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quinta-feira, 25 de maio de 2017

O asceta arrependido


Vivemos numa época de relativa abundância, apesar das crises. De maior ou menor qualidade, quase toda a gente come a quantidade de comida que quer. Talvez como exorcismo de penúrias passadas, organizam-se almoçaradas e jantaradas por todos e mais um motivos. Em que frequentemente se exagera na ingestão, se desperdiça, se brinca com a comida.
A falta de contenção nos prazeres da mesa estende-se nas sociedades hedonistas ocidentais aos outros aspetos da vida, seja no sexo, no consumo, no lazer. Em algum momento depressivo da vida, quem nunca questionou o “para quê”, afinal, deste frenético desfrute? Na verdade, de vez em quando, tomamos conhecimento de alguém que parece gozar de um bem-estar invejável, que de repente deixa de ver sentido na vida que leva, deixa tudo para trás e envereda pelo isolamento e um quase ascetismo.
A História das religiões está cheia de ascetas, jejuantes, eremitas a alimentar-se de gafanhotos, procurando uma verdade essencial no silêncio e na frugalidade. Alguns juntam-lhes a imobilidade e a “ausência de si”, parecendo aproximar-se da vida vegetal, atenta, no entanto aos processos de conhecimento transmentais.
Viver em harmonia com o Mundo e com os outros sempre foi das grandes aspirações do Homem. Muitos grandes homens se dedicaram a pensar a vida, as suas harmonias e os seus contrassensos. A que iluminações chegaram esses grandes contemplativos? Qual foi o seu percurso? Escolhamos um dos mais conhecidos: Sidarta Gautama, o Buda.
Sidarta, um príncipe indiano que viveu no século VI antes de Cristo, sempre muito protegido pelo pai, viveu os doces prazeres da corte até muito tarde, sem ter qualquer consciência dos dramas sociais que se desenrolavam fora do palácio. Ao aventurar-se finalmente fora do muro protetor, deparou-se com as cruéis realidades da velhice, da doença e da morte, entre os seus míseros súbditos. Perturbado como uma criança de poucos anos, quis entender por que existiam tantos sofrimentos no mundo. Como um miúdo, ficou fascinado com a visão do porte sereno e majestoso de um desses ascetas maltrapilhos que vagueavam pelas aldeias mendigando algo para comer. Andava então pelos 29 anos e tinha acabado de ser pai de Rahula, um menino, de uma prima com quem tinha casado aos 19. Pouco depois, abandonou a mulher e a criança e foi refugiar-se entre os ascetas de umas serras perto de Rajgir.
Talvez se tenha assustado por nunca ter conhecido algumas verdades essenciais da vida. Terá sido a vontade de querer perceber o mundo que o levou a deixar o palácio e a procurar mestres que o esclarecessem, mas o facto foi coincidente com o nascimento do filho. Podemos pensar que foi esse nascimento que determinou a rutura brutal com a vida que Sidarta levava até aí.
Há mulheres que renegam os filhos que parem, talvez pelas dores que estes lhes provocaram para nascer; há homens que ficam aterrorizados com o significado intrínseco do nascimento de uma vergôntea sua, que, fatalmente, lhes surge como o seu substituto. Terá sido o que sucedeu a Sidarta?
Qualquer pessoa comum verá nesse abandono uma fuga, uma cobardia. Dirá que o homem não suportou o peso das responsabilidades futuras, quer da paternidade, quer da liderança de um reino. E que a culpa terá sido do pai, que o manteve afastado das realidades da vida. Que deve ter entrevisto na vida sem compromissos que procurou a solução para fugir às pressões cada vez maiores que a sua vida de nobre enfrentava.
Terá atingido, pela meditação, os estádios do “domínio do nada” e do “domínio além do pensamento”, mas manteve-se, ainda assim, insatisfeito, pelo que rumou à floresta de Uruvela juntando-se aos ascetas Sadus, mais radicais do que os seus companheiros anteriores.
Existia, na Índia, a ideia enraizada de que, para se atingir o saber e o poder sobre as realidades profundas da vida, havia que fazer jejuns, vigílias e outras penitências e mortificações. Com cinco dos novos companheiros jejuou e mortificou o corpo durante seis anos, até que pressentiu que debilitar o organismo lhe diminuía a capacidade de meditar, pelo que concluiu que não podia ser essa a via do conhecimento, e quebrou o jejum, para grande repúdio dos companheiros. Só mais tarde, quando ele lhes revelou as suas iluminações, obtidas em estado de longa e solitária meditação, o reconheceram como Buda, isto é, Desperto, e se tornaram seus discípulos.
Que verdades profundas eram essas, que ele atingiu pela meditação? Coisas que nos parecem elementares, que a maioria das pessoas simples usa com frequência, mas sem disciplina, que ele sistematizou em oito princípios, a que chamou “Caminho Ariano dos Oito Passos”: ideias, aspirações, linguagem, conduta, meio de vida, esforço, atenção e meditação corretos, isto é, equilibrados. É também chamado “Caminho do Meio”, no sentido de ponderado, sensato, “nem 8 nem 80”.
Cada um destes passos foi objeto de esclarecedores desenvolvimentos, sujeitos a um princípio geral de Impermanência: tudo é impermanente; todas as coisas estão interligadas e interdependentes, por isso mudam; nada permanece para sempre. Se as pessoas se apegarem demais às coisas, vão sofrer com essa mudança. A causa do sofrimento é o apego, seja a um objeto, a uma ideia, ou a uma condição social. Libertando-se do apego, o ser humano alcança a libertação que procura. Ou seja, nada de apego excessivo às coisas do mundo, mas também nada de mortificações: vida atenta e contida em todas as suas facetas. Podemos resumi-los assim:
Ideias corretas — construir uma perceção de como o mundo funciona, diminuindo a ignorância própria;
Aspirações corretas — combater o apego, raiz de todo o sofrimento;
Linguagem correta — evitar a mentira, as frivolidades, cultivar a forma amigável, atenciosa e o silêncio;
Conduta correta — não matar, não roubar, evitar relações licenciosas, “servir” os outros;
Meio de vida correto — escolher trabalhos e atividades que não infrinjam estes preceitos budistas;
Esforço correto — evitar pensamentos e estados de espírito destrutivos;
Atenção correta — autocontemplação, entendida como meio de alcançar o controlo da mente e do corpo;
Meditação correta — procurar libertar-se das noções de tempo, espaço, “mim” e “meu”.
Este caminho de aperfeiçoamento pode ser entendido como uma espécie de manual de autoajuda para que o ser humano, através de esforço e método, alcance a iluminação nesta vida — um bem-estar espiritual a que se chama Nirvana. Não é uma religião, nem Sidarta — o primeiro Buda — dedicou grande atenção à religião. Talvez por isso os Brâmanes não o vissem com bons olhos.
Também a nossa sociedade ocidental não vê com bons olhos os meditativos, os contemplativos, os sonhadores. Pensa que deve admirar os grandes pensadores, se forem inventores ou reformadores sociais, mas sobretudo sente que são tanto ou mais importantes os homens que não ficam parados de olhos fechados e usam a vida em atividades úteis para todos os semelhantes: os cuidadores, os artífices, os produtores, com especial atenção para os que produzem os alimentos. Que sem estes, o mundo estaria cheio de meditativos jejuantes a descobrir verdades profundas da vida, com o estômago a roncar.
Lá vem, por vezes, o dia em que reconhece que, sem grandes e mobilizadores pensadores do íntimo, como Sidarta, os homens estariam condenados a arrastar vidas sem aquela esperança de redenção que possuir uma verdade fundamental confere.
Na verdade, em todos os tempos, em todas as longitudes, cada ser humano tenta percorrer o caminho que escolheu, que procurou, que encontrou, segundo a sua aspiração íntima, e procura torná-lo útil, satisfatório, empolgante.
Os jejuns não são naturais, mas por algum motivo benéfico aparecem nos preceitos das religiões, que não só a mortificação. Há quem os tenha levado a extremos, há quem os remeta a ritual simbólico. Uma vez por mês, almoçar uma maçã a sós consigo e com a Natureza, talvez possa ser a experiência espiritual necessária para reajustar ou mesmo reinicializar o trajeto decidido.

Joaquim Bispo

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Imagem: Representação de Buda em estilo Gandara [greco-budista], século II–I a. C., Museu Nacional de Tóquio.


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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


2 comentários:

... combater o apego raiz de todo o sofrimento, "coisa" de que já ouvi falar.
Conheço um tipo, que gostava tanto da esposa, que acabou por se separar dela, dizendo-me - óh Peralta não quero que ela sofra, chore, quando um dia eu morrer...
Mas, bom, ainda melhor que bom, é ter a inesquecível lembrança de chorar, sofrer, resofrer, por quem se gosta e nos deixa.
É isso que me prende à terra, à minha horta, sem necessidade de ascetismos de mentes, nem sempre dementes, procurando nos seus imensos desertos de solidão, o que por vezes têm tão perto.

Uma horta: eis uma formidável ferramenta do Nirvana possível. Prazeres simples os da terra. E facilitadores de meditação.
Abraço!

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