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sábado, 25 de março de 2017

A transmutação


Quando Cacilda deu por si, após um curto período de sensação de irrealidade, percebeu que se transformara numa árvore do jardim em frente de sua casa.
Permaneceu de braços levantados, curiosamente sem esforço, e pernas bem metidas na terra, como quem tem medo de se mexer em uma situação de perigo. Não conseguia discernir sons nem imagens, mas a agitação do ar trazia-lhe muita informação óbvia e outra que ainda não sabia bem interpretar, o mesmo acontecendo às subtis vibrações do solo que lhe faziam tremelicar as pernas.
«O que terá acontecido?», surgiu na nebulosa da sua consciência, o que lhe transmitiu um instante de confiança, por, ao menos, perceber que dispunha dessa capacidade de controlo de si. «Talvez tenha tido uma quebra de tensão quando me levantei. Ou já estava a tomar banho? Não me lembro.»
Era uma chatice, de qualquer modo: entrava às 10 no supermercado e não estava a ver como podia chegar a horas. Felizmente que no início do dia havia poucos clientes e talvez as colegas conseguissem aguentar o serviço sem grandes complicações. Mas do raspanete da chefe não se ia livrar.
Avaliou a situação com mais detalhe. Era mais do que as pernas o que tinha enterrado. Percebeu a pressão da terra até ao alto da anca, o que um leve roçar das ervas que lhe tocavam veio confirmar. Para baixo, era humidade e tensão firme. E uma certeza de imobilização. Para cima, secura, agitação do ar e vibração luminosa. Com esta vibração vinha um conforto de ganho de energia. Não enchia quaisquer pulmões, mas a sensação de plenitude respiratória era real.
«Estou com a pele muito rugosa», percebeu. «Então as partes da barriga e do peito estão bem escamosas. Peito, salvo seja. Está mais espalmado do que quando me deito de costas. Só se forem aquelas elevações junto à confluência dos braços mais baixos. Caramba! Se tiver de aplicar cremes a este corpanzil todo, tenho de trazer a prateleira inteira», gracejou com a situação.
Percebeu o carro dos do 3º andar a arrancar. «Ainda bem que não me viram.» Pouco depois, a vizinha da cave a passear o cão. «Se se aproximar, é capaz de reconhecer a tatuagem em forma de coração que tenho ao fundo das costas... Não, acho que nem olhou. E se o cão me vem urinar ao troço… Faço o quê? Atiro-lhe com umas pétalas? Nem sequer ainda tenho vagens rijas… Ai a minha vida!»
Percebeu pela primeira vez o toque múltiplo do que deveriam ser insetos. O primeiro pensamento foi de incómodo, mas pouco depois toda aquela azáfama por sobre o seu corpo, se lhe podia chamar isso, tornou-se confortável e até sensual.
«Sensual, como? Aonde fui buscar esta ideia?», admirou-se. Então percebeu que o seu sexo estava distribuído por uma miríade de pontos do seu corpo, onde as abelhas se atarefavam na recolha de pólen, o que lhe transmitia múltiplas sensações de regozijo. «Devo estar a fazer uma linda figura, de múltiplos braços no ar a agitar pequenos sexos coloridos, entusiasmada com os toques de quem chega, entra, deixa sémen de outras árvores que nem sequer conheço e se vai embora sem um beijo de despedida...» Sorriu-se com o próprio gracejo, mas duvidava que algum outro ser o tivesse notado.
Ser caixa no supermercado era muito cansativo e mal pago, mas tinha essa particularidade de permitir o contacto com muitas pessoas. Durante uma jornada de trabalho trocava palavras, sorrisos, olhares e toques de mãos com dezenas de mulheres e homens. Desde os gatões aos velhadas. Fora lá que conhecera o último namorado, da lista que já ia longa e mal sucedida. Fora assim num toque casual, na entrega do troco em moedas em que algumas tinham caído e houvera risos e troca de gracejos. Ele devia ter gostado, porque quando voltava procurava sempre a caixa dela. E voltava cada vez com mais frequência. Enfim, o costume, em tudo. Ao fim de uns meses a viverem juntos, arranjou uma desculpa esfarrapada de que precisava de espaço. «Espaço… Ele é que devia estar aqui para sentir o que é falta de espaço para as pernas.»
«A esta hora já deram pela minha falta. Vou ter de inventar qualquer coisa com a saúde da minha mãe. Lá se vai um dia de salário! E se isto se prolonga? Quem virá à minha procura? Não será a minha mãe, com certeza, que fica pesarosa quando não lhe atendo o telefone, mas mal sabe onde moro. E os ex-namorados foram de vez.»
Com o avançar do dia e do calor, os festões olorosos de flores brancas, pendentes dos múltiplos ramos da acácia bastarda em que Cacilda se transformara eram uma atração irresistível para muitas dezenas de abelhas e besouros. Ela não lhes resistia, antes se expunha, num deleite físico de entrega, à orgia que os insetos representavam. Nunca se entusiasmara com a ideia de ter sexo com mais de um homem, mas certa vez acontecera. Não gostara. A ilusão de excitação acrescida gorara-se em grande medida. Era muito membro para dar atenção, muito físico e pouca alma, egoísmo a dobrar.
«Será que vou passar aqui a noite? Deve estar frio.» A noite foi estranha. Com o entardecer veio uma espécie de sufocamento. As folhas já não recebiam luz, já não lhe transmitiam energia. Teve medo. Então, paulatinamente, recomeçou a “respirar” com conforto, expirando o que a estava a entupir. Frio não sentiu muito, só um ténue encarquilhamento das folhas. Deixou-se entorpecer, num sossego de que tanto precisava.
O novo dia trouxe-lhe a perceção ténue, fluida, da absorção que se produzia nos recônditos que os seus membros inferiores alcançavam. E a primeira ideia de imobilidade subterrânea também era falsa: impercetivelmente, as suas extremidades tateavam, sondavam e deslocavam-se milimetricamente para a humidade. E bebiam. «Ali, pelo menos, a pele deve estar bem hidratada.» E quando a orgia floral recomeçou, intuiu claramente os movimentos ínfimos que se produziam dentro das suas corolas. E esse conhecimento trouxe-lhe uma alegria que nunca tinha podido sentir — a de que ia ser mãe. Percebeu a evidência do processo de chegada dos frutos. Daí a uns dias, não podia ainda calcular quantos, ia “parir” vagens cheias de sementes. Era de uma grande ironia o que lhe estava a acontecer. E de certo modo trazia algum consolo às injustiças da vida. Ia gerar centenas de filhos, poucos meses depois da constatação dramática de que lhe tinha cessado o período. E não cessara por estar grávida, que já não estava com um homem havia quase um ano. «Nem tudo é mau», alegrou-se. Aliás, avaliando bem, quase tudo naquela situação era melhor do que na sua vida. Não precisava de ir aturar a chefe e toda a gentalha consumista. Não precisava das angústias de esperar por um homem, nem das humilhações de ser preterida ou rejeitada. Não precisava de se angustiar com o envelhecimento da sua mãe. Só ainda não tinha certeza se ia conseguir habituar-se a passar a vida sem sair do mesmo sítio. Muitas vezes, da janela do seu 2º andar, contemplara a acácia e a lamentara exatamente por esta imobilidade forçada. Mas, talvez, algumas vezes tivesse invejado a sua exuberância de flores e frutos, inconscientemente, pelo menos. Seria esta transformação um “castigo” por aquele pecado de inveja?
Esta lembrança e as conjeturas bizarras que lhe acudiam, trouxeram-lhe, no momento, uma suspeita assustadora: «E se tudo isto não passa de imaginação, de ideias na minha cabeça? Será que estou à janela a imaginar que sou uma acácia? Lembro-me de, há muitos anos, ter andado “cismática”.» Assim, explicava-se a sensação de irrealidade que experimentara antes de se ver transformada na acácia. Concentrou-se na hipótese, mas daí a pouco pareceu-lhe tão ou mais bizarra do que a própria transformação. «Mais provavelmente sou uma acácia que pensa que pode ser uma mulher na janela do 2º andar a imaginar-se acácia», riu-se, o que, desta vez, transmitiu uma ténue agitação a algumas das suas folhas. De qualquer modo, não havia como saber. Esta constatação foi o primeiro passo do necessário processo de habituação ao seu estado e de aceitação da ideia.
Com a chegada do verão e as cigarras a fazerem vibrar o ar que envolvia o seu corpo carregado de vagens pendentes, como uma mãe cheia de filhos, mais do que resignar-se à sua condição, abraçou-a com todos os ramos da sua fronde.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909.
Museu de Artes Aplicadas, Viena, Áustria, 102 x 195 cm.

* * *
(Este conto recebeu uma Menção Especial «pelo seu realismo mágico e muita criatividade» no Concurso Literário da AFEMIL — Academia Feminina Mineira de Letras —, Belo Horizonte/MG, Brasil, em 2016)

* * *





sexta-feira, 24 de março de 2017

TROVA PREMIADA NOS JOGOS FLORAIS DE NOVA FRIBURGO






segunda-feira, 20 de março de 2017

CRAVINHOS

- Duzinho, deita de bruços. Tira a camisa.
- Ah, não Bia...
- Cravinhos, Du. Vamos logo. Hora de tirar cravinhos
- Tô exausto, amor. Tive um dia desgraçado.
-  Conversa. Vamos lá. Quero cuidar de você.
- Sua unha dói...
- Tirar cravinho é amor. Amor não dói.
- Devagar, Bia...
- Duzinho... não tô achando cravinho...
- Claro, você tirou todos...
- Toda semana eu tiro. Nascem de novo.
- Bia, hoje não...
- Duzinho... cadê os cravinhos, Duzinho??? Eduardo!!!! Você tem uma amante!!!
- Que diabo é isso, Bia?
- Uma amante. Ela anda tirando seus cravinhos.
- Tá doida? Só quem tem esse fetiche é você.
- Ah, a outra não tem fetiche!?
- Que outra? Que fetiche? Tá doida?
- Eduardo! Você tem uma amante!
- Que amante? Não tenho idade nem saco nem para sexo casual!
- Ah, admite sexo casual!!! Eduardo! Você tem uma amante.
- Amante não é sexo casual.
- Então é o quê? Traição do mesmo jeito.
- Sei lá! Que saco! Não existe amante, nem sexo casual. Você sabe. Sou romântico.
- Então é amante mesmo. Eduardo, você tem uma amante!
- Que amante, Beatriz?
- O Peixoto tem uma amante. E você é unha e carne com ele.
- Que é isso, Bia?! Nunca mais te conto nada.
- Então não é o Peixoto. Você disfarçou bem. Eduardo, você é quem tem uma amante!
- É o Peixoto, sim. Eu sei a trabalheira que dá, coitado.
- Coitado? O cara trai a Marina e ainda é coitado?
- Beatriz, o problema é deles. Já disse! Não tenho amante.
- Então é sexo casual. Você anda por aí praticando o moderninho sexo casual, sem 
compromisso, sem cravinho, vapt vupt. É traição.
- Chega, Beatriz! E se fosse sexo casual? Não estou aqui, dedicado a você e às 
crianças 24 horas por dia?
- Ah, peguei: admite sexo casual?!!!
- Não admito nada, não tem amante, não tem sexo casual nenhum. Quer saber, tenho 
preguiça de tirar a roupa e colocar a mesma uma hora depois, apressado, voltando 
para o escritório. Além do mais, sexo só com você. Sou resolvido. Te amo.
- Papinho mais dissimulado. Diz que não tem amante, mas nada contra uma puladinha de cerca.
- Beatriz! Tá doida? Ou quer me enlouquecer?!

Eduardo pula da cama danado da vida. Beatriz permanece sobre o colchão. Pernas cruzadas e pensativa, conversando  baixinho consigo mesma.

- Sexo casual, sexo casual. Não tem problema, então.

Enquanto ouve o barulho do chuveiro, Beatriz pega o celular e procura o telefone do 
massagista tântrico. Aquele que a Marina disse que era espetacular.










quinta-feira, 16 de março de 2017

Cobrança - Conto de Marco Severo



Cobrança






Ao longe, Marieta conseguia enxergar a silhueta do que parecia ser uma mulher, se o que ela estivesse vendo fosse mesmo um vestido. Devia ser a prima. Já não era sem tempo, pensou.

Eleonora vinha caminhando devagar, trocando a mala de mão de vez em quando para descansar a coluna e um dos lados do corpo. Às vezes, parava um pouco. O sol estava mais baixo, mas quando a caminhada começou, depois de uma longa viagem de ônibus que havia durado mais de seis horas, ainda salpicava o ar e a terra com seu bafo escaldante, transformando cansaço em exaustão. Eleonora foi se aproximando da calçada onde Marieta a esperava. Fazia mais de vinte anos que não via ninguém daquelas bandas, e não tinha certeza se era ela mesmo. Havia seguido a orientação: No ponto final do ônibus, tem uma estrada batida de terra, caminhe por ela que vai dar em casa. Assim que a estrada acabar, virando não mais que um fiapo de chão, à direita vai estar nossa casa, não tem erro. E eu vou lhe esperar na calçada, havia dito a prima.

E assim ela fez, e parece mesmo que ia dando certo. Não sabia ainda como daria a notícia que tinha ido ali para dar. Quando ligara para o único resto de família que ainda tinha, não dera detalhes. Falara como quem manda um telegrama. Papai morreu. Preciso ir até vocês. Me digam o endereço. Eles o deram, sem entender. Mais tarde, um pouco mais refeita, ela finalmente falou com todos de maneira mais sóbria e se fez entender. Tinha havido um acidente, do qual a única vítima fora o pai. Ela queria muito ter ido até ali de carro, mas ele havia se acabado no desastre, de modo que precisara saber como chegar até lá de ônibus.

Embora não se vissem há tanto tempo, todos sabiam o motivo da visita de Eleonora: precisavam falar da casa em que ela morava com o pai.

Há sete anos, sua mãe havia saído de casa para ir morar em outra cidade com um homem muito mais jovem que seu pai, que ela conhecera durante uma visita que fizera a um centro cultural, onde haveria uma exposição, que ele estava ajudando a montar, levando os itens de um lado pro outro com a ajuda de outros homens. Nem ela nem seu pai jamais entenderam a atitude da mãe, mas um dia seu pai lhe falara do espírito indomável da mulher desde a época em que namoravam. Ela era dada a sumiços, e depois reaparecia como se sempre tivesse estado ali. Apaixonado, tudo perdoava, sem antever o que estava por vir e que, enfim, veio. Era da natureza dela, ele lhe disse, e as forças da natureza devem ser respeitadas. Ele falava essas coisas como se tivesse aceitado, mas quem o ouvisse compreenderia que suas palavras estavam mais próximas da resignação. A disposição para refazer a vida com alguém nunca veio. Um ano e pouco depois disso, ele admitiu que estava deprimido; e os irmãos, que eram quatro além dele, se reuniram a pedido dele mesmo, que fora até a cidade onde eles moravam para pedir que não continuassem o processo de venda da casa. Ele planejava comprar um outro apartamento, dali a um tempo, assim que pudesse, na verdade, mas não agora. Alguns acharam que era tolice: a casa era enorme, tinham tido propostas de duas construtoras, que queriam demoli-la para construir um prédio, E se o país atravessasse uma crise?, um dos irmãos questionou, as ofertas iriam sumir, disse, exasperado, e era uma grana que daria pra cada um comprar um apartamento, se quisessem, Inclusive o Leandro, disse uma das irmãs, sem a menor necessidade, mas no fim, com medo de uma disputa judicial que poderia protelar a venda do imóvel ainda mais, combinaram com ele um prazo de seis anos, que fora antecipado em dois anos, por conta de sua morte.

Marieta foi logo pedindo desculpas por não ter ido até ela e ajudado com a mala, e Eleonora disse que não tinha problema, afinal, ela nem tinha como ter certeza de que ela era mesmo a pessoa que aguardavam. Estavam tanto tempo sem se ver, justificou. Além do mais, disse Marieta, eu tenho medo de sair e os meninos escapulirem de casa. Mas vá entrando, vá entrando, disse a prima.

A porta da casa estava aberta, e assim que ela se viu na sala, notou que todos os seus parentes estavam espalhados ao redor do espaço. Uns sentados à mesa, outros no sofá, e um ou outro em pé, mas todos pareciam reunidos como para esperá-la. Eleonora não se fez de rogada e colocou a mala no chão. Quando levantou a cabeça, todas as feições que enxergava lhe eram completamente estranhas. As pessoas que não mais que dois segundos ela conseguia mais ou menos posicionar em algum momento da sua infância, quando vinha passar férias na casa de um dos tios, agora eram todos gente que ela nunca havia visto na vida. Deve ser o calor, pensou, e disse para os que ali estavam que precisava de uma cadeira e de um copo d’água, não estava muito bem, ao que alguém correu para a cozinha dizendo, Claro, claro, como pudemos ser tão insensíveis?!

Eleonora bebeu a água lentamente, de olhos fechados, na expectativa de que quando os abrisse tudo voltaria ao normal. Não voltou. Todas as pessoas que se encontravam ali, os dois tios, as duas tias, dois filhos de um de seus tios e o advogado que representava a família, continuavam sendo pessoas que nunca havia visto. Nervosa, Eleonora nem chegou a abrir a mala onde estavam apenas os documentos da casa e do processo da venda. Levantou-se, pediu licença e disse que voltaria em outra ocasião. Um dos supostos tios se interpôs em seu caminho, O que está acontecendo, Eleonora? Nós temos interesse em que isso se resolva o quanto antes! Sem conseguir olhar o estranho no rosto, ela disse, Eu também, mas não estou me sentindo nada bem. Uma mulher, que deveria ser sua tia, falou então, Deite um pouquinho, você deve estar cansada da viagem. Eu também achava que era isso, mas não é. Preciso ir embora, prometo a vocês que volto outro dia. Ainda ouviu um Se essa menina estiver aprontando alguma coisa pra cima da gente, e Ela pensa que estamos exigindo o quê além dos nossos direitos? antes de conseguir se desvencilhar do irmão de seu pai que barrava a porta e chegar novamente a calçada. Os tios ficaram falando alguma coisa dentro da casa, mas ela não distinguia mais as palavras. Não fazia ideia do que eles lhe fariam caso descobrissem que o pai havia morrido afundado em dívidas e que a casa seria tomada para pagá-las. Estaria seu cérebro inventando coisas como forma de defendê-la de algo pior?

Marieta levantou-se de onde estava na calçada assim que a viu, Já resolveram? Eleonora não conseguiu responder. Com a mala debaixo do braço e a lua já anunciada no céu, correu para longe dali o mais que pôde. A prima estacou, sem entender, e quando percebeu que Eleonora já ia lon- ge, jogou-se no chão, voltando-se para a porta da casa. A transformação levou menos de um minuto. Entrou na casa rastejando e sibilando, onde juntou-se a todos os outros parentes, que agora também deslizavam pela casa subindo nas maçanetas, deslizando pela porta da geladeira, entrando em gavetas, enfiando-se debaixo de algum móvel. Estavam atarantados, irados, chacoalhavam seus rabos com força, enlinhavam-se uns nos outros, doidos por algum ratinho ou pássaro que passasse por ali desavisado, porque se tem coisa que aplaca a raiva é comer.


Do livro Todo naufrágio é também um lugar de chegada. Editora Moinhos. 2016.





Novena

Sessenta anos. Feitos hoje, às 4h20 da madrugada, como mostra a certidão guardada na primeira gaveta da cômoda junto com outros documentos, dentro de uma caixa de madeira. Seis dezenas de anos lindos, cheios de amor, felicidade, aventuras, filhos, viagens, realizações. É esse o discurso que lhe cabe repetir mais à noite, na festa que o marido preparou para ela. De improviso, é o que todos pensarão. Só ela sabe o tempo que gastou imaginando cenas que nunca viveu. A cada linha do roteiro, o rosto do marido violento vindo à mente. E ela levando de 10 a 20 minutos para expulsá-lo da cabeça, para expulsar o medo que a paralisa. Descobrindo que só pensando em outra história conseguirá desenvolver um script aceitável. Nada de noites acordadas esperando pelo homem que chegava cheirando à bebida e ao perfume de outras. Nada de reclamar, implorar, chorar, exigir explicações que não viriam. Nem de se lembrar de tapas, socos, pontapés, e do ódio que tomava conta daquele homem que deveria ser o seu companheiro.
Decidiu que em seu roteiro daria à luz dois filhos que a amariam muito. Não mais os que tinha gerado e que sempre davam razão ao pai violento; que se deixavam comprar por carros, viagens, dinheiro fácil; que a chamavam de exagerada, dramática, ciumenta, paranoica. E que a acusavam de se fazer de vítima para infernizar a vida do pai deles. Não mais as crianças que ela havia amado tanto e que agora, constantemente, lhe diziam que ela devia calar a boca, sumir, morrer. Que ela era chata, irritante, velha, gorda, malvestida, burra, inútil. Esses, não. Esses não poderiam estar no texto perfeito, harmonioso de logo mais à noite. Os filhos do seu texto seriam criaturas educadas, reconhecidas pelo esforço que ela fizera durante anos para apanhar sem gemer, sem revidar, sem denunciar o monstro que a desqualificava e debochava dela todos os dias. Anos em que vira nos olhos das empregadas e dos amigos mais próximos uma piedade que depois se transformou em raiva e, por fim, em desprezo. Não larga o marido porque não quer. Não denuncia o marido porque não quer. Gosta de apanhar, só pode. E ela sem saber como mostrar que não tinha forças para ir embora. Sem saber como contar que ninguém a desprezava mais do que ela mesma. Afundando em meio ao pânico das ameaças constantes. Se me abandonar eu te mato. Se me expuser para os meus filhos e meus amigos eu te acho no inferno e te arrebento todinha de porrada. Somente depois de muitos anos é que perdeu o medo dele. Passou a ter medo da vida. Do diploma que fazia falta. Das línguas que não falava. Dos amigos que não tinha, porque as pessoas que a cercavam não a respeitavam. Como ela não se respeitava. 
Sem ter para onde ir e não podendo contar consigo mesma nem com ninguém, apegou-se às rezas. A princípio, ave-marias e pai-nossos isolados. As primeiras, recitadas atropeladamente enquanto o marido avançava sobre ela. Como se o rogai por nós, pecadores, pudesse impedir o braço dele de mais uma violência. Os pai-nossos, reservados para a hora dos socos. Livrai-nos do mal, livrai-nos do mal, livrai-nos do mal... E o mal cessava. Cessava depois que ela estava toda roxa e arrebentada, corpo e alma. Aquela alma que se apegou, em seguida, à reza de terços inteiros sem, no entanto, parar de apanhar.
Os anos trouxeram algum alívio. Ela foi se cansando de cobrar, de implorar, de chorar. Ele foi se esquecendo de bater tão forte. Foi deixando de exigir que ela estivesse sempre por perto para servi-lo. Mandou-a para outro quarto, mal falava com ela, obrigava-a a fazer as compras de casa no cartão de crédito, pela internet, não lhe dava
dinheiro para nada de pessoal. Quando ela precisava repor calcinhas e sutiãs, ele, primeiro, negava. Então, repetia-se uma cena. Ela revidava, dizendo que mostraria os hematomas aos amigos e aos sócios dele. Nesses dias, rezava três terços logo cedo,  para aguardar a surra que levaria à noite, assim que ele voltasse do trabalho. Mas funcionava. Depois das porradas, ele punha sobre a cômoda um dinheiro para a lingerie. 
Sessenta anos. Há trinta e cinco ela se deixou para trás. Aprendeu a não sorrir, a viver sobressaltada, a dormir preocupada com ameaças. E a se transportar para dentro das novelas para sentir felicidade com as histórias dos personagens. Começou a escrever roteiros mentais e a criar histórias que a reconfortavam mais que ave-marias e pai-nossos penitentes.
Hoje, encerrou a primeira novena que rezou na vida. Hoje que ela faz sessenta anos. E que haverá uma festa. A festa em que ela pedirá a palavra e contará aos amigos como sobreviveu aos anos que levou apanhando, chorando e se escondendo de vergonha. Em que vai acusá-los de só pensar nela como uma fraca idiota. Em que vai perguntar a todos eles por que viraram as costas para ela sem tentar entender os seus motivos. E por que fingiram não saber de nada. A festa na qual ela dirá aos filhos que os renega por eles nunca terem tentado amá-la ou compreendê-la. Aos pais idosos, que não  os perdoa por eles viverem repetindo “o que Deus uniu o homem não separe”.   À mulher do porteiro, em pensamento, o quanto lhe agradece pela novena de Santa Rita dos Impossíveis que recebeu faz poucos dias.
Constrangidos, os convidados irão embora, a despeito dos pedidos de desculpas do marido e dos filhos. Zangados, os pais dela também irão embora, mas não sem antes repreendê-la por ser ingrata e leviana. Furiosos, os filhos, igualmente, irão embora, depois de humilhá-la com meia dúzias de frases que ela conhece de cor, e de lhe dizer, aos gritos, que nunca mais falarão com ela. 
Restarão na sala o marido e ela. Eles se olharão. E ele subirá as escadas com ódio, para esperá-la no quarto. Antes de subir atrás dele, enquanto ainda estiver protegida pelos cochichos assustados das empregadas na cozinha, ela se permitirá uma dose sem gelo do melhor uísque que ele guarda apenas para si mesmo. E falará com alguém ao telefone, por três ou quatro minutos. Chorando muito. Entrecortadamente.
Quando chegar ao quarto, vai apanhar mais uma vez. Muito. Porque ela precisa apanhar. E ficar roxa, e ficar mal. Por isso vai provocá-lo, despejando sobre ele trinta e cinco anos de falas abortadas. E ele continuará batendo, até que ela decida que já foi o bastante. Então, ele sentirá no peito a lâmina afiada da faca de carne. Que ela vai enterrar e desenterrar e enterrar outra vez, e mais outra, e mais outra, e mais fundo. Com a força de uma fúria que tem trinta e cinco anos. Gritando como se fosse ela a morrer. 
Quando a polícia chegar, a polícia para a qual ela ligou chorando antes de subir para o quarto, a polícia para a qual ela pediu ajuda contra o marido que ameaça matá-la a pancadas, ela não vai reagir. Nem quando tirarem a faca de sua mão, nem quando a conduzirem para fazer o exame de corpo de delito, nem quando o seu advogado alegar legítima defesa e afirmar com convicção que, depois de apanhar durante tantos anos, sua cliente matou em privação de sentidos. Tudo agravado pelo aniversário. Porque as datas sempre detonam os gatilhos psicológicos. 
Sessenta anos. Trinta e cinco em negação. E, finalmente, uma novena poderosa.