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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Reflexo Mais-que-Perfeito


Admirava ela o próprio reflexo na colher; comum e vulgar em espelhos comuns, quando vista nos convexos, surpresa: afigurava-se fatal, deslumbrante, como se o ângulo de exposição transmutasse seus defeitos em virtudes, como se fosse questão, acima das outras, de mera ótica. Criança, notou tal circunstância assim de experimentar um sorvete; lambendo e lustrando, julgava a perfeição do sabor proporcional ao polir; então, viu-se refletida, e sabendo-se feia pelo que de atenção os adultos davam às amigas e aos cães, assustou-se com sua imagem, de menina bela e alegre. Daí em diante considerou especial atenção às louças, levando consigo uma colher que – se flagrada – explicava como amuleto.

E não seria certo julgá-la talismã, se lembrava dela e, a seguir, sobrevinha a calma? 

Nas muitas ocasiões e festas, jantas como a da noite em questão, cercada por talheres brilhantes com quem disputava a incandescência das lâmpadas e o interesse dos insetos, nem carecia do amuleto, malgrado o levasse junto. Ao menos não sou como a megera ao lado, feia para a desesperança, incorrigível; ao menos tenho a minha salvação – ou assim supunha enquanto ria e piscava, fendia a carne julgando-se acima da cor. Observando a mulher, a maior feiura que interessa ao menos feio, disse-a para si esquelética e ossuda, com o queixo quadrado, morto, boca cavernosa cujos dentes sugeriam o terror das estalactites. Mas disse-a, também, segura e tranquila, forte, e inspirando a confusão de perfumes questionou suas virtudes: como alguém tão horrenda manifestava tal confiança? Como alguém, além dela, ignorava a própria condição? Qual segredo escondia? Descobriu-o quando, terminada a sopa, viu-a conjugada na superfície de outra colher: refletida, superava Gislaine em graça e encantos, em formosidade. Nesse instante ruíram as montanhas de sua fé, único pilar e conforto daquela vida. Abatida e branca, lábios roxos, perguntaram se passava bem.

– Sim, disse ela, é a pressão. 

A pressão de dentro, se fosse; ou desejo de esfaquear a rival. Não obstante tal querer, machucava-a mais, ao invés da carne maldita, ou das leis óticas e físicas, a traição do aço. Vil elemento. Passou calada a noite, sorrindo em breves anúncios, jogando com a raiva. Ao levantar-se para ir embora, beijou a todos, e beijou a outra; uma tímida lágrima criou-se na alma do olho, contida por piscadelas. Primeira a sair, da bolsa puxou a colher-talismã e a deixou nos degraus da escada enquanto entregava à noite e à escuridão as suas angústias. Sentia-se derrotada e fraca, e que ficasse ali o amuleto e iniciasse vida nova: se assim nascera, assim merecera.

Abraçando-se, já na porta do carro, tanto pelo frio como por pena, virou-se; contemplou o lugar onde perdera a força, onde violara-se o passado, e triste observou a outra sair, cacarejar um degrau, resvalar na colher e voar escada abaixo. Súbito o erro, ao pousar rachou-se o pescoço. Morreu.

Pena, muitas penas.

Gislaine aproximou-se, e os disparos dos saltos mesclavam-se às suplicas de socorro. Evitando a morta, fixou-se na colher adjacente, e retirando-a do sangue corredio elevou seu talismã até o rosto: contemplou, entre manchas vermelhas e rubras, a mais bela das mulheres.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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