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sábado, 22 de julho de 2017

Fixação



Jaqueline desde sempre se soubera assim, feia, muito feia, e desajeitada, malvestida; os pés eram de tal forma desarranjados, virados para fora, que pisava com os tornozelos. Exceção era o cabelo, liso e fino, ou, como diriam as campanhas publicitárias, sedosos; e, exceção também, a figura curvilínea, oculta além das falhas. Se não fosse por tais ressalvas seria de um horror absoluto, relegado a fossas ou celas.

Mas, além disso, mais além disso, sua feiura extrema desafiava o bom-senso. Ora, era bem testemunha o Desembargador Paulo Costa Freitas, homem já versado em anos, de comprar terreno em cemitério. Firmando a gravata, falava para o estagiário,

– Menino, essa mulher mexe comigo. Não mexe com você, não?

E o estagiário mentia, resmungava,

– Não é o meu número!

– Comigo mexe; em excesso.

Conheceram-se no tribunal de justiça; funcionária recente, conversavam ao acaso ou quando os compromissos profissionais assim exigiam. Antes dela comemorar ou chorar seu destino, Paulo, arrastado por desejos inéditos, avassaladores, convidou-a para jantar – apesar do casamento, dos filhos, apesar de jamais aventurar-se longe da culpa. Sim, disse ela, sim, e Costinha, como era chamado pelos amigos, voltou ao gabinete ciente de que não conseguiria lutar e resistir. Naquela tarde questionou-se se sonhava, se tal excesso não assinalava a ilusão escrava e involuntária dos fantasmas.

Suando, dia do encontro, chegou e sentou; era outra cidade, outra circunstância. A figura-violão de Jaqueline assombrava-o a ponto de negligenciar sua feiura, a ponto de só vislumbrar as curvas e reentrâncias pelas quais nutria obsessão. Ajeitando o terno, voltou-lhe um vigor juvenil, adolescente, e já a carne alongava-se para fora do prato. A sós, passados sessenta e nove minutos de terror, acalmou-se. Ela não viria, não o queria: que desistisse. Deu graças. 

– Fixação é prerrogativa dos jovens, disse ao garçom. 

Foi para casa, onde dormiu e sonhou com Jaque. De manhã, ao despertar, sumira o alívio antes comemorado; atormentava-o agora, isso sim, um desejo de compromisso, de sina a se cumprir.

Perdição.

No tribunal, logo no gabinete, quis saber dela. Acidentou-se, disseram, ontem à noite; o carro bateu, e queimou-se muito. Divulgando relatos e detalhes, o estagiário soluçava; abraçou-o. Jaqueline, Jaque, sussurrou ao sair dali rumo ao centro hospitalar; chorava Paulo uns suspiros guturais, estranhos, suspiros de quem não sabe como amar. Em esquinas e semáforos a imaginava, e do primeiro vendedor ambulante ele comprou um buquê de rosas; com cuidado e rigor mimou as flores, evitando nelas as próprias lágrimas.

– Como dói essa aflição, disse, antes de pagar.

Quarto adentro, segurou um grito. 

Presenciando-a ali, deitada e queimada, com fibras vermelhas expostas, cruas, coberta em suores amarelos e cremosos, pressentiu o futuro – desta circunstância ela renasceria bela, como animal mitológico a ressurgir das chamas, e todos comentariam a sua transmutação pelo fogo. Aspirando um aroma oleoso de grelha e carvão, sentiu-se traído. Aquela na cama não era a mulher por quem perdera o rigor da alma, por quem desejara romper laços que o uniam ao eu comum; ela o traíra, além do conhecimento e da explicação, com as labaredas.

Devagar, mas ereto, livre da outra, deixou o recinto. Caminhando pelos corredores entrou no banheiro e, em silêncio, de frente ao espelho, inteirou-se da solidão. Daí largou as flores na pia, e foi embora.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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