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sábado, 25 de fevereiro de 2017

O homem invisível


Em homenagem a todos os trabalhadores da RTP
que há 60 anos improvisam as mais bizarras soluções
para fazer chegar ao espectador o produto televisivo

O menino tem uns oito ou nove anos e lança ao avô um pedido habitual:
Conta-me uma história verdadeira, avô! Daquelas da televisão!
Desde pequeno que o ancião lhe conta histórias do seu passado profissional na televisão pública, sobretudo as dos tempos pioneiros. Há alguns anos, encontrou nessas histórias uma maneira de entreter ou fazer adormecer a criança; agora, tem ele próprio algum prazer em recordar momentos que na altura eram, às vezes, pouco agradáveis e até crispados. Aliás, esses episódios antigos surgem-lhe mais nítidos do que as vivências recentes. A idade traz destas contradições.
Já tas contei todas, Ricardo! — mente ele, conscientemente. As histórias não acabam nunca, sabe-o bem, a única limitação é a memória. — Queres que te conte qual?
Aquela em que trocaram as cores das luzes da câmara do locutor, e ele fazia caretas, a pensar que a câmara não estava a transmitir e que as pessoas, lá em casa, não estavam a vê-lo — entusiasma-se o miúdo. — E o teu colega que fez isso estava escondido a rir-se muito!
Aquela lembrança de uma brincadeira passada no Estúdio 2 do Lumiar traz-lhe instantaneamente, sem saber por quê, outra recordação mais antiga de algo a que estivera ligado, também naquele estúdio. Não sabe se já a contou, mas envereda por essa peripécia:
Vou-te contar a do Homem Invisível — declara, confiante no êxito da proposta.
Conta, avô, conta! Essa não conheço — delira a criança.
Então foi assim: no princípio da Televisão Portuguesa, havia um programa que passava filmes policiais e que era apresentado por um senhor que se intitulava “O Inspetor Varatojo”. Era visto por muita gente, porque o senhor explicava muitas coisas dos filmes e a maneira como os polícias e os detetives, por meio de raciocínio e muita observação, descobriam os bandidos que faziam os crimes. Pedia aos espectadores para estarem muito atentos e fixarem pormenores do local do crime, como faziam os detetives espertos, para que lá em casa pudessem também suspeitar de quem tinha sido o criminoso. O programa era só isso: o senhor a explicar estas coisas e depois passava o filme. Mas era muito popular.
Como só tinha um senhor a falar, o programa era feito num estúdio pequenino, ainda mais pequeno do que esta sala. E não precisava de mais do que duas câmaras: uma para dar a cara do senhor e outra para o mostrar em tamanho maior, a ver-se em fundo uma secretária ou um mapa ou algo assim. Na altura, eu era operador de câmara, mas fazia o que fosse preciso, das coisas técnicas. Nessa época éramos “meia dúzia”, éramos como uma família. Ora, certa vez, o senhor Artur Varatojo — era assim que ele se chamava — precisou de ir ao Brasil, lá por coisas dele. E, portanto, não podia estar cá para apresentar o programa, que passava uma vez por semana.
Então, gravaram-no a falar no estúdio, antes de ele ir embora, e no dia do programa passaram o vídeo! — deduz o rapazito, já muito rodado em tecnologias recentes.
Pois… O problema, Ricardo, é que nessa altura não havia gravadores de imagem, só de som… — articula o avô, ciente da mossa que está a causar nas certezas do petiz e do aumento de curiosidade que lhe está a suscitar.
Não havia, avô? Como é que isso podia ser?
Era! Não havia. Tudo era feito em direto: peças de teatro, concertos, provas desportivas, telejornais. Só quando alguma coisa não se conseguia passar em direto é que se filmava.
Já sei, filmavam com uma máquina fotográfica, como aquelas que tens guardadas — adianta-se o neto, a agrupar informações.
Isso! Mas maiores; máquinas de filmar que usavam grandes rolos de fita de filme. Era um processo complicado, demorado e caro. Por exemplo, as notícias para o Telejornal eram captadas em filme. O operador, depois de as filmar, voltava para os estúdios, levava o filme ao laboratório, onde era revelado; depois era montado, para tirarem as partes sem interesse e só então era posto na máquina que o transmitiria durante a emissão do Telejornal — descreve o ex-técnico com pequenos lampejos no olhar. — Percebeste tudo?
Hmm! Acho que sim. O avô já tem falado disso.
Mas, dessa vez não filmaram o Inspetor Varatojo, já não me lembro por quê. Se calhar, foi só porque o Inspetor não pediu esse serviço, talvez porque já tivesse combinado comigo uma solução engenhosa.
O quê, avô, tu é que resolveste o problema? — recrudesce o entusiasmo parental do rapaz.
Já não me lembro de quem teve a ideia. Lembro-me de que o Inspetor veio falar comigo, a dizer que tinha de ir ao Brasil, e depois alguém teve a ideia. Não sei se foi ele ou eu ou alguma outra pessoa que assistiu à conversa. Sei que nessa altura — o antigo operador de câmara semicerra os olhos, a concentrar-se na memória que cada vez está mais volátil — devia ser aí por 1961, 62..., andavam a passar na televisão os filmes do Homem Invisível. Com grande êxito. E uma coisa levou à outra. Pois se o Inspetor não estava cá… estava invisível. Às vezes umas ideias puxam as outras.
O quê, avô, o quê? — o jovem não cabe em si de excitação.
Se não podia ver-se o Inspetor em imagem, porque é que não se havia de fazer como nos filmes do Homem Invisível? O quê? — Pôr o Inspetor Varatojo a apresentar à maneira do Homem Invisível! Como? — Um tipo qualquer embrulhado em ligaduras. Ou então… invisível. Com a voz do Inspetor.
Eh, avô, isso era batota, não? Só o som?
Era só um programa, mas o problema é que ficava uma imagem muito pobre, sem movimento. Televisão são imagens a mexer. É o que as pessoas esperam. Então resolvemos dar-lhe algum movimento, para parecer verdade, e a coisa ficou combinada. Fizeram-se as gravações de som do Inspetor Varatojo a apresentar os seus filmes policiais e ele pôde ir à vida dele.
Com tanto contacto com filmes, o ex-técnico aprendera alguma coisa da maneira de fazer render uma história.
O que combinaram, avô? Diz, diz! — desvaira o moço, com tanto suspense.
No dia do programa — acho que era às segundas-feiras — apontou-se uma câmara para uma máquina de escrever, do ponto de vista de quem bate nas teclas. Era uma máquina daquela época, mecânica, com uma letra metálica em cada braço comandado por uma tecla. À hora do programa, quem estivesse em casa ouvia o Inspetor Varatojo, com a voz de sempre, a apresentar os filmes, e via uma máquina de escrever, a bater as teclas sem ninguém lhe tocar. Ninguém, não! A voz do Inspetor avisava, em tom maroto, que nesse programa tinha a colaboração especial do próprio Homem Invisível…
Boa, avô, fantástico! Isso devia ser ainda mais interessante do que nos outros dias, não? Mas como é que as teclas batiam sozinhas?
Eh, eh, eh! — a voz excitada do miúdo é música para os ouvidos do ancião. É hora de lhe fazer, finalmente, a revelação. — Por baixo da secretária em que a máquina estava pousada, estava eu, com dez cordéis presos aos dedos, cada cordel a um dedo e a um braço da máquina… Enquanto ouvia a voz gravada do Inspetor, eu ia puxando ora um, ora outro cordel, dando a ideia de que o Homem Invisível é que estava a acionar as teclas...
Caramba, avô! Afinal, o Homem Invisível eras tu!
Sim, e era duplamente verdade — eu também estava bem invisível por debaixo da secretária.
Esta foi boa, avô! Gosto muito das tuas histórias verdadeiras. Devia ser muito divertido trabalhar na Televisão. Agora, queres jogar à bola?

Joaquim Bispo

* * *







sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

MINICONTOS DE EDWEINE LOUREIRO (II)






segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Os santos de Almires


Como em todas as terças feiras, sol querendo raiar, Almires desceu do ônibus em frente
à Paróquia dos Milagres, num bairro de gente muito rica, onde trabalhava como doméstica.

Como em todas as terças feiras, entrou na igreja, curvou-se diante do altar lá longe
e ajoelhou-se na bancada da última fila. Rezou, refletiu sobre a vida, não pediu nada.
Apenas agradeceu várias coisas: a saúde, a força da fé, a serenidade, os filhos criados
e ajuizados, o bom tempo em que viveu com o falecido Raulino, a boa casa que lhe acolhera
como cozinheira, faxineira e lavadeira. Agradeceu também a existência de Marta,
a colega que vinha toda semana fazer o que ela não sabia fazer: passar roupa.

Como em todas as terças feiras, Almires dedicou de quinze a vinte minutos do corre corre à sua
fé em todos os santos, a quem confiava seus 58 anos de felicidade - aquela que acreditava
viver, apesar dos reveses naturais, quando os santos sempre lhes ofereceram as mãos para
ultrapassar perrengues com dignidade e resignação.

Nesta exata terça feira, algo aconteceu diferente. Quando, como sempre fazia, ao pedir um
sinal de que suas preces estavam sendo ouvidas, sentiu uma mão firme sobre seu ombro
esquerdo. Não olhou para trás. Finalmente, o afago de Raulino, seu companheiro de 40 anos,
que dessa vez resolveu compartilhar seus momentos de paz e devoção.

- Perdeu, dona. Passa a bolsa.

Na mesma fração de instante, Almires sentiu na nuca algo gelado e pontiagudo. Não poderia ser Raulino. Ato contínuo, olhou para todos os santos que estatuavam pelas laterais do altar, numa súplica instintiva que olhassem por ela num momento tão inusitado. Qual nada. Todos olhavam
rígidos em direção aos céus, como se de lá viesse alguma providência divina.

- A dona é surda ou quer morrer na igreja?

Almires sem olhar para trás, sentiu mais a pressão gelada num ponto que já a incomodava.
Passou a bolsa com tudo que tinha: um chinelo, uma muda de roupa íntima, um celular tecnologicamente ultrapassado, a carteira com retrato dos filhos e de Raulino, uma imagem
de Nossa Senhora, o cartão do vale transporte e 180 reais que não eram seus. Sim, terça feira,
dia de frutas, peixe fresco, peito de frango e legumes para forrar a geladeira da patroa
na semana.

Almires sentiu a mão deixando seu ombro e o troço pontiagudo sumir. Foi-se a bolsa, ficou
a taquicardia pelo susto. Almires elevou os olhos ao altar distante, fez o Sinal da Cruz
e balbuciou entre os lábios ainda trêmulos.

- Deus sabe o que faz. 





sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ganhar uns trocos, modos de viver e pensar - por Eloísa Aragão

Ganhar uns trocos, modos de viver e pensar

Os cabelos pranchados, presos num coque bem no alto da cabeça. As sobrancelhas desenhadas, o olhar brilhante, a calça justa no andar inquieto, no estreito caminho entre os carros que ela vigia nas ruas. Espaço onde faz bico porque “A vida não tá fácil, não, colega, e aqui eu ainda ganho uns trocos”.
            Jeanne é seu nome. Tem 27 anos. Experiências de vida não faltam: é a caçula de uma mãe que faleceu quando tinha 45 anos. Jeanne não conheceu o pai, mora numa pensão, vende café e bolo de manhã numa banca, esquina com um grande hospital. À tarde e às vezes à noite guarda carros nas ruas, não tem filhos, não conseguiu terminar o Ensino Médio. Quer fazer o curso completo de designer de sobrancelha, por um ano até foi assistente de um profissional dessa área e sabe que tem talento.
            Do amor não tem ideia nem muita esperança se vai chegar. “Quem sabe?”. Uma vez quando amou teve medo e só descobriu tarde demais. “É o que temos para hoje” e gargalhamos – talvez porque essa expressão tenha mais de revolta do que conformismo. Diz que acha que pagou a língua dos muitos julgamentos que fez sobre o modo de viver da mãe. Ela tinha HIV e ainda viveu 20 anos. “Não passou para mim na barriga nem para ninguém na família”. Fala também que sentia vergonha porque imaginava que a mãe contasse sobre o problema para muita gente na igreja. “Era um inventário de problemas, você nem imagina, colega. Mas a minha mãe era linda!”.
            No dia anterior, chegou para estacionar na rua uma Van transportando um grupo de professores que ia para um encontro de história. Jeanne se aproximou da mulher que lhe pareceu mais simpática e, depois de um pouco de prosa, disse: “Na escola, eu adorava as aulas de história. Lembro um dia quando fiz teatro e gritei: “In-de-pen-dên-cia ou mor-te! In-de-pen-dên-cia ou mor-te!”.
            A professora quis rir e não conseguiu. Seu bom humor tinha ficado manco, trancado num outono de 2016. Com frequência, tem desejo de gritar do alto de um mirante. Sua boca agora estava rígida, o olhar um tanto vago. Apenas suspirou fundo e repetiu baixinho mastigando as sílabas: “In-de-pen-dên-cia ou mor-te!”. 


 

(Mamilus de Venus, autoria desconhecida)


ELOÍSA ARAGÃO é doutoranda em História pela USP e mestre pela mesma instituição. Gosta muito de literatura, memórias e histórias de vida. Trabalhou em várias editoras e fez muitos freelas na área. Sente que o feminismo pode ajudar a mudar o mundo e uma saída para a crise civilizatória atual talvez seja viver de maneira alternativa e autossustentável. Isso faz parte dos seus sonhos.





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quimono cor de sal






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

E no princípio (final alternativo)

E no princípio era o tédio. O tédio da perfeição. Um derredor irretocável de verde e luz e astros que nunca colidiam num firmamento harmônico e sonolento. Uma terra vermelha, em paz de repouso, intocada de plantio e frutificação. Uma água em adágio se acomodando em mares e rios e lagos e grotas. Trabalho de cinco dias. Longos dias. 
Hora de descanso. De contemplação. Mas o sono não vem. E a exaustão que não repousa se desdobra em febre. Delírios. Não basta, não basta, não basta. É preciso mais. Mais do que apenas o barulho das pedras batendo umas contra as outras, do que o vento roçando o capim, do que os trovões fazendo tremer a terra, do que a chuva arrancando ritmos das copas das árvores. 
Sim, é preciso mais. E inicia-se um sexto dia em mugidos, pios, rosnados, cacarejos, balidos, zurrados. Que saltam de criaturas isentas de pensar, mas sencientes. Dotadas de voracidade e faro. De ouvidos e olhos projetados para as distâncias e para a escuridão. Som e movimento. E tudo isso já é verdade quando termina a manhã.
Mas falta ainda. 
Insatisfeita, a Inteligência Criadora de todas as coisas procura respostas dentro do seu próprio núcleo. E tudo o que encontra é uma vontade intensa de repetir a si mesma, de se multiplicar em imagem e semelhança. Sentando-se, então, sobre a terra vermelha que a chuva transformou em barro, toma um punhado daquela lama em suas mãos. E brinca. 
Primeiro são ossos, veias, sangue. E pele para cobrir tudo isso. Depois são olhos, boca, nariz, ouvidos, queixo, peito, quadris (em traços de maior delicadeza do que aqueles que concedeu aos bichos). Mãos menos capazes do que garras. Pés menos velozes do que patas. Coisas semelhantes, mas reduzidamente  em tamanho. E não há injustiça nessas diferenças. 
Moldado esse animal menor, macho e único de sua espécie, concede-lhe atributos que não possuem os animais. 
<Eu te concedo o poder de caminhar sobre apenas duas pernas.>
<Eu te concedo o direito ao pensamento, e às palavras, e à sabedoria, e às emoções.>
<Eu te concedo a existência livre de transgressões e culpas.>
<Eu te concedo o livre-arbítrio.>
E, feito isso, chama aquele macho pelo nome Adão. Homem criado da terra vermelha. E sopra sobre ele a vida. E quase se retira para finalmente repousar.
Mas, mais uma vez, ainda não. Porque o impede do descanso a lembrança da sua própria solidão. 
Então, antes que seque o barro vermelho do corpo recém-trazido à vida, arranca dele uma costela, a maior de todas. E cria dali um outro corpo. Um corpo de fêmea a quem chama Eva. E lhe concede os mesmos atributos. E a dá por companhia a Adão. 
Saciada, a Inteligência Criadora contempla tudo. E o sétimo dia está para despontar, quando Adão apresenta-lhe um questionamento. Falam-se por algum tempo. Eva, à distância, não sabe que é alvo da primeira discussão entre Homem e Criador. Faz-se, então, silêncio. E a Inteligência Criadora se afasta para meditar.
Durante toda a manhã, criaturas e água e terra e firmamento se calam, em obediência respeitosa. Mas pouco depois que o sol está em zênite, a Inteligência Criadora retorna e senta-se sobre a terra vermelha. Retira de Adão mais uma costela. E cria outro corpo à sua imagem e semelhança. Ao novo ser chama Homo. E o dá por companhia a Adão e Eva.

É hora de descanso e gozo. Sentados sob uma macieira, Homem, Mulher e Homem se entreolham. Nos galhos acima deles, enroscada, uma serpente desnorteada se consome em indecisão.





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

os meus microcontos escambau







nota: a palavra que foi mote vem sublinhada em cada texto


desesperava de encontrar com que satisfizesse o seu gosto apurado
paladar requintado o que ele tinha
e, de repente, eis que se depara com aquela gorda
anafada
cheinha de carnes
ele havia de tê-la daí a nada
hummm derretê-la toda entre os lábios
dentá-la
comida mais safada, pensou ele a remirar o olho de lombarda


olha eu sentada, eu deitada, eu na janela, na rede, na cama, na espreguiçadeira; sol na cara e nos seios libertos e zero do que seja pensamento, lisinhos os neurónios todos, e esta gaja: anda, anda fazer uma caminhada
é doida a gaja!!
eu quero é estar sem fazer corno e ela a arranjar-me ocupação
porra!

Siderou,
dir-se-ia dele se existisse o termo.
E nem era o seio pequenino e tenso,
rosado nas auréolas,
nem a nádega redonda no perfil que ela dava,
nem eram os olhos que ele mal adivinhava,
verdes como erva ou alface.
A perturbá-lo, não era o nú do corpo, mas aquela trama
a rasar-lhe o joelho.
Loira,
trança.


- não, não, não
as pernas dela enleando-lhe os rins e ele num respirar tenso e, mal enlanguesceu, ela desprendeu-se-lhe, entrava pela janela o soldado da paz
foi quando percebeu o calor desmesurado daquele quarto de hotel de terceira classe
ele a vê-la nua e ainda orgástica, a ser levada escada abaixo



escafelos
e ela, de lápis em riste, a contorná-los
caracóis, lulas, passarinhos, árvores e troncos
flores
e homens narigudos
e, um dia, apareceu um barco naufragado
e os afogados
outra vez, ela criou o paraíso
e a gente: mãe, e aqui? de dedinho apontando
o universo e mais o sonho num pedacinho de parede


Quando o avistou em contra luz, ele perfilou-se, bateu os calcanhares de botas rebrilhando de graxa e cuspo, e gritou: “Pronto meu sargento!”.
“À vontade”, disse o outro, e ele descontraiu-se dentro da farda de cotim cinzento.
Estava a guerra no auge e o sargento disse: está mobilizado, nosso cabo.


Fica ali sentada. Horas, a olhar no carril que se esvai numa curva.
Fará já dois anos que assim se repete.
Parece que não sabe, mas vieram dizer-lhe: nem sobrou nadinha do seu corpo. E ela veio sentar-se, como hoje, a ver o sorriso dele dependurado no que é só imagem daquele trem.



Tinha lençóis com renda e com bordado, atoalhados de mesa e de banho, naperões e tapetes e colchas e mantas fofas; e jarras e candeeiros e um espelho de sala que lhe dera a madrinha.
Um enxoval rico, invejavam as amigas.
Mas só tinha tachos soltos e panelas e como ela queria ter um trem completo.



Tinha tudo
Tinha até inveja programada e doença de ficar com borbulhagem
e contorcia a cintura na hora dum tango
Naquele dia abraçou-o
confessou-lhe: amo-te
Um curto-circuito derreteu-o
Tinha tudo, sim, menos a essência do humano



Virgílio, leia.
E ele leria de uma luz a brilhar no céu e de um menino e de uma fuga.
Leria, mas o professor interrompeu-o: isso é sobre quê, Virgílio?!
Ele que de Natal só sabia o que lhe contavam, ele que mal chegara, percebeu que, para ser ouvido, teria que tornar-se domador da sua realidade.


Credo, disse. Que termo, pensou, o monitor piscando, nu.
Nunca iria conseguir coisa de jeito. Nunca fora de bestas, nem mansas, muito menos dessas. Nunca andara senão em burrico na praia e fora jogada pelo pescoço, o cu dorido na areia.
Não, não ia inventar trama sobre ferradura. E desligou o monitor.

Sua égua! era como invectivava a todo o instante.
Grande égua, nosso soldado! e assim por diante.
O Sargento Miguel havia de ferrar-se, desgraçado: um coice da alimária e foi-se. E nem era égua, era um macho de boa ferradura.


A tua mãe. Como pensas nela!
Toma conta dos teus irmãos, dizia-te.
Ela sempre fora e dentro gritava-te como se fosses culpado de tanta criança e de tanta miséria.
 Soluçaste quando aquele senhor te obrigou, mas voltaste, que ela gritou: queres deixar morrer os teus irmãos à fome, Dimas?!


O pai tinha-lhe dito, brincando, como se fosse lenga-lenga.
Naquele dia, a colocar a proteção nos dentes, a aguardar outro  round, o outro já sangrando e ele zonzo, rememorou: o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos.







domingo, 5 de fevereiro de 2017

estiagem



se me tens 
confuso e distante
saiba que por um instante
eu desejei partir
e sumir como água que adentra a terra
em tempo de seca
e secar como o amor de quem se acomoda
ou desacorçoa

se te pareço 
um pouco melhor do que antes 
(na boa)
saiba que a minha dor
continua a mesma





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

SONETO DO AMOR ERRANTE







Na busca pelo amor inabalável,
Percorro os descaminhos da História
A ver se algum erro imperdoável
Justifica tão triste trajetória.

Sou levada ao Romeu inconsolável
Frente a sua Julieta da memória.
Jaz eterna a donzela vulnerável,
Condenada à separação inglória.

Sigo, então, em busca de outros amantes
Que trouxessem a certeza do eterno:
Pedro e Inês, Heloísa e Abelardo,

Ou talvez os anônimos errantes
Que habitam os escombros do inferno,
Carregando do amor somente o fardo.





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Ira

não é o cuidado quem me corteja. [tens vocação ao desprezível.]
empesteio a casa com o tumulto das nervuras. meu apelo é pela surra.
confinamento de medos à beira do estrago.
ressignificado à carne em gotas de expiação. [cada qual com sua sina. aceita-te difuso.]
infame missionário a extinguir profecias.
abatedouro de fossas sem fim.
piedade que alimento na asfixia. [engula o choro. vezo de maturidade além-túmulo.]
dádiva de espasmos para saciar a besta. latir é o solstício de deus algum.
[perturbo-te em unções.]
clandestino dentro da própria casca onde o apogeu é a cicatriz.
[motive-se no desígnio da ingratidão.]
séquito de miragens avassalando os porres. arranho feridas.
o auxílio chega em ritos de utopia. [afunde tormentas no insulto.]
especulam-se nas minhas neuras o monstro ressentido.
reprimo o estouro para compensar em agrados. [renuncie o perdão.]
ovaciono a insignificância na dissociação dos caminhos. subverto lembranças.
senciente feito uma esponja de hecatombes. [absorva quem desistiu.]
renego a benzedura que me cala em vazios.
limito-me ao testemunhar a passeata dos desfiladeiros. parcimônia para o distúrbio.
metástase de um grito sucateado. [caroços acarinham a pele.]
nasceu no peito para morrer nos olhos. relicário de bordoadas.
não me perdoo pela mansidão extinguida. [possibilita abusos quando indistinto ao céu.]
recai sobre meus ombros a diacrônica cruz das apelações.
virgem alguma me pariu em alforria. [decore orações para festejar o luto.]
tenho suportado apatias com as lágrimas rasgando o silêncio.
ascendo-me pútrida estrela na vigília das exclusões. réquiem à liberdade.
margeado de cultivos que não souberam bajular tolerâncias.
quinquilharia sujeita às regras dum espelho esnobe. [sorria para a arrogância.]
quero me julgar por entre os estiletes da insolência.
estou contido na diminuta abstração dum inóspito trânsito. [vagueie no escárnio.]
usura do infinito ao desvelo.
minha carência é de infernos. 

Imagem: Hans Printz