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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não é


Não é ele, doutor. Tenho certeza. O senhor me trouxe até aqui à toa. Isso tudo é um engano. Uma perda de tempo. E eu com tanto trabalho pra fazer. Tenho chão de cozinha pra lavar, casa pra varrer, quarto de criança pra limpar, cachorro pra levar pra passear. Tem louça do almoço na pia, tem lixo no banheiro. Eu não posso ficar aqui, doutor. Ainda mais pra ouvir o senhor dizer besteira. Que o meu menino morreu. Que ele levou tiro da polícia. Que ele tava roubando carro junto com bandido. Bandido fichado. Mas o que é isso, doutor! O meu menino só tem doze anos. Doze! Eu deixei ele dormindo lá em casa. Como eu deixo todo dia. Quatro e meia. É a hora que eu levanto. Saio de casa às cinco pra pegar dois ônibus até essa casa onde eu trabalho. O meu menino levanta só às sete. E vai direto pra escola. Vai, sim. Ele adora a escola. A professora me disse que ele é bom aluno. Só tem dificuldade em matemática. Como é que ela ia me dizer isso se ele fosse menino de matar aula? Acredite em mim, doutor, o meu menino está em casa. Ou brincando na rua. De pipa, de bola de gude. Ou jogando videogame. Porque hoje não tem aula. É feriado na escola. Verdade. O meu menino não mente pra mim, doutor. Ele não é vagabundo. Ele sabe que tem que estudar. Que não é pra se meter com bandido. Nem com droga. Ele sabe que eu me mato de trabalhar pra dar as coisas pra ele. E não é só comida, não, doutor. É tênis, é camiseta, é bermuda, é óculos de sol, é corrente, é boné, é CD. Dei até bicicleta e videogame. Ele tem de tudo, doutor. Ia roubar carro pra quê? Ele só tem doze anos. Não é ele, com certeza. Então por que é que o senhor me trouxe pra esta sala? Por que é que eu tenho que olhar pra esse menino aí deitado? O meu menino está lá em casa, doutor. Lá em casa! Eu já disse. O senhor não quer ouvir, que merda! Presta atenção no que eu tô dizendo, pelo amor de Deus! O meu menino tem uma marca de nascença na coxa. Igual a essa aí. Tem uma tatuagem de caveira que ele fez escondido de mim. Igual a essa aí. No mesmo lugar. O meu menino tem as unhas roídas. E um dedo torto que ele quebrou no futebol. E uma cicatriz de tombo. E o dente da frente com a ponta quebrada. E as orelhas de abano. Como esse aí. Mas esse não é o meu menino, não é, não é, não é!  Não importa que os vizinhos viram o roubo, a viatura que apareceu cantando pneu, a troca de tiros, os bandidos que foram mortos. Não importa quem disse que era o meu menino que tava lá com uma arma na mão e duas pedras de crack no bolso. Nem quem deu o meu nome para o senhor, doutor. Sim, Maria do Amparo da Silva sou eu. E o meu esposo é o José dos Santos. O nome do meu menino é José Eustáquio da Silva Santos, sim senhor. Mas me escuta, por favor. O meu menino não tem esse olho arrebentado de bala. Não tem essa cara inchada. Não é gelado assim. Não rouba carro. Esse aí é bandido. É ladrão. É menino que engana a mãe que trabalha fora o dia inteiro. Mãe que sai de casa antes do dia clarear que deixa o filho dormindo que não sabe o que o ele faz quando acorda que acredita que ele tá no colégio que pensa que ele é bom aluno que jura que ele é feliz com o tênis, a camiseta, a bermuda, o videogame. 
Como é que eu vou reconhecer filho dos outros, doutor? Tá surdo? Eu tô aqui repetindo que esse aí não é o meu menino, caralho! Que o meu tá lá em casa, porra! Que hoje nem tem aula. 

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
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