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domingo, 25 de junho de 2017

As mulheres da Paradanta


As mulheres da Paradanta são o amparo da casa. Robustas e determinadas, são por isso admiradas e protegidas pelas deusas primordiais. A sua aldeia fica encravada entre montes atulhados de pinheiros nas faldas da serra da Gardunha, onde só é possível cultivar estreitas leiras junto ao pontos mais profundos dos vales. Por isso, sempre tiveram de obter complemento económico fora da pequena agricultura de subsistência. Às vezes, em atividades inesperadas e até longe da sua terra. São vistas desde sempre a carregar pesos à cabeça. Em grupo, em rancho. Decididas, caminhando e equilibrando os carregos, balançando as ancas cheias. Como os deuses gostam de contemplar o seu caminhar! Talvez por isso as tenham colocado ali, na Paradanta, para lhes fruírem a atividade, em vez da rigidez de antanho.
Na década de 40, era comum vê-las a carregar caldeiros cheios de pedras com volfrâmio. O dinheiro do minério já lhes permitia comprar alguma massa ou arroz na venda da aldeia. Todas se lembravam e queriam afastar os tempos penosos da Guerra Civil de Espanha, com racionamentos e contrabandos. Os homens manejavam as enxadas a esburacar terrenos, e as picaretas a desfazer calhaus, um pouco por todos os montes das redondezas, onde vissem ou suspeitassem encontrar o apetecido minério negro e brilhante. Elas enchiam as vasilhas, punham-nas à cabeça e pelo meio dos pinheiros, dos matos, das pedras, por fim por veredas, carregavam-nas até pontos combinados, onde as mulas podiam chegar. De etapa em etapa, o minério lá acabava por chegar aos Aliados. E aos Nazis. O comércio não tem ideologia. Umas atrás das outras, em filas espontâneas, tenteando o peso, abanando as ancas, iam e vinham lançando um ou outro canto com temática de igreja, mas reconforto pagão. Por vezes, Atena apiedava-se do esforço brutal das suas amadas paradantenses e, disfarçada como uma delas, ajudava-as, sem que elas percebessem. E afugentava algum condutor de mulas que, fiado no ermo dos pinhais, se preparasse para abusar de alguma delas.
Na década de 50, com a II Guerra acabada, já ninguém queria saber do volfrâmio. As mulheres da Paradanta voltaram à agricultura, ou antes, ao trabalho sazonal nos grandes terrenos planos a sul da serra, por conta de proprietários ou rendeiros. Os homens iam para as grandes ceifas do Alentejo, elas ficavam-se por zonas não tão distantes. Aí por princípios da primavera, ora um ora outro agricultor aparecia na terra depois da missa de domingo e propunha o trabalho. O acordo não tinha nada que negociar: era um terço da produção para todas. Por isso lhes chamavam “terceiras”. Às vezes, já apalavradas de antemão, repetiam o lavrador de um ano para o outro. Constituído o rancho, apresentavam-se ao trabalho depois das ceifas, por meados de julho e mantinham-se até final de setembro. Regavam milheirais, melanciais e aboborais, colhiam a produção na altura certa, ajudavam a transportá-la para as tulhas ou para a eira, descamisavam as maçarocas, malhavam-nas, limpavam o grão. O trabalho mais demorado era o da apanha do feijão frade, em setembro, feijoeiro a feijoeiro. Calcorreavam extensões enormes, dobradas, apanhando as vagens maduras para as cestas, que eram despejadas em panais, que eram atados em trouxas quando as pilhas transbordavam, que eram carregadas para o carro de vacas, que as levava para a eira. Vendo-as em tão grandes penares de labuta campestre, Deméter, disfarçada como uma delas, imiscuía-se frequentemente no rancho, colhendo as vagens agilmente, aliviando a dureza da lida. A mais nova estava encarregue de, ao longo do dia de calor inclemente, ir buscar água a alguma fonte ou mina, numa bilha à cabeça, e dessedentá-las. Também era a aguadeira que ia adiantando os cozinhados de todas, em panelinhas de ferro individuais. Muita solidariedade coletiva, muita comunhão de quase tudo, mas mantinham áreas de reserva individual: a comida, os homens e a religiosidade pessoal. Uma fogueira, uma dúzia de panelinhas em redor, cozendo batatas ou feijão. Com um naco de toucinho cozido ou um pedaço de morcela, estava a ceia feita. Se houvesse lua e trabalho na eira, era possível que Zeus, Dioniso ou outro deus igualmente lúbrico incentivasse os cantares e as danças, disfarçado de ganhão ou pastor. Sileno nunca perdia uma desfolhada. E um beijo por outro não desonra ninguém. Iam à terra no sábado à tardinha e voltavam no domingo à noite. Uma cesta à cabeça, umas atrás das outras. Cantando, galhofando, calando. Como os deuses gostam de ver o balanço das suas ancas!
Na década de 60, os namorados foram combater para África, os maridos foram trabalhar para França. Algumas foram com eles. A salto. Malas à cabeça. As que ficaram na Paradanta amanharam-se como puderam. Rezavam, teciam, cuidavam dos filhos, tratavam de uma horta, iam à lenha. Traziam os molhos à cabeça. Os faunos dos pinhais gostavam de as ver calcorrear veredas. Meneando as ancas. Mesmo com poucos homens na terra, não deixaram morrer a romaria da Senhora da Orada. No quarto domingo de maio, partiam ao princípio da manhã, com o tabuleiro da merenda à cabeça, cantando glórias à Virgem. Oscilando as ancas, aos poucos iam vencendo os vários quilómetros que separavam a aldeia da capela, sempre a subir. Depois da missa, derramavam-se pelas sombras, saboreando a merenda, rodeadas da filharada e de uma ou outra deusa disfarçada de romeira e saudosa de convívio humano. Pagas as promessas, feita a procissão, regressavam à Paradanta, cantando modas menos religiosas que à ida.
Na década de 70, acreditaram na mudança prometida. Ouviram os militares, os políticos, fizeram reivindicações, conseguiram um lavadouro público coberto. Com a vulgarização do gás e a chegada da eletricidade, deixaram de ir à lenha. Os incêndios sucederam-se nos pinhais atulhados de mato. As fontes tornavam-se frequentemente chafurdos de cinzas. As mulheres da Paradanta punham os cântaros à cabeça e percorriam distâncias até alguma mina que não fora atingida. Por veredas serpenteantes, uma após outra, traziam para casa o líquido mais precioso. Como os deuses apreciam o seu caminhar! Algumas convenceram os maridos a regressar, fizeram reuniões, dançaram. Dioniso não deixava de aparecer, sempre que havia folia. Finalmente, chegou a água canalizada e uma estrada de alcatrão. Algumas famílias compraram carro. Ou motoreta.
Aos poucos, as mulheres da Paradanta deixaram de calcorrear lonjuras com pesos à cabeça. Os deuses ficaram melancólicos. Alguma graça no mundo se perdera. Chegaram a pensar devolvê-las aonde tinham ido buscá-las. Lá onde, rígidas e pétreas, eram o sustentáculo de arquitraves e platibandas clássicas. E a quem os mortais chamam cariátides. Além disso, estavam a ficar cheiinhas e roliças. Felizmente, Hera, também com um pouco de peso a mais, lançou a moda de andar a pé, para emagrecer, e precisou de companhia. As veredas da Paradanta voltaram a encher-se de mulheres que caminham. Embora sem pesos à cabeça. Mas ainda com o tão admirável meneio de ancas. E os deuses voltaram a ostentar um sorriso deleitado, no rosto divino.

Joaquim Bispo

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Imagem: Cariátides [figuras femininas esculpidas servindo como suportes de arquitetura — colunas ou pilares] do templo Erecteion, Acrópole de Atenas, século V a.C.

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(Este conto integra a coletânea resultante do X Concurso Literário da Cidade de Presidente Prudente, Brasil, em 2016.)

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


17 comentários:

Obrigado, Zé Guilherme. Abraço!

... não vi no texto, mas "Terceiras", ... porque trabalhavam e o ganho era ao "terço", isto é, dois terços para o patrão e um terço para a trabalhadora, a terceira, normalmente em sementes, feijão pequeno e raramente milho.
Na "terra deles", também houve muitas terceiras, que se dividiam socialmente em dois grupos, as mais ricas iam para a mestra aprender costura e as menos afortunadas, iam para a curtinha, que tinha por feitor o Sr. António Damas, apanhar as ditas "bajinas"... não deve ser pronunciado com a pronúncia do norte.

Conto lindo Bich-up, com algumas verdades de outros tempos...
A,Silva

Belo retrato evolutivo das gentes dos teus lados.

Dizem-me que o meu comentário estará visível depois de aprovado. Dá ar daquela coisa da censura...

Obrigado pelo acrescento alcainense, Peralta. Também aí havia um divino balanço, quando se carregavam cântaras à cabeça, desde o Santo António…
Sim, o texto especifica: «O acordo não tinha nada que negociar: era um terço da produção para todas. Por isso lhes chamavam “terceiras”.
Abraço!

Nunca esperei ver esta formulação da alcunha Bishop, a qual derivou do sobrenome Bispo.
Obrigado, Aníbal. Nesta idade tem-se saudades de tudo.
Abraço!

Gente sofrida, gente invisível.
Abraço, Artur!
Nunca me apercebi de qualquer adiamento nos comentários, muito menos de censura. Deve ser um aviso tipo.

Podiam ser as "cariátides" das Donas ou Vale de Prazeres!mas essas tinham horizontes mais largos e o volfrâmio era mais escasso...Todavia o meneio das ancas era igualmente sublime, assim como o retrato fiel que nos dás das vicissitudes do povo sofrido,num belo e cativante estilo literário a que já nos acostumaste.
Bem hajas Joaquim

O seu conto é muito original. A "mistura mitológica" agradou-me muitíssimo. Parabéns! Isabel Gouveia

Um conto maravilhoso por um contador também maravilhoso!

Conheço a Paradanta,Não conheço as suas gentes,gostei do texto e do maneio das suas ancas.

Obrigado, “Anónimo” (JAL)!
Sim, esse meneio sublime é característico das mulheres que transportam pesos à cabeça, para manterem o equilíbrio da carga.
Se calhar, não havia volfrâmio lá pela Paradanta, mas havia por muitos outros sítios e o autor tem a sua liberdade ficcional, sobretudo num texto que não é texto histórico. Escolhi a Paradanta por ser uma das terras aonde o meu pai ia contratar “terceiras” para a exploração agrícola que tinha de renda, na zona da atual barragem da Marateca. Cheguei a apaixonar-me por uma do Ninho do Açor, tinha eu sete anos…
Abraço!

Obrigado, Isabel!
A mistura veio naturalmente da inspiração clássica inicial – as cariátides – e usou o estilo de intervenção mitológica da Ilíada.

Obrigado pela leitura, Maria Fernandes!

Obrigado, André. Abraço!

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