Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Doze Passas do Ano Velho


(12 Passas do Ano Velho. Calibre micro: até 300 caracteres)



Terminal
Naquele tempo, eu trabalhava no terminal de contentores do porto de Lisboa. Certo dia, fui incumbido de verificar um, chegado da Líbia com tâmaras, que vertia líquidos. Trinta e dois corpos, alguns já em decomposição, amontoavam-se no pouco espaço livre. Sete eram de mulheres, dois de crianças.
*


Sensível
Bruno colocou o automóvel no túnel da lavagem automática e afastou-se, para evitar olhares incómodos. Assim que as escovas mecânicas começaram a esfregar a superfície do carro, começou um diabólico festival de buzinas, faróis e solavancos.
Ninguém acreditava, mas eram cócegas.
*

Mistério
Ouvi uma lenda sobre o meu prédio assim que me mudei para cá: haveria uma costureira fantasma, que cosia roupa à máquina. Na verdade, dias depois, ouvi o tic-tic-tic fantasmático, mas pareceu-me o ruído normal de um contador de água. Para o confirmar, bati a todas as portas. O prédio estava vazio.
*


Gestão
Quem deu a novidade foi o encarregado da chave da latrina: a partir daquele dia, todos os operários teriam de trazer as necessidades feitas de casa, ou trabalhariam mais uma hora por cada dez minutos de retrete. A revolta entrou nos peitos tão furtiva como a nova fragrância do ar.
*

Encontro à 1 e 5
Apático, observo o relógio da sala silenciosa. O elegante ponteiro dos minutos apressa-se, impaciente. O das horas — sereno, anca larga, de uma sensualidade manifesta —, parece esperá-lo. Ouço uma badalada quando se avistam. Dali a cinco minutos roçam-se um no outro, sem pudor. Desvio o olhar.
*


Casal
Na casa da aldeia havia uma máquina de escrever antiga, com uma fita de duas cores. Quis experimentar a velharia e tentei um microconto. As letras metálicas batiam na união das cores. No papel, consegui ler uma história na metade preta de cima, e outra na metade vermelha de baixo. Complementares.
*

Corpos celestes
Sabendo da magia especial dessa noite, Eduardo prometeu à namorada uma surpresa. Conduziu-a de olhos vendados e revelou-lhe a lua cheia, imponente no seu zénite. «É tua, meu amor; dou-ta!» Ela, maravilhada e enamorada, mostrou-lhe a via láctea, sem nada dizer. A paixão explodiu, cósmica.
*


“Alma cibernética”
O primeiro processador compunha frases simples, a partir de longas listas de substantivos, adjetivos, verbos e complementos. Os seguintes geravam conjugações mais complexas. Por fim, o inventor publicou um livro de poemas.
A crítica elogiou-lhe as sonoridades e a profundidade de algumas reflexões.
*

Caridade
Na sua placidez de árvore de jardim, Acácia apreciava a azáfama dos animais, desde os lúbricos insetos aos inexplicáveis humanos. Naquela manhã, enrugou-se com o aspeto famélico de um cão que por ali farejava. Largou uma vagem, mas ele ignorou-a. Não conseguiu conter duas gotas de orvalho.
*


Inspiração
A diva iniciou a sedução do público com um “adagio” terno e enamorado, entusiasmou-o com um “allegro” vivo e jubiloso, e arrebatou-o num “presto” sôfrego e frenético. «Interpretação vívida, memorável.» Só a cantora sabia que se tinha inspirado nos andamentos do seu último desatino orgástico.
*

Injustiça
O número das botas seria um 32, e tinham sido feitas à mão — cabedal de lado, borracha de pneu por baixo. Para um miúdo da segunda classe, era um veículo todo-o-terreno. No intervalo foi patinhar nas poças da chuva. A professora sublinhou a proeza com 12 reguadas. Doeu-lhe mais a injustiça.
*


Santos anónimos
Todos elogiam a magnificência da catedral: as torres que furam os céus, os arcobotantes, as arquivoltas esculpidas do portal. Todos sentem enlevos celestiais ao contemplar a serenidade etérea da Virgem pintada no retábulo. Nem um só evoca os operários que operaram tais milagres.
*
Joaquim Bispo

Imagem: Giuseppe Arcimboldo, Cabeça Reversível com Cesto de Fruta, c. 1590.

* * *

Share




9 comentários:

Contos muito curtos e muito bons!
Como surgiram? Do nada?

Injustiça não lembrar o sapateiro Américo da casas novas, com olho zarolho, que metia gáspeas, tombas, burnia e até deitava meias solas...
Abraço e continua na escrita. Peralta

Belo painel de microcontos como se fossem azulejos que (des)embelezam uma parede de desabafos. Passos de vida aqui retratados com a elegância de uma escrita que não nega espaço ao leitor. Gosto.
Fernando Morgado

Obrigado, Águas!
Os estímulos foram palavras lançadas diariamente num concurso de microcontos. Estas: terminal, cócegas, costureira, novidade, ponteiro, fita, magia, poema, árvore, diva, botas, catedral. Aqui, apliquei-lhes títulos.

Lembro-me bem do ti Américo, vizinho da frente, Peralta, mas quem fez estas botas foi o ti João Leão, da Rua Longa, sapateiro da minha avó, com a qual vivi durante o período da primária.
Abraço!

Obrigado, Fernando! Costumo escrever contos mais longos, mas os microcontos permitem um treino de concisão que muito prezo.

Postar um comentário