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sábado, 28 de outubro de 2017

REDENÇÃO



Aquino, quanto tempo um homem deve trottoir por São Paulo antes de te encontrar? Jamais pensei que te acharia na São Bento, dentre os alfarrábios da Casa Eclética. O que fazes aqui, afinal? Não me diga que abandonaste a aguardente e as mulheres, pois se me disseres tal heresia, hei de nunca mais falar contigo. Meu velho amigo, bem gostaria eu de contar-te as novidades que trago do Norte em uma mesa de bar, dentre putas e boêmios, mas pretendo debulhar meu rosário aqui mesmo, senão, sofrerei um destes faniquitos que sempre acometem castas moças no ato do defloramento. Anda, Aquino. Larga deste Lérmontov, senta-te ao meu lado e deixa-me vender minha prosa.

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos, nobre colega. Sim, eu sabia que seria essa expressão de paspalho que em teu rosto eu vislumbraria assim que tu soubesses das boas novas que trago de Fortaleza. Uma patota liderada pelo João Cordeiro e empenhada no movimento abolicionista desdenhou da opinião do Imperador e libertou seus escravos sem a benção da Coroa. Quanta coragem! Que revolução! José Amaral, o Teodorico da Costa, o Cruz Saldanha, Alfredo Salgado, Manoel Albano, o Teixeira Júnior, enfim, os abolicionistas do Perseverança e Porvir despertaram repulsa dentre os cearenses quanto ao tráfico de negros para os centros cacaueiros e cafeeiros, criando um intenso movimento emancipador. O mulato que conheceste quando estivemos em casa de meu pai e com o qual tiveste uma desavença, aquele mercador de escravos que atende pelo apelido de Chico da Matilde, resolveu que nunca mais embarcaria escravos para o Ceará e ainda bateu o pé, firmando o ultimato de que não permitiria que mais ninguém o fizesse. Tudo isso com o apoio dos jangadeiros, do inspetor da alfândega e do agente da Polícia Militar da Marinha. Até mesmo as senhoras estão vendendo suas joias e promovendo leilões com a finalidade de comprar liberdades, homem de Deus. Escutaste-me, Aquino? O Brasil está prestes a livrar-se da vergonha da escravidão! Tu não imaginas como estão afogueados os humores daquela gente. É de nos fazer verter lágrimas de pura comoção, rapaz. O que estes olhos presenciaram no Norte do país foi algo de uma beleza estonteante, participei de um momento histórico, de uma transformação profunda na sociedade que conhecemos.

Mas há um causo ainda mais peculiar que certamente servir-te-ás de inspiração para a tua ferina prosa poética de escárnio. Há quatro meses, uma vila de nome Acarape alforriou de uma única vez cento e dezesseis cativos. A maioria deles, escravos comprados pela Sociedade Libertadora Cearense. Todavia, um comerciante local de nome João Brasilino libertou seus dez negros por vontade própria, sendo ele ovacionado pelos batutas da abolição. Mas isso não é o mais curioso na história desse mártir cearense, meu bom Aquino. Escuta-me, escuta-me. Tu não fazes a menor ideia do acontecimento escatológico que irei narrar-te agora.

Pois bem. Esse justo sertanejo de nome João Brasilino trata-se de um velho viúvo que carrega na algibeira dignidade e lucidez que raramente habitam um homem analfabeto de pai e mãe. Criou sozinho seus três filhos homens: Francisco Ageu, Antônio Agildo e Raimundo Agobar. Nunca mais quis saber de mulher, manteve-se fiel à esposa morta, sem se deitar com quengas ou amigar-se com viúvas jovens, capazes de esquentar-lhes as costas e descer a vara da educação em seus filhos. Permaneceu ele assim, sozinho, cuidando de seu armazém e criando seus meninos que, curiosamente, cresceram partilhando o mesmo incômodo desvio, o que despertava mexericos por toda a Vila do Acarape. Aquino, o que me dirias tu se eu te confidenciasse que os três moços filhos de João Brasilino, sem tirar nem por, são três meninas? Não faça esta cara, meu amigo. Não atravessei o país para encontrar-te aqui sentado diante de mim a duvidar de minhas palavras. Juro por minha santa avozinha que tanto amei em minha infância que os três rapazes são mais delicados que a nossa querida Luana das Sedas, todos moldados em uma forma da qual só deveria sair donzelas. Vestem-se como homens, muitas vezes deixam a barba por fazer, pegam pesado no trabalho árduo do armazém do pai, mas, quando param para descansar e tomar a fresca, relaxam na macheza e perdem-se em sorrisos e gracejos, trocando ideias sobre os folhetins que leem, olhando indecorosamente para traficantes e escravos, como se não os distinguissem... Como se fossem moças de família com licença para agirem libertinosamente. Sempre afogueados, sôfregos, transgredindo regras sociais com uma indiscreta naturalidade. As pessoas parecem ignorá-los, tão imersas encontram-se no processo abolicionista. Não entendo como em terra de cabra-macho ainda não deram uma sova naqueles três rapazolas. Talvez por respeito ao pai. Não sei, não sei. Tudo que posso dizer, Aquino, é que os filhos aflorzoados de João Brasilino ― Ageu, Agildo e Agobar ― tornaram-se tão familiares e misturados à geografia do Maciço de Baturité quanto os índios Potiguara, Jenipapo, Canindé e Choró. As pessoas riem, fazem um comentário malicioso aqui e acolá, mas ninguém os quer mal. Peguei-me dentre aquele povo quase por completo sem nenhuma instrução e percebi-me não como o homem educado e de trato europeu, mas como um sujeito repleto de preconceitos que, paradoxalmente, clama pela libertação dos negros e ao mesmo tempo desejava em segredo que aqueles três moços fossem corrigidos pela chibata e retornassem ao patamar das coisas tidas masculinas. Acredite-me, Aquino. Os tempos são outros e a liberdade terá que chegar para todos, inclusive para os homens-dama. Anda, filhote. Segura esse queixo, pois o melhor eu deixei para o final. O quê? Não percebes? Sim, Quiquino! Ainda tem mais.

Sete dos negros alforriados de João Brasilino se embrenharam no meio do mato e ninguém nunca mais teve notícia deles, talvez tenham feito isso por temerem que aquela febre de liberdade passasse e novamente fossem arrastados ao pelourinho e aos ferros. Ou seja, fugiram da Vila do Acarape para nunca mais voltar. Fossem os homens públicos abolicionistas ou escravistas, para eles não importava, eram todos brancos. Apenas três negros permaneceram sob a guarda de João Brasilino e continuaram trabalhando por livre e espontânea vontade no armazém do homem que um dia fora seu dono: Talo Grosso, José de Arimatéia e Domingos. Não me pergunte o nome de batismo daquele lá, que não sei, Aquino, e sua graça é o que menos importa a esta prosa. Segura na mão de Deus, companheiro republicano, e prepara-te para o desfecho desta farsa. José de Armateia amigou-se com Agobar, Domingos com Agildo e o destemido do Ageu entregou-se aos afagos pungentes de Talo Grosso. Ah, não ria, meu amigo, que o negócio é dos sérios. E o mais estranho é que não houve escândalo algum e o armazém do João Brasilino vende mais que nunca, talvez pela novidade.

O quê? O velho? Se morreu? Tu nem sonhas, coitadinho. O velho, se morre, é de afeição pelos genros de cor. Abençoou a união de seus três filhos como se estivesse a casar na santa igreja três cocotes. Acontece ali uma revolução de costumes, Aquino. Poder-se-á em um futuro próximo chamar àquele povo de parisienses do Rio Pacoti.

Pois é, rapaz! Quantos giros deu o mundo! José do Patrocínio nomeou o Ceará de Terra da Luz; não pela sua luminosidade tropical, mas por ter abolido a escravatura antes de qualquer outra província do Brasil. Quanto ao Chico da Matilde, não o chamam mais assim, foi cognominado Dragão do Mar. Já a Vila do Acarape, depois dos negros alforriados e dos filhos de João Brasilino que se amancebaram com escravos libertos, não tardou em mudar de nome. Agora se chama Redenção.

Emerson Braga

25/03/2013

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