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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Álbum

Eu sempre guardei feriado
como quem crê um milagre:
um beijo no carnaval, as luzes de novo ano, o banho de mar nas férias, recato na sexta santa, argola de namorado

A vida contada em recessos — pois fatos do todo dia acabam perdendo o viço

Meu livro é de festa das mães proclamação da alegria caça-ovos tiradentes bom velhinho corpus christi

Não fica de fora o finados:
chuvinha precisa e insistente, família de abraço cingido, gostoso zelar de memórias

Por muito e querido tempo, velávamos mortos distantes
cravados em outras instâncias: parentes de décimo grau, amigos de década antiga

Doía um nada na alma
saudade polida fazendo cosquinha

Mas ela chegou resoluta pra se apoderar dos retratos
ceifou meus avós alguns primos
rondou toda a vizinhança

Sem nem embaraço ou socorro
senhora de si e dos meus
laçou os chegados mais rentes.

Tocou até mesmo o meu pai!

Agora no 2 de novembro tormenta vem muito robusta
saudade que ofende o pra sempre


O que celebrar no suspenso – pra caber no hoje outra vez o tempo em que éramos juntos?

Maria Amélia Elói





quinta-feira, 25 de maio de 2017

O asceta arrependido


Vivemos numa época de relativa abundância, apesar das crises. De maior ou menor qualidade, quase toda a gente come a quantidade de comida que quer. Talvez como exorcismo de penúrias passadas, organizam-se almoçaradas e jantaradas por todos e mais um motivos. Em que frequentemente se exagera na ingestão, se desperdiça, se brinca com a comida.
A falta de contenção nos prazeres da mesa estende-se nas sociedades hedonistas ocidentais aos outros aspetos da vida, seja no sexo, no consumo, no lazer. Em algum momento depressivo da vida, quem nunca questionou o “para quê”, afinal, deste frenético desfrute? Na verdade, de vez em quando, tomamos conhecimento de alguém que parece gozar de um bem-estar invejável, que de repente deixa de ver sentido na vida que leva, deixa tudo para trás e envereda pelo isolamento e um quase ascetismo.
A História das religiões está cheia de ascetas, jejuantes, eremitas a alimentar-se de gafanhotos, procurando uma verdade essencial no silêncio e na frugalidade. Alguns juntam-lhes a imobilidade e a “ausência de si”, parecendo aproximar-se da vida vegetal, atenta, no entanto aos processos de conhecimento transmentais.
Viver em harmonia com o Mundo e com os outros sempre foi das grandes aspirações do Homem. Muitos grandes homens se dedicaram a pensar a vida, as suas harmonias e os seus contrassensos. A que iluminações chegaram esses grandes contemplativos? Qual foi o seu percurso? Escolhamos um dos mais conhecidos: Sidarta Gautama, o Buda.
Sidarta, um príncipe indiano que viveu no século VI antes de Cristo, sempre muito protegido pelo pai, viveu os doces prazeres da corte até muito tarde, sem ter qualquer consciência dos dramas sociais que se desenrolavam fora do palácio. Ao aventurar-se finalmente fora do muro protetor, deparou-se com as cruéis realidades da velhice, da doença e da morte, entre os seus míseros súbditos. Perturbado como uma criança de poucos anos, quis entender por que existiam tantos sofrimentos no mundo. Como um miúdo, ficou fascinado com a visão do porte sereno e majestoso de um desses ascetas maltrapilhos que vagueavam pelas aldeias mendigando algo para comer. Andava então pelos 29 anos e tinha acabado de ser pai de Rahula, um menino, de uma prima com quem tinha casado aos 19. Pouco depois, abandonou a mulher e a criança e foi refugiar-se entre os ascetas de umas serras perto de Rajgir.
Talvez se tenha assustado por nunca ter conhecido algumas verdades essenciais da vida. Terá sido a vontade de querer perceber o mundo que o levou a deixar o palácio e a procurar mestres que o esclarecessem, mas o facto foi coincidente com o nascimento do filho. Podemos pensar que foi esse nascimento que determinou a rutura brutal com a vida que Sidarta levava até aí.
Há mulheres que renegam os filhos que parem, talvez pelas dores que estes lhes provocaram para nascer; há homens que ficam aterrorizados com o significado intrínseco do nascimento de uma vergôntea sua, que, fatalmente, lhes surge como o seu substituto. Terá sido o que sucedeu a Sidarta?
Qualquer pessoa comum verá nesse abandono uma fuga, uma cobardia. Dirá que o homem não suportou o peso das responsabilidades futuras, quer da paternidade, quer da liderança de um reino. E que a culpa terá sido do pai, que o manteve afastado das realidades da vida. Que deve ter entrevisto na vida sem compromissos que procurou a solução para fugir às pressões cada vez maiores que a sua vida de nobre enfrentava.
Terá atingido, pela meditação, os estádios do “domínio do nada” e do “domínio além do pensamento”, mas manteve-se, ainda assim, insatisfeito, pelo que rumou à floresta de Uruvela juntando-se aos ascetas Sadus, mais radicais do que os seus companheiros anteriores.
Existia, na Índia, a ideia enraizada de que, para se atingir o saber e o poder sobre as realidades profundas da vida, havia que fazer jejuns, vigílias e outras penitências e mortificações. Com cinco dos novos companheiros jejuou e mortificou o corpo durante seis anos, até que pressentiu que debilitar o organismo lhe diminuía a capacidade de meditar, pelo que concluiu que não podia ser essa a via do conhecimento, e quebrou o jejum, para grande repúdio dos companheiros. Só mais tarde, quando ele lhes revelou as suas iluminações, obtidas em estado de longa e solitária meditação, o reconheceram como Buda, isto é, Desperto, e se tornaram seus discípulos.
Que verdades profundas eram essas, que ele atingiu pela meditação? Coisas que nos parecem elementares, que a maioria das pessoas simples usa com frequência, mas sem disciplina, que ele sistematizou em oito princípios, a que chamou “Caminho Ariano dos Oito Passos”: ideias, aspirações, linguagem, conduta, meio de vida, esforço, atenção e meditação corretos, isto é, equilibrados. É também chamado “Caminho do Meio”, no sentido de ponderado, sensato, “nem 8 nem 80”.
Cada um destes passos foi objeto de esclarecedores desenvolvimentos, sujeitos a um princípio geral de Impermanência: tudo é impermanente; todas as coisas estão interligadas e interdependentes, por isso mudam; nada permanece para sempre. Se as pessoas se apegarem demais às coisas, vão sofrer com essa mudança. A causa do sofrimento é o apego, seja a um objeto, a uma ideia, ou a uma condição social. Libertando-se do apego, o ser humano alcança a libertação que procura. Ou seja, nada de apego excessivo às coisas do mundo, mas também nada de mortificações: vida atenta e contida em todas as suas facetas. Podemos resumi-los assim:
Ideias corretas — construir uma perceção de como o mundo funciona, diminuindo a ignorância própria;
Aspirações corretas — combater o apego, raiz de todo o sofrimento;
Linguagem correta — evitar a mentira, as frivolidades, cultivar a forma amigável, atenciosa e o silêncio;
Conduta correta — não matar, não roubar, evitar relações licenciosas, “servir” os outros;
Meio de vida correto — escolher trabalhos e atividades que não infrinjam estes preceitos budistas;
Esforço correto — evitar pensamentos e estados de espírito destrutivos;
Atenção correta — autocontemplação, entendida como meio de alcançar o controlo da mente e do corpo;
Meditação correta — procurar libertar-se das noções de tempo, espaço, “mim” e “meu”.
Este caminho de aperfeiçoamento pode ser entendido como uma espécie de manual de autoajuda para que o ser humano, através de esforço e método, alcance a iluminação nesta vida — um bem-estar espiritual a que se chama Nirvana. Não é uma religião, nem Sidarta — o primeiro Buda — dedicou grande atenção à religião. Talvez por isso os Brâmanes não o vissem com bons olhos.
Também a nossa sociedade ocidental não vê com bons olhos os meditativos, os contemplativos, os sonhadores. Pensa que deve admirar os grandes pensadores, se forem inventores ou reformadores sociais, mas sobretudo sente que são tanto ou mais importantes os homens que não ficam parados de olhos fechados e usam a vida em atividades úteis para todos os semelhantes: os cuidadores, os artífices, os produtores, com especial atenção para os que produzem os alimentos. Que sem estes, o mundo estaria cheio de meditativos jejuantes a descobrir verdades profundas da vida, com o estômago a roncar.
Lá vem, por vezes, o dia em que reconhece que, sem grandes e mobilizadores pensadores do íntimo, como Sidarta, os homens estariam condenados a arrastar vidas sem aquela esperança de redenção que possuir uma verdade fundamental confere.
Na verdade, em todos os tempos, em todas as longitudes, cada ser humano tenta percorrer o caminho que escolheu, que procurou, que encontrou, segundo a sua aspiração íntima, e procura torná-lo útil, satisfatório, empolgante.
Os jejuns não são naturais, mas por algum motivo benéfico aparecem nos preceitos das religiões, que não só a mortificação. Há quem os tenha levado a extremos, há quem os remeta a ritual simbólico. Uma vez por mês, almoçar uma maçã a sós consigo e com a Natureza, talvez possa ser a experiência espiritual necessária para reajustar ou mesmo reinicializar o trajeto decidido.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Representação de Buda em estilo Gandara [greco-budista], século II–I a. C., Museu Nacional de Tóquio.


* * *





quarta-feira, 24 de maio de 2017

TROVAS DE EDWEINE LOUREIRO






sábado, 20 de maio de 2017

Pequenos Cuidados


Eu sempre gostei de cortar a unha do Nildinho. A unha do pé, do dedão do pé. 
Só eu cortava a unha dele. 

A gente começou a namorar cedo, eu era de menor, mas ele não me respeitou não. 
Um dia foi logo levantando a minha saia e eu senti uma coisa enorme entrando 
dentro de mim. Eu gostei. Senti uma dorzinha gostosa, e depois daquele dia no 
muro escuro atrás de igreja, fiquei com vontade de Nildinho entrando dentro de mim. 
Não tinha dor mais não, mas tinha um gostoso que ficava cada vez mais gostoso. 

Umas três vezes por semana a gente se encontrava à noite no muro atrás da igreja. 
Até que alguém viu, acho que foi o padre, e contou para meu pai. Ele virou o diabo. 
Disse que dava coça em Nildinho se ele não casasse comigo. 

Nildinho era bom coração, trabalhava no mercado, levando e trazendo caixa. 
Merecia um trabalho melhor, porque era muito inteligente. Nildinho acho que gostava 
de mim. Não precisou levar coça do meu pai e casamos na mesma igreja onde tinha o 
muro da gostosura, como nós mesmos apelidamos o muro. 

Meu pai tinha um dinheirinho guardado e fez festa bonita. Com bandeirinha, bolo, 
pastel, leitoa assada, cerveja e sanfona. E ainda sobrou troco pra gente passar 
dois dias na praia na raiz da serra. Foram os melhores dois dias da minha vida. 
A gente não fazia mais gostosura em pé, escorada no muro, mas tinha uma cama de 
lençol que a gente se deitava e passava o dia todo na saliência. Nem saímos para 
a praia. Aquela coisa gostosa do Nildinho entrava por todos os meus buracos e eu 
me senti a mulher mais feliz do mundo. 

Numa dessas vezes em que a gente virava o corpo em cima do outro, passando a língua 
em tudo quanto é canto, eu notei que a unha do pé do Nildinho estava muito grande. 
Era uma unha meio virada para cima, que me arranhava as canelas que nem cachorro quando 
a gente chega em casa. Eu falei: “Corta essa unha, Nilsinho”.  
Ele disse: “Para de falar e se concentra”. 

Depois que a gostosura foi lá em cima e jogou a gente cansado pro lado, eu voltei 
ao assunto: “Nilsinho, corta essa unha do dedão. ” Ele falou que nem menino sestroso: 
“Não sei cortar unha não, filha. ” Eu falei: “Então eu corto”. 

O homem da pensão me emprestou uma tesourinha e eu cortei unha do Nildinho. 
Ele fechou os olhos e sorriu. Parecia que estava sentindo gostosura. Enquanto eu cortava, 
ele passava a mão no meu cabelo fazendo carinho. 

A gente foi morar num puxadinho na casa do meu pai e da minha mãe. Minhas irmãs menores 
me ajudavam na casa, enquanto Nildinho trabalhava entregando caixa do mercado. De noite, 
com mais precisão, toda noite, Nildinho e eu fazíamos gostosura. Ô homem bom, ô coisa boa. 

Acho que de tanto levantar e levar caixa de coisa da venda ele ficou um mulatão forte e 
cheio de vontade de fazer gostosura. E como sempre, pelo menos uma vez por semana, 
eu cortava a unha do dedão do pé dele. E ele se enroscava quem nem gato, só faltava 
miar de felicidade. 

A vida foi passando e nada foi mudando, até que embarriguei. Veio uma menina linda. 
E não podia ser diferente: filha de tanta gostosura só podia ser linda. Demos o nome de 
Rosynilda. Rosy porque eu era Rosy e Nilda porque ele era Nildo. 

A vida foi melhorando. Nildinho virou balconista e a gente aumentou o puxadinho. 

Até que veio tragédia. Estava muito bom para ser tão bom. Meus pais morreram no 
ônibus que capotou na romaria para Nossa Senhora de Aparecida. Chorei muito. 
Saí carregada do enterro, perguntei a Deus “por que ele tinha feito isso comigo?” 
e perdi um sapato. 

A gente ficou com Rosynilda e minha irmãs para criar.  Foi para mais de mês sem 
gostosura e a unha do pé do Nildinho crescendo. Mas depois do luto, o tempo fez carinho 
na gente. Fomos morar na casa do pai e da mãe, e Nildinho até ganhou aumento de tanto 
que vendia na venda. Ele era inteligente e de boa prosa. Logo depois, diminuindo o trauma, 
a gente voltou para as gostosuras. E veio nosso menino: Nildo Junior. Um fofo e sorridente 
igual ao pai. E de tanto fazer coisa gostosa no meio do resguardo, menos de um ano, pimba: 
Rosynilda 2, que para não ficar igual à irmã, batizamos de Rosynilda Maria, que era o nome 
da minha mãe. Meu falecido pai Geraldo ficou sem neto para receber homenagem porque fiz 
ligadura no Posto de Saúde. 

Eu já estava ficando meio cansada para cuidar de tanta criança, mesmo que minhas irmãs 
já fossem mocinhas. E boas mocinhas. Estudiosas e ainda ajudavam na casa. Nildinho gostava 
delas. A única preocupação que eu tinha era com o muro atrás da igreja. Mesmo sem queixa 
da vida eu não queria que elas conhecessem gostosura antes do tempo. Não é toda mulher que 
tinha a sorte de ter um Nildinho. Tem muito homem safado por aí. Nildinho era bom marido e 
muito carinhoso comigo, principalmente quando eu cortava a unha dele. Ele dizia: 
“Filha, chegou a hora daquele carinho. O dedão tá furando a meia”. Na mesinha de cabeceira, 
eu guardava a tesourinha que o homem da pensão emprestou pra mim e nunca devolvi. 

Já se passaram tantos anos e aquele momento depois da gostosura de sexta feira já tinha 
virado agrado obrigatório. Eu gostava muito de satisfazer o homem que me fazia gostosura 
e ele gostava do jeito que segurava seu dedão e ia plec plec passando a tesourinha com 
muito cuidado. A gente não se falava, mas sentia que um agradecia ao outro por estar junto 
tanto tempo. Ele até fechava os olhos, baixava a cabeça, segurava as mãos. 
Parecia que estava na missa.

Um fim de tarde eu estava no tanque torcendo roupa, quando o ajudante do padre apareceu 
no lusco fusco. Avisou: “Dona Rosy, vai lá no muro da igreja." Não entendi bem, mas alguma 
coisa empurrou minhas canelas pra correr pra lá. Fui descalça, de pano na cabeça. 
Quando fui me aproximando, já estava escuro e minhas pernas bambearam. Parecia assombração 
se mexendo encostada no muro. Fiz o sinal da cruz e mais uma vez uma força do diabo me 
empurrou pra mais perto. Dei um grito. Nildinho estava fazendo gostosura com 
minha irmã mais velha.

Hoje, depois de mais de dois anos, acho que já estou refeita. Ainda me lembro que na hora 
arranquei um pau de cerca para bater nos dois, mas o padre apareceu e disse para eu não 
fazer isso, menina, e que Deus iria castigar os pecadores. Castigou nada. Nildinho falou 
na minha cara que estava apaixonado pela minha irmã e ela confirmou que estava 
apaixonada também. Fiquei estonteada. Só sei que naquela mesma noite os dois 
arrumaram as trouxas e fugiram. 

Nildinho largou a venda, minha irmã largou a escola e as coisas dela lá em casa, 
e ainda me deixaram os dois com uma irmã e três filhos para criar. Sumiram. 
O dono da venda ficou com pena de mim e arrumou de eu ser balconista. Fiquei muito 
magoada e mais uma vez senti que Deus faltou comigo.

Fui levando a vida com dor danada dentro do peito, mas com uma força endiabrada nas 
canelas para fazer coisas e criar minha irmã e meus filhos. Sozinha, nem com Deus eu 
contava mais. As crianças foram crescendo e ajudando na casa. Nunca mais souberam do cunhado, 
da tia, da irmã e do pai. A Comadre Damaris era a única companhia que eu tinha. Dia sim, 
dia não, ia lá em casa para saber seu eu estava precisada de alguma necessidade e eu sempre 
agradecia e dizia que amizade dela era de bom valor. Ela me servia chá que carqueja, quando 
via que eu estava magra e triste além da conta. E repetia: “Já faz tanto tempo, Comadre Rosy. 
Ninguém merece a sua tristeza. ”

Dia desses deixei os filhos em casa e desci a raiz da serra até a praia. Eu não queria ir, 
porque nem queria saber se ainda existia aquela pensão que pela primeira vez eu e Nildinho 
fizemos gostosura deitado, mas a comadre insistiu, disse que mesmo triste eu era jovem, 
e precisava conhecer novos ares e me distrair. Assim que descemos do ônibus, senti aquele cheiro 
de churrasquinho e cerveja derramada na calçada. De longe, ouvi um pagode. 
Damaris me animou: “Vamos, Comadre Rosy, deixa a vida te levar...”

Aí eu fui, né? Fui com meus próprios pés, a Comadre Damaris nem precisou me puxar. 
E fui requebrando, porque de um pagode até que gostava quando era feliz. E quando 
fui chegando na rodinha, vi minha irmã mais velha, já carcomida, bunda grande e aquelas 
bolotinhas na coxa que as pessoas chamam de celilite, requebrando no meio dos homens. 
Que vergonha, tão desfrutável virou a minha irmã. Mas meus olhos foram teimosos. 
De tocaia, parei para ver aquela cena toda com dor no coração. E fui olhando quem estava 
em volta. E sabe quem estava no pandeiro, todo bobo com aquele requebro? Isso mesmo. 
Nildinho. Barrigudo, cara de encachaçado e sem dente na frente. Segurei a mão da Comadre 
Damaris e ela, quando viu a besteira que fez em me levar para praia, perguntou se eu queria 
ir embora. Eu disse: “Não." 

Olhei Nildinho de cima para baixo. Ele não me viu. Mas eu vi. 
Na chinela velha, vi suas unhas. As do dedão estavam enormes e coscorentas. 
Acho que minha irmã não sabe cuidar dele.  







quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus Vulcânica - Poema de Anna Apolinário




Vênus Vulcânica


Estilhaça a tua própria medida
(Hilda Hilst)





medusa enforcada o espelho estilhaçado pelo
eterno retorno de Saturno Atena e Aracne rasgam abismos sanguíneos
em meus abismos afiam demônios meu batom vermelho
batizado com belladonna pulsos seios púbis perfume de endorfinas ofídicas pupilas dilatadas por
metanfetaminas hálito de tequila e haxixe nefelibata, calço os
coturnos de Hilda visto seu casaco rosso e macero cicutas com meu
amante frente ao fantasma
asfixiado de Sylvia Plath



(Poema do livro Zarabatana - Editora Patuá, 2016)






terça-feira, 16 de maio de 2017

Helena

Um segundo olhar. Mais do que isso até. É preciso muitos olhares para saber Helena. Para ultrapassar o exterior desfavorável e ir além dos cabelos lisos abaixo dos ombros, ralos, mal penteados. Além da pele manchada e seca, ferida por espinhas que não deveriam mais estar lá. E dos olhos miúdos, claros, assustados como os de um animal perseguido. E dos ombros abaixados como se sobre eles houvesse carga permanente. 
É preciso furar a casca rude de Helena. Esquecer as distrações que a desmerecem. Distrações que poderiam definir outras mulheres, mas não ela. Helena não é superfície. 
A voz baixa, quase um cochicho, nunca se altera. Mas é bom prestar atenção à sua boca. Pequenos repuxados no canto esquerdo alertam sobre seus humores. Quando surgem, são sinais de que ela vai travar com alguém, em algum lugar, a qualquer momento, uma batalha. Ou já está travando. E Helena não perde batalhas. 
Faz anos que ela traz para mim, aqui no hospital, mulheres que tentam abortar sozinhas ou pelas mãos de fazedores de anjos inexperientes. Mulheres sem recurso, sem apoio, sem saída. Vítimas de um processo doloroso, sangrento, primitivo. E mortal. Traz também meninas engravidadas por pais, tios, irmãos. Estupradas por vários silêncios. Ou seduzidas por meninos tão bobos quanto elas. E me convence a atendê-las sob argumentos que não aceitam réplica. Sem registros médicos ou ocorrências policiais. 
Sim, eu sei. Mas este não é um relato sobre ética, nem sobre leis, nem sobre crenças, nem sobre escolhas. Nem sobre mim. Esta história é sobre Helena.
Helena. De mãos pequenas e grossas. Que acompanha mulheres e meninas. Que abraça cada uma delas no choro de uma maternidade solitária ou nas dores de um aborto. Que as leva embora assim que podem ir. Amparadas. Afastadas dos companheiros bêbados e das mães apocalípticas que discursam sobre pecados e castigos. Até que estejam prontas para recomeçar. A vida ou os erros.
Helena é respeito. É história para se ouvir aos poucos. Boatos, pedaços de conversa, informações reticentes. Que falam da mulher que se levanta de madrugada para limpar bêbado, para acalmar drogado, para encontrar filhos e cachorros fugidos, para apartar briga de casal, para cuidar de idoso sem forças, para dar notícia de morte por acidente, por bala, por faca, por overdose. Que contam da mulher que pede roupas para a caridade sem nunca tirar para si e para a sua própria carestia uma peça que seja. E que faz sapatinhos de crochê para os bebês da miséria, ainda que seu útero seco tenha se recusado a dar cria. 
Helena não é voz de acusação. É mulher de perdões. Mulher para um segundo olhar. Mais do que isso até. 






sexta-feira, 5 de maio de 2017

ensaio para ser só


o peso das horas
o frio que penetra
por baixo da porta
a cara do outono
o vento que arrasta
as folhas e os pontos.. .
o corpo acamado
a cabeça no fundo
de um plano fechado

e o mundo egoísta... girando





terça-feira, 2 de maio de 2017

ORIGAMI


Em qualquer papel que se dobra,
A vida surge em dobro:
Na imagem desdobrada,
Na palavra do avesso.

E em cada avesso do verso,
A nova forma se abre:
Um diamante agarrado
No solitário-papel.

E assim a joia-obra
Em palavras se desdobra,
No estojo de tantas rimas
Onde o poeta as guarda.

É um artesão renitente
O poeta do origami:
A cada nova rasura,
Surge outra dobradura.

Fundem-se, então, os ofícios:
Ourives poeta artesão
Colhendo rascunhos, ranhuras,
Trazendo-os na palma da mão.






segunda-feira, 1 de maio de 2017

quase febre

o dia cansacento tropeça no lusco-fusco. cai afeito ao não-seguir. com ele os templos que se isolam nas mentiras aveludadas. vendo-me ao fatídico. no sentido em que me chicoteio até que alguém impeça a efetividade. o quando num porém. invisto na ida desencasquetado com o retorno. ninguém me procura. é aceitável irradiar um rosto que não permanece? escurece nas retinas. carpe tenebrum. a inspiração que me sustenta na rutilância do despenhadeiro é a vulnerabilidade. aglomerados de embriões umbralinos impedem a minha religação ao santuário do verbo. lá onde a penitência não cessa. zero hora onde a fixação é por diversas vezes. cruz alguma me deifica. onde está o cão para secar minha tóxica irrelevância? deus-me-acuda. apropriam-se de mim as dispensáveis alusões. não mais almejo o paradoxal trono dos que destroem o hábito de ruir. é um filete de gracejo que me restou na intuição. minhas degradadas pupilas retêm um cadavérico dragão acabrunhado. peço colo à ponta da lança. empalo-me no salmo do vale sombrio. um abrigo que me arde na intransponível certeza do exílio. desamparo rogado aos cativos da agressão. não me aceito no ímpeto. patética idolatria. desacato a resiliência que me calcula. os pormenores não constam na minha formulação. inominável polifonia. realoco-me na desconstrução da paisagem. amar é um comovente desleixo.