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sábado, 22 de abril de 2017

A Princesa e O Sapo



Que se diga a verdade, as pernas abaixo não eram de sapo e sim de rã, mas como Wanderléia saberia disso se jamais aventurava-se longe do asfalto, se jamais queria o fora dela ou das unhas com motivos carnavalescos? Ora, era ela mulher de cidade, do aço, e para identificar além do rato ou da barata, quiçá da formiga, reclamava auxílio alheio e incalculável força emocional. Em sua defesa, esclareça-se, a citação ao bicho repetir-se-ia nas mil versões do caso, mesmo quando corrigissem o narrador, mesmo quando o óbvio surgisse e pulasse na ponta da língua. Assim são as histórias, nascidas entre erros e enganos, impossíveis de se contar à perfeição; e, mais, exigem um dissecar inverso e criativo que una e costure os fatos ignorados – seja através da fantasia, seja através de outras espécies de conhecimento.

Inquirida um dia pelo primo, Nésley, se comeria sapos ou rãs, ela negou, ofendida e curiosa de saber se a julgavam esfomeada. Não obstante, aceitou o apelo do Procurador Soares, homem novo com nome de velho, homem por quem ansiava um naco, convidada que foi nos corredores do Ministério Público; era tarde calorosa essa quando o ar-condicionado deixara de funcionar e os servidores passeavam, saltitantes, pelo corredor.

– Por minha conta, cantou ele ao final do convite, e acertaram o encontro para sábado.

Agora jantavam, as pernas de rã abaixo, e Wanderléia contemplava Soares (que cuspia ao falar) e os botões vermelhos de seu terno. Já engolira a primeira delas, e, gostando, espremeu suco de limão na segunda, vendo-o sumir por entre a pele frita e alaranjada. Separou, então, o maior pedaço e o alçou aos lábios; apesar da língua seca, sentiu desmanchar-se a fibra em suco próprio, cremoso. Acima rodava um luxuoso candelabro de velas amarelas, e as mesas aos lados, com rendas finas, espaçavam-se em lonjura adequada para amantes e amores; à frente, uma janela panorâmica exibia o anoitecer e o mais calmo dos lagos. Era a felicidade, assim julgou ela, sabendo faltar somente a crença absoluta, sapológica, na figura de Soares como príncipe definitivo.

Quem sabe se por ocasião da rã, quem sabe se pelo anel de ouro no mindinho dele, recordou Wanderléia quando lhe contaram a fábula do sapo que, beijado, transformara-se em príncipe. Buscando um amor fantástico, mas conveniente aos seus desejos e limitações, e, também, ao modo como narraria o banquete às amigas, decidiu por beijar a perna seguinte antes de comê-la – querendo assim igualar esse momento ao da história.

Agindo, pegou uma e nela roçou os lábios; ao sugá-la, estremeceram copos e talheres ante o barulho da sucção. Wanderléia chupou, e chupou forte, e com os olhos revirados, brancos, sentiu o membro trancar em sua garganta. A seguir, entre terror e alegria, ergueu-se, enquanto da boca originava-se um rugido de músculos violentados. Soares, célere e prestativo, socorreu-a, e abraçando-a por trás executou a Manobra de Heimlich, ou a esperança do engasgado: pressionou e soltou as costelas, mas logo sentiu-a desfalecer, morrer para sempre e para depois.


Lá fora, no lago, eram mil os coaxares.

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Erik K. Weber
Gaúcho.






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