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quinta-feira, 16 de março de 2017

Novena

Sessenta anos. Feitos hoje, às 4h20 da madrugada, como mostra a certidão guardada na primeira gaveta da cômoda junto com outros documentos, dentro de uma caixa de madeira. Seis dezenas de anos lindos, cheios de amor, felicidade, aventuras, filhos, viagens, realizações. É esse o discurso que lhe cabe repetir mais à noite, na festa que o marido preparou para ela. De improviso, é o que todos pensarão. Só ela sabe o tempo que gastou imaginando cenas que nunca viveu. A cada linha do roteiro, o rosto do marido violento vindo à mente. E ela levando de 10 a 20 minutos para expulsá-lo da cabeça, para expulsar o medo que a paralisa. Descobrindo que só pensando em outra história conseguirá desenvolver um script aceitável. Nada de noites acordadas esperando pelo homem que chegava cheirando à bebida e ao perfume de outras. Nada de reclamar, implorar, chorar, exigir explicações que não viriam. Nem de se lembrar de tapas, socos, pontapés, e do ódio que tomava conta daquele homem que deveria ser o seu companheiro.
Decidiu que em seu roteiro daria à luz dois filhos que a amariam muito. Não mais os que tinha gerado e que sempre davam razão ao pai violento; que se deixavam comprar por carros, viagens, dinheiro fácil; que a chamavam de exagerada, dramática, ciumenta, paranoica. E que a acusavam de se fazer de vítima para infernizar a vida do pai deles. Não mais as crianças que ela havia amado tanto e que agora, constantemente, lhe diziam que ela devia calar a boca, sumir, morrer. Que ela era chata, irritante, velha, gorda, malvestida, burra, inútil. Esses, não. Esses não poderiam estar no texto perfeito, harmonioso de logo mais à noite. Os filhos do seu texto seriam criaturas educadas, reconhecidas pelo esforço que ela fizera durante anos para apanhar sem gemer, sem revidar, sem denunciar o monstro que a desqualificava e debochava dela todos os dias. Anos em que vira nos olhos das empregadas e dos amigos mais próximos uma piedade que depois se transformou em raiva e, por fim, em desprezo. Não larga o marido porque não quer. Não denuncia o marido porque não quer. Gosta de apanhar, só pode. E ela sem saber como mostrar que não tinha forças para ir embora. Sem saber como contar que ninguém a desprezava mais do que ela mesma. Afundando em meio ao pânico das ameaças constantes. Se me abandonar eu te mato. Se me expuser para os meus filhos e meus amigos eu te acho no inferno e te arrebento todinha de porrada. Somente depois de muitos anos é que perdeu o medo dele. Passou a ter medo da vida. Do diploma que fazia falta. Das línguas que não falava. Dos amigos que não tinha, porque as pessoas que a cercavam não a respeitavam. Como ela não se respeitava. 
Sem ter para onde ir e não podendo contar consigo mesma nem com ninguém, apegou-se às rezas. A princípio, ave-marias e pai-nossos isolados. As primeiras, recitadas atropeladamente enquanto o marido avançava sobre ela. Como se o rogai por nós, pecadores, pudesse impedir o braço dele de mais uma violência. Os pai-nossos, reservados para a hora dos socos. Livrai-nos do mal, livrai-nos do mal, livrai-nos do mal... E o mal cessava. Cessava depois que ela estava toda roxa e arrebentada, corpo e alma. Aquela alma que se apegou, em seguida, à reza de terços inteiros sem, no entanto, parar de apanhar.
Os anos trouxeram algum alívio. Ela foi se cansando de cobrar, de implorar, de chorar. Ele foi se esquecendo de bater tão forte. Foi deixando de exigir que ela estivesse sempre por perto para servi-lo. Mandou-a para outro quarto, mal falava com ela, obrigava-a a fazer as compras de casa no cartão de crédito, pela internet, não lhe dava
dinheiro para nada de pessoal. Quando ela precisava repor calcinhas e sutiãs, ele, primeiro, negava. Então, repetia-se uma cena. Ela revidava, dizendo que mostraria os hematomas aos amigos e aos sócios dele. Nesses dias, rezava três terços logo cedo,  para aguardar a surra que levaria à noite, assim que ele voltasse do trabalho. Mas funcionava. Depois das porradas, ele punha sobre a cômoda um dinheiro para a lingerie. 
Sessenta anos. Há trinta e cinco ela se deixou para trás. Aprendeu a não sorrir, a viver sobressaltada, a dormir preocupada com ameaças. E a se transportar para dentro das novelas para sentir felicidade com as histórias dos personagens. Começou a escrever roteiros mentais e a criar histórias que a reconfortavam mais que ave-marias e pai-nossos penitentes.
Hoje, encerrou a primeira novena que rezou na vida. Hoje que ela faz sessenta anos. E que haverá uma festa. A festa em que ela pedirá a palavra e contará aos amigos como sobreviveu aos anos que levou apanhando, chorando e se escondendo de vergonha. Em que vai acusá-los de só pensar nela como uma fraca idiota. Em que vai perguntar a todos eles por que viraram as costas para ela sem tentar entender os seus motivos. E por que fingiram não saber de nada. A festa na qual ela dirá aos filhos que os renega por eles nunca terem tentado amá-la ou compreendê-la. Aos pais idosos, que não  os perdoa por eles viverem repetindo “o que Deus uniu o homem não separe”.   À mulher do porteiro, em pensamento, o quanto lhe agradece pela novena de Santa Rita dos Impossíveis que recebeu faz poucos dias.
Constrangidos, os convidados irão embora, a despeito dos pedidos de desculpas do marido e dos filhos. Zangados, os pais dela também irão embora, mas não sem antes repreendê-la por ser ingrata e leviana. Furiosos, os filhos, igualmente, irão embora, depois de humilhá-la com meia dúzias de frases que ela conhece de cor, e de lhe dizer, aos gritos, que nunca mais falarão com ela. 
Restarão na sala o marido e ela. Eles se olharão. E ele subirá as escadas com ódio, para esperá-la no quarto. Antes de subir atrás dele, enquanto ainda estiver protegida pelos cochichos assustados das empregadas na cozinha, ela se permitirá uma dose sem gelo do melhor uísque que ele guarda apenas para si mesmo. E falará com alguém ao telefone, por três ou quatro minutos. Chorando muito. Entrecortadamente.
Quando chegar ao quarto, vai apanhar mais uma vez. Muito. Porque ela precisa apanhar. E ficar roxa, e ficar mal. Por isso vai provocá-lo, despejando sobre ele trinta e cinco anos de falas abortadas. E ele continuará batendo, até que ela decida que já foi o bastante. Então, ele sentirá no peito a lâmina afiada da faca de carne. Que ela vai enterrar e desenterrar e enterrar outra vez, e mais outra, e mais outra, e mais fundo. Com a força de uma fúria que tem trinta e cinco anos. Gritando como se fosse ela a morrer. 
Quando a polícia chegar, a polícia para a qual ela ligou chorando antes de subir para o quarto, a polícia para a qual ela pediu ajuda contra o marido que ameaça matá-la a pancadas, ela não vai reagir. Nem quando tirarem a faca de sua mão, nem quando a conduzirem para fazer o exame de corpo de delito, nem quando o seu advogado alegar legítima defesa e afirmar com convicção que, depois de apanhar durante tantos anos, sua cliente matou em privação de sentidos. Tudo agravado pelo aniversário. Porque as datas sempre detonam os gatilhos psicológicos. 
Sessenta anos. Trinta e cinco em negação. E, finalmente, uma novena poderosa.

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


4 comentários:

porra!!! realidade fodida! e que me perdoe a linguagem, mas brutalidade deixa-me neste estado, cara amiga Cinthia.

Obrigada, amiga! Realidade de tantas, não?

Sem palavras... Falar o quê? Texto monumental, Cinthia. Parabéns!

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