama, onde esparramou-se alegre, satisfeita, joelhos escancarados e ventre arejado, dir-se-ia uma vítima de atropelamento. De manhã acordou com os automóveis, e após saborear o café armou-se de esfregão e balde, decidida a tornar o escritório habitável. Para lá foi assoviando, e sua felicidade excedia, e muito, o luto, não mais expresso na escuridão dos trajes ou no cansaço do rosto, resultando esse sentimento de uma ingenuidade e devoção animalesca ao presente. Saltitante, largou os utensílios ante a porta, e de abrir a fechadura esmoreceu: o quarto, novamente, estava atulhado de revistas pornográficas.

Ao vir em seu auxílio, o neto, impaciente, questionou-a, indagou se não era ela quem servia-se da ocasião com o intuito de jogar fora as suas, e só suas, imundícies, mas a velha, usando de argumentos lógicos e lúcidos, demonstrou que não teria a força exigida para movimentar tanto peso, ou mesmo que as dimensões do apartamento não comportariam tal volume.
E, de noite, não ouvi nada, assegurou.
Ríspido e nervoso Roger chamou o papeleiro, que ao ir embora em sua carroça era acompanhado por um séquito de bêbados alvoroçados, malucos desnudos e crianças peçonhentas, todos enfrentando as chicotadas do condutor e disputando as brochuras que porventura caíam. Essa madrugada Helena enfrentou desperta, virando-se e explorando os limites da cama, ouvindo os roncos do neto que, desconfiado da avó, pernoitou na sala e com a aurora redescobriu pela terceira vez o aposento atulhado de publicações, um pôster orgiástico exibindo-se num dos armarinhos.

Mas isso é o cúmulo, ralhou ele, e Helena lacrimejava ao seu lado.

Desconsolados, neto e avó sentaram-se e discutiram a ocorrência. Bebericando água com açúcar, chegaram à conclusão de que nenhuma hipótese verossímil explicaria o fenômeno, e por fim reputaram o mesmo a uma assombração. Helena prontificou-se a convocar o pastor local, Benício, e feita a ligação telefônica no mesmo dia o religioso adentrava a sala e alisava as revistas com o cuidado de quem maneja explosivos. Era um homem de noventa anos, forçado à pequena estatura pelo tempo, mas outrossim enérgico, com mãos translúcidas e compridas, desproporcionais ao corpo. Disse ele que não era aquele um caso de assombração ou possessão, era sim a mítica figura da câmara erótica, descrita no evangelho apócrifo de Rocco e nas crônicas de Zabed, o sábio, além de mencionada em numerosos episódios da história ocidental e oriental.

Essa câmara, essa distinção arquitetônica, disse ele, é a manifestação sexo-espacial do universo, um local destinado às múltiplas variantes carnais existentes. Secando o canto da boca com seu lencinho, também disse que alguns eruditos inferiam a possibilidade de tais recintos serem expurgados via liturgias heréticas, e a terminar seu discurso trancou-se no aposento e enfrentou a madrugada e sabe-se lá quais e quantos demônios, com as últimas estrelas assomando dali abatido, o braço direito caído e sem forças.

O rito falhou, confessou ele à viúva enquanto Roger encaminhava-se ao escritório. O rito falhou. Envolvia seus olhos avermelhados uma bolsa de escuridão, e trêmulo e fora de si quis tascar um beijo sulfuroso, final, em Helena. Lutaram os dois, e arranhando-o de cima a baixo, chutando-o na canela, conseguiu expulsá-lo dali. Roger, retornando do quarto, ao ver a avó perguntou se Benício fora embora, pois nada ouvira do embate. Ela nada falou, abatida, somente abraçou o neto e entreviu, no bolso de sua calça, uma revista enrolada.

Vou descansar, disse, soltando-o, e evitou seu rosto. 

Mas e a senhora não sair um pouco, esquecer esse lugar, indagou ele.

Helena recusou a oferta. Queria dormir, descansar, e de Roger sair, convencido, agarrou ela um frasco de álcool e uma caixa de fósforos e dirigiu-se ao escritório. Sentou-se na cadeira do falecido, rota e rasgada mas nunca rangente, e dali observou o local. Premiam-lhe os lábios a infeliz musculatura da boca e uma maçaroca de rugas acinzentadas. Suspirou a viúva, avó e mulher, e pegando do chão uma publicação intitulada ‘Colegiais Japonesas Albinas e Tentáculos de Outro Mundo’, massageou os seios combalidos e deu-se por vencida.





sábado, 20 de outubro de 2018

RETINAS

(trecho de um dos capítulos de O Jardim dos Anjos, romance deste mesmo autor)


As retinas da pequena Marie D´Amboise não tinham dimensão do que estavam captando. À sua frente um mar azul se acarpetava, no estreito entre duas fortalezas com canhões que espiavam de suas janelinhas os que chegavam e os que saiam, ora cuspindo fogo aos malvindos, ora celebrando a paz em silêncio. Nem enxergou como deveria enxergar o mar que se se abria a um contorno de montanhas cobertas de florestas e algumas pedras infinitamente pontudas, postas sobre um filete nem branco nem bege, mas cor de areia, coisas que a menina desconhecia. Atentou para os salamaleques de boas vindas de um cardume de botos, sorriu, apontando seus bracinhos para eles como que quisesse acaricia-los.  Desapercebeu-se que à sua esquerda, uma escultura imensa de granito paleozoico surgia de dentro do mar em direção ao céu, quando interjeições maravilhadas soaram ao seu redor
Que belle, que belle, que belle.
O vapor seguiu lentamente espumando as águas comboiado pelo cardume saltitante e Marie desviou sua atenção para uma montanha pontuda à sua esquerda, um tanto longe do convés, bem atrás de um filete de areia, algumas pequenas casas e uma densa floresta tropical, mas suficiente para que ela apontasse para o tal topo distante e cutucasse a mãe:
- Mama, je regarde Jesus.
A mãe carola arrepiou-se e fez o Sinal da Cruz. A menina não via o que via, mas via o que imaginava. Décadas depois, uma imensa estátua de Cristo de braços abertos foi colocada naquele cume.
Nenhuma novidade para a menina que sempre vislumbrava Deus em tudo de bonito, generoso e exuberante que a Natureza lhe apresentava.  Conheceu assim à primeira vista e aos seus 3 anos e 8 meses de idade, sentada no colo da beatíssima mãe Chloé de Chandizont, o que depois lhe contariam que se chamava Riô de Janeirrô, cidade emergente, exótica, calorosa e promissora, para onde a euforia inovadora e aventureira da Belle Époque empurrava vapores e grandes veleiros.
A bordo de um deles, embarcara a pequena família Chandizont, cujo patriarca, o Professeur Docteur Pascal Pierre Chandizont, jovem cientista e curioso pelos trópicos, resolveu deixar o Vale do Loire para conhecer a fundo e cuidar de mazelas típicas de paragens quentes e úmidas da América do Sul. Riô de Janeirrô não poderia ser melhor destino: ali mesmo, em pleno 1900, nasciam o Instituto Soroterápico Federal de Manguinhos - perfeito para Pascal se sentir em casa – e residências em estilo francês num bairro próximo, igualmente perfeitas para um novo lar dos Chandizont.
Sem confrontar com o pensamento cientifico do marido, que jamais desassociava a fé cristã dos caminhos da ciência, Chloé sentia-se uma freira sem nunca ter sido. Sua devoção a Deus era tamanha que foi abençoada com uma filha que nascera com a vocação das missões divinas. A menina cresceu na paz de Cristo e com um calor desgraçado. Suava e abanava-se pelas ruas, ainda com seus leques e vestidos franceses, mas sem grandes estranhezas com o novo cenário que a acolhia.
Mas as retinas de Marie D´Amboise, como sempre, não tinham dimensão do que estavam captando.  Via o que queria ver, não enxergava o que estava para ver. Desapercebeu-se que um fim de tarde chuvoso e encalorado, lágrimas manchavam a gravata de seda do pai, enquanto os dois assistiam Chloé arder em febre e prostração sobre a cama. Se o destino lhe acenou com felicidade ao cruzar a entrada da Baía de Guanabara, o mesmo destino lhe sorria irônico, quando a peste bubônica entrara com ratos sem pedir licença na sua casa de estilo francês e se instalou nas entranhas de Chloé. Logo a peste bubônica, que por tantas noites de estudo e experiência sorvera as energias de Pascal. Logo a peste bubônica, que levou o Governo a caçar ratos e pagar por eles – e descobriu mais tarde que muitos criavam o roedor transmissor para trocá-los por dinheiro público. Logo a peste, cuja vacina estava quase no ponto de ser testada em cobaias – já que a população se recusou a experimentá-la, gerando as primeiras revoltas populares urbanas da História do Brasil.
Logo a peste bubônica, que ironia. Muito injusto que a primeira cobaia fosse sua mulher, mãe de sua pequena Marie. Em menos de uma semana, Chloé definhou e faleceu.
Pascal enterrou a esposa como se fosse ele mesmo um zumbi. Não chorou, não olhou para a morta, não perdeu o olhar para o horizonte. Deixou o cemitério para casa na mesma carruagem fúnebre que levara a esquife mais cara que a cidade podia oferecer. Foi ao lado do cocheiro, com Marie já com sete anos no seu colo. A menina também estava apoplética, porem resignada. Não olhava tão longe como o pai, mas fixou as retinas no balançar dos penachos roxos dos cavalos à sua frente, e manteve um silêncio interiorizado até chegar em casa. Lá, sim, correu para os aposentos dos pais, abriu o armário da mãe e abraçou todo vestuário de uma vez só, até derrubar o cabideiro inteiro. Rolou no chão enfurnada na panaria, chorou alto, chorou baixo, soluçou o mais que pode, gritou e chamou baixinho pela mãe. Enfiou o nariz molhado em todas as dobras, rendas e babados, pelos anversos e avessos, como se mergulhasse no cheiro de um passado que não poderia ter passado assim tão de repente. E quando não havia mais choro a chorar, arrastou seus joelhos até ao altar que Chloé trouxera da França, com a imagem piedosa da Santa Françoise D´Amboise.
A santa fora uma beata da Idade Média de origem nobre, que ao enviuvar de um Duque, entrou para o Carmelitas de Nantes, onde alcançou a missão de Priora do Convento. Depois de sua morte, foi canonizada por tanto cuidar de crianças enfermas e – por ironia do destino ou desígnios sábios de Deus – faleceu da mesma doença que ajudava a curar, para servir de exemplo de entrega, de desapego à própria vida para salvar outras vidas. Chloé e Pascal batizaram sua filha única com o nome D´Amboise – sem saber que Deus também elegera sua família para desapegar-se em função de outras vidas.
Depois de muitas orações diante de Santa Françoise, a menina correu para os braços do pai no avarandado, que ainda mirava olhares para os horizontes infinitos. Pascal recebeu um abraço firme, caloroso e da menina.
- Papa, quero ser freira.
O desejo da pequena Marie de ser freira não pegou Pascal de surpresa. O lar, agora combalido, sempre recebera fluidos de fé na presença de Marie, seus vislumbros e seu enxergar além das retinas. Seu destino não poderia ser interrompido pelas trapaças do próprio destino. Pascal era sábio e racional. Na mesma semana, tratou de matricular a filha no Liceu da Purificação, um colégio religioso preparatório para noviças. E assim Marie deu seu primeiro passo à sua vocação de devoção a Deus e caridade com os desfavorecidos, seja pela enfermidade, seja pelas desfavorecidos de uma sociedade que emergia injusta e cruel, com quem não havia nascido em berço esplêndido. Não que os Chandizonts teriam nascido nesse berço, mas por Deus, já eram considerados nobres e abastados em suas atitudes.
Assim que Marie fora entregue aos cuidados do Liceu Nossa Senhora da Purificação, Pascal lhe ofereceu um profundo abraço, que se misturaram a grossas lágrimas na porta do colégio interno. Foi a menina que consolou o pai.
- Allez  papa, Deus e mama estão olhando por você.
Após desfazer o sonho de um lar no Riô de Janeirrô e deixar um estudo profundo no Instituto Soroterápico de Manguinhos, Pascal embarcou num vapor em direção ao porto de Marseille. Deixava para trás uma cidade linda, uma experiência frustrante, várias saudades e uma dor. Mas se é que para toda dor existe um alívio, ao chegar na França, Pascal recebeu a notícia que a vacina que ajudara descobrir, estava começando a salvar vidas.








quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Dois poemas de Beatriz Bajo







é preciso calar
.

é preciso calar os silêncios
inflamando as urgências

é preciso colar
as distâncias
é preciso colher
pra cada fome secreta
é preciso colher
o que plantou seu pé

cada calo é
escrito em língua morta




dele (tua)


devorar cristais para cintilar tempos
no ventre vitralizado de sais e sóis
a sós, carregados embaixo das unhas
que arranharam a brasa do peito
enraizado nas quadras quadradas
cegas certezas ressuscitando
outras águas
correntes como hinos soprados
pelos olhos mágicos de todas as portas
não abertas
ainda
umedecer as plantas dos pés
crescidas em solo dourado
país de mim, diretriz
rasgo o peito com a unha
suja de sol
solto a égua que cavalga sobre ele
danço sobre ele
e sou patrimônio tombado
preserve-me











terça-feira, 16 de outubro de 2018

A Constituição de Tal

Foto: Faces em ovos de galinha, série criada por kozyrev-vjacheslav 


Domingo, oito da noite. Rua pequena, cidade grande. O tropel de cinco ou seis pares de botas não tem testemunhas senão a própria vítima. Socos, pontapés, massacre. Um grito de medo, muitos de impotência. 
Mais tarde, no leito de um hospital público, não é a dor que enlouquece o paciente, mas as palavras que estacionaram em seus ouvidos, como mantras do mal: Viado! Viado aidético!
João José Manuel Raimundo de Tal tem a cabeça rachada em três lugares. Ou, para falar no jargão médico, sofreu traumatismo craniano. Sofre, ainda, da incredulidade de que tudo tenha mesmo acontecido. 
Esse cenário de violência homofóbica repete-se dia sim outro também nas cidades, nos jornais e na história dos que apanham por serem diferentes do que lhes tenta impor a massa obtusa. Apanham por serem o que são. Pessoas. Como a bailarina cujos dedos do pé são feios e tortos. Como o mecânico cujas unhas estão sempre negras de graxa. Como a freira cuja fé repele os homens da Terra para se entregar à Trindade dos céus. Vontades libertadas por prazer, hábito ou fé. Escolhas. 
Enquanto isso, no hospital público, João José Manuel Raimundo de Tal, cidadão trabalhador, filho de alguém, irmão de alguém apalpa a cicatriz que desce pela face. Vidro cortado; enterrado com sadismo em sua bochecha. Quer entender também a cusparada que levou antes do corte. Porque cuspe é mais que dor de corte. É humilhação. E compreender a dor de desespero que arde e coça dentro do peito. Mais que a cicatriz.
O policial de plantão cumpre o seu papel. Anota nome, endereço, detalhes e dá a queixa como prestada. Segue para o próximo caso. Um travesti de programa. Estupro seguido de esfaqueamento. Ninguém responde por ele. O traveeti foi morto e o policial com a prancheta se aborrece porque acredita que preencher a papelada é tarefa menor. Ele pega bandido. Papel é coisa de babaca. Mas tem muito crime e poucos homens para cobrir a megalópole, cada vez mais inchada. 
João José Manuel Raimundo de Tal consegue um advogado. Um doutor que lhe conta a que leis vai recorrer para colocar atrás das grades os agressores, capturados em razão de novos ataques a homossexuais. De Tal presta atenção às palavras bonitas da Constituição brasileira. E acredita que, perante a lei, é igual a qualquer outro homem, protegido do preconceito, da surra, do cuspe na cara. Não sabe ainda que, no Brasil, a incoerência, o deboche e o ódio não acontecem pelo texto ilibado da lei, mas pela prática diária da impunidade, pelo abrandamento das penas, pela vilania disfarçada em bons modos. 
No tribunal, os skinheads são julgados. Seis meses depois. E condenados a prestar serviços à comunidade. Mas João José Manuel Raimundo de Tal não se impressiona com a morosidade da Justiça. Nem com o número de crimes similares de que são acusados os nazistas de cabeças-raspadas. Nem a pena branda. O que mais lhe chama a atenção é o juiz que profere a sentença sem olhar na sua direção ao menos uma vez. O juiz que repudia a homossexualidade de João José Manuel Raimundo de Tal. Mas que se faz de imparcial, porque é um homem de leis. 
A dor do traumatismo passou. A da cicatriz de dentro continua. Sem previsão de passar. É dor de preconceito. 





quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Veredas


Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado






terça-feira, 25 de setembro de 2018

Atlântida era uma ilha


O continente de Atlântida era uma ilha

Que existiu antes da grande inundação
Na área que agora chamamos Oceano Atlântico.
Donovan — Atlantis

Paulo estava a dar as primeiras chuveiradas no “Ruca”, quando recebeu uma chamada em tom de secretismo de Henrique, o seu ex-colega do secundário e companheiro esporádico de pesca no paredão de Paço d’Arcos.
Podes falar? — perguntou Henrique, encostado ao ancinho metálico, a um canto de um relvado de Odivelas que fora incumbido de varrer nessa manhã pelo chefe da brigada municipal de jardineiros.
Espera só um momento — pediu Paulo, a arranjar tempo para ligar o sistema de auricular ao telemóvel. — Diz lá!
Voltaste a saber mais alguma coisa da Andreia? A “Coca-bichinhos”!
Henrique referia-se a uma colega de ambos do secundário, morena e de oculinhos, que tinha sempre boas notas, especialmente a Estudo do Meio. Na altura, chegaram a fazer todos parte do mesmo grupo, mas a faculdade separara-os: Henrique fora para Antropologia, Paulo para Veterinária, e Andreia para Oceanografia.
Não, porquê? — respondeu Paulo, de novo a aspergir com a mangueira o cavalo de pelo avermelhado da escola de equitação de Fontanelas, em que trabalha a recibos verdes.
Encontrei uma publicação dela na Net, uma tese. Parece que está a fazer o mestrado em Paleoceanografia na Universidade do Algarve.
Ah, fixe! Conseguiste o contacto?
Não, na tese não tem nada. Nem encontro a página dela no facebook. Mas bem que gostava de lhe falar. Se calhar, um dia destes, ligo para a Universidade. Queria tirar umas dúvidas… A tese dela deu-me volta à cabeça — desabafou Henrique, também de auricular no ouvido e de novo a recolher a folhagem que as árvores largaram sobre a relva.
Então, por quê? Agora interessas-te por Oceanografia?
Lembras-te da nossa conversa sobre mitos, há quinze dias? — lançou Henrique, sem responder à pergunta. Falámos da Atlântida… Porque tínhamos estado a ouvir o velhinho Atlantis, do Donovan. Estive a pesquisar essa lenda e fui parar à tese da Andreia — esclareceu Henrique. — É por isto que te estou a ligar: ou o relato do Platão sobre a Atlântida reflete um acontecimento histórico, no sentido de verdadeiro, acontecido, ou a coincidência é inacreditável. Mas depois falamos melhor. Vamos lá no domingo?
— … Atlântida? Oh, pá, um continente no meio do Atlântico, com uma civilização avançadíssima, e que ainda ninguém encontrou… — gracejou Paulo, depois de uma hesitação, ao ouvir na mesma frase “Atlântida” e “acontecimento histórico”.
Sentindo que o ponto da conversa era crucial, Henrique encostou a vassoura ao carrinho de dois contentores cilíndricos em que tem acumulado os resíduos vegetais do jardim e acendeu um cigarro. Parece-lhe que o fumo o ajuda a pensar.
Ok, ok! Sabemos que os mitos são pouco credíveis, mas, mesmo assim, tomamos alguns senão como verdades, pelo menos como conceções do mundo que estruturam as nossas vidas. Talvez por terem caráter inspirador e gerador de atração sobre as pessoas — nós. Olha os anjos-da-guarda, olha as fadas, olha as mouras encantadas! Ao longo dos séculos, temos vivido, e vivemos, embebidos em mitos, ou não?
Sim, sem dúvida — condescendeu Paulo, a espalhar espuma sobre o pelo do cavalo, que vai buscar a um balde com uma esponja. — Os mitos fazem parte da nossa cultura, formatam-nos, mas não passam de uma espécie de histórias de um universo maravilhoso, sem fundamento objetivo ou científico. Por isso é que lhes chamamos mitos, coisas pouco credíveis, crenças injustificadas.
Pois, mas, se calhar, alguns são sedimentações de algo real, mas cujos fundamentos se perderam — insistia Henrique.
Diz-me um!
Olha, por exemplo, o Adamastor dos Lusíadas é muito credível como hiperbolização das enormes vagas oceânicas! E as mouras encantadas como exorcização das tentações suscitadas pelas belas e enigmáticas mulheres berberes. E o dilúvio, que aparece na tradição oral de todas as culturas?
Tá bem, mas não me venhas falar da Atlântida! Só porque o Platão falou dela com tantos pormenores como se a conhecesse de a visitar, não quer dizer que não tenha inventado tudo!
Não! A descrição dele é realmente impressionante, mas qualquer escritor mediano consegue descrever um local com tal carga de pormenores que parece falar de coisas reais, que conhece. Não; eu falo de uma coincidência tal que leva a admitir que, se a Atlântida não existiu, há conclusões científicas indiretas que apontam causas para a sua destruição na data indicada por Platão.
Causas para a destruição do que se calhar não existiu? Que formulação mais bizarra! Que coincidência é essa? — interessou-se Paulo, a secar o cavalo com panos de feltro.
Assim à distância, é difícil explicar-te. Queria mostrar-te um gráfico das temperaturas médias do mar nesses tempos da Atlântida. Podemos falar disso no domingo? Apareces?
*
Claro que no domingo seguinte Paulo apareceu no paredão, munido de duas canas, um saquinho de isco e um balde. Atacou de imediato:
Então, mostra lá esse gráfico!
Henrique puxou do telemóvel e mostrou ao amigo um gráfico que supostamente representava as temperaturas médias na Gronelândia entre há 80.000 anos e o presente. Parecia haver uma constância relativa muito grande entre o início do gráfico e a zona de há 15.000 anos, altura a partir da qual o gráfico mostrava várias enormes oscilações, encerrando com outro longo período de grande constância entre os 10.000 anos e o presente, mas de temperatura uns vinte graus mais elevada.
Antes de mais, como é que sabem? — perguntou Paulo, desconfiado e farto de teorias da conspiração.
Não acredito que perguntes isso… — começou Henrique, mas achou por bem tentar explicar: — Também não te sei detalhar as técnicas; sei que os cientistas engendram os mais incríveis processos para conseguirem as respostas que precisam, ainda que por métodos indiretos. Para a temperatura da Gronelândia, extraem amostras cilíndricas da capa gelada e analisam a composição dos vários estratos temporais em quantidade e tipo de micropartículas. Para determinarem a temperatura da superfície dos oceanos ancestrais, medem o volume e o tipo de micro-organismos mortos, contidos no estrato de lodo de cada período. Esses seres eram plâncton que vivia à superfície e cada espécie tinha a sua maior população a determinadas temperaturas. Conseguem assim aproximações muito fiáveis. Foi nessas medições que a Andreia trabalhou, para a tese.
Ok, acredito — avançou Paulo, a afastar a chateza do discurso técnico. — Mas o que é que a Atlântida tem que ver com micro-organismos?
Então, relembrando: Platão escreveu no Timeu e no Crítias que um sacerdote egípcio contou ao grande Sólon que, para lá das colunas de Hércules — o atual estreito de Gibraltar —, havia uma ilha enorme, em pleno Oceano Atlântico, com uma grande civilização e um grande poderio militar, mas que foi destruída por terramotos e se afundou 9.000 anos antes dele, Sólon, isto é, 9.600 anos antes de Cristo.
Hum, já não retinha esses pormenores. E então?
Então, olha para o gráfico e diz-me o que vês aqui, nos 9.600 anos antes de Cristo… — apontava Henrique.
Paulo olhava, mas não tinha a certeza do que o amigo queria mostrar. Henrique prosseguiu, apontando com o dedo:
Depois de um longuíssimo período glacial, iniciado mais ou menos há 80.000 anos, houve um violento aquecimento, aí há 14.500 anos. É este traço quase vertical. Voltou a arrefecer, aos solavancos, durante quase 3.000 anos e voltou a subir violentamente há… 11.600 anos. Ou seja, 9.600 anos antes de Cristo. É este traço que mostra um aumento “brusco” de temperatura de uns 12 graus. Depois, pesquisa “Younger Dryas”!
Henrique fez uma pausa, à espera de uma reação.
Não dizes nada? — acabou por perguntar.
Tá bem, aqueceu, e daí?
Não é fantástico? Não achas extraordinária esta coincidência de Platão indicar, com tanta precisão, uma data na qual a ciência atual afirma que realmente aconteceu algo dramático, como prova este gráfico — um brutal aumento de temperatura? E, como é lógico, há uma consequência intimamente relacionada com o aumento da temperatura global — o degelo das calotes polares e a subida dos oceanos. Agora, andamos preocupados em travar o aumento global da temperatura no planeta nos 2 graus desde a Revolução Industrial, mas as temperaturas deduzidas de amostras da capa gelada da Gronelândia indicam, para aquela época, uma subida de uns 10 ou 12 graus, em poucos anos, talvez menos de cem. E outros estudos são perentórios de que o nível do mar subiu entre 100 e 140 metros, desde então. Não é fantástico? Essa subida terrível das águas pode ter simplesmente submergido a Atlântida, ou o aumento avassalador e repentino do peso de tanta água pode ter provocado fraturas dos estratos submarinos, com os consequentes terramotos.
Eh, pá! Realmente! Incrível! Isso é muito interessante!
A crosta terrestre é uma casquinha maleável, mas quebradiça. Por essa altura — ouvi eu numa aula —, terão desaparecido um ou dois quilómetros de espessura de gelo na Escandinávia, o que teve como consequência a elevação dessas terras. O peso dos gelos deslocou-se lá de cima para os oceanos, em água. É fácil aceitar que esta basculação de enormes massas pode ter provocado reajustes das placas submarinas, com abatimentos das placas e tsunamis consequentes. Talvez tenha sido essa inundação avassaladora que deu origem às lendas diluvianas que atravessam todas as culturas.
Paulo manteve-se uns momentos calado, a digerir o que ouvira. Depois, reagiu:
Tudo isso até pode ser verdade, mas não prova a existência da Atlântida…
Claro, eu também não afirmo isso, mas temos de concordar que é de uma coincidência perturbadora.
Depois de iscarem os anzóis, os lançarem para bem dentro do rio, e se instalarem nas rochas próximas, prosseguiram a conversa sobre o tema, enquanto esperavam que algum peixe picasse. Como seria o estuário do Tejo, quando o nível do mar estava 100 metros mais baixo? A quantos quilómetros estaria a costa? Seria fácil aos africanos atravessar o Mediterrâneo, para a Europa. Talvez de ilhota em ilhota, com a ajuda de troncos, como Henrique ouvira numa aula sobre a Arte do Paleolítico.
Se calhar, não morriam afogados aos milhares, como nos nossos tempos tão evoluídos… — considerou Paulo, amargo.
E imaginaram o drama de todos os grupos humanos — vivessem na lendária Atlântida ou tão só nas inúmeras costas da Europa Ocidental —, ao verem as águas invadirem em poucos anos as suas áreas de instalação, a cada ano um pouco mais acima. Refletiram em como estaremos em vias de viver tempos com problemas semelhantes — de que a subida das águas é só o mais evidente —, devido ao inquestionável aquecimento global.
Sabes que já se vão apanhando, nas nossas costas, peixes que antes só se encontravam em meios sub-tropicais? — adiantou Henrique. — Li há dias. Pescada do Senegal, sável africano, peixe-porco…
E questionaram a clarividência das respostas de agora, que não parecem muito diferentes das de então.
Nesses tempos, talvez se invocassem as divindades marinhas e se realizassem sacrifícios para que elas se tornassem propícias — conjeturou Paulo. — Agora vemos esforços igualmente inglórios e de aparência mágica, como é tentar travar o avanço do mar lançando para as praias ameaçadas milhares ou milhões de metros cúbicos de areia… Que o mar leva de seguida.
O Homem continua a não ter uma noção clara da sua pequenez, em face de forças desta amplitude. E se os oceanos subissem 100 metros em cinquenta anos? — dramatizou Henrique.
A conversa trouxera à tona da consciência alguma inquietação que habitualmente se mantinha submersa. Numa consulta ao smartphone, Henrique mostrou-se alarmado.
Está a acontecer. Olha para isto!
A notícia ecológica do dia era a separação de um iceberg de 6000 quilómetros quadrados, da placa antártica. Um vídeo aéreo mostrava uma falésia de gelo sobre o oceano, com uma extensão a perder de vista.
Diz aqui que é do tamanho do Algarve e que corresponde a mais de 1.100 quilómetros cúbicos de água — o cenho de Henrique carregou-se.
A conversa cessou. Mantiveram-se calados por muito tempo, olhos postos na água que até então sempre lhes parecera tão hospitaleira. A ténue sensação de estarem a prever o futuro — um futuro ameaçador — dava-lhes um aperto no peito.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Nicholas Roerich, A destruição da Atlântida, 1928.

* * *