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terça-feira, 25 de julho de 2017

O passeante invisível


Nunca ninguém o viu. Nunca ninguém se deparou com ele ao dobrar uma esquina, fosse noite ou dia. Nunca ninguém duvidou que ele se passeava invisível por toda a cidade. Alguns afirmavam ter entrevisto sombras que eram indubitavelmente do passeante invisível. Alguns afirmavam ter ouvido sons abafados, momentâneos arrastamentos de pés, que comprovavam que ele se passeava por ali.
A cidade é feita de muitas estruturas artificiais. Os homens precisam de um lugar coletivo para viver. Estarem juntos dá conforto e segurança, mas demasiada proximidade torna-se inquietante. Estar a sós com outro homem numa rua deserta, noite alta, é tão ou mais assustador do que enfrentar os silêncios e os ruídos da noite na floresta, na serra, no campo. Os homens precisam de estruturas, muros que os separem dos outros homens. O passeante invisível construira a cidade, mantinha as estruturas fortes, escorraçava os inimigos, assegurava os fornecimentos. Ele é forte e destemido; passeia-se por toda a cidade, sobretudo no ermo da noite. Dizem. Porque veem sombras, ouvem certos sons reveladores, porque só pode andar por lá, invisível.
Olhem, lá vai a sombra dele, por entre os pilares daquelas arcadas — diz um.
Olhem, vi agora mesmo um reflexo dele no vidro daquela montra — assevera outro.
Ninguém punha em dúvida estes avistamentos fantasmáticos. Toda a gente sabia que o passeante invisível andava por lá. Nalgum sítio havia de estar: nas arcadas, nos vãos das portas, nas gares rodoviárias ou marítimas. Os seus sinais vislumbravam-se sempre a desaparecer por detrás de alguma estrutura da cidade. Ele andava lá, mas invisível.
Conta-se que, em tempos que ninguém já recorda, um jovem, irreverente como todos os jovens, ao ouvir alguém dizer, pela milésima vez, que acabara de avistar a silhueta do passeante invisível, não se conteve, como seria prudente:
O passeante invisível não existe!
Um grande burburinho se gerou entre os que ouviram tal dislate. Quiseram bater-lhe, ou então que retirasse o que tinha dito, que pedisse desculpa.
Quem é que achas que construiu a nossa cidade, mantém as estruturas fortes, afasta os nossos inimigos e assegura os fornecimentos de que a cidade precisa? — confrontaram-no.
O jovem ainda tentou persistir no erro, mas compreendeu que estava isolado e desacreditado. Pediu desculpa.
O alcaide, no entanto, não hesitou em tomar medidas que devolvessem à população toda a confiança eventualmente perdida e até a reforçassem. Emitiu um edital anunciando que, a partir de então, por especial mercê do passeante invisível, ele passaria a usar uma roupa que o tornasse visível e identificável. Além disso, quem quisesse ver a roupa por ele usada, bastaria dirigir-se à alcaidaria onde estaria exposta numa câmara junto à entrada.
Os muitos cidadãos que lá acorreram viram o que parecia andrajos de mendigo, dado o seu aspeto miserável, mas todos compreenderam que eram os mais adequados para alguém tão humilde que evitava mostrar-se. A confiança de todos fortaleceu-se. O passeante invisível continuava a proteger a cidade e agora podia ser visto. E mais frequentemente passaram a avistá-lo nas arcadas, nos vãos das portas, em outros abrigos precários. Se não era ele, parecia, pelos trajes.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem:
Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992), O passeante invisível, 1949–51.
Museum of Modern Art, San Francisco, EUA.

* * *






segunda-feira, 24 de julho de 2017

TROVA PREMIADA DE EDWEINE LOUREIRO






sábado, 22 de julho de 2017

Fixação



Jaqueline desde sempre se soubera assim, feia, muito feia, e desajeitada, malvestida; os pés eram de tal forma desarranjados, virados para fora, que pisava com os tornozelos. Exceção era o cabelo, liso e fino, ou, como diriam as campanhas publicitárias, sedosos; e, exceção também, a figura curvilínea, oculta além das falhas. Se não fosse por tais ressalvas seria de um horror absoluto, relegado a fossas ou celas.

Mas, além disso, mais além disso, sua feiura extrema desafiava o bom-senso. Ora, era bem testemunha o Desembargador Paulo Costa Freitas, homem já versado em anos, de comprar terreno em cemitério. Firmando a gravata, falava para o estagiário,

– Menino, essa mulher mexe comigo. Não mexe com você, não?

E o estagiário mentia, resmungava,

– Não é o meu número!

– Comigo mexe; em excesso.

Conheceram-se no tribunal de justiça; funcionária recente, conversavam ao acaso ou quando os compromissos profissionais assim exigiam. Antes dela comemorar ou chorar seu destino, Paulo, arrastado por desejos inéditos, avassaladores, convidou-a para jantar – apesar do casamento, dos filhos, apesar de jamais aventurar-se longe da culpa. Sim, disse ela, sim, e Costinha, como era chamado pelos amigos, voltou ao gabinete ciente de que não conseguiria lutar e resistir. Naquela tarde questionou-se se sonhava, se tal excesso não assinalava a ilusão escrava e involuntária dos fantasmas.

Suando, dia do encontro, chegou e sentou; era outra cidade, outra circunstância. A figura-violão de Jaqueline assombrava-o a ponto de negligenciar sua feiura, a ponto de só vislumbrar as curvas e reentrâncias pelas quais nutria obsessão. Ajeitando o terno, voltou-lhe um vigor juvenil, adolescente, e já a carne alongava-se para fora do prato. A sós, passados sessenta e nove minutos de terror, acalmou-se. Ela não viria, não o queria: que desistisse. Deu graças. 

– Fixação é prerrogativa dos jovens, disse ao garçom. 

Foi para casa, onde dormiu e sonhou com Jaque. De manhã, ao despertar, sumira o alívio antes comemorado; atormentava-o agora, isso sim, um desejo de compromisso, de sina a se cumprir.

Perdição.

No tribunal, logo no gabinete, quis saber dela. Acidentou-se, disseram, ontem à noite; o carro bateu, e queimou-se muito. Divulgando relatos e detalhes, o estagiário soluçava; abraçou-o. Jaqueline, Jaque, sussurrou ao sair dali rumo ao centro hospitalar; chorava Paulo uns suspiros guturais, estranhos, suspiros de quem não sabe como amar. Em esquinas e semáforos a imaginava, e do primeiro vendedor ambulante ele comprou um buquê de rosas; com cuidado e rigor mimou as flores, evitando nelas as próprias lágrimas.

– Como dói essa aflição, disse, antes de pagar.

Quarto adentro, segurou um grito. 

Presenciando-a ali, deitada e queimada, com fibras vermelhas expostas, cruas, coberta em suores amarelos e cremosos, pressentiu o futuro – desta circunstância ela renasceria bela, como animal mitológico a ressurgir das chamas, e todos comentariam a sua transmutação pelo fogo. Aspirando um aroma oleoso de grelha e carvão, sentiu-se traído. Aquela na cama não era a mulher por quem perdera o rigor da alma, por quem desejara romper laços que o uniam ao eu comum; ela o traíra, além do conhecimento e da explicação, com as labaredas.

Devagar, mas ereto, livre da outra, deixou o recinto. Caminhando pelos corredores entrou no banheiro e, em silêncio, de frente ao espelho, inteirou-se da solidão. Daí largou as flores na pia, e foi embora.





quinta-feira, 20 de julho de 2017

Usurpando Drummond

Gérson
amava Teresa,
que amava Raimundo,
que amava Maria,
que amava Joaquim,
que amava Lili,
que amava Cris,
que amava Glória,
que amava Lúcia,
que acabou virando Lúcio,
para amar Maria Helena,
que amava Bruno,
que queria ser Bruna,
pois amava Charles,
que amava Beto,
que amava ao mesmo tempo Rui e Lídia,
que amava o marido Clóvis,
que amava a massagem prostática de Edmílson,
que amava Shirley,
que amava seu agente Camacho,
que amava os euros da Sra. D´Orleans e Bustamante,
que amava prevaricar com jardineiro Dalvan,
que amava sua esposa Dirce,
que amava Jesus,
que amava todos,
inclusive a endiabrada Salete,
que amava de uma vez só Rosina, Léa, Robson, e Genésio,
que amava futebol acima da própria noiva Melaine,
que amava acalentar o sonho casamenteiro da sua mãe Marinete,
que amava Nicanor, que nunca lhe deu bola na escola,
pois amava Mirtes,
que amava Luis,
que amava Luisa,
que amava Renato,
que amava ser Renata,
que acabou espancada, esfaqueada e morta por Jorge,
que amava acreditar em limpar o mundo
de Renatos que amam ser Renatas,
mas que no fundo, no fundo,
amava
Gérson.





segunda-feira, 17 de julho de 2017

É que me toquei - Conto de Carol Araujo







  Deixei de escrever poemas pra você. É, deixei. Ando me preocupando pouco, já nem penso tanto no nosso futuro. É que me toquei. Ando me amando muito e melhor. E nas minhas 24 é tanta hora que falta pra pensar em mim, nos meus trampos, nas paixões que ainda vou viver, na festa de aniversário que daqui 2 meses pretendo fazer. Na hora da lista fiquei na dúvida entre você e o cara do apê de baixo que anda me dando bola… 




  É que me toquei. Ando me olhando muito e melhor. Cortei o cabelo daquele jeito que você detesta e não tiro mais o colar que costumava enroscar na sua barba. Ando usando sua camisa preferida pra limpar a casa e pouco ligo se respinga cloro. Eu nem contei, mas acho que já tem o tanto de manchas quanto as vezes que me deixou esperando no bar. Eu disfarçava sua falta dançando no canto da pista, com todos os braços, pés e quadris, bebendo um alambique pra esquecer que você não vinha. Eu até tentei, mas só conseguia dizer pra todo cara que se aproximava: – Não quero, não posso, estou esperando alguém. 




  Então, meu bem, não é por mal. É que me toquei. E dessa vez não foi pensando em você, nem no rapaz do apê de cima, digo, de baixo. Aquele que nem o nome sei pra completar a porra da lista de aniversário.
























domingo, 16 de julho de 2017

Memória de uma bicicleta com caixa


Pai sentou ao meu lado no degrau da porta. Desajeitado no seu corpo de quem não se cabia. Sentou assim do nada. Olhos vermelhos, boca esturricada pelo sol e a falta de riso que escondia a ausência dos três dentes que foram caindo de podres. As veias saltadas no dorso das mãos, os cabelos desidratados e descoloridos como a palha de milho seca, o cheiro de suor e de sal no corpo. Cheiro de um pai que foi saudade a vida inteira.
O momento era de escolhas. Mas eu ainda era menina. Não sabia o que um momento de escolhas faz com o depois. Ocupada em olhar de esguelha o inédito daquele homem sentado ao meu alcance. O pai que sempre estava em algum mar bem longe, mesmo que as águas desse mar começassem no cais no fim da rua de areia. O pai que a madrugada me mostrava numa névoa de sono com cheiro de café ralo. 
No degrau, ele falou comigo. Trazendo pra bem perto a voz acabrunhada e abafada que antes eu só ouvia diluída. 
Tô indo. Mas volto.
E foi. Pra longe do mar. Brigado com o mar. Foi. Consertar panela, peneira, porta rangendo, janela emperrada. Montado numa bicicleta velha com uma caixa quadrada atarraxada no assento do carona. A bicicleta usada que foi presente do irmão que era garçom na capital. E a caixa que ele mesmo fez com a madeira que ganhou do moço pra quem mãe lavava roupa toda semana. Lá dentro, cabos usados de frigideiras, borrachas de vedação para panelas de pressão, instrumentos enferrujados, uma furadeira de segunda mão, óleo, cola, panos e uma trouxa amarrada, dentro da qual se espremiam um casaco puído, uma coberta pesada, uma muda de roupa e duas garrafadas — uma pra curar diarreia, outra pra curar dor de estômago. As economias todas enfiadas ali, se esbarrando e tilintando a cada buraco.
Funileiro. Era assim que queria ser chamado. Encomendou pra mim a pintura das letras. Pra mim. Naquele dia no degrau da porta. Não dava conta de ler nem de escrever. Mas queria atrair a freguesia. Comprou tinta vermelha. E eu pintei aquele nome esquisito. 
A cada vez que os anos me trazem à memória a imagem da bicicleta com a caixa, o erro de escrita me vem à mente: Funilero. Acho que pai nunca soube. E a clientela também não era lá essas coisas com as palavras. 
Mas pai nunca soube mesmo de muita coisa. Nem dos olhos da mãe que se perderam na estrada buscando seu pescador e funileiro. Nem do destino das três filhas — a que não quis ter filhos,  a que amaldiçoou os homens, a que se deitou com todos eles. Nem do que um momento de escolhas faz com o depois.






domingo, 2 de julho de 2017

A LANÇA DO CENTAURO



O arqueiro aponta a seta
Na fenda zodiacal:
Fronteira Escorpião/Sagitário.
No dia do alinhamento,
Revelações, afinal.

O centauro aponta a lança,
Lança a seta atemporal.
Apocalipse, eclipse,
Interseção que se sente
Na dobradiça astral.

O arqueiro mira a seta
Em seu alvo-aracnídeo,
Mapa-espelho no astral.
Constelações que se formam
Na cúspide sideral.

E na seta que se lança
E na lança que se acerta,
O destino surge: meta.
Segue a flecha em linha reta
Rumo ao Juízo Final.