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domingo, 22 de outubro de 2017

Neivinha do Apito, ou O Diastema (M)Oral



Dela era uma lacuna no sorriso, um vão peculiar, e ao querer suor e paixão do esposo gritava o buraco em assovio alto; caiu a Neiva de boca nele, assim falava a gente dos apartamentos, e mesmo os cães calavam-se nas madrugadas de pele quando eram conquistados por aquele nhi-nhi-nhi. Delícia de sensação, era a crença de todos, pois enquanto ela sorvia o marido o universo revela-se harmônico e bom. Até Luciano, velho resmungão do último andar, acalmava-se ao escutar o silvo, a seus gatos confidenciando,

Essa mama com fé de mártir.

Neiva era jovem e se esvaía em carne branca. Os quadris aumentavam a impressão dos pés e joelhos tortos, e as pernas, grossas, contrastavam com a cintura fina e os seios pequenos. No rosto de olhos curiosos seguia uma expressão meiga, ingênua, posta em descrença quando arregaçava os lábios e mostrava o vão superior – vão que alcançava, além dos ossos, a alma. Bela, recatada e do lar, do silvo não havia segundo, nem menos, para começar: entre calor, entre chuvas, iniciando o assovio de Neiva cessavam sons e rumores e os movimentos abreviavam-se ao mínimo, o infinito exibindo um elo devasso em sua ordem; também o trânsito minguava e fugia longe, como se existissem momentos também estimados pela sorte ou sob sua guarda.

Vencia seis anos o casamento, o noivado, a inocente sobreposição das mãos, mais os males, alegrias e opostos, e provação nenhuma foi isso. Provação foi Neiva ir ao dentista, decidida a colocar um artefato odontológico de molas e borrachas; haveria de fechar o buraco, o vão, e o especialista, homem reto, retilíneo e religioso, reconhecendo a tentação da fissura, aceitou por renovar o sorriso e o pudor de quem previa a perdição. Em casa, vaidosa e segura de eliminar um defeito, sorriu para o marido. Ele nada disse, ficou mudo; quem era para julgar pouco? À noite, sob lençóis onde silhuetas se formavam, onde iriam se formar, Neiva o devorou em silêncio. Gafanhotos soaram acima da sucção, assim como as conversas e batidas nos corredores, e o casal, sentindo isso, a violência sobre o encanto, de certa forma soube que a realidade jorrara ali.

Nos primeiros dias, moradores e animais estranharam o sossego, a renúncia do apito; então aceitaram a ordem recente como a de sempre, verdadeira, afinal aquele guincho sexual constrangia valores e consciências, denunciava vontades obscuras e há muito rejeitadas. Melhor a quietude, conjecturavam, e esqueciam o esôfago de Neiva, instrumento digno das grandes orquestras naturais. Uma semana e já ignoravam suas melodias de outrora, e quanto mais obliteravam as lembranças mais a vida inclinava-se à frente: ruas escureciam no auge da tarde, brisas violavam janelas e arbustos. Entristecidos, a menor sensação crescia com intuito de equilibrar os estímulos ausentes, e logo embates surgiam nas escadarias e estacionamentos subterrâneos. Eram vislumbradas aparições, perfis brancos e luminescentes encaminhando-se ao fosso dos elevadores, risos enigmáticos surgindo na extensão das garagens; ocorreram invasões, assaltos, sentenças jamais ditas e que anunciavam uma rotina ordinária, fora da pacífica ordem criada por Neiva e seu esposo. Os dois também se enfrentavam, dia sim e dia não, e ao final das batalhas reconciliavam-se e choravam juntos, questionando o porquê das ofensas, agressões.

Nessa época ela já se livrara do maquinismo dental; o vão, fechado, era devaneio de ontem. Acostumaram-se a discutir durante o café da manhã e, num desses, cuspindo manteiga e leite, Neiva levantou-se da mesa. Ante um comentário jocoso acerca de suas pernas, ante a irritação do ventre, arremessou uma vasilha contra o marido: furiosa por errar, correu em sua direção, mas resvalou e caiu, com o rosto ofendendo as cadeiras. Passou manhã e tarde nos braços do esposo, falando de acontecidos e supostos, e quando na cama, à noite, beijaram-se eles mesmo do sangue verter. Neivinha desceu e desceu visando à desforra – e ao absorvê-lo maltratava o silêncio, puxava forte, exigia do pescoço; cada ir e vir mesclava êxtase e dor, e agindo assim um dos dentes da frente caiu.

Vendo-o escorrer pela virilha rabiscada em pelos, ela persistiu, negando a educação e as leis criadas por fracos e confusos, e ouvindo acima dos suspiros apaixonados o apito que voltava a soar graças ao sacrifício do osso.


Essa noite, todos dormiram bem.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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