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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Conquanto a Verruga


Ela: bela, belíssima, e, claro, linda, lindíssima. Assim seria se ausente a verruga no queixo, verruga que, pelo ângulo desfavorável, quiçá verdadeiro, afigurava-se maior e mais volumosa. Tinha nome, mas chamavam-na de Mô; era Mô para cá, Mô para lá, Mô com dois pelos escuros e grossos, crespos, ou, como dizia Josué, indecentes.

– Mulher com verruga, para mim, é mulher safada, ordinária, falava ele. E aqueles pelos pornográficos, pretos, hein, e aqueles pelos? Me explique.

– Pois ela gosta de você, Josué, disse Camila.

Conversavam durante o intervalo, bebericando água, aguentando o sol e a vida pelas sombras. Quicavam as palavras entre automóveis, pneus e motores, entre o balançar e soar das folhas.

– Quem, a Mô ou a Jéssica?

Mô era nome da verruga, criado por ele, diminutivo de ‘montanha’. Já Jéssica era ela, bela, belíssima, oculta. Findo o curto descanso, a conversa e sua eventual indignação, abriu a porta, e, de relance, não avistou-a entre os colegas trabalhando no escritório; onde estaria aquela cuja face o chamava, cuja infame carne o intimidava? Antes de reconhecer silhuetas, contudo, bateu o pé num degrau. Irritou-se, envergonhou-se, xingou baixinho. Então, fingindo descaso, transitou devagar, adentrou o cubículo e sentou ante a escrivania – e lá riu: eu a teria visto se buscasse seu defeito.

Inocente, as palavras de Camila tiveram para ele o fim de verdade, fim de indicação. Josué não era homem de recusar amor, malgrado inexistente atração ou vontade, e assim, nos dias seguintes, semanas, analisou Jéssica, buscando a mulher existente nela, seu valor, a forma atrás do erro; e confrontava a verruga, imaginando-a como sepultura recém coberta de terra onde cintilavam, recentes e vivas, as lágrimas do funeral. 

Demorou, demorou e o tempo cresceu, e ele, depois de sonhar e acordar, de indagar em cantos e detalhes o que enobrecesse Jéssica, de adormecer buscando correspondências metafísicas entre a vontade e o amor, de prometer ao espelho, encarando-se, ações mais firmes, verdadeiras, enfim ajeitou-se com intuito de agir. Crescera muito a atração, o desejo, nem tanto os dois como a curiosidade e a possibilidade – ou isso achava Camila, ao ouvi-lo falar, 

– A iniciativa é da Jéssica; a iniciativa, no amor, falava Josué, é de quem tem mais a ganhar.

– Você é o homem, menino, você é o homem aqui e agora, replicava ela.

– E desde quando isso é o mais importante? 

Era sexta-feira, dia dos audaciosos. Vestiu-se, ele que antes só usava panos, costuras, aprumou-se, cortou a irônica pelugem das orelhas. Quero ouvir o amor, dissera, de si para si; e dissera, também: apenas um convite formal, apenas isso, um café ou maçã, nada mais.

Durante esse hiato de considerações ocultara seu propósito. Deixara, sim, pistas, pequenas pistas, como quando, sentado ao lado de Jéssica nas reuniões, roçava o braço nela, leve e devagar, encantando-se com que o sentia através do ínfimo contato; era um universo, esses dois pontos de pele, aberto a toda interpretação, a todo imaginar de alegria; tocando-a, olhando-a, aterrava-o o contraste entre sua brancura e o negror da verruga, dimensão própria, concreta, cuja força gravitacional vencia esforços contrários de memória e atenção. Já entrando no estacionamento, lembrou-se de conversas e imagens; era novo, inocente, ocasionalmente esperto, e revendo detalhes desconfiou de quem o impelia a este namoro, pois Jéssica mostrava-se tão atraída por ele quanto a fortuna e o infinito. E a verruga, por Deus, como esquecê-la? Bom, vou é agir, e me livrar disso, dessa maldição, murmurou, e rasgando os pés no capacho, entrando no escritório, opôs-se a si: Jéssica ria, viva, iluminava-se sorrindo para, supunha, o novo gerente; este, homem elegante, de terno preto, cabelos e óculos negros, deixava-se numa bengala fina e longa.

Apolo apresentava-se, fluente na linguagem do comum; tinha tom de chefe, e pegava e usava silêncios como os ilusionistas usam a atenção e o movimento da visão alheia. Era um homem de palavras e contato, logo concluiu Josué, vendo-o tocar o rosto de quem com ele conversava. Cego de nascença, existia em seu tato uma aritmética de distâncias tão precisa quanto a dos olhos, e assim passando os dedos acertou a verruga de Jéssica. Estremeceu ela, nunca acarinhada ali, nunca chamando a satisfação dos dedos, e Josué já acusava-a de traição quando sentiu desfalecer a vontade até então contida.

– Meu objetivo é presentear a empresa com uma nova visão, disse Apolo, para riso universal.

Josué passou esse dia observando, ansioso, e conversou com o novo chefe, apresentou-se; julgou-o destituído de paixão por Jéssica, ou pela verruga, ou pelo que pudesse ser tocado, mas o fato de conhecer um homem cuja personalidade subjugava tanto as mais fracas como a própria noção de justiça e equilíbrio inquietava-o, além de remanifestar inseguranças e receios. Maldito ceguinho, era a sua fala, justo hoje me surge, justo na minha libertação; convidar Jéssica, cortejá-la, virara um objetivo a ser assinalado no calendário, objetivo agora adiado ante a iminência das férias e dos nervos. Era tarde, sabia Josué, tarde para isso, tarde para o choro do calor no asfalto; decidiu esperar duas semanas, entrar em férias, analisar melhor emoções e pensamentos.

O inferno era o mesmo, as nuvens finas e transparentes, e assim a vontade de vencer um fim. Era atacar ou morrer, meditou durante o recesso, imaginando com as fantasias e as mãos aquele corpo moreno e liso, o suposto cheiro adocicado, natural, de sua musa. Queria-a, concluíra na primeira semana, na cama, ouvindo o ventilador se entregar; usara a verruga para sonegar sentimentos e emoções, soterrá-los através da carne, da carne marrom e feia, saliente, inocente ao querer da pele tantas voltas quantas as da entranhas.

Indo, voltando, elegante, chegou no escritório. Entrou, cumprimentou um, o amigo e o inimigo, cumprimentou Apolo, e, não descobrindo Jéssica, deu graças pelo frio das máquinas. O que não cria o homem, além da culpa, perguntou-se, deixando a pasta na mesa, abrindo gavetas, pegando e gritando novidades. Suava, suava frio e pelo frio, e ao ouvir um ‘oi’, sentir abraço e beijo, viu-a: bela, belíssima, e, claro, linda, lindíssima, mas sem a verruga.

Era outra mulher, Jéssica, bela, linda, e perfeita: perfeita demais. Nem um fino risco ficara do bisturi. Como se de pedra, de mármore, suas feições afiguravam-se acima da carne, então admirada e rejeitada por Josué. É demais, perfeita demais, incomodou-se ele contra ele enquanto ela falava.

– E o sinal no queixo? Questionou.

­– Ah, arranquei. Ou melhor, o cirurgião arrancou. Foi sugestão do Apolinho; estamos noivos, disse, encarando-o. Josué olhou para Apolo, que, próximo, ouvira e se aproximava. A bengala ia e vinha, esquerda e direita, existia através das batidas. 

– Eu vi o potencial dessa mulher, falou, e riram. Riram os dois, riu Josué, e riu, também, o resto da verruga, abaixo da pele, concebendo a sua vingança.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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