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terça-feira, 17 de julho de 2018

Rua 1 - Fragmento de Nestor de Miranda



RUA 1



Bahia com Afonso Pena, uma hora da tarde, domingo.
Um homem, de mãos dadas com um menino de
menos de seis anos, vem pelo passeio, em direção
oposta a minha. O menino − com um sorriso trivial,
dolorosamente inocente − aponta para um canto (sujo)
da calçada e diz:

− Olha, pai, é ali que a vovó ficava.

O homem nada fala: franze o cenho, segura a mão da
criança com um pouco mais de força, aperta o passo.
Seguem, desaparecem entre os transeuntes.

− Olha, pai, é ali que a vovó ficava.




Do livro Silhuetas (Editora Calamares).



A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre


https://www.editoracalamares.com.br/
https://conformitatisosor.wordpress.com/







segunda-feira, 16 de julho de 2018

Opinião

(Ilustração Claudio Delamare, feita para este  conto — in memoriam)

Discutiram desde os primeiros encontros. Porque ele gostava de cães e ela amava gatos. Porque o melhor dia da semana era sexta-feira, mas não para ele, que preferia o sábado. Assistir ao jogo ouvindo rádio, coisa de maluco, ela debochava. Ou não, rebatia ele. Lavar os cabelos todos os dias. Ou em dias alternados. Tomar chope com ou sem colarinho. Ser protestante. Ser católico, espírita, budista, ateu.
Com os anos, casaram-se. Igreja ou cartório. Poucos ou muitos convidados. Pela manhã, no inverno; à noite, na primavera. Não tiveram filhos. Ninguém queria. Mas discutiram até sobre os porquês. Ela, porque era mulher de carreira, bem sucedida e sem tempo. Ele, por qualquer motivo diferente do dela. 
Carro branco; moto preta. Macarrão com molho de alcaparras; camarão na moranga. Lispector, a melhor. Hilst, a incomparável. E enquanto ela escutava jazz no home theatre, ele aumentava o volume dos clássicos no headphone.
Discutiram muito sobre sexo. O deles, o dos outros, o dos anjos. E sobre a cor do mar: azul, verde, acinzentado. Sobre verduras, estrelas, rodapés, sentimentos, fantasmas, sogras, drogas, duendes, países, escovas de dentes. Cada um seguiu em frente — com sua couve ou agrião, com hipernovas ou anãs, com sua Áustria ou Dinamarca. Prontos, sempre, para a próxima rodada de opiniões.
Quando ela ficou doente, discutiram sobre o diagnóstico, antes e depois de o médico dizer que era grave. Tratamento tradicional ou alternativo. Em casa ou no hospital. Com ou sem cirurgia. Ela pediu para morrer. Ele disse que não.
Ela morreu assim mesmo.
Ele foi para casa. Fechou as cortinas, arrumou, lavou, recolheu o lixo. Recolheu em algumas malas tudo o que era dela. Depois, carregou para o quarto o porta-retratos prateado e o colocou no travesseiro ao seu lado. 
Antes de dormir, disse para a foto dela: 

Você diz que morreu.  Mas amanhã nós vamos discutir sobre isso, viu?







segunda-feira, 25 de junho de 2018

O incendiário


«Tudo menos troça!» Mauro pediu mais uma cerveja. Mantinha na retina a imagem da jovem em risinhos e a cochichar com as amigas, na véspera. É claro que era um falhado, toda a gente sabia isso, mas troça é que não. Para a menina do papá era muito fácil rir-se dele. Não tivera de passar pela experiência de dormir debaixo de um viaduto, na vila; não tinha de aceitar o trabalho que aparecesse, fosse ajudante de trolha, fosse ajudante de cargas, na serração. Com 19 anos, ele não tinha um telemóvel de jeito, não tinha carro, não tinha amigos, não tinha nada. Vivia com a mãe viúva, sempre com recomendações; que se esforçava, mas não lhe dava um mínimo para um rapaz dos tempos atuais. Às vezes, não lhe dava nem trocos para ir ao café. Ficava a ver televisão em casa, mundos magníficos tão diferentes da sua aldeia encravada entre montes cobertos de pinheiros e eucaliptos, revoltado com a sua vida sem futuro.
Saiu do café e acendeu um cigarro. Caminhou na direção oposta da sua casa, ao longo da estrada iluminada por alguns candeeiros esparsos, que ladeava a pequena ribeira que atravessava Lage Fundeira. Passou em frente da vivenda de Carla. Imaginou-a em frente a um computador, a trocar piadas com amigas e amigos. Voltou a lembrar-se do riso dela. Um incómodo voltou a atravessá-lo. Prosseguiu até as casas acabarem e sentou-se numa pedra a ouvir a ribeira. Aquele enorme silêncio, em vez de o acalmar, trouxe-lhe uma visão clara do seu exílio. Só, abandonado, miserável, esmagado debaixo de toneladas de pasmaceira.
Cheirou-lhe a fumo. Mais uma vez. Na véspera, o fogo andara numa serra não longe dali. Tinham lá estado os bombeiros e a televisão. Uma animação enorme. Se tivesse carro, tinha lá ido ver. Acendeu outro cigarro e observou o insinuante bruxulear da chama do isqueiro. Baixou a cabeça, pensativo.
Quando os bombeiros chegaram, meia hora e tal depois, Mauro observava da janela de casa o fogo a alastrar pelo mato próximo da zona onde o incêndio tinha começado — uma pequena várzea de feno seco do pai de Carla. Um autotanque e um carro de transporte com 8 bombeiros, num alvoroço de sirenes, postaram-se na estrada contígua ao fogo. Com grande agilidade e rapidez, os homens desenrolaram mangueiras, puxaram-nas, avançaram em direção ao fogo, e lançaram jatos de água sobre o mato em chamas. Era belo e empolgante. Mauro chamou a mãe e saiu de casa a correr. Para ver de perto o ataque às chamas e ajudar aqueles homens esforçados. Pouco depois chegaram mais dois autotanques e outros carros e em menos de outra meia hora estava o fogo dominado. Ainda andaram por ali muito tempo, para assegurar o rescaldo, a Guarda alvitrou que devia ter sido uma ponta de cigarro acesa atirada de um carro, mas depois foram-se todos embora e Lage Fundeira voltou ao sossego característico. Fora tudo tão rápido, que nem apareceu a televisão.

Mauro não gostou de tanta eficácia. Esperava que o incêndio durasse pelo menos um dia, mas nem sequer pôde ver um helicóptero a lançar água sobre nuvens de fumo e chamas. Tinha de ser mais esperto, planear minimamente, executar sem ser de impulso.
Na segunda-feira seguinte, ao lusco fusco, Mauro desceu à azenha velha, depois tomou o antigo trilho dos moleiros, serra acima. Meia hora depois chegou a um barrocal, a que chamam Fraga do Mocho, que agora está envolvido por uma mata de urzes e giestas. Escolheu uma área bem densa e seca e instalou o seu engenho — uma cana oca cheia de musgo seco, com uns vinte fósforos na ponta. Junto a essa ponta, três acendalhas e uma boa dose de caruma, e gravetos de giesta. Depois de confirmar que tudo estava estável e aplicado conforme tinha pensado, acendeu a ponta inicial da cana e afastou-se para um ponto da serra afastado mais de cem metros, de onde podia assistir ao eclodir do fogo.
O engenho não o desiludiu, nem o resultado. Assim que o musgo em brasa atingiu os fósforos, foi tudo muito rápido: chamas surgiram, os gravetos incendiaram-se, em breve a giesta a que estavam ligados começou a arder e depois outras giestas em todas as direções até o fogo atingir o eucaliptal anexo, onde as línguas de fogo começaram a trepar por dezenas de metros. Em pouco tempo, o incêndio tinha uma frente de quase cem metros e uma altura de vinte ou trinta. A salvo e com a retirada planeada, Mauro deliciou-se com a magnificência e a sofisticação daquele espetáculo admirável. A potência e o fulgor das labaredas impressionavam. As chamas dançavam e insinuavam-se por entre os estáticos troncos. O calor começava também a atingi-lo. Em êxtase, abriu as calças e masturbou-se à vista daquela visão luxuriante. O fogo alastrava com rapidez. O orgasmo intenso, com o seu efeito de alheamento, quase o pôs em perigo. Desatou a correr, apanhou mais à frente o trilho que trouxera e em vinte minutos estava em casa.
Essa foi uma noite em que Mauro não dormiu. Nem Mauro, nem os outros habitantes da aldeia. Em poucas horas, o fogo ganhou três quilómetros de frente. Pela manhã, o horizonte estava escondido por rolos de fumo negro e surgiram dois pequenos aviões de ataque a fogos a lançar grandes jorros de água sobre as chamas. Levantavam-se enormes nuvens de fumo branco. Parecia um cenário de guerra, ou, pelo menos, dos filmes de guerra. Pelo meio-dia, temeu-se que as chamas chegassem à aldeia. Houve ordem de evacuação, mas Mauro conhecia a região — foi instalar-se junto da ermida da Senhora do Alto, de onde podia continuar a presenciar o espetáculo das chamas e de todo o aparato para as combater. À tardinha, o fogo tinha ultrapassado a serra e mudado de concelho e todos puderam voltar a casa e contabilizar as perdas: quatro ou cinco palheiros ardidos, gados tresmalhados, muitos hectares de floresta queimados. O Telejornal mostrou uma reportagem do incêndio e, pela primeira vez, Lage Fundeira apareceu na televisão.

Um ano depois, Mauro continua sem amigos, sem namorada e sem trabalho certo, mas não está muito decidido a incendiar a serra outra vez. A encosta negra está longe de lhe transmitir os apelos lúbricos que a floresta verde proporcionava.

Joaquim Bispo

*
Este conto integra — páginas 91 a 93 — a 9ª edição da Revista LiteraLivre, em formato e-book, resultante de concurso literário de abril de 2018: https://issuu.com/revistaliteralivre/docs/revista_literalivre_9__edi__o

*
Imagem: António Grancho, Incêndio, 2003.

* * *





domingo, 24 de junho de 2018

A Esfíncter do Caráter



Na privada libertava-se dos encargos intestinais, o recinto silente senão pela turbulência da difusão abaixo, frias gotas violentando suas nádegas de querubim. Há cinco dias não desopilava as entranhas, há cinco dias sustinha no ventre o fardo de lapsos gastronômicos e falhas etílicas, e mesmo sendo homem de jamais exercitar as tripas em banheiros públicos foi constrangido a tanto quando um de seus orifícios ressoou feito as trombetas do juízo final, a sonora flatulência saturando o gabinete onde, por acaso e sorte, labutava a sós. Era manhã, a mais cândida e bela das manhãs, e lançando-se Juvenal ao toalete agradeceu e abominou a divina providência da carne e da digestão, trancou a fechadura e contemplou, com fascínio jamais antes exibido naqueles olhos inanimados, o trono de porcelana. Desafivelou o cinto, arriou a calça, sentou e aliviou-se num rompante, tudo rápido como a vertiginosa criação do universo; logo de pé, virou-se, e nas imundícies expelidas vislumbrou estrelas e astros, as radiantes constelações, e vislumbrou, também, preso na caixa d’água, um aviso com letras capitais: NÃO CAGAR. DESCARGA ESTRAGADA. Àquele alerta só temeu após pressionar o botão e descobri-lo solto e inútil, em seguida ouvindo o borbulhar dos canos e o escorrer de gotas entre os dejetos abaixo, que, diga-se de passagem, avolumavam-se para fora da água acumulada como as ilhas fétidas e horripilantes das histórias de terror.

Mas Juvenal não ingressara no serviço público por ser besta, ou apenas besta. Destrancou a fechadura, analisou o vazio do corredor e saiu do edifício central assim como entrou: sorrateiro, através de uma porta lateral da qual guardava a chave. Não atravessou a sala de recreação onde descansavam os colegas, já fartos do dia, do calor ou do frio, das horas intangíveis. Tendo o costume de compartilhar com eles o intervalo do almoço, e para que se sucedesse a insuspeita rotina, voltou ao seu gabinete e depois de alguns falsos minutos retornou ao edifício, à sala de recreação, no local percebendo o fôlego suspenso dos colegas, percebendo olhos arregalados, atentos, dois ou três deles a vigiar a passagem lúgubre e afastada que conduzia ao toalete. Em voz alta, mãos na cintura, questionou o silêncio opressivo, e a ele ninguém respondeu. Então ouviu gritos, balbúrdia, e saltitando até a entrada do acesso enfiou-se às cotoveladas entre o grupo ali reunido e viu duas mulheres a esbravejar, 

Um cagalhão desses é coisa sua, Suzana.

Pois a vaca cagalhona é você, disse a segunda. Argumentavam em frente ao banheiro, envoltas por um ar visível e pestilento como a bruma de pântanos ou cemitérios clandestinos, e ao término dessas últimas ofensas, leve epílogo das anteriores, atacaram-se e enlaçaram-se, morderam-se, o indivisível ímpeto da raiva contrariando as leis da física e das massas, as duas tombando no chão e arrancando mechas de cabelos enquanto Juvenal e mais outros a elas se dirigiam, não com a velocidade exigida pela urgência, mas com certa curiosidade e relutância. Precisaram de força e paciência, e separadas as duas Suzana exibia cravado na coxa esquerda um garfo torcido não obstante sangue nenhum escorresse do ferimento. Durante o sucedido Juvenal foi o mais prestativo dos socorristas, e o mais justo dos árbitros ao condená-las:

Duas mulheres desse tamanho e comportam-se feito crianças.

Mas sua reprimenda não surtiu efeito, e elas, separadas e contidas, xingavam-se aos berros, coisa que Silvério, o porteiro, expôs como solução emergencial a análise das câmeras de segurança para apurar quem por último visitara o banheiro. Dada a atmosfera obscura do local, ninguém viu os lábios de Juvenal embranquecerem, ou o modo estranho como se deixou na parede. Dirigiu-se o bando inteiro à sala adjacente, onde um computador armazenava as imagens, e sentando-se Silvério em frente à tela e digitando a senha, acessando a central de gravações, comentaram eles acerca do cheiro recém surgido, de queimado. Parado na porta, Astor, o mais velho dos funcionários, espiou em direção à sala de recreação e arregalou os olhos.

Fogo, gritou, e todos correram, engalfinharam-se numa fileira de empurrões e, em busca da saída, enfrentaram as chamas, cortinas e sofás flamejantes, enfrentaram a fumaça preta e condensada cujas linhas revoltas preconizavam a alegria da salvação. Com vinte minutos de incêndio o prédio crepitou e desfez-se em ruínas. Suzana e Sandra, as duas brigonas, em frente aos escombros choramingavam num abraço de paz e amizade, confortadas por colegas cujas máscaras de fuligem exibiam emaranhados de lágrimas.

Quando os bombeiros enfim assomaram à cena, nada restava senão a soturna estrutura do que parecia uma basílica de carvão, e, também, um morno resquício de sorriso nos lábios de Juvenal.





quarta-feira, 20 de junho de 2018

TOLERÂNCIA

  Fizeram 70 anos de casados Dagmar e Décio.
  As filhas Desirré, Domitila e Dulce, genros,
netos, bisnetos, parentada próxima e distante,
amigos de longo e pouco tempo sopraram velinhas em torno
da mesa. Era um bolo exuberante, escoltado por uma legião
de brigadeiros, cajuzinhos, bem-casados e línguas de sogra.
  Juarez, o churrasqueiro da vila, cuidou de tirar retrato.
- Um sorriso, seu Décio! Tá todo mundo feliz.
  Décio não mexeu uma ruga.
  Dagmar caçoou.
- Se ele rir, a dentadura cai.
  Até o vira lata levantou as
orelhas, abanou o rabo. Dizem que riu.
  Décio permaneceu de cara amarrada.
  Desirré, a mais velha, insistiu.
- 70 anos, pai. Três filhas, três genros, onze netos,
seis bisnetos, um casal de tataranetos e um batalhão de amigos! Vida linda, pai!
  Silêncio.
  Juarez já servia saideiras de linguiças, lascas de alcatra e iniciava a sobremesa:
banana d´água na brasa com canela e açúcar. O cavaquinho chorava Noel, Ernesto,
Jacob e Pixinguinha, prenúncios que a cervejada e o domingo iam longe.
As bundas gordas rebolavam aos pélvis e passos de pretensos mestre salas,
as crianças faziam com bolas de guardanapo lances de Copa do Mundo.
E Décio seguia estatuado na cadeira de vime, mãos entrelaçadas, um polegar
se enrolando no outro, o único movimento muscular existente.
- Vô Décio, vem dançar o miudinho.
- Deixa ele, Michele. Se seu avô está mexendo o dedo
é porque está agradado da vida.
  Um dos genros quis ser simpático.
- Seu Décio! Conta pra gente: qual o segredo de tantos
anos de casamento?
- Zíper.
  Foi só o que disse. Nenhum sorriso. Apenas um gesto
do polegar grudado ao indicador, percorrendo a boca de
uma ponta a outra. E foi eloquente ao seu modo. Repetiu:
- Zíper.
  Dagmar interveio.
- É fechecler, Décio. Para com essa mania de modernidade.
  Zíper.

Enquanto dançava-se, cantava-se e gargalhava-se, pelas telas
da memória de Décio passava um filme mal editado e de tempo
embolado, fragmentos de más lembranças.

- Calça pescando siri? É casamento de nossa primogênita,
Décio. Está um perfeito tabaréu.
  Zíper.
- Se é para passar o sábado no turfe, que jogue num cavalo
que não manca.
  Zíper.
- Vem pra casa, Décio. Larga esse carteado. Seu neto vai nascer.
Tomara que não venha a sua cara.
  Zíper.
- Você não desligou o filtro, Décio. Encharcou a cozinha toda.
Pega logo esse rodo, vai.
  Zíper.
- Serão numa repartição pública sexta-feira? Tem sirigaita aí.
Essa sua cara de songamonga não me engana.
  Zíper.
- A comadre Odete descobriu que o Jandir tinha uma amante.
Despejou água fervendo no ouvido dele. Ouviu, Décio?
Estou avisando: já botei a chaleira pra ferver.
  Zíper.
- O dinheiro da feira está minguando. É jogo, cachaça ou mulher?
Ou tudo junto?
  Zíper.
- Sonhei casar Domitila com cadete das Agulhas Negras. Diz que está
de flerte com um cabo dos Bombeiros. Menina sem ambição.
Puxou ao pai.
  Zíper.
- Décio, quantas vezes?! Bisnaga de creme de barbear na pia dá nisso:
escovei os dentes com Bozzano.
  Zíper.
- Isso é hora de me incomodar? Vai dormir, Décio! Não tem nada
pra você entre as minhas pernas.
  Zíper.
- O papagaio fugiu pro vizinho e está lá gritando
palavrão. Foi você que ensinou, diacho.
  Zíper.
- O vizinho queria tirar satisfações com você. Eu é que fui lá resolver.
  Zíper.
- Até a vizinhança sabe que você é de fritar bolinho.
  Zíper.

  Uma passagem peculiar emergiu das entranhas de Décio. Lembrou de uma
decisão honrada há mais de 20 anos.
- A partir de agora, só falo com você em inglês, velha chata.
- Tá, maluco, Décio? Você nem sabe dizer gudimôrningui.
- O que quer dizer isso?
- “Bom dia”, seu burro.
- Então nem “bom dia” eu digo mais.
- E você lá dá “bom dia” pra alguém? Só se for pras suas vagabundas.
  Zíper.

  Quase dez da noite. O chorinho aquietou, o pandeiro sossegou, a brasa
esfriou, o que sobrou do bolo esfarelou. Despedidas emocionadas, palmas
para o casal.
- Faz um discurso, Décio, diz alguma coisa. Os parentes vieram
homenagear a gente.
  Ziper.

  Atordoado com a gentarada alegre daquele domingo,
Décio só se deitou para lá de meia noite. De pijama listrado,
posicionou-se rijo. Pés juntos, mãos sobre a barriga, dedos entrelaçados.
Olhou fixo para o teto. Dagmar ensaiava os primeiros roncos.
- Dagmar... acorda, Dagmar!
- Que diabo, Décio! Resolveu falar?! Agora?!
- Não gosto de baunilha.
- O quê?
- O glacê do bolo tinha gosto de baunilha.
- Deixa de ser ingrato, seu chato. Dulce confeitou o bolo com
tanto carinho.
- Muita baunilha. Enjoa.
- Ah, vai amolar o boi. Vai no banheiro, vomita a baunilha e vê
se desce junto pelo vaso.

  A duas quadras da casa dos pais, Desirré embalava o neto caçula
que teimava em não dormir, quando ouviu palmas no portão.
- Dona Desirré, acho bom a senhora ir até a vila agora.
Melhor ir rápido.
  Descalça, de camisola, sem penhoar, Desirré largou a criança com
o marido e correu. Até que paralisou. Uma pequena horda de enxeridos
se aglomerava na entrada da vila. Lá no fundo, luzes de ambulância,
polícia e rabecão piscavam um ar de festa que não havia. Desirré se
espremeu entre os curiosos, escapuliu esbaforida do cordão de isolamento
e viu um corpo enrolado num lençol sendo colocado no papa defunto.
Viu dois policiais examinando uma serra de cortar pão ensanguentada.
Viu outros dois policias retirando o pai de dentro da casa em direção
ao camburão. Tiveram a gentileza de não enfiar um velho de 96 anos na
caçamba. Sentaram o infeliz no banco da frente, algemado com as
mãos para trás. Desirré voou, rodou pela viatura, socando lataria e janelas
fechadas. Décio olhou para a filha sem mexer uma ruga. Desirré olhou
o pai e se desmilinguiu em câmera lenta. E bateu mãos
e testa no vidro. E gritou em silêncio. E babou de soluçar.
E se descabelou. E se entupiu de baba e coriza. E pranteou de engasgar.
E deixou cair o pivô da frente.
A sirene começou a tocar. Desirré se jogou no capô de braços abertos e
viu pelo para-brisa manchas no pijama listrado do pai. Sangue
ainda fresco, respingado no rosto craquelado e nos últimos fiapos brancos da careca.
Viu os olhos do velho Décio querendo dizer tudo. Mas, sem coragem ou sem vontade,
diziam nada.
  Zíper.





domingo, 17 de junho de 2018

Livre epiderme



Livre epiderme







     A mão esquerda voltou a ser o que era, livre epiderme. Um dos dedos, o segundo, retornou ao seu estado inicial. O metal nele arranhava a grua do ônibus, o banco e a mesa de pedra. Sempre se ouvia quando tocava o mundo, lembrando que o vínculo era físico e sonoro. A pele não era mais pele, era pele e metal opondo-se às coisas. Agora, nada opõe-se ao mundo, a pele é novamente pele, única como sempre foi. As digitais da mão estão de volta, a mão que cumprimenta, segura, abraça, sem muita habilidade, mas com toda a vontade, agora, de volta ao contato puro. Sem intermediação.






























sábado, 16 de junho de 2018

Dos pesos

Duas calças, um vestido preto, um edredom de listras azuis. Confere. Já deixei pagos. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda para guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio; não cabe mais nada. Tem uma mala lá dentro. Tamanho gigante. Comprei hoje. Sim, no banco de trás pode ser. Mas é tão pouco peso que eu aguento sozinha. Eu aguento carregar até coisa mais pesada. Sim, eu volto semana que vem. Vou trazer mais peças. Dois conjuntos de blazer e saia, e um terninho. Não, não é tudo a mesma coisa. Terno tem calça. Conjunto pode ser de qualquer coisa. Tailleur. Chamava assim. Tinha que ser com saia. Terninho chamava slack. Acho que sumiram com um monte de palavras estrangeiras de uns anos pra cá. Os estrangeiros não sumiram. Só as palavras. Tem um francês que mora em cima de mim. Não. Acima. Não fede nem cheira. Tem cheiro de europeu, só isso. Bonito. Ô! Bonito. Se morasse em cima de mim eu ia gostar. Tem cara de bom amante. Faz barulhos de bom amante. Barulhos que não acontecem mais lá em casa. Mas ele mora acima. Infelizmente. Ninguém sumiu com ele como sumiu com as palavras estrangeiras. Vai ver é porque ele trepa bem. Tailleur e slack não deveriam ser lá essas coisas na cama dos linguistas. Dispensados com desonra. Tem doisedredons também pra próxima semana. O estampado com flores e o cor-de-rosa. Pesados. Mas eu aguento peso. Como estas onze sacolas cheias de comida. Penduradas em duas mãos. As minhas. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio. Tem uma mala lá dentro. Gigante. Comprei hoje. Mas eu já disse isso. Pra moça da lavanderia. No banco de trás, agora, também não cabe mais nada. Tem duas calças, um vestido e o edredom de listras. No chão do carro? Pode, sim. Atrás. Cinco sacolas de um lado, cinco de outro. São só sacolas de comida mesmo. E uma vai comigo no banco da frente. Precisa, sim. Faz as contas. Onze não se divide por dois. Nem nove, nem sete, nem um. Eu não tenho TOC. Eu gosto de números ímpares. Por exemplo: um dia. Sem dividir por dois. Um prato. Um travesseiro. Uma toalha. Uma televisão. Sem dividir por dois. Todas as novelas; a das 6, a das 7, a das 9. Sem dividir o controle remoto. Nem a tela. Telejornal, não. Cansa. A cara certinha do William B. cansa. Menos a boca. De quem beija bem. Os certinhos sempre são os mais tarados. Como ex-seminarista. Dormi com um, faz anos. Banquete pra muitos talheres. Repressão liberada é fogo. É um tira-atraso toda hora. Menos na hora do telejornal. Telejornal corta qualquer tesão. Acidente, corrupção, futebol. Morte todo dia. Na tela. Na vida. Um peso danado. Mas eu aguento peso. Eu já falei isso também. Subi com um engradado de cervejas. Geladas. Tomei todas. De dia mesmo. Fiz a mala gigante antes da hora do jantar. Desci com ela depois do jantar. Pesada. Levando o que tinha que ir embora. Eu aguentei o peso. Não disse que aguentava? Agora, só falta guardar a mala no carro. Pesada. Dentro dela, o que não é meu. E se não é meu, vai embora. Vai sumir. Como sumiram o tailleur e o slack.
Boa noite. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra colocar a mala no porta-malas. Não! Tira a mão daí! Larga essa mala, porra! 






terça-feira, 5 de junho de 2018

ampulheta




enquanto tivermos tempo
haverá o sonho
o gosto
o cheiro

um cigarro aceso
no cinzeiro

uma gota 
para transbordar o copo

alguma chance 
de sermos verdadeiros

entre medos
erros e poemas tortos

um suspiro 
antes de dizer 
já chega





segunda-feira, 28 de maio de 2018

ARTEIRO



Quando menino, sonhava em ser mágico. A velha fralda que se fazia de reluzente capa e a varinha improvisada com um galho de cajueiro renderam-lhe os poucos momentos realmente felizes de sua vida. Seus números mais notáveis consistiam em transformar pedras em calangos e fazer desaparecer as pitangas atiradas à cisterna. Tinha como plateia a cadela Nanica, uma gasta fotografia de Vó Benta e a cabeça de uma boneca, encontrada à beira do córrego que cortava a fazenda dos Calixto.

A mãe não gostava daquelas brincadeiras que distraíam o menino do trabalho no plantio e da instrução religiosa. Indiferente às súplicas do filho, o ramo delgado foi partido ao meio e a indumentária esvoaçante transformada em pano de chão. Fazer o quê? Era para a graça de Deus e bem de seu rebento.

Teimosa, a magia perseverou clandestina até a primeira seca, quando se transformou em desgraça. O pai ― pendurado pelo pescoço em um caibro da pobre casa de taipa ― havia realizado seu último truque: Escondera a própria alma em um pecado sem perdão.

Após o agourento sumiço da cachorra e antes que a terra rachada se partisse de vez e os engolisse faminta, decidiram fugir para a capital. Lá eu serei artista de televisão, fantasiava o menino à medida que se esquecia das bolhas dolorosas que se formavam em seus pezinhos errantes. Quando chegassem à rodoviária, a mãe tocaria pandeiro, ele cantaria para os passantes e, com o apurado, comprariam duas passagens só de ida. Talvez sobrassem alguns miúdos para um sanduíche de pão com ovo antes do sonhado embarque.

Retirantes, estrangeiros na metrópole, alojaram-se no barraco de um parente que os obrigava a trabalhar mais do que um dia haviam lidado no campo. A fim de garantir o teto de zinco sobre suas cabeças, a mãe cedeu aos abusos do cunhado e o filho ao sadismo do tio. Sofriam agarrados aos santos que, cansados de tantas súplicas, fingiam-se de barro.

Todos os dias, sob um sol de cozinhar cabelos em suor, o pequeno vendia limões nos sinais, enquanto olhava para dentro dos carros e sonhava com a vida daqueles outros meninos, de mochilas repletas de histórias e lancheiras que não conheciam uma tarde de fome e sede.

Os limões e o sol giravam no ar. Orbes, esferas, movimento. Poucos assistiam ao espetáculo do engenhoso malabarista e ninguém se dignou a aplaudi-lo. O sinal abriu no mesmo instante em que uma bofetada do tio despertou-o de suas criativas escapadas. Um motoqueiro riu da agressão e, malvado, passou de propósito por cima de um dos frutos caídos.

― Acunha, estropiço! ― gritou o tio, ao arrancar o sobrinho de sua solitária apresentação ― Se tu quengar minha mercadoria, eu te cubro de cascudo e sabacu. Tu tá pensando que é o quê?

― Eu sou artista! ― gritou o menino. Depois, meteu o pé na carreira. Vagueou por horas, até suas magras pernas não aguentarem mais sustentar o corajoso equilibrista que era.

Em uma torneira de jardim, tomou um generoso gole d’água e refrescou sua nuca. Menos afogueado, deu-se conta de que se encontrava em uma praça viçosa, arborizada. Deitou-se para descansar em um dos bancos de madeira e encolheu seu frágil corpo até desaparecer diante do olhar daqueles que por ali passavam.

Sob o manto da noite que se insinuava, sua inquieta cabeça formulou um último pensamento antes do porvir:

― Amanhã, vou ser domador de fera ― sussurrou para si mesmo o jovem artista e, em seguida, adormeceu menino pela última vez.  


Emerson Braga






sexta-feira, 25 de maio de 2018

A angústia do dirigente na iminência do embate



Estou nervoso, Lampreia!; acha que vamos conseguir mostrar um bom jogo no domingo?
Presidente, estou convencido que vai ser dos melhores da temporada.
Ah, ótimo! Adoro desfrutar de uma partida de futebol, no seu conceito mais puro: o embate vigoroso entre duas equipas de garbosos mancebos, virtuosos no tratamento de uma bola com os pés, envolvidos numa sã competição inspirada no lazer varonil, e comandados por duas mentes altamente estratégicas que analisam ao pormenor as forças e as fraquezas da equipa adversária.
Felizmente, nisso, somos dos melhores.
O adversário é difícil, hem!?
Muito difícil! Tive de chegar aos oitenta mil.
Então, quer dizer que estamos com força anímica para vencer!
Com tendência para 3–1. É o que está combinado.
1?
Presidente, fica sempre bem um golo de honra, para abrilhantar a nossa vitória.
Mas, a forma física deles parece estar em alta.
Sim, mas a preparação física de véspera vai incluir uma jantarada bem regada. Só para alegrar um pouco a noite.
Jantarada é uma boa solução. E os nossos, estão motivados?
Muito! Já lhes lembrei que a claque ficaria muito aborrecida se eles não se esforçassem.
Ah, pois ficaria! E não é para brincadeiras…
Para nenhum se esquecer disso, já marquei uma conferência de balneário para a próxima terça.
Conferência de balneário parece-me bem. E os árbitros?
O costume: fruta ou chocolate, conforme os gostos. Fruta russa e chocolatinhos de Cabo-Verde.
Não há nenhum com gostos menos exóticos?
Um preferiu um voucher para uma digestão em Ibiza.
Muito bem, Lampreia! Gosto de ver tudo bem encaminhado, mas, sabe, às vezes, temo que este desporto transmita, aos mais novos, uma imagem de competição desregrada; que se perguntem onde fica o desporto pelo desporto, o prazer do esforço físico, o ideal de que o importante não é a vitória, mas sim a participação.
O clube tem sempre esse lema como bandeira: participação. Queremos que as claques compareçam massivamente no estádio, com todos e com tudo — cornetões, matracas, very lights — sobretudo quando a bancada adversária for poderosa ou os árbitros pouco propícios. A bola é redonda e o nosso clube não tem proteção celeste, digamos assim; precisa de ajuda.
Muito bem, Lampreia! E a pedagogia social, o fair play, a gentileza para com o adversário? Não nos esqueçamos que os jovens copiam, na vida de todos os dias, o que observam em campo!
Se o Paulinho Quebra-ossos tiver de meter os pitões na cara do Juvenal Gazela e lhe quebrar os queixos… é chato, mas é a vida. Às vezes, é a única maneira de acalmar um espírito demasiado fogoso e impedir um golo certo. Só podemos esperar o fair play do Juvenal de dar a outra face, não é?
Isso mesmo. Aprecio o espírito cristão.
Os espectadores gostam sempre de ver uma boa metáfora bíblica. Estamos à espera de quarenta mil.
Como é isso, Lampreia? Pensei que o estádio só comportasse trinta e três mil!
É! Não pude suportar a imagem de sete mil rostos juvenis, chorosos por não conseguirem ingresso.
Ah! Muito bem, Lampreia!; vejo que tem bom coração.
Obrigado! O desporto sadio toca-me fundo. Acredito que é o melhor sustentáculo de mentes saudáveis e um formidável gerador de cidadania responsável.
Estou absolutamente de acordo. Isso e uma imprensa livre.
Sim, sai amanhã mais uma dose das escutas aos nossos adversários, e que já enviei aos jornais de referência: Offside, Penalty e Hat-trick.
É isso que precisamos — jornalismo desportivo de investigação.
Já avisei os repórteres que a avença está a pagamento.
Perfeito, Lampreia! O desporto deste país nem sabe quanto lhe deve. Nem o clube de todos nós.
Cerca de seis milhões. Já fiz as contas. Mas não se preocupe — o perdão do empréstimo bancário do Banco Benemérito Nacional ao clube já está assegurado.
Nem sei como lhe agradecer, Lampreia!
Sugiro um apoio vigoroso do clube à minha candidatura autárquica!
Pode contar com ele, Lampreia! Um amigo na Câmara é bom para o clube e é bom para o desporto. Bola para a frente!

Joaquim Bispo

*
Imagem: Jean-Baptiste Oudry, Uma Lebre e uma Perna de Cordeiro, 1742.
(Natureza Morta)

* * *






segunda-feira, 21 de maio de 2018

Diva


Entrou um tanto cabisbaixo na loja de lingerie do shopping congestionado pelo temor em ser reconhecido. Tremia ante a possibilidade de deparar-se com alguma amiga da sua esposa em tão inusitado local para uma figura masculina. Perguntas maliciosas certamente seriam a tônica do hipotético encontro. Logo ele, um preservador de sua imagem de homem integro, temente a Deus até as entranhas, bom pai de família, marido exemplar. Fez menção em dar meia volta e abortar o plano traçado há meses quando uma vendedora aproximou-se exibindo um sorriso artificial, perguntando-lhe o que desejava. Suores transbordavam de sua face, traçando afluentes pelo pescoço, empapando o colarinho. Pediu uma calcinha vermelha. “Qual o tamanho?”, inquiriu a vendedora. “A menor que você tiver”, respondeu timidamente. Comprou ainda um sutiã, cinta-liga e meias, todas escarlates como a calcinha, sendo esta minúscula, menor do que já se poderia ser chamado de um modelo indecente.
Continuou sua insólita romaria por uma loja de sapatos. Comprou um salto alto, agulha. Atravessou em seguida o corredor do shopping preparando-se para sua mais audaciosa tarefa: a compra da peruca. Diante da vendedora, uma senhora com ares aristocráticos, a encará-lo de modo interrogativo, pediu uma peruca loira, comprida, fios até a cintura.
Pelos corredores do shopping descobriu um quiosque onde eram vendidas tatuagens temporárias, em forma de decalques. Adquiriu a figura de uma maçã, pecadoramente mordida. Quando já deixava a catedral de consumo, bateu com a palma da mão direita no alto da careca. Estava esquecendo um dos itens mais importantes: um aparelho de barbear.
Chegando a casa, encontrou a esposa ansiosa pela sua demora. Sem delongas ela se apoderou das bolsas de compras e foi para o quarto montar-se. O conjunto de cinta-liga, sutiã, meias e calcinhas, caíram-lhe bem no corpo balzaquiano. Os sapatos ficaram apertados. O esposo nunca acertava o número que ela calçava. Já a peruca construiu na mulher uma aparência germânica, a despeito da cor amorenada de sua pele. Quanto à buceta, o próprio marido fez questão de depilar. Ela arriou as calcinhas até os tornozelos. Sentimentos conflitantes de medo e excitação a assaltaram enquanto permanecia de pé, pernas abertas, sentindo o aparelho de lâmina afiada, impecavelmente manejada pelo marido, raspando-lhe o púbis. Como toque final, a tatuagem em forma de maçã mordida foi estrategicamente decalcada no lado esquerdo de sua bunda.
O homem não cansava de encarar, encantado, a nova mulher que concebera. Batizou a personagem interpretada pela esposa de Diva. Após doze anos de um casamento levado a banho-maria, Diva seria a sua primeira amante.





domingo, 20 de maio de 2018

A SENHORA DOS SOLITÁRIOS

- Senhora, o Dr. Marcondes avisou que não vem para o jantar.
Ana Beth levantou a sobrancelha esquerda, sem tirar os olhos da mesa desabitada 
dos filhos crescidos e de um marido cada vez mais abduzido pelo mundo dos negócios. 
Sinalizou em silêncio para que a sopa pudesse ser servida.
                                                                                   
- Senhora, seu sexto sentido não falhou: aqui está a prova de que seu marido tem uma amante.
Ana Beth examinou as fotos entregues por um detetive particular. Marcondes chegava de táxi 
à porta de um hotel no centro da cidade, acompanhado de uma loura com idade de ser sua filha. 
Na sequência, andavam de mãos dadas em direção à portaria. Ela ainda para e dá uma ajeitadinha 
na sandália de salto. Moça fina, disse o detetive.                                           

- Senhora, aqui estão mais detalhes do affair.
O detetive expõe minúcias da investigação. Marcondes e a loura encontravam-se uma vez por 
semana neste mesmo lugar. Não se tratava de uma amante alucinante que pudesse
ameaçar o casamento. Era uma garota de programa, universitária de moda, danada de
bonitinha e carinha de capa de revista. Só queria se divertir e fazer um negócio: receber sua
parte de quem tem muito em troca de algumas horas semanais de sexo e auto estima a quem
beirava o ocaso da macheza.
                                         
Ana Beth se sentiu apunhalada entre a cervical e as escápulas. De nada adiantaram anos de 
plástica e botox, ginásticas localizadas e spinning, silicones, depilações a laser, bronzeamento 
artificial, luzes e chapinhas. A verdade é que o marido estava prevaricando com uma menina 
bem mais nova e fogosa, com tudo no lugar, de pele macia e peitos naturais. Não caiu na história 
do detetive de que garotas de programa não abalavam casamentos. Para ela, sexo fora de casa, 
com amantes assumidas, ou marafonas, ou casinhos de embriaguez, ou desfrutáveis inconsequentes, ou mesmo bonecas infláveis, era tudo a mesma coisa. Por outro lado, Ana Beth não sabia o que fazer. Chegou a pensar por que diabo procurou um detetive. Não imaginava obedecer a seus ímpetos de mulher traída e sair por aí a se esfregar em tórax malhados de academias, sentindo novos invasores de seu corpo, ouvindo sussurros revigorantes. 

Ana Beth dependia de Marcondes até para mandar a criada comprar pão ali na esquina, numa total sujeição ao provedor da casa, que por sua vez, ao perceber a mulher de cara amarrada – e ser chicoteado por uma culpa algoz -, um dia chegou cedo para o jantar, sem mais nem menos, com um agrado. E que agrado: um solitário da Tiffany´s, encomendado ao seu doleiro contrabandista. Os olhos de Ana Beth se encharcaram, tambores rufaram dentro do peito, as maçãs do rosto formigaram, surgiu um sorriso encabulado. Muito menos pelo gesto, muito menos pelo mimo em si, muito mais pela ideia ardilosa que teve, diante do brilho multifacetado da joia.

- Senhora, só para eu entender a sua proposta: a madame põe um detetive particular na cola do seu marido, descobre que ele anda saindo comigo, consegue meu celular e liga para mim, pedindo pelo amor de Deus para eu manter este caso eternamente. Certo? 
- Perfeito!
- Em troca, sem que ninguém saiba, num acordo de mulher para mulher, a senhora promete depositar na minha conta o mesmo que ele me paga, certo? 
- Certíssimo, menina. Você não é nada boba...
- Ou seja, vou receber em dobro para aturar seu marido babando em cima de mim. É isso? 
- Exatamente, minha filha.
- Por mim, está feito. Sou uma profissional. Mas acho que a senhora é meio maluca.

Um ano depois. 
Ana Beth entra no seu closet e retira do fundo do armário de calcinhas e sutiãs, uma caixa de joias majestosa e aveludada. Como criança diante de um álbum de figurinhas incompleto, admira embevecida sua coleção de mimos mais recentes: diamantes e solitários Tiffany´s, Boucherons, Harry Winstons, Van Cleefs e Cartiers. Escolhe um deles, gosta, não gosta, põe no dedo anelar esquerdo, estica o braço, movimenta a cabeça, franze os lábios, enfim, decide-se. Diante do espelho, leva a mão de unhas bem feitas às têmporas, ajeita os cabelos, gosta da última plástica, sorri enviesada e discreta. Tudo combinando: brincos, anéis, colares e estado de espírito. 
Está se sentindo linda e poderosa. Pronta para sair para jantar com seu marido Marcondes e um casal de amigos. Em grande e perfumado estilo.





quinta-feira, 17 de maio de 2018

O atirador de facas - Poema de Eliza Caetano Alves





O atirador de facas



O atirador age calmo e morno
mesmo o sangue do baço perfurado
mesmo o sorriso de olhos fechados
ganha o jogo quem acertar sem querer


O herói do circo é o atirador de facas
aos olhos da moça pregada na parede
seus olhos tremem


O que ela quer
receber facas pelo corpo
o fio dos dentes do atirador de olhos azuis partindo suas postas.


Era uma vez uma garota na ponte
eram olhos de correnteza que a fitavam lá
de baixo.
Atirador, ela é nas suas mãos
retalhada de olhos fechados
de olhos abertos
fixos em seus olhos de correnteza azul.


Enquanto você gira para atirar
seu sorriso é morno
e seus olhos continuam
correnteza. Suas mãos
e meus olhos são
castanho–escuros.
Enquanto você ganha
meus seios e pele, enquanto,
querido atirador, escrevo
uma carta e mostro
o caminho para suas lâminas
sei que você tentará acertá–la.
Me atire, a garota na ponte,
o sorriso na ponte,
seus olhos de correnteza azul
na ponte.





Do livro O Caderno das inviabilidades, Editora Urutau.







quarta-feira, 16 de maio de 2018

O rato


Nunca tivera um animal de estimação. Nem em criança. Nada de cães, gatos, passarinhos, tartarugas. Por isso se desconheceu naquele desejo desenfreado de ter para si um rato. Bicho feio, cinza, cheio de bigodes sombrios, dentuço. Ele mesmo tinha sido dentuço em criança. Será que... Não, não era isso. Identificou-se com o bicho por outro motivo que não sabia qual. Não importava. Decidiu: queria o rato. Teria o rato. Encurralou o animalzinho num canto, o mais gentilmente que pode, e entre pedidos de desculpa e pedaços de queijo conseguiu prendê-lo numa caixa de sapato em cuja tampa havia feito pequenos furos. Dia seguinte saiu cedo e foi para a loja de animais. Olhou, olhou, mas não comprou a casinha de vidro transparente cheia de buracos simétricos para entrar o ar. Pensou na quantidade de luz e calor que o material iria concentrar e teve pena do bicho. Claridade demais para um ser das sombras. Deixou o pequeno dentro da caixa mesmo e começou a alimentá-lo com tudo o que imaginou que um roedor pudesse gostar.
A casa improvisada foi instalada em cima da cômoda do seu quarto. A cada três dias, ele removia o animal para outra caixa, nova e limpa. Era a única ocasião em que se viam. Cara a cara. Cara a focinho. E ele confessou a si mesmo que já amava Carrapato. O nome caíra bem. A intimidade caíra bem. Na verdade, era ele quem não desgrudava do animal, mas gostava de pensar que a recíproca era um fato. O bichinho precisa de cuidados, de um lar melhor — finalmente se convenceu. — Amanhã eu vou ver isso. Levou o rato ao veterinário na manhã seguinte, evitando os olhares surpresos da maioria dos clientes.

Não, ratos não tomam vacina. A gente pode fazer uns exames de sangue para investigar a saúde dela, disse o doutor. É uma fêmea.

Saiu de lá carregando, finalmente, a casa de vidro de dois andares e rezando para que o exame de sangue não acusasse nada. Mesmo sem saber por quê, sentiu-se desconfortável com a notícia de que Carrapato era uma fêmea. 
O animal pareceu ficar feliz com a nova casa. Adaptou-se logo ao novo lar e em pouco tempo já dava voltas na escadinha circular colocada no segundo piso. Ele teve certeza de que havia feito a coisa certa. Agora, podia enxergar o bicho comendo, bebendo, brincando, dormindo. Companhia dia e noite.
Nunca se dera bem com gente, essa massa complicada e cheia de humores e vontades e dissimulações e maldades. Definitivamente, as pessoas o assustavam. Não que elas prestassem atenção nele. Nem o notavam. Mas era a mera possibilidade de um dia o notarem que o apavorava. A cada vez que um olhar mais prolongado cruzava com o seu na rua, no mercado, no ponto de ônibus, sentia os pelos dos braços e das pernas se eriçando como se tivesse levado um choque. Deixava de pegar um ônibus, virava uma esquina antes do quarteirão de casa, desistia de comprar leite e pão, mas fugia, assustado, para bem longe daqueles olhares pousados. Por isso, preferia a noite. A ausência da luz enjoada do sol o acalmava e confirmava a invisibilidade que escolhera para si. Quando o breu tomava o céu, abria as janelas de casa e se sentava no jardim iluminado por apenas duas lâmpadas instaladas no chão. Às vezes cuidava das flores, que plantara num desenho ousado, e da pequena horta doméstica onde algumas verduras brotavam bem cuidadas. A pouca iluminação permitia que sombras engraçadas, agigantadas fossem projetadas na parede branca da fachada da casa e nos muros altos que faziam limite com a esquina da rua, à esquerda, e com a casa de um vizinho, à direita.
Naquela noite, sentou-se ao sereno e colocou ao seu lado, sobre um banco alto, a casa de vidro. Primeiro, Carrapato agitou-se. Mas, de repente, ficou muito quieta, como se a noite a tivesse acalmado. Ou não. Assustado, ele achou que o animal poderia estar passando mal. Abriu a porta da casinha, ansioso, e pegou bichinho, segurando-o bem em frente ao rosto. Viu os olhos brilhantes, maliciosos, quase ao mesmo tempo em que levou a mordida. Não gritou. A dor maior foi por dentro. Dor de mágoa, de surpresa. Soltando o animal, levou a mão rapidamente ao rosto. Sangrava no nariz, onde os dentes afiados tinham se fincado. Carrapato aproveitou o momento e fugiu. Desconsolado, desorientado, sofrendo, ele não sabia se procurava o bicho ou se cuidava de si mesmo, prática incomum. Relutou por mais de uma hora até perceber, pelo tamanho do inchaço, que teria que ir a um hospital.

O que houve?, perguntou a enfermeira na triagem. Mordida de rato, ele respondeu acabrunhado. Capturou o animal?

Capturar? Não, ele não sabia onde Carrapato estava. Queria saber. Mas não seria naquela noite. Sob o efeito das injeções que precisou tomar, dormiu um sono pesado. Pela manhã, acordou cheio de culpa. Eu devia ter procurado por ela ontem mesmo!, se recriminou, sem perceber que chamou Carrapato de “ela” pela primeira vez. Vasculhou todo o jardim, procurou nos bueiros perto de casa, nas latas de lixo, mas nada. Depois de muito tempo, exausto, convenceu-se de que o bicho tinha ido embora. Resignado, e mais pela saudade que pelo hábito, limpou o bebedouro, o comedouro e trocou o forro daquele latifúndio de dois andares.
O nariz ficou curado. A crença nos bichos, nunca mais. Nocauteado pelo que acreditava ser uma grande ingratidão, deixou de comer, de beber, de tomar banho. Evitou o sol, a luz das lâmpadas e mesmo os espelhos. Abandonou as noites de sereno, as flores e as verduras. E se convenceu de que os animais eram exatamente como os homens, desprezíveis, egoístas, maus. Sem vontade de pensar ou de sentir mais nada, encolheu-se na cama imunda de cheiros e fluidos, até que primeiro morreu, depois deixou de respirar.
No quintal apagado, sem sombras na parede, dois olhos curiosos brilharam na entrada da casa de vidro abandonada, e um focinho de bigodes sombrios cheirou insistentemente o ar, procurando por algo. Do lado de dentro, escondidos num ninho bem construído no segundo andar, oito filhotes amontoados abraçavam-se no sono dos recém-nascidos.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um gesto ou dois



O homem tinha a cara enrugada, poucos dentes e um aspeto decrépito. Teria bem mais de 70 anos e adivinhava-se-lhe já pouco préstimo para o trabalho do campo. O patrão contratou-o por um misto de piedade e oportunidade. Chegou ao monte para guardar o “vazio”, isto é, o pequeno rebanho de carneiros e de outros ovinos que não estavam “cheios” prenhes , mas também ajudava em inúmeras outras tarefas da horta e da casa. Havia sempre lenha para cortar e água para acartar.
Era por meados da década de 50. O contrato era de 100 escudos por mês e “de comer”. Ficou a dormir num catre no palheiro e arranjou-se-lhe uma mesinha onde comer logo à esquerda da porta de entrada, separada do lume pelo monte de lenha. Os patrões e o filho pequeno comiam a dois metros dele, numa mesinha igualmente pequena e sentados em bancos rasteiros. Os dois cães de caça andavam sempre por ali, à espera que algo caísse da mesa.
A casa dos patrões era ampla e contígua ao palheiro. No verão, enchia-se de moscas, devido à proximidade com os animais, e também não faltavam pulgas. Só tinha a estrutura interna em taipa de dois quartos e um “peneirador” onde também se guardavam a masseira, a salgadeira, a bilha do azeite, a talha das azeitonas e duas arcas. Por cima deste conjunto, um sobrado onde se espalhavam as batatas e as cebolas para o ano inteiro. O resto era espaço amplo de telha vã, com um grande arcaz, o pote da água de usos de cozinha, uma cantareira com uma bilha de água de beber, e uma mesa enorme, só usada quando era preciso sentar muita gente numa matança do porco. O lume era feito num canto, no chão, onde se cozinhavam as refeições em panelas de ferro, e o fumo escoava-se pelas telhas. À noite, além do lume, só tremeluzia a chama de um candeeiro a petróleo, que se perdia na vastidão da casa.
Os tempos eram outros. Não havia eufemismos — empregados, trabalhadores agrícolas, assalariados —, só patrões e criados. A penúria dos agricultores rendeiros era quase tão grande como a dos criados, e não só na Beira Baixa. No entanto, vincavam bem as diferenças. Por isso o ti Mné Lucas — como o chamavam — sentava-se a uma mesa separada da dos patrões. E comia pão centeio. E dormia no palheiro.
A situação era “natural”, mas, de qualquer modo, o velhote estava por tudo. Nunca reclamava, nunca se queixava, nunca pedia nada; aceitava o que lhe davam ou o que achasse natural apanhar: figos, maçãs, ameixas. Certa vez, ralharam com ele, por ter apanhado mais de dois quilos de “lenticão”, a cravagem do centeio, vendido para remédios, e que rendia bom dinheiro. E foi motivo de galhofa quando uma vez pediu um martelo para bater um prego nas decrépitas botas de sola de borracha, remediadas com pregos. Um andava a entrar-lhe na carne.
Para o miúdo da casa, um catraio de seis ou sete anos, a chegada de um velhote carcomido, mas simpático, prometia animar o ramerrame campestre. Sentiu curiosidade, alegria, carinho. Certa vez, pediu mesmo aos pais que o deixassem acompanhá-lo no seu percurso matinal com o rebanho. Foi uma longa e monótona caminhada pelas encostas circundantes, mas o velhote acabou por animar o garoto ao construir um pequeno redil de brincar com muros de pedrinhas, e cancelas feitas de pauzinhos. Quando chegou a hora de comer, partilharam ambos o pão centeio dele, com algum conduto — certamente azeitonas, talvez queijo —, e ainda hoje o rapazito gosta da côdea queimada do pão centeio.
A rotina de saídas dos patrões era irem à terra de quinze em quinze dias, a uns doze quilómetros, onde a patroa tinha a mãe e duas irmãs, mesmo do outro lado da rua. Até aos sete anos do garoto, iam os três na garupa da égua: o pai escarranchado, a mãe sentada de lado, atrás dele, e o miúdo ao colo da mãe, de pernas penduradas. Depois, já iam de carroça, sempre com carga extra de trigo para moer, ovos para vender, e outras cargas circunstanciais.
Nunca passavam o natal no campo. Não faziam festa ou ceia especial de natal, mas era uma data que nunca falhavam na terra. Exceto daquela vez: havia um assunto que o patrão não quis deixar entregue a outros, talvez uma vaca a parir por aqueles dias. Portanto, ficaram todos no monte. E nem avisaram ninguém, porque para isso era preciso ir até à terra mais próxima, a três quilómetros, e enviar uma carta. Não valia a pena; quando se fizesse dez ou onze da noite, os familiares certamente suspeitariam que tinha acontecido um dos inúmeros inesperados que aconteciam na vida do campo e descansariam.
A ceia desse natal foi como a de muitas outras noites: batatas cozidas com couves, acompanhadas com uma fatia de toucinho, rodelas de farinheira e morcela. A única diferença foi que, apesar de não se fazer habitualmente qualquer ceia especial, todos sabiam que era noite de natal, até porque nesse dia a patroa tinha amassado as filhós e tinham estado a fritá-las na caldeira de cobre antes da ceia. E havia um certo sentimento de complacência no ar. A patroa murmurou qualquer coisa para o patrão, este meditou uns segundos e chamou:
Ó ti Manel, hoje é noite de natal. Venha aqui para a nossa mesa!
E pela primeira vez em três ou quatro anos, o ti Mné Lucas foi comensal dos patrões. A princípio, não se falou muito mais do que nas outras noites, mas o ambiente era afetuoso e no fim comeram-se filhós à roda do lume. Nessa noite, para além de algumas histórias já conhecidas, o ti Manel contou como acontecera o seu casamento: era marujo embarcado e, certa vez, ao atracar em Lisboa, soube por um conterrâneo que a sua noiva estava para casar com outro. Meteu-se logo no comboio a caminho da terra, “pôs tudo em pratos limpos” e casou ele com ela. Sentia-se-lhe na voz um misto de alegria pela evocação de um episódio tão especial, e uma nostalgia de tempos desaparecidos. Quando, pouco depois, se foram deitar, todos levavam um aconchego de alma inusitado.
No dia seguinte, o almoço foi guisado de batatas com um coelho bravo que o patrão caçou nessa manhã. O ti Mné Lucas não estava presente, porque andava com o rebanho, mas, à noite, quando chegou ao lugar habitual, atrás da porta, foi mimado com um pouco do guisado do almoço. Ainda antes de se sentar, meteu a mão num dos bolsos do casacão remendado e amarrotado que usava, tirou uma pequena escultura de uma ovelha, talhada à navalha num tronquinho de giesta, e estendeu-a ao deslumbrado miúdo.
Andava o rapaz já pelos quinze anos, quando o pai, na expectativa de uma vida menos áspera como operário fabril, decidiu desistir da lavoura, deixar os vários arrendamentos, vender rebanhos, vacas e o carro de bois e abalarem todos para a aldeia. Nunca mais viram o ti Mné Lucas. Parece que tencionava ir ter com uma filha a Lisboa. Souberam que morreu talvez um ano ou dois depois.
Passaram entretanto muitos anos, quase todos os protagonistas desta história já morreram, mas a criança de então mantém um especial carinho por ela e pela pequena escultura. Ainda hoje a guarda e de vez em quando gosta de a ter exposta. Mesmo agora estará a contemplá-la, ali na segunda prateleira da estante.

Joaquim Bispo

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Imagem: Julien Dupré (1851–1910), O pastor e o seu cão.

* * *